quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Corpo histórico

Por ora, sobrevive.
Inteligência precisa de corpo.
Não querem o teu.
Mantém-no.
Esgueira-te,
foge dos que
ostentam cruz,
dos que não
sabem palavra,
dos que dizem
ser inspirados
pela palavra.
Guarda teu corpo.
Tua inteligência
vai driblar o urro
das bestas.
Age com discrição,
planta em silêncio.
Cuida de teu corpo;
ele é história sendo feita. 

Ainda sobre o Rogério Águas

Ir a um show do Roger Waters e esperar que ele não critique o neofascismo é o mesmo que ir a um show do Slipknot e esperar que cantem canções de ninar. Parte dos “fãs” do Pink Floyd provaram que só sabem o basiquinho sobre a banda.

Ainda na primeira metade da década de 70, quando meu pai colocava os discos do Pink Floyd para tocar aqui em casa, não tínhamos entendimento das letras; nem eu nem meu pai sabíamos inglês. Se, por um lado, pode-se argumentar que a letra não seja a coisa mais importante numa canção, por outro, a letra pode conter uma visão de mundo, uma mensagem política, humanitária.

Na minha infância, Patos de Minas era uma cidade menor ainda do que é. O acesso à informação era restrito. Minha família não conhecia nenhum gringo que pudesse esclarecer para mim ou para meu pai o significado das letras, o sentido da obra do Pink Floyd, a ideologia, as críticas politizadas. Só mais tarde, quando adolescente, é que comecei a ter uma visão mais ampla do que era a banda.

Hoje em dia não há pretexto para não se conhecer do modo apropriado o trabalho de um artista. “Fãs” que se irritaram com o Roger Waters por causa do show ontem em São Paulo provaram que nunca se deram nem o trabalho de irem ao Google para conferir algumas traduções de algumas pérolas da banda.

Eu não iria hoje, por exemplo, nem a um show do Ultraje a Rigor nem a um do Lobão, a despeito de considerar o Roger Moreira e o Lobão talentosos artistas. De quebra, gosto demais do modo como o Lobão canta. Só que ir a um show deles hoje é escutar o tipo de discurso que o Roger Waters criticou ontem em São Paulo.

Quem está criticando o ex-integrante do Pink Floyd prova que não entendeu a proposta da banda, por mais que se declarasse fã. São como pessoas que leram literatura mas encararam o texto como mero trabalho intelectual, sem entender que a literatura sou eu, é você, é seu vizinho, somos nós. O trabalho do Pink Floyd é mais do que som ambiente para viagens psicodélicas. Só ontem alguns brasileiros se deram conta disso. Eles ouviam Pink Floyd, mas nunca haviam escutado. 

Roger Waters critica neofascismo em show de São Paulo

Roger Waters, no show que está realizando agora em São Paulo, criticou o neofascismo em ascensão, ao mesmo tempo conclamando para que mantenhamos resistência contra essa onda. Dentre os lugares mencionados pelo cantor e compositor inglês, ex-integrante do Pink Floyd, estão EUA, Hungria, France, Áustria, Reino Unido, Rússia e Brasil.

Esse engajamento, vindo de Waters, não surpreende, pois quem acompanha a trajetória do Pink Floyd sabe que o cantor sempre se envolveu com política, seja como cidadão, seja como artista. É, por exemplo, crítico mordaz de Israel quanto à política do país em relação à Palestina; com frequência, os horrores da guerra são temáticas em canções do Pink Floyd.

É um alento um cara como ele se posicionar contra aqueles que querem coibir liberdades e banir direitos. Cresci ouvindo a banda, lembro-me de pedir a meu pai que colocasse num velho toca-discos o clássico The Dark Side of the Moon, que ainda escuto com frequência. No álbum The Wall, há o verso “don’t tell me there's no hope at all”. Assim seja. 

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Biologia e psicanálise

Há espécies 
que giram 
em torno 
do próprio rabo.

Há espécies 
que querem 
policiar o alheio. 

Francisco, o papa

Editorial escrito por Silvio Caccia Bava e publicado na edição deste setembro no Le Monde Diplomatique Brasil tem estes dados: 49% dos que têm mais de 25 anos ainda não completaram o ciclo do Ensino Fundamental (IBGE); 95 milhões de brasileiros têm renda de até R$ 14,00 por dia (46%), e 41 milhões, renda entre R$ 14,00 e R$ 21,00 por dia (20%). O argumento de Bava é que num cenário como o brasileiro, é preciso ser simples para se falar a linguagem do eleitorado.

Essa simplicidade é uma arte, pois ela não é sinônimo de simploriedade. Ser simplório é fácil; ser simples é difícil. No mundo de hoje, penso que dois líderes têm o dom da simplicidade: o Mujica, que foi presidente do Uruguai, e o papa Francisco, embora o pontífice argentino tenha de lidar com esta mancha asquerosa da igreja católica, que são os casos de pedofilia ao redor do mundo. Fiéis e parte do clero cobram dele mais energia ao punir religiosos pedófilos.

Um espírito aberto há de considerar alentador acompanhar as declarações do papa, que já enfrenta oposição na ala mais conservadora da igreja. Sem medo de dizer o óbvio, valendo-se de uma linguagem acessível, Francisco, para as multidões, entrega uma mensagem comprometida com a fé dos católicos e com a atualidade. Ontem, no Twitter, ele publicou: “Rezemos para que no mundo prevaleçam os programas de desenvolvimento e não aqueles para os armamentos”. Simples, de fácil compreensão, mas não simplório. 

De novo, contra a burocracia

O Brasil tem provas retumbantes de que a burocracia não funciona. Durante a ditadura militar, criaram o ministério da desburocratização. Claro que a ideia, uma contradição em si, não deu certo. A burocracia escolhe suas vítimas: o alto escalão não precisa bater continência para ela, que atravanca somente a vida de nós, habitantes do baixo escalão. A burocracia engessa quem deveria estar livre e libera quem deveria estar na teia dela.

O fetiche por excesso de papéis ou de documentos eletrônicos nada resolve. Se burocracia coibisse corrupção, o Brasil não a teria; se burocracia indicasse brilhantismo intelectual, seríamos uma nação de gênios; se burocracia assegurasse transparência, não haveria tanta coisa nublada; se burocracia implicasse produtividade, não haveria tanta coisa parada. A burocracia é a arte de tomar tempo e de nada resolver de modo inútil. Ela tira a possibilidade do ócio ou da criação, do descanso ou do trabalho útil.

Estéril, a burocracia é aquilo que quer tirar de nós o espírito criador que podemos ter. A burocracia não tem graça, não tem humor. Caso se arvore a ter, terá de ser em três vias, assinadas datadas e carimbadas, as quais ninguém lê e que serão deixadas num calabouço imbecil. A burocracia quer pompa e ares de correção onde só há perda de tempo, burrice e crueldade. 

O Começo do Sonho

Há alguns dias, assisti ao documentário O Fim do Sonho Americano, que tem uma série de declarações de Noam Chomsky. Conhecido no meio acadêmico como linguista, Chomsky tem outra faceta, que é a de se envolver com questões políticas.

Chomsky inicia o documentário alegando que a desigualdade vem da extrema riqueza nas mãos de alguns. Ainda de acordo com ele, boa parte do tão propalado sonho americano consistia na mobilidade de classe, o que, segundo ele, não é mais como já foi. A seguir, ele passa a falar dos pilares da democracia, para, então, discorrer sobre o círculo vicioso em que o poder gera riqueza e a riqueza gera poder.

Nesse momento, o intelectual faz menção a Adam Smith e seu famoso A riqueza das nações. No livro, Smith menciona os chamados “mestres da humanidade”, cujo lema é simples: “Tudo para nós, e nada para as outras pessoas”. Debruçando-se sobre as consequências desse “mantra”, Chomsky elenca dez princípios que os “mestres da humanidade” adotam para conseguir o que almejam. São estes, os princípios:

1) reduzir a democracia;
2) moldar a ideologia (coibir a rebeldia);
3) redesenhar a economia (aumentar o poder de instituições financeiras — bancos, seguradoras...);
4) deslocar o fardo (diminuir os impostos dos muitos ricos e aumentar os dos pobres);
5) atacar a solidariedade (ela é perigosa porque, segundo “os mestres da sociedade”, “nada para os outros”);
6) controlar os reguladores: o mundo dos negócios controlando a legislação;
7) controlar as eleições (empresas financiando campanhas);
8 - manter a ralé na linha (coibir organizações trabalhistas, sindicatos);
9) consentimento de produção (controlar crenças e atitudes, fabricando consumidores, compelindo-os a coisas fúteis);
10) marginalizar a população: como ela, a população, não tem força política, ela passa, por isso mesmo, a odiar instituições; outro ponto é corroer as relações sociais, de modo que grupos passem a brigar entre si.

Embora lide com a realidade dos Estados Unidos, é impossível não constatar o quanto os dez princípios dos “mestres da humanidade” estão presentes mundo afora e, de modo bem intenso, no Brasil atual. O Fim do Sonho Americano é didático, de linguagem acessível. Uma contribuição formidável dos realizadores a quem busca saber o que algumas pessoas não querem que saibamos. Sonha melhor quem procura se inteirar da realidade. 

Otimismo histórico

Há dias li texto de Norman Eisen publicado no jornal The New York Times. Diplomata judeu, ele conta sobre ocorrido quando foi designado como embaixador em Praga, em 2011: na casa em que ele moraria, havia diversas suásticas escondidas, desenhadas pela casa; uma delas, sob a superfície de uma mesa antiga. Lembranças da ocupação nazista que haviam ficado pelo lugar. Diante das suásticas, Eisen diz ter sentido não horror, mas triunfo.

A partir desse fato, ele reflete sobre a administração de Trump, criticando-a, não se esquecendo de fazer menção, também em tom de crítica, às situações na Hungria, Turquia, Itália, Áustria e em outros lugares. A conclusão de Eisen é otimista: para ele, a democracia prevalece, ainda que ameaçada; segundo ele, a história mostra tanto as ameaças que a democracia já sofreu quanto as vitórias que ela por fim conseguiria.

O pensamento de Eisen é o de que o estudo da história nos leva ao otimismo, não ao pessimismo. Para ele, a democracia já enfrentou ataques piores do que os de hoje. A fim de corroborar sua tese, volta a fato pessoal, dizendo que a mãe dele, judia, havia sido enviada a Auschwitz, tendo sobrevivido e se mudado para os EUA. Sessenta anos depois de Auschwitz, estava Eisen acendendo velas para o sabá à mesa que tem a suástica. 

Perfil

Já deverias saber que
o uniforme não faz o homem.
Não és o gênio que supões,
não és o amante desejado
nem o que imaginas ser.
Não sabes tu que teu berro
é para esconder o menino,
não confessas nem para ti
que tua agressão é fragilidade,
que teu espelho é teu abismo.
Ignoras que, em teus recônditos,
tua (in)continência e tua macheza 
imploram por sádico senhor. 

Inteligência e gentileza, burrice e truculência

Há um texto do Borges em que ele elogia o pai dele, dizendo que ele, o pai, era inteligente; logo, segundo o Borges, gentil. A gentileza sozinha não define o que seja ser inteligente, mas a tendência de haver inteligência naquele que tem gentileza é grande.

Pode haver gentileza em casa. Ou em livro. Ou no outro. Ou numa canção... Mas é preciso alguma inteligência. Que pode ser refinada em casa. Ou em livro. Ou no outro. Ou numa canção... Contudo, a burrice não sabe ser gentil.

A truculência sozinha não define o que seja ser imbecil, mas a tendência de haver imbecilidade naquele que tem truculência é grande. Inútil cogitar que um imbecil analise suas palavras, seus atos. Há coisas que só a pessoa pode fazer por si. Buscar a gentileza é uma delas. 

Apontamento 380

Existe um imperdoável defeito na morte: não há livros. 

Faroeste

Circularam nas redes sociais vídeos e fotos de eleitores portando armas na cabine de votação. O padrão é o mesmo: com as pontas dos canos das armas, apertam as duas teclas do candidato que escolheram e confirmam o voto. Filmar ou fotografar urna eletrônica no momento em que há votação é crime eleitoral. Ainda que as armas exibidas nos vídeos não sejam de verdade, o crime já está configurado. Mas, é claro, quem leva arma para uma cabine de votação encara a teia sob a ótica da aranha. 

Nossa natureza

Está no site da CNN matéria sobre as mudanças climáticas pelas quais a Terra tem passado. Os cientistas são taxativos: temos doze anos para impedirmos o aumento da temperatura no planeta. Se esse aumento, em 2030, atingir um grau e meio Celsius em relação à temperatura dos níveis pré-industriais, haverá risco ainda maior de secas extremas, incêndios florestais, enchentes e falta de alimento para centenas de milhões de pessoas.

Sabemos que quase nada será feito para se evitar essas tragédias. Na esfera individual, um aqui ou outro ali fazem algo. O problema é que, tristemente, essas iniciativas individuais não inexpressivas diante da atuação dos poderosos (o que não quer dizer que tais iniciativas devam ser abandonadas). Só para ficar num exemplo do quanto o indivíduo é menor diante do todo: o desprezível Trump retirou os EUA do Acordo Climático de Paris, assinado em 2015.

No fim de semana, assisti a um documentário que deveria servir de contraponto a quem defende capitalismo a qualquer preço. Não se trata aqui de propor um sistema econômico alternativo, mas o que importa aqui é algo simples: empatia. Isso soa ingênuo, de tão simples que é. Todavia, houvesse real empatia ou real preocupação com o outro, a realidade mostrada no documentário, que se chama The True Cost, disponível na Netflix, não seria tão impiedosa.

O documentário é sobre o universo da moda. Calma: não é sobre aqueles desfiles de futilidade que exibem para nós quando o assunto é esse. The True Cost mostra a crueldade que as grandes marcas impõem sobre países como Índia e Bangladesh, territórios onde são feitas boa parte das roupas chiques consumidas mundo afora. Dirigido e roteirizado por Andrew Morgan, The True Cost é mais uma prova da desumanidade que há quando o capitalismo sem a menor preocupação com o outro é praticado. É graças à miséria de trabalhadores do mundo têxtil na Índia ou em Bangladesh que as grandes empresas de moda têm lucros exorbitantes.

Segundo a produção, a indústria da moda já é a segunda que mais polui o planeta (a que mais polui é a petrolífera). Matérias como a da CNN ou documentários como The True Cost deveriam ser o bastante para que revíssemos nosso comportamento. Isso até pode ocorrer num indivíduo ou noutro, mas as grandes corporações continuarão lucrando às custas da tragédia alheia, a maioria de nós vai continuar sem se preocupar com isso, pagando caro por coisas inúteis. Vai chegar o dia em que as manifestações da natureza serão trágicas para todos, e ela não faz distinção entre pobres e ricos. 

Os bons costumes

Para muitos, eleições são pretexto para se fundar uma teocracia, que no fundo corrobora o machismo e camufla preconceitos, valendo-se de leis escritas há dois mil anos e, mesmo assim, cumprindo somente aquelas que interessam aos teocratas, que desprezam o princípio básico de que, em tese, o Estado é laico — ou deveria ser. O que há é uma teocracia que camufla desejo de assepsia e de embranquecimento do país; ou seja: racismo. Uma teocracia que alega patriotismo sem entender que um patriotismo genuíno abarca o outro, o diferente, o “outsider”, o estrangeiro. Gostar mesmo de um país é gostar da diversidade que ele tem e entender que nem todo mundo está interessado em bater continência, em ir a um templo ou a uma igreja, em vestir camisa da CBF ou em constituir família. Não há o menor problema em não querer essas coisas, bem como não há o menor problema em querê-las, desde que os que as querem deixem aqueles com diferentes anseios tomarem os rumos que desejarem.

Exibir bandeira do Brasil em casa ou no carro é fácil; defender a ditadura é fácil; apostar num salvador é fácil. O que não é fácil é estudar, é conhecer a história. Não é fácil, mas é um caminho civilizado. Levar arma para a cabine de votação é fácil, tentar entender o contexto que gera a violência é difícil. É mais confortável eleger um único culpado e arvorar-se como representante do bem, da moral, da lei ou de Deus, empunhando uma arma, uma Bíblia ou um preconceito. Um patriotismo que quer calar a pluralidade de vozes em nome de uma narrativa que se diz ou religiosa ou guardiã dos bons costumes não passa de ignorância, de desinformação e de preconceito travestidos de boas intenções. O verdadeiro patriotismo é solidário para com os concidadãos e não quer impor sua teocracia nem seu modo de vida, por entender o simples direito do outro de poder escolher outros caminhos.

Um patriotismo que defende coerções, torturas, linchamentos e assassinatos está mais preocupado em dizimar do que em buscar a raiz do problema. Um patriotismo que defende um messias é ingênuo. Quem se diz patriota repetindo coisas como “a corrupção vai acabar no ano que vem, teremos segurança pública com a população armada, os bandidos vão pra cadeia, a família será preservada” está repetindo perigosos chavões que estão longe de serem soluções para problemas reais. Um país complexo como o Brasil não tem soluções fáceis. Um patriotismo que apresente soluções fáceis, arbitrárias, rápidas e ditatoriais é coisa de quem não conhece o próprio território que habita, ou seja, não é coisa de patriota.

Quem alega que tudo é em nome dos bons costumes, da moral e da ausência de corrupção ou mente ou é desinformado. Ditaduras não impedem corrupção. A própria ditadura que tivemos é a prova disso, embora muitos prefiram acreditar que não houve corrupção no período. Querer que o outro tenha o credo que você tem, pensar que a disciplina só existe quando há farda ou cerceamento da liberdade, acreditar em solução veloz para problemas difíceis e acreditar em bastiões de honestidade não é ser patriota: é ser pueril. Ou interesseiro. Não faz sentido declarar-se patriota mas querer um país somente para si e para seus pares. Patriotismo que quer intimidar pela força e pela bala não é patriotismo, mas adunamento com repressão e com preconceitos. 

sábado, 29 de setembro de 2018

Contra Bolsonaro

Hoje pela manhã, aqui em Patos de Minas, ocorreu manifestação contra Bolsonaro.

































sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Haicai 73

Ah, fala mais, Mourão.
Não escutes o que dizem;
abre teu aflito coração. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Chamas e mesóclises

“Até que enfim temos um presidente que sabe falar, que sabe português”, disseram alguns pró-golpistas logo após Temer ter solapado a presidência. Pois aquele cujo português foi elogiado cortou e congelou gastos na... educação. Há vários modos de queimar um país. Nem todos são por intermédio de chamas. 

A fogueira

Queimem os museus!
Queimem Luzia!
Queimem as universidades públicas!
Queimem os institutos federais!
Queimem os hospitais públicos!
Queimem os gays!
Queimem a Petrobrás!
Queimem os Correios!
Queimem as cartas!
Queimem os bandidos!
Queimem as mulheres!
Queimem os livros!
Queimem os velhos!
Queimem o Cerrado! o Pantanal! a Amazônia!

Rápido!: 
queimem o nordeste,
a Rocinha, 
os doentes,
os falidos,
as Marias, 
os Josés, 
os comunistas,
os professores,
os amantes,
os cubanos,
os que andam de bicicleta,
os deficientes,
os feios,
os índios,
Lula,
os que visitam Lula,
os que votam em Lula, 
os que não votam em Bolsonaro,
os que não têm armas,
as putas,
os ateus,
os desdentados,
os gentis,
os sem-terra,
os loucos!

Vamos salvar o Brasil!
Queimem os rios agora!
Só assim essa gente vai arder,
sem ninguém para jogar água na fogueira! 

Uma curiosidade

Frases de Bolsonaro:

• “Espero que saia; infartada, com câncer, de qualquer jeito” (referindo-se a Dilma). 
• “O erro da ditadura foi torturar e não matar”. 
• “Eu sou favorável à tortura”.
• “Eu acho que essa polícia militar do Brasil tinha que matar é mais”. 
• “Vamos fuzilar a petralhada”.
• “Ustra é um herói”.
• “Através do voto você não vai mudar nada nesse país. Só vai mudar no dia em que partimos para uma guerra civil”.
• “Eu sonego tudo o que for possível”.
• “Só não te estupro porque você não merece”.

O que Bolsonaro teria dito tivesse não ele (mas outro presidenciável) passado pelo que passou ontem em Juiz de Fora? 

Apontamento 379

Sem leitura, somos a versão mais feia de nós mesmos. 

“Todo Dia a mesma Noite”

O jornalismo brasileiro não se dedica a matérias de fôlego, alimentando-se da preguiça mental de parte dos leitores, ao mesmo tempo em que fomenta essa mesma preguiça. Uma das exceções é a revista Piauí, que ainda realiza matérias densas, escritas com capricho.

Outra louvável exceção no jornalismo do país é a Daniela Arbex, autora de Holocausto Brasileiro e de Cova 312. A jornalista lançou neste 2018 Todo Dia a mesma Noite: a História não Contada da Boate Kiss.

Na noite de vinte e sete de janeiro de 2013, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, a Kiss pegou fogo. Duzentas e quarenta e duas pessoas morreram. Ao esmiuçar a tragédia, Daniela Arbex mistura inteligência, objetividade e afeto num texto que, a despeito da abordagem jornalística, que ela não abandona, emociona não pela desgraça do ocorrido, conhecida de todos, mas por a jornalista evidenciar o aspecto humano e individual de alguns dos personagens que perderam entes no dia do incêndio.

Esse debruçamento sobre o indivíduo já havia sido feito no brilhante Holocausto Brasileiro, em que a jornalista conta a história de famoso manicômio em Barbacena/MG, que por décadas do século XX foi uma usina que fazia adoecer e matava pessoas, com a anuência de políticos e de parte de uma ignorante sociedade. A mesma ignorância e a mesma desumanidade estão presentes em Todo Dia a mesma Noite. Ao se aproximar de sobreviventes ou ao abordar familiares destroçados pelas perdas de familiares na boate, Daniela Arbex revela o descaso e o oportunismo de políticos ou o radicalismo tosco e a falta de compaixão de quem se diz religioso, ao mesmo tempo em que, ao se voltar para os que perderam filhos no incêndio, a jornalista exibe as minúcias do que é ser gente.

O olhar cuidadoso, terno e jornalístico que Arbex tem ao contar a história acaba fazendo com que ela roce a literatura, o que só torna o livro mais grandioso ainda. Marcelo Canellas, autor do prefácio, foi muito feliz ao escrever que Todo Dia a mesma Noite é um “inventário de saudades”. A poética expressão de Canellas dá o tom do livro, que, a despeito de lidar com perdas e com sofrimento, em momento algum resvala na pieguice.

Os objetos que temos são parte de nossa história. Assim, um batom, um par de sapatos, um vestido ou um telefone podem assumir uma dimensão tocante quando os associamos a uma pessoa. Enquanto as dezenas de corpos eram retirados da boate, num dos celulares, ao lado da palavra “mãe”, havia cento e trinta e quatro chamadas não atendidas.

Ao se aproximar dos que foram diretamente afetados pelo incêndio, incluindo familiares, sobreviventes e profissionais que lidaram com o acontecimento, Daniela Arbex emociona; além do mais, o livro acaba sendo alerta quanto ao que pode ocorrer quando há descaso e protelação. Todo Dia a mesma Noite é um documento, uma obra-prima do jornalismo, um sopro de literatura e um testemunho de humanidade. 

Todas as pessoas

A leitura é o começo.
O princípio é o verbo.
Que foi conjugado.
Sou conjugação.
És.
Conjuguemos. 

Uma ponte entre o interior do Brasil e o interior da Escócia


Há tempos, venho fotografando a ponte sobre o Rio Paranaíba, aqui em Patos de Minas. Recentemente, desde que passei a fotografar com um drone, voltei a fotografar a construção, que acho muito bonita.

Há alguns dias, assisti ao filme Calibre, em cartaz na Netflix. Logo no começo da produção, dois amigos estão no interior da Escócia, num carro, dirigindo-se a um local onde iriam caçar. Numa tomada aberta, uma ponte aparece. Ela é muito parecida com a ponte do Paranaíba.

Não sei com exatidão onde fica a ponte lá na Escócia. Nesta postagem, a primeira imagem é uma foto que tirei da tela da televisão enquanto eu assistia ao filme; a segunda é uma foto que tirei da ponte aqui em Patos de Minas. 

Cabelo

Assisti ao filme Hair (1979) quando eu tinha oito ou nove anos. Não entendi o enredo, não entendi a proposta, não entendi o contexto, não entendi a linguagem, não entendi nada. Depois, no fim da adolescência, fui trabalhar em rádio; a emissora tinha o álbum (salvo engano, LP duplo) com a trilha sonora do filme. Com frequência, eu executava “Aquarius”, cantada pela Melba Moore. Quando eu levava ao ar a canção, eu prometia a mim mesmo que assistiria novamente a Hair. Há pouco, quase quarenta anos depois do lançamento do filme, conferi novamente o musical. Que filmão! O diretor é Milos Forman; o roteiro ficou por conta de Gerome Ragni, James Rado e Michael Weller.

Toda obra de arte é fruto do período em que foi produzida. Hair, além de ser consequência do espírito de fim da década de 70, teve a intenção de levar às telas um retrato do que era esse mesmo período. Focando na crítica contra a guerra que os EUA deflagraram no Vietnã, Hair tem a intenção de se voltar para a mesma época que o produziu, desnudando-a. Conseguiu.

A cultura rebelde do período está no filme. Jovens se voltando contra a insana guerra no Vietnã se veem obrigados a embarcar para o conflito, de onde nem sabem se voltarão vivos. Foi natural que o cinema dos EUA voltasse suas lentes para o evento. Nessa visita, muita bobagem foi feita, mas Hair faz parte das obras-primas que abordaram o que ocorreu no Vietnã.

Numa época como a de agora, em que a caretice dá berros e se excita com o uso de cassetetes, Hair prova que envelheceu bem, mostrando-se necessário quando de seu lançamento e na atualidade. O libelo pacifista, com sua ode ao corpo, à música e à juventude, é um manifesto libertário conclamando ao amor. É tudo a que, por exemplo, um defensor de torturadores não quer assistir. 

A negação da história

Um intelectual pode saber mais sobre determinado aspecto de um país do que um cidadão desse mesmo país, não importa qual ele seja. Assim, um italiano pode saber mais sobre Shakespeare do que um inglês, um austríaco pode saber mais sobre Machado de Assis do que um brasileiro.

Todavia, espera-se que a embaixada de determinado país saiba algo do território que representa. Mesmo assim, quando a embaixada da Alemanha no Brasil postou vídeo sobre o nazismo, os comentários de alguns brasileiros foram sintoma do que parte da população se tornou: um grupo que não se informa e que, em consequência, nega qualquer ciência ou qualquer evidência.

Houve brasileiros que, no perfil do Facebook da embaixada alemã, disseram que o holocausto... não existiu. Comentários desse naipe revelam a cegueira que a falta de conhecimento pode causar. O correspondente, fosse na física, seria dizer que a Terra não é redonda, o que muitos dizem, não só no Brasil. O problema é que a ignorância é raivosa; a mordida dela pode matar.

Casos como esse revelam um dos problemas do excesso de ignorância: ele atravanca o desenvolvimento por se agarrar a noções primárias, pueris. Uma coisa é uma criança de cinco anos se surpreender ao saber que o planeta que habita é redondo; outra é um adulto esbravejar e brigar por causa disso.

A ignorância torna-se inimiga da história, do óbvio, do outro. A ignorância é confortável, fugir dela dá trabalho. Ela não atrapalha somente os que a escolhem. A falta de sutileza quer que o Sol gire em torno da Terra ou que a história seja apagada e reescrita em caixa alta, com grunhidos, muitas onomatopeias e uma profusão de xingamentos, preconceitos e pontos de exclamação. 

De volta

Quando a seca vai embora,
o cerrado não renasce: 
não morreu.
No tempo das águas,
ele sai de casa. 

Sob o signo da inteligência

O essencial W. H. Auden, numa de suas tiradas, escreveu num de seus ensaios que “algumas pessoas são inteligentes demais para se tornarem escritores”. Quando leio ou releio Wisława Szymborska (1923-2012), expressões como “que inteligência espantosa” sempre me ocorrem. A impressão que ela me passa é a de que tem uma inteligência inesgotável, por mais generalizado ou impreciso que algo assim possa soar.

Com a tradução de Regina Przybycien, a piauí deste setembro publicou alguns breves textos da autora polonesa. São eles respostas dadas por Szymborska a leitores que queriam seus textos publicados numa revista para a qual a escritora trabalhava. As respostas de Szymborska revelam mais uma vez brilhantismo e humor.

Um exemplo: “Não, não temos manuais de escrita de romances. Parece que nos Estados Unidos se publicam coisas assim, mas nos permitimos duvidar de seu valor, isso porque o autor que conhecesse uma receita infalível para o sucesso literário preferiria ele próprio se valer dela em vez de ganhar a vida escrevendo manuais. Simples, não é? Simples”.

Outro: “A falta de talento literário não é nenhuma desgraça. Pode acontecer a pessoas inteligentes, esclarecidas, nobres e extremamente talentosas em outras áreas. Quando dizemos que um texto é pobre, não pretendemos ofender ninguém nem lhe tirar a fé no sentido da existência. Mas, de fato, nem sempre proferimos o nosso julgamento com uma cortesia chinesa. Ah, os chineses. Esses sabiam, em tempos idos, antes da Revolução Cultural, responder aos poetas pouco afortunados. A resposta era mais ou menos assim: ‘Os seus poemas superam tudo que já foi e que ainda será escrito. Se fossem publicados, sob sua luz ofuscante empalideceria toda a literatura, e os outros autores que dela se ocupam sentiriam dolorosamente o seu próprio nada...’”.

O humor e a inteligência de Wisława Szymborska me deixam com vontade de ter sido amigo dela, ou de, pelo menos, ter tido a oportunidade de conviver com ela. Ao interagir com pessoas, ela era tão adorável quanto é no que escreveu? Nunca terei resposta para isso, mas a pergunta me ocorre. Algumas pessoas são inteligentes demais. 

Apontamento 378

Viver não é amanhã nem logo ali nem ontem. A vida é agora. O resto é imaginação e memória. 

Política e futebol


Tentar separação radical entre futebol e política seria negar o uso que governos nacionais e internacionais já fizeram do esporte, bem como negar a atuação politizada de estrelas do futebol. A democracia corintiana, cujo rosto mais conhecido era Sócrates, é só um exemplo da imbricação entre os conteúdos esportivo e político.

Recentemente, desde quando torcidas em estádios começaram a manifestar ameaçadora burrice, alguns clubes tornaram público que discordam de atitudes beligerantes ou preconceituosas, mostrando mais uma vez que há momentos nos quais futebol e política se misturam. As ilustrações desta postagem, disponíveis no Twitter do brilhante Mauro Cezar, exibem alguns dos clubes que se posicionaram contra a intransigência. 

Biologia e psicanálise

Há espécies 
que giram 
em torno 
do próprio rabo.

Há espécies 
que querem 
policiar o alheio. 

Pelo direito à jabuticaba

Hamilton Mourão disse que o décimo terceiro salário é jabuticaba. Na analogia dele, jabuticabas e décimo terceiro são coisas que só existem no Brasil. O que ele disse, seja por ignorância, seja por má-fé, não é verdade, pois outros países pagam o décimo terceiro salário.

#MourãoNão #JabuticabaSim

Francisco, o papa

Editorial escrito por Silvio Caccia Bava e publicado na edição deste setembro no Le Monde Diplomatique Brasil tem estes dados: 49% dos que têm mais de 25 anos ainda não completaram o ciclo do Ensino Fundamental (IBGE); 95 milhões de brasileiros têm renda de até R$ 14,00 por dia (46%), e 41 milhões, renda entre R$ 14,00 e R$ 21,00 por dia (20%). O argumento de Bava é que num cenário como o brasileiro, é preciso ser simples para se falar a linguagem do eleitorado.

Essa simplicidade é uma arte, pois ela não é sinônimo de simploriedade. Ser simplório é fácil; ser simples é difícil. No mundo de hoje, penso que dois líderes têm o dom da simplicidade: o Mujica, que foi presidente do Uruguai, e o papa Francisco, embora o pontífice argentino tenha de lidar com esta mancha asquerosa da igreja católica, que são os casos de pedofilia ao redor do mundo. Fiéis e parte do clero cobram dele mais energia ao punir religiosos pedófilos.

Um espírito aberto há de considerar alentador acompanhar as declarações do papa, que já enfrenta oposição na ala mais conservadora da igreja. Sem medo de dizer o óbvio, valendo-se de uma linguagem acessível, Francisco, para as multidões, entrega uma mensagem comprometida com a fé dos católicos e com a atualidade. Ontem, no Twitter, ele publicou: “Rezemos para que no mundo prevaleçam os programas de desenvolvimento e não aqueles para os armamentos”. Simples, de fácil compreensão, mas não simplório. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

A Época do cinismo

A revista Época tentou fazer um mea-culpa, dizendo ser contra o fim da democracia. Dentre outras coisas, escreveu a revista: “As democracias eram solapadas no passado por golpes militares, revoluções, incêndios e tumultos. Desmoronavam em meio à guerra e à peste. (...) As democracias não morrem mais assim, como bem argumentam os cientistas políticos americanos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Na maioria dos casos modernos, as democracias são corroídas lentamente, em passos pouco visíveis”. Nem tão pouco visíveis assim. A Época faz parte das organizações Globo, e a Globo, não podemos nos esquecer, já apoiou dois golpes: o militar de 1964 e o institucional de 2016.

Prossegue a revista: “É preciso dizer um altissonante ‘não’ àqueles que querem romper as regras do jogo democrático, que negam a legitimidade dos oponentes, que cultivam a intolerância ou encorajam a violência, aqueles que admitem a restrição — mínima que seja — às liberdades civis. Basta do arbítrio que já macula o passado!”.

A desfaçatez da revista é a mesma com que outros representantes da imprensa e dos meios de comunicação têm agido. Veja, IstoÉ, Jovem Pan, Rede Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, dentre outros, inflamaram manifestantes cheios de anacronismos históricos e de desinformação, que, não raro, vestiam a camisa de uma empresa, a CBF, cujo ex-presidente não pode sair do país sob risco de ser preso por causa de corrupção. Revistas, rádios e TVs agiram com irresponsabilidade, abandonaram o jornalismo e agora não sabem o que fazer com os filhotinhos que criaram, pois não esperavam que a prole fosse escolher o caminho truculento.

Para uma parte da imprensa e dos meios de comunicação, readotar uma política neoliberal era o plano. Não contavam com a assunção descarada de gente que apoia tortura, assassinato, gente de “bem” que quando regurgita “bandido bom é bandido morto” não pensa num Geddel, por exemplo. Uma publicação como a Época dizer que “é preciso dizer um altissonante ‘não’ àqueles (...) que cultivam a intolerância ou encorajam a violência” é tão cínico quanto um torturador dizer que preza pela integridade física dos que mutila. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O todo

Sonhos de larvas,
realidades de aves.
Munido de asas e de pés,
acha trechos de céu na terra,
de terra no céu.
Telúrico e elevado,
serve a dois senhores. 

Chamas e mesóclises

O país ruiu. Para piorar, ontem, o incêndio no museu do Rio. E o Brasil não é fênix.  “Até que enfim temos um presidente que sabe falar, que sabe português”, disseram os pró-golpistas logo após Temer ter solapado a presidência. Pois aquele cujo português foi elogiado cortou e congelou gastos na... educação. Há vários modos de queimar um país. Nem todos são por intermédio de chamas. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Da linguagem

Há uma discussão entre os adeptos da gramática e os que acham que ela deve ser totalmente banida. À parte o que pensa cada um dos grupos, linguagem é poder. Uma revolução que se preze ou uma emancipação genuína para o indivíduo passa pelo domínio da linguagem. Se esse caminho será atingido por intermédio da gramática, da leitura, da mistura dos dois, da escola, do autodidatismo ou de outra abordagem, tanto faz.

É o domínio da linguagem que dá clareza num cenário que é turvo, eis o paradoxo, por causa do excesso de informação. A informação em si é linguagem. Assim sendo, pode ser manejada, burilada. Pode servir a um fim, a uma ideologia, a uma arte, a uma ciência, a uma manipulação. Seja no indivíduo, seja na coletividade, há uma consistência que somente pode ser alcançada a partir do domínio da linguagem.

A aquisição dessa linguagem a que me refiro é trabalhosa. Ela paira acima do trivial, do lugar-comum, da futilidade. É uma linguagem que se debruça sobre o que temos de essência e que procura enxergar com nitidez o embaralhamento a que somos submetidos. Por ser trabalhosa, demanda disciplina, dedicação.

Há que se levar em conta o cenário brasileiro, em que muitos não têm a oportunidade de dominar nem os rudimentos dessa mesma linguagem. Ainda que o acesso à educação, em termos proporcionais, tenha melhorado se comparado a séculos anteriores, tal acesso não é universal. No caso do Brasil, nem sei se um dia será.

O embate entre os defensores da gramática e os defensores do banimento de qualquer gramática é menor diante da gravidade que há no não domínio da linguagem. Quem a domina e quer usá-la para fins escusos tem interesse em que os outros não a dominem. O cidadão que domina a linguagem cria para si um caminho para ir mais longe no que é e um escudo para se proteger do que o mundo pode ser. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O velho e o jovem

Por vezes, 
esboçou conjugar 
o ímpeto juvenil
e o pouco de sensatez
da maturidade.
Mas não.
Foi um jovem imbecil
e tornou-se um velho enfastiado. 

Daciolo e a maçonaria

Há dias, assisti a um vídeo (não sei quando ele foi gravado) em que o aloprado Daciolo disse que, se eleito for, vai expulsar a maçonaria do Brasil. Temer é maçom. Será que o Daciolo diria para o golpista "fora, Temer"? 

Burocracia

José foi para o céu.
Não entrou porque não tinha
a papelada requerida pelo sistema.

José foi enviado para o inferno.
Não entrou porque Lúcifer encasquetou
estar faltando um carimbo numa das vias do formulário.

Sem ter para onde ir, José está no limbo.
Lá ficará, preenchendo papéis eternidade afora. 

Fronteira

Se é pobre, 
moreno ou negro e 
fala espanhol, 
querem fustigá-lo.

Se é rico, 
branco e 
fala inglês, 
tapete vermelho. 

Um celular e um corpete

Os cidadãos de Patópolis estavam indignados contra os políticos. A situação no país era periclitante. Ana Maria inflou o peito, olhou-se no espelho, saiu do banheiro, apagou as luzes da casa e foi para o coreto da cidade, que ficava numa ampla e arborizada praça. Joaquim Santos, o homem mais rico da cidade, discursou. Pedro Matias, o mais pobre, discursou. Na pequena multidão, cartazes contra os políticos podiam ser vistos. Ana Maria erguia acima da cabeça um desses cartazes; nele, os dizeres “Chega de corrupção!”. As letras vermelhas haviam sido escritas em caixa alta.

Era um domingo à noite. Na manhã do dia seguinte, Ana Maria foi para Passarópolis, onde estudava. Ela aproveitou os quarenta minutos da viagem para fazer as contas de quanto tinha para receber dos alunos da outra turma. Nos cálculos de Ana Maria, o dinheiro daria para ela comprar um novo modelo de celular e um corpete. Terminadas as contas, conferiu os arquivos que enviara, por intermédio de aplicativo de mensagens, para os alunos. Eram fotos que ela tirou de uma prova que havia feito três dias antes. Como a professora geralmente aplicava a mesma prova nas duas turmas, sempre havia ávidos compradores dos arquivos de Ana Maria.

Ela havia criado um grupo de vinte e duas pessoas em aplicativo para celular. Nas mensagens que trocavam, acertavam os valores da transação. Ana Maria sabia que uma vez passadas as fotos para os alunos, os arquivos poderiam ser enviados para outros estudantes, o que ela levava em conta na hora de definir quanto cobraria pelas fotos.

Enquanto o ônibus se movia, Ana Maria estava contente, já se imaginando com o celular e o corpete novos. No sábado seguinte, data em que os cidadãos haviam marcado outra manifestação contra os políticos, Ana Maria, em vez de compor outro cartaz, fotografou os protestos com um celular novinho, deliciando-se com os recursos do aparelho e com a textura do corpete.