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sábado, 7 de abril de 2018

De novo, Reinaldo Azevedo

Sou leitor do Reinaldo Azevedo desde quando ele escrevia para a revista Bravo!. Passado esse tempo, fiquei anos sem ter notícia do jornalista; depois, ele passou a escrever para a Veja, espaço em que se firmou como um dos porta-vozes da direita brasileira. Mesmo eu não concordando com o que ele escrevia para o semanário, era fácil reconhecer que ele escreve bem. Depois que deixou a Veja, Azevedo foi para a Jovem Pan (fácil reconhecer que ele tem voz boa e excelente dicção); tendo saído da emissora, foi para a Band. Nos estúdios do canal, tem sido uma das vozes da razão. Sobre a prisão de Lula, ele mesmo disse que há “um caso claro de perseguição política”.

Acho que entendo Azevedo. Ele é antiLula, nunca escondeu isso. Só que, ao que parece, ele tem honestidade intelectual. No fundo, na leitura que faço, ele não quer dar à esquerda motivos para que ela reclame com razão do que tem sido feito com o Lula. Não que Reinaldo Azevedo tenha mudado a maneira como encara o mundo. Não se trata disso: trata-se, sim, de fazer as coisas de modo que não restasse à esquerda argumentos para rechaçar o julgamento de Lula.

Não há como negar a eficácia do embuste que a direita está aprontando com o Brasil. Lula preso é o que queriam. Nesse aspecto, o sucesso da empreitada é inegável. Só que Reinaldo Azevedo é inteligente. Não mantém o debate em nível rasteiro. Tanto é assim que critica os que concordam com ele mas se expressam com insensatez. Da maneira como tudo foi arranjado, reacenderam a esquerda. Não é o que a direita queria. Não é o que Azevedo queria.

Para assistir ao vídeo em que ele se pronuncia, o link é este: https://bit.ly/2GJ6hKL. Abaixo, transcrição de alguns trechos da fala dele:

“Esses cuidados do Sérgio Moro de não usar algema, dar o benefício de se entregar... Puro fru-fru para disfarçar a truculência da decisão. Obviamente uma decisão coordenada entre os três desembargadores da 8ª turma e o Sérgio Moro.

“Cada vez mais convencido de que estamos lidando com fanáticos, porque não dão ao Lula nem o direito a recurso a que ele tem direito. Aí realmente é querer deixar claro o seguinte: nós fazemos nesse país o que bem entendemos. Infelizmente, não há direita liberal no Brasil, a direita no Brasil hoje é a direita chucra, com raras exceções.

“Sabe qual é o problema da direita brasileira? Ela odeia gente de língua presa, ela odeia gente de nove dedos, ela odeia gente de origem operária. Ah, não, porque ele roubou! Mentira. Mentira porque está cercada de outros ladrões.

Uma direita que não respeita direitos constitucionais, uma direita que não respeita a lei, uma direita que não respeita direitos individuais, uma direita que permite que a justiça se comporte como o poder absoluto, insisto, negando a um condenado a ter um recurso a que ele tem direito, independentemente do conteúdo da condenação, se justo ou injusto, isso não é direita liberal. Isso é no mínimo direita ‘fascistoide’. Porque aí a questão é a seguinte: já que nós não conseguimos nos impor eleitoralmente, então vamos tirar de circulação aquele que se impõe”. 

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Gratto, Muylaert

Hoje pela manhã, recebi via whatsapp um vídeo que tem narração de um texto [1] atribuído a Herton Gustavo Gratto. À medida que o texto vai sendo lido, belas imagens completam o trabalho. Eu nunca tinha ouvido falar de Herton Gustavo Gratto. Conferi o perfil dele no Facebook. O texto que recebi pela manhã foi escrito por ele; está na linha do tempo do ator, dramaturgo, poeta, roteirista e compositor, segundo identificação fornecida por ele.

No texto, o eu lírico é de uma pessoa de classe média ou de classe alta que assume o discurso de ataque contra o ex-presidente Lula não pelos erros dele, mas pelos acertos. Para muitos, não é paradoxal criticar alguém pelos acertos. Tais acertos deram alguma possibilidade de ascensão intelectual e financeira a quem não tinha contexto favorável para exercer a inteligência. Isso, estranhamente, incomoda muitos que têm dinheiro (ou pensam que têm).

O tom do texto de Herton Gustavo Gratto acabou me remetendo ao filme Que horas ela volta?, de 2015, dirigido por Anna Muylaert, que também é a roteirista. Jéssica (interpretada por Camila Márdila), personagem do filme de Muylaert, é encarnação ou personificação dos atacados no eu lírico do poema de Gratto. Ou, seguindo linha cronológica, o texto de Gratto é a transformação em verso do roteiro da diretora.

O filme não menciona nomes de políticos, mesmo deixando claro que a história se passa num período em que, graças às políticas públicas implantadas pelo PT, o viciado cenário social brasileiro, governado há séculos pela “elite da rapina” (valendo-me de expressão do Jessé Souza), deu oportunidade de conquistas financeiras e intelectuais a pobres.

No livro Cheiro de goiaba, Plinio Apuleyo Mendoza pergunta a Gabriel García Márquez: “Que tipo de governo você desejaria para o seu país?”. A resposta do escritor é simples: “Qualquer governo que faço os pobres felizes. Imagine!” [2].

Lula fez com que os pobres percebessem em dimensão inédita que o país é deles também e que eles também têm o direito de ser felizes. Tanto o filme de Muylaert quanto o texto de Gratto escancaram que há uma parte da elite que se ressente com a felicidade do outro se esse outro for pobre. Até o Reinaldo Azevedo admite que “é evidente que Lula está sendo vítima de um processo de exceção e de procedimentos que agridem o direito de defesa” [3]. Uma elite que faz maracutaias para que as riquezas do país sejam somente dela não vai garantir a um ex-metalúrgico barbudo, de dicção ruim e com quatro dedos numa das mãos o direito de defesa.
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[1] Disponível em https://bit.ly/2ErGSmG. Acesso em 06/04/2018.

[2] MÁRQUEZ, García Gabriel. Cheiro de goiaba: conversas com Plinio Apuleyo Mendoza. Tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro. Record. 1993. Pág. 113.

[3] Disponível em https://bit.ly/2q8oafG. Acesso em 06/04/2018. 

sábado, 10 de setembro de 2016

A indicação de Reinaldo Azevedo

A edição que tenho do “Ética”, do Spinoza, foi publicada pela Autêntica. A orelha do livro contém um texto impagável, que é parte da exclusão do filósofo do judaísmo. Um trecho: “Nós (...) expulsamos, amaldiçoamos e esconjuramos Baruch de Spinoza (...). Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar, maldito seja em seu levantar, maldito seja em seu sair, e maldito ele em seu entrar”. O texto foi proferido contra Spinoza em vinte e sete de julho de 1656, quando ele tinha vinte e três anos.

Lembrei-me dessa história pelo seguinte: o cartaz de divulgação do filme “Aquarius” tem uma frase do Reinaldo Azevedo: “O dever das pessoas de bem é boicotar “‘Aquarius’”. Segundo o que li, Azevedo, dando provas de total ausência de humor, não teria gostado da ironia do cartaz. E já que ele diz que pessoas de bem devem boicotar “Aquarius”, assistirei ao filme assim que possível. 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

REPRESENTAÇÃO

O pessoal do Bastidores da Mídia, página que curto no Facebook, chamou a atenção para dois trechos do Reinaldo Azevedo. Um deles é de 2013; o outro é de 2015.

Em oito de abril de 2013, Azevedo escreveu: “A frase [não me representa] não passa de uma tolice autoritária, típica de gente que não entende o que é o processo democrático e pretende vencer no berro, e é um emblema desses tempos de minorais mimadas pela imprensa e pelos Poderes constituídos”. Em dez de julho de 2015, escreveu: “Sou católico, mas o papa Francisco não me representa”.

No trecho de 2013 ele se definiu; no de 2015, em ato falho, revelou-se.