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quarta-feira, 4 de março de 2015

PREFERÊNCIAS

Prefiro maçã a pera. 
Prefiro Cynara Menezes a Rachel Sheherazade. 
Prefiro Hulk a Huck.
Prefiro vinho a uísque.
Prefiro García Márquez a Vargas Llosa.
Prefiro hábito a rotina.
Prefiro ESPN a SporTV.
Prefiro livro a tela.
Prefiro arroz a feijão.

Prefiro Beatles e Rolling Stones. 

sábado, 8 de março de 2014

"O VOO"


Eu me surpreendi com a densidade e com as implicações de “O voo” [Flight, 2012], do diretor Robert Zemeckis. O roteiro é de John Gatins. Comecei a assisti-lo sem saber quem era o diretor; pensei que se tratava de mais um daqueles filmes que lidam com catástrofes quando um avião cai.

Não é o caso de “O voo”. Se, de fato, há a queda de uma aeronave, isso é somente pretexto para que questões como o alcoolismo e o papel do direito num processo judicial sejam abordadas. Julgar é muito, muito difícil; isso paira o tempo todo.

O filme é estrelado por Denzel Washington. Prestem atenção no quanto ele está impecável no papel de William “Whip” Whitaker, piloto da aviação civil. Nos momentos em que está tenso, há trejeitos e tiques que se repetem e que se intensificam nas cenas finais. Washington convence como alcoólatra que se nega a assumir o vício.

Interessante é que Whitaker é um daqueles personagens que nos fazem torcer por ele, mesmo estando nós cientes de suas graves irresponsabilidades. É que reconhecemos o genial profissional que ele é, ao mesmo tempo em que logo sacamos que sua empáfia é sintoma de quem finge saber lidar com o alcoolismo.

Whitaker acaba conhecendo Nicole, interpretada por Kelly Reilly. Nicole é dependente de drogas. O encontro que haverá entre os dois é sugerido numa sequência tensa: Nicole está em terra, numa maca, depois de ter consumido droga pesada; Whitaker está pilotando um avião, que está prestes a cair.

É uma cena rápida, que me remete ao poema “Amor à primeira vista”, da poeta polonesa Wisława Szymborska. No poema, há a sugestão de que o primeiro encontro entre um casal já estava sendo tramado antes que ocorresse. Não sei se Zemeckis, o diretor, ou se Gatins, o roteirista, tinham o poema em mente ao compor a cena. À parte isso, ela faz lembrar o texto de Szymborska: a arte imita a arte.

Outro ponto alto do filme é a trilha sonora, regada a clássicos do pop/rock, em especial The Rolling Stones. Se Whitaker está curtindo alguma canção, ou se o figuraça Harling Mays, interpretado por John Goodman, entra em cena, esteja certo de que isso é garantia de boa música. Repare que próximo ao fim da película, em sequência gravada num elevador, “With a little help from my friends”, dos Beatles, é apropriadamente executada, em breve e sutil solo de piano.

Às vezes, julgamos uma pessoa por um gesto, por um delito. Julgar é complicado. Se por um lado Whitaker tem habilidade rara ao pilotar, por outro, é consumido pelo vício. E se o vício e o talento estiverem num mesmo instante?... Por fim, abaixo, a transcrição do poema que mencionei, de Wisława Szymborska. A tradução é de Regina Przybycien.
_____

Amor à primeira vista — Wisława Szymborska

Ambos estão certos 
de que uma paixão súbita os uniu. 
É bela essa certeza, 
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes 
nunca havia se passado nada entre eles. 
Mas e as ruas, escadas, corredores 
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

Queria lhes perguntar, 
se não se lembram — 
numa porta giratória talvez 
algum dia face a face? 
um “desculpe” em meio à multidão? 
uma voz que diz “é engano” ao telefone? — 
mas conheço a resposta. 
Não, não se lembram.

Muito os espantaria saber 
que já faz tempo 
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado 
para se transformar no seu destino 
juntava-os e os separava 
barrava-lhes o caminho 
e abafando o riso 
sumia de cena.

Houve marcas, sinais, 
que importa se ilegíveis. 
Quem sabe três anos atrás 
ou terça-feira passada 
uma certa folhinha voou 
de um ombro ao outro? 
Algo foi perdido e recolhido. 
Quem sabe se não uma bola 
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas 
onde a seu tempo 
um toque se sobrepunha ao outro. 
As malas lado a lado no bagageiro. 
Quem sabe numa note o mesmo sonho 
que logo ao despertar se esvaneceu.

Porque afinal cada começo 
é só continuação 
e o livro dos eventos 
está sempre aberto no meio. 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

POR QUE ME TORNEI UM IMBECIL

Tornei-me um imbecil porque tenho perdido a capacidade de me emocionar. O ápice disso foi no sábado, quatro de maio. Eu estava a poucos passos de um artista que faz parte de minha vida desde a infância. Quando Paul McCartney anunciou oficialmente o fim dos Beatles, em março de 1970, eu não havia nascido ainda (eu nasceria em outubro daquele ano). Mas ele faz parte do lado musical da minha vida.

Ainda é nítido na lembrança eu pedir para meu pai colocar uma das músicas da carreira solo de McCartney. Como eu não sabia falar o nome dela, eu falava mais ou menos assim: “Pai, coloca aquela do ‘rô’, ‘rê’, ‘rô’”. Sim, eu me referia a “Mrs. Vanderbilt”. Ela foi uma das faixas executadas no show realizado por McCartney no Mineirão, em Belo Horizonte.

Também me lembro de um baile a que fui no Ponte de Terra, em Carmo do Paranaíba, na segunda metade da década de 80. O Evandro Fontes, que na época era locutor de rádio por lá, foi quem me convidara para a festa, que contaria com show da banda de baile Phendas. Ao fazer a abertura do evento, o Evandro disse que tocaria uma música; achei estranho, pois não havia nenhum instrumento com ele. Foi quando então retirou uma gaita do paletó e tocou “Let it be”, que, claro, também fez parte do repertório do show em BH.

Lembro-me também de ter escrito à mão, ainda adolescente, várias letras dos Beatles em folhas de caderno. Dentre elas, “Get back”, que McCartney também cantou no Mineirão... Quando ele cantou “Your mother should know”, lembrei-me do Pedro Paulo Niffinegger Silva, um amigo que certa vez me disse que gosta dessa canção.

Lembro-me de meu pai comentar comigo, enquanto ele me levava de bicicleta a algum lugar, quantas vezes o “na na na... Hey, Jude” é repetido na gravação original (ele disse que contara). Obviamente, a canção foi executada durante o show.

Eu poderia escrever todo um texto sobre minhas várias lembranças com o universo dos Beatles. Mas esta crônica é sobre minha incapacidade de ter me emocionado durante o show de McCartney em BH. Eu deveria ter pulado, gritado e chorado, exatamente tal qual fez a adolescente que estava a meu lado, que cantou to-das as letras.

Para não dizer que passei incólume pelo show, fiquei emocionado não devido a uma canção, mas quando ele disse pela primeira vez “trem bão, sô” (ele voltaria a repetir a expressão posteriormente).  Além da emoção que senti, foi engraçado olhar para a cara que ele fez ao dizer a expressão, bem como escutá-la cheia de sotaque.

É estranho: essa minha tola apatia esteve comigo mesmo antes de eu entrar no Mineirão: não houve expectativa, eu não estava vibrante como deveria estar. Terminado o espetáculo, saí sem compartilhar do óbvio entusiasmo no ambiente. Se o show tivesse sido um fiasco, eu teria razão para a indiferença.

Deixei o local preocupado com meu crescente embotamento, por ser algo que vem se insinuando cada vez mais. Para os amigos que perguntaram, acabei dizendo que gostei, para não cortar o barato nem ter de explicar por que não gostei. Se eu tiver a oportunidade de conferir um show dos Rolling Stones, coisa que eu sempre quis, que eu seja ou esteja menos tolo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

KEITH RICHARDS


Se você gosta de rock ou de pop ou de Rolling Stones, não deixe de ler “Vida”, de Keith Richards, em parceria com James Fox, publicado pela editora Globo.

Já era de se esperar que o livro não tivesse nenhuma afetação – e não tem mesmo. Num estilo simples, direto e sem firulas, narrado em primeira pessoa, Richards conta, em ordem cronológica, sua vida.

A ausência de afetação é tanta que até quando, sem falsa modéstia, Richards elogia a si mesmo, isso não soa pedante. E, claro, detalhes de bastidores dos Stones, da feitura de algumas canções e da convivência do guitarrista com figuras do jet set internacional estão no livro.

Não falta sexo, não faltam drogas, não falta rock. Mas o mérito de uma boa biografia é revelar o que o mito tem de humano. Nesse sentido, “Vida” é um excelente livro. Não desaponta os fãs dos Stones e não cai na armadilha do afagar a si mesmo.