domingo, 10 de dezembro de 2017

Haicai 62

Para minha cura,
não importa o mal,
drágeas de leitura. 

O que Zezé di Camargo enxerga e o que Marcelo Rubens Paiva enxerga

Os que defendem o retorno da ditadura deveriam ler Ainda estou aqui, do Marcelo Rubens Paiva, cujo pai, o político Rubens Paiva, foi torturado e morto pelo regime militar. Mas gente a favor da tortura ou do regime militar não está interessada nesse tipo de leitura. Gente assim está preocupada em não aprender sobre a história do país.

Não raro, isso as leva a negar a história. É o que fez, dentre outros, em setembro, Zezé di Camargo, ao declarar que não existiu ditadura militar, mas o que ele chamou de “militarismo vigiado”. Na ocasião, o cantor disse ainda que o Brasil “nunca chegou a ser uma ditadura daquelas que você ou está a favor ou você é morto”. Ele deveria ler o livro de Marcelo Rubens Paiva. Mas não vai. E ainda que lesse, não mudaria o pensamento.

Ao se deter no microcosmo da família do autor, Ainda estou aqui escancara o mal que a ditadura fez ao país. Claro que ele não é o primeiro a fazer isso; nem será o último. O que não impedirá que haja pessoas concordando com o Zezé di Camargo ou pessoas alegando que os militares fizeram bem em torturar e em matar. 

O engano não é só do Bono

Autorias atribuídas incorretamente passaram a ocorrer com mais furor após os ventos da internet e das redes sociais. Um desses casos é o poema “Instantes”, tido como sendo de Jorge Luis Borges. Eu mesmo tenho um jornal em casa em que o texto é atribuído a Borges. Quando ele não é atribuído a Borges, é atribuído a uma estadunidense de nome Nadine Stair. “Instantes” não é nem de Stair nem de Borges. É de Don Herold, humorista dos Estados Unidos.

A atribuição incorreta dessa autoria já causou episódios curiosos ou divertidos. Num deles, Bono Vox, vocalista do U2, disse, num canal de TV mexicano, antes de ler trechos do poema, que declamaria alguns versos do “poeta chileno Borges”. Há duas informações incorretas na afirmação do Bono: Borges não é chileno, mas argentino. 

O apelo do Tito

Tive um dia desses mais uma prova insofismável do quanto sou desafinado: comecei a cantar, o Tito, meu cachorro, começou a resmungar num choro baixinho. Parei de cantar, o Tito voltou a sorrir. 

Apontamento 371

Por mais que vivamos, a morte sempre recebe um rascunho. 

Comunhão

Não escrevo na ilusão de mudar as pessoas nem de mudar o mundo. Isso seria muita empáfia minha. O que escrevo é meu modo de dizer que você não está sozinho, que eu não estou sozinho, que não estamos sozinhos. Mas sei: ainda que sozinho eu estivesse, escreveria. Mas saber que não estou sozinho é mais uma razão para que eu escreva.