Mostrando postagens com marcador Educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Educação. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 31 de março de 2022

A educação após Bolsonaro

Com a devida autorização do autor, publico o texto abaixo.
_____

A educação após Bolsonaro
Luís André Nepomuceno

Em 1949, Theodor Adorno publicou “Crítica cultural e sociedade”, um ensaio desconcertante, em que ele dizia que escrever poesia após Auschwitz é um ato bárbaro. O filósofo de Frankfurt parecia antever uma dificuldade imensa de retorno à consciência ilustrada depois da degeneração da cultura em tamanhos atos de barbárie. Adorno pensava a profundidade que se encerra no seio do totalitarismo. E sobre ele precisamos também pensar com urgência.

O totalitarismo, dizia Hanna Arendt, diferentemente das políticas ditatoriais e dos governos despóticos, encontra-se dentro do indivíduo. Sua ação é no interior de cada um, transformando ou consolidando profundamente sua forma de agir e de pensar, por meio da propaganda e da doutrinação. Como no fascismo, por exemplo. Por isso, essa “sociedade secreta montada à luz do dia” precisa de uma massa humana amorfa, fácil de ser manipulada, uma massa sem consciência de si e do outro, por vezes até mesmo indiferente à política, uma massa ressentida e ignorante das complexidades que a manipulam.

Mais que isso, o totalitarismo implica a morte do indivíduo e de sua consciência, a anulação de sua memória e de sua identidade, agora disposta a colaborar com a nova máquina política de aniquilação do outro, o outro negro, o outro pobre, o outro índio, o outro mulher, o outro socialista, o outro diferente, que deve ser banido. Dizem que soldados portugueses cristãos, em guerras no oriente, eram orientados a não olhar nos olhos dos inimigos muçulmanos, para não se darem conta de que por trás dos olhos havia um ser humano. Era melhor compreendê-los como abstrações a ser exterminadas.

Essa massa disforme que se entrega ao totalitarismo são os indivíduos “fáceis”, imbuídos de uma consciência social e política frágil. Em nosso cenário, o governo Bolsonaro descobriu que esses indivíduos, bem como instituições inteiras, são tão fáceis quanto as mulheres ucranianas que Arthur do Val observou, pleno de excitação.

O modelo totalitário de Bolsonaro também entendeu que as escolas precisam ser fáceis de alguma forma. Por isso, aplaudiu o antigo projeto da Escola sem Partido, um modelo ultraconservador de tendência fundamentalista e neoliberal que, antes de ser acusado de ideológico, apressa-se em dizer que o outro é que é ideológico, como fácil motivação para persegui-lo. É por meio de uma campanha totalitária, apoiada inclusive por grupos neopentecostais, que pais e estudantes conservadores buscam impor uma agenda puritana nos domínios da sala de aula. Hipócritas e reacionários, procuram vigiar cada passo do professor, ávidos por flagrar nele alguma insinuação sexual, alguma ideologia de gênero ou doutrinação marxista. Qualquer indivíduo é suspeito no modelo totalitário, dizia Hanna Arendt.

Em dezembro de 2018, um mês depois da eleição de Bolsonaro, mães de alunos de uma escola municipal no interior de São Paulo proibiram seus filhos de assistir ao espetáculo teatral “Miguilim Mutum”, da Companhia Azul Celeste (baseado na obra de Guimarães Rosa), porque alegaram que tinham receio sobre o conteúdo da peça. O espetáculo foi cancelado. Que pena: se tivessem assistido, os meninos teriam se encantado com o mágico universo da infância de Miguilim e seu duro aprendizado rumo à vida adulta. Mães puritanas, movidas pela máquina totalitária, subtraíram a seus filhos a chance da maturidade. Talvez tenha faltado a elas os óculos que o personagem usa na última cena para enxergar o mundo.

Professores de português já me confessaram que se veem forçados a levar para a sala de aula um amontoado de textos insípidos, frases sem contexto para análise sintática, por receio de represália dos pais. Enquanto isso, a escola vai deixando de
formar o leitor, com toda a sua potencialidade crítica, com toda a inteligência que lhe é devida, sem que ele suspeite que a aula de português, para além da gramática, da sintaxe, é também, e essencialmente, a amplitude da consciência crítica sobre o humano. Lemos para entender que por trás dos olhos apavorados do outro existe um ser com história, identidade e memória subjetiva.

O pior legado de Bolsonaro não será a economia (que esta, com o tempo, se conserta), nem a polarização política, nem mesmo a negligência com a saúde. O pior legado de Bolsonaro estará dentro do indivíduo: a educação depois de seu plano totalitário, a dificuldade imensa de retorno ao discernimento ilustrado depois da degeneração da cultura, a transformação sombria da consciência das pessoas. Deste legado vêm todos os outros. 

domingo, 1 de novembro de 2020

A Finlândia não é aqui

Desde que foi veiculado, faz sucesso um vídeo, que dura algo em torno de vinte minutos, sobre o sistema educacional na Finlândia. É uma produção da Globo. Com frequência, esse vídeo é usado como argumento quando se quer elogiar a educação recebida pelos finlandeses e criticar a recebida pelos brasileiros.

É preciso ponderar a partir do que é dito no vídeo. É que sempre fico reticente quando há a tentativa de comparação entre a educação na Finlândia e a educação no Brasil. A primeira razão pela qual fico reticente é óbvia: o contexto finlandês é diferente do contexto brasileiro.

É dito no breve documentário que a Finlândia é o país mais feliz do mundo. À parte o fato de eu achar que felicidade é um conceito difícil de ser medido, pois o parâmetro de um pode ser diferente do parâmetro de outro, chamou minha atenção o seguinte: eles são um dos países menos desiguais do mundo.

Permitam-me um raciocínio simplório, mas necessário: o vídeo permite a fácil dedução de que menos desigualdade e felicidade estão conectadas. Mantendo o raciocínio simplório: igualdade e felicidade estão conectadas. Para nós, o problema começa na desigualdade. O Brasil é um país edificado sobre a desigualdade, que pode ser conferida em qualquer esquina do país.

Isso, por si, já é uma questão melindrosa. Mas a coisa fica pior: não há empenho de toda a sociedade para que as desigualdades sejam amenizadas ou dizimadas. O Brasil é um país em que quando se fala em ensino gratuito para todo mundo, há quem diga que não é obrigação governamental ofertar educação para todos. Segundo o vídeo, na Finlândia, “todas as crianças estão em escolas públicas” e “todo mundo tem as mesmas oportunidades”. Vou reescrever a frase: “Todo mundo tem as mesmas oportunidades”. Também é dito no trabalho da Globo que na Finlândia a educação é gratuita até o término do ensino superior. 

Acho estranho o que, com frequência, ocorre no Brasil: exalta-se a igualdade no exterior, mas se deplora a busca dela por aqui, onde há quem queira insistir na ideia de que o sujeito nascido na periferia de São Paulo tem as mesmas oportunidades de um nascido no Morumbi, e que se os projetos daquele não se concretizaram, a culpa é dele, que seria preguiçoso, indolente, burro. É dito no vídeo: “Você não precisa vir de família rica para se tornar alguém”. Lá, isso é possível porque há igualdade.

Tudo, contudo, fica pior: há uma cena do vídeo em que se mostra uma professora ensinando o processo de formação da Terra. Aqui no Brasil, congressos têm sido realizados para se afirmar que o planeta é plano, indivíduos têm negado princípios básicos da ciência. Estou sugerindo com isso que não cabe à escola fazer algo?

Não. Com isso, estou defendendo a ideia de que comparações entre países devem ser feitas com cautela, e que o ensino tem limites, principalmente se inserido em contexto desfavorável, caso do Brasil. A escola, ao mesmo tempo em que pode influenciar a sociedade, por ela é influenciada. Seria muita pretensão afirmar, no caso brasileiro, que a escola, sozinha, realizará a melhora.

No Brasil, a profissão de professor é desvalorizada, o que, segundo o vídeo, não ocorre na Finlândia. O professor, no Brasil, é visto, por alguns setores da sociedade, como um proscrito, um coordenador de badernas. Não bastasse, os professores, na Ilha de Vera Cruz, são enterrados sob um escombro de burocracia e de vigilância. Reitero: não sugiro desistência, mas ponderações quando insistem em querer aplicar o modelo educacional finlandês no Brasil.

Certa vez, perguntaram para o García Márquez se o artista tem de ser ou de estar triste para produzir. A resposta dele: “Escrevo melhor de barriga cheia”. O Brasil tem uma multidão de estudantes que não têm o que comer; estuda-se melhor de barriga cheia.  É dito no vídeo que a Finlândia teve guerra civil e fome. Superaram ambas. Vamos superar a fome no Brasil? Vamos ter uma sociedade composta por oportunidades iguais? Não tenho respostas.

Qual a importância em se conhecer a realidade educacional da Finlândia? Uma das importâncias é o saber em si, o estar informado. Outra importância: a ciência de que há um país como a Finlândia inspira a utopia, tal qual a concebe o Eduardo Galeano (1). Vídeos como esse, assim concebo, não são para que imitemos as engrenagens da Finlândia ou de outro país, nem para que tentemos implantar o sistema educacional deles aqui, mas para que saibamos que uma sociedade igualitária pode ser feliz. Seremos?

_____

(1) Há um texto do Eduardo Galeano em que ele se vale da seguinte imagem para ilustrar o que é o caráter utópico: a utopia é querer chegar à linha o horizonte; chega-se. Lá chegando, enxerga-se outra linha do horizonte, que deve, então, ser buscada; chega-se a ela. Lá chegando... 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

15/10

Há um cinismo ou uma hipocrisia de que pouco se fala — o cinismo ou a hipocrisia de parte dos que cumprimentam professores no dia 15 de outubro. Isso pode partir de quem é aluno, de quem já foi, de quem inventa burocracias inúteis para atravancar a vida dos professores ou de quem apoia políticas ou políticos que são contra os docentes.

Alunos que desrespeitam ou desrespeitaram a convivência em sala de aula, superiores que se concentram em burocracias inócuas e se esquecem de que pessoas valem mais do que papéis imbecis, políticos que lideram campanha contra o trabalho de quem ensina. Mas, em todo ano, é a mesma coisa: mensagens piegas e fingidas a favor dos professores são veiculadas.

A melhor maneira de homenagear um professor é deixá-lo exercer o trabalho dele. No dia a dia, não há isso. A aula não flui devido a desrespeitosas atitudes, burocracias e reuniões inúteis tomam horas, políticos perigosamente demagogos têm a missão de atacar quem está em sala de aula ensinando.

Em tese, eu não precisaria dizer que não estou generalizando. Ainda assim, digo que não estou generalizando. Digo também: não expresso neste texto a opinião de uma classe; expresso opinião que é minha. Dito isso, há pessoas que, de fato, contribuem com o trabalho dos professores. Repito: não estou generalizando. Nem todo mundo que parabeniza os professores é cínico. Os que não são, com frequência, não se dedicam a mensagens hipócritas ou insinceras. Eles demonstram em atos, não em palavrório tosco, o respeito ao próximo.
 
Quanto aos cínicos e aos hipócritas, não deveriam perder tempo escrevendo mensagens açucaradas. Melhor seria se deixassem os professores em paz, melhor seria se deixassem os professores trabalharem, seja em sala de aula, seja os poupando de burocracia, seja não instando ignorantes a se voltarem contra eles. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

O que a escola faz

Muito se fala sobre o papel da escola, sobre o que ela deve fazer, o que não deve fazer, a quem deve prestar contas... Quem muito fala sobre a função da escola geralmente prefere deixar de lado a importante noção de que a escola tem limites e de que nem tudo é obrigação dela. Querem exigir cada vez mais do ensino, no mais das vezes não dando a ele aquilo de que ele necessita para realizar o trabalho que a ele compete, sem levar em conta que não é obrigação dele preparar para tudo nem ser responsável pelo que o cidadão vai fazer depois de não mais frequentar uma escola — ou pelo que ele vai fazer quando o horário de aula termina e ele toma as ruas.

Quando alguém incorre em erro de português, é lugar-comum culparem as escolas por a pessoa não escrever corretamente segundo a gramática; se alguém não sabe fazer uma simples regra de três, a culpa é da escola. Já afirmei anteriormente haver professores que se jactaram de nunca terem lido um livro depois de terminarem a faculdade: a escola tem imperfeições porque é feita por imperfeitos. Mesmo assim, não é justo culpá-la pelas mazelas intelectuais do país.

Sou testemunha de que a escola tem ensinado. Se o ensino não é eficaz enquanto a pessoa ainda está em sala de aula, os menos responsáveis por essa ineficácia são os professores. Não bastasse, boa parte das pessoas, depois de terminarem o período em que tiveram de ficar em salas de aula, entregam-se a uma preocupante indolência intelectual. Na expressão mais visível dessa apatia mental, qualquer texto que tenha cinco linhas é textão, qualquer frase que comece a exigir um pouco de concentração é abandonada. Há muitos não interessados em alguma atividade intelectual.

Não há como a escola reger em totalidade nem as vidas dos que ainda frequentam salas de aulas; exigir dela que o cidadão adulto domine um conhecimento de que ele pode nem ter feito questão enquanto estava em sala de aula e de que não faz questão agora que não tem de se sentar e assistir a alguém lecionando é exigir desonestamente da escola. Eu citaria miríadas de professores que ensinaram e ensinam a diferença entre “mas” e “mais” ou que ensinaram a calcular porcentagens ou que ensinaram como se dá a fotossíntese. Contudo, se o cidadão que não mais frequenta um ambiente escolar está mais preocupado em postar fotos exibindo armas de fogo, não há nada que a escola possa fazer. Por ele, o que ela podia fazer, ela já fez. 

domingo, 11 de março de 2018

O que a escola faz

Muito se fala sobre o papel da escola, sobre o que ela deve fazer, o que não deve fazer, a quem deve prestar contas... Quem muito fala sobre a função da escola geralmente prefere deixar de lado a importante noção de que a escola tem limites e de que nem tudo é obrigação dela. Querem exigir cada vez mais do ensino, no mais das vezes não dando a ele aquilo de que ele necessita para realizar o trabalho que a ele compete, sem levar em conta que não é obrigação dele preparar para tudo nem ser responsável pelo que o cidadão vai fazer depois de não mais frequentar uma escola — ou pelo que ele vai fazer quando o horário de aula termina e ele toma as ruas.

Quando alguém incorre em erro de português, é lugar-comum culparem as escolas por a pessoa não escrever corretamente segundo a gramática; se alguém não sabe fazer uma simples regra de três, a culpa é da escola. Já afirmei anteriormente haver professores que se jactaram de nunca terem lido um livro depois de terminarem a faculdade: a escola tem imperfeições porque é feita por imperfeitos. Mesmo assim, não é justo culpá-la pelas mazelas intelectuais do país.

Sou testemunha de que a escola tem ensinado. Se o ensino não é eficaz enquanto a pessoa ainda está em sala de aula, os menos responsáveis por essa ineficácia são os professores. Não bastasse, boa parte das pessoas, depois de terminarem o período em que tiveram de ficar em salas de aula, entregam-se a uma preocupante indolência intelectual. Na expressão mais visível dessa apatia mental, qualquer texto que tenha cinco linhas é textão, qualquer frase que comece a exigir um pouco de concentração é abandonada. Há muitos não interessados em alguma atividade intelectual.

Não há como a escola reger em totalidade nem as vidas dos que ainda frequentam salas de aulas; exigir dela que o cidadão adulto domine um conhecimento de que ele pode nem ter feito questão enquanto estava em sala de aula e de que não faz questão agora que não tem de se sentar e assistir a alguém lecionando é exigir desonestamente da escola. Eu citaria miríadas de professores que ensinaram e ensinam a diferença entre “mas” e “mais” ou que ensinaram a calcular porcentagens ou que ensinaram como se dá a fotossíntese. Contudo, se o cidadão que não mais frequenta um ambiente escolar está mais preocupado em postar fotos exibindo armas de fogo, não há nada que a escola possa fazer. Por ele, o que ela podia fazer, ela já fez. 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A duração do conhecimento

As universidades particulares são adeptas do empreendedorismo, que mencionei na postagem anterior. Uma das pérolas do empreendedorismo é o “pitch”. O termo se refere a uma apresentação de três a cinco minutos. O tal do “pitch” foi parar na academia.

Nas universidades, já estão pedindo comunicações que durem de três a cinco minutos. É a linha de produção nas comunicações acadêmicas. O lance é ser rápido, superficial, tolamente palatável. Mais um estratagema a serviço da bestialização e da preguiça das pessoas de pensar e de prestar atenção.

O uso do termo “pitch” confirma o quanto o pessoal do empreendedorismo adora usar vocábulos estrangeiros. “Pitch” vem do inglês. Em linguagem informal, segundo o dictionary.com, significa “to attempt to sell or win approval for; promote; advertise: ‘to pitch breakfast foods at a sales convention’”. 

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Docentes, discentes e outros entes

Com frequência, digo que se boa parte das pessoas que parabenizam os docentes quando é quinze de outubro se preocupassem ou tivessem se preocupado em ser bons alunos, a educação seria um pouco melhor. Com isso, nem preciso dizer, não estou desprezando as congratulações que vêm dos estudantes que têm ou tiveram comportamento decente. Dito isso, quando não é o dia dos professores, a tônica é falar mal da escola, não importa se a pessoa tenha sido uma daquelas que em sala de aula exibiam comportamento deplorável.

Há algum tempo, no Facebook, alguém postou um texto atribuído à Lya Luft, intitulado “O traje”, em que ela discorre sobre o desleixo que se tem com o português. Uma senhora vaticinou, nos comentários da postagem, de modo lacônico, a causa desse desleixo: “Isto é a escola que temos”. Esse prosaico exemplo confirma a tendência de se criticar a escola como um todo.

Tenho convivido há muito tempo com a necessidade de escrever algo a favor dos professores. Contra nós, já há muito modismo, muita burrice disfarçada de pedagogia e muitos burocratas. Todavia, este texto, antes de ser uma defesa a favor dos que lecionam, mesmo eu sabendo que não precisam de alguma intervenção minha, é, antes de tudo, consequência de ideias que preciso materializar. As vivências de que me valho são em maioria as que tive no ensino médio, embora não sejam tão diferentes nos outros níveis da educação.

Durante a maior parte de minha vida, lecionei em escolas particulares. Sempre tive as ferramentas necessárias para realizar meu trabalho. Desde 2014, leciono em instituto federal; os institutos federais fazem parte da rede de escolas públicas da União. Aqueles que não concordarem com o teor deste texto podem, talvez, alegar que tanto nas escolas particulares em que trabalhei quanto no instituto federal eu não vivenciei nem vivencio a precariedade do ensino público dos estados. Estão certos nessa alegação.

É verdade que não trabalhei nem trabalho em ambiente precário. Mas não sou alienado. Tenho colegas professores que trabalham na rede estadual. Converso com eles, sei das dificuldades que têm de enfrentar. Sei também que tanto em Minas Gerais quanto em outros estados há escolas mais precárias do que algumas que conheci.

O que me incomoda é que, com frequência, quando se fala mal da educação, responsabilizam os professores pelas fraquezas do ensino. Com relação a isso, de antemão, devo dizer que não sou ingênuo. Certa vez, aqui em Patos de Minas, visitando uma escola estadual, onde eu falaria sobre literatura, a convite de um professor, escutei, durante o intervalo, uma professora dizendo que, depois de terminada a faculdade, nunca mais havia lido um livro. E completou: “Eu me formei há dezesseis anos”. Sei bem que há professores que não cumprem o mínimo do que é da obrigação deles.

Quando se fala mal da educação, nem sempre as pessoas têm acuidade. Quando criticam o ensino, estão culpando o governo estadual, a falta de estrutura das edificações ou os professores? Ou estão criticando tudo isso? No que diz respeito aos professores, a maioria deles não é do tipo que nunca leu nenhum livro depois que se formou. É difícil uma semana em que não me deparo com algum professor ou alguma professora da rede pública estadual fazendo muito mais do que é o dever dele ou dela. Enquanto isso, o tempo vai passando. Mais um quinze de outubro vem. Os professores são elogiados. Terminado o dia, a culpa pelo fracasso do ensino volta a ser dos docentes.

Não bastasse, passou-se a delegar à escola funções que não são dela. Coisas que deveriam ser aprendidas em casa têm, agora, de ser ensinadas em sala de aula. Há muitos anos, numa palestra cujo tema era ética, o palestrante iniciou a fala dele dizendo que era difícil falar sobre ética, pois ela é algo que percebemos se a pessoa tem (ou não tem) pela maneira como ela abre uma porta. Os professores têm de ensinar a uma pessoa de dezesseis anos como se abre uma porta ou como se portar quando alguém está dando uma aula.

Tem-se, então, um quadro em que parcela da sociedade culpa os professores pelo fiasco da educação. Isso, por si, é ruim. Mas os professores têm outro algoz, não importa se na rede pública estadual ou federal: o próprio sistema escolar. Nesse jogo de apontar o dedo para aqueles que supostamente não fazem o que deveriam fazer, o aluno deixou de ser responsabilizado. O discente fica de fora do problema.

Os que estão em cargos de comando na educação têm o mantra de que o professor deve aprender, deve se atualizar, deve estar em sintonia com o mundo, deve saber falar a linguagem da juventude. Qualquer professor que já tenha estado numa escola para lecionar já escutou essa prédica, que é correta, embora aplicada de modo deturpado. Falar a língua do aluno não é o mesmo que ter de ser extrovertido, de ter de ser comediante.

Em tese, todo professor é um leitor. Ele pode até não cumprir sua função quanto às leituras que deveria sempre fazer. Mas os que estão em cargos de comando na educação, salvo exceções, não dizem ao aluno o que ele deve fazer. Ainda que digam ou que façam de conta que dizem, na prática, as atitudes são de quem está exigindo somente dos professores.

Ensinar se torna então mais complicado ainda. O mundo fora da escola diz que o aluno deve ter sempre o mais recente modelo de celular, diz que ele deve consumir drogas em festas, que é a roupa que define o caráter, que basta tomar refrigerante para se alcançar a felicidade. O mundo fora da escola é o mundo da permissividade.

Esse mundo não dirá ao aluno que o universo do conhecimento nem sempre vai ser divertido; não dirá que o estudante pode vir a ter muitos fracassos, por mais inteligente que seja; não dirá que sisudez e timidez não são defeitos; não dirá que a sutileza é poderosa. O mundo fora da escola prega ousadias barulhentas, declarações inconsequentes. O mundo lá fora dirá que o estudante não merece um não, dirá que ele tem direito, imediatamente, ao que quer, ainda que não tenha lutado por isso.

O mundo fora da escola é o mundo do sim perene, da conquista sem esforço, do conhecimento sem dedicação, da ausência da dor e da obrigatoriedade da alegria. O professor, pela natureza da profissão, não deveria coadunar com essas ideias. Só que ao não coadunar, ele se torna um pária. Professor bom prega profundidade e concentração; elas não são indicativos de caretice nem impedem o surgimento do humor.

Na maioria das vezes, o professor tem a clara ciência de que o que ele propõe está contra a onda irresponsavelmente hedonista do mundo fora da escola. O professor segue, a despeito de suas limitações, tentando fazer seu trabalho. O problema é quando ele fraqueja. Antes de ser um profissional da educação, o professor é gente. Quando fraqueja, no mais das vezes, estará sozinho. Vão dizer a ele o que ele já sabe: que ele deve se informar, que ele deve falar a língua do jovem...

Na prática, não há, nos cargos de comando, contundentes profissionais (na teoria, há) a perguntar para os estudantes se eles tentam entender a linguagem dos professores ou se eles, estudantes, estão dispostos a agir em consonância com a ideia de que o caminho do conhecimento é trabalhoso. Não dizem que o aluno terá de estudar demais e terá de aprender a falar corretamente se quiser ir mais longe em si mesmo. Não perguntam aos estudantes o que eles têm feito para assimilarem o legado dos que vieram antes deles.

Sempre resguardadas as exceções, os que estão no comando burocrático da educação serão contundentes com apenas um dos lados da moeda, o lado de quem está empenhado em passar para os alunos coisas que o mundo fora da escola não diz a eles. Nesse cenário, o professor fica sozinho. Volta para casa remoendo a deselegância do estudante ou a incompreensão dos que ocupam cargos de chefia, que, na maioria das vezes, terão o discurso usual, o de que faltou nele, professor, o traquejo, o manejo ou a experiência para saber dialogar com a juventude.

Essa juventude, que ainda não aprendeu que o mundo das ideias é bem mais profundo do que uma mensagem em aplicativo de celular, seguirá mimada. Para boa parte dos que estão no comando burocrático da educação, basta que o professor seja uma espécie de animador de auditório como os que há em programas dominicais para ser considerado bom; alunos ingênuos pensam de modo similar. Os comandantes continuarão a adular os jovens, mesmo quando fazem de conta que não adulam. Os jovens, por sua vez, seguirão cheios de si, numa empáfia que é típica da idade e que é incentivada por quem deveria estar dando apoio aos professores. Há todo um aparato dentro do sistema escolar dizendo para o professor, o tempo todo, o que ele deve fazer; não há nem esboço de estrutura similar a sugerir para os estudantes o que eles deveriam fazer. Nada se fala do papel do aluno na melhoria da educação. A juventude seguirá blindada; os professores seguirão desguarnecidos.

Boa parte da sociedade culpa os docentes. Boa parte do sistema educacional culpa os professores. Nesse massacre, muitos dos que lecionam passaram mesmo a acreditar que são de fato os culpados pelo desastre que a educação se tornou, pois é isso que os detratores reiteradamente apregoam. Qualquer professor trocaria as mensagens açucaradas vindas deles ou de burocratas em quinze de outubro por atitudes firmes de apoio nos demais dias. 

sábado, 21 de outubro de 2017

O que ficará para o filho?

Concordo com as respostas dadas pelo garoto espanhol na foto desta postagem. Isso não quer dizer que eu discorde do resultado que a professora esperava. O enunciado é dúbio; dizia: “Escribe con cifra los siguientes números”. O problema da questão é a ambiguidade. Mas a professora não merece o calvário nem pelo “x” que escreveu por cima das respostas nem por esperar que fosse outra a solução dada pelo estudante.

O pai do menino, Ignacio Bárcena, postou no Twitter uma foto do exercício com as respostas do filho; junto à imagem, Bárcena escreveu: “Aquí va un ejercicio de mates de mi hijo (7 años). Yo creo que quien no lo ha entendido bien es el profe.@RaquelMartos”.

Os desdobramentos disso já foram bem divulgados. Como ocorre nessas ocasiões, as opiniões “pedagógicas” e as hipérboles surgem como filhotes de coelho. O cineasta Juan José Campanella escreveu postagem em defesa do filho de Bárcena: “Es un genio tu hijo. Escribió literalmente los números ‘siguientes’, jaja”.

No fundo, acho que Campanella fez uma brincadeira ao dizer que o menino era gênio. Mas não custa dizer que o fato de o garoto ter respondido do modo como respondeu não o torna genial. A resposta dele, claro, é só consequência do modo como as crianças interpretam as coisas. Como já esperado sempre que algo similar ocorre, há toda a cantilena sobre o papel da escola e dos professores.

Não se falou, contudo, sobre a atitude do pai em tornar pública a discordância dele, expondo, de modo desnecessário, a professora; ela não foi autora de um crime. Como pai, é óbvio que ele tem o direito de discordar da correção de algum exercício feita pela professora. A falta de tato dele está em dizer publicamente que quem não entendeu bem foi ela. Que o pai do garoto tentasse resolver isso com ela. Sugerir em público que a professora errou é infantil. Questionar é diferente de expor.

Sei que há professores obtusos; talvez o pai do menino tenha tentado argumentar com a professora, defendo as respostas dadas pelo filho dele. Nesse ambiente que imagino agora, pode ser que Bárcena tenha decidido tornar públicas as respostas do filho dele por causa de hipotética recusa da professora em acatar as respostas do menino. Ainda que isso tenha ocorrido, isso não anula a infantilidade dele ao exibir o que a profissional fez. (Será que ele, pessoalmente, já elogiou alguma professora do filho dele?)

Isso são cogitações, pois não achei nenhuma matéria sobre os bastidores do imbróglio. Contudo, mesmo num cenário assim, caberia ao pai não a deselegância ao dar publicidade ao ocorrido, mas procurar resolver a situação com a colaboração de outros profissionais da escola. Lamentável: em redes sociais não se diferencia o público do privado. Nesse episódio, ficará algo para o filho? Caso sim, que seja o benéfico questionamento do pai, e não o modo como ele tratou o caso.
_____

P.S.: depois e publicar o texto, li, há pouco, mea-culpa de Ignacio Bárcena: “Para que conste, mi hijo piensa así gracias a profes como el que tiene y los que tuvo, que fomentan cada día su creatividad”.  

segunda-feira, 27 de março de 2017

Poemas de minha autoria em prova da UFU


A UFU, Universidade Federal de Uberlândia, tem a chamada prova de portador de diploma. Ela é aplicada para quem já tem uma graduação e quer fazer outra graduação em área similar.

Recebo informação de que três poemas de meu penúltimo livro, o Dislexias, fizeram parte da mais recente prova de literatura da prova de portador de diploma. Nesta postagem, foto da página da prova em que há a questão que contém meus poemas. Abaixo, a transcrição dela.
_____

Questão 01

Texto I

Casou-se numa bela
manhã de sábado. 
Estava linda. 
Há coisas de meses, 
nem suspeitava de que 
casar-se-ia 
de fel e grinalda.

MEDEIROS. Lívio Soares de. Dislexias. Lisboa. Chiado. P. 25.

Texto II

Passar a matéria 
no quadro ou não? 
Eis o giz da questão.

MEDEIROS. Lívio Soares de. Dislexias. Lisboa. Chiado. P. 37.

Texto III

O envolvimento com a leitura, 
a busca pelas palavras, 
as tentativas de publicação. 

Serei olvido.

MEDEIROS. Lívio Soares de. Dislexias. Lisboa. Chiado. P. 42.

Considerando a leitura dos poemas (textos I, II e III) e seus recursos estilísticos, pode-se afirmar que

A) a ironia perpassa os poemas e revela o desencanto do eu lírico.
B) a aliteração dá, em cada poema, nova roupagem a expressões populares.
C) o eufemismo renova a experiência estética do leitor em cada poema.
D) o trocadilho dá fundamento ao entendimento de cada poema. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Pressa

Num tempo em que tudo tem de ser rápido, em que nada pode demandar esforço, qualquer texto de dez linhas já é chamado de textão. Ao se deparar com a disposição das palavras no papel ou na tela, o leitor nem começa a leitura. Há mais o que fazer. No tempo da pressa, o mínimo já é demais. O amor tem de ser feito com pressa, a leitura não pode demandar mais do que alguns segundos, a atenção não pode se concentrar por mais de alguns minutos.

Se não se reserva tempo para se apreciar coisas que demandam algum esforço, nem é preciso dizer que o tempo dedicado a coisas que exigem disciplina por parte de algum criador é buscado por poucos. Nem tanto porque deixam de realizar porque terão público pequeno (eles sabem de antemão que o público será restrito), mas porque há poucos que não caíram na armadilha da rapidez, do conhecimento que vem fácil, da felicidade virtual ou da que vem por meio de fármacos.

O texto tem de ter poucas linhas, os cortes no filme precisam ser rápidos, os diálogos na vida real não podem ser profícuos. Tudo tem de ser rápido, tem de ser palatável. Nada pode dar trabalho, nada pode exigir esforço, nada pode demandar concentração.

A escola, que deveria ser por excelência o espaço do pensamento e da disciplina (não a disciplina militar), acaba se rendendo ao mundo da rapidez e do entretenimento. Em busca de uma linguagem que esteja em sintonia com o que a contemporaneidade tem de perigoso e de prejudicial, a escola, não raro, acaba investindo em estratégias tão superficiais e fugazes quanto as futilidades do mundo da rapidez e da ilusão das coisas fáceis.

Alega-se que o professor que não tiver a habilidade de ser uma espécie de dublê de animador de programa de auditório de consumo fácil nem tiver sempre uma apresentação qualquer (qualquer mesmo) para ser projetada numa parede ou numa lousa branca não fará sucesso. Esse professor, nesse viés, não conseguiria se comunicar com as novas gerações, que estão conectadas, que têm informação nas pontas dos dedos, que têm acesso imediato ao que está do outro lado do mundo.

O caso aqui não é o de compor um manifesto contra a tecnologia e suas praticidades. Isso seria patético. A questão é que, para soar sedutora, a escola, com frequência, acaba embarcando em modismos que, em essência, retiram da pessoa uma das coisas mais poderosas que ela tem, que é a capacidade aprimoramento mental.

Num mundo em que tudo tem a obrigação de ser fácil, agradável, indolor, engraçado, charmoso, sedutor e carismático, professores que não ficam fazendo macaquices em sala de aula têm, amiúde, a competência colocada em dúvida, às vezes a ponto de serem demitidos. Certa vez, numa pós-graduação, um docente teve avaliação ruim por parte dos alunos a partir de critérios que são sintomáticos da contemporaneidade: segundo vaticínio dos discentes, que não eram mais de vinte, o professor era incompetente porque falava baixo, dava aula sentado, não era engraçado e não se valia de eslaides.

Mesmo no ensino superior, o pensamento de que as coisas vêm fáceis e de que devem ser transmitidas com facilidade tem imperado. As pessoas querem rapidez, querem o sucesso agora, não podem dedicar anos de suas vidas ao cultivo de um ideal, de uma habilidade, de um aprendizado, de um livro. Para estar em sintonia com o que é contemporâneo, a rapidez é condição de que não se pode abrir mão. Quem tem uma abordagem que não se pareça com isso estaria obsoleto, retrógrado, sem graça, ranzinza.

O conhecimento não impede o humor, a leveza, o gracejo. Mas não se pode ter medo de mostrar às pessoas que o conhecimento de que essas mesmas pessoas se valem não veio no tempo de uma conversa num aplicativo de celular. Conhecimento e felicidade genuína demandam esforço, disciplina. Nem a escola nem o cinema nem a televisão nem os livros precisam ser caretas, engessados. Mas é preciso não cair na ilusão de que aquele que, em uma hora, deu uma olhadela em trinta páginas na internet, ouviu quinze ou vinte músicas, bateu papo em aplicativos eletrônicos em trinta e três grupos e acompanhou o jogo pela televisão ganhou mais do que aquele que passou esses mesmos sessenta minutos concentrado na leitura de algum livro, ainda que esteja ele carcomido pelas traças. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Os institutos federais e o Enem

O governo de Temer havia optado por não tornar público o desempenho dos institutos federais no Enem de 2015. Na noite de ontem, a IstoÉ, pró-Temer, divulgou em seu site que o desempenho dos institutos será divulgado.

Ainda de acordo com a IstoÉ, houve, por parte do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), “equívoco na interpretação da legislação por parte da equipe técnica que fez os cálculos para a divulgação dos resultados do Enem 2015 por escola e, por isso, os institutos federais não foram incluídos”. Segundo a revista, os resultados dos institutos federais no Enem serão divulgados “tão logo seja possível”, seja lá quando for isso.

Nos institutos federais, o estudante que faz um curso técnico integrado ao ensino médio está apto a prestar o Enem. Só que além do ensino médio, esse estudante, ao mesmo tempo, faz um curso técnico. Aqui em Patos de Minas, por exemplo, há dois cursos técnicos integrados ao ensino médio: o de eletrotécnica e o de logística; a cidade tem campus do IFTM — Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro.

Embora não seja, a rigor, obrigação dos institutos federais preparar os estudantes para o Enem, eles têm se saído bem no exame e em vestibulares. Alguns alunos do campus Patos de Minas, a fim de treinarem, já prestaram vestibular em universidades federais, tendo obtido sucesso. No ano que vem é que as primeiras turmas (duas) completarão o ensino médio.

Causa estranheza a recusa inicial do governo em não divulgar os resultados dos institutos federais no Enem do ano passado. Esse tipo de informação está longe de ser segredo de Estado. O que diz respeito à educação deve, sim, ser transparente, seja o desempenho ridículo ou excelente. É direito da população ter acesso a esses dados.

Há quem tenha aventado a possibilidade de que a decisão inicial de não divulgar o desempenho dos institutos federais no Enem tenha ocorrido a fim de que o resultado das escolas particulares ficasse em evidência, para que o governo, posteriormente, alegasse que a educação pública está de mal a pior, e precisaria, por isso mesmo, de passar por mudanças. Claro que não sei se a intenção real do governo é essa; seja ela qual for, se a decisão inicial havia sido a de não divulgar o desempenho dos institutos, isso é, para dizer pouco, estranho. A educação precisa de melhoras, mas esconder dados está longe de ser estratégia de incremento.

Sou professor do IFTM. Se, por um lado, sempre é preciso debater, desde que consultada a população, o que pode ser feito para que a educação melhore, por outro, sou testemunha de que, no todo, a situação dos institutos federais, antes de Temer, estava longe de ser periclitante. Se o atual governo federal, com intenções espúrias, vai fazer com que os institutos fiquem sucateados, ainda não há como saber.

O governo em si é o dado negativo nesse cenário; o dado positivo diz respeito ao protesto que alguns institutos federais realizaram, com a participação de servidores e de alunos. Há dias, o ministério da educação anunciara que não haveria nem filosofia nem educação física no ensino médio; depois, voltou atrás, dizendo que a divulgação havia ocorrido devido a engano. Agora, volta atrás quanto à não divulgação do desempenho dos institutos federais no Enem. Não sei se de fato o governo reconsiderou as decisões devido à pressão de parte da população. Independentemente disso, não nos calemos. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

EMPREENDER COM EMOÇÃO

Houve uma época em que a expressão “inteligência emocional” se espalhou mais do que o mosquito da dengue, num tempo em que este não se espalhava tanto como hoje. A tal da inteligência emocional foi um modismo. Não que o conceito estivesse errado (há séculos, sabe-se que a inteligência abarca mais do que habilidades com números), mas era apenas uma expressão marqueteira para se referir a ideias antigas, que há séculos habitam, por exemplo, o mundo da literatura. O engodo reluziu: a inteligência emocional vendeu livros, invadiu as escolas. A estratégia de dar nomes novos para coisas velhas passa, para os desavisados, a ideia de que estão antenados com o que há de mais ousado e inédito, quando estão, na verdade, revisitando (mal) velhos terrenos. Isso deu lucro.

Hoje em dia, a palavra da moda é “empreendedorismo”, que tem se espalhado mais do que o mosquito da dengue, num tempo em que este se espalha muito. O tal do empreendedorismo é um modismo. Não que o conceito esteja errado (há séculos, sabe-se que é preciso criar o novo e ter conhecimento), mas é apenas um termo marqueteiro para se referir a ideias antigas, que há séculos habitam, por exemplo, o mundo dos negócios. O engodo reluz: o empreendedorismo vende livros, invade as escolas. A estratégia de dar nomes novos para coisas velhas passa, para os desavisados, a ideia de que estão antenados com o que há de mais ousado e inédito, quando estão, na verdade, revisitando (mal) velhos terrenos. Isso dá lucro. 

sábado, 5 de dezembro de 2015

APONTAMENTO 295

Ora, já que a educação é um produto, pode-se descer o cacete à vontade: um produto não sente dor. 

O PRODUTO DA EDUCAÇÃO

Para alguns empreendedores, 
educação é um produto.

Para alguns empreendedores, 
educação é um produto
em que se pode bater com cassetete.

Para alguns professores, 
educação é gente. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

APONTAMENTO 221

Em Minas Gerais, desejar aos professores um feliz dia e dizer que vota no Aécio é contradição em termos. 

APONTAMENTO 220

Ah, a retórica... Ela pode ter o lado ruim: muita gente adora falar bem do dia dos professores. Até mesmo alguns alunos que em sala são desrespeitosos com quem ensina. 

sábado, 11 de outubro de 2014

PARA ZILMA

Tive hoje o prazer de reencontrar minha professora da segunda série do primário: Zilma Maria de Brito Cardarelli. (Acho que hoje a segunda série do primário se chama terceiro ano.) Fui aluno da Zilma em 1978. Depois disso, perdemos contato um com o outro. Hoje, ela mora em Uberlândia.

Fui aluno dela na Escola Estadual Frei Leopoldo. Salvo engano, agora se trata de uma escola municipal. Na época, o Frei Leopoldo ficava na rua Minas Gerais, esquina com avenida Brasil. Hoje, na edificação que fica bem na esquina, há um comércio; sobre este, morada residencial. Na edificação cuja entrada fica na Minas Gerais, há uma creche.

De vez em quando, eu lecionava para algum aluno de sobrenome Cardarelli. Sempre que isso ocorria, eu, invariavelmente, perguntava. “O que você é da Zilma Maria de Brito Cardarelli?”. Recebendo confirmação de parentesco, eu pedia que enviassem meu abraço para ela.

Lembro-me de que no fim daquele distante 1978, a Zilma me deu uma régua toda invocada, toda cheia de estilo. Eu a usei por vários anos. Acompanhando a régua, um cartão, que ainda tenho. No cartão, a caligrafia tão familiar, tal qual era na lousa — tombada para a direita e muito legível.

Um dos filhos da Zilma está hoje aqui em Patos de Minas. Além de ser formado em artes visuais, ele é músico; logo mais, à noite, vai se apresentar num dos bares da cidade. A família da Zilma e eu combinamos que estaremos por lá, celebrando a música.

No reencontro de hoje, nós nos divertimos quando comentei com a Zilma uma história que ocorrera quando fui aluno dela: tendo visto pela TV alguém usando um casaco sobre os ombros, sem, de fato, vesti-lo, tomei a decisão de ir para a escola paramentado como o cara que eu vira na televisão.

Estava fazendo um calorão danado; para piorar, eu estudava no turno da tarde. Minha mãe bem que tentou me demover da ideia ridícula; eu, teimoso como burro, joguei uma blusa quentíssima sobre os ombros e fui a pé para a escola.

Mal tendo me visto, a Zilma foi logo me perguntando o que eu estava fazendo com uma blusa quente pendurada nos ombros num calorão daquele. Não vacilando, tirou a blusa de meus ombros e fez com que eu a guardasse num vão da carteira entre a parte de cima dela e meu joelhos.

Não me dando por vencido, maquinei um plano: quando chegasse a hora do recreio, eu pegaria a blusa e sairia com ela sobre os ombros. Chegada a hora, peguei a vestimenta, comecei a caminhar de fininho e já fui a jogando sobre as costas.

Minha pressa em ajustar a blusa nos ombros me delatou. Quando eu já estava próximo à porta, a Zilma constatou minha tramoia. Incontinente, pediu que eu me aproximasse da mesa em que ela estava. Cheguei perto. Ela então pegou a blusa, dobrou-a e a guardou no vão da carteira. Fui para o recreio sem a blusa pendurada nos ombros.

A você, Zilma, muito obrigado por tudo. Lembro-me da experiência com o grão de feijão e do macete que você nos passou para que diferenciássemos os sinais “<” e “>”. Eu não poderia imaginar, na época, meu destino profissional. Fico feliz em saber que eu acabaria exercendo a mesma profissão que você exerceu. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

"PARKOUR"

Ontem, no estacionamento do campus do IFTM — Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia —, em Patos de Minas, às 20h30, ocorreu uma apresentação da modalidade conhecida como “parkour”. Segundo verbete da Wikipédia, “‘parkour’ (por vezes abreviado como PK) ou ‘l'art du déplacement’ (arte do deslocamento) é uma atividade cujo princípio é mover-se de um ponto a outro o mais rápido e eficientemente possível, usando principalmente as habilidades do corpo. Criado para ajudar a superar obstáculos de qualquer natureza no ambiente circundante — desde galhos e pedras até grades e paredes de concreto —, pode ser praticado em áreas rurais e urbanas. Homens que praticam ‘parkour’ são reconhecidos como ‘traceurs’, e mulheres, como ‘traceuses’”.




























terça-feira, 7 de janeiro de 2014

"EDUCAÇÃO"

Assisti na madrugada que passou ao filme “Educação” [An education], lançado em 2009. Recomendadíssimo. A direção é de Lone Scherfig; roteiro de Nick Hornby. O filme é baseado num livro de memórias escrito por Lynn Barber (o roteiro de Nick Hornby também foi lançado em formato de livro).

Há texto de Barber em que ela comenta sobre a surpresa que foi quando a procuraram para adaptarem as memórias dela para o cinema. O que ela conta em “An education” é o relacionamento que ela teve, no começo da década de 60, com Simon Goldman (não é o nome real; no filme, o nome, também fictício, é David) quando ela tinha dezesseis anos.

De acordo com Barber, Simon dissera ter vinte e sete, mas, ainda segundo ela, ele deveria estar se aproximando dos quarenta. Ela, desde que nascera, tinha um destino traçado: estudar em Oxford. Tanto que ficou muito surpresa quando obteve dos pais a autorização para que saísse à noite com um cara desconhecido e mais velho do que ela, em vez de ter de ficar em casa estudando.

Tanto gostei do filme que assim que terminei de assisti-lo fui buscar informações. Fuça daqui, fuça dali, eu me deparei com um texto de Barber, com aproximadamente nove páginas, em que ela conta ou resume a história dela com Goldman. O texto foi publicado no jornal The Guardian, e pode ser conferido aqui.

O que me chamou a atenção foi o quanto o texto dela publicado no jornal proporciona uma bela oportunidade para se refletir sobre o que a arte e suas “mentiras” podem fazer com a realidade. Na abertura do trabalho, Barber conta, de modo direto, que estava esperando ônibus, depois de sair de um ensaio, quando um estranho (Goldman), num carrão, ofereceu carona; a despeito das recomendações de que uma garota não deveria aceitar carona de estranhos, ela entrou no carro.

No roteiro de Nick Hornby, há chuva na cena inicial enquanto Barber, encharcada, espera no ponto de ônibus. Goldman encosta o carro, dizendo estar preocupado com o violoncelo dela. Embarcando na brincadeira, ela coloca o violoncelo dentro do carro, mas não entra: Goldman dissera que entenderia se ela não quisesse entrar; afinal, não se deve aceitar carona de estranhos.

Barber começa a caminhar na chuva. Goldman, bem devagar, segue com o carro ao lado dela, enquanto conversam. Manhoso, bem-humorado, ele logo a convence a entrar no carro, dando início à convivência entre os dois, na qual ela logo aprenderia sobre um mundo feito de charme, conversas inteligentes e viagens.

Essa cena ilustra muito bem o que talento, inteligência e imaginação são capazes de fazer com uma realidade que pode não ser tão interessante assim. A narrativa de Barber no jornal The Guardian é “seca”: não havia... chuva... Barber “simplesmente” entrou no carro após o convite; no roteiro de Hornby, além da chuva, houve todo um diálogo esperto entre os personagens.

A comparação entre o que houve e o que Hornby fez do que houve oferta possibilidades de reflexão sobre a realidade, substrato da arte, e o que ela, a arte, faz com esse mesmo substrato. Hornby, por assim dizer, inventa uma realidade, ele nos conta uma “mentira”, que é, convenhamos, no caso específico, mais interessante do que o retrato fiel da realidade.

O Quintana escreveu que “a imaginação é a memória que enlouqueceu”. Em sua “loucura”, Hornby se valeu da memória de Barber para criar um roteiro que, se por um lado, preserva a moldura da narrativa da escritora, por outro, cria uma outra história que é vigorosa em imaginação, sem com isso pecar pela falta de verossimilhança.

Quando a realidade vai para o papel, o que está no papel não é a realidade em si. Chamam isso de simulacro, que é, nesse sentido, uma representação da realidade. Ainda que um texto seja o mais fiel que conseguir à realidade que conta, o texto em si não é a realidade — é um simulacro dela. Nessa acepção, qualquer forma de arte é um simulacro.

Não sei se o livro de Lynn Barbar é bom; na Amazon, pode-se dar uma espiada em alguns trechos dele, o que fiz durante a madrugada. Como o roteiro de Nick Hornby também está à venda, vou comprar o livro e o roteiro. Afinal, tudo ensina, tudo serve para a educação, seja um simulacro, seja uma pessoa. 

terça-feira, 7 de maio de 2013

CAMPUS DA UFU EM PATOS DE MINAS

A localização definitiva da UFU em Patos de Minas ainda não foi definida. Em novo capítulo da história, foi sugerida a instalação do campus local da universidade num terreno que fica próximo à Escola Agrícola. Minha sugestão é que tal campus seja instalado em Paris. Afinal, por aqui, é comum dizerem: “É Patos ou Paris”...