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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O nome

Serra da Saudade.
Pode haver lugar mais bonito.
Não há lugar com
o nome mais bonito. 

Horário

Nasci num domingo.
Exatamente às 15h.
Não me lembro de
muita coisa, não. 
Quando percebi,
já era tarde demais. 

O morto e o vivo

O morto não lê.
O vivo esbanja ignorância.

O morto não enxerga.
O vivo divulga cegueira.

O morto não ama.
O vivo tortura.

O morto não furta.
O vivo trapaceia.

O morto não sonha.
O vivo tem pesadelo.

O morto não adoece.
O  vivo é doentio.

O morto não tem pressa.
O vivo fura o sinal vermelho.

O morto não ressuscita.
O vivo inventa o terceiro dia. 

Cansaço

Cansado de Brasil, 
cogitou mudar de país.
Cansado de Brasil, 
pensou em desistir de si.
Cansado de Brasil, 
ficou sem ver gente o dia todo.

Cansado de Brasil, 
tomou longo banho,
descansou por horas,
refugiou-se em si.
Voltou à tona,
não descansado de Brasil,
mas revigorado no país
que, há décadas, faz em si. 

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Ventos

Se bem me lembro,
ventos do mês de agosto
chegam a setembro. 

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Três em um

Em nome de deus, morte.
Em nome da pátria, milícia.
Em nome da família, mentira.

Em nome de deus, mentira.
Em nome da pátria, morte.
Em nome da família, milícia. 

Em nome de deus, milícia.
Em nome da pátria, mentira.
Em nome da família, morte. 

Em nome da mentira, Jair.
Em nome da milícia, Messias.
Em nome da morte, Bolsonaro. 

domingo, 21 de agosto de 2022

Grilhões

É coisa antiga:
inventam,
de tempos
em tempos,
um deus-carrasco.
Velhos testamentos
provam a invenção.

É invenção antiga:
elevam,
de tempos
em tempos,
à categoria de deus,
um carrasco.
A ascensão de Jair
prova a baixeza. 

terça-feira, 5 de julho de 2022

A praga

Pragueja contra o vento.
Pragueja contra a chuva.
Pragueja contra o calor.
Pragueja contra o frio.

Pragueja contra
a primavera,
o verão,
o outono,
o inverno.

Pragueja contra dias nublados.
Pragueja contra céus azuis.
Pragueja contra Saturno.
Pragueja contra a Via Láctea.

Não se dá conta de que
a praga deste mundo
é quem pragueja,
quem não pragueja. 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Para-si-mesmos

Álvaro de Campos, um dos heterônimos do Fernando Pessoa, no poema “Tabacaria”, escreveu sobre aqueles que são “gênios-para-si-mesmos sonhando” com grandes realizações, sem, contudo, concretizá-las. O texto menciona “cem mil cérebros” se concebendo como gênios, mas que nada realizaram. Pior ainda do que um “gênio-para-si-mesmo” é um “gênio-para-si-mesmo” ressentido porque não tem seu talento-para-si-mesmo reconhecido. 

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Culto

Ministro abre o MEC para dois pastores.
Aleluia, irmão!

Ministro manda inserir a cara dele em impressão de Bíblias.
Aleluia, irmão!

Só recebendo ouro, pastor libera recurso. 
Aleluia, irmão!

Só abrindo igreja, pastor libera verba.
Aleluia, irmão!

Só recebendo dinheiro, pastor libera obra.
Aleluia, irmão!

Ciente, mandatário não demitiu ministro.
Aleluia, irmão!

Enquanto isso, mandatário torra grana com cartão corporativo. 
Aleluia, irmão!

Deus proverá inocência.
Aleluia, irmão! 

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Bulgákov e Drummond

O russo Mikhail Bulgákov é autor de uma novela intitulada Morfina. O narrador, um médico, está a trabalho num ermo russo, numa pequena localidade. Convive com pacientes e com colegas de trabalho. O médico se envolve com uma enfermeira. Escreve ele: “Anna K. tornou-se minha amante. Não podia ser diferente, de jeito nenhum”. Posteriormente, o Drummond escreveria: “Que pode uma criatura senão, / entre criaturas, amar?”. 

Não país

O rico finge falar inglês ou ser europeu.
A classe média finge ser rica.
O país que nunca foi finge que é
enquanto o pobre, sem fingir,
cata comida no lixo.

O Brasil, arremedo de país,
feito de um arremedo de consciências,
louva um arremedo de estadista
com base num arremedo de jornalismo. 

Haicai

Orgulho na chacina.
Matar pobres e pretos,
consideram faxina. 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Controle populacional

E se não houver câmara de gás?
A polícia faz uma no camburão.

Por acaso, um pobre vivo?
A polícia já vai cuidar disso.

É um preto o que vem ali?
A polícia cuida de apagá-lo.

Os índios estão na terra deles?
Calma: a polícia vai queimá-los.

Querem chacina para hoje?
Deixem a polícia cuidar disso.

Enquanto se fingem indignados,
alguns na classe média sorriem.

O presidente virulento aplaude a polícia,
mãos sangrentas aplaudem o presidente.

Fotopoema 425


 

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Cão

É um cão raivoso.
Meio amorfo,
mas um cão.
Mas raivoso.

Não sabe
que é meio amorfo,
que é um cão,
que é raivoso,
que foi adestrado.

O adestrador
não se identifica.
Atende por 
nome genérico —
mídia.

O cão raivoso
baba,
late,
morde.

Visto de longe,
parece um 
cidadão de bem. 

terça-feira, 26 de abril de 2022

Cardápio

Senhoras e senhores,
o governo federal liberou:
o câncer está servido.
Pode ser degustado
em grãos, em carnes, 
em verde ou em goles.
Águas fascistas 
irrigaram as lavouras, 
“chefs” renomados
temperaram os venenos.
Apreciem o cardápio.
Os ossos irão para o lixo.
Do lixo, para os pobres.
Nossa democracia
é genocida,
nosso genocídio 
é democrata.
Bom apetite. 

Mourão e messias

Um é mourão: cerceia.
Outro é messias: engana.
O exército comporta ambos.

Um é leite condensado.
Outro é remédio excitante.
O exército goza — de ambos.

Gênese

No princípio era o verbo.
Escolheu não caber em si.
Criou os corpos celestes.
Todo corpo é celeste. 

Chão e céu

Não há anjo para me salvar.
Não há demônio para me seduzir. 
O que há sou eu.
Libero meus anjos
e meus demônios. 
Sou anjo caído.
Sou homem elevado.