terça-feira, 31 de março de 2015

EM CORES

Bruna é branca.
Barry White é preto. 
O senhor Brown é amarelo. 
Clara é morena.

Na pele, 
o que conta
não é a cor, 
mas o arrepio. 

segunda-feira, 30 de março de 2015

BREVE NOTA SOBRE "VIDA DE JESUS"

Ernest Renan, em seu “Vida de Jesus”, defende um Jesus histórico, mas não menos admirável. O autor ousa não somente ao negar os dogmas, mas também por interpretar à luz da história e do rigor científico o que teria ocorrido com Jesus. Se lido com espírito aberto, espírito que deve ser, a rigor, o de toda leitura, Renan tem muito a ensinar sobre a arte de ler e sobre a arte de interpretar. Lidando com um grande personagem, o historiador compôs um livro formidável. Negando o pilares de uma tradição edificada depois da morte de Cristo, Renan postula que não houve os milagres nem houve a ressurreição atribuídos a Cristo, mas não deixa de tornar clara a complexidade de seu personagem, evidenciando, ao mesmo, seu caráter humano. 

O REENCONTRO

Recentemente, perdi parte de meus livros, por eles terem mofado. Quando me dei conta de que o mofo danificara parte do acervo, retirei todas as obras da estante e comecei a escarafunchar livro por livro, separando os que teriam de ser jogados fora.

Desde então, tenho adiado o retorno deles para a estante. Uma infiltração na parede causou o mofo. O problema da infiltração já foi resolvido. Anteontem, deixei de lado a preguiça e comecei a voltar os livros para os lugares em que estavam.

O lado bom é que estou lidando com obras com as quais eu não tinha contato há um tempão. Revirar papéis antigos é um modo de visitar nosso passado. Os livros ou os papéis são também nossas circunstâncias. Assim, o retorno dos livros para a estante tem sido moroso nem tanto pelo tamanho do acervo, mas pelas lembranças que vão trazendo.

A despeito da perda de dezenas de livros, o contratempo teve algo de bom: há tempos eu dava como perdido o livro “The encyclopedia of things that never were” [A enciclopédia das coisas que nunca existiram], de Michael Page e Robert Ingpen. Para ser honesto, havia uma ambivalência em mim, pois, se por um lado eu dava como certo o sumiço da obra, por outro, a esperança de tê-la outra vez em mãos nunca me deixou.

Eu já poderia ter encomendado outro exemplar, mas ficava adiando. E não é que me reencontrei com o livro? Ele não foi nem um pouquinho afetado pelo mofo. Voltando, um por um, os livros para a estante, tive a felicidade de voltar a ter em mãos um dos mais inspirados trabalhos a que já tive acesso. Minha imaginação pega fogo, enche-se de entusiasmo quando o leio. O ludismo que tem faz bem para o espírito, levando-nos a criaturas, lugares e pessoas que existem graças a um dos maiores bens que temos — a imaginação. 

SUCESSO PARA DUNGA

Dunga não faz o perfil técnico de butique que fica pedindo as bênçãos da Globo. Pelo menos é o que deixa transparecer. Torci por ele quando da primeira passagem dele pela seleção como técnico; torço por ele agora. 

É claro que vibrei em 1994, quando Parreira era o técnico, bem como vibrei em 2002, quando o técnico era Filipão. Mas esses dois seguem os ditames da Globo, ainda que Filipão tentasse passar uma imagem de rebeldezinho. 

Dunga parece ser um rebelde. Ele foi escorraçado pela mídia quando de sua primeira passagem no comando da seleção. Mesmo isso tendo ficado no passado, ele está longe de ser o queridinho dos meios de comunicação. Erros que em outros seriam camuflados, nele serão ampliados. Pequenos acertos de outros seriam tratados como coisas de gênio; grandes acertos de Dunga, se vierem a existir, serão tratados como movimento corriqueiro.

Estando de volta, Dunga tem sido bem-sucedido até agora. Ainda não houve competição oficial depois do fiasco da seleção na Copa. Seria inútil arriscar como será o desempenho dele no porvir. Mas para os que dizem que ele não entende de futebol, vale lembrar que aqueles que se jactavam como especialistas do esporte tomaram goleada de sete a um. Dunga ainda não levou uma dessas. Se um dia ele vier a disputar uma Copa como técnico, que dela saia como saiu na de 1994. 

sexta-feira, 27 de março de 2015

(DES)APONTAMENTO 22

“Soneca, Dengoso, Feliz, Atchim, Mestre, Zangado e Dunga” foi a resposta de Branca de Neve, quando perguntada sobre quais eram as sete maravilhas do mundo. 

"VOU MORAR NO AR"

APONTAMENTO 241

O humor está a serviço de algo. Pode estar a serviço de si mesmo. Mesmo estando sempre a serviço de algo, ele pode prestar desserviço; ele presta desserviço quando tripudia de características físicas ou de desventuras. Uma coisa é fazer humor com a atuação profissional do Nestor Cerveró; outra bem diferente é a tentativa de soar engraçado às custas da aparência dele. Sempre tive comigo que o humor dependente das características físicas ou das tragédias fosse indício de falta de criatividade.

A Cynara Menezes foi incisiva (ela grafa tudo com minúsculas em alguns textos) ao escrever que “é grande a tentação de fazer ‘graça’ com o defeito físico do nestor cerveró. quem resiste a ela tem caráter. quem não resiste não tem. simples”. Eu nunca havia associado esse tipo de humor a falta de caráter. Sendo ou não falta de caráter, o humor é nobre demais para não ser inteligente. 

OS HOMENS QUE FUMAM ÓPIO

“Graham Greene, no último dia do ano de 1953, em Saigon, fumou ópio, numa sala reservada para si. Ao lado de uma cama redonda, havia uma estante cheia de livros. Dois deles eram do próprio Greene, que escreveu dedicatória em cada um deles. Ele conta essa história em seu ‘Ways of escape’.

“Em 1956, visitando Saigon, eu queria fumar ópio. Numa dessas coincidências literárias, fui parar exatamente na sala em que Greene estivera. Sei disso pelo fato de que os dois livros nos quais ele escrevera as dedicatórias estão agora em minha casa. Se por um lado não me regozijo do furto, por outro, não me arrependo”.

Meu nome é Tito Branco. Quando li os dois parágrafos acima, que estão na autobiografia do aclamado escritor Lucas Bridge, meus lábios esboçaram sorriso sutil com um toque de vaidosa malícia. A autobiografia dele, descobri lendo os trechos que citei acima, tem toques de ficção. Enquanto fumo ópio, aqui em minha casa, em Uberlândia, contemplo os dois exemplares assinados por Graham Greene lá em Saigon. 

O GOL ENSINA

Só ontem é que conferi o gol do Robinho, do Palmeiras, ontem, contra o São Paulo. Que golaço! Tudo bem que qualquer lance não só do futebol, mas da vida, depende de uma série de fatores. Todavia, diante de um gol daqueles, somos quase que inevitavelmente levados a pensar um monte de coisas. Uma delas é o óbvio de que mais meio metro para lá ou para cá, e não teria havido gol.

A precisão do chute é louvável; além do mais, não bastasse a precisão, houve a beleza. Por fim, do tiro do Robinho, tiremos lição: é preciso arriscar. Essa é uma das coisas bonitas que o futebol ensina. Arrisquemos. Ousemos. Desafiemos o improvável. Não tenhamos medo do ridículo. Vai que a bola entra. 

DOIS TONS DE POLÍTICA

Poucas pessoas conseguem falar de política sem serem áridas. O Verissimo é uma delas. No caso dele, quando não há humor, ainda assim há leveza, o que não significa raciocínio tacanho. É um tom que pode divertir, ao mesmo tempo em que faz refletir.

Vira e mexe (como diria minha mãe), eu me lembro do Mujica. Quando trata de política, o tom dele é espetacular. Ele não tem o humor do Verissimo, mas tem a leveza, o lirismo, o sonho. É incrível como ele consegue ser contundente sem ser recalcitrante. Ele é incisivo, pragmático, sem ser rançoso. 

quinta-feira, 26 de março de 2015

RECEITA

Tenho os condimentos.
Tenho o modo de preparo. 
Tenho os continentes.
Não ficou gostoso.

O ingrediente que falta,
não achei no Google: 
falta-me ao menos
uma colher de talento. 

FUTEBOL: CONSIDERAÇÕES

No futebol, o que é jogar melhor? Depende do critério que se adote. Um time pode criar mais chances do que o adversário, mas não ser vitorioso. Criam-se oportunidades; contudo, tais oportunidades não se transformam em gol. Esse time jogou melhor do que o rival?...

Um time corre, cria, acerta a trave, obriga o goleiro adversário a defesas literárias; o outro passa aperto, dá chutão, vira-se como pode. Terminada a partida, o time que pressionou, que acertou a trave e que obrigou o goleiro oponente a se esticar pode sair derrotado.

Uma das ironias e um dos baratos do futebol é isto: o time mais fraco pode derrotar o mais forte, o time que mais cria não é inevitavelmente o vitorioso. Pergunto: numa partida qualquer, quem jogou melhor: o time que saiu vencedor ou a equipe que mais pressionou e mais criou chances?

Arrisco resposta. O futebol comporta o paradoxo de que jogar melhor é uma coisa, ser eficaz é outra. Ser eficaz não é o mesmo que ser melhor do que o adversário. O time A pode jogar melhor do que o time B; o time B pode ser mais eficaz do que o A. Uma partida de futebol é vencida não necessariamente pelo time que joga melhor, mas pelo time que é mais eficaz. (É claro que o time mais eficaz pode ser o que tenha jogado melhor.)

Essa breve consideração deixa de levar em conta outras tantas variantes que podem entrar em campo. Nas condições mencionadas acima, quem seria o eficaz e quem seria o melhor em caso de empate? Mesmo em caso de empate, o time B teria sido o mais eficaz, e o time A, em natural consequência, o que teria jogado melhor.

Todavia, cada partida de futebol tem um contexto e uma história. Essa diferenciação entre jogar melhor e ser eficaz pode ser relativizada. As coisas não são absolutas no futebol. Também por isso, ele é a vida se fazendo dentro de quatro linhas. Além do mais, essas questões acabam levando ao velho debate sobre o que é melhor: perder jogando bonito ou ganhar jogando feio? (É claro que o ideal é ganhar jogando bonito.)

Advogo, na medida do possível, um equilíbrio. Se ganhar jogando feio for a maior parte do motor que move um time, ele não tem nem magia nem beleza nem lances bonitos nem jogos inspiradores; um time assim padeceria de excesso de pragmatismo. Se o jogar melhor é a maior parte do motor que move uma equipe, ela pode ser algo inócuo; um time assim padeceria de excesso de idealismo. 

quarta-feira, 25 de março de 2015

(DES)APONTAMENTO 21

Alguns parlamentares se insurgiram contra o beijo das senhoras na novela, mas não se insurgiram contra o Alexandre Frota no Agora É Tarde. Assim, não há dúvida de que a profecia se fez: “Nós queríamos curar Babilônia”. 

"FLORES EM VOCÊ"


HAICAI 33

Para abrir a cabeça, cirurgia.
Para abrir a cabeça, acidente. 
Para abrir a cabeça, livraria. 

PROCURA-SE UM PROFESSOR DE MOHAWK

Li um artigo na New Yorker sobre idiomas que estão desaparecendo. Um deles é o Mohawk, ainda falado nos EUA. Como ocorre com frequência em línguas antigas, há construções poéticas que são ditas de modo mais sucinto em outros idiomas.

Segundo a New Yorker, no Mohawk, o “eu”, por si, não se sustenta; a primeira pessoa do singular é sempre parte de uma relação. Assim, não diriam “eu estou doente”, mas, sim, “a doença veio até mim”. Ainda de acordo com a revista, no Mohawk, se um homem é pai de uma criança, ele empresta a ela a vida dele.

O próprio inglês tem uma construção bonita: se a pessoa morre e deixa, por exemplo, duas crianças, dizem “she is survived by two children”. Literalmente, “ela é sobrevivida por duas crianças”.

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O amigo Frederico Sousa, que é professor de latim, enviou-me e-mail comentando esta postagem. Abaixo, o que o Fred escreveu.

“Li agora há pouco seu texto sobre a língua Mohawk e sobre o ‘eu’. No latim também há estrutura semelhante. Os latinos usavam Ego habeo duos filios (eu tenho dois filhos), por exemplo, que é menos usual, diga-se. Utilizavam também, e muito, da estrutura Duo filii sunt mihi, que literalmente é ‘dois filhos existem para mim’, mas que se traduz por eu tenho dois filhos”. 

BLINDAGEM

Para se blindarem, alguns têm carros; outros, imprensa.

#Podemostirarseacharmelhor 

terça-feira, 24 de março de 2015

NO RACISM?...

Deu no New York Times, mas ‪#‎podemostirarseacharmelhor‬...

“RIPA NA CHULIPA, PIMBA NA GORDUCHINHA”

O estádio estava cheio. Entre a cabine de locução e a multidão não havia aqueles vidros que geralmente há nos grandes estádios. De repente, um pouco antes de o jogo começar, Osmar Santos entrou na cabine de transmissão. Como sempre, estava sorridente.

Mal entrou, Osmar Santos fez gesto que queria dizer não somente para eu continuar fazendo a locução, mas também para que eu caprichasse no trabalho. Logo anunciei a presença dele na cabine, que retribuiu com sorriso mais largo do que o que tinha quando entrara.

“Tiro-liro-lá, tiro-liro-li”... Foi quando pedi ao público que se manifestasse, dizendo aos torcedores que Osmar Santos estava na cabine e que queria escutar a voz do estádio. A multidão então começou a gritar “Osmar Santos, Osmar Santos”. Em uníssono, a plateia imensa ia aumentando a intensidade. Osmar Santos, emocionado, escutava.
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O texto acima é relato de sonho que tive na noite passada. Arrisco uma explicação para o que sonhei: toda segunda-feira, assisto ao Linha de Passe, pela ESPN. Ontem, depois de assistir ao programa, li um pouco. A seguir, dormi.

Penso que essa mistura de futebol e de literatura, dentre outras coisas de que nem faço ideia, é que tenha causado o sonho, que por sua vez causou o texto. Que fiquem, o texto e o sonho, como uma homenagem ao grande locutor Osmar Santos. 

segunda-feira, 23 de março de 2015

APRENDI A LIÇÃO?

Qualquer fotógrafo deve ter pelo menos uma bateria reserva para a câmera. Praticamente desde que comprei uma EOS 60D, estou com apenas uma bateria; quando comprei o equipamento, além da que vem com ele, comprei uma de reserva, mas essa estragou após pouco tempo de uso.

Acomodado, ainda não comprei outra bateria, para que eu tenha uma de reserva. Desde quinta-feira, a que uso estava por acabar. O indicador de carga da bateria, mais cedo, piscava muito.

Ainda assim, arrisquei hoje, por volta das 19h, fazer fotos de longa exposição: a intenção era fotografar os relâmpagos, que estavam formando belas ramificações nos céus. Não bastasse a ideia de se tentar fotos de longa exposição, eu teria de me valer do visor da câmera, o que consome mais bateria ainda.

Sem tripé, apoiei o equipamento sobre uma espécie de cano fixado na calçada, do outro lado da rua, em frente à minha casa. Fiz duas fotos; ficaram tremidas. Fui então à casa do Eduardo, um vizinho. Pedi a ele uma cadeira. Logo percebi que o leve declive no assento seria perfeito para a composição da imagem.

Feitos os ajustes, incluindo aí a programação para que a câmera começasse a fotografar dez segundos depois de apertado o obturador, disparei. Mal eu tirara o dedo do equipamento, a bateria acabou. Enquanto isso, os relâmpagos davam um espetáculo...

A princípio, praguejei. Logo após, assumi a culpa que tenho, não somente por não ter uma bateria de reserva, mas também por não ter carregado anteriormente a única que tenho. Voltei para casa e coloquei o dispositivo na tomada; a carga está quase completa.

Há minutos, animando-me, saí para a rua e conferi o céu, ansiando por tempo nublado e pleno de relâmpagos. Pude conferir uma noite sem nuvens. A lição, que vem da fotografia, eu já a estendi para outros aspectos da vida: é preciso estar preparado. Que eu crie vergonha na cara e pratique a lição. 

quinta-feira, 19 de março de 2015

SINTONIA FINA — EDIÇÃO 32


Pessoas, no ar, mais uma edição do Sintonia Fina, programa musical apresentado por mim. Para escutar, basta dar “play”.

Danni Carlos — In-between days
Christy Moore — Bright blue rose
Milton Nascimento e Marina Machado — In Nin Alu / Going to California 
Silva — Cansei 
Fish — Fearless 
Nando Reis e Marisa Monte — Pra quem não vem 
Mick Jagger — Lucky in love 
Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto — La belle de jour / Girassol

APONTAMENTO 240

Muitos dos que acharam inaceitável o beijo entre duas senhoras, mostrado pela Globo recentemente, consideram aceitável o jornalismo da emissora. Este, sim, é prejudicial. 

VIVER BEM SE APRENDE

 A primeira vez em que tive contato com o trabalho do Alain de Botton foi quando li o livro “Ensaios de amor”, sobre o qual escrevi resenha. Depois, li “As consolações da filosofia”. A seguir, passei a conferir mais do trabalho dele via internete.

Mesmo levando-se em conta a obra dele como romancista e como filósofo, vejo Alain de Botton sobretudo como professor, como alguém que quer ensinar de que modo a filosofia pode nos ajudar a ter uma vida melhor no mundo tal qual ele é configurado.

Alain de Botton dá um enfoque essencialmente prático à filosofia, fazendo com que ela deixe de ser uma disciplina acadêmica e se torne uma ferramenta por demais útil para que lidemos melhor com o que somos, com as pessoas e com as coisas do mundo.

Sendo mais explícito: num texto intitulado “Sobre exercitar a mente”, De Botton partilha a ideia de que assim como há exercícios para a corpo, há também exercícios para a mente. Como o enfoque é prático, ele indica “ginásticas” que podem ser feitas para que a mente entre em forma.

Desse modo, o filósofo dissemina algo bonito e que tem estado ausente da conduta das pessoas: o pensamento de que coisas “etéreas” podem ser aprendidas e exercitadas. Assim como precisamos treinar e repetir muito se quisermos, por exemplo, aprender a tocar um instrumento, o mesmo se dá, digamos, com as virtudes ou com a polidez. Elas também podem ser aprendidas e exercitadas.

Caso se interesse, ele está no Facebook. Você pode visitar também The school of life ou The book of life.

segunda-feira, 16 de março de 2015

PARA O SOL

EM BRANCOS

Branquinho é o caminho. 
Branquinha é a suástica. 
O cartaz é branquinho 
(written in English, of course).

O mar é branquinho.
A onda branquinha
entoa brancas palavras.
Meu branco do olho assunta. 

CONTO 74

Leocádio acostumara-se a conferir páginas pornográficas na internete. Enquanto as conferia, masturbava-se. Certo dia, no banheiro, quis se masturbar, mas não houve ereção. Decidiu: passou a levar para o banho um “tablet” ou um celular. 

VIVA O ROMANCE

Acredito no romance como gênero literário. A despeito das vanguardas, acredito numa boa história, num bom personagem. Experimentalismos podem banir o enredo, as pessoas de um romance. Ainda assim, gosto quando, de tão vivo, o personagem como que nos faz esquecer de que estamos diante de palavras num papel.

Não arrisco agora levante contra as vanguardas. Se algumas delas incorreram no erro de tudo querer destruir, igualmente errôneo seria querer destruir todas elas. O que relato é um apego que tenho, e de que não faço esforço para me livrar, a um aspecto da tradição que me fascina: uma boa história, bons personagens e um escritor que sabe o que fazer com isso. 

FOTOS DE ONTEM







domingo, 15 de março de 2015

SANHA

Num estado democrático, prefiro participar de uma eleição a participar de um apoio a um golpe. Prefiro ficar em casa a participar de um evento regado a grosserias, preconceitos, histerias e palavrões. São reveladoras do que somos não somente as palavras que proferimos, mas também as que nos seduzem. Em última instância, proferimos as que nos seduziram. As fotos e os discursos das manifestações de quinze de março de 2015 deixam claro que tipos de palavras seduzem os manifestantes.

A direita, em sua maioria branca e de classe média, segue a cartilha ditada pelos grandes meios de comunicação do País, os quais preferem divulgar a ideia de que o Brasil passa pela maior corrupção que já houve. Produzindo sem interrupções um arremedo de jornalismo, donos de jornais, de rádios, de “sites” e de TVs instigaram a classe média, que exibiu em cartazes e em discursos a “fineza” de que é capaz.

Até o momento em que escrevo este texto, não há base legal alguma para o “impeachment” da presidente. Protestar contra a corrupção que há na Petrobras ou em qualquer outra esfera governamental e reclamar de elevação de preços é direito; pedir o “impeachment” ou mesmo um golpe militar é ingenuidade, má-fé ou preconceito contra o que o PT realizou.

As manifestações reiteraram o que a campanha eleitoral já havia deixado às claras: há uma classe média no Brasil que não está preocupada em entender o processo histórico que tem solapado pobres e negros. Essa classe média alega que está gritando contra a corrupção; ela está, na verdade, exibindo seus preconceitos. Há um lado bom: esse pessoal se desnudou. Eles mesmos estão propalando seu ranço e seu ódio. Não que essa ojeriza seja algo novo, mas agora é algo escancarado.

A maioria dos manifestantes de domingo não são paladinos do bem comum. O protesto deles não é a favor do Brasil, mas a favor da manutenção de um estado de coisas em que outros cheiros e outras gentes, considerados, por eles, menos sofisticados, menos refinados e menos merecedores de uma vida melhor, devem permanecer à parte. Para tal, é preciso banir o PT, que, a despeito dos erros, melhorou a vida de milhões de pobres.

Seria burrice minha negar a corrupção no Partido dos Trabalhadores. Contudo, dizer que o PT é o maior responsável pela corrupção no País é sinal de ingenuidade ou de desonestidade intelectual. Ademais, o PT, ainda no poder, é o mais parecido que há contra a política neoliberal. A despeito das mudanças por que passou e dos erros pelos quais é responsável, o partido realizou um projeto social que ficou longe da agenda do PSDB enquanto os tucanos estiveram no governo federal.

Previsões são um risco. Ainda mais num cenário político que está sujeito a flutuações globais. Ainda assim, arrisco dizer que a esquerda (nem algo que se pareça com ela) não ganhará as próximas eleições presidenciais no Brasil. Mas isso, é claro, não tira de mim o ideal, que é continuar acreditando numa vida melhor para aqueles que a classe média tem insistido em excluir ao longo das décadas.

Nesse sentido, o PT é transitório. Se politicamente ele morrer, isso não significa a morte dos ideais de seus fundadores nem daqueles que vieram antes deles. À parte isso, a vida me ensinou que não é preciso temer a classe dos pobres, bem como me ensinou que é preciso, sim, temer a mídia que temos e a sanha daqueles que estão em sintonia com o que ela defende. Temê-los, contudo, não significa silenciar-me.

sábado, 14 de março de 2015

AV. JK, EM PATOS DE MINAS


Revendo arquivos, eu me deparei com esta foto, tirada em dezenove de fevereiro de 2012. Eu preferiria uma imagem, digamos, laica, em que não houvesse o dizer religioso na placa, já que minha intenção era buscar uma temática urbana, não religiosa. 

 Seria fácil apagar a placa em programa de edição. Todavia, isso não faria muito sentido, considerando-se a temática urbana com que eu estava em mente. Afinal, tendências, paradoxos, ideologias, fios e desafios estão no caldeirão urbano. 
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ASDRÚBAL, OS NÚMEROS, AS PALAVRAS

Os números vistos e entrevistos todos os dias, as palavras lidas inteiramente ou as vistas de relance. Para Asdrúbal, todos os números e todas as palavras com que nos deparamos fazem parte de uma linguagem cifrada em que o destino de cada um está escrito. Cada indivíduo, todos os dias, lê, em números e em palavras com que se depara, o destino que é seu.

Asdrúbal acreditava que se decifrasse como funciona o código que é só dele, poderia, então, compartilhar a técnica com a humanidade. Por cinquenta e três anos, dedicou-se a anotar milhões de números e palavras. Compôs em seus cadernos esquemas e diagramas em que se perdia. Sentia-se acossado pelo material com que lidava. Cismou de que a compreensão de sua vida viria a partir do número 2007 e da palavra “entusiasmo”.

Num dia de frêmito, quando estava, para si, no limiar da solução que vinha buscando há décadas, ouviu por um rádio que ficava na casa do vizinho o locutor dizendo: “São 20h07! Cheios de entusiasmo começamos mais uma noite de muita música!”. Asdrúbal interpretou a fala do locutor como um sinal de que a pesquisa estava no caminho certo. Redobrou o ânimo, acirrou os esforços. Mal dormia, mal se encontrava com pessoas. Enfurnou-se mais ainda no cômodo que escolhera para realizar com sossego seu trabalho.

Quando sua irmã estava recolhendo os cadernos com as anotações de Asdrúbal, pensou na inutilidade de tudo aquilo. Folheou de modo aleatório alguns deles. Tentou extrair sentido do que lia. Sentiu um misto de graça, de ternura e de saudade numa frase escrita por Asdrúbal: “Locutor confirma que estou certo”. A princípio, quis guardar as anotações. Depois, acabou ateando fogo em tudo. Enquanto os papéis se dobravam sobre si mesmos à medida que as chamas os consumiam, perguntou-se se o corpo de Asdrúbal teria se dobrado sobre si durante a cremação. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

NO BOTECO COM LÍVIO SOARES DE MEDEIROS — EDIÇÃO 3


Pessoas, eis mais uma edição de No Boteco com Lívio Soares de Medeiros. Desta vez, a entrevistada é a cantora Lizandra. 

MADRUGADA

A noite e a música 
precisam uma da outra. 
Eu preciso das duas. 

"PÉROLA", DE IVAN ROSA

À medida que eu ia escutando o CD “Pérola”, eu ia tendo a sensação de que a competência técnica dos músicos e o talento deles não estavam a serviço de algum exibicionismo bobo nem a serviço de algum virtuosismo vaidoso. A impressão que o trabalho deixa é a de que havia músicos se divertindo; ou de que havia músicos louvando a música ou o espírito coletivo que ela sugere.

O próprio Ivan Rosa já havia me dito que, embora ele seja baixista e embora ele tenha gravado um CD instrumental, “Pérola” não era, por assim dizer, um trabalho em que o contrabaixo tivesse de ser a única estrela. É por isso que reitero que, se por um lado o CD é o trabalho autoral de um baixista, por outro, o que logo se percebe em “Voo livre”, a faixa de abertura, é o generoso espírito gregário que a música tem.

Fiz uma referência a “Voo livre”, música que abre o CD. De cara, somos apresentados a uma faixa com pegada pop/rock. A partir daí, há um passeio por aquilo que penso terem sido as influências pelas quais passou Ivan Rosa: há o lirismo de “Brisa”, a terceira faixa, ou de “Pérola”, a quinta faixa, que dá nome ao CD. Além de ser o título do trabalho, “Pérola” é dedicada a Viviane, esposa do Ivan.

Já “Swinguera”, a sexta faixa, faz jus ao título, com uma pegada dançante e jovial. Por sua vez, “Tempestade”, a sétima faixa, tem um clima intimista, reflexivo, a despeito do título poderoso. Tomo a liberdade de comentar um pouco mais sobre essa faixa: não por questões musicais, mas, pelo clima, ela acabou me remetendo a “Respect the Wind”, um instrumental do Van Halen que é trilha sonora do filme “Twister”, em que o poder de destruição de tornados é mostrado.

O ponto em comum entre as duas faixas vai além da menção a fenômenos atmosféricos. O título da faixa do Van Halen é, numa tradução literal, “Respeite o vento”; já a composição do Ivan, conforme já anunciado, chama-se “Tempestade”. “Respeite o vento”, pelo título e pelo filme de que faz parte, e “Tempestade”, pelo título, podem sugerir, a princípio, um som mais pesado ou “agressivo”.

Entretanto, o que há nelas é um clima intimista. São quase um incitação não para que temamos uma tempestade ou um vento destruidor, mas, sim, para que olhemos para dentro de nós. A do Van Halen, com uma atmosfera soturna; a do Ivan Rosa, com um astral entre o lírico e o denso.

“Amanhecer”, a penúltima faixa, resgata a pegada pop/rock ou jazzística que o CD tem. Por fim, a música que fecha o trabalho é “Pérola”, só que num arranjo minimalista, com baixo e teclado. Vale confirmar que todas as músicas do CD são de autoria de Ivan Rosa.

Estão presentes no CD os seguintes músicos: Ivan Rosa (baixo), Leonor Júnior (bateria e percussão), Flávio Silva (guitarra), César Braga (teclado), Joe Mogharabi (guitarra), Paulinho Rocha (bateria), Rogério Delayon (guitarra), Christiano Caldas (guitarra), Moisés Martins (guitarra), Wellik Soares (saxofone), Ximba Uchyama (baixo “fretless”), Ric Arruda (guitarra), Marcelo Rocha (saxofone), Israel Dantas (violão), Maurício Caruso (guitarra e violão) e Juninho Martins (guitarra).

Palavras soam abstratas demais quando tentam descrever o que é passado pela combinação de sons. Mas espero que o que escrevi deixe vocês com vontade de escutar o presente que Ivan Rosa nos oferta. E se escutarem, que gostem tanto quanto gostei. 

terça-feira, 10 de março de 2015

TRABALHE MENOS

A menos que seu trabalho seja aquilo com que você sonhava, trabalhe menos. São poucas as pessoas que ganham dinheiro fazendo aquilo que de fato gostariam de fazer. Por isso é que digo: trabalhe menos.

Trabalhe menos e vá fazer aquilo que você gosta mesmo de fazer. Se estiver precisando trabalhar muito por estar em delicado momento financeiro de sua vida, tente resolver isso. Se conseguir, trabalhe menos.

Trabalhe menos e vá fazer as coisas que você curte, sem se importar com o dinheiro. É claro que se precisa dele, mas a quantidade de que necessitamos é bem menor do que a que dizem que precisamos. Se na dança da vida você começar a ser pago fazendo precisamente o que você gostaria de fazer, isso é a glória.

Não estou dizendo que você não deve trabalhar. Estou dizendo que você deve achar tempo para fazer o que gosta. Se quiser achar tempo para fazer o que você gosta, você terá de trabalhar menos.

O mundo corporativo mina a criatividade. Ele assumiu uma configuração tal em que o ser humano deve ser máquina a serviço de algo que o escraviza e que o esgota. Muito papel, muita lei, muitos compromissos, muitas reuniões, muitos horários, muitas tarefas...

Para o mundo corporativo, você é um número, um dado, uma peça. Corporações não querem saber se você um dia quis ser ator, se você sonha em estudar física ou se você tem talento para lidar com crianças. O mundo das corporações quer meta. Essa meta deve ser superada no mês seguinte. Você é um meio para isso. E só.

As pessoas trabalham mais do que o que gostariam, num trabalho que não curtem e fazendo algo em que não têm a chance de criarem o que são capazes de criar. Acostumam-se, acomodam-se. Chega o ponto em que passam a amar o látego.

A publicidade nos diz que seremos pessoas realizadas se comprarmos. Não seremos. Realizar-nos-emos se tivermos a oportunidade para que aprimoremos o potencial que é nosso. Não caia no engodo de comprar a felicidade que os comerciais, os anúncios e o mercado nos prometem.

Se a ida a um shopping deixa você com gostosa sensação de felicidade, feliz você não está. Vá procurar o que você é, vá estudar, vá aprender, vá gastar sua energia naquilo que levará você a uma compreensão mais ampla de você e do mundo. Para isso, se for o caso, trabalhe menos. 

QUE DELÍCIA!

Trabalho no IFTM — Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro. O IFTM, campus Patos de Minas, funciona no prédio onde era a antiga Sespa. Em função disso, almoço com frequência pelas bandas de lá.

Vou muito ao QDelícia, que fica na JK, perto do IFTM. A primeira coisa que me chamou a atenção no restaurante foi o preço: a comida é extremamente barata; hoje, por exemplo, pelo almoço e por um copo de suco de laranja, paguei sete reais e um centavo. A segunda coisa que me chamou a atenção: a comida é extremamente saborosa.

Como mais ou menos a mesma quantidade quando almoço em restaurantes; como mais ou menos as mesmas coisas. No QDelícia, sempre pago menos do que pago em outros lugares. Além disso, por duas ou três vezes, pedi à atendente que elogiasse a cozinheira, pois gosto mesmo da comida que servem.

Tudo é simples. Não há pratos requintados, mas o trivial é excelente. Outra coisa curiosa: nunca tive a sensação de que o suco de laranja preparado por eles tivesse sido feito com laranja murcha ou velha. Sempre peço por suco de laranja, e ele sempre está gostoso. Por fim, a simplicidade está também no lugar. Não há luxo, mas há gentileza no atendimento, comida gostosa e preço justo. 

segunda-feira, 9 de março de 2015

NA MÉDIA

Não são liliputianos.
Não são de Brobdingnag.
São medianos.

Tão medianos quanto
o haicai acima.
Nem abaixo
nem acima.
São a média.

São bípedes,
são expansivos.
Quando argumentam,
lembram um houyhnhnm.
Ou um yahoo.

Acham-se sofisticados.
Descontentes,
querem se mudar.
Vão a Laputa!:
lá, sentem-se
pairando acima
da média. 

SINAL

Noite adentro,
ela conta
as badaladas.

Uma...
Duas...
Três...

Mas outra vem!...
Já são quatro insônias
da madrugada... 

OITO DE MARÇO

Chamar uma mulher de "vaca" diz muito sobre quem agride, não sobre quem é xingada. 

FOTOPOEMA 372

domingo, 8 de março de 2015

"TREM NOTURNO PARA LISBOA"

Reserve um tempo e assista a “Trem noturno para Lisboa”. O filme (2013) é baseado no livro homônimo de Pascal Mercier (não conheço a obra). A direção é do dinamarquês Bille August. O roteiro ficou a cargo de Greg Latter e de Ulrich Herrmann.

Raimund Gregorius (Jeremy Irons) é um professor cuja vida é metódica e monótona. Certo dia, em Berna, ele convence uma jovem a não se suicidar, quando ela estava prestes a pular de uma ponte. Quando a jovem vai embora, deixa para trás um casaco e um livro, que estava no bolso da vestimenta. Dentro do livro, uma passagem de trem para Lisboa.

Gregorius tenta devolver os pertences da jovem, não obtendo êxito. Ainda assim, embarca para Lisboa, numa incomum, para ele, atitude inconsequente, deixando para trás as aulas pelas quais era responsável. Durante a viagem de trem, começa a ler o livro esquecido pela jovem.

A partir daí, o filme assume um tom que é ao mesmo tempo lírico e político. Com uma bela fotografia e com mergulho nos personagens, Lisboa se torna o cenário do trabalho, que mergulha nas vidas daqueles que foram vítimas da ditadura de Salazar. Tendo se envolvido pelo livro (“Um ourives das palavras”), escrito por Amadeu de Almeida Prado (Jack Huston), Gregorius vai atrás dos personagens citados por Almeida Prado.

É difícil misturar lirismo e política. No mundo de hoje, se procuro, por assim dizer, no mundo real por alguém que realize essa mistura, só consigo pensar em Mujica, que foi presidente do Uruguai até recentemente. Apesar dessa dificuldade, é o que “Trem noturno para Lisboa faz”. O filme ainda tem espaço para reflexões acerca da vida e do que dela fazemos.

A ternura que perpassa a criação de Bille August não esconde as tragédias e as mazelas que uma ditadura causa a um país, as tragédias e as mazelas que uma ditadura causa em indivíduos. Ora no presente, ora no passado, o filme é dolorido. Toca feridas, sem abrir mão do bom senso e da beleza. 

CRUZEIRO EMPATA COM ATLÉTICO NO PRIMEIRO CLÁSSICO DO ANO

Os primeiros vinte minutos do jogo foram trancados. Isso já era esperado. A partir daí, os espaços começaram a surgir e a partida se tornou mais dinâmica. A princípio, com o Cruzeiro ameaçando a meta do goleiro atleticano. Ainda assim, aos vinte e oito minutos, foi o goleiro Fábio quem realizou em segundos, duas grandes defesas, após cobrança de escanteio. Se o primeiro tempo não foi um primor, também não foi uma lástima.

Aos seis do segundo tempo foi a vez de o goleiro Victor fazer uma grande defesa. O placar sem gols se devia à atuação dos goleiros. Mas, numa dessas ironias da vida, foi devido a uma falha do goleiro Fábio, que tentou sair jogando com o pé, que Rafael Carioca fez um a zero para o Atlético, aos vinte e seis minutos. Poder-se-ia argumentar que não houve recuo. O goleiro, todavia, não poderia interpretar pelo árbitro. O erro do Fábio foi técnico, por não ter tido habilidade ao sair jogando com o pé.

Tive comigo que a partida terminaria com esse placar. Não por duvidar das improbabilidades do futebol, mas pela configuração que o jogo assumira, com o Atlético esfriando a partida. Aos trinta e sete, Leandro Damião, num gol truncado, empatou. Um minuto depois, a Raposa quase virou o jogo.

Falar em placar justo no futebol é algo melindroso, pois isso depende do critério que se adote. Ainda assim, levando-se em conta o que os times produziram, o placar não soa injusto, no sentido como o termo é usado no futebol. 

sábado, 7 de março de 2015

APONTAMENTO 239

Para que alcances o máximo do que podes ser, sê tu em cada detalhe, faz a teu modo cada movimento, cada criação, cada ousadia. Busca-te. Acha tua voz, procura pelo que és. O caminho és tu, tu és a fonte. Há um modo que é só teu. Para realizar bem, sê bem aquilo que és. 

sexta-feira, 6 de março de 2015

SEDUÇÃO DE QUINTA

Esta quinta-feira 
está tão bela:
nem precisava
de agito. 
Esta quinta-feira 
está tão agitada:
nem precisava
de beleza.

Por estar
tão gostosa e tão bonita, 
esta noite de quinta-feira
nem precisaria do rock
para me seduzir. 

AINDA MUJICA

Mujica é o poder da ternura, da simplicidade, da lucidez, da inteligência, da utopia, do pragmatismo, da palavra. Há pessoas que inspiram como a arte. Mujica é uma delas. 

MUJICA FALA

Ah, esse Mujica: ele é filósofo, ele é político, ele é gênio: clique aqui

quinta-feira, 5 de março de 2015

NO BOTECO COM LÍVIO SOARES DE MEDEIROS — EDIÇÃO 2


No ar, mais uma edição de No boteco com Lívio Soares de Medeiros. O entrevistado desta segunda edição é o baixista Ivan Rosa, a quem agradeço pela oportunidade da conversa.

Na quinta-feira que vem (12/03), Ivan Rosa vai lançar CD. Neste bate-papo, ele fala do lançamento, de seu trabalho como músico e de questões pessoais. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

PREFERÊNCIAS

Prefiro maçã a pera. 
Prefiro Cynara Menezes a Rachel Sheherazade. 
Prefiro Hulk a Huck.
Prefiro vinho a uísque.
Prefiro García Márquez a Vargas Llosa.
Prefiro hábito a rotina.
Prefiro ESPN a SporTV.
Prefiro livro a tela.
Prefiro arroz a feijão.

Prefiro Beatles e Rolling Stones. 

CONTO 73

Abílio vivia dizendo que se quisessem saber, depois de ele ter morrido, quem ele fora, bastaria perguntar às mulheres que o amaram. Perguntaram. A resposta foi unânime: “Alguém que não soube amar”.

terça-feira, 3 de março de 2015

PONTOS CARDEAIS

Ao norte do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Ao sul do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Ao leste do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Ao oeste do Centro do Mundo, havia um livro considerado sagrado. Não passava de mais um dos tantos livros escritos pelo homem. Num dia, alguém disse que esse livro fora ditado por um deus. As pessoas acreditaram. Desde então, o livro, escrito por planejadoras mãos humanas, passou a ser reverenciado como se escrito por divindade.

Veio o tempo em que as milícias do norte quiseram dominar os outros pontos cardeais. Veio o tempo em que as milícias do sul quiseram dominar os outros pontos cardeais. Veio o tempo em que as milícias do leste quiseram dominar os outros pontos cardeais. Veio o tempo em que as milícias do oeste quiseram dominar os outros pontos cardeais.

Desde o começo, num tempo em que cada milícia ainda não estava tentando se impor sobre territórios distantes, mas sobre quintais vizinhos, por já se considerarem eleitas por um deus, havia quem percebesse a insanidade das milícias. Essas pessoas continuam sendo eliminadas, tanto no norte quanto no sul, tanto no leste quanto no oeste.

As milícias continuam em guerra. Ora tem-se a impressão de que o norte se sobressai. Ora tem-se a impressão de que o sul se sobressai. Ora tem-se a impressão de que o leste se sobressai. Ora tem-se a impressão de que o oeste se sobressai. Hoje em dia são poucos os que não pertencem a nenhuma milícia. Essas pessoas continuam sendo caçadas. Tanto no norte quanto no sul, tanto no leste quanto no oeste.

Enquanto isso, em seu quarto, alguém produz alegoria contra as milícias, as quais não a entenderão. Assim é no norte. Assim é no sul. Assim é no leste. Assim é no oeste. 

GRAVATA

Borboleta
aterrissou em 
meu corpo. 
Foi ficando. 
Tornamo-nos
amigos. 
Hoje em dia, 
quando ela sai
a passear, 
ela me arrasta
pelo pescoço. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

JAULA

Enjaulado,
não sabe o tigre
o quanto seria feliz
lá fora.
Sabe ele
o quanto é
infeliz
ali dentro?

domingo, 1 de março de 2015

450

O Rio de Janeiro
continua 
lido. 

LUGAR

Dir-se-ia que o pavão tem um leque no rabo. Bobagem: não perceberam que é o leque que inventou um pavão para se livrar de certas mãos. 

LET'S MOVE ON, GUYS

February is over:
time to March.