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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

“Que tiro foi esse”?

Somente ontem escutei “Que tiro foi esse”. Eu não conhecia a canção nem sabia que as pessoas estão fazendo coreografias, registrando-as em vídeos e as postando em redes sociais. Assim que comecei a escutar, pensei que eu havia perdido o início. A cantora entoa “que tiro foi esse”; depois é que se ouve o “tiro”. Como a frase é “que tiro foi esse”, supus que o “tiro” já havia sido disparado, para então se fazer a pergunta ou o comentário sobre que tiro havia sido aquele. Hoje, escutei de novo a canção, a fim de conferir se a pergunta ou o comentário sobre o “tiro” vem antes do próprio. É o que parece.

À parte isso, que foi só uma boba tentativa minha de buscar alguma lógica no trabalho, também hoje, conferi uma entrevista com Jojo Maronttinni, que canta “Que tiro foi esse”. Ela disse que a expressão “que tiro” é usada quando uma pessoa quer dizer que a roupa ou o visual do outro está bonito, vistoso ou algo assim. Eu não conhecia a expressão.

Prefiro outros “tiros” ou “estrondos” do pop e do rock: os “disparos” no começo de “Demônia”, do Kiko Zambianchi, as batidas iniciais em “Rough boy”, do ZZ Top, o estrondo em “The whole of the moon”, da banda The Waterboys, o também estrondo em “Right between the eyes”, com The Wax, o gongo no fim de “Big in Japan”, do Alphaville, a “bomba” em “Get your filthy hands off my desert” ou o “tiro” em “The final cut”, ambas do Pink Floyd. 

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

LETRA DE MÚSICA E POESIA

O John Lennon disse em entrevista que tinha a intenção de escrever letras de música que pudessem também ser lidas, e não apenas cantadas. Ainda segundo ele, a inspiração para tal desejo era Bob Dylan. Com outras palavras: Lennon tinha intenção de escrever poesia.

A discussão sobre se letra de música é poesia é antiga. O Fernando Brant, exímio letrista, em entrevista para a edição de maio/junho de 2013 do Suplemento Literário de Minas Gerais, quando perguntado se letra de música é poesia, disse: “Eu acho que é”. Depois, acrescentou: “Se não querem definir como poesia tudo bem. Mas é como eu sempre digo: é primo, é da mesma família”.

Não busco aqui possíveis definições do que seja poesia ou do que seja letra de música. Ainda assim, quando escuto, por exemplo, “O quereres”, do Caetano Veloso, ou “The whole of the moon”, da banda The Waterboys, canção cuja letra é de Mike Scott, não consigo deixar de pensar que as letras são poesia pura.

Letra de música não tem o compromisso de ser poesia. Textos originalmente escritos para serem poesia podem ser musicados; a poesia tem uma cadência e um ritmo que podem funcionar bem quando cantados. Letras de música há que podem ser declamadas. Letra de música e poesia: uma invade o terreno da outra. Uma pode ser a outra. 

sábado, 25 de agosto de 2012

NEIL ARMSTRONG E O TODO DA LUA



Há quem diga que a ida à Lua é um engodo. À parte isso, Neil Armstrong morreu hoje. Ele é tido como tendo sido, supostamente, o primeiro homem a pisar o satélite da Terra.

A banda The Waterboys (acima) tem um belo tributo ao astronauta, a canção “The whole of the moon”. Curiosamente, a letra tem um caso raro de metáfora: ela pode ser entendida, em diversos trechos, ao pé da letra.

As metáforas geralmente não devem ser entendidas literalmente. Se alguém diz “você é o farol que me guia”, é claro que estamos cientes de que ninguém, a rigor, é um farol. A metáfora vale não pelo que tem de literal, mas pelo que tem de sentido figurado.

Contudo, o barato de “The whole of the moon” é que as metáforas dela podem ser lidas literalmente, já que é um tributo a quem, repito, supostamente foi à Lua, cruzando, de fato, os céus. Mas como metáfora, a canção pode ser entendida mesmo caso não se saiba que a letra é um tributo ao Armstrong.

Abaixo, a letra em inglês, uma tradução que fiz e um trecho de “Tabacaria”, do Fernando Pessoa (como Álvaro de Campos). A letra de “The whole of the moon” tem muito do astral de “Tabacaria”. Por fim, um trechinho de “Servidão humana”, do Somerset Maugham, na tradução de António Barata.

Os três textos evidenciam a imensa distância que há entre a teoria e o ato, entre o tentar e o conseguir. Essa temática me fascina, bem como a intertextualidade.
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THE WHOLE OF THE MOON (In: The Waterboys. This is the Sea. Chrysalis. England. 1985.)

I pictured a rainbow
You held it in your hands
I had flashes
But you saw the plan
I wandered out in the world for years
While you just stayed in your room
I saw the crescent
You saw the Whole of the Moon

You were there in the turnstiles
With the wind at your heels
You stretched for the stars
And you know how it feels to reach
Too HIGH too FAR too SOON
You saw the Whole of the Moon

I was grounded
While you filled the skies
I was dumbfounded by truth
You cut through lies
I saw the rain dirty valley
You saw Brigadoon
I saw the crescent
You saw the Whole of the Moon

I spoke about wings
You just flew
I wondered I guessed and I tried
You just knew
I sighed
… but you SWOONED
I saw the crescent
You saw the Whole of the Moon

With a torch in your pocket
And the wind at your heels
You climbed on the ladder
And you know how it feels to get
Too HIGH too FAR too SOON
You saw the Whole of the Moon
The whole of the moon

Unicorns and cannonballs
Palaces and piers
Trumpets towers and tenements
Wide oceans full of tears
Flags rags ferryboats
Scimitars and scarves
Every precious dream and vision
Underneath the stars
You climbed on the ladder
With the wind in your sails
You came like a comet
Blazing your trail
Too HIGH too FAR too SOON
You saw the Whole of the Moon
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THE WHOLE OF THE MOON (O TODO DA LUA – tradução de Lívio Soares de Medeiros)

Eu imaginei um arco-íris
Você o reteve em suas mãos
Eu tive flashes
Mas você viu o projeto
Eu vaguei pelo mundo por anos
Enquanto você simplesmente ficou em seu quarto
Eu vi a crescente
Você viu o todo da Lua

Você estava lá nas catracas
Com o vento em seus calcanhares
Você rumou para as estrelas
E você sabe como é chegar
Alto demais, longe demais, cedo demais
Você viu o todo da Lua

Eu estava preso ao chão
Enquanto você preenchia o céu
Eu estava emudecido pela verdade
Você passou pelas mentiras
Eu vi o vale que a chuva sujou
Você viu Brigadoon
Eu vi a crescente
Você viu o todo da Lua

Eu falei sobre asas
Você apenas voou
Eu me perguntei, eu adivinhei, eu tentei
Você simplesmente sabia
Eu suspirei
Mas você se emocionou
Eu vi a crescente
Você viu o todo da Lua

Com uma tocha em seu bolso
E o vento em seus calcanhares
Você galgou a escada
E você sabe como é chegar
Alto demais, longe demais, cedo demais
Você viu o todo da Lua
O todo da Lua

Unicórnios e balas de canhão
Palácios e píeres
Trompetes, torres e condomínios
Grandes oceanos cheios de lágrimas
Bandeiras, trapos e barcos
Cimitarras e echarpes
Todo sonho e visão preciosos
Sob as estrelas
Você galgou a escada
Com o vento em suas velas
Você veio como um cometa
Rastro de fogo pioneiro
Alto demais, longe demais, cedo demais
Você viu o todo da Lua
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TABACARIA (trechos) – Álvaro de Campos
(PESSOA, Fernando. Obra poética – volume único. Org. Maria Aliete Galhoz. Ed. Nova Aguilar S/A. Rio de Janeiro. 1994. Pp. 362 e 362.)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto.
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é.

Falhei em tudo

Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim
(...)
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas –,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades.

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“Há centenas de grandes obras a germinar nos cérebros de centenas de grandes homens, mas a trágica verdade é que nenhuma dessas centenas de grandes obras será jamais escrita. E o mundo continua da mesma forma”.

(MAUGHAM, Somerset. Servidão humana. Tradução de António Barata. São Paulo. Abril Cultural. 1982. P. 97.)