“Dar o peixe não funciona. É preciso ensinar a pescar”, dizem os que usurparam todas as águas.
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Brasil. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 28 de junho de 2022
Pescaria
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Política
terça-feira, 26 de abril de 2022
Câncer à brasileira
Que grandes corporações não dão a mínima se causam cânceres ou doenças outras, disso, todo mundo sabe. O que muitos fingem não saber é que no Brasil substâncias cancerígenas, proibidas no exterior, foram ou têm sido liberadas pelo governo federal e estão nos agrotóxicos que por aqui aportam. Seja negligenciando a covid, seja indicando tratamentos ineficazes contra ela, seja louvando tortura, seja elogiando ditadores, seja desmatando, o executivo federal, conotativa e denotativamente, mata rápida ou lentamente. De modo literal e de modo metafórico, o governo da república é um dos cânceres do país. O Brasil tem câncer no corpo. Nada mal para algo que tem o fascismo na alma.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Política
domingo, 6 de junho de 2021
João Inácio
Contra a covid, João Inácio ingeriu cloroquina, ingeriu ivermectina e ingeriu água consagrada por R.R. Soares, que, aliás, foi internado por estar com o coronavírus. Bosta de vaca, João Inácio não ingeriu, mas passou no corpo, como fizeram na Índia. Julgando-se, pois, blindado, João Inácio morreu de covid.
Labels:
Brasil,
Covid,
Covid19,
Minicontos
quinta-feira, 18 de março de 2021
Trilogia “minha especialidade é matar”
1
Segundo o Houaiss, possível definição para “genocídio”: “Extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade”. Outra definição para o termo: (...) “Submissão a condições insuportáveis de vida”. Quem realiza genocídio ou quem extermina coletivamente é genocida. Não é desarrazoado chamar de genocida quem diz de si mesmo “minha especialidade é matar”.
2
Há os que — não raro, com cinismo — lavam as mãos, preferem ignorar a palavra, como se ela pairasse independente ou fora de quem a utiliza, como se ela não fosse sintoma de quem dela se vale. Ora, a palavra está ligada a quem a profere, é expressão de quem a emite, mormente quando dita de modo deliberado ou reiterado. Não se deve desvincular a palavra daquele que a expressa. Os que votaram em Bolsonaro sabiam das palavras que ele proferira antes das eleições que fizeram dele o presidente. Votaram de modo consciente em quem há tempos defende tortura e ditadores, votaram em quem dissera, antes das eleições, “minha especialidade é matar”.
3
Aquele que disser de si
“minha especialidade é dirigir”
pode ser chamado de motorista.
Aquele que disser de si
“minha especialidade é cuidar”
pode ser chamado de enfermeiro.
Aquele que disser de si
“minha especialidade é tocar”
pode ser chamado de instrumentista.
Aquele que disser de si
“minha especialidade é matar”
pode ser chamado de Bolsonaro.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Literatura,
Poesia,
Política
quinta-feira, 11 de março de 2021
Cadê a máscara?
Flávio Bolsonaro postou “nossa arma é a vacina”. Já o presidente, ontem, usou máscara em evento. Em Israel, Eduardo Bolsonaro usou máscara publicamente. Os dois primeiros, enquanto digito estas palavras, ainda estão fazendo de conta que defendem vacina e uso de máscara; o terceiro não conseguiu se manter no fingimento de civilizado. Ontem à noite, referindo-se a máscaras, declarou: “Enfia no rabo, gente”. Fez a declaração sem máscara. Não sei se executara a enfiadura indicada por ele.
quarta-feira, 10 de março de 2021
Maia
Dentre os velhos cínicos, Rodrigo Maia é o mais recente a fingir que se preocupa com o Brasil.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Política,
Rodrigo Maia
terça-feira, 9 de março de 2021
Entupidos
O povo se entope de ivermectina.
O povo se entope de cloroquina.
Os cemitérios se entopem de cadáveres.
Labels:
Brasil,
coronavírus,
Covid,
Covid19,
Epidemia,
Literatura,
Poesia,
Política
Fisiológico
O povo engole a mentira e
se torna claque do “mito”.
O povo engole a mentira e
vomita o que sobrou da ivermectina.
O povo engole a mentira e
caga o que sobrou da cloroquina.
O povo engole a mentira e
leva para o caixão o que sobrou de si.
sábado, 6 de março de 2021
“Remédios”
De um lado, um governante que já deixara claro a que veio: “Minha especialidade é matar”. De outro, aqueles que, em vez de assumirem responsabilidades, delegam para um deus a resolução de problemas. Eles não são resolvidos. Vem a morte. Aí é um tal de “que deus o receba” ou um tal de “essa pandemia é vingança de deus” ou um tal de “que deus nos ajude”. Para que a consciência siga em paz, cloroquina, ivermectina e afins.
domingo, 10 de maio de 2020
Ruína a caminho
O Brasil de hoje é o cenário propício para os que sempre foram fascistas, ditadores, defensores de tortura e de morte para quem pensa de modo diferente deles. Pessoas assim sempre existiram, não são novidade no espectro do brasileiro. O que mudou no Brasil em tempos recentes foi que essas pessoas agora assumem o que são: pessoas que não toleram arte, ciência, lógica, dados gentes outras. Para justificar a ignorância, valem-se de qualquer coisa (qualquer coisa mesmo).
Os pretextos delas podem variar: deus, patriotismo, família, luta contra a corrupção, luta contra o comunismo (este, suponho, ocupa o panteão dos pretextos; até o Moro já foi chamado de comunista). Tais pretextos são úteis para mascarar a burrice e a falta de humanidade ou para dar a elas um ar de... cidadão de bem. Balela: o que a pessoa defende mesmo é a não humanidade.
A tecnologia é ferramenta dadivosa para essas pessoas, não importa se estejam manejando a burrice alheia, não importa se estejam sendo manejadas. Argumento como o de que a vida vale mais ou de que falta humanidade a essas pessoas são inúteis, pois o pretexto ou a justificativa que inventaram para a crueldade delas são mais expressivos do que qualquer razoabilidade. Ensandecida, uma pessoa assim acredita em qualquer coisa que esteja em concordância com o que ela defende, o que, no fundo, é a extirpação do que ela entende como sendo diferente dela.
Consideram-se cidadãos de bem, mas não há problema em torturar. Por que não? Porque o torturado era o demônio, o proscrito, o infiel, o infiltrado, o não patriota, aquele que veio para tirar deles o que eles edificaram para si. E o que edificaram para si? Um condomínio feito de ilusão, de desinformação, de repúdio contra a ciência e de temor contra a arte. O inimigo, elas mesmas inventam-no. Se investissem contra moinhos de vento, menos mal; o problema é que investem contra seres humanos, pois não têm o bom coração do Quixote.
As justificativas para a maldade que têm tornaram-se nítidas, mas sempre pairaram no espaço brasileiro. O grande problema do Brasil sempre foi a ignorância, ignorância no sentido de desconhecimento, ou, caso prefira, a ignorância no sentido de falta de conhecimento. O que está acontecendo no Brasil hoje é que se vive num país refém da ignorância, que assumiu o palco e, por ser ignorante, vai insistir que a ignorância à qual se agarra é o caminho para se fazer um país que ainda não foi feito, sem perceberam que não foi feito ainda por causa da ignorância, que é tal a ponto de eles não se darem conta de que ignorantes são.
Coisas como luta insana pelo dinheiro, interesse de classe, manutenção de privilégios, nojo de pobre nasceram coladas no Brasil, mas não foram inventadas aqui, embora sempre tenham feito parte do cotidiano brasileiro. Todavia, vale para um país o mesmo que vale para uma pessoa. Há momentos em que a pessoa revela quem é. Geralmente, em momentos de muita turbulência. É aí que o fraco se revela como tal, o torturador como tal, o preconceituoso como tal. O momento do país é de turbulência. Quando mais precisamos da sensatez, mais a ignorância assume o protagonismo. O país se revelou como tal, como sempre foi: um país de ignorantes.
Em grau maior ou menor, todos somos e continuaremos sendo vítimas da ignorância, que está naquele senhor a capinar um lote e naquele magnata indo trabalhar em seu helicóptero. Espertalhões estão dando gargalhadas, contando com endinheirados e com quem tem renda de meio salário mínimo por mês. Os riquíssimos estão se esbaldando. A maioria dos demais estão num inferno.
A solução, se vier, não virá no campo da pessoalidade — os ignorantes não vão deixar de ser ignorantes. Se alguma solução vier, do que duvido, ela virá por intermédio do campo histórico, depois que a nação estiver esfacelada por completo (está a caminho de). Das ruínas, pode ser que surja um país não ignorante, do que duvido. Acredito mesmo que a ignorância de agora, depois de o país estar um bagaço (está a caminho de), voltará em outros trajes, mas com parte da população lutando pelas mesmas “causas”, empunhando os mesmos pretextos, as velhas desculpas para que haja um país asséptico e para que haja genocídio: deus, patriotismo, família, luta contra a corrupção, luta contra o comunismo...
No momento, o que há é um território ignorante seguindo a cartilha rumo a uma debacle. Uma “gripezinha” aqui, um “e daí?” ali, um “o exército não matou ninguém” acolá, uma feijoada com dezenas de pessoas reunidas num pequeno recinto e postando em rede social foto de celebração do dia das mães num bairro da cidade... O país foi, é e será vítima da ignorância; um lugar assim é paraíso para canalhas, está condenado à destruição. De joelhos, sem recursos e exaurido, levará a porrada derradeira. O Brasil não leva jeito para fênix.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Política
domingo, 29 de dezembro de 2019
Aprendizados
Coisas que foram “ensinadas” neste ano:
• a alta do dólar é algo bom;
• o pobre não sabe poupar;
• desempregados devem bancar programa de geração de empregos;
• os Beatles surgiram para implantar o comunismo;
• o Brasil era socialista;
• a Terra é plana;
• o Leonardo DiCaprio dá dinheiro para tacar fogo na Amazônia;
• ONGs são responsáveis por queimadas na Amazônia;
• o Greenpeace derramou óleo no litoral brasileiro;
• o peixe é inteligente: desvia do óleo;
• o ambiente é um entrave para os negócios;
• questão ambiental só importa para os veganos;
• fiscais do Ibama e do Instituto Chico Mendes são criminosos;
• os garimpeiros e os madeireiros devem ser defendidos dos fiscais do ambiente;
• os fiscais do ambiente devem ser desarmados; a população deve ser armada;
• as ações criminosas dos desmatadores devem ser encorajadas;
• o aquecimento global é uma invenção marxista;
• universidades públicas escondem plantações de maconha e produzem drogas sintéticas;
• faculdades de humanidades não trazem retorno à sociedade;
• estudantes e professores que protestam são imbecis;
• professor é inimigo; miliciano é amigo;
• Paulo Freire não presta;
• as escolas têm “kit gay” e mamadeira de piroca;
• a escravidão foi benéfica para os descendentes dos escravos;
• não existe racismo no Brasil;
• o Brasil pode ser destruído por feitiçaria e sacrifícios;
• o turismo sexual deve ser estimulado;
• os direitos humanos são deletérios;
• a fome no Brasil é mentira;
• as normas de combate ao trabalho escravo devem ser afrouxadas;
• o trabalho infantil é bom;
• é hipocrisia a crítica de nepotismo quanto à indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada americana;
• o INPE e o IBGE divulgam dados incorretos;
• blocos de rua no carnaval são adeptos do “golden shower”;
• o golpe que levou à ditadura militar deve ser comemorado;
• torturadores e ditadores devem ser exaltados;
• a implantação do excludente de ilicitude e do AI-5 não são tão impossíveis assim;
• alvejar alguém com centenas de tiros é apenas um incidente: “O exército não matou ninguém”;
• dentro de casa, uma arma e um liquidificador oferecem o mesmo risco;
• veículos de comunicação que não apoiam o governo devem ser intimidados; seus anunciantes devem ser ameaçados;
• as críticas são a mídia querendo derrubar o presidente e são pessoas torcendo contra o governo;
• comerciais de estatais não podem mostrar jovens negros nem podem mostrar homossexuais;
2020 vem aí. Pleno de pessoas a fim de “aprender”.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Política
quinta-feira, 2 de maio de 2019
Dísticos familiares
“Temos famílias”:
se o exército der oitenta tiros, não terá matado ninguém.
“Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”:
“Temos famílias”.
Labels:
Brasil,
Literatura,
Poesia,
Política
terça-feira, 9 de outubro de 2018
Faroeste
Circularam nas redes sociais vídeos e fotos de eleitores portando armas na cabine de votação. O padrão é o mesmo: com as pontas dos canos das armas, apertam as duas teclas do candidato que escolheram e confirmam o voto. Filmar ou fotografar urna eletrônica no momento em que há votação é crime eleitoral. Ainda que as armas exibidas nos vídeos não sejam de verdade, o crime já está configurado. Mas, é claro, quem leva arma para uma cabine de votação encara a teia sob a ótica da aranha.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Eleições 2018
Os bons costumes
Para muitos, eleições são pretexto para se fundar uma teocracia, que no fundo corrobora o machismo e camufla preconceitos, valendo-se de leis escritas há dois mil anos e, mesmo assim, cumprindo somente aquelas que interessam aos teocratas, que desprezam o princípio básico de que, em tese, o Estado é laico — ou deveria ser. O que há é uma teocracia que camufla desejo de assepsia e de embranquecimento do país; ou seja: racismo. Uma teocracia que alega patriotismo sem entender que um patriotismo genuíno abarca o outro, o diferente, o “outsider”, o estrangeiro. Gostar mesmo de um país é gostar da diversidade que ele tem e entender que nem todo mundo está interessado em bater continência, em ir a um templo ou a uma igreja, em vestir camisa da CBF ou em constituir família. Não há o menor problema em não querer essas coisas, bem como não há o menor problema em querê-las, desde que os que as querem deixem aqueles com diferentes anseios tomarem os rumos que desejarem.
Exibir bandeira do Brasil em casa ou no carro é fácil; defender a ditadura é fácil; apostar num salvador é fácil. O que não é fácil é estudar, é conhecer a história. Não é fácil, mas é um caminho civilizado. Levar arma para a cabine de votação é fácil, tentar entender o contexto que gera a violência é difícil. É mais confortável eleger um único culpado e arvorar-se como representante do bem, da moral, da lei ou de Deus, empunhando uma arma, uma Bíblia ou um preconceito. Um patriotismo que quer calar a pluralidade de vozes em nome de uma narrativa que se diz ou religiosa ou guardiã dos bons costumes não passa de ignorância, de desinformação e de preconceito travestidos de boas intenções. O verdadeiro patriotismo é solidário para com os concidadãos e não quer impor sua teocracia nem seu modo de vida, por entender o simples direito do outro de poder escolher outros caminhos.
Um patriotismo que defende coerções, torturas, linchamentos e assassinatos está mais preocupado em dizimar do que em buscar a raiz do problema. Um patriotismo que defende um messias é ingênuo. Quem se diz patriota repetindo coisas como “a corrupção vai acabar no ano que vem, teremos segurança pública com a população armada, os bandidos vão pra cadeia, a família será preservada” está repetindo perigosos chavões que estão longe de serem soluções para problemas reais. Um país complexo como o Brasil não tem soluções fáceis. Um patriotismo que apresente soluções fáceis, arbitrárias, rápidas e ditatoriais é coisa de quem não conhece o próprio território que habita, ou seja, não é coisa de patriota.
Quem alega que tudo é em nome dos bons costumes, da moral e da ausência de corrupção ou mente ou é desinformado. Ditaduras não impedem corrupção. A própria ditadura que tivemos é a prova disso, embora muitos prefiram acreditar que não houve corrupção no período. Querer que o outro tenha o credo que você tem, pensar que a disciplina só existe quando há farda ou cerceamento da liberdade, acreditar em solução veloz para problemas difíceis e acreditar em bastiões de honestidade não é ser patriota: é ser pueril. Ou interesseiro. Não faz sentido declarar-se patriota mas querer um país somente para si e para seus pares. Patriotismo que quer intimidar pela força e pela bala não é patriotismo, mas adunamento com repressão e com preconceitos.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Política
sexta-feira, 1 de junho de 2018
O público e o privado
Sempre é preciso mencionar desinformação, patologia, ingenuidade, má-fé, patriotada e outras coisas que nem sei dizer quando pessoas vão a um quartel, prostram-se e pedem intervenção militar. Há ainda um componente psicológico, que nada tem de problemático se ficar restrito à esfera particular: em ajoelhar-se e pedir açoite há, consciente ou inconscientemente, vassalagem e masoquismo.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Política
Prova
Valor: 10 pontos
Data: 01/06/2018
Questão 1
Na Ilha de Vera Cruz, jamais serão presos:
a) Aécio, FHC, Serra, Temer;
b) Temer, Serra, FHC, Aécio;
c) FHC, Aécio, Temer, Serra;
d) Serra, Temer, Aécio, FHC.
Labels:
Aécio Neves,
Apontamentos,
Brasil,
FHC,
José Serra,
Michel Temer,
Política
quinta-feira, 31 de maio de 2018
Eu tenho medo de ditadores
A democracia tem seus defeitos, mas o bom dela é que aqueles que não a querem podem dizer abertamente não querê-la. Regimes militares não se inclinam a dar à população essa prerrogativa. A própria ditadura no Brasil provou isso. Em ditaduras, quando se quer dizer que não se concorda com elas, é preciso haver subterfúgios sutis e sofisticados, o que está longe dos nada sutis nem sofisticados métodos que as ditaduras usam para prender, torturar ou matar.
No que diz respeito à economia, à corrupção e à manutenção de privilégios, a ditadura brasileira foi tão incompetente quanto parte dos políticos eleitos durante a democracia. Só que no regime democrático, pode-se dizer que determinado político foi incompetente no exercício de seu trabalho. Ai daqueles que escancararam a burrice, a brutalidade e a ignorância dos ditadores latino-americanos.
Há uns três ou quatro anos escrevi — e agora reitero: prefiro os problemas da democracia às soluções da ditadura. É muita desinformação acreditar que uma ditadura ou um político possa ser redentor, salvador. Há também desinformação quando se alega que o avô ou o pai dizem que no período da ditadura o Brasil era melhor. Pode ter sido melhor ou até indiferente para o seu avô ou para o seu pai, mas isso não quer dizer que tenha sido melhor para o país.
Nasci em 1970. Cresci durante o regime militar. Minha família não passou fome, não foi torturada nem exilada nem morta pela ditadura. Todavia, isso não quer dizer que o país estava saudável. Meus pais não sabiam ao certo o que estava acontecendo. Coube a mim, o que é minha obrigação, procurar me informar sobre o Brasil que era divulgado e o Brasil que era escamoteado durante o regime ditatorial no Brasil.
Li recentemente a autobiografia do imprescindível Jô Soares (segundo ele, haverá um segundo volume de suas memórias). Num trecho, ele comenta do medo que sentiu, durante o regime militar, ao ser levado ao Dops para ser interrogado. De acordo com ele, não o torturaram.
O problema é que há pessoas que defendem a ditadura só porque não tiveram entes torturados. O raciocínio é simplista. De minha parte, asseguro que prefiro viver sem medo de ditadores. No mais, há muito machão metido a corajoso por aí que perderia todo esse furor ao ser torturado numa cela fria e fétida. Eu tenho medo de ditadores.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Ditadura militar,
Política
quinta-feira, 15 de março de 2018
Não voto
Em conversa que mantenho com amigos, tenho me deparado com aqueles que têm a opinião de que quando os debates políticos na corrida presidencial se iniciarem, Bolsonaro vai se “queimar”; alguns internautas têm manifestado pensamento similar em redes sociais. Os que afirmam isso levam em conta que o total despreparo e a ignorância dele são o que, por fim, farão com que os apoiadores dele de agora se deem conta no futuro do que já é patente — a... obtusidade (é um eufemismo) de Bolsonaro.
Muito infelizmente, temo que o “diagnóstico” dos amigos e de alguns em redes sociais não esteja correto. Ainda que Bolsonaro confirme, reconfirme e dê inúmeras provas do quanto é um bufão retrógrado e simplista, isso não vai afugentar os apoiadores dele. Acredito mesmo que quanto mais bobo e truculento ele for, não somente não vai perder os apoiadores que tem, como vai arregimentar outros.
Há os que defendem ditadura militar; os ingênuos que acreditam que Bolsonaro é paradigma de honestidade se exultam ao apoiá-lo; preconceituosos de todos os matizes veem nele o candidato ideal. Quanto mais bronco, anacronicamente conservador e beligerante Bolsonaro for, mais haverá exultação entre ingênuos, machistas, homofóbicos, armamentistas, misóginos, eugenistas, racistas, xenófobos, belicistas...
Até a data das eleições, vislumbro alguma muito remota possibilidade de mudança entre o grupo dos ingênuos; os demais, que, lamentavelmente, são muitos, estão com Bolsonaro não apesar das declarações toscas dele, mas por causa delas. Pode ser que os marqueteiros da campanha dele sugiram “burilar” ou “suavizar” a imagem pública dele. Mas abandonar pautas intolerantes, ele não vai. Isso seria perder boa parte dos eleitores que ele tem.
Recentemente, assisti a uma entrevista com Malala Yousafzai no programa O Próximo Convidado com David Letterman, exibido pela Netflix. Num determinado momento, ele pergunta para Malala a opinião dela sobre Donald Trump. Ela devolve a pergunta para ele, que responde: “Eu sinto que, pessoalmente — não politicamente, mas pessoalmente —, ele não está apto a me representar”. Letterman conclui: “Não acredito que ele esteja apto a representar ninguém neste espaço” (o programa é gravado no que parece ser um teatro; há plateia).
A resposta do apresentador acabou me remetendo a Bolsonaro, por ser algo que eu responderia se alguém me perguntasse o que acho do pré-candidato à presidência. Politicamente, estou longe do espectro ditatorial defendido por ele; no plano pessoal, ele é o tipo de gente que eu não chamaria para tomar uma cerveja aqui em casa. Se em algum dia nos conhecêssemos (sei que isso não vai ocorrer), estou ciente de que a recíproca valeria. Sou o tipo de pessoa de que ele não faria a menor questão. Além do mais, ele não precisa de mim, em nenhum aspecto.
É comum os defensores alegarem a honestidade dele, sem nem saberem se ela existe de fato. As notícias de nebuloso enriquecimento dele e dos filhos dele, veiculadas em janeiro deste ano, não se desdobraram (o que já era esperado). “Historicamente, apenas o tema da corrupção, no Brasil, propicia a manipulação perfeita do público cativo: aquela que não toca nem de perto no acordo das elites nem nos seus privilégios e permite focar todo o fogo no inimigo de classe da ocasião. Trata-se de um tema que não oferece nenhuma reflexão e compreensão real do mundo, mas que possibilita todo tipo de distorção, seletividade e manipulação emotiva de um público cativo” [1]. Muitos dos “paladinos” da honestidade não passam de cativos.
É muita ingenuidade acreditar que basta a truculência de alguém para se acabar com a corrupção no Brasil, que é institucional e praticada em todas as esferas. No mais, alegar que um simpatizante de torturadores dizimaria a corrupção por ter sido militar é supor que não houve corrupção durante a ditadura. Pensar assim é revelar ignorância histórica.
É muita ingenuidade acreditar que basta a truculência de alguém para se acabar com a corrupção no Brasil, que é institucional e praticada em todas as esferas. No mais, alegar que um simpatizante de torturadores dizimaria a corrupção por ter sido militar é supor que não houve corrupção durante a ditadura. Pensar assim é revelar ignorância histórica.
_____
[1] SOUZA, Jessé. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Rio de Janeiro. Leya. 2016. Pp. 88 e 89.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Jair Bolsonaro,
Política
Marielle Franco
O mais recente capítulo da invasão no Rio de Janeiro foi escrito ontem. A morte de Marielle Franco escancara a inutilidade do que as autoridades estão fazendo lá. A truculência contra o cidadão “anônimo” já tem sido denunciada. Ontem, a fim de radicalizar o modo como lidam com quem se opõe contra a sacanagem que estão fazendo na cidade, mataram a vereadora.
Alguns dos que são a favor da invasão ou dos que não estão a fim de entender que ela é uma tacada populista e cruel contra as vítimas de sempre celebraram o assassinato de Marielle. Tristemente, isso não surpreende, pois tem sido assim em redes sociais. Também tristemente, a morte de civis num país que já sofreu tanto com intervenção militar não é novidade.
O que está claro é o que já se sabia de Marielle, ou seja, que ela era contra a presença do exército no Rio. Posso estar enganado quanto ao que vou escrever, mas sei como é o Brasil. Não acredito que os assassinos serão descobertos; e ainda que sejam, não serão punidos. Na hora de os invasores coagirem favelados e distribuírem gibis hipócritas e imbecis em ônibus, há empenho. Não haverá esse empenho nem por parte deles nem por parte de burocratas inúteis que estão em gabinetes em achar os assassinos da vereadora. Que eu esteja enganado.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Marielle Franco,
Política,
Rio de Janeiro
sábado, 3 de fevereiro de 2018
São enganados ou querem enganar
Tendo lido A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado, do Jessé Souza, publicado pela editora Leya, não vacilo em inseri-lo na galeria de nomes como o de um Darcy Ribeiro, autor do imprescindível e brilhante O povo brasileiro. Ribeiro foi importante para a época e ainda é importante para se entender o Brasil. Souza é importante e seguirá sendo pela mesma razão.
Também do Jessé Souza, falta eu ler A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite e A elite do atraso: da escravidão à lava jato, que tenho aqui perto de mim enquanto digito este texto. Embora A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado não tenha a palavra “elite” no título, a obra é dedicada a esmiuçar os mecanismos pelos quais uma meia dúzia de endinheirados (que Jessé Souza considera ser a verdadeira elite do dinheiro) conseguiu incutir na tradicional classe média, que se julga mais refinada do que realmente é e mais inteligente do que do que de fato é, a bandeira da luta contra a corrupção, quando, de fato, no entender de Jessé Souza, o único interesse das aves de rapina da elite endinheirada foi o de sempre: saquear o país mais uma vez.
O texto de Jessé Souza é claro, direto, elegante. Ele não usa eufemismos, mas não está preocupado com polêmicas bobas nem com soar bombástico. Dizendo o que tem de ser dito de modo simples, Souza questiona bases do pensamento político e econômico brasileiro como, por exemplo, a edificada por Sérgio Buarque de Hollanda. Nem preciso dizer que Jessé Souza não cai na armadilha boba de querer soar iconoclasta em relação aos que critica.
Jessé Souza escreve: (...) “Os setores da classe média, que se julgam bem-informados por consumirem sua dose diária de veneno midiático, e se deixam manipular pelos endinheirados e seus interesses, não são tão inteligentes e racionais como se acreditam” [1]. Não sendo tão inteligentes quanto pensam que são, vestiram camisetas da CBF, bateram panelas e foram a passeatas, supostamente se manifestando contra a corrupção, quando, na visão de Jessé Souza, com a qual concordo, estavam apenas a serviço da mídia, que, por sua vez, está a serviço da elite do dinheiro, que, por sua vez, está apenas interessada em um modo de, mais uma vez, lesar o país; dessa vez, é com a roupagem do discurso anticorrupção.
Na visão de Jessé Souza, a classe média brasileira comprou fácil esse discurso por motivos conscientes e inconscientes. Dentre os motivos que podem ser rastreados, Souza menciona nosso vergonhoso passado de escravidão, que não é tão infame assim para setores dos endinheirados e da classe média. Além do mais, manipulada pela mídia, que é regida pela elite do dinheiro, “uma fração significativa da classe média interpretou o incômodo da maior proximidade física das classes populares em espaços sociais de consumo antes exclusivos da classe média como o primeiro passo de um processo que podia significar uma ameaça aos privilégios reais de salário e prestígio. Esse aspecto é irracional, já que a qualidade da incorporação do capital cultural típico da classe média é outro” [2].
Numa obra desse teor, natural que Jessé Souza critique a tão elogiada meritocracia. Valendo-se de argumentos sociológicos, o autor ataca a falácia de que a classe média se dá bem em termos financeiros porque é inteligente e trabalhadora, e que o pobre não consegue patamar de vida melhor porque é burro e preguiçoso.
Contundente e acessível, Jessé Souza vai juntando as peças do Brasil atual e compõe um painel lúcido, diante do qual é impossível ficar indiferente. Tenho dito que o Brasil está pagando caro (e vai pagar mais caro ainda) por um antiesquerdismo ora doentio ora interesseiro. Livros como o de Jessé Souza advogam não a favor de um partido, mas do povo brasileiro. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado escancara como a elite do dinheiro está mais uma vez, de modo canalha, minando o país para ter lucro agora. No jogo atual, estão dando a ideia de que tudo é em nome da moralidade, das pessoas de bem, da luta contra a corrupção.
É um livro que, se por um lado, deixa o leitor com nojo das artimanhas dos endinheirados, por outro, envia um sinal de esperança. Quem nunca engoliu o discurso de que tudo o que tem sido feito é para combater a corrupção não está sozinho. E quando um Reinaldo Azevedo aponta as incongruências jurídicas da galera do TRF4, isso torna a leitura de um Jessé Souza uma necessidade e uma inspiração. Que ele e a editora Leya prossigam com o trabalho que têm feito.
_____
[1] Souza, Jessé. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Rio de Janeiro. Leya. 2016. Pág. 84
[2] Idem. Pág. 85.
Labels:
Apontamentos,
Brasil,
Jessé Souza,
Política,
Sérgio Buarque de Hollanda
Assinar:
Postagens (Atom)