Com exceção, é claro, dos males físicos, não há mal em mim que a leitura não cure.
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segunda-feira, 3 de outubro de 2022
Sobre a literatura
A literatura é útil. Só que a utilidade dela é atemporal e não é imediatista. Não se toca a utilidade da literatura; o espectro de cores dos benefícios dela, os olhos não alcançam. É por não ser imediatista, por ser atemporal e por ser profunda, que se troca a literatura por engodos como empreendedorismo e "coaching". Eles têm aspecto de solução real por as pessoas enxergarem neles soluções imediatas. Eles são a maquiagem sobre a mancha na pele. Quem usa essa maquiagem acredita que a mancha desapareceu. A literatura retira a maquiagem, e muitos não são capazes de olharem para si mesmos sem filtros de ilusão. A literatura não constrói ilusões, mas sonhos; não alimenta ingenuidades, mas faz nascer imprescindíveis malícias; não é o óbvio fácil, mas a sutileza iluminadora; não disfarça os feios que somos: escancara-nos; não promete felicidade fácil, mas assegura a base uma felicidade que, se vier, será madura.
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Corporal
Elevar-se não é sair do corpo, mas passar por todo ele, começando pelo que ele tem de mais básico, de mais atávico, de mais primitivo. O frêmito da elevação não se dá sem que o corpo reconheça a matéria antiga e ancestral que ele sempre foi. A elevação começa quando o corpo se acha. Um corpo que se ignora ou um corpo que não se conhece não consegue se elevar.
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Proximidade
Há uma fraternidade de leitores. Ler é estar próximo de todos os leitores dessa fraternidade, que é atemporal. Se tenho um livro de Manuel Bandeira em mãos, estou mais próximo não somente do Bandeira autor, mas também do Bandeira leitor; se leio, estou mais próximo de todos os leitores, como estamos próximos agora.
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sábado, 1 de outubro de 2022
O incompetente
Se Bolsonaro perder as eleições, seja amanhã, seja em segundo turno, não terá sido pelo desmatamento da Amazônia nem pelo projeto de destruição dos povos indígenas; não terá sido em função dos trinta e três milhões de pessoas passando fome, não terá sido pelos ataques contra as instituições, contra o STF; não terá sido pelo fato de Bolsonaro ter cruzado os braços enquanto o Brasil estava morrendo de covid, não terá sido pelos ataques contra o jornalismo, contra a ciência, contra a arte, contra a democracia; não terá sido pela campanha a favor das armas em mãos de civis, não terá sido pela mistura de “religião” com política, não terá sido pelas empresas estrangeiras que foram embora do Brasil, não terá sido pela defesa de tortura, de assassinatos...
Bolsonaro seguiu o roteiro sanguinolento que ele mesmo já vinha anunciando desde quando ainda era deputado. Não houve surpresas na presidência de quatro anos para cá. Bolsonaro cheirava a morte; tendo assumido a presidência, disseminou a putrefação que exala, enquanto um de seus ministros sugeria que restos de comidas fossem dados para os que têm fome. Mas nada disso é problema para o bolsonarismo. Se Bolsonaro perder as eleições, não terá sido por não ter agradado a quem o elegeu, pois quem o elegeu contava exatamente com o projeto nefasto ainda em voga no país. Bolsonaro tinha (e tem) o apoio dos barões da mídia brasileira, tinha (e tem) o apoio de parte do povo. Se Bolsonaro perder as eleições, terá sido por incompetência exclusiva dele. Essa incompetência, sabe-se, não é problema para o bolsonarismo. Se houver alguma civilidade no porvir, não terá sido porque o país tomou consciência de questões humanas básicas, mas porque um incapaz chegou à presidência.
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quinta-feira, 29 de setembro de 2022
Aquele
Aquele que disse não ser coveiro não foi presidente. Aquele que fez “graça” às custas das vítimas de covid não foi presidente. Aquele que tripudiou sobre os índios não foi presidente. Aquele que reencarna o fascismo não foi presidente. Aquele que receitou cloroquina e ivermectina contra covid não foi presidente. Aquele que retira a merenda das escolas não foi presidente. Aquele que é a favor de tortura não foi presidente. Aquele que é a favor de ditadores não foi presidente. Aquele que desejou câncer não foi presidente. Aquele que libera agrotóxicos proibidos alhures não foi presidente. Aquele que bota fogo no ambiente não foi presidente. Aquele que causa a fome em brasileiros não foi presidente. Aquele que disse de si que a especialidade dele é matar não foi presidente. Aquele que disse de si que a especialidade dele é matar cumpriu com a especialidade dele.
Aquele que foi eleito não foi presidente. Aquele que não foi presidente quer continuar não sendo presidente.
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segunda-feira, 8 de agosto de 2022
Bem
Dos bens que posso fazer a mim mesmo, o maior deles é a leitura.
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terça-feira, 26 de julho de 2022
Reação
Cozinhar é um dos mais nobres usos que se pode conferir à química.
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Culinária
domingo, 10 de julho de 2022
O horror
Viviane Forrester, no seminal O Horror Econômico, de 1996, comenta que em função de mudanças no mercado de trabalho e de mudanças no modo de produção ocorridas no século XX, uma boa parte da humanidade não tem mais utilidade econômica para os bilionários que detém a riqueza financeira. Que se extermine, pois, com a obediência dos Estados, o excedente. No Brasil, os descalabros do governo federal em relação à pandemia de covid e a existência de trinta e três milhões de gentes passando fome são expressões desse horror econômico. Evidentemente, Bolsonaro não tem conhecimento teórico disso. Ele é o executor da prática de extermínio, um executor de barriga cheia.
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sábado, 2 de julho de 2022
Fred
Fred não teve a menor culpa pelo vexame que foi a copa do mundo disputada pela seleção brasileira aqui no Brasil em 2014. As piadas sobre ele, veiculadas, principalmente, depois do fiasco da seleção, não eram justas. Prestes a encerrar a carreira como jogador de futebol, Fred protagonizou hoje, no Maracanã, há pouco, momentos inspiradores, emocionantes. Futebol é sobre o que ocorreu hoje com o Fred, é sobre o que ele causou. O resto são babaquices que inventaram e vão continuar inventando para estragar a beleza e a humanidade das coisas.
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Futebol
sexta-feira, 1 de julho de 2022
Para-si-mesmos
Álvaro de Campos, um dos heterônimos do Fernando Pessoa, no poema “Tabacaria”, escreveu sobre aqueles que são “gênios-para-si-mesmos sonhando” com grandes realizações, sem, contudo, concretizá-las. O texto menciona “cem mil cérebros” se concebendo como gênios, mas que nada realizaram. Pior ainda do que um “gênio-para-si-mesmo” é um “gênio-para-si-mesmo” ressentido porque não tem seu talento-para-si-mesmo reconhecido.
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Medalha, medalha, medalha!
O deputado Daniel Silveira (PTB-RJ) receberá a medalha da Ordem do Mérito do Livro. A homenagem é concedida a acadêmicos, autoridades e intelectuais que contribuem para o universo da literatura. Conceder algo assim a Daniel Silveira seria o mesmo que conceder a Hitler o reconhecimento pela valorização das diversidades.
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terça-feira, 28 de junho de 2022
Pescaria
“Dar o peixe não funciona. É preciso ensinar a pescar”, dizem os que usurparam todas as águas.
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quinta-feira, 23 de junho de 2022
Irmandade
A corrupção vinda de pastores, no governo Bolsonaro e fora dele, é a prova de que deus é mesmo um bom negócio.
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"Podem correr a sacolinha"
Em suma, tem-se: o Milton Ribeiro, que foi ministro da educação de Bolsonaro, por quem ele, Bolsonaro, disse que colocaria a cara no fogo, deixou os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura negociarem, no MEC, distribuição de verbas para as prefeituras. Em troca, uma igreja aqui, outra acolá, um quilo de ouro aqui, R$ 15 mil acolá... Gilberto Braga (PSDB), prefeito de Luis Domingues/MA, e Luciano Almeida (União Brasil), prefeito de Piracicaba/SP, mencionaram as contrapartidas com que teriam de arcar para conseguir verbas. Quando ministro, Milton Ribeiro não foi dispensado por Bolsonaro — na tentativa de livrar a pele, Ribeiro pediu para sair do governo. Faz sentido Bolsonaro não o ter mandado embora: dentre outras “pérolas”, o então ministro disse que a universidade deveria ser um espaço “para poucos”. Exatamente por pensar coisas desse naipe é que ele se tornou ministro de Bolsonaro. Aleluia, irmão!
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domingo, 12 de junho de 2022
Fome
O Brasil foi construído sobre as bases da degradação, exterminando índios, escravizando africanos e descendentes. Oligárquico em essência, o Brasil do século XXI tem uma elite tão nefasta quanto a dos cidadãos que defendiam o comércio escravagista. Hoje, trinta e três milhões de brasileiros passam fome. O bolsonarismo é elitista, cruel. Se o presidente perder as eleições, não será por mudança de mentalidade de parte da classe média e da elite. Além do mais, há pobres que, mesmo sendo as maiores vítimas do bolsonarismo, apoiam o chefe do executivo federal. A elite vai continuar comendo bem, parcela da classe média vai tolamente continuar se orgulhando de perder poder aquisitivo. Só que o bolsonarismo é especialista em matar pobres, de cujos votos precisa também. Embora tendo o voto de milhões desses pobres, milhões deles estão com fome. Como no velho ditado, “saco vazio não para em pé”. Mortos (de fome) não votam.
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sexta-feira, 10 de junho de 2022
Bulgákov e Drummond
O russo Mikhail Bulgákov é autor de uma novela intitulada Morfina. O narrador, um médico, está a trabalho num ermo russo, numa pequena localidade. Convive com pacientes e com colegas de trabalho. O médico se envolve com uma enfermeira. Escreve ele: “Anna K. tornou-se minha amante. Não podia ser diferente, de jeito nenhum”. Posteriormente, o Drummond escreveria: “Que pode uma criatura senão, / entre criaturas, amar?”.
Limite
A extroversão, quando não exercida com inteligência, facilmente descamba para a inconveniência.
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Bradesco
Depois do estúpido vídeo elogiando o exército, gravado por Octavio de Lazari Junior, diretor-presidente do Bradesco, algumas pessoas anunciaram boicote contra a empresa ou instaram os clientes dela a encerrarem as contas que têm. O boicote e o pedido têm boas intenções, mas são ineficazes. Levando-se em conta a beligerância e a ignorância, que supõem que prestar continência e impor disciplina tacanha implicam lisura e patriotismo, arrisco: o período de cinco de junho a cinco de julho deste ano terá aumento no lucro do Bradesco de pelo menos trinta por cento em relação ao mesmo período do ano passado. O vídeo de Lazari fará com que o banco passe a ter mais clientes.
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Octavio de Lazari Junior
Que nada
Saúde? Educação? Que nada!: as prefeituras contratam shows de artistas com fama nacional, uma estratégia eficaz. A multidão sai do espetáculo se sentindo curada e alfabetizada, não se dando conta de que está enferma e ignorante.
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