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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Sob o signo do espanto

Meus amigos sabem do amor que tenho por Wisława Szymborska (1923-2012), poeta da Polônia. Minha convivência com ela se iniciou quando li uma versão em inglês do poema “Vietnã”. Abaixo, tradução dele feita por Regina Przybycien:

Mulher, como você se chama? — Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? — Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? — Não sei.
Desde quando está aqui escondida? — Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? — Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? — Não sei.
De que lado você está? — Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. — Não sei.
Tua aldeia ainda existe? — Não sei.
Esses são teus filhos? — São. (1)

Diante de texto tão poderoso, só me restava ir atrás de tudo o que eu achasse da autora, o que passei a fazer. Nessa época, ela ainda não havia sido publicada no Brasil. A solução foi procurar edições em inglês. Li “Sounds, Feelings, Thoughts”, uma coletânea. Posteriormente, a Companhia das Letras publicaria “Poemas”, também coletânea; recentemente, a mesma editora lançou “Um amor feliz”, outra coletânea de Szymborska. Foi o livro que recebi ontem. (A tradução dos dois livros de Szymborska publicados pela Companhia das Letras é de Regina Przybycien.)

Terminei a leitura de “Um amor feliz” há pouco. Nos textos, a delicadeza, a inteligência, o humor, a metafísica, o espanto. Aliás, o espanto é moeda corrente dentre os poetas quando falam de poesia. Esse espanto é um maravilhamento diante do mundo, um estranhamento quanto ao que somos e ao que nos rodeia, um olhar que descortina riquezas escondidas atrás de lugares-comuns, uma atitude não saturada pelo cotidiano.

O último texto de “Um amor feliz” é o discurso proferido por Wisława Szymborska durante cerimônia na qual recebeu o Nobel, em 1996. Diz a autora: 

“O que quer que ainda pensemos sobre este mundo — ele é espantoso (...). Na linguagem da poesia, na qual se pesa cada palavra, nada é comum ou normal. Nenhuma pedra e sobre ela nenhuma nuvem. Nenhum dia e depois dele nenhuma noite. E acima de tudo nenhuma existência do que quer que seja neste mundo.

“Pelo visto os poetas sempre vão ter muito que fazer” (2).

A partir desse espanto, a poeta construiu uma poesia espirituosa, cheia de engenho. No poema “Desatenção”, tem-se: “Ontem me comportei mal no universo. / Vivi o dia inteiro sem indagar nada, / sem estranhar nada” (3). Das delicadezas do cotidiano (há poema sobre seres que só podem ser enxergados graças a microscópios) aos grandes eventos históricos (há poema a partir de uma fotografia tirada no 11 de Setembro), Szymborska nos delicia com a força da ternura, a perspicácia do humor fino e a argúcia de uma poderosa inteligência.
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(1) SZYMBORSKA, Wisława. Poemas. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. São Paulo. Companhia das Letras. 2011. Pág. 39.
(2) SZYMBORSKA, Wisława. Um amor feliz. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. 1ª ed. São Paulo. Companhia das Letras. 2016. Pág. 327.
(3) Idem. Pág. 255. 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

O GESTO DE HUDEA


A foto que retrata a menina Hudea, de quatro anos, correu o mundo. O autor é Osman Sağırlı; o registro é de dezembro do ano passado, embora só tenha se tornado conhecido mundialmente de uma semana para cá. Sağırlı tirou a foto na Síria; Hudea é uma das vítimas da guerra civil no País.

O fotógrafo explicou que ao apontar a câmera para a menina, ela levantou os braços, supondo que câmera e lente fossem alguma arma. A imagem é impressionante. Tudo nela assusta. A espontaneidade infantil de Hudea, no caso da foto, depõe contra nós e mostra a feiura do que somos capazes.

Se estamos aptos a causar uma reação dessas numa criança, de quantas provas ainda precisaremos para assumirmos que não demos certo? A foto de Sağırlı revela um momento que deveria servir para que parássemos o mundo.

O que torna a imagem mais impressionante é que não há sangue nela, não há vísceras, não há sinais aparentes nem visíveis de destruição, de violência. Já conspurcada por nós, adultos, a garota imita um gesto que é nosso. Esse não é o tipo de coisa que Hudea deveria ter aprendido conosco.

Sem querer, a menina de quatro anos esfrega na nossa cara o fiasco do mundo que fizemos para nós. Ela encara a lente, que na cabeça dela é algo que pode tirar a vida, mesmo sem ela ter ainda uma dimensão maior do que é a vida. Hudea olha a lente, Hudea nos olha. Parece estar a um átimo do choro.

Em 1972, Huynh Cong “Nick” Ut tirou a foto de Kim Phuc, que, aos nove anos, fugia de um vilarejo no Vietnã, após sofrer ferimentos causados por explosivos. A imagem de Kim Phuc e de outras crianças fugindo das consequências de uma guerra não foram o bastante para que tentássemos um novo caminho. Não satisfeitos, produzimos o gesto e a expressão de Hudea.

Vergonhoso já é nós, adultos, destruirmo-nos dia a dia, às vezes de modo sutil, às vezes com violência de feras. Não temos nem a “honradez” de fazer com que sejamos as únicas vítimas de nosso ridículo e pífio torvelinho. Incapazes de nos entendermos, temos de fazer com que crianças paguem pela nossa indecência. 

Brás Cubas tentou se esquivar: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Pelo menos na frase seguinte, não vou me eximir. Hudea, Kim Phuc ou João Hélio Fernandes são o legado da minha miséria, da sua miséria, da miséria de quem é gente. Todavia, amanhã é um novo dia. Tenho a convicção de que acordarei pronto para nada mudar. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

MORRE WISŁAWA SZYMBORSKA

Meus amigos e as pessoas que frequentam este blogue sabem do apreço que tenho pela poeta polonesa Wisława Szymborska. Somente hoje, enquanto eu percorria a página cultural do jornal El País, é que fiquei sabendo que Szymborska morreu ontem (primeiro de fevereiro), aos 88 anos.

Perdemos uma escritora lúcida, com elegantes senso de humor e ironia. Seus poemas são curtos, sua obra inteira de poesia cabe num livro não muito volumoso. Ela prima pela qualidade.

Lembro-me do primeiro poema dela que li. A partir daí, eu me interessei. De imediato, eu quis saber mais da autora. Abaixo, o poema, na tradução de Regina Przybycien.
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Wisława Szymborska - Vietnã

Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.
Para que cavou um toca na terra? – Não sei.
Desde quando está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Tua aldeia ainda existe? – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.