Mostrando postagens com marcador Drummond. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Drummond. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

LITERATURA PRIVADA

O poema conheceu praticamente todas as minhas calças. Eu o escrevi há alguns dias. Durante a feitura, eu não estava em casa. Sendo assim, dobrei o papel e o coloquei no bolso traseiro. Naquele dia, tendo trocado de roupa após o banho, peguei o poema e o coloquei no bolso de trás de outra calça.

O ritual foi assim até o dia de hoje; à tarde, o poema elegeu para si um novo destino. Por certo, cansou-se de minha procrastinação em passá-lo a limpo. Sem ser burilado, ele ia sendo amassado. Não se deve ignorar o que se conquista.

Assim que me pus de pé, dei-me com o poema. Era possível ler a caligrafia azul sobre a superfície do papel dobrado. O Drummond recomendou: “Não colhas no chão o poema que se perdeu”. Não o colhi. Mas foi com pesar que dei descarga. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

DOIS COELHOS

A Adélia Prado tem um poema chamado
“Todos fazem um poema a Carlos Drummond de Andrade”.
Este é o meu — 
também para ela. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

FOTOPOEMA 297


Há muitos anos, no Cine Riviera, cinema local que pegou fogo, assisti a um espetáculo teatral baseado em poemas do Drummond. Foi brilhante. Um pesar eu não me lembrar mais do nome do espetáculo nem do nome da companhia teatral.

Um dos poemas encenados foi o que contém os versos “no meio do caminho tinha pedra / tinha uma pedra no meio do caminho”. Um dos personagens, durante a representação do texto, saía correndo de uma das extremidades do palco e parava súbito no meio.

Assim fez algumas vezes, de modo que a plateia deduzia que ele estava parando a corrida diante de uma pedra criada pela mente. Uma pedra que, a rigor, não estava lá. Precisamente por não estar lá e por ser imaginado pelo personagem, o obstáculo torna-se mais eloquente e opressor.

Enquanto a gente escutava o poema sendo declamado, o personagem voltava, saía correndo outra vez e parava diante da “pedra”, que já estava na cabeça de todos nós. Numa sacada poderosa por parte da trupe, já estávamos todos loucos para tirar a “pedra” do caminho e para saber no que daria aquilo. 

Natural que logo pensássemos: “Será que ele vai superar o ‘obstáculo’?”. Com maestria, o pessoal “colocara” sobre o palco uma pedra-obstáculo, colocada também dentro da cabeça de quem assistia à peça; no fim do poema o ator dá um belo e catártico salto sobre a “pedra”.

Hoje pela manhã, eu me lembrei dessa memorável apresentação teatral. Deixando rolar a reminiscência e o devaneio, que têm um “método” próprio que a gente não sabe decifrar, acabei desembocando, ainda pela manhã, no texto que está junto à foto.

Eu o devo, pois, ao Drummond, ao espetáculo no Riviera e a tantas outras coisas de que nem faço ideia. Meu texto nada tem a ver com a apresentação teatral; além disso, subverte o texto original do poeta.

domingo, 16 de novembro de 2008

"O OBSERVADOR NO ESCRITÓRIO"

Terminei de reler “O observador no escritório”, livro de notas e apontamentos de Carlos Drummond de Andrade.

As notas são datadas. Vão de 15 de maio de 1943 a 18 de setembro de 1977. Nelas, emerge o funcionário público às voltas com seu trabalho burocrático, duvidoso quanto a seu papel político: “Sou um animal político ou apenas gostaria de ser? (...) Como posso convencer a outros, se não me convenço a mim mesmo? Se a inexorabilidade, a malícia, a crueza, o oportunismo da ação política me desagradam, eu, no fundo, quero ser um intelectual político sem experimentar as impurezas da ação política?”.

Aqui e ali, alude o poeta a fatos corriqueiros, desde o comportamento de um gato, louco para saciar seu apetite sexual, a conversas com os grandes intelectuais e artistas do Rio de Janeiro de então. Há momentos engraçados, reflexivos, tristes... Amigos, impressões, arranjos de bastidores para disputa de vaga na Academia Brasileira de Letras, morte de amigos...

O registro de um tempo pelo olhar do poeta. Em meio às notas, o que emergiu para mim (talvez injustamente) foi um Drummond um tanto misantropo. Ele própria cita, sem comentar, opinião de Lúcio Cardoso, numa entrevista:

“– Qual o maior poema que leu em sua vida?
“– “’Os bens e o sangue’”, desse raro exemplar de falta de calor humano que se chama Carlos Drummond de Andrade”.

Num outro trecho, Drummond diz que um verso de Mário de Sá-Carneiro parece definir o poeta de Itabira: “Fartam-me até as coisas que não tive”.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

DAS IMPUREZAS DO BRANCO

José Saramago, bem no comecinho de seu “Ensaio sobre a cegueira”, menciona o “mar de leite” que vai tomando conta dos personagens ao longo da cegueira branca que se alastra pelo livro.

Machado de Assis, no conto “Entre santos”, dá notícia de uma luz “cor de leite” no interior de uma igreja.

Herman Melville, em capítulo do “Moby Dick”, relata que o branco pode vir a ser terrífico.

Há o conto “Noites brancas”, do Dostoiévsky.

Vale a pena conferir, na página do Millôr, o "Livro branco" (disponível para assinantes do UOL).

Há ainda aquela história... Como é mesmo o nome dela?...

Deu branco...