quinta-feira, 16 de outubro de 2008

CONTO 25

Após ter se separado do marido, Célia se recolheu. Conversa bem, é bonita. O recolhimento não impedia que ela recebesse propostas quase que diariamente. Quando por fim aceitou uma delas foi com a decisão de manter namoro firme com um colega de trabalho. Depois de três anos, terminaram. Desde então, Célia passou a manter relacionamentos efêmeros e variados. Considera-se antiga diante das práticas da modernidade. Só topou participar do jogo depois de assumir para si mesma que não suporta a solidão.

... E GRANDE ELENCO

Crianças se maravilham facilmente. Quando pequeno, eu ficava impressionado com a capacidade que meu pai tinha de saber os nomes dos atores da televisão, ainda mais que ele não assistia às novelas.

Eu achava alguns nomes muito bonitos. Berta Loran era um deles. Com alguns, eu me enganei: certa vez, ao ver um ator em cena, perguntei para meu pai o nome do artista. “Ele se chama Ney Latorraca”. Na ocasião, fingi que tudo estava bem; não contei para o meu pai a surpresa que tive ao descobrir que aquele ator se chamava Ney Latorraca. Para mim Ney Latorraca era nome de mulher – é que eu pensava que a grafia do nome era Neila Torraca...

Sempre que alguma novela iria começar, havia as chamadas: Nesta segunda, estréia a próxima novela das oito, com Fulano, Beltrano, Sicrano e grande elenco. Quando eu escutava as chamadas, eu pensava que grande elenco era... o nome de algum ator.

Ora, eu já sabia da existência do Grande Otelo. Em minha lógica infantil, se havia Grande Otelo, poderia haver Grande Elenco.

Eu invariavelmente assistia ao começo das novelas para tentar identificar quem seria o tal do Grande Elenco. Afinal, ele estava em todas! Depois de exaustivas e infrutíferas tentativas, foi que decidi, intrigado, perguntar a meu pai quem era aquele ator. Rindo muito, ele me explicou o significado da palavra elenco.