Mostrando postagens com marcador Natalie Portman. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Natalie Portman. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 2 de março de 2021

Carros e cinema

Há poderosas sequências cinematográficas que não me canso de rever; comento três em que há carros. A primeira (não em ordem preferencial, mas em ordem cronológica), os minutos finais de Thelma & Louise (1991), do diretor Ridley Scott, quando Thelma [Geena Davis] e Louise [Susan Sarandon] se olham e, a seguir, fecham seus destinos. A segunda é do filme Um Beijo Roubado (2007), do diretor Kar-Wai Wong, no momento em que Elizabeth [Norah Jones] e Leslie [Natalie Portman] se despedem, acenando uma para a outra, cada uma em seu carro, enquanto dirigem numa rodovia. A terceira é uma sequência que está em As Vantagens de Ser Invisível (2012), do diretor Stephen Chbosky, quando Charlie [Logan Lerman] vai para a parte de trás da caminhonete, enquanto escutamos uma narração dele mesmo; terminado o belo texto da narração, passamos a escutar “‘Heroes’”, do David Bowie. São três sequências catárticas. 

domingo, 11 de novembro de 2012

MY BLUEBERRY NIGHTS

Há duas cenas de que muito gosto, por causa da sutileza delas. As duas, do filme “Um beijo roubado” (2007), do diretor Wong Kar Wai. Foi o primeiro filme dele em língua inglesa. Um dia desses, assisti a ele novamente, outra vez me emocionando com as duas cenas.

Há um instante em que Jeremy (Jude Law) se ajeita como pode sobre balcão de um café para beijar Elizabeth (Norah Jones), que dormira depois de um porre. A boca dela está suja por causa de uma torta cujo sabor dá título ao filme — “My blueberry nights”. Depois do beijo, a câmera continua próxima à boca de Elizabeth, que dá um levíssimo, delicioso e faceiro sorriso à Monalisa.

A outra cena ocorre no momento em que Elizabeth e Leslie (Natalie Portman) se despedem numa rodovia, cada uma num carro. Apesar da brevidade da convivência, um vínculo bonito se estabelecera entre as duas. A despedida se dá por acenos, enquanto escutamos a voz de Elizabeth fazendo considerações sobre o confiar ou não nas pessoas. A rodovia, a despedida, a voz de Elizabeth, o texto... Tudo isso acaba criando um belo momento.

segunda-feira, 14 de março de 2011

A DURAS PENAS

Havia na floresta dona Centopeia, que fazia o maior sucesso entre os bichos porque sabia dançar muito bem. Todos ficavam impressionados com a habilidade que ela tinha ao conferir graciosidade às suas cem pernas quando dançava. Enquanto dona Centopeia se deixava conduzir com leveza pela música, muitos bípedes e quadrúpedes eram duros e desengonçados.

Certo dia, um dos animas (dizem por aí que, no fundo, foi para sacanear a exímia dançarina), perguntou para a dona Centopeia:

 – Como a senhora faz para dançar tão bem, mesmo tendo cem pernas para coordenar? Como a senhora consegue?  Primeiro a senhora move a septuagésima sexta e depois a trigésima oitava? Ou a senhora mexe primeiro a vigésima terceira, para, em seguida, mover a nonagésima nona? Tenho muita curiosidade... Que ordem a senhora segue?

Dona Centopeia, que também era encantadora quando falava, respondeu:

– Meu caro senhor Macaco, nunca prestei atenção... É... Nunca reparei... Mas façamos o seguinte: na próxima vez em que eu for dançar, vou prestar atenção. Depois, digo para o senhor como faço. Mas acho que não sigo uma ordem definida. De qualquer modo, a gente volta a falar sobre isso.

Chegado o dia do baile, todos estavam muito curiosos para saber como funcionavam os mecanismos da dança em meio àquela profusão de pernas. A música, então, inicia-se. Todo mundo olha para dona Centopeia, que tem o cenho concentrado.

Segundos vão se passando e ela está olhando para suas pernas. Nunca havia reparado em como os movimentos eram executados. O relógio prossegue. Ela permanece estática, enquanto o olhar de boa parte da bicharada é estarrecido. A música prossegue. Quase um minuto já se foi. O silêncio constrange, pesa. Há alguns cuja expressão parece dizer “dança, dona Centopeia, dança”. Outros parecem transmitir indiferença. No meio da plateia, um chega bem pertinho do ouvido de outro e cochicha: “Bem feito”.

Dona Centopeia tem a cabeça baixa. Não sabe o que fazer, não sabe dar o primeiro passo. Está acorrentada.

Ela jamais voltaria a dançar.
_____

Sempre gostei da historieta acima. Não sei mais quem ma contou. Ela tem uma relação especular com “Cisne negro” (Black swan, EUA, 2010). Nina (Natalie Portman) se preocupa demais com a técnica, a ponto de não se soltar, não se libertar. Devido ao excesso de técnica e à sua vida atribulada, ela não consegue ser em totalidade a dançarina que efetivamente é.

Temática muito instigante, bem conduzida pelo diretor Darren Aronofsky.

sábado, 9 de janeiro de 2010

"UM BEIJO ROUBADO"


Na noite passada, liguei a TV. Um filme estava prestes a começar. O título não me chamou a atenção: “Um beijo roubado” (My blueberry nights, França, 2007). Embora seja produção francesa, o filme, dirigido por Wong Kar Wai, é falado em inglês.

Apesar de o título do filme não ter me atraído (nem no original – referência a uma torta que uma das personagens pedia num bar), conferi a sinopse: garota desiludida por amor sai pelos Estados Unidos afora. Em sua trajetória, encontra algumas “peças”: um policial que não consegue se esquecer da ex-esposa, uma viciada em jogos...

Continuou não me atraindo. Conferi então o elenco: Jude Law e Norah Jones. Pensei então: “Ei, será que essa Norah Jones é a cantora?”. E era.

Por ela, de quem sou fã como cantora, e por Jude Law, de quem sou fã como ator, decidi começar a ver o filme – e não me arrependi.

Antes de partir em suas andanças pelos Estados Unidos, Elizabeth (Norah Jones) frequenta, sempre tarde da noite, o bar de Jeremy (Jude Law). Elizabeth está inconsolável, devido a um amor que não deu certo – ela fica sabendo por intermédio do próprio Jeremy que o namorado dela estivera lá com outra.

Do nada, ela inicia então suas andanças. A fim de juntar grana para comprar um carro, descola empregos como garçonete. Num cassino, conhece Leslie (Natalie Portman), viciada em pôquer. Por intermédio da convivência entre as duas, Elizabeth acaba conseguindo comprar o carro. E a cena de despedida entre as duas é uma das mais belas que já vi por aí.

Enquanto realiza sua “turnê”, Elizabeth envia cartões postais para Jeremy, sem contudo lhe contar seu endereço ou mesmo onde trabalha. Por fim, acaba voltando a Nova York. O desfecho é bonito e não descamba para o dramalhão.

Gostei muito de como o diretor e os roteiristas (um deles é o próprio diretor; o outro é Lawrence Block) compuseram uma história de amor delicada e poética, sem incorrer em sentimentalismo bobo nem em cerebralismos chatos.

A trilha sonora é também de alto nível. Além da própria Norah Jones, que comparece com “The story”, há Otis Redding, Cat Power, Ry Cooder, Ruth Brown, Mavis Staples, Chikara Tsuzukii, Amos Lee, Hello Stranger, Gustavo Santaolalla e Cassandra Wilson.

Aliás, Cassandra Wilson está presente na trilha com uma bela, muita bela regravação de “Harvest moon”, do Neil Young – volto a falar sobre isso na próxima edição do Caiu na Rede. Pretendo executar as versões com o Neil Young e com a Cassandra Wilson.