O russo Mikhail Bulgákov é autor de uma novela intitulada Morfina. O narrador, um médico, está a trabalho num ermo russo, numa pequena localidade. Convive com pacientes e com colegas de trabalho. O médico se envolve com uma enfermeira. Escreve ele: “Anna K. tornou-se minha amante. Não podia ser diferente, de jeito nenhum”. Posteriormente, o Drummond escreveria: “Que pode uma criatura senão, / entre criaturas, amar?”.
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sexta-feira, 10 de junho de 2022
domingo, 21 de outubro de 2018
Cova 312
Os violentos não escondem mais o que querem, que é matar aqueles com quem não concordam, desconsiderando qualquer noção de direitos humanos, de dignidade humana, de direito à vida, de liberdade civil, de liberdade de defender ideias. No poema “Morte do leiteiro”, do emblemático A Rosa do Povo, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945, há os versos “há no país uma legenda, / que ladrão se mata com tiro”.
Em involuntária paráfrase sinistra, parte da classe média apropriar-se-ia dos versos drummondianos, devidamente descontextualizados, criando o bordão “bandido bom é bandido morto”, cunhando suas variações, inserindo no lugar da palavra “bandido” qualquer outra que expresse pensamento diverso do deles ou do modo de vida que eles têm. Basta pensar diferentemente deles para se receber a pena de que o mais indicado é ser morto.
É questão de tempo para que passem a matar de modo mais escancarado do que já matam. Estão a um passo de obter carta branca para que desconsiderem as leis, a constituição e as instituições. Vão implantar um país que seja regido unicamente por heterossexuais brancos, de classe média ou de classe alta. Se um dos integrantes dessa seita tiver algum comportamento sexual que não faça parte da opressora cartilha deles, esse mesmo integrante tratará de se calar, evitando confessar até para si, no travesseiro, espectros que atormentam; se o “desvio” for no outro, aí a solução é fácil: basta matar esse outro.
A leitura de Cova 312, da jornalista Daniela Arbex, publicado pela Geração Editorial, pode ser recebida com ambivalência. O livro tem como fio condutor pesquisa realizada por Arbex sobre o paradeiro do corpo de Milton Soares de Castro, morto pela ditadura militar brasileira. Na época, a versão dos militares foi a de que Milton suicidara-se.
Os que são a favor de alguma garantia para o cidadão têm no livro de Daniela Arbex mais um documento, dentre tantos, que atesta a violência, a arbitrariedade e a vileza do regime ditatorial que assolou o país; os que são a favor da ditadura (negando que ela existiu e que deveria ser instaurada ou gritando para que ela volte) acharão merecido o padecimento por que Milton e outros cidadãos mencionados por Daniela Arbex passaram.
Há muitos que bradam a favor da infâmia que é torturar; há muitos que defendem ou apoiam torturadores; muitos que exibem em camisetas ou em adesivos de carros algozes fardados ou de ternos; muitos que votam em quem quer a morte dos que defendem alguma mínima garantia para o corpo de quem não está em sintonia com carrascos. Desses muitos que arrotam essas brutalidades, a maior parte não deu nem dará a mínima para o livro de Daniela Arbex, por não lerem coisa alguma, por não estarem interessados na história ou por distorcê-la de acordo com seus princípios desinformados e covardes.
O livro de Daniela Arbex tem dois grandes méritos: é uma exceção no sentido de que se dedica a contar uma história que demandaria fôlego — o jornalismo feito aqui não é de se debruçar sobre longas matérias; outro grande mérito do trabalho de Daniela Arbex é saber buscar o que há de mais humano e universal nas histórias que conta. Holocausto Brasileiro, Todo Dia a Mesma Noite e Cova 312 provam a grande contribuição de Daniela Arbex para a história recente do Brasil. Mas, sabemos, muitos por aí alegarão que livro bom é livro queimado.
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
Literatura, futebol e salmão
Eu queria comer algo de verdade. Eu havia acabado de sair da Bienal, em São Paulo. No evento, estavam vendendo sanduíches, cachorros-quentes e afins. Digo que isso não é comida de verdade. Longe de casa, num hotel que não servia almoço, perguntei para a funcionária da recepção onde eu poderia comer algo que não lembrasse um sanduíche. Ela me indicou um bar que fica bem em frente ao hotel, ao mesmo tempo em que parece ter lido em minha expressão uma certa incredulidade. Quando eu estava prestes a deixar a recepção do hotel, a funcionária disse: “É bar, mas servem comida”.
Entrei e pedi uma cerveja. Eu me sentei perto do cubículo em que o cozinheiro estava fritando um peixe. Olhando para a panela, contemplei um pedaço de salmão. Pedi a ele (não ao salmão, mas ao cozinheiro) que preparasse também para mim um salmão. Pedi ainda que houvesse pouca salada e pouco arroz. Enquanto a comida estava sendo preparada, eu ia tomando a cerveja.
O próprio cozinheiro me serviu o que ele havia preparado. Perguntou-me se eu queria outra cerveja; pedi um refrigerante. Ele foi pegá-lo. Tendo voltado, perguntou de onde eu era. Eu disse que era de Minas Gerais. Ele quis saber se eu era de Belo Horizonte. “Não, de Patos de Minas”, eu disse. Respondendo à minha pergunta sobre de onde ele era, o cozinheiro disse: “Sou de Alagoas, terra do Graciliano Ramos”.
A partir daí, iniciamos conversa sobre escritores e sobre literatura. Heleno, cozinheiro e dono do bar, já leu muito. Tem quarenta anos. Mora em São Paulo desde os dezesseis. Desde então, trabalhou em hotéis durante boa parte desse tempo. Há cinco meses, deixou o ramo hoteleiro e abriu o bar. Heleno não tem curso superior. Segundo ele, começou a estudar gastronomia, mas não terminou o curso. À medida que ele ia conversando, eu ficava impressionado com a familiaridade que ele demonstrava ter não somente com os autores do nordeste, mas também com os demais escritores nacionais e internacionais.
Ele mencionou Sade, Drummond, Machado, João Cabral, Cecília Meireles, Llosa, Suassuna... Dos autores de que falava, comentava os livros que havia lido, citava trechos, fazia referência a cenas.
Ele mencionou Sade, Drummond, Machado, João Cabral, Cecília Meireles, Llosa, Suassuna... Dos autores de que falava, comentava os livros que havia lido, citava trechos, fazia referência a cenas.
A conversa rendia. Quanto mais a gente batia papo, mais eu me surpreendia com o vasto conhecimento que Heleno tem da literatura universal. Num certo momento, perguntei-lhe se escrevia. Segundo o que respondeu, não, mas que tinha vontade de se arriscar. Tentei encorajá-lo para que começasse.
Os demais fregueses do bar já estavam se alimentando. Quando queriam pedir algo, eram atendidos pela esposa de Heleno. Quando um novo freguês chegou, pedindo uma refeição, o dono do bar se afastou. Quando voltou, continuamos nossa conversa sobre escritores.
Quando eu já estava quase terminando minha refeição, o dono do bar me perguntou se eu gostava de futebol. Tive a impressão que o tom dele era de quem não acreditava que gosto de futebol. “Sou cruzeirense; e você?” Ele é flamenguista. A partir daí, passamos a falar de futebol.
Eu e ele não tivemos o privilégio de assistir nem ao Santos de Pelé nem ao Botafogo de Garrincha. Mesmo assim, elencamos os melhores times que presenciamos. Depois de ponderações, cortes e argumentos, chegamos a esta lista: o Flamengo de 1981, o São Paulo do Telê, o Palmeiras de meados da década de noventa, o Corinthians de 1998 e o Cruzeiro de 2003. Meu companheiro de conversa fez a ressalva: “Mas aquele time do Atlético mineiro do começo da década de oitenta, o time do Reinaldo, era um baita time”.
Achei curioso ele se lembrar tão nítido do Flamengo e do Atlético do comecinho da década de oitenta, pois, se tem quarenta anos, ele tinha uns seis quando esses times brilharam. Quando falamos do rubro-negro, dei a escalação do time, só que fora de ordem. Heleno escalou os jogadores nas posições que ocupavam, encostando o indicador da mão direita na mesa do bar, indicando onde estariam os atletas, como se a mesa fosse um campo de futebol.
Enquanto conversávamos, tive a ideia de dar a ele um exemplar de meu livro Dislexias. Assim que paguei a conta, atravessei a rua, fui ao quarto do hotel e peguei o livro. Voltei ao bar, fiz a dedicatória. Heleno a leu, me agradeceu e disse que faria questão de fazer a leitura. É gratificante imaginar que poderei ser lido por ele.
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
Os comensais
Há muito tempo, li que comida “tem de ter cor, cheiro e sabor”. Não sei cozinhar. Todavia, tenho a impressão de que sei apreciar, embora eu possa estar enganado quanto a isso. Estando ou não, o pensamento de que a comida “tem de ter cor, cheiro e sabor” nunca saiu da minha cabeça.
O cheiro e o sabor podem parecer óbvios. Pode parecer desnecessário dizer que uma comida precisa ter cheiro e sabor. Todavia, não é bem assim. A cor não tem de ser necessariamente saturada. O prato pode não ser vistoso, pode não ter cores berrantes. Cores sutis ou não saturadas não sinalizam comida ruim. Há nuances, sutilezas, alimentos saborosos que não têm cores vibrantes.
Culinária é ritual. Sei que pode haver muito de careta, de arcaico e de afetado no que querem que seja ritual. Se há afetação, ritual não é, mas pose. O prazer de comer não está ligado a poses; por isso mesmo, etiqueta demais é desnecessária (bem como etiqueta de menos não é recomendada). Cor, cheiro e sabor são parte do ritual.
Pode-se comer sem a companhia de alguém. Já li por aí que o Drummond achava deselegante se alimentar quando havia pessoas por perto. Mesmo assim, o ritual da comida está intimamente ligado ao ato de celebrar. Comer é celebrar; celebrar de modo solitário é sem graça.
A celebração é parte do ritual. Que os comensais estejam reunidos para acompanhar, cheirar e degustar o que estiver sendo preparado. Que estejamos nas imediações da feitura, numa distância em que seja possível se dar conta, de antemão, do cheiro. O mesmo Drummond nos recomendou conviver com que nos propusermos a escrever. Convivamos com o preparo da comida. Que haja amizade, que haja amor. No ar, o cheiro. Quando a comida é servida, cheiro e cor. Tudo sem pressa, sem presunção. Cheiros, cores, sabores, olhares, risos, brindes.
Comer é celebrar. É um outro modo de dizer para as pessoas o quanto gostamos delas, o quanto fazemos questão da presença delas. A rigor, comer é atender a uma necessidade fisiológica; só que, ainda bem, achamos um modo de unir essa necessidade à possibilidade de congraçamento, de alegria, de sintonia.
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domingo, 10 de maio de 2015
EM SALA DE AULA
Uma boa aula tem sobre o espírito o mesmo efeito de uma boa leitura: ambas são inspiradoras. Ontem à tarde, no Unipam, depois de três horas de aula com o professor Luís André Nepomuceno, pós-doutor em teoria literária pela Unicamp, saí inspirado.
Ele começou ontem o curso de extensão “Literatura e Psicanálise”; a continuidade será no dia vinte e três de maio. Segundo material distribuído pelo professor, os objetivos do curso são “analisar os conceitos fundamentais da psicanálise freudiana, como forma de identificá-los com uma teoria crítica da literatura” e “aplicar conceitos da psicanálise na leitura de textos literários diversos”.
Na aula deste nove de maio, Luís André fez uma introdução às ideias que precederam a psicanálise, tendo sempre em mente o ambiente histórico que produziu tais ideias. A seguir, conceitos fundamentais da psicanálise foram expostos, sempre com o viés histórico em mente. Numa terceira etapa, e à luz do que havia sido debatido durante a aula, foi lido o poema “Coleção de cacos”, de Carlos Drummond de Andrade. Para a aula de vinte e três de maio, além de produções drummondianas, estão programadas discussões de textos de Aníbal Machado, de Hans Christian Andersen, dos irmãos Grimm e de D.H. Lawrence.
Luís André Nepomuceno tem profícua trajetória acadêmica; vem se dedicando ao ensino, à pesquisa, à tradução e à escrita de ensaios. Paralelamente, é ficcionista, tendo publicado contos e romances pela 7Letras. Ele foi meu professor (de literaturas inglesa e americana) por dois anos; posteriormente, eu seria colega de trabalho dele no Unipam.
Por algumas vezes, em conversas com o Luís André, eu me vali do adjetivo “industrioso” para me referir à postura dele diante do mundo das palavras, sejam elas textos acadêmicos, sejam textos ficcionais. Ele produz muito. Como professor, o didatismo dele é do tipo que não tira nem a beleza nem a profundidade do que está sendo estudado. Consciente de seu papel de docente no ensino superior, oferta, com seu jeito diplomático de conduzir as relações em sala de aula e com sua cultura, momentos em que a beleza do conhecimento toma conta do ambiente.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
NÃO BASTA
Não basta dar a luz para ser Thomas Edison.
Não basta ser dândi para ser Oscar Wilde.
Não basta morar num castelo para ser Montaigne.
Não basta mostrar a língua para ser Einstein.
Não basta tomar ácido para ser Jim Morrison.
Não basta ser condenado para ser Galileu.
Não basta vir ao Brasil para ser Darwin.
Não basta viajar para ser Melville.
Não basta não viajar para ser Drummond.
Não basta ter pegada para ser Sade.
Não basta ser torto para ser Garrincha.
Não basta gostar de “poodles” para ser Schopenhauer.
Não basta ter bigode para ser Nietzsche.
Não basta ser linda para ser Elizabeth Taylor.
Não basta ser pintor, escultor, desenhista,
projetista nem inventor para ser Da Vinci.
Não basta uma lista para ser um poema.
Não basta ser dândi para ser Oscar Wilde.
Não basta morar num castelo para ser Montaigne.
Não basta mostrar a língua para ser Einstein.
Não basta tomar ácido para ser Jim Morrison.
Não basta ser condenado para ser Galileu.
Não basta vir ao Brasil para ser Darwin.
Não basta viajar para ser Melville.
Não basta não viajar para ser Drummond.
Não basta ter pegada para ser Sade.
Não basta ser torto para ser Garrincha.
Não basta gostar de “poodles” para ser Schopenhauer.
Não basta ter bigode para ser Nietzsche.
Não basta ser linda para ser Elizabeth Taylor.
Não basta ser pintor, escultor, desenhista,
projetista nem inventor para ser Da Vinci.
Não basta uma lista para ser um poema.
Não basta uma lista para ser um poema.
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
POR AMOR
Claro que, quando se ama, a vontade é a de e-xi-gir do outro que ele também ame. Afinal, como alguém pode não amar um amor tão intenso que é ofertado de modo tão espontâneo e forte? Mas não temos o direito de exigir que a outra pessoa nos ame, por mais que o desejo seja de pegá-la pelo pescoço e fazer com que ela receba o amor que é só dela.
É como se a gente dissesse para a pessoa: “Olha, você nem imagina o quanto sou capaz de fazer você feliz, o quanto quero fazer você feliz”. Se a outra pessoa for madura, ela sabe disso, mas pode não querer receber o amor que a ela é ofertado, seja por que razão for.
“João amava Teresa”. Mas Teresa amava Raimundo... Num certo dia, um João pode amar uma Teresa, e por ela ser amado. Se um amor que não começa já é algo complicado de manejar, um amor que se inicia requer arte para a qual nem todos estão prontos. O amor pode não ter limites; os amantes têm.
Nem sempre o amor é. Em muitas vezes, poderia ter sido; noutras tantas, foi e deixou de ser. Muitos há que só descobrem do que são capazes depois que passam a amar. Amar não é fácil. É difícil saber dar amor; é difícil saber receber amor. Amor chega, amor vai embora. Ou não.
No silêncio noturno e solitário dentro de um ônibus que rasga a madrugada ou sobre cama ruidosa e suada, é o amor que age, que vai fazendo com que vivamos, dos gestos mais simples aos mais retumbantes, por ele. Tudo é por amor. Contudo, posso estar enganado. Talvez nem tudo seja por amor. Mas deveria.
É como se a gente dissesse para a pessoa: “Olha, você nem imagina o quanto sou capaz de fazer você feliz, o quanto quero fazer você feliz”. Se a outra pessoa for madura, ela sabe disso, mas pode não querer receber o amor que a ela é ofertado, seja por que razão for.
“João amava Teresa”. Mas Teresa amava Raimundo... Num certo dia, um João pode amar uma Teresa, e por ela ser amado. Se um amor que não começa já é algo complicado de manejar, um amor que se inicia requer arte para a qual nem todos estão prontos. O amor pode não ter limites; os amantes têm.
Nem sempre o amor é. Em muitas vezes, poderia ter sido; noutras tantas, foi e deixou de ser. Muitos há que só descobrem do que são capazes depois que passam a amar. Amar não é fácil. É difícil saber dar amor; é difícil saber receber amor. Amor chega, amor vai embora. Ou não.
No silêncio noturno e solitário dentro de um ônibus que rasga a madrugada ou sobre cama ruidosa e suada, é o amor que age, que vai fazendo com que vivamos, dos gestos mais simples aos mais retumbantes, por ele. Tudo é por amor. Contudo, posso estar enganado. Talvez nem tudo seja por amor. Mas deveria.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
LITERATURA PRIVADA
O poema conheceu praticamente todas as minhas calças. Eu o escrevi há alguns dias. Durante a feitura, eu não estava em casa. Sendo assim, dobrei o papel e o coloquei no bolso traseiro. Naquele dia, tendo trocado de roupa após o banho, peguei o poema e o coloquei no bolso de trás de outra calça.
O ritual foi assim até o dia de hoje; à tarde, o poema elegeu para si um novo destino. Por certo, cansou-se de minha procrastinação em passá-lo a limpo. Sem ser burilado, ele ia sendo amassado. Não se deve ignorar o que se conquista.
Assim que me pus de pé, dei-me com o poema. Era possível ler a caligrafia azul sobre a superfície do papel dobrado. O Drummond recomendou: “Não colhas no chão o poema que se perdeu”. Não o colhi. Mas foi com pesar que dei descarga.
segunda-feira, 28 de julho de 2014
PERNAS ESCRITAS
Não faltam pernas. Em “O apanhador no campo de centeio” (The catcher in the rye), segundo a tradução de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e Jório Dauster, lê-se: “Garotas de pernas cruzadas, garotas de pernas descruzadas, garotas com pernas fabulosas, garotas com pernas pavorosas” (...). Drummond, em seu “Poema de sete faces”, escreveu: “O bonde passa cheio de pernas: / pernas brancas pretas amarelas. / Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração”. Assim caminha a literatura.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
PRÊMIO NOBEL PARA RONALDO
Ronaldo, vulgo Fenômeno, postou no Instagram um texto em que se lê:
“PRÊMIOS NOBEL
“ALEMANHA 102
“BRASIL 0
“E você acha que 7 x1 foi goleada?”.
De antemão: o futebol é disputa; o prêmio Nobel, não. Além do mais, o povo de um país não deve ser julgado pela quantidade de prêmios Nobel que esse país detém: não bastassem as questões políticas que podem permear uma premiação ou outra do Nobel, o fato de o Brasil não ter nenhum laureado não significa incapacidade da população. O brasileiro é tão capaz quanto qualquer pessoa de qualquer nacionalidade. Se não temos um Nobel, isso se deve muito mais a questões históricas do que à falta de talento de nossa gente.
Na literatura, que é uma área de que dou notícia, Drummond, João Cabral, Guimarães Rosa, Bandeira ou Lúcio Cardoso, só para ficar em alguns exemplos, poderiam ter sido agraciados com o prêmio. Ronaldo, que foi um craque em campo, não sabe disso. Exatamente por isso, não deveria ter propagado piada (sem graça) sobre aquilo de que nada entende.
Por fim, há algo que me soa estranho: Ronaldo foi jogador de futebol. A piada ruim e sem criatividade divulgada por ele diz respeito a algo que ocorreu com colegas de profissão dele. Além da burrice da postagem, a atitude do ex-jogador revela uma profunda falta de ética e de solidariedade para com os colegas de profissão.
quarta-feira, 19 de março de 2014
DOIS COELHOS
A Adélia Prado tem um poema chamado
“Todos fazem um poema a Carlos Drummond de Andrade”.
Este é o meu —
também para ela.
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domingo, 22 de dezembro de 2013
COMO SEMPRE, "AS RELAÇÕES PERIGOSAS"
Que a vida me dê a chance de reler e reler “As relações perigosas”, de Choderlos de Laclos. É fascinante como o livro consegue ser, ao mesmo tempo, um tratado do amor e do desamor. Como numa moeda, ao esmiuçar o amor de um lado, deixa-nos deduzir o desamor do outro; ao detalhar o desamor de um lado, deixa-nos concluir o amor do outro. Amor e desamor em homens, mulheres e jovens.
“As relações perigosas” é um monumento à linguagem, à fina observação do amor e dos estratagemas que podem ser usados por homens e mulheres ao lidar com ele. Um monumento triste, denso, intenso, lancinante. Um monumento que reflete o quanto de amor e de desamor somos capazes de engendrar.
Eu já havia lido uma edição que tem a tradução de Carlos Drummond de Andrade, numa parceria Ediouro/Folha de S.Paulo. A edição que estou lendo agora é uma outra parceria, desse vez entre a Penguin/Companhia das Letras. A tradução é de Dorothée de Bruchard. O tom de Bruchard é menos solene do que o de Drummond: se ela, por exemplo, prefere o “você”, Drummond opta pelo “vós”.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
FOTOPOEMA 297
Há muitos anos, no Cine Riviera, cinema local que pegou fogo, assisti a um espetáculo teatral baseado em poemas do Drummond. Foi brilhante. Um pesar eu não me lembrar mais do nome do espetáculo nem do nome da companhia teatral.
Um dos poemas encenados foi o que contém os versos “no meio do caminho tinha pedra / tinha uma pedra no meio do caminho”. Um dos personagens, durante a representação do texto, saía correndo de uma das extremidades do palco e parava súbito no meio.
Assim fez algumas vezes, de modo que a plateia deduzia que ele estava parando a corrida diante de uma pedra criada pela mente. Uma pedra que, a rigor, não estava lá. Precisamente por não estar lá e por ser imaginado pelo personagem, o obstáculo torna-se mais eloquente e opressor.
Enquanto a gente escutava o poema sendo declamado, o personagem voltava, saía correndo outra vez e parava diante da “pedra”, que já estava na cabeça de todos nós. Numa sacada poderosa por parte da trupe, já estávamos todos loucos para tirar a “pedra” do caminho e para saber no que daria aquilo.
Natural que logo pensássemos: “Será que ele vai superar o ‘obstáculo’?”. Com maestria, o pessoal “colocara” sobre o palco uma pedra-obstáculo, colocada também dentro da cabeça de quem assistia à peça; no fim do poema o ator dá um belo e catártico salto sobre a “pedra”.
Hoje pela manhã, eu me lembrei dessa memorável apresentação teatral. Deixando rolar a reminiscência e o devaneio, que têm um “método” próprio que a gente não sabe decifrar, acabei desembocando, ainda pela manhã, no texto que está junto à foto.
Eu o devo, pois, ao Drummond, ao espetáculo no Riviera e a tantas outras coisas de que nem faço ideia. Meu texto nada tem a ver com a apresentação teatral; além disso, subverte o texto original do poeta.
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
NOVA EDIÇÃO DO CAIU NA REDE
Pessoas, está no ar a nova edição do Caiu na Rede. Há também um novo “player” para rodar o programa. Caso tenham alguma dificuldade em escutá-lo, gentileza me dizer.
Muito obrigado ao gentil garoto Caio Loiola, que participa desta edição do Caiu na Rede lendo o poema “Amor”, de Carlos Drummond de Andrade (o texto está transcrito abaixo). Valeu, Caio.
_____
O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.
“Amor” – eu disse – e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.
Muito obrigado ao gentil garoto Caio Loiola, que participa desta edição do Caiu na Rede lendo o poema “Amor”, de Carlos Drummond de Andrade (o texto está transcrito abaixo). Valeu, Caio.
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O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.
“Amor” – eu disse – e floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.
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quarta-feira, 17 de junho de 2009
AINDA "AS RELAÇÕES PERIGOSAS"
Assisti a uma das adaptações do livro “As relações perigosas” para o cinema. A trama de Choderlos de Laclos já esteve nas telas em 1959, sob responsabilidade do diretor Roger Vadim; em 1989, pelas mãos do diretor Milos Forman; em 1999, em trabalho do diretor Roger Kumble; e em 1988, sob direção de Stephen Frears.
“As relações perigosas” foi o primeiro filme que Frears dirigiu em Hollywood. Os cenários são suntuosos e o figurino é impecável – a película levou Oscar de melhor figurino e melhor roteiro adaptado, escrito por Christopher Hampton. Esse roteiro cinematográfico é adaptação de peça teatral escrita pelo próprio Hampton.
É importante ressaltar que no poderoso livro de Laclos, a trama vai se desenvolvendo por intermédio de cartas. Trechos dessas cartas compuseram a base dos diálogos no roteiro de Hampton. Como sempre, as comparações entre livro e filme são inevitáveis, mesmo tendo-se em mente que cinema e literatura são diferentes meios de expressão.
Antes mesmo de começar a assistir ao filme, fiquei pensando nas saídas que diretor e roteirista teriam pensado ao levar para a tela o universo de Laclos. Eu estava curioso para saber como confeririam densidade aos personagens do livro.
É que Laclos não tem pressa. As seduções a que se dedicam a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont são lentas, calculadas, malévolas e devastadoras. Eu não diria que eles não têm a capacidade de amar. São capazes de amor (contudo, o próprio Laclos escreveu em carta para uma amiga que a Marquesa de Merteuil era incapaz de amar), embora a própria marquesa vaticine, na tradução de Carlos Drummond de Andrade: “Aonde nos conduz, pois, a vaidade! Tem toda a razão o sábio, quando diz que ela é inimiga da felicidade”.
O Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil frequentam requintados ambientes e têm um diabólico poder de sedução. Ambos sabem jogar, exercem com elegância e inteligência o encanto que sabem que têm. Conhecem suas qualidades e conhecem o sexo oposto. Tramam, mentem.
Já Cécile Volanges é adolescente, ingênua demais. Presa fácil nas teias do conde e da marquesa. Outra personagem, a Presidenta de Tourvel, casada e fervorosa católica, bem poderia ser a redenção do amor, mas também sucumbe à perversidade dos dois. O próprio Laclos escrevera a uma amiga: “O quadro que eu pinto é entristecedor, concordo, mas é verdadeiro”.
Frears levou para a tela a personalidade dos atores principais. Contudo, as duas horas de filme obrigam o diretor a condensar, a cortar, a ser rápido. Em alguns momentos, chegou a me ocorrer que eu acharia a trama confusa caso não tivesse lido o livro, que nos oferece maior possibilidade de tempo de convivência com os personagens e com o enredo. Sou naturalmente lento ao acompanhar enredos intrincados, e por vezes achei meio confusa a trama no filme – o que não me ocorreu no livro.
Nada sei da peça teatral que foi adaptada para que o filme fosse realizado. Mas como se trata de uma produção rodada em Hollywood, penso ter havido uma série de pressões por parte de estúdio, produtores etc para que a história se tornasse um pouco mais palatável.
No filme de Frears, há uma espécie de discurso do visconde (John Malkovich), já no fim, que me soou muito redentor. O destino da marquesa (Glenn Close) no filme, embora vexatório, é menos trágico do que o destino que lhe cabe no livro.
Claro que tenho em mente que adaptações e ajustes têm de ser feitos, pois que cinema e literatura são linguagens diferentes. À parte isso, o filme não alcança a perversidade e a amarga ironia que o livro tem. Quando os créditos começaram, fiquei pensando no fim comportadinho, digamos assim, do filme, mesmo levando-se em conta o destino trágico de uma personagem virtuosa como a Presidenta de Tourvel.
Com outras palavras: terminado o filme, fica-se com aquele pensamento simplista, a que me referi em postagem anterior sobre o livro de Laclos, de que os maus serão punidos. A despeito dos destinos trágicos da marquesa e do visconde, insisto na ideia de que o livro é profunda e tristemente irônico e sarcástico.
Não somente por causa do personagem Prévan (a que também fiz referência na postagem sobre o livro), que está ausente do filme, mas também pelo prefácio fictício que compõe a obra de Laclos. Nesse prefácio, um editor afirma que falta verossimilhança às cartas, chegando a escrever: “Com efeito, muitas personagens postas em cena têm tão maus costumes que é impossível supor hajam vivido em nosso século; neste século de filosofia, em que as luzes [o livro foi publicado no século XVIII, o século do Iluminismo], espalhadas por toda parte, tornaram, como se sabe, todos os homens tão honestos e todas as mulheres tão modestas e reservadas”.
Tudo muito cínico e tragicamente hilariante. Seria o mesmo que eu criar personagens com "tão maus costumes", valendo-me das palavras do prefácio, vivendo em Patos de Minas e inventar eu mesmo um prefácio dizendo que obviamente o autor se engana, pois que numa cidade tão civilizada como a Patos de Minas de hoje não há maus costumes, não há vaidade. Faltou ao filme esse cinismo.
“As relações perigosas” foi o primeiro filme que Frears dirigiu em Hollywood. Os cenários são suntuosos e o figurino é impecável – a película levou Oscar de melhor figurino e melhor roteiro adaptado, escrito por Christopher Hampton. Esse roteiro cinematográfico é adaptação de peça teatral escrita pelo próprio Hampton.
É importante ressaltar que no poderoso livro de Laclos, a trama vai se desenvolvendo por intermédio de cartas. Trechos dessas cartas compuseram a base dos diálogos no roteiro de Hampton. Como sempre, as comparações entre livro e filme são inevitáveis, mesmo tendo-se em mente que cinema e literatura são diferentes meios de expressão.
Antes mesmo de começar a assistir ao filme, fiquei pensando nas saídas que diretor e roteirista teriam pensado ao levar para a tela o universo de Laclos. Eu estava curioso para saber como confeririam densidade aos personagens do livro.
É que Laclos não tem pressa. As seduções a que se dedicam a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont são lentas, calculadas, malévolas e devastadoras. Eu não diria que eles não têm a capacidade de amar. São capazes de amor (contudo, o próprio Laclos escreveu em carta para uma amiga que a Marquesa de Merteuil era incapaz de amar), embora a própria marquesa vaticine, na tradução de Carlos Drummond de Andrade: “Aonde nos conduz, pois, a vaidade! Tem toda a razão o sábio, quando diz que ela é inimiga da felicidade”.
O Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil frequentam requintados ambientes e têm um diabólico poder de sedução. Ambos sabem jogar, exercem com elegância e inteligência o encanto que sabem que têm. Conhecem suas qualidades e conhecem o sexo oposto. Tramam, mentem.
Já Cécile Volanges é adolescente, ingênua demais. Presa fácil nas teias do conde e da marquesa. Outra personagem, a Presidenta de Tourvel, casada e fervorosa católica, bem poderia ser a redenção do amor, mas também sucumbe à perversidade dos dois. O próprio Laclos escrevera a uma amiga: “O quadro que eu pinto é entristecedor, concordo, mas é verdadeiro”.
Frears levou para a tela a personalidade dos atores principais. Contudo, as duas horas de filme obrigam o diretor a condensar, a cortar, a ser rápido. Em alguns momentos, chegou a me ocorrer que eu acharia a trama confusa caso não tivesse lido o livro, que nos oferece maior possibilidade de tempo de convivência com os personagens e com o enredo. Sou naturalmente lento ao acompanhar enredos intrincados, e por vezes achei meio confusa a trama no filme – o que não me ocorreu no livro.
Nada sei da peça teatral que foi adaptada para que o filme fosse realizado. Mas como se trata de uma produção rodada em Hollywood, penso ter havido uma série de pressões por parte de estúdio, produtores etc para que a história se tornasse um pouco mais palatável.
No filme de Frears, há uma espécie de discurso do visconde (John Malkovich), já no fim, que me soou muito redentor. O destino da marquesa (Glenn Close) no filme, embora vexatório, é menos trágico do que o destino que lhe cabe no livro.
Claro que tenho em mente que adaptações e ajustes têm de ser feitos, pois que cinema e literatura são linguagens diferentes. À parte isso, o filme não alcança a perversidade e a amarga ironia que o livro tem. Quando os créditos começaram, fiquei pensando no fim comportadinho, digamos assim, do filme, mesmo levando-se em conta o destino trágico de uma personagem virtuosa como a Presidenta de Tourvel.
Com outras palavras: terminado o filme, fica-se com aquele pensamento simplista, a que me referi em postagem anterior sobre o livro de Laclos, de que os maus serão punidos. A despeito dos destinos trágicos da marquesa e do visconde, insisto na ideia de que o livro é profunda e tristemente irônico e sarcástico.
Não somente por causa do personagem Prévan (a que também fiz referência na postagem sobre o livro), que está ausente do filme, mas também pelo prefácio fictício que compõe a obra de Laclos. Nesse prefácio, um editor afirma que falta verossimilhança às cartas, chegando a escrever: “Com efeito, muitas personagens postas em cena têm tão maus costumes que é impossível supor hajam vivido em nosso século; neste século de filosofia, em que as luzes [o livro foi publicado no século XVIII, o século do Iluminismo], espalhadas por toda parte, tornaram, como se sabe, todos os homens tão honestos e todas as mulheres tão modestas e reservadas”.
Tudo muito cínico e tragicamente hilariante. Seria o mesmo que eu criar personagens com "tão maus costumes", valendo-me das palavras do prefácio, vivendo em Patos de Minas e inventar eu mesmo um prefácio dizendo que obviamente o autor se engana, pois que numa cidade tão civilizada como a Patos de Minas de hoje não há maus costumes, não há vaidade. Faltou ao filme esse cinismo.
Ainda no elenco, Michelle Pfeiffer (que faz a Presidenta de Tourvel), Uma Thurman (no papel de Cécile Volange) e Keanu Reeves (como o Cavaleiro Danceny).
sexta-feira, 12 de junho de 2009
"AS RELAÇÕES PERIGOSAS"
Terminei de reler hoje o estupendo e imprescindível “As relações perigosas”, de Choderlos de Laclos.Pierre-Ambroise Choderlos de Laclos nasceu em Amiens, na França, no dia 18 de outubro de 1741. Morreu em outubro ou novembro de 1803 (há divergências entre os biógrafos quanto ao mês).
Durante boa parte de sua vida foi oficial do regimento francês. Envolveu-se com política – foi preso por causa disso. Construiu fortificações. Segundo biógrafos, teria sido excelente marido. Hoje, não é lembrado por nada disso. Tornou-se conhecido por conta de “As relações perigosas”.
O livro foi publicado em 1782. Antes, o autor já se aventurara em versos de ocasião e numa peça teatral, “Ernestine”, que foi um fracasso.
A trama do romance de Laclos se desenvolve por intermédio de cartas. À medida que vamos lendo as missivas, vamos tomando conhecimento do caráter pérfido de dois dos personagens centrais: o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil.
A edição que tenho do livro tem a tradução de Carlos Drummond de Andrade. Em posfácio, o poeta escreve um breve relato sobre a vida de Laclos, bem como faz alguns comentários sobre “As relações perigosas”. Escreve Drummond que o livro “depõe contra o tempo, mas principalmente depõe contra a natureza humana”.
De fato. Em linguagem extremamente elegante e requintada, as peripécias cruéis do Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil vão sendo executadas. Não há um único palavrão no livro, que, ainda assim, explicita a conduta sexual dos personagens, bem como seus hábitos. A linguagem é primorosa, mas o que é narrado é reles.
É um livro cruel e sem amor. Poder-se-ia argumentar que a boa moral e os bons costumes prevalecem, levando-se em conta o que ocorreu com o Visconde de Valmont e com a Marquesa de Merteuil. Parece haver no fim uma moral bastante clara: os maus serão punidos.
Contudo, não vejo assim. Não concordo com o pensamento de que o livro se insere na dialética do mal contra o bem e que este vai triunfar. A obra é mais relativa e tênue do que isso. O fim do livro, em meu entendimento, é de um cinismo absoluto.
Laclos quase faz com que caiamos na armadilha de que o livro “prova” que a maldade será punida, seja de que modo for. Contudo, há um personagem que pouco aparece, mas que em minha opinião destroi a ideia de que “As relações perigosas” é um livro moralista: trata-se do personagem Prévan.
Ele é tão canalha quanto o Visconde de Valmont. Tão pérfido quanto a Marquesa de Merteuil. Lá pelo meio do livro, Prévan aparece, muito rapidamente, e é logo vítima de mais um dos ardis da marquesa. É então ridicularizado nos salões aristocráticos, sendo por fim banido da sociedade. Já nas últimas páginas, volta e é ovacionado.
O retorno triunfal de Prévan dá ao livro um tom profundamente sarcástico, zombeteiro e triste. Ao trocar o Visconde de Valmont por Prévan, a sociedade estava trocando um canalha por outro. Ou ao trocar a Marquesa de Merteuil por Prévan, essa mesma sociedade estava trocando a vileza pela vilania.
Recomendo com fervor a leitura de “As relações perigosas”. Leiam esse livro. Pelo brilhantismo da linguagem (segundo o próprio Drummond, “como escrevia bem esse danado”, referindo-se a Laclos), pelas finas e sofisticadas observações sobre o amor e sobre as diferenças entre o homem e a mulher, pelo teatro social, pelo mesquinho jogo de sedução empreendido pelo Visconde de Valmont e pela Marquesa de Merteuil. E pela atualidade. Sim: pela atualidade.
Se fosse escrito hoje com a mesma estrutura, penso que não haveria cartas na trama, mas, certamente, e-mails. Contudo, as mesmas paixões, encantos, decepções, maldades, sonhos, tramas, amores e mentiras estariam presentes nesses e-mails.
Entretanto, minhas recomendações estão obviamente aquém do que é o livro. Como todo livro necessário, ele não se esgota, ele se mostra mais rico com o passar do tempo, mais profundo. Há onze anos eu o li pela primeira vez; hoje terminei uma segunda leitura. Quero que outras venham.
É minha intenção comentar em breve uma das adaptações para o cinema de “As relações perigosas”.
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