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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Mais um livro de minha autoria

Dez de março.

Essa é a data de lançamento de meu próximo livro, Amor de palavra. Em breve, detalhes quanto ao local e ao horário.

Vamos?... 

segunda-feira, 30 de março de 2015

O REENCONTRO

Recentemente, perdi parte de meus livros, por eles terem mofado. Quando me dei conta de que o mofo danificara parte do acervo, retirei todas as obras da estante e comecei a escarafunchar livro por livro, separando os que teriam de ser jogados fora.

Desde então, tenho adiado o retorno deles para a estante. Uma infiltração na parede causou o mofo. O problema da infiltração já foi resolvido. Anteontem, deixei de lado a preguiça e comecei a voltar os livros para os lugares em que estavam.

O lado bom é que estou lidando com obras com as quais eu não tinha contato há um tempão. Revirar papéis antigos é um modo de visitar nosso passado. Os livros ou os papéis são também nossas circunstâncias. Assim, o retorno dos livros para a estante tem sido moroso nem tanto pelo tamanho do acervo, mas pelas lembranças que vão trazendo.

A despeito da perda de dezenas de livros, o contratempo teve algo de bom: há tempos eu dava como perdido o livro “The encyclopedia of things that never were” [A enciclopédia das coisas que nunca existiram], de Michael Page e Robert Ingpen. Para ser honesto, havia uma ambivalência em mim, pois, se por um lado eu dava como certo o sumiço da obra, por outro, a esperança de tê-la outra vez em mãos nunca me deixou.

Eu já poderia ter encomendado outro exemplar, mas ficava adiando. E não é que me reencontrei com o livro? Ele não foi nem um pouquinho afetado pelo mofo. Voltando, um por um, os livros para a estante, tive a felicidade de voltar a ter em mãos um dos mais inspirados trabalhos a que já tive acesso. Minha imaginação pega fogo, enche-se de entusiasmo quando o leio. O ludismo que tem faz bem para o espírito, levando-nos a criaturas, lugares e pessoas que existem graças a um dos maiores bens que temos — a imaginação. 

domingo, 13 de setembro de 2009

MÁRIO NHARDES LANÇA LIVRO

Com prazer, recebi hoje o livro “Agapantos”, de Mário Nhardes, pseudônimo de Rusimário Bernardes. O livro foi publicado por intermédio da All Print Editora.

“Agapantos” é composto por poemas. Curtos, revelam um poeta que se volta para as ditas coisas simples, para o cotidiano, sem a preocupação de se dedicar a um texto cerebral ou voltado para malabarismos com a linguagem.

Sensível, Nhardes trata com lirismo até as temáticas sociais, como a destruição da natureza e o descaso para com as crianças, só para ficar em dois exemplos.

“Agapantos” contempla a amizade, a mulher, o amor e a natureza em versos curtos. Aqui e ali, revela também senso de humor. Nos poemas breves, mostra a capacidade de muito sugerir com poucas palavras: “Você e seu vestido,/Eu e minha imaginação”.

Não bastasse a leitura agradável e leve que o texto de Nhardes proporciona, a edição tem um sóbrio e elegante projeto gráfico, com capa de Manoel Almeida. Em breve, haverá uma página na internet dedicada ao livro. Mas caso você queira conhecer mais sobre o autor, acesse nhardes.com.

sábado, 8 de agosto de 2009

"INTIMIDADES"

Terminei de ler recentemente o livro “Intimidades”, publicado pela editora Record. A edição reúne cinco contistas brasileiras e cinco portuguesas. Os dez contos têm uma temática em comum – o erotismo. A organização e o prefácio são de Luisa Coelho.

Comprei o livro por gostar de textos escritos por mulheres e que dizem respeito ao universo feminino. Se por um lado a arte é universal, por outro, cada sexo tem suas peculiaridades. Gosto quando essas peculiaridades são transformadas em arte. Também por isso gosto muito, por exemplo, de Rita Lee, Hilda Hilst e Adélia Prado.

Os dez contos de “Intimidades” me deixaram muito curioso quanto ao trabalho da escritora portuguesa Inês Pedrosa. Ela nasceu em Coimbra, em 1962. O conto dela se chama “Só sexo”. O texto é arrebatador e lírico. A narradora se volta para o passado e discorre sobre relacionamento amoroso que teve. A partir de um enredo extremamente simples, Pedrosa produziu uma obra-prima.

domingo, 21 de junho de 2009

RENATO RUSSO - O FILHO DA REVOLUÇÃO

Terminei de ler hoje o excelente livro “Renato Russo – o filho da revolução” (Editora Agir), do jornalista Carlos Marcelo, nascido em 1970.

Certa vez, em entrevista, Renato Russo, nascido no dia 27 de março em 1960, disse que às vezes se sentia como uma espécie de irmão mais velho da juventude brasileira. Carlos Marcelo, nascido na Paraíba mas tendo feito carreira profissional em Brasília, é um desses “irmãos” mais jovens.

No fim do livro, o jornalista comenta que a ideia de escrever sobre Renato Russo já existia desde quando esteve no fatídico show realizado no estádio Mané Garrincha, em Brasília, no dia 18 de junho de 1988. A banda deixou o palco antes que o show completasse uma hora; houve quebradeira e gente ferida no estádio.

Um dos grandes méritos do livro é a contextualização histórico-política que o autor faz do Brasil nas décadas de 60 e 70. Enquanto a ditadura descia a lenha, jovens burgueses de famílias ricas iam construindo o rock feito na capital do País.

O show aqui em Patos de Minas, no dia 5 de setembro de 1982, por ter sido o primeiro da Legião Urbana, é mencionado no livro. Curiosamente, há duas fotos tiradas num lugar identificado como Lagoa Formosa. Segundo a publicação, uma das fotos é de 1983 (a outra parece ter sido tirada no mesmo dia – não há a data no livro; uma das fotos está na pág. 5; a outra, na 238).

Consultei no saite do IBGE. A única cidade com o nome de Lagoa Formosa é a que fica perto daqui, o que me leva a crer que Lagoa Formosa devia ser (ou ainda é) o nome de algum lugar em Brasília. (Caso alguém aí saiba, gentileza dizer.)

O livro de Carlos Marcelo é rico em material iconográfico. Há várias fotos de Renato Russo em diferentes fases da vida, bem como fac-símiles dos cadernos do artista, que continham desde rascunhos de letras de música a projetos musicais. Numa das anotações, há a referência ao show aqui em Patos de Minas.

Também é curioso acompanhar os pareceres dos censores do regime militar quando impediam a veiculação de obras musicais, não somente do Legião Urbana. Apesar da tragédia que foi a ditadura, a empáfia e o discurso empoado dos censores soam hoje engraçados e ridículos – o livro tem fac--símiles de alguns pareceres e trechos de outros.

Percebe-se que o livro é fruto do trabalho de um jornalista que é também fã. Por outro lado, os defeitos de Renato Russo não deixam de ser mencionados. A biografia tem o mérito de esmiuçar o ser humano que havia por trás do publicamente atribulado roqueiro. 

quinta-feira, 11 de junho de 2009

LIVRO SOBRE RENATO RUSSO

Pessoas, recebi ontem o livro "Renato Russo - o filho da revolução", de Carlos Marcelo. Assim que o ler, deixo comentário por aqui.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

APONTAMENTO 54

Neruda, em seu “Confesso que vivi”, fala da grande emoção que é para um escritor ver pela primeira vez um livro seu impresso.

Nunca tive o privilégio de ver nada meu impresso por alguma editora, já que os dois livros que lancei foram bancados por mim mesmo. Ainda assim, próximo ao lançamento do primeiro, lembrei-me da observação do Neruda.

Contudo, o curioso foi que eu me emocionei não quando vi o livro pronto, mas, sim, quando a gráfica me mostrou o que no jargão deles chamam de “boneco” – dobram algumas folhas de papel e nos entregam, para que a revisão final seja feita. O “boneco” já tem a diagramação pronta.

Quanto o peguei, eu já me emocionei, e logo me lembrei do comentário do Neruda. Pensei comigo: “Nossa! Se pegar o ‘boneco’ já é um barato, imagine quando eu pegar o livro mesmo!”. Entretanto, quando esse momento veio, não houve graça alguma: a emoção de ter em mãos o primeiro livro impresso havia sido “gasta” com o tal do “boneco”...

sexta-feira, 27 de março de 2009

ENTREVISTA COM LUÍS ANDRÉ NEPOMUCENO

Amanhã, 28 de março, a partir das 20h, no auditório do Colégio Marista, vai ocorrer o lançamento do livro “Os anões”, de Luís André Nepomuceno. É seu terceiro livro de ficção, todos lançados pela Editora 7Letras, por intermédio da qual já saíram “Antipalavra” (2004) e “A lanterna mágica de Jeremias” (2005).

O autor também é ensaísta. Publicou “A musa desnuda e o poeta tímido: o petrarquismo na Arcádia Brasileira” (Annablume, 2002) e “Petrarca e o Humanismo” (Edusc, 2008). Em seu trabalho acadêmico, vem publicando em revistas do Brasil e do exterior.

Pleno homem das letras, também se dedica à tradução, tendo vertido para o português “Vida de Petrarca”, de Ugo Dotti (Unicamp, 2006). Com pós-doutorado pela Unicamp, Nepomuceno é professor no curso de Letras do Centro Universitário de Patos de Minas (Unipam). Na instituição, foi até recentemente o coordenador do curso em que leciona, cargo que exerceu por quase dez anos. Atualmente, além das aulas, é o responsável pelo Núcleo de Editoria e Publicações do Unipam, criado neste 2009.

Procurado por mim, o autor gentilmente concedeu a entrevista abaixo, a primeira publicada por este blogue. Entrevista e texto crítico sobre o livro (este, já publicado aqui) serão publicados também na edição deste sábado do jornal Folha Patense.
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Liviano: Parece-me que “Os anões” tem uma linguagem e uma sintaxe diferentes de seus dois outros livros de ficção. Essa mudança se deve ao tema do livro ou não somente ao tema?

Luís André Nepomuceno: O abuso nas estruturas sintáticas, na construção deste livro, se deve essencialmente ao tema e às formas de olhar o mundo do próprio personagem-narrador, que é portador de uma miopia avançada e, tendo perdido os óculos no começo da narrativa, não é capaz de perceber com exatidão as coisas que acontecem a seu redor. O estranhamento da linguagem é um pouco a representação disso. A estrutura narrativa, em especial a estrutura dos diálogos (escritos de tal forma a confundir as vozes do discurso) reflete um pouco esse olhar, que é igualmente uma metáfora das formas restritivas de se olhar o mundo e a sociedade.

Liviano: O que mudou no ficcionista desde o “Antipalavra” até “Os anões”? E o que não mudou?

Nepomuceno: Em geral, não gosto muito de ler meus textos já publicados, porque sempre dá uma vontade enorme de mexer numa coisa ou outra. É incrível como, de um livro para outro, a gente sente um processo de desenvolvimento que, por vezes, só é percebido inteiramente pelo próprio autor. Relendo alguns contos de “Antipalavra”, especialmente os mais antigos, tenho sempre o ímpeto e o desejo da mudança. “Antipalavra” foi um livro gestado numa década inteira, numa época em que houve contos que foram inteiramente reescritos, outros lançados ao lixo, outros engavetados à espera de outras possibilidades. O que mudou? A linguagem, sem dúvida, que hoje parece mais limpa, menos intoxicada com exercícios inúteis de malabarismo. O que não mudou? Meus ideais, que continuam os mesmos: a crença no belo, na eternidade, no próprio homem para além de suas fronteiras. Isso não parece nem um pouco moderno? Mas o que se há de fazer? Detestaria a angústia de dizer o que não sinto, o que não quero.

Liviano: O que lhe dá mais prazer: a ficção, o ensaio ou a tradução? Ou são prazeres diferentes?

Nepomuceno: São prazeres diferentes, sim, mas a ficção está acima de qualquer coisa, às vezes parece substituir a própria vida. Como não é possível viver todos os mundos possíveis, todas as vidas sonhadas, então escrevemos ficção. Pode também parecer sublimação freudiana, mas acho que a arte e as projeções da beleza precedem essas análises, que sempre parecerão reducionistas. No ensaio, as idéias são muito técnicas, e particularmente prefiro o ensaio de natureza acadêmica, que não inventa de ser poesia. A tradução é uma experiência curiosa, porque eventualmente te força a escrever de uma forma que você não deseja. Mas o tradutor, para não ser traidor, deve sempre fazer o exercício de não ser ele mesmo, mas aquele que ele traduz. Por tudo isso, a ficção (para além da poesia, é claro) se revela como a face mais íntima do escritor. É o momento em que ele é ele mesmo, ainda que sob máscaras.

Liviano: Jorge Luis Borges disse que o escritor passa a vida inteira escrevendo o mesmo livro. Caso você concorde, qual seria o seu?

Nepomuceno: É uma pergunta difícil, mas concordo inteiramente com Borges. Tenho, sim, a curiosa sensação de estar escrevendo o mesmo livro, a mesma coisa, apenas com variações por aqui e ali. Isso me incomodava até certo tempo, mas depois que entendi que o processo é esse mesmo, fiquei conformado. Tenho na cabeça a idéia de um romance em que o narrador procura avidamente (e depois descobre) os manuscritos antigos de um filósofo de outro tempo. À medida que vai lendo seus escritos, entende que sua própria vida se modifica em função dos seus entendimentos sobre o conteúdo daqueles escritos. Tudo isso me pareceu uma repetição de “A lanterna mágica de Jeremias”, ou do “Cartografias da imagem” (romance inédito, ainda por ser revisto). Será que eu estava escrevendo a mesma coisa? Acho que sim, mas definitivamente isso não me parece um problema.

Liviano: Você tem preferência maior por algum de seus livros de ficção? (Por quê?)

Nepomuceno: Penso que a gente sempre tem preferência pelo último texto escrito, por ele ainda estar compatível com os seus últimos anseios. Gosto de “Os anões”. Às vezes me ocorrem pensamentos como “eu precisava muito escrever tal coisa”, e depois me lembro: mas isso está em “Os anões”. Sinto certo alívio. Depois penso: Mas como eu acho importante ter escrito isso. Cada um considera as suas importâncias. Eu considero as minhas.

Liviano: Em sua atuação acadêmica, você se dedica à pesquisa sobre Petrarca e Boccaccio, que estiveram no alvorecer do Humanismo. Até que ponto o Humanismo é influência em seu trabalho de ficção?

Nepomuceno: Sempre pensei que, na minha ficção, nunca tinha dado respostas pessoais às obras de Petrarca e Boccaccio. Mas os escritores não têm que legitimar e ponderar sobre essas influências. De qualquer forma, entendi depois que os ideais humanistas estavam impregnados na minha ficção, muito mais do que eu imaginava. Quem me chamou a atenção para isso foi ninguém menos que Fábio Lucas, que me deu a honra de comentar os meus dois livros. Mencionando certos contos de “Antipalavra”, apontou neles esse viés do Humanismo, e especialmente o de Petrarca. Uma vez mais: não parece nada moderno? O que se há de fazer? Que os mais contemporâneos e afinados com as últimas exigências da técnica pós-qualquer coisa me perdoem. Ou pelo menos que me tolerem. “Cartas do novo mundo”, que é um livro que por enquanto está apenas na minha cabeça, é a reescrita de um episódio que aconteceu na vida de Petrarca que, quando esteve em Verona, fugindo de perseguições políticas, encontrou um dos mais raros manuscritos da Idade Média: as cartas de Cícero e Ático. Não podendo furtar o manuscrito (como fez o atrevido Boccaccio, numa biblioteca da Itália), ele teve de copiar o manuscrito inteiro à mão (seriam 700 páginas hoje), e com o braço direito quebrado! Acho o episódio maravilhoso. Isso é um amor irrestrito à humanidade e ao legado que o ser humano é capaz de nos oferecer.

Liviano: Acho complicado perguntar para um ficcionista sobre os escritores de sua predileção, pois me parece que tudo o que é lido acaba “respingando” no que se escreve. Ainda assim, você poderia apontar escritores que julga decisivos em sua formação?

Nepomuceno: Quando li Thomas Mann, tive a nítida impressão de que minha visão sobre a literatura e sobre meus projetos pessoais estavam divididos entre antes e depois dessa leitura. Thomas Mann disse coisas que há muito eu esperava ouvir, especialmente as relações entre os anseios sociais e espirituais do escritor e sua condenada inclinação burguesa para o prazer estético. É uma angústia de natureza platônica, como está em “Morte em Veneza”, por exemplo. Eu diria que é um escritor que determinou a formação das minhas idéias mais essenciais sobre a literatura e a arte. Mas há tanta gente por aí que seria injusto não mencionar: Graciliano Ramos, Drummond, Machado de Assis (sempre, não é?), o próprio Guimarães Rosa (que me ajudou a formar, embora hoje já não o tenha como um modelo); e os clássicos inevitáveis: Homero (a “Ilíada” me impressionou profundamente – n’Os anões, há uma cena nitidamente homérica, quando disputam o corpo de um cadáver), Boccaccio, que é um contador de histórias extraordinário; e outros modernos, Walt Whitman, Shakespeare. Sabe quando percebo que estou diante de um grande escritor? Quando ele próprio me incita a escrever, depois de ler o seu livro. É o que tem acontecido com Mário de Andrade, que recentemente tem quase me obrigado a escrever alguma coisa, depois de eu ter lido a sua ficção. Genial.

Liviano: Você já se dedicou ao estudo do violão. Também já realizou exposição de quadros. O fato de não mais exercer essas atividades se deve somente à falta de tempo?

Nepomuceno: Não é falta de tempo. Há um tempo para tudo. No passado, me dediquei fervorosamente à música, depois às artes plásticas, namorei o teatro rapidamente, depois nem sei mais. Essas coisas me deram respostas a certos anseios, em determinados momentos. A literatura, não, me acompanhou a vida inteira. Esposa fidelíssima. Se eu tivesse mais tempo hoje (e como desejaria ter!), tenho certeza de que me dedicaria cada vez mais a ler e escrever. E escrever muito.

terça-feira, 24 de março de 2009

CRÍTICA DO LIVRO "OS ANÕES"

No próximo sábado, a partir das 20h, no auditório do Colégio Marista, vai ocorrer o lançamento do livro “Os anões”, de Luís André Nepomuceno (7Letras).

Na sexta-feira, este blogue publica entrevista com o autor, concedida via e-mail. Abaixo, texto que escrevi sobre o livro
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De antemão, digo que “Os anões”, de Luís André Nepomuceno, é seu livro mais ousado. Em suas demais narrativas, sejam os contos ou o romance, vejo um escritor que, embora se mostre seguro do que faz, pisa terreno que conhece – ou que parece conhecer. Em “Os anões”, parece-me que pisa um chão novo.

Se o “Antipalavra” mostra o neófito que coloca a cara a tapa e o “A lanterna mágica de Jeremias” confirma a presença do ficcionista, “Os anões” demonstra que esse mesmo ficcionista quer uma nova possibilidade, reinventando-se. A absurdidade (que voltarei a mencionar) do enredo já é um sintoma de que parece haver um novo viés em sua ficção. Senti haver uma nova forma de tratar temas que já podiam ser entrevistos em seus textos.

Certa vez, li que o Bentinho, como narrador, era atípico porque simplesmente não confiamos nele. O leitor geralmente quer acreditar no narrador, mas isso não ocorreria no caso do Bentinho. Menciono isso porque, à medida que lia “Os anões”, eu ficava desconfiando do que nos conta João Evangelista Jetur da Fé. Valendo-se de um estratagema diferente do de Machado, Nepomuceno acabou nos apresentando um narrador em que, a princípio, não se confia. Não somente pela miopia e pela falta dos óculos, mas principalmente por ele tanto reiterar que não está enxergando. Trata-se de um míope num ambiente lúgubre. Eu ia lendo e me perguntando se o que estava sendo narrado estava mesmo acontecendo, perguntando-me se eu deveria mesmo acreditar no que ia sendo contado por João. Mas aí, engenhoso paradoxo, ainda que João não estivesse captando os fatos como realmente eram, pouco a pouco um desconforto vai se formando: o narrador enxerga distorcido, mas o mundo que chega até nós por intermédio de seus olhos míopes é muito parecido com o mundo que temos aqui, fora daquela casa insana. João não enxerga bem. Logo, pode estar amenizando o grotesco de algo que já é por demais bizarro. João não enxerga bem, mas os anões, gradativamente, vão se mostrando ser muito parecidos com o que somos. Acabada a história, o que menos importa é se João enxergou ou não “corretamente” (assim como em “Dom Casmurro” o que menos importa é se Capitu traiu ou não). No fim, não me parece importante saber se João suavizou (sem querer, é claro) ou distorceu o que presenciou. Temos um mundo trazido até nós por seus olhos embaçados. O “material” que temos é a terrível realidade de contornos imprecisos que nos é apresentada. A realidade dele é a nossa.

O espaço em que a história vai se desdobrando é opressor não somente porque praticamente tudo ocorre dentro da casa. Isso, por si, já bastaria para transmitir ao leitor a atmosfera de clausura. Mas como se não bastasse João estar preso em sua residência, ela está lotada... O que já era restrito, torna-se insuportável. Por várias vezes, fiquei me perguntando se João não tomaria uma atitude. A qualquer momento, eu esperava que ele se tornasse incisivo, enérgico. A leitura vai prosseguindo. Criaturas se movendo em todos os cantos. Não há um espaço sequer da casa em que não haja um anão. No banheiro, na sala, nos quartos. Para piorar um ambiente que por si já está desumano, a onipresença deles é violenta. Não satisfeito, leitor? Pois não: há ainda uma misteriosa doença que para os anões está lá fora, o que justificaria terem se trancado na casa de João, em tentativa de se protegerem dela. São elementos demais para um espaço pequeno, ainda que a casa, conforme se sabe, seja grande. Houve momentos em que, não sei se proposital ou não da parte do escritor, escutei ecos de um Kafka ou de um Orwell no que diz respeito à atmosfera repressora e burocrática (Abliel e aqueles ofícios irritantes que pareciam não ter fim). Já no fim da narrativa, há um momento em que João diz que tudo está enigmático para ele. De minha parte houve aquele sorriso que quase não é sorriso. Pensei: “Não se preocupe, amigo; tudo é enigmático para mim também”.

O leitor vai se fazendo um sem-número de perguntas enquanto lê. Nem todas as respostas são dadas. O que é Abliel? Ele é símbolo de quê? Lembro-me de que, em conversa com o autor, ele havia mencionado certo temor de que o livro fosse visto como alegoria política. Não vejo assim. A violência, a intolerância, o preconceito (“Anãozinho negro estúpido e efeminado”), a obediência quase absoluta dos anões aos ofícios de Abliel... Isso tudo, reconhecemos como elementos do mundo todo presentes naquela casa. Se o lugar é microcosmo de um mundo sem conhecimento, sem humanidade, sem compaixão e destituído de racionalidade, João, por sua vez, acaba realizando o percurso de um herói às avessas. Um herói “torto”. Em seu “exílio” ou “retiro”, após vivenciar, com o parco entendimento que diz ter, atrocidades e bestialidades, precisa voltar não para sua casa, mas para as ruas. A boa nova, ele a conta não quando volta para casa, mas quando sai dela. Vivendo na escuridão, foi buscar o que lá fora luzia. Os anões, ao fugir da doença, acabaram produzindo um mundo doentio. João, em contrapartida, tem fé de que a ausência de amor é a causa das doenças. Doentes são os anões, em sua falta de amor. A miopia é deles.

“Os anões” me causou certo estranhamento. Entenda esse estranhamento como conseqüência da absurdidade a que já fiz referência. Há uma certa ironia amarga até nos nomes dos anões, em função da terminação el. Cornélia diz: “Ninguém mergulha em meu pai, senão por mim”. Tudo é muito sinistro. Há mesmo cenas em que a violência é descrita, mas essa não é, penso, o que a história tem de mais violento. A violência física é “mero” reflexo de um ambiente sombrio que produz outras formas de coerção e desumanidade.

O fato de Luís André Nepomuceno ter arriscado um caminho diferente em sua ficção (pelo menos vejo assim) já é bacana.

sexta-feira, 20 de março de 2009

LANÇAMENTO DE LIVRO

Abaixo, convite para o lançamento do livro “Os anões”, de Luís André Nepomuceno. (Para melhor visualizar o convite, basta clicar sobre o mesmo.)

Em breve, este blogue publica entrevista com o autor.


segunda-feira, 16 de março de 2009

LANÇAMENTO DE LIVRO

No dia 28 de março (um sábado), às 20h, Luís André Nepomuceno lança o livro “Os anões”, no Auditório do Colégio Marista. É seu terceiro livro de ficção, todos lançados pela Editora 7Letras, por intermédio da qual já saíram “Antipalavra” (2004) e “A lanterna mágica de Jeremias” (2005).

O evento tem promoção e apoio da Editora 7Letras, Prefeitura de Patos de Minas e Colégio Marista. Em breve, este blogue publica entrevista com o autor.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

APONTAMENTO 41

“Cheiro de goiaba” é um livro de entrevistas com García Márquez. Nele, o autor colombiano responde a perguntas de Plinio Apuleyo Mendoza. Em determinado trecho, Mendoza pergunta a García Márquez que personagem literário ele gostaria de ter criado. Resposta: o Conde Drácula, de Bram Stoker.

Nunca me perguntaram que personagem eu gostaria de ter criado. Certamente, devido ao fato de que nunca criei um. Dos que tenho acompanhado, há um que eu queria que fosse criação minha: Humbert Humbert, o narrador de “Lolita”, de Vladimir Nabokov.

Que personagem literário você gostaria de ter criado?

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

"O PRESIDENTE NEGRO"

Terminei de ler ontem “O presidente negro”, romance de Monteiro Lobato. O livro defende a eugenia, alegando a supremacia da etnia branca.

Vladimir Nabokov disse certa vez que definitivamente não concordava com o comportamento de seu personagem Humbert, sujeito de meia-idade que se envolve com Lolita, uma ninfeta. Não conheço a biografia de Lobato, de modo que seria um tanto inconseqüente de minha parte ir logo misturando homem e obra. Ainda assim, é digno de nota que o próprio Lobato escreveu: “O Brasil, filho de pais inferiores… destituídos desses caracteres fortíssimos que imprimem… um cunho inconfundível em certos indivíduos, como acontece com o alemão, com o inglês, cresceu tristemente… dando como resultado um tipo imprestável, incapaz de continuar a se desenvolver sem o concurso vivificador do sangue de alguma raça original”. [Aqui, link para que você confira de onde extraí a citação.] Marcia Camargos e Vladimir Sacchetta, autores do prefácio de “O presidente negro”, mencionam a longa correspondência mantida entre Lobato e Renato Kehl, defensor de teorias de purificação étnica. Este chegou a prefaciar um livro de Lobato.

Camargos e Sacchetta preferem não se alongar sobre o suposto racismo de Monteiro Lobato. Afirmam que “O presidente negro” revela “as profundas contradições da sociedade norte-americana” do começo do século XX.

A obra foi publicada primeiramente em 1926, de setembro a outubro, no jornal carioca A Manhã. Na ocasião, saiu com o título de “O choque”. Duas décadas depois receberia o título que tem hoje.

Ayrton Lobo é o narrador da história. Após sofrer um acidente em seu Ford então recentemente adquirido, Lobo é ajudado pelo professor Benson. O senhor o leva para casa, onde Lobo tem contato com Jane, filha única de Benson.

Desnecessário dizer que Lobo logo se apaixona por Jane. Benson, por sua vez, permite a aproximação. Decidido estava o professor a revelar sua grande invenção, o porviroscópio – máquina que permitia a visualização do futuro até o ano de 3527. Benson, para assombro de Lobo, vai detalhando como funciona a máquina. Ainda envolvido com os relatos, morre. Jane naturalmente assume a continuidade do que o pai começara, em entrevistas semanais que passou a ter com Ayrton Lobo. Este, por sua vez, vai cada vez se apaixonando mais por ela.

A história que Jane escolhe narrar em detalhes se passa nos EUA, no ano de 2228, quando um negro é eleito para a presidência do país. Em “O presidente negro”, os EUA do século XXIII são “a feliz zona que desde o início atraiu os elementos mais eugênicos das melhores raças européias”. Na ótica do livro, o atraso de gente como o brasileiro, por exemplo, deve-se à mistura de raças: “O amor matou no Brasil a possibilidade de uma suprema expressão biológica. O ódio criou na América a glória do eugenismo humano”.

A sociedade de que trata a obra é divida em homens brancos, feministas radicais brancas e homens e mulheres negros. Brancos e feministas se surpreendem quando um candidato negro decide concorrer ao cargo de presidente. A briga das feministas contra os homens brancos acaba dividindo os votos da etnia branca, o que propicia a eleição de Jim Roy, o candidato dos negros. No texto de Lobato, os negros do futuro haviam se submetido a um processo pelo qual suas peles haviam sido clareadas. A despeito desse clareamento, não são, em essência, brancos. A eleição de Jim Roy fará com que o definitivo e fatal golpe eugênico seja aplicado contra os negros.

Ayrton Lobo é um personagem ingênuo, funcionário da firma Sá, Pato & Cia. Embora seja o narrador da história, a notícia que recebemos do futuro nos é dada por intermédio, a princípio, do professor Benson; depois, por Jane. Tanto filha quanto pai são sofisticados, requintados. Pouco antes de morrer, Benson destruíra o porviroscópio, temendo o estrago que a invenção poderia causar se em mãos erradas. O futuro que Jane vai descortinando para Lobo faz parte de sua memória, do que ela observou enquanto teve à disposição a máquina do pai.

O leitor não ri do que apresenta o livro. Não é, por exemplo, como um “Viagens de Gulliver”. O narrador de Swift, ao relatar ingenuamente suas histórias, faz com que nós, leitores, achemos graça do que nos conta o narrador. Não há ironia em “O presidente negro”. Com calma, inteligência e feminilidade, Jane vai conduzindo Lobo, que passa a admirar o futuro eugênico, passando a desprezar o presente limitado e aquém. O narrador Lobo reproduz as palavras de Jane, sempre conscienciosa e certa do que diz. Fossem de Lobo as palavras, talvez o efeito pudesse ser similar ao que sentimos quando lemos o que nos conta Gulliver. Jane, sobre os EUA, declara: “Onde há força vital da raça branca senão lá? Já a origem do americano entusiasma”. Jane não é nem ingênua nem risível. O livro de Monteiro Lobato não está mofando do racismo, mas o endossando. Lamentável.

“O presidente negro” foi relançado recentemente a toque de caixa, quando Barack Obama ainda disputava com Hillary Clinton uma vaga democrata nas eleições presidenciais norte-americanas. Sem saber do que se tratava, gulliverianamente comprei o livro, pensando que ele era uma espécie de ataque contra o racismo...

domingo, 16 de novembro de 2008

"O OBSERVADOR NO ESCRITÓRIO"

Terminei de reler “O observador no escritório”, livro de notas e apontamentos de Carlos Drummond de Andrade.

As notas são datadas. Vão de 15 de maio de 1943 a 18 de setembro de 1977. Nelas, emerge o funcionário público às voltas com seu trabalho burocrático, duvidoso quanto a seu papel político: “Sou um animal político ou apenas gostaria de ser? (...) Como posso convencer a outros, se não me convenço a mim mesmo? Se a inexorabilidade, a malícia, a crueza, o oportunismo da ação política me desagradam, eu, no fundo, quero ser um intelectual político sem experimentar as impurezas da ação política?”.

Aqui e ali, alude o poeta a fatos corriqueiros, desde o comportamento de um gato, louco para saciar seu apetite sexual, a conversas com os grandes intelectuais e artistas do Rio de Janeiro de então. Há momentos engraçados, reflexivos, tristes... Amigos, impressões, arranjos de bastidores para disputa de vaga na Academia Brasileira de Letras, morte de amigos...

O registro de um tempo pelo olhar do poeta. Em meio às notas, o que emergiu para mim (talvez injustamente) foi um Drummond um tanto misantropo. Ele própria cita, sem comentar, opinião de Lúcio Cardoso, numa entrevista:

“– Qual o maior poema que leu em sua vida?
“– “’Os bens e o sangue’”, desse raro exemplar de falta de calor humano que se chama Carlos Drummond de Andrade”.

Num outro trecho, Drummond diz que um verso de Mário de Sá-Carneiro parece definir o poeta de Itabira: “Fartam-me até as coisas que não tive”.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

“DECAMERÃO – O SANTO MILAGREIRO”

Ontem, a partir de 19h15, no Teatro Municipal Leão de Formosa, aqui em Patos de Minas, ocorreu o espetáculo teatral “Decamerão – o santo milagreiro”.

A peça é uma adaptação da primeira das cem histórias que compõem o livro “Decamerão”, de Giovanni Boccaccio (1313-1375). A direção foi de Consuelo Nepomuceno (Unipam), coordenadora do grupo Tupam (Teatro Universitário de Patos de Minas).

A história de Boccaccio narra o ocorrido com o senhor Ciappelletto. Em tom de galhofa e prestes a morrer, ele decide se “confessar” a um bondoso frade. Tendo sido cafajeste a vida toda (“era o pior homem que viera à luz, em qualquer época” – tradução de Torrieri Guimarães), o próprio Ciappelletto argumenta, no leito de morte, que uma ofensa a mais, numa vida tão plena delas, não fará nenhuma diferença. Para o frade, narra pecadilhos infantis, ninharias, a despeito da vida nada virtuosa que levara.

Impressionado com o suposto caráter elevado de Ciappelletto, o frade cuida rápido de dizer a todos que tão nobre conduta durante toda uma vida só podia indicar santidade. Dá a “boa nova” a seus colegas, que contam para outros, que contam para outros. Ciappelletto é enterrado com honrarias, é sepultado como santo. Rapidamente, fiéis passam a procurar o túmulo do “santo” em busca de milagres, numa amarga ironia de Boccaccio.

A peça contou ainda com música, sob o comando do professor de música e percussionista Castor. Após o espetáculo, o professor Luís André Nepomuceno, coordenador do curso de Letras do Unipam, contextualizou Boccaccio e sua obra numa Idade Média que assistia então ao surgimento do Humanismo. Infelizmente, devido a compromisso de trabalho, não pude acompanhar toda a fala do professor. Entretanto, ele próprio me disse posteriormente que houve uma interação proveitosa, a partir do momento em que o público se sentiu à vontade para opinar e fazer perguntas.

“No teatro, mudar uma peça de maneira radical muitas vezes é – por mais contraditório que possa parecer – a melhor maneira de ser fiel a um dramaturgo”. Esse trecho é de Gabriela Mellão, em crítica sobre montagem da peça “O Quarto”, de Harold Pinter, sob a direção de Roberto Alvim. Gabriela Mellão ressalta que as liberdades de Roberto Alvim, paradoxalmente, não deturparam o trabalho de Harold Pinter.

Comento isso pelo seguinte: o “Decamerão” não é texto escrito originalmente para o teatro. Ainda assim, o grupo Tupam foi feliz na adaptação que fez. As liberdades (sem radicalismos) tomadas quanto ao original e quanto a recursos cênicos mantiveram o saboroso humor de Boccaccio. Aqueles que têm familiaridade com o "Decamerão" reconhecem de imediato a atmosfera da história de Ciappelletto, a despeito das mudanças. Ao mesmo tempo, o espectador não deixa de presenciar a corrosiva ironia. Em suma: a trupe acertou no tom.

Não sei se há a intenção de se reapresentar a peça. Caso isso ocorra, esteja lá. E em tempo: é um espetáculo que eu gostaria de fotografar.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

APONTAMENTO 28

Ouvi aluno meu dizendo que adquiriu o hábito da leitura depois de ter encarado “O código da Vinci”. Lembro-me de ter visto esse mesmo aluno dizer que havia gostado de “Dom Casmurro”. Também disse que tem a série Harry Potter, mas não percorreu os livros ainda. Recentemente, leu “O velho e o mar”.

Vejo com bons olhos esse começo de leituras sem critério. Ainda que o estudante não saiba ainda diferenciar com clareza, por exemplo, Dan Brown de Machado de Assis, no que diz respeito à literariedade, o hábito da leitura, caso se mantenha, pode fazer com que a percepção dele vá se tornando cada vez mais requintada. É uma possibilidade.

É por isso que não concordo muito com aqueles que simplesmente abominam os chamados best-sellers. Penso ser necessário ler, seja o que for. Se pelo menos uma das milhares e milhares de pessoas que se entregam a modismos passarem a ler textos que se tornaram perenes, após ter descoberto o gosto da leitura por intermédio dos best-sellers, já está ótimo.

Além do mais, esses livros de vendagem estrondosa são lucro certo para as editoras e para as livrarias. É preferível haver uma livraria lucrando com “O segredo”, desde que também coloque à disposição outras vertentes, a não haver livraria nenhuma. Clássicos imprescindíveis não garantem a sobrevivência dos livreiros, principalmente no interior.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

EM BUSCA DE PROUST

Terminei de ler recentemente “Senhor Proust – lembranças recolhidas por Georges Belmont”, de Céleste Albaret, publicado pela Novo Século. Céleste Albaret foi governanta na casa do escritor durante os oito últimos anos de vida de Proust. O livro é a transcrição de entrevistas da senhora Albaret a Georges Belmont, que assina a introdução. Segundo Belmont, foram setenta horas de entrevistas.

É natural que a longa e diária convivência da senhora Albaret com Proust gerasse proximidade e amizade. O testemunho dela traz à tona as miudezas de que Proust era feito (miudezas de que, afinal, todos nós somos feitos).

Há também relatos do dândi Proust na aristocracia parisiense da época. Freqüentador e agudo observador desse mundo, Proust tinha acesso à vanguarda do que então estava sendo produzido. O trecho abaixo dá uma idéia (a tradução do livro é de Cordelia Magalhães):

“Por exemplo, lembro-me de que, uma noite, o príncipe Antoine Bibesco, que se tinha a par de tudo, passou para levá-lo a um desses jantares, com a idéia de fazê-lo se encontrar com o pintor Picasso, sobre o qual se começava a falar (...). Às duas horas da manhã, eles foram, todos os três, ver as telas de Picasso no seu ateliê. Sr. Proust me fez o relato quando voltou:

“– É um pintor espanhol que começou a fazer o que se chama de cubismo.

“Ele me descreveu um pouco sobre o que as pinturas pareciam. E comentei que isso deveria fazer os museus de bobos. Ele riu e disse:

“– Devo reconhecer que não compreendi grande coisa.

“Visivelmente, ele não ligou. Jamais voltou a falar sobre essa pintura. Dizem também que jantou com o escritor James Joyce, junto com outras pessoas; isso não o impressionou – ele nem pronunciou esse nome”.

A senhora Albaret também comenta o mal-estar criado depois que o escritor André Gide recusou originais de Proust. Céleste Albaret deixa clara a antipatia que ela tinha por Gide, ao dizer que ele tinha um ar de “falso monge”. Gide retratar-se-ia por ter recusado os originais de Proust.

A recusa é compreensível. Proust, é bem sabido, não foi o único escritor que se tornaria famoso depois de ter sido rechaçado em tentativas anteriores. O problema é que, segundo a senhora Albaret, Proust assegurava que Gide nem chegou a ler os originais. Primeiro, por considerar que o autor de “No caminho de Swann” não passaria de um “dândi socialite”; segundo, por uma razão prosaica: o pacote em que estava o livro não teria sequer sido aberto porque um funcionário de Proust, Nicolas, tinha, segundo a senhora Albaret, “uma verdadeira arte dos nós, com um estilo muito particular e muito inimitável. E isso, para o Sr. Proust, sempre foi a prova irrefutável de que o pacote do seu manuscrito jamais foi aberto, nem por André Gide nem por ninguém na Nouvelle Revue Française”. Proust disse ter visto o pacote antes e depois, e afirmou que ele voltara intacto, com o mesmo nó de Nicolas. Para Proust, seria impossível alguém refazer o nó de seu funcionário, ainda mais no mesmo lugar. A senhora Albaret conclui: “Sr. Proust se divertia muito com toda a história”.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

EM COMUM

“Há muitas coisas que atribuímos ao demônio sem sabermos que são coisas de Deus que não sabemos entender” (García Márquez).

“Todos os que são incapazes de compreender um deus vêem-no como um demônio e, assim, se protegem de sua aproximação” (Joseph Campbell).

Salvo engano, a frase de García Márquez está em “O amor nos tempos do cólera” (vertido para o cinema não há muito tempo), mas não estou certo disso. Procurei meu exemplar aqui em casa e não o achei. Deve estar emprestado. Se estiver com você que me lê, gentileza conferir se a frase está nele mesmo; basta conferir os trechos que estão marcados por mim.

O trecho de Joseph Campbell foi extraído de “O herói de mil faces”. A bonita idéia do livro é a de que a humanidade tem construído ao longo do tempo um só mito – o monomito, termo que Campbell pegou emprestado de Joyce.

sábado, 20 de setembro de 2008

APONTAMENTO 27

Jean-Baptiste Grenouille, personagem de Patrick Süskind, é, em minha opinião, um dos grandes monstros da literatura.