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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Diálogo pedagógico

            — Filho, como foi o retorno às aulas?
        — Houve algumas pequenas mudanças, mas levando-se em conta a epidemia e levando-se em conta que nem professores nem funcionários nem alunos foram vacinados, não fiquei com nenhuma dúvida quanto aos horários que terei pra levar a morte pra lá ou pra trazê-la pra cá. 

sábado, 20 de março de 2021

Precocidade

José tomou ivermectina.
José tomou cloroquina.
Bradava a eficácia
do tratamento precoce.
Precoce foi a morte. 

quinta-feira, 11 de março de 2021

Cadê a máscara?

Flávio Bolsonaro postou “nossa arma é a vacina”. Já o presidente, ontem, usou máscara em evento. Em Israel, Eduardo Bolsonaro usou máscara publicamente. Os dois primeiros, enquanto digito estas palavras, ainda estão fazendo de conta que defendem vacina e uso de máscara; o terceiro não conseguiu se manter no fingimento de civilizado. Ontem à noite, referindo-se a máscaras, declarou: “Enfia no rabo, gente”. Fez a declaração sem máscara. Não sei se executara a enfiadura indicada por ele.  

sábado, 6 de março de 2021

“Remédios”

De um lado, um governante que já deixara claro a que veio: “Minha especialidade é matar”. De outro, aqueles que, em vez de assumirem responsabilidades, delegam para um deus a resolução de problemas. Eles não são resolvidos. Vem a morte. Aí é um tal de “que deus o receba” ou um tal de “essa pandemia é vingança de deus” ou um tal de “que deus nos ajude”. Para que a consciência siga em paz, cloroquina, ivermectina e afins. 

quinta-feira, 4 de março de 2021

Sem leme

Prefeitos e governadores Brasil afora, muitos deles assumida e orgulhosamente sabujos de Bolsonaro, não contam agora com a ajuda dele. O cotidiano do cidadão é vivenciado não por ele, mas por governadores e, mais em especial, por prefeitos. O encontro no dia a dia se dá com prefeitos, não com o presidente. Eles é que têm de se virar para resolver um problema que muitos deles ajudaram a intensificar, quando manifestaram profunda sintonia com o “ideário” do chefe do executivo federal.

Este texto não é para defender prefeitos. Reitero: muitos deles são obedientes ao que o “guru” presidencial determina. Há deles por aí, por exemplo, que fazem questão de serem fotografados ao lado dele, sem que ninguém, evidentemente, use máscara. Afinal, para esse tipo de gente, máscara é artefato que atrapalha a felicidade. Este texto é somente para dizer que os prefeitos que tanto se encantaram com o presidente agora têm de se virar por conta própria em suas aldeias.

É paradoxal, é verdade, mas, no Brasil, quanto mais alto o cargo, menos satisfações os altos escalões dão. Longe das vítimas, é fácil para alguém desses escalões falar que são “frescura” e “mimimi”, palavras usadas hoje pelo presidente [1], a revolta quanto ao número de mortos pela covid e as reações contra a falta de política federal ao lidar com a pandemia. O presidente sabe que ninguém vai argumentar contra ele, pois ele está blindado, e quando confrontado por alguma pergunta a que ele tem obrigação de responder, ele vai embora. Assim, é fácil.

Sobrou para os governadores e, nas esquinas das cidades, para os prefeitos. Tanto estes quanto aqueles foram criticados hoje pelo presidente [2], ou seja, muitos desses governadores e desses prefeitos foram criticados e são agora abandonados por quem tanto bajularam. Surfaram na onda do bolsonarismo, foram eleitos; agora, veem-se abandonados pelo “‘mito’”. Estão sozinhos, estamos sozinhos.

O presidente sabe que poucos estão comprometidos em fazer a parte que cabe a cada um quanto à evitação do contágio pelo coronavírus. Propagar uso de remédios que nada resolvem no que diz respeito a tratamento contra a covid é mais fácil do que assumir a responsabilidade do cargo. Em jogada demagógica, e, por isso mesmo, eficaz, Bolsonaro afirmou hoje que políticos devem ir “para o meio do povo” [3]. 

De minha parte, digo que seria melhor se ele não desse as caras em público e cuidasse daquilo que é obrigação dele há muito tempo, que é a de conduzir, pelo menos com respeito, o manejo da epidemia no Brasil. Mas, claro, sei que dele, nem respeito virá. O Brasil estaria melhor se ele ficasse calado num gabinete qualquer. Ele sabe disso. 

quarta-feira, 3 de março de 2021

Mais chicotadas por favor

Alguns estarrecidos perguntam-se como apenas um homem, no caso, o presidente, esteja causando tantas mortes devido à não atuação dele para combater a pandemia. Ele não está sozinho e sabe disso. Conta com a tolerância da chamada grande mídia, que é a favor do neoliberalismo do Guedes e caterva. Essa mídia e outras empresas grandes apoiam a retirada de direitos trabalhistas (a reforma da previdência foi uma dessas estratégias).

Há o apoio de empresários muito ricos e o apoio da chamada grande mídia, que é comandada por empresários muitos ricos. De vez em quando, essa mídia finge uma oposiçãozinha. Esse quadro, por si, já praticamente garantiria a solidez da permanência do presidente no cargo. Todavia, não bastassem os apoios dos muito ricos, o presidente tem o apoio dos que não são muito ricos, os quais, por orgulho, crueldade ou burrice, têm aceitado a piora no poder aquisitivo e a tragédia por que passa o Brasil devido à covid.

Que o presidente nunca deu a mínima para a vida alheia, ele mesmo já havia evidenciado isso antes da eleição que o consagrou como chefe do executivo federal; o elogio dele a torturadores já escancara o desprezo que tem pelo outro. A covid seguirá matando e o presidente seguirá indiferente a funestos cortejos. O fato de ele contar com o apoio da população, mesmo ele nada fazendo para proteger a vida dessa mesma população, diz muito não somente sobre o que é o presidente, cuja crueldade e cujo despreparo ele mesmo já espalhava antes de ocupar o cargo em que está agora, mas sobre o país.

É comum ser veiculada a ideia de que o brasileiro é maior do que o bolsonarismo e as atrocidades que ele representa. Balela. Sem generalizações, fácil diagnosticar que, no todo, o brasileiro é cafona, individualista, violento, despreparado, indolente, paroquial, desinformado, ignorante, boçal, arrogante, incômodo, incivilizado, fanático, submisso; não tem senso de coletividade, de cooperação, de empatia. 

Se uma pessoa que tomava cloroquina morre por causa da covid, o brasileiro, em vez de escutar a ciência, prefere dizer que essa pessoa morreu lutando, prefere escutar um lunático que lucra com a desinformação. O fracasso do país ao lidar com a pandemia é o fracasso do brasileiro como povo. A morbidez social pela qual estamos passando é consequência não somente da desumanidade de um genocida nem somente da perversidade de grandes corporações, mas do caráter conspurcado e iludido de um povo que não enxerga a si mesmo. 

Os valores em que o bolsonarismo se inspirou foram tão bem-sucedidos que a vítima do chicote passou a exigir mais chibatadas. Enquanto a pele vai sendo marcada e o sangue começa a escorrer, a mão pesada aumenta a força dos golpes. Exausto, aquele que apanhou, mal tendo se erguido, já começa a desejar a próxima surra. Para criar a ilusão de que estará recomposto quando ela vier, ingere cloroquina e ivermectina. 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Efeitos

Ontem, o presidente falou de supostos “efeitos colaterais” do uso de máscaras. A “fonte” seria “uma universidade alemã”. Naturalmente, o mandatário não especificou qual universidade, e ainda que tivesse especificado, esses supostos efeitos colaterais seriam menos expressivos do que a morte. Também ontem, no Brasil, a covid-19 matou 1.582 pessoas. A ignorância presidencial tem seus efeitos. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Outros dois brasileiros

— Não vou tomar a vacina.
— Nem eu. Fiquei sabendo que ela é parte de um plano dos comunistas pra dominar o mundo.
— Sim, e o pastor lá da igreja disse que a vacina tem um chipe que faz as pessoas perderem a fé. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Todos

Os coronéis de Patos de Minas.
Os trabalhadores de Porto Seguro.

Os que votaram na “nova” política.
Os que não elegeram milícias.

Os evangélicos que defendem tortura.
Os que amam o próximo.

Os que tomam cloroquina.
Os que usam máscara.

Os que tomam ivermectina.
Os que se informam.

Os que se aglomeram.
Os que entendem a solidão.

Os que acreditam que a Terra é plana.
Os que gostam de se divertir com uma bola.

Os que defendem tortura.
Os que têm coragem de amar.

Os que defendem ditaduras.
Os que querem um mundo sem Ustras.

Os que acreditam que é “só uma gripezinha”.
Os que sabem ler.

Os que creem que o “mito” é divino.
Os que sabem do mandatário miliciano.

Os que acreditam em seu deus.
Os que não precisam de deuses para serem bons.

Os que acreditam em chipe na vacina.
Os que buscam entender a diferença entre vírus e bactéria.

Os que alegam que orações destroem epidemia.
Os que investem na ciência.

Os que dividiram o pagamento da arma em 10 vezes.
Os que terminaram de ler mais um livro ontem.

A covid não faz distinção entre uns e outros.
Estão todos enterrando os seus. 

A covid não separa uns dos outros.
Todos podem ser enterrados amanhã. 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Ilusão

Os que apoiam o governo genocida têm a ilusão de que a vida deles é importante para o governo genocida. 

Dois brasileiros

José ofereceu caixas de ivermectina para Pedro. José garante que não teve covid porque tomou o remédio. Disse ter achado um absurdo o laboratório que fabrica o medicamento ter dito que ele não funciona contra a covid. Pedro concordou. Comprou metade do estoque de José. 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

"E daí?"

Não lembro se foi o Borges ou o Jung... Um deles escreveu que quando uma pessoa morre, todo o gênero humano perde. Mas, bem sabemos, há pessoas para as quais a vida do outro não importa. Bolsonaro é uma dessas pessoas. Para ele, milhares de mortes por causa da covid-19 são comentadas com uma desrespeitosa declaração, nítido sintoma de falta de empatia, de espírito público; declaração nada condizente com alguém que ocupa o cargo de presidente de um país. No entorno, a claque, subserviente, bajuladora e tão descarada quanto o autor do comentário, riu. Outros patéticos, à distância, riram também. Há uma plateia enorme respondendo a estupidezas em uníssono: “E daí?”. 

domingo, 22 de março de 2020

O pedido do amigo

Por estes dias, qualquer um que abra as redes sociais vai se deparar com postagens afirmando que a humanidade será melhor depois da covid-19. Eu havia pensado em escrever algo sobre essa questão, mas como tenho visão negativa quanto à melhora dos humanos, decidi não abordar o assunto. Estava isso definido. Contudo, ontem, um amigo entrou em contato comigo, sugerindo que eu escrevesse precisamente sobre possíveis desdobramentos depois de a epidemia passar. O amigo me fez mudar de ideia; decidi escrever sobre o tema, não como quem profetiza, mas como quem tem olhos voltados para o redor e curiosidade voltada para o passado. 

Estou relendo A Montanha Mágica, do Thomas Mann. Na obra, Hans Castorp visita o primo Joachim Ziemssen, que está num sanatório, tentando ser curado de tuberculose. O plano de Castorp era ficar alguns dias. Na edição que tenho, a história termina na página 827. No começo, o narrador, de modo detalhado, vai contando como é a rotina no sanatório. A última frase da página 99 é uma fala de Ziemssen, que indaga o primo (a tradução é de Herbert Caro): 

“— Como quer formar uma opinião logo no primeiro dia?”.

Na primeira frase da página 100, Castorp comenta:

“— Meus Deus! É ainda o primeiro dia? Já me parece que estou aqui há muito, muito tempo...”.

Um dia, pormenorizado em cem páginas, dá clara ideia de como era a vida no sanatório que Hans Castorp fora visitar.

No livro Jane Eyre, da Charlotte Brontë, a personagem principal, que dá título à obra, vai embarcar numa carruagem. Antes de partir, ela perguntara para o condutor se o destino dela ficava longe do lugar em que estavam no momento do embarque. O condutor respondeu (tradução de Anna Duarte e Carlos Duarte):

“— Pouco menos de dez quilômetros”.

Jane Eyre diz a seguir:

“— Em quanto tempo chegaremos lá?”.

A resposta do condutor:

“— Em uma hora e meia”.

Acima, os dois trechos dos livros ilustram que houve uma época em que a humanidade lidava com o tempo tendo uma subjetividade diferente da nossa. Havia menos correria, dentre outros fatores, porque havia menos tecnologia. Com a popularização dos dispositivos eletrônicos e da internete, além da mudança nos meios de locomoção, houve quem dissesse, em meados da década de 90 do século XX, que a tecnologia e todo o seu aparato fariam com que passaríamos a ter mais tempo livre, mais tempo para nos dedicarmos a projetos pessoais.

Décadas depois, sabemos que não é nada disso. O entusiasmo inicial logo seria extinto. A realidade tornar-se-ia bem diversa daquela ingenuidade de meados da década de 90. Não é pequeno o número de pessoas que levam o trabalho para casa, dentro do bolso ou da bolsa, embutido num celular.

Em nosso modo de lidar com o tempo, é comum as pessoas se impacientarem quando a velocidade de navegação na internete não está como é usualmente, um texto de uma página é chamado de “textão”, um caminho de dez quilômetros levar uma hora e meia para ser percorrido é uma aberração, um livro usar quase mil páginas para contar o dia 16 de junho de 1904 na vida de um sujeito é contraproducente. O modo subjetivo como tratamos o tempo neste século XXI não será o mesmo dos séculos que se foram, estando a covid-19 no ar ou não estando. Não sei como nossa subjetividade vai lidar com o tempo no porvir. O que afirmo é que não lidaremos com ele como um dia já lidamos.

Outra possibilidade que as redes sociais têm apontado é a de que haverá novos afetos, ou, melhor dizendo, haverá (mais) afeto, terminada a pandemia. Nesse mundo vindouro, pós-covid-19, relações familiares, amistosas e amorosas teriam se dado conta de que o que realmente importa não são nossa correria nem nosso consumismo. Essa nova era traria um ser humano mais consciente de seu papel no trato para com a Terra e para com o próximo, não importando se o próximo será um vizinho, um parente ou um colega de trabalho. Não consigo vislumbrar essa nova “era”. O único “prognóstico” que faço é o de que os afetos vão continuar como estão agora. Não creio numa humanidade mais consciente depois da passagem da covid-19. Um ou outro pode rever sua existência, mas, no todo, seguiremos basicamente os mesmos.

Alguns otimistas têm ainda divulgado que haverá, depois que o vírus não for mais ameaça, um novo modelo econômico, que também seria mais preocupado com o bem-estar coletivo, em vez de centrado no próprio umbigo. Nesse novo modelo, haveria a possibilidade de todos terem maior dignidade quando em atendimentos de emergência, não importando a condição financeira da pessoa. Haveria menos neoliberalismo e mais cuidado humanitário, o que implicaria menos sanha na defesa de que tudo — tudo mesmo — seja privatizado. Esse modelo não ocorrerá. Para ficar no nosso caso, levando-se em conta que estou em Patos de Minas: governos federal e estadual defendem privatizações. Não é uma pandemia que fará esse pessoal mudar de ideia. Os planos privatizadores seguirão curso passada a pandemia, a qual, de resto, não os impede de prosseguirem. Além do mais, não é somente parte da classe política a querer a privatização de tudo; em meio à população, há grande parcela a defender que todos os serviços públicos estejam em mãos particulares, não importa a natureza do serviço público, mesmo com empresas recorrendo ao governo quando lhes convém, e não é preciso uma pandemia para que governos socorram empresas. 

A utopia é válida, mas utopia que não consegue enxergar, de antemão, as coisas tais quais estão postas corre o risco de se tornar ingenuidade ou desvario. Negar o sonho é perigoso; negar a realidade também é. Não há clima de mudança sendo sugerido, não há um novo modelo de vida sendo edificado pela maioria. O que há é medo e muita ignorância. Leve-se ainda em conta de que é comum as pessoas romantizarem o passado, mormente as que não o pesquisam.

Nesse estado de coisas, há ainda a crença, tida por muitos, de que a natureza se importa conosco ou de que bastaria a fé numa deidade qualquer para que nossas vidas fossem protegidas. Um furacão não pensa algo do tipo “hum, aquele ali é o Zé das Couves [nome fictício]. Vou poupar a casa dele de minha força avassaladora, pois ele é trabalhador, tem bom caráter, é justo”. Quem está na rota de um furacão é engolido por ele, não importam as crenças ou o caráter dessa pessoa. A natureza não sabe de nossos dramas; por mais que alguns insistam, não são preces que pouparão uma pessoa de ter covid-19, ainda que muito se acredite nisso. Não é preciso ser especialista em alguma coisa para saber que, terminada a passagem desse vírus, o número de mortos terá sido maior entre os pobres, os desassistidos, o que nada tem a ver com fé.

Eis, pois, o texto pedido pelo amigo. Em função da amizade, ele me dirá se gostou ou não. Pode ser que discorde de um tópico ou de outro, pode ser que concorde com outro. O amigo é do tipo, não somente quando se dirige a mim, que sabe discordar sem xingamentos, que sabe opor-se sem preconceitos e com inteligência. Eu e ele sabemos que importa a amizade, essa coisa velha que não deixa de fazer sentido.

segunda-feira, 16 de março de 2020

Um domingo e duas frases weberianas

É muito comum as pessoas se valerem do direito de expressão. Sim, ele (ainda) existe, resiste. Há casos em que, ao falar de direito de expressão, as pessoas não estão interessadas em arcar com esses direitos. Direitos podem ter consequências. Tenho o direito de dizer, por exemplo, “o Zé das Couves [nome fictício] é um ladrão”. Se isso digo, tenho de ter clara noção de que há a possibilidade de eu responder judicialmente por essa declaração. Reiteremos: o exercício de um direito pode ter consequências legais.

É direito de qualquer um fazer de seu corpo o que bem entender. Se, digamos, o presidente de um país quiser chupar um picolé de limão, suicidar-se, ir a uma manifestação ou dormir com meias de cores diferentes, isso é direito dele. Todavia, o exercício de um direito, em público, pode interferir de modo negativo na sociedade, pode incorrer em crime. Se um cidadão está com os documentos do carro em dia e se está com sua carteira de motorista devidamente legalizada, ele tem o direito de sair com o carro dele. Mesmo assim, se ele atropela alguém no trajeto, ele poderá, depois de analisado o caso, ser penalizado judicialmente. O fato de os documentos do carro estarem em dia e o fato de não haver problemas com a carteira de motorista dele não o exime da possibilidade de ser responsabilizado caso ele atropele alguém.

Muito se tem falado na irresponsabilidade do presidente da república ao convocar manifestações contra a democracia em vias públicas e em logradouros, e da irresponsabilidade dele ao participar ontem de uma dessas manifestações, ainda mais levando-se em conta o cenário em que o mundo convive com o coronavírus. Pode-se e deve-se falar sobre a irresponsabilidade do presidente.

De sua presença em manifestação, o presidente disse: “Se eu me contaminei, isso é responsabilidade minha”. O cidadão tem o direito de se contaminar; ele tem o direito de inocular em si o vírus que ele bem entender. Mas, como escrito acima, o exercício de um direito pode ter implicações legais. Ele pode ou poderia ter chegado à manifestação já com a covid-19; ele pode ou poderia ter se contaminado com o vírus durante a manifestação. Neste caso, ele se encontrou com outras pessoas depois da manifestação; naquele caso, pode ou poderia ter levado à manifestação o vírus que carregava. Em qualquer um dos casos, foi irresponsável, pois ele teve contato físico com os manifestantes.

O Reinaldo Azevedo, em texto publicado ontem, prestou mais um belo serviço ao jornalismo e ao país, indicando as leis que o presidente infringiu recentemente. Azevedo chega a usar a expressão “criminoso múltiplo” para se referir à conduta do mandatário. Na seção de comentários, abaixo, após este texto, há link para o texto de Azevedo. No parágrafo a seguir, as leis que o presidente infringiu em sua irresponsabilidade. Detalhes podem ser lidos no texto de Reinaldo Azevedo.

O presidente incidiu nos Artigos 6o e 8o da Lei 1.079, que trata dos crimes de responsabilidade. Ele cometeu crime comum ao contribuir para espalhar o vírus; a pena é prevista no Artigo 268 do Código Penal; ele transgrediu os Artigos 17, 18 e 23 da Lei de Segurança Nacional. Houve crime previsto no Inciso II do Artigo 85 da Constituição, com disciplinamento nos itens 1 e 5 do Artigo 6o da Lei 1.079. Também salutar conferir o Artigo 2o dessa Lei. Reinaldo Azevedo o cita, bem como discorre ainda sobre o Parágrafo 4o do Artigo 86 da Constituição. Até a Janaina Paschoal pediu o afastamento do presidente (sic).

É curioso: muita gente por aí se declara defensora de legalidades, de leis e de direitos, mesmo quando faz apologia à tortura (o que é crime), por exemplo. Muita gente por aí fala em legalidades, mesmo sem se valer das leis que compõem o arcabouço jurídico do país em que vive. Num momento tão sério e que demanda maturidade e firmeza, um presidente diz que ele ter se contaminado é responsabilidade dele, como se não estivéssemos num momento em que um vírus pode ser transmitido para o próximo de modo tão fácil. O mandatário não tem empatia nem senso da gravidade do momento. Quanto às leis, mudam com o tempo, mas não é propondo o banimento de instituições democráticas que se busca defender o aparato jurídico de um país.

Mas nega-se não somente o direito, a democracia. O “Zeitgeist” tem levado à negação da biologia, da física, da química, da matemática, da medicina. Milênios de conhecimento são tolamente descartados. O sujeito é incapaz de entender que se ele toma remédio para dor de cabeça, há contribuições de muitos, durante séculos, para que o remédio esteja ao alcance. Sem estudar, sem procurar aprender, nega-se a ciência, o conhecimento. O sujeito cria um canal no Youtube e nega o que a humanidade já sabe há milênios. Há ainda a negação da arte. Estamos na era da negação. O que, em tese, poderia ser algo bom, já que questionar ou duvidar é algo, em princípio, saudável, tem sido praticado de forma tola, desumana e inconsequente. Na era em que estamos, nega-se, sobretudo, o fato. Lembremo-nos da declaração do presidente quando o exército matou, dando centenas de tiros, integrante de uma família que estava indo a uma festa: “O exército não matou ninguém”.

O advogado e professor Weber Abrahão Júnior escreveu em seu Facebook duas frases, as quais pinço: “Os idiotas estão vencendo” e “o ódio está vencendo”. Caro Weber, sem querer soar fatalista nem pessimista, digo que a idiotice e o ódio vencem desde que há pessoas neste planeta, e vão continuar vencendo. Eles sempre foram vencedores. Eles são vencedores. Eles serão vencedores. Tudo isso, entretanto, não é motivo para que se deixe de apontar idiotices e ódios, não é motivo para que não se escancare o fato, a evidência. Idiotice e ódio venceram, vencem, vencerão. Nem por isso terão sossego. Acho que foi o Darcy Ribeiro quem disse ou escreveu algo sobre estar do lado de quem perdeu. Estamos, Weber. Ainda bem. 

domingo, 15 de março de 2020

O vírus invisível

Já comentei que o problema pode não estar na fé, mas, sim, na má-fé e na burrice. Sobre o coronavírus, Edir Macedo disse que a epidemia é “tática de Satanás”. Macedo fala ainda em “pavor que a mídia tem usado”, tática essa que, aliás, já foi usada por outros políticos.

Que há inconsequentes imbecis que preferem ignorar a ciência (muitos deles, enquanto não estão doentes), disso, já sabemos. Ou o sujeito ignora a ciência por interesse próprio ou por burrice (ou pelas duas coisas). Curiosamente, a própria Igreja Universal publicou lista de cuidados contra a covid-19, a despeito da fala de Macedo.

É óbvio que há pessoas de fé que não são burras nem interesseiras; é claro que há pessoas religiosas que querem o bem, o bem do outro ou algo similar. Todavia, há muita coisa por aí chamada de fé que não passa de canalhice de líderes “religiosos” (não importa o dogma que dizem defender) e de burrice de seguidores.

A fé e o vírus

O prefeito de Goiânia havia dito que a cidade não seria atingida pela covid-19 porque, na visão do político, é protegida por Deus. Há casos da covid-19 confirmados em Goiânia; a prefeitura já está agindo na tentativa de coibir o alastramento dos contágios. O prefeito ainda havia dito que “o Brasil não será atingido por isso”, em referência ao vírus. A exemplo do presidente da república, o prefeito alegou que estaria havendo estardalhaço quanto à covid-19. O problema nesses casos não é a fé. O problema são a má-fé e a burrice; esta pode estar junto daquela na mesma pessoa.