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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Campos de morango para sempre

“Viver é fácil com os olhos fechados” [Vivir es fácil con los ojos cerrados], de 2013, do diretor David Trueba (que também escreveu o roteiro), conta a história de um professor de inglês espanhol que parte em viagem para conhecer John Lennon, que, na trama do filme, estava como ator, na Espanha, participando de uma produção para o cinema. A película já cativa na primeira sequência, em que Antonio, o professor de inglês, interpretado por Javier Cámara, está debatendo com seus alunos a letra de “Help”, dos Beatles.

Em sua viagem para conhecer Lennon, Antonio dá carona para Belén (Natalia de Molina) e Juanjo (Francesc Colomer). A princípio, Antonio não sabe que eles, embora não se conhecessem antes de Antonio lhes oferecer carona, estão fugindo de suas famílias. Juanjo, por não mais aturar as arbitrariedades obtusas do pai; Belén, por estar grávida e querer esconder o fato da família.

A história se passa em 1966. Enquanto estão dentro do carro de Antonio, os três personagens vão se conhecendo. Quando chegam ao sítio de locação do filme de que John Lennon participa, Antonio, Belén e Juanjo já estão mais à vontade uns com os outros. Nesse ponto do enredo, enquanto ficamos nos perguntando se Antonio vai mesmo ter a oportunidade de se encontrar com Lennon, ao mesmo tempo vamos acompanhando as emoções que vão aflorando com a convivência dos três na pequena localidade que fica próxima ao local onde estão ocorrendo as filmagens da produção de que John Lennon participa.

“Viver é fácil com os olhos fechados” faz parte daquela linhagem de filmes sem grandes pretensões. Não tem a intenção de mudar o mundo nem de deixar uma grande mensagem, seja lá o que isso for. É um filme simples, um tributo à música (em especial a dos Beatles) e à amizade, sem deixar de roçar as agruras da adolescência. E em caso de conferir o filme, não deixe de assistir à cena final, que somente surge após os créditos. Atente-se também para os morangos, sejam os que são consumidos, sejam os que estão plantados. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Mais uma sobre Bob Dylan

Desculpem-me por voltar ao Bob Dylan. A rigor, eu deveria ter escrito tudo numa só postagem. Todavia, deixei me levar pelo entusiasmo assim que li o anúncio de que ele é o Nobel de 2016. A indicação dele já vem de alguns anos (um dos intelectuais da Fundação Nobel já havia se declarado a favor de se conceder o prêmio ao compositor americano).

Pareço me esquecer de que existe algo chamado Youtube. Lendo matéria sobre o Bob Dylan publicada hoje no site da New Yorker, há um “link” para uma entrevista concedida por Dylan numa ocasião em que ele esteve em Roma. No bate-papo, de pouco mais de uma hora, o compositor, que se mostra um tanto amuado no início da entrevista, vai, ao poucos, parecendo ficar mais à vontade, chegando até a brincar com os jornalistas. Se quiser escutar, eis o “link”.

A primeira coisa que me chamou a atenção assim que comecei a conferir a entrevista é o quanto a voz de Bob Dylan é grave quando ele não está cantando, mas falando. Como cantor, seu timbre fanhoso e médio é conhecido. Quando ele conversa, o tom fanhoso está presente, mas ao se valer do chamado “vocal fry” ao conversar, Dylan confere um tom grave à voz, um tom que não vem à tona quando ele canta.

Para encerrar esta postagem, e para evitar que eu escreva outra somente sobre a história de que me lembrei agora, faço referência a algo bastante divulgado; acho até que o John Lennon chegou a falar sobre isso em alguma entrevista. A história dá conta de que quando os Beatles fumaram maconha pela primeira vez, estavam na companhia de Bob Dylan, que é quem teria apresentado a eles a Cannabis sativa. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

PREFERÊNCIAS

Prefiro maçã a pera. 
Prefiro Cynara Menezes a Rachel Sheherazade. 
Prefiro Hulk a Huck.
Prefiro vinho a uísque.
Prefiro García Márquez a Vargas Llosa.
Prefiro hábito a rotina.
Prefiro ESPN a SporTV.
Prefiro livro a tela.
Prefiro arroz a feijão.

Prefiro Beatles e Rolling Stones. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

SOU O QUE LEIO

Meu jeito de ser é profundamente influenciado pelas leituras começadas na adolescência. Se por um lado me dediquei a livros para os quais eu ainda não estava pronto, por outro, essas mesmas leituras deixaram marcas indeléveis. É claro que não sei como eu seria se não tivesse havido tais leituras, mas não consigo me imaginar sem elas. Não sei o que há de sorte nem o que há de mérito nas escolhas de leitura que comecei a fazer por volta dos doze, treze anos. Do que sei, é que agradeço à vida por essas leituras terem existido.

Não estou certo de onde vem meu interesse por biografias. Pode ser que ele seja consequência das leituras que comecei a fazer sobre o Renascimento. Quando dessas leituras, eu não tinha a dimensão histórica; o que me fascinava era somente o ecletismo, a diversidade de tarefas a que os gênios do período se dedicavam. Esse fascínio acabou me levando a não engavetar o conhecimento, levou-me a valorizar tanto a arte quanto a ciência, a buscar uma mescla das duas. Ainda bem jovem, adquiri o que chamo de senso de ecletismo.

Enquanto eu devorava biografias (tendo adquirido gosto pelo gênero, passei a ler não somente sobre os renascentistas), certo dia eu me deparei, no trabalho, com uma velha revista de divulgação científica. Uma das matérias que compunham a publicação se chamava “Gênios idiotas”: era sobre pessoas que têm uma enorme habilidade mental para determinada tarefa (fazer cálculos complexos de cabeça, por exemplo), mas que se embaralham diante de tarefas simples. Outra matéria discorria sobre a memória.

Eu nunca soube o nome da revista, que não tinha capa nem contracapa; as páginas internas não continham identificação. Até há bem pouco tempo essa revista estava em meio a velhos papéis; não sei onde pode estar agora. De qualquer modo, a gana por esse tipo de leitura se esbaldou quando a revista Superinteressante foi lançada. Por anos fui leitor do periódico, que eu aguardava com ânsia e devorava com fervor. Paralelamente, eu prosseguia com a leitura de biografias. Passei a ler a coleção O pensamento vivo, publicada pela Martin Claret. Meu primeiro contato com Borges foi por intermédio dessa coleção.

Meu pai tocava violão, gostava de escutar rock. Cresci ao som de Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd... Na adolescência, tendo já sedimentado o gosto pela leitura, foi natural, em função da convivência com a música, que eu acabasse tendo contato com a revista Bizz, que também li com entusiasmo por anos e anos. A leitura da Bizz e da Superinteressante acabaram fazendo com que eu me tornasse também um leitor de revistas. Atualmente, leio a Piauí. Da leitura de periódicos, de biografias, de filosofia e de literatura veio o que chamei de senso de ecletismo.

Ao mesmo tempo, um outro senso ia se formando, solidificando-se: chamo-o de senso de rebeldia. Eu o devo também às leituras: não venho de estirpe rebelde, contestadora. Não me lembro, por exemplo, de meu pai criticar a ditadura militar, embora também não me lembre de ele a elogiar. Mesmo procurando estar informado, principalmente escutando rádio, meu pai não me parecia interessado em política. Se era, esse interesse não transparecia em casa. Pelo menos por aqui, o que o absorvia era mesmo a música.

Todavia, o senso de rebeldia a que me referi não é estritamente, digamos, político. Num sentido amplo, é bem verdade que toda ação pode ser interpretada como sendo política; ainda assim, desde cedo foi se esboçando em mim uma desconfiança dos meios de comunicação (desconfiança essa que é maior do que nunca), das versões ditas oficiais e do comportamento das turbas, que não raro são produto do que a mídia determina. O que considero rebeldia está mais interessado na "sujeirinha", na imperfeição, mais ligado na “nódoa no brim”, expressão com que Bandeira definiu a poesia. Na adolescência, ler sobre e escutar o legado de gente como Renato Russo ou Ian Curtis intensificaram essa rebeldia.

Há por fim o que chamo de senso do belo. Eu o devo graças à convivência com a ciência, com a filosofia, com a ficção e com a poesia. Ensinaram-me o cosmopolitismo, deram-me a capacidade de me espantar com sutilezas, de não hierarquizar as áreas do conhecimento, de entender que em essência somos os mesmos. Desde quando eu era bem jovem, a literatura e a filosofia me incutiram uma ideia de coletividade, de pertencimento. A rigor, esse pertencimento poderia ser outro senso, mas o deixo como consequência do senso do belo. Existe beleza em constatar que “as pessoas são as mesmas aonde quer que você vá”, como na letra de “Ebony and ivory”.

Não exagero se digo que sou resultado do que tenho lido. O que sou, o que penso e o que faço são consequências de minha convivência com as palavras, que me deixam mais lúcido, que fazem com que eu fique de bem comigo mesmo, aceitando-me sem comodismo. Não deletei utopias. À medida que a gente vai envelhecendo, vai ficando cada vez mais com os pés no chão, o que é benéfico. Mas, graças à convivência com livros, não joguei fora a rebeldia que é sonhar. 

sábado, 8 de março de 2014

"O VOO"


Eu me surpreendi com a densidade e com as implicações de “O voo” [Flight, 2012], do diretor Robert Zemeckis. O roteiro é de John Gatins. Comecei a assisti-lo sem saber quem era o diretor; pensei que se tratava de mais um daqueles filmes que lidam com catástrofes quando um avião cai.

Não é o caso de “O voo”. Se, de fato, há a queda de uma aeronave, isso é somente pretexto para que questões como o alcoolismo e o papel do direito num processo judicial sejam abordadas. Julgar é muito, muito difícil; isso paira o tempo todo.

O filme é estrelado por Denzel Washington. Prestem atenção no quanto ele está impecável no papel de William “Whip” Whitaker, piloto da aviação civil. Nos momentos em que está tenso, há trejeitos e tiques que se repetem e que se intensificam nas cenas finais. Washington convence como alcoólatra que se nega a assumir o vício.

Interessante é que Whitaker é um daqueles personagens que nos fazem torcer por ele, mesmo estando nós cientes de suas graves irresponsabilidades. É que reconhecemos o genial profissional que ele é, ao mesmo tempo em que logo sacamos que sua empáfia é sintoma de quem finge saber lidar com o alcoolismo.

Whitaker acaba conhecendo Nicole, interpretada por Kelly Reilly. Nicole é dependente de drogas. O encontro que haverá entre os dois é sugerido numa sequência tensa: Nicole está em terra, numa maca, depois de ter consumido droga pesada; Whitaker está pilotando um avião, que está prestes a cair.

É uma cena rápida, que me remete ao poema “Amor à primeira vista”, da poeta polonesa Wisława Szymborska. No poema, há a sugestão de que o primeiro encontro entre um casal já estava sendo tramado antes que ocorresse. Não sei se Zemeckis, o diretor, ou se Gatins, o roteirista, tinham o poema em mente ao compor a cena. À parte isso, ela faz lembrar o texto de Szymborska: a arte imita a arte.

Outro ponto alto do filme é a trilha sonora, regada a clássicos do pop/rock, em especial The Rolling Stones. Se Whitaker está curtindo alguma canção, ou se o figuraça Harling Mays, interpretado por John Goodman, entra em cena, esteja certo de que isso é garantia de boa música. Repare que próximo ao fim da película, em sequência gravada num elevador, “With a little help from my friends”, dos Beatles, é apropriadamente executada, em breve e sutil solo de piano.

Às vezes, julgamos uma pessoa por um gesto, por um delito. Julgar é complicado. Se por um lado Whitaker tem habilidade rara ao pilotar, por outro, é consumido pelo vício. E se o vício e o talento estiverem num mesmo instante?... Por fim, abaixo, a transcrição do poema que mencionei, de Wisława Szymborska. A tradução é de Regina Przybycien.
_____

Amor à primeira vista — Wisława Szymborska

Ambos estão certos 
de que uma paixão súbita os uniu. 
É bela essa certeza, 
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes 
nunca havia se passado nada entre eles. 
Mas e as ruas, escadas, corredores 
nos quais há muito talvez se tenham cruzado?

Queria lhes perguntar, 
se não se lembram — 
numa porta giratória talvez 
algum dia face a face? 
um “desculpe” em meio à multidão? 
uma voz que diz “é engano” ao telefone? — 
mas conheço a resposta. 
Não, não se lembram.

Muito os espantaria saber 
que já faz tempo 
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado 
para se transformar no seu destino 
juntava-os e os separava 
barrava-lhes o caminho 
e abafando o riso 
sumia de cena.

Houve marcas, sinais, 
que importa se ilegíveis. 
Quem sabe três anos atrás 
ou terça-feira passada 
uma certa folhinha voou 
de um ombro ao outro? 
Algo foi perdido e recolhido. 
Quem sabe se não uma bola 
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas 
onde a seu tempo 
um toque se sobrepunha ao outro. 
As malas lado a lado no bagageiro. 
Quem sabe numa note o mesmo sonho 
que logo ao despertar se esvaneceu.

Porque afinal cada começo 
é só continuação 
e o livro dos eventos 
está sempre aberto no meio. 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

POR QUE ME TORNEI UM IMBECIL

Tornei-me um imbecil porque tenho perdido a capacidade de me emocionar. O ápice disso foi no sábado, quatro de maio. Eu estava a poucos passos de um artista que faz parte de minha vida desde a infância. Quando Paul McCartney anunciou oficialmente o fim dos Beatles, em março de 1970, eu não havia nascido ainda (eu nasceria em outubro daquele ano). Mas ele faz parte do lado musical da minha vida.

Ainda é nítido na lembrança eu pedir para meu pai colocar uma das músicas da carreira solo de McCartney. Como eu não sabia falar o nome dela, eu falava mais ou menos assim: “Pai, coloca aquela do ‘rô’, ‘rê’, ‘rô’”. Sim, eu me referia a “Mrs. Vanderbilt”. Ela foi uma das faixas executadas no show realizado por McCartney no Mineirão, em Belo Horizonte.

Também me lembro de um baile a que fui no Ponte de Terra, em Carmo do Paranaíba, na segunda metade da década de 80. O Evandro Fontes, que na época era locutor de rádio por lá, foi quem me convidara para a festa, que contaria com show da banda de baile Phendas. Ao fazer a abertura do evento, o Evandro disse que tocaria uma música; achei estranho, pois não havia nenhum instrumento com ele. Foi quando então retirou uma gaita do paletó e tocou “Let it be”, que, claro, também fez parte do repertório do show em BH.

Lembro-me também de ter escrito à mão, ainda adolescente, várias letras dos Beatles em folhas de caderno. Dentre elas, “Get back”, que McCartney também cantou no Mineirão... Quando ele cantou “Your mother should know”, lembrei-me do Pedro Paulo Niffinegger Silva, um amigo que certa vez me disse que gosta dessa canção.

Lembro-me de meu pai comentar comigo, enquanto ele me levava de bicicleta a algum lugar, quantas vezes o “na na na... Hey, Jude” é repetido na gravação original (ele disse que contara). Obviamente, a canção foi executada durante o show.

Eu poderia escrever todo um texto sobre minhas várias lembranças com o universo dos Beatles. Mas esta crônica é sobre minha incapacidade de ter me emocionado durante o show de McCartney em BH. Eu deveria ter pulado, gritado e chorado, exatamente tal qual fez a adolescente que estava a meu lado, que cantou to-das as letras.

Para não dizer que passei incólume pelo show, fiquei emocionado não devido a uma canção, mas quando ele disse pela primeira vez “trem bão, sô” (ele voltaria a repetir a expressão posteriormente).  Além da emoção que senti, foi engraçado olhar para a cara que ele fez ao dizer a expressão, bem como escutá-la cheia de sotaque.

É estranho: essa minha tola apatia esteve comigo mesmo antes de eu entrar no Mineirão: não houve expectativa, eu não estava vibrante como deveria estar. Terminado o espetáculo, saí sem compartilhar do óbvio entusiasmo no ambiente. Se o show tivesse sido um fiasco, eu teria razão para a indiferença.

Deixei o local preocupado com meu crescente embotamento, por ser algo que vem se insinuando cada vez mais. Para os amigos que perguntaram, acabei dizendo que gostei, para não cortar o barato nem ter de explicar por que não gostei. Se eu tiver a oportunidade de conferir um show dos Rolling Stones, coisa que eu sempre quis, que eu seja ou esteja menos tolo.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

CARRY THAT WEIGHT

Boy, I’m gonna carry that weight
Carry that wait for a long time…

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

GIVE SPACEY A CHANCE

Terminei de assistir há pouco ao show “Come together – a night for John Lennon’s words & music”. A apresentação ocorreu no Radio City Music Hall, em Nova York, no dia 2 de outubro de 2001, dias depois dos atentados de 11 de setembro. Discursos a favor da paz e loas aos que morreram nos atentados e à população de Nova York permearam os discursos, ditos entre uma música e outra por astros de Hollywood. Clássicos dos Beatles e de John Lennon eram interpretados por cantores americanos. Mas o ponto alto do show é quando “Mind games” é interpretada por quem, oficialmente, não ganha a vida cantando – Kevin Spacey, que foi também o apresentador da noite.

Foi ainda ótimo assistir a Dave Stewart (lembra do Eurythmics?) cantando "Instant Karma" com Nelly Furtado. Além de tocar guitarra nessa faixa, ele acompanha outros artistas durante o show, também tocando guitarra.