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sexta-feira, 25 de junho de 2021

Existe alternativa

Por um lado, é preciso louvar a bela iniciativa da editora Autonomia Literária por ter ela editado Realismo capitalista, de Mark Fisher (1968-2017); por outro, justamente em função de o livro ser um monumento, merecia uma edição mais cuidadosa: os erros de português que a tradução tem são numerosos, amadores, irritantes. O livro merece mais.

Realismo capitalista é paradoxal: a lucidez lancinante constata a maçada em que estamos por causa do capitalismo/neoliberalismo; ao mesmo tempo, essa mesma lucidez propõe possíveis alternativas, ainda que elas não exibam contornos exatos; não é propósito do livro sugerir uma solução pronta. Num tom quase casual, Fisher mistura o erudito e o popular, longe de academicismos mas íntimo de uma contundência iluminadora.

É um livro contra, em seu sentido pejorativo, a individualidade, tão queridinha do neoliberalismo, que, exitoso, faz recair unicamente sobre o indivíduo as derrotas que ele vivencia. A balela da meritocracia talvez seja a faceta mais conhecida desse individualismo; todavia, Fisher vai além, discorrendo sobre outro aspecto cruel do neoliberalismo: se o sujeito tem uma doença mental, somente ele é o responsável por isso. O autor leva em conta a dimensão químico-cerebral de problemas psíquicos, mas ele tem a clareza de entender que esses problemas podem ser reflexos de uma sociedade doente: “É óbvio que toda doença mental tem uma instanciação neurológica, mas isso não diz nada sobre a sua causa” [1] (itálicos de Fisher).

A expressão que Fisher usa para esse estado de coisas é “privatização do estresse”. Se o cidadão sucumbe diante de pressões neoliberais, a culpa é somente dele, que, nesse estado de coisas, seria fraco, incapaz. Não bastasse, há ainda o peso da burocracia, que acabou infestando e apodrecendo os serviços públicos. No campo da educação, o autor descreve com exatidão o que se dá em decorrência dessa opressora e estúpida burocracia: “No caso de inspeções de escolas e universidades, o que será avaliado em você não são suas habilidades como professor, mas sua diligência como burocrata” [2].

A solução de Fisher para que uma alternativa ao neoliberalismo seja implementada não tem contornos nítidos, não é um manual com tópicos exatos sobre como resolver a enrascada em que estamos. Além do mais, as saídas que o autor aponta contam com a existência da democracia e de instituições, como, por exemplo, um parlamento, não importa o regime governamental. Fácil perceber que no caso do Brasil uma alternativa que dizime o projeto neoliberal está, no contexto atual, distante.

Todavia, não nos enganemos: em Realismo capitalista, a constatação de que o neoliberalismo venceu não é para que nos entreguemos à ideia de que não há alternativa, “mantra” apregoado por Margaret Thatcher. Há, sim, alternativa. Ela não se evidencia ainda, mas não virá do indivíduo, sobre quem já recaem coisas demais. Dentre outros bens, Fisher escancara que o capitalismo baniu a solidariedade. Não caiamos no conto de que não há nada a ser feito: “É nossa tarefa desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável” [3].

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[1] Fisher, Mark. Realismo capitalista. Tradução de Rodrigo Gonsalves, de Jorge Adeodato e de Maikel da Silveira. Autonomia Literária. 2021. Pág. 67.
[2] Idem. Pág. 87.
[3] Ibidem. Pág. 151.
 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

POR QUE DIGITO "13" (MAIS ALGUNS MOTIVOS)

Antes de alegar corrupção contra algum partido, qualquer simpatizante de qualquer um dos partidos que disputam a eleição presidencial deveria ter a noção de que houve corrupção de ambas as partes. A diferença é o tratamento que se dá a ela: os grandes meios de comunicação abafam ou minimizam a corrupção no PSDB, e a amplificam quando é no PT.

O que deveria haver é punição em ambos os lados. De qualquer modo, para os incautos que queiram saber de alguns delitos do PSDB, confiram este “link”. Os do PT estão em qualquer edição da Veja; os do PSDB, não.

Em postagem anterior, publicada também no Facebook, elenquei algumas razões pelas quais voto em Dilma. Nesta postagem, cito mais alguns motivos que justificam meu voto.

Antes de listar esses motivos, devo, de antemão, dizer que sou contra o neoliberalismo defendido pelo PSDB. Lembro-me de que, certa vez, em Belo Horizonte, num encontro de professores, o nome do Michel Camdessus apareceu num texto. Quanto alguém perguntou quem era Camdessus, respondi que ela era o diretor do Fundo Monetário Internacional.

É nítida em minha memória a época em que o nome do presidente do FMI estava todos os dias no noticiário econômico nacional. Isso não foi há muito tempo; historicamente, foi ontem. O PSDB e seu neoliberalismo faziam com que o Brasil se tornasse refém de órgãos econômicos internacionais. Foi no governo do PT que o Brasil se livrou da dívida externa.

Há dois modelos econômicos em disputa. Eu me decidi por um. Lembro-me do País no período militar, fui testemunha da redemocratização, acompanhei o engodo Collor (não votei nele), passei pela ascensão do neoliberalismo e vivenciei os anos do PT no governo federal.

Nesta postagem, vou me valer de um texto de Najla Passos. Foi publicado no sítio da revista Fórum. Na postagem, Passos assinala nove diferenças entre os modelos econômicos do PT e do PSDB. Em breve, pretendo mencionar outro texto: este, de Cynara Menezes. Por agora, os comparativos de Najla Passos:

1 – Inflação

O governo do PSDB sabe o pânico que o brasileiro tem da inflação, que durante décadas corroeu salários e reduziu o poder de compra do trabalhador e cujo recorde, em 1993, chegou a 2.477% ao ano. É por isso que usa a mídia que lhe serve para atemorizar o povo dizendo que a inflação está fora de controle. Isso não é verdade. Durante o governo FHC, o PSDB conseguiu reduzir a inflação a 1,6% em 1998, às custas de juros altos e muito arrocho para o trabalhador. Mesmo assim não conseguiu mantê-la neste patamar. Quando eledeixou a presidência, a inflação batia a casa dos 12%, quase o dobro dos 6,5% que temos hoje com Dilma, que a manteve sempre dentro das metas, mesmo aumentando os salários e garantindo mais direitos aos trabalhadores. A principal diferença entre os dois modelos, portanto, é quem paga a conta pelo controle da inflação. E no modelo do PSDB, certamente é o trabalhador.

2 – Desemprego

No governo FHC, a orientação da política econômica foi a da estabilização da moeda. No governo Lula, o crescimento econômico simultâneo à distribuição de renda. No governo Dilma, é a manutenção do emprego combinada com baixa taxa de juros. Não por acaso, em 4 anos, Dilma criou mais postos de trabalho do que FHC em 8: uma média de 1,79 milhões ao ano, nos governos petistas, contra a média de 627 mil ao ano, na era tucana. O Brasil de Dilma tem as menores taxas de desemprego da sua história: 5,4% em 2013, contra 12,2% em 2002. Isso deixa os donos do capital furiosos. É que os empresários não gostam que o governo mantenha o desemprego baixo porque isso gera poder de barganha para o trabalhador. Os economistas do PSDB, a eles atrelados, dizem até que “uma certa taxa de desemprego faz bem à economia”. Já o PT defende que é possível crescer aumentando os salários para distribuir renda, o que é confirmado pela experiência dos últimos 12 anos.

3 – Salário

As diferenças entre as políticas públicas tucanas e petistas para o salário mínimo ficam claras com os números. Em 2002, o mínimo era de R$ 200, o equivalente a 1,42 cesta básica. Hoje, é de R$724, o que permite comprar 2,24 cestas básicas. Uma mudança e tanto no poder de compra do trabalhador, que, combinada com programas sociais, ajudou mais de 50 milhões de brasileiros a saírem da pobreza. O salário mínimo, hoje, também tem maior participação no PIB: atinge 34,4%.

4 – Juros

No auge da crise de 1998, a maior enfrentada pelo governo do PSDB, a Taxa Selic chegou a 45%. Ou seja, o grande investidor que tinha R$ 1 milhão em aplicações ganhava R$ 450 mil só deixando o dinheiro no banco. O presidente do Banco Central, à época, era o mesmo Armínio Fraga, responsável pela elaboração do programa econômico de Aécio e cotado por ele para reassumir o órgão. Já nos governos do PT, os juros sempre registraram patamares inferiores. A presidenta Dilma mudou as regras da poupança e usou os bancos públicos para pressionar os privados a baixarem os juros. Mas quando reduziu a Taxa Selic para 2%, enfrentou uma poderosa campanha midiática para que eles voltassem a subir: a campanha do tomate, focada no preço sazonal de um único produto. Com a posterior mudança do cenário internacional pós-crise, acabou tendo que ceder e elevar as taxas, que hoje estão em na casa dos 11% ao ano, ainda bem distantes dos 45% do governo FHC.

5 – Dívida pública

O perfil da dívida brasileira mudou muito do governo do PSDB para o do PT. Na era tucana, a divida era externa, cobrada em dólar. E FHC fazia qualquer coisa para perseguir o superávit primário destinado a pagar seus altos juros: ajustes fiscais, demissões, reduções de direitos. Além de que mantinha o país subjugando às exigências do FMI. Os governos do PT saldaram os débitos do país com o FMI. Agora, a dívida é interna. Pode ser rolada e controlada com a emissão de mais títulos e até mais moeda. Além disso, vem diminuindo significativamente seu peso no orçamento.

6 – Política industrial

A desindustrialização atingiu quase todo o mundo no pós-crise econômica mundial de 2008. Os Estados Unidos, só agora, conseguiram retomar o nível de industrialização de 2006. A Itália apresenta um índice 20 pontos menor. O Brasil, no entanto, cresceu 11%, um dos maiores patamares conforme a OCDE, ao contrário do que martela a mídia comprometida com a oposição. Nestas eleições, são dois modelos em disputa. O PT propõe a manutenção do ativismo da política industrial e recuperação das suas potências, com papel forte do Estado e coordenação das políticas (desenvolvimentismo). Já o PSDB propõe a perda do ativismo e da potência, com o Estado sendo substituído pelas forças do mercado. Na contramão do mundo, volta a pregar a total abertura às importações sem preparar a indústria nacional para a competição. Um modelo que já não deu certo nos anos 1990.

7 – Consumo e desenvolvimento

No modelo do PSDB – centrado no estado mínimo, privatizações e controle privado da economia – a taxa de investimentos chegou a atingir 15,1%. Mas nos governos do PT, com o Estado mais forte, ela subiu e hoje já registra 19,5%. É claro que o modelo de crescimento petista também é baseado na ampliação do mercado interno. Mas ao contrário do que dizem os críticos, pelo menos desde 2007, com a criação do PAC, o investimento passou a ter maior participação no crescimento do que o consumo. Portanto, é falacioso esse papo da oposição de que o crescimento brasileiro se sustenta apenas na ampliação do mercado interno, um modelo que já estaria esgotado.

8 – Política externa

Durante o governo do PSDB, o foco da política externa brasileira era o relacionamento diplomático e econômico com os países desenvolvidos, onde o Brasil era sempre a parte mais fraca e sem grandes poderes de barganha. Já os governos petistas fortaleceram as relações Sul-Sul, com o Mercosul, Brics e Unasul, que o deixaram menos suscetível às exigências dos grandes. A proposta do PSDB, no entanto, é retomar o foco anterior. Para a cúpula econômica tucana, o Mercosul dá prejuízo e o Brasil nem deveria manter relações com países que classificam como “bolivarianos”. Já o PT defende a ampliação do modelo, com a criação e fortalecimento do Banco dos Brics e cada vez mais independência dos desenvolvidos e mais solidariedade entre os iguais.

9 – Missão do BNDES

No governo do PSDB, a principal missão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e social (BNDES) era sanear as empresas públicas destinadas à privatização e financiar os investidores que iriam adquiri-las, no chamado Programa Nacional de Desestatização. Portanto, era usado para ajudar a reduzir o estado e o patrimônio do povo brasileiro. Em 2002, seu lucro foi de R$ 550 milhões. No governo petista, a missão do BNDES é incentivar o crescimento, investindo nas empresas brasileiras de todas as áreas. No governo Dilma, 93 das 100 maiores empresas brasileiras receberam recursos do BNDES. Das 500 maiores, 480 foram contempladas. Em 2013, seu lucro foi de R$ 8,15 bilhões.

(Fonte: http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/10/9-diferencas-entre-os-modelos-economicos-psdb-e-pt/.) 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O CAIPIRA E O COSMOPOLITA

Há situações em que uma pessoa se revela. O mesmo vale para um povo: há situações em que ele se revela. Ou, pelo menos, parte dele. Foi assim em 2010; está sendo assim em 2014. Os nordestinos têm sido escarnecidos via internet. Já houve quem sugerisse que se jogasse uma bomba atômica por lá; já houve quem sugerisse que eles, os nordestinos, morressem devido ao Ebola.

Quem publica em rede social um pensamento assim enche-se de entusiasmo quando alguém como FHC diz que os eleitores do PT são, nas palavras dele, “menos informados”: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres”. Conclui FHC que o PT se destaca nos, segundo termo usado por ele, “grotões”.

Vinda de Fernando Henrique Cardoso, esse tipo de declaração não surpreende; em 1996, ele dissera que somos caipiras: “Como vivi fora do Brasil, na Europa, no Chile, na Argentina, me dei conta disso: os brasileiros são caipiras”.

Declarações como a dele só confirmam aquela velha ideia de que estudo e inteligência não andam necessariamente juntos: FHC tem estudo. Só que uma parte da população, que se julga bem-informada por acompanhar a Veja, o Estadão, a Folha de S.Paulo, a Globo e o UOL, por exemplo, sente-se mais bonita, mais inteligente e mais civilizada do que os pobres — em especial, depois de um FHC desovar seu rosário neoliberal.

Para esses que se julgam melhores, o resto da população podem ser os nordestinos ou, por extensão, os pobres (não importa onde vivam), que, nessa ótica, seriam sujos, sem informação, despreparados e descartáveis. Livrar-se deles, os pobres, faria bem para o País, que passaria a conviver com uma elite que adora Paris e que adora inserir termos em inglês em suas conversas.

Não basta o conhecimento histórico (suponho que FHC o tenha), não bastam as viagens (penso que FHC conheça o mundo inteiro), não bastam as leituras (presumo que FHC seja um intelectual). Fernando Henrique Cardoso deu provas de que alguém com leituras, viagens e poder pode não entender o que é o cosmopolitismo. Levando-se em conta as declarações dele, suponho ser inimaginável para ele conceber que há caipiras cosmopolitas nos grotões.