sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A ghost story

Se por acaso você cogitar não assistir ao filme A ghost story (2017) por achar que o enredo remete a Ghost — do outro lado da vida (1990), esqueça isso. Também não deixe de assistir ao filme por achar que um fantasma representado por uma pessoa coberta por um lençol é algo muito infantil ou inverossímil para ser conferido. Por fim, se você não gosta de filmes de terror, leve em conta que A ghost story não é um filme de terror e que qualquer gênero tem obras-primas.

O filme não tem pressa e subverte regras clássicas de composição dos quadros cinematográficos. Acostumados do modo como estamos aos cortes frenéticos da maioria das produções atuais, o diretor David Lowery, também o autor do roteiro, propõe longas tomadas com a câmera estática.

O filme é estrelado por Casey Affleck e Rooney Mara. C (interpretado por Casey Affleck) morre em acidente de carro. M (interpretada por Rooney Mara) fica sozinha na casa deles. Pouco depois de deixar o hospital a que havia sido chamada para fazer o reconhecimento do corpo de C, M vai embora; instantes depois, C se levanta e sai caminhando, coberto pelo lençol que estava sobre seu corpo no hospital.

O fantasma de C vai parar na casa que era compartilhada por ele e por M, onde ela passa a morar sozinha. A partir daí, A ghost story se torna uma bela e poética reflexão sobre a inexorabilidade da passagem do tempo e sobre a destrutibilidade de tudo o que edificamos. Com relação ao espaço que ocupamos, o acesso ao que houve e o conhecimento do que haverá não anulam a destruição cabal. Num eufemismo, dir-se-ia que a transformação é que vem, não a destruição. 

Pode-se assistir ao filme de David Lowery como uma alegoria da dificuldade que temos em nos desapegar daqueles com quem um dia convivemos ou daquilo que um dia esteve em nossas mãos. Num limbo melancólico, o fantasma de C não se conforma com a dissolvência do que um dia foi o espaço dele, mas que foi e será o espaço de outros.

Pode ser que chegue o instante em que não haverá o espaço de ninguém. Numa dimensão cósmica, pode ser que não restará nem memória nem átomo do que fomos ou dos lugares que ocupamos ou das coisas que tivemos em mãos. Diante da duração e da extensão do Universo, nossas vidas são ínfimas. Não bastasse, um vento macondiano poderá aniquilar qualquer possibilidade de permanência de qualquer coisa. Mas isso não é pretexto para que deixemos de assistir a filmes como A ghost story. Que se reserve tempo e espaço para o trabalho de David Lowery. 

Sobre práticas pronominais

Ainda há pessoas que se encantam porque o presidente usa mesóclise. Sob pretexto de moralizar o país e sem saber (ou sabendo) que vai doer nelas também, dar-se-ão por satisfeitas com o pronome oblíquo no meio. 

Haicai

Constato demais:
é bonito e sedutor
quem lê mais. 

Singular

Gosto de gente no singular. 
Mais de dois, multidão.
Não confio em plural,
o singular me robustece. 
Melhor do que dois,
somente a solidão. 

A liga da justiça

Que o humor é algo magistral, todo mundo sabe. Mas ele não pode ser usado para encobrir ou salvar algo que é ruim. Ele deve ser a consequência de algo que é bom. Nem o humor de A liga da justiça o redime. É o humor que faz com que o filme seja simpático. “Simpático” não é um adjetivo honroso para um filme que pretendeu ser mais.

A impressão com que filmes de super-heróis têm me deixado é a de que há enredo de menos e computação gráfica demais. Não bastasse isso, os vilões têm sido tediosos e óbvios. Foi assim em Batman versus Superman, é assim em A liga da justiça. Os alienígenas vilões dos dois filmes são superficiais, servindo apenas para dar e levar porrada.

Os fãs dos quadrinhos ressentir-se-ão com o fato de que a essência do Flash não é a mesma (nos quadrinhos, ele não é o engraçadinho do filme) e com a pouca empatia que o Cyborg gera. Quanto a Aquaman, é um personagem bem construído. Pena que após fazer menção a Ahab, personagem do livro Moby Dick, joga uma garrafa ou algo assim no mar. Não faz sentido justamente ele poluir as águas.

Aqui ou ali, há referências a outros filmes de super-heróis. O primeiro soco desferido pelo Super-Homem no vilão em A liga da justiça tem menção ao tema criado por John Williams. É esse o breve instante em que alguma emoção se esboça, logo indo embora. Nem o (mais uma vez) belo trabalho de Danny Elfman na trilha sonora consegue dar alguma grandiosidade a um filme destituído de grandeza. O humor sozinho não pode salvar o mundo. 

Haicais pontuais

1
Três pontos: reticências.
Três exclamações:
excrescências.

2
Três pontos: reticências.
Três interrogações:
excrescências.