Mostrando postagens com marcador Lula. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lula. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de maio de 2022

Lula, de Fernando Morais

Ainda que Fernando Morais não tivesse escrito a biografia de Lula, ele, Morais, já seria um dos grandes biógrafos do Brasil, tendo já traduzido em palavras as vidas de Olga Benario, de Assis Chateaubriand e de Paulo Coelho. Não li Chatô — o Rei do Brasil. Já os livros sobre Olga Benario e sobre Paulo Coelho deixam nítido o rigor e a elegância do estilo de Fernando Morais. Com a biografia de Lula, Morais torna evidente, mais uma vez, que os livros biográficos que escreve têm o gigantesco mérito de estarem à altura da grandeza das vidas que conta, de modo que haja uma simbiose entre biógrafo e biografado.

Não tenho agora em mãos a biografia Olga para eu consultar se ela foi escrita em ordem cronológica. Do que sei, é que em Lula, Morais se vale de procedimento de que já se valera em O Mago, a biografia de Paulo Coelho: narrar não em ordem cronológica. Para contar a vida de Paulo Coelho, o biógrafo inicia o relato com o escritor no auge da fama; para contar a vida de Lula, começa a história narrando os dias que antecederam a prisão do presidente em Curitiba.

Na página 12, Morais começa a relatar os bastidores do que se passava ao redor de Lula enquanto Moro e sequazes montavam suas farsas e exerciam suas ilegalidades; na página 164, conclui essa parte do livro narrando os primeiros passos de Lula em liberdade depois de ter deixado o prédio da polícia federal em Curitiba. Utilizando, dentre outros recursos, as técnicas do novo jornalismo, que despontou na década de 60 do século XX, Morais não nos deixa largar o livro nessas 152 páginas. O que elas contam ocorreu “ontem”, tudo está correndo muito intenso ainda nas veias da história do Brasil. O autor capta numa prosa ágil, mas não apressada, o que ocorria na vida de Lula enquanto o judiciário, encarnado na figura de Moro, o ministério público e parte da mídia tentavam de todo jeito apagar Lula da política, da história.

Moro transformou em “concessões” o que eram direitos de Lula, a polícia federal realizou devassas na casa dele e de seus filhos. As chamadas autoridades não acharam nada que pudesse incriminar o presidente. Desde a juventude, quando ainda era metalúrgico em São Paulo, Lula sabe o que é ser perseguido pela mídia e pelos poderes em voga. Aliás, nesse sentido, as sacanagens que fizeram contra ele são perversamente especulares: quando foi candidato a governador de São Paulo, já queriam bani-lo antes mesmo que ele pudesse alçar voos maiores. Escreve Morais: “As mentiras que décadas depois seriam conhecidas como fake news eram espalhadas por todo o estado [de São Paulo]. Diziam que Lula havia ficado rico como sindicalista e que a casa de São Bernardo era apenas uma fachada para enganar os trouxas — na verdade, afirmavam, ele morava numa mansão no Morumbi” [1]. Décadas depois, haveria o imóvel do Guarujá e o sítio de Atibaia. A ditadura brasileira datilografou sentença de condenação de Lula antes de um julgamento (Morais conta essa história no livro); décadas depois, Moro forjou processo judicial para condenar Lula sem provas.

O trabalho de Morais presta outro grande serviço, que é o de provar, em apêndice, valendo-se de dados, o modo como a chamada grande mídia tem tratado Lula. O levantamento foi feito com exclusividade para a biografia pelo instituto de pesquisas Manchetômetro. Durante a operação Lava-Jato, o Jornal Nacional, só para ficar num exemplo, massacrou e massacrou Lula: “No total, o JN dedicou intermináveis 163529 segundos a reportagens contrárias a Lula. Ou seja, mais de 45 horas, ou quase dois dias inteiros, se essas matérias fossem exibidas em sequência. A soma da duração de todas as notícias favoráveis, por outro lado, é de irrisórios 3374 segundos, ou seja, menos de uma hora no total” [3]. De modo similar, cada um a seu modo e com as características inerentes a cada mídia, agiram, de acordo com o Manchetômetro, os demais veículos das organizações Globo, os do grupo Bandeirantes, os da Record, os da Folha e os do grupo Estado, que publica o jornal Estado de São Paulo.

No dia 17 de novembro de 1989, meu pai, que morreria em fevereiro de 1999, estava saindo de casa. Falou comigo: “Vamo ali votar no padrinho Collor?”. Ao escutar a frase, eu a achei expressão de subserviência, talvez pelo uso da palavra “padrinho”. A entonação, a escolha das palavras... Tudo me soou muito careta, o que era curioso, pois, nos costumes, meu pai não tinha uma gota de caretice. De todo modo, não votei no “padrinho” Collor. Como nasci em outubro de 1970, aquele ano de 1989 marcava minha “estreia” como eleitor. O primeiro voto da minha vida, no dia 15 de novembro de 1989, data do primeiro turno para aquelas eleições, foi para o Lula. De lá para cá, sempre que ele foi candidato a presidente, votei nele. Sendo possível, assim será novamente neste ano. 

De acordo com a biografia, quando da prisão que o deixaria em Curitiba, sugeriram a Lula que cobrisse a cabeça por causa da presença maciça de fotógrafos e de cinegrafistas; por mais de uma vez, sugeriram que buscasse asilo político em outro país. Nem essas propostas nem outras semelhantes foram acatadas pelo político. O que emerge da biografia de Morais é um Lula, sobretudo, corajoso. Eu já sabia disso, mas as palavras do biógrafo materializam uma pessoa que jamais baixou a cabeça seja para juristas engomadinhos, seja para uma mídia perversa e preconceituosa. Em janeiro deste ano, Abraham Weintraub, em entrevista para um dos meios de comunicação do grupo Bandeirantes, disse: “O Lula é um encosto para mim. A gente pensa que ele acabou e ele renasce, vem de novo, não cansa, não para. Esse cara não é deste mundo, ele tem alguma força sobrenatural, não é possível” [2].

Weintraub se declara inimigo de Lula. Mesmo assim, assumiu publicamente o que muitos dos que se declararam inimigos de Lula pensam secretamente. O presidente, é claro, nada tem de sobrenatural. Ele “apenas” incorporou desde cedo a “simples” ideia de que ele não vale menos do que os poderosos almofadinhas que sempre o abominaram e o perseguiram. Ele me inspira porque é signo de coragem, de rebeldia, de altivez. Execrado por poderosos e pela dita grande mídia, que se empenha em transferir para o público seus ódios, seus preconceitos e sua ilusão de que são grandiosos, Lula aí está, encarando de frente um lado feio e selvagem do Brasil. Que Lula seja feliz.
_____

[1] Morais, Fernando. Lula: biografia: volume 1ª edição. São Paulo. Companhia das Letras. 2021. Página 394.
[2] https://www.poder360.com.br/eleicoes/weintraub-lula-e-encosto-e-tem-alguma-forca-sobrenatural/
[3] Morais, Fernando. Lula: biografia: volume 1ª edição. São Paulo. Companhia das Letras. 2021. Página 405. 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O petróleo não é nosso

Os discípulos dessa corporação uníssona chamada grande mídia nunca vão admitir dados de que não houve quebradeira no Brasil depois do governo de FHC e antes do governo de Temer. Nesse viés, nunca vão admitir que o problema dos preços dos combustíveis não é herança do governo petista. Isso não quer dizer o governo do PT não tenha errado — Belo Monte é exemplo de erro grave pelo etnocídio que tem causado. Negar que houve corrupção no governo petista seria burrice, assim como é burrice alegar que a corrupção foi inventada pelo PT ou alegar que não houve corrupção durante a ditadura militar ou negar que não houve corrupção no blindado governo FHC (neste caso, a leitura de A Privataria Tucana esclarece muito).

Como eu já disse, nunca tive ilusão nem pretensão de mudar o pensamento de alguém quando escrevo; isso seria luta mais vã do que as outras lutas vãs com que me envolvo (“lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã”). Sei que os crédulos vão continuar acreditando nas grandes corporações de comunicação, vão continuar dizendo que os governos Lula e de Dilma quebraram o Brasil. Nunca tive a intenção de mudar a ideia de quem pensa assim, pois quem assim pensa não vai mudar de ideia por uma série de questões, que podem até dizer respeito a coisas que não são estritamente da política, como, por exemplo, a falta de um mindinho ou o vestido de alguém.

O assunto em voga é a falta de combustíveis nos postos de gasolina. Por todo o Brasil, donos de postos já deram prova do quanto o brasileiro é “solidário”: ontem, houve “cidadão de bem” que chegou a vender gasolina por R$ 9,99 (https://bit.ly/2x9XCR6). Isso é muito revelador do quanto estamos distantes de construir para nós um país para todos.

Sobre esse problema, recorri a um estudante de economia, que me pediu para ficar no anonimato. Segundo ele, há uma teoria em economia chamada de “questão da utilidade marginal”. Segundo o economista, “a questão da utilidade marginal na hora de determinar os preços é uma teoria econômica que diz que o preço de um bem reflete não o seu custo, mas, sim, o quanto ele é útil naquele momento. Por exemplo: se você está no deserto do Saara e encontra um vendedor de água, na primeira garrafa você está disposto a pagar o preço que ele quiser cobrar porque o bem é extremamente útil pra você naquele momento; na segunda garrafa você já está disposto a pagar um pouco menos, porque já é menos útil pra você, até que chega um momento em que a água é um estorvo e você não está disposto a pagar mais nada, ou até está disposto a pagar para não ter o bem. Essa é uma teoria importante na questão da formação dos preços, que acaba refletindo na questão da lei da oferta e da demanda, e acho que se aplica bem nesses momentos de crise com bens muito úteis, como a gasolina, por exemplo”.

A própria economia admite ainda haver fatores não racionais que devem ser levados em conta: “Ninguém age o tempo todo de forma racional. Inúmeras vezes, agimos por impulso, sem medir as consequências de nossos atos. Outras tantas vezes, agimos por mero hábito, por condicionamento social, porque ‘é assim que sempre se fez’. E, normalmente, mesmo quando procuramos ser racionais, não deixamos de ser influenciados pela cultura e por nossas pulsões (tantas vezes, inconscientes) avessas à racionalização. (...) De forma que o ‘homem econômico racional’ tem que ser tomado como uma construção ideal, e não como uma representação realista da ação humana. O que não significa — insistamos — que esta representação seja inútil”. [1]

É preciso ter em mente que a utilidade marginal ou o argumento de que não somos racionais o tempo todo não são salvo-conduto para os donos de postos de gasolina cobrarem os preços que bem entenderem. Esse ato pode ser ilegal, os postos podem ser denunciados. Sabemos que denúncias desse tipo não dão em nada no Brasil, mas nem por isso temos de aceitar que os postos cobrem dos consumidores o que bem quiserem.

Quando nasci, em 1970, a ditadura militar estava expulsando, torturando ou matando quem dela discordava (por isso mesmo há quem queira a volta do regime militar). O aumento do preço dos combustíveis era anunciado previamente, o que fazia com que os consumidores pegassem os veículos e corressem para os postos de gasolina para encher os tanques antes que o aumento entrasse em vigor. Ontem, indo para o trabalho, pude conferir as filas nos postos da avenida JK, aqui em Patos de Minas, em cena muito parecida com a que eu presenciava com frequência quando menino; à noite, no centro da cidade, mais filas para abastecimento. Tomo a liberdade de tirar a vírgula do “slogan” do Elsinho Mouco, modificando os números dele: o Brasil voltou quarenta anos em dois.

Aproveito para reiterar alguns números, que são públicos, embora escondidos da grande mídia — em especial os dados contidos nos dois primeiros links. O primeiro deles tem uma série de registros que fazem comparação entre os governos FHC e Lula/Dilma; o segundo é sobre o que há embutido no valor dos combustíveis; o terceiro é um contraponto aos dois primeiros.

https://bit.ly/2IHsA4w

https://bit.ly/2xbxKEu

https://bit.ly/2s4UT6o
___________

[1] Paiva, Carlos Águedo Nagel. Noções de economia / Carlos Águedo Nagel Paiva, André Moreira Cunha. Brasília. Fundação Alexandre de Gusmão. 2008. 

terça-feira, 10 de abril de 2018

Versão eletrônica de livro sobre Lula pode ser baixado gratuitamente

Em iniciativa da editora Boitempo, é possível baixar de graça a versão digital do livro “A verdade vencerá”, sobre Lula. É uma entrevista concedida aos jornalistas Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, ao professor de relações internacionais Gilberto Maringoni e à editora Ivana Jinkings, fundadora e diretora da editora Boitempo. Há também textos de Eric Nepomuceno, Luis Fernando Verissimo, Luis Felipe Miguel e Rafael Valim. Do texto do Verissimo, cito o trecho abaixo.

(...) “A desigualdade brasileira não é uma fatalidade, tem autores identificáveis, pais conhecidos. Através da história, ela vem sendo mantida, principalmente, pelo que pode ser chamado de controle de natalidade de qualquer opção de esquerda, proibida de nascer ou se criar. Até onde a casta dominante está disposta a ir para evitar que a esquerda prolifere, nós já vimos. Os gritos de dor dos torturados pela ditadura de 1964 ainda ecoam em porões abandonados. E 1964 é apenas um exemplo do que tem sido uma constante histórica”. 

sábado, 7 de abril de 2018

Uma ideia

Nunca duvidei de que prenderiam Lula. Era questão de tempo. Levando-se em conta o ataque de décadas contra ele, demoraram. É que quiseram dar um ar de legalidade e de civilidade aos preconceitos e ao ódio que têm.

Claro que não concordo com as estratégias sujas deles, embora esteja por demais evidente que obtiveram sucesso. Isso prova que o êxito, dependendo do que o causa, depõe contra os bem-sucedidos.

O impedimento de Dilma, o acordo entre judiciário, imprensa e meios de comunicação, a prisão de Lula... Mas não se iludam: a elite perniciosa que o Brasil tem só vai sossegar quando Lula morrer. Por causa do fanatismo dessa elite, ele vai morrer no cárcere. Aí, sim, o plano deles terá recebido o que querem.

Haverá júbilo entre eles. Serão estrepitosos (assim como estão sendo agora). Talvez coloram as ruas vestidos com camiseta da CBF; alegarão patriotismo, terão orgulho em dizer que fizeram tudo pelo bem do Brasil. Sabemos que é para o bem deles, e, no caso desse pessoal, o bem deles implica impedir que aqueles que não são do time deles possam ter algo. Quem não é do time deles tem de ser erradicado, assim como vão erradicar Lula.

Em discurso realizado hoje, ele disse: “Eu vou sair de lá [da prisão] de cabeça erguida e de peito estufado”. Não acredito que ele vá sair vivo do cárcere. Não se trata de exercício barato de adivinhação nem de pessimismo de minha parte. Para afirmar isso, levo em conta o que a direita tem feito contra o Lula. Não vão deixá-lo sair vivo da prisão.

Mas ele mesmo se definiu, no mesmo discurso de hoje: “Eu não sou um ser humano, sou uma ideia”. Isso, sim, não há direita que mate. Nem a Globo nem a Veja nem o judiciário são capazes de matar a ideia de um Brasil para todos. Ela está em mim, ela está em você. Nós somos transitórios, Lula é transitório. A ideia, não. Ela já existia antes de nós, antes do Lula; ela existe, vai continuar existindo.

O corpo de Lula vai ficar na prisão. A história escancara o que fazem com o corpo de quem tem uma ideia: encarceram, torturam, matam. Mas o corpo que expressou uma ideia não ficou sozinho. A multidão de corpos se faz num mesmo espaço, num mesmo tempo. A multidão de ideias não depende do mesmo instante nem do mesmo local para existir. Vez ou outra, nossos corpos podem estar juntos. Mesmo quando não estiverem, mesmo quando eu tiver ido embora, mesmo quando você tiver ido embora, a ideia de um país que é também dos pobres vai existir. Isso independe de mim, de você, do Lula e das sacanagens da direita.

Uma ideia, a princípio, pode parecer vaga, etérea, imprecisa. Não é. Uma ideia é o auge do corpo; depois que ela sai da cabeça, não pode ser aprisionada. Engana-se quem pensa que apagar um corpo é apagar o pensamento. Nesse percurso, a direita ainda fará várias vítimas. Mas isso não impede nem vai impedir estes nossos corpos e outros corpos vindouros de disseminarem ideias e sonhos. 

De novo, Reinaldo Azevedo

Sou leitor do Reinaldo Azevedo desde quando ele escrevia para a revista Bravo!. Passado esse tempo, fiquei anos sem ter notícia do jornalista; depois, ele passou a escrever para a Veja, espaço em que se firmou como um dos porta-vozes da direita brasileira. Mesmo eu não concordando com o que ele escrevia para o semanário, era fácil reconhecer que ele escreve bem. Depois que deixou a Veja, Azevedo foi para a Jovem Pan (fácil reconhecer que ele tem voz boa e excelente dicção); tendo saído da emissora, foi para a Band. Nos estúdios do canal, tem sido uma das vozes da razão. Sobre a prisão de Lula, ele mesmo disse que há “um caso claro de perseguição política”.

Acho que entendo Azevedo. Ele é antiLula, nunca escondeu isso. Só que, ao que parece, ele tem honestidade intelectual. No fundo, na leitura que faço, ele não quer dar à esquerda motivos para que ela reclame com razão do que tem sido feito com o Lula. Não que Reinaldo Azevedo tenha mudado a maneira como encara o mundo. Não se trata disso: trata-se, sim, de fazer as coisas de modo que não restasse à esquerda argumentos para rechaçar o julgamento de Lula.

Não há como negar a eficácia do embuste que a direita está aprontando com o Brasil. Lula preso é o que queriam. Nesse aspecto, o sucesso da empreitada é inegável. Só que Reinaldo Azevedo é inteligente. Não mantém o debate em nível rasteiro. Tanto é assim que critica os que concordam com ele mas se expressam com insensatez. Da maneira como tudo foi arranjado, reacenderam a esquerda. Não é o que a direita queria. Não é o que Azevedo queria.

Para assistir ao vídeo em que ele se pronuncia, o link é este: https://bit.ly/2GJ6hKL. Abaixo, transcrição de alguns trechos da fala dele:

“Esses cuidados do Sérgio Moro de não usar algema, dar o benefício de se entregar... Puro fru-fru para disfarçar a truculência da decisão. Obviamente uma decisão coordenada entre os três desembargadores da 8ª turma e o Sérgio Moro.

“Cada vez mais convencido de que estamos lidando com fanáticos, porque não dão ao Lula nem o direito a recurso a que ele tem direito. Aí realmente é querer deixar claro o seguinte: nós fazemos nesse país o que bem entendemos. Infelizmente, não há direita liberal no Brasil, a direita no Brasil hoje é a direita chucra, com raras exceções.

“Sabe qual é o problema da direita brasileira? Ela odeia gente de língua presa, ela odeia gente de nove dedos, ela odeia gente de origem operária. Ah, não, porque ele roubou! Mentira. Mentira porque está cercada de outros ladrões.

Uma direita que não respeita direitos constitucionais, uma direita que não respeita a lei, uma direita que não respeita direitos individuais, uma direita que permite que a justiça se comporte como o poder absoluto, insisto, negando a um condenado a ter um recurso a que ele tem direito, independentemente do conteúdo da condenação, se justo ou injusto, isso não é direita liberal. Isso é no mínimo direita ‘fascistoide’. Porque aí a questão é a seguinte: já que nós não conseguimos nos impor eleitoralmente, então vamos tirar de circulação aquele que se impõe”. 

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Gratto, Muylaert

Hoje pela manhã, recebi via whatsapp um vídeo que tem narração de um texto [1] atribuído a Herton Gustavo Gratto. À medida que o texto vai sendo lido, belas imagens completam o trabalho. Eu nunca tinha ouvido falar de Herton Gustavo Gratto. Conferi o perfil dele no Facebook. O texto que recebi pela manhã foi escrito por ele; está na linha do tempo do ator, dramaturgo, poeta, roteirista e compositor, segundo identificação fornecida por ele.

No texto, o eu lírico é de uma pessoa de classe média ou de classe alta que assume o discurso de ataque contra o ex-presidente Lula não pelos erros dele, mas pelos acertos. Para muitos, não é paradoxal criticar alguém pelos acertos. Tais acertos deram alguma possibilidade de ascensão intelectual e financeira a quem não tinha contexto favorável para exercer a inteligência. Isso, estranhamente, incomoda muitos que têm dinheiro (ou pensam que têm).

O tom do texto de Herton Gustavo Gratto acabou me remetendo ao filme Que horas ela volta?, de 2015, dirigido por Anna Muylaert, que também é a roteirista. Jéssica (interpretada por Camila Márdila), personagem do filme de Muylaert, é encarnação ou personificação dos atacados no eu lírico do poema de Gratto. Ou, seguindo linha cronológica, o texto de Gratto é a transformação em verso do roteiro da diretora.

O filme não menciona nomes de políticos, mesmo deixando claro que a história se passa num período em que, graças às políticas públicas implantadas pelo PT, o viciado cenário social brasileiro, governado há séculos pela “elite da rapina” (valendo-me de expressão do Jessé Souza), deu oportunidade de conquistas financeiras e intelectuais a pobres.

No livro Cheiro de goiaba, Plinio Apuleyo Mendoza pergunta a Gabriel García Márquez: “Que tipo de governo você desejaria para o seu país?”. A resposta do escritor é simples: “Qualquer governo que faço os pobres felizes. Imagine!” [2].

Lula fez com que os pobres percebessem em dimensão inédita que o país é deles também e que eles também têm o direito de ser felizes. Tanto o filme de Muylaert quanto o texto de Gratto escancaram que há uma parte da elite que se ressente com a felicidade do outro se esse outro for pobre. Até o Reinaldo Azevedo admite que “é evidente que Lula está sendo vítima de um processo de exceção e de procedimentos que agridem o direito de defesa” [3]. Uma elite que faz maracutaias para que as riquezas do país sejam somente dela não vai garantir a um ex-metalúrgico barbudo, de dicção ruim e com quatro dedos numa das mãos o direito de defesa.
_____

[1] Disponível em https://bit.ly/2ErGSmG. Acesso em 06/04/2018.

[2] MÁRQUEZ, García Gabriel. Cheiro de goiaba: conversas com Plinio Apuleyo Mendoza. Tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro. Record. 1993. Pág. 113.

[3] Disponível em https://bit.ly/2q8oafG. Acesso em 06/04/2018. 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

A morte da política ou a política da morte

Em 2011, quando Lula teve câncer, houve postagens em que se desejou a morte dele. Após a reeleição de Dilma, dentre outras atitudes, em adesivos para carros, pegaram a imagem dela e a colocaram, com as pernas abertas, no lugar em que a bomba é colocada para abastecimento do carro. Recentemente, eu me deparei com postagens em que pediram a morte de Temer, que, recentemente, foi internado. É assim que parte do Brasil faz “política”. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O BRASIL QUE ODEIA

A Folha de S.Paulo noticiou ontem que Aécio teria debochado de Dilma após o mal-estar que ela sentiu depois do debate promovido pelo SBT. Em conversa com Marina Silva, o tucano teria dito: “Deu o desespero. Viu que ela passou mal?”. Isso não surpreende. O mundo está cheio de pessoas que debocham, por exemplo, de tombos ou que torcem para que a doença de alguém se agrave. Lembro-me de que quando o Lula foi diagnosticado com câncer, houve quem publicasse em blogues desejar a morte dele.

Se comparado com o do médico Milton Pires, do Rio Grande do Sul, o comentário de Aécio soa como inocente trecho de contos de fadas: Pires, sabedor de que Dilma tivera um mal-estar depois do debate, postou no Facebook: “Tá se sentindo mal? A pressão baixou? Chama um médico cubano, sua grande filha da puta!”. Como era de se esperar, a postagem obteve muitas curtidas. Segundo o Pragmatismo Político, Pires é funcionário da prefeitura de Porto Alegre. O comentário postado pelo médico mostra o nível que tem havido no “debate”. 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

UM OLHAR SOBRE O BRASIL RECENTE


A editora Geração tem feito um louvável trabalho de cidadania, publicando livros que desmascaram os engodos e preconceitos dos adeptos do neoliberalismo. É da Geração, por exemplo, o imprescindível “A privataria tucana”, escrito por Amaury Ribeiro Jr. O autor disseca a chamada Era das Privatizações, capitaneada por FHC e José Serra. Nem é preciso dizer que o livro não recebeu a devida atenção dos gigantes da mídia.

Prosseguindo em sua corajosa postura, a Geração também lançou “Dez anos que abalaram o Brasil. E o futuro?”, de 2013, escrito por João Sicsú, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A obra é uma radiografia de o quanto o Brasil melhorou desde o primeiro mandato de Lula. Sicsú é contundente não pelo tom incisivo, mas pelos dados acachapantes que apresenta. Olhando o passado, o autor arrisca um futuro.

Apesar das previsões que faz, o livro, conforme o que o próprio Sicsú escreve, é um registro histórico no sentido de que houve a preocupação maior em registrar os fatos, os dados, e não a versão interesseira destes, divulgada diariamente pelo que o autor chama de barões da mídia. Mesmo em não se confirmando as previsões de Sicsú, “Dez anos que abalaram o Brasil. E o futuro?” é um belo documento de um Brasil que deu certo, mas que é perversamente ignorado, todos os dias, pelos meios de comunicação poderosos.

O livro é escrito com didatismo e com incisiva simplicidade; não tergiversa ao discorrer sobre o preconceito com relação aos milhões de pobres que passaram a ser consumidores nos governos de Lula e de Dilma: “Os novos trabalhadores são socialmente discriminados. São olhados com desconfiança quando adentram os aeroportos com malas de baixa qualidade e com sacolas plásticas nas mãos. Os barões da comunicação estimulam a discriminação quando descrevem seus representantes como usuários de roupas vulgares, que não têm o bom gosto dos ricos”.

Trabalhos como o de Sicsú são históricos não somente por mostrar o que o governo petista fez de bom desde quando assumiu o poder, não somente por oferecer uma possibilidade outra que não seja a que é disseminada pelos conglomerados de mídia. O livro, ainda que essa não tenha sido a intenção do autor, é um tributo não somente ao PT, mas ao povão brasileiro. Um povão que teve sua chance, que tem aprendido que também são de seu direito as riquezas do país. 

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

ELEIÇÕES 2010

Apesar dos poderosos Globo e Veja, Dilma Rousseff foi eleita presidente do Brasil. Com a eleição, Lula confirma sua força: seus índices de popularidade continuam altos e ele consegue eleger sua candidata. Como se não bastasse, é a primeira vez no Brasil que um presidente eleito pelo voto popular faz seu sucessor.

Em seu primeiro discurso após a confirmação de sua vitória, Dilma Rousseff disse que é desejo dela estender a mão para opositores políticos. Serra, em contrapartida, durante breve pronunciamento que fez após estar ciente do resultado da eleição, não abandonou o tom belicista da campanha.

O candidato do PSDB disse que não estava dando um adeus, mas um até-logo. Ainda não se sabe com certeza se com isso Serra queria dizer que é desejo seu disputar a presidência novamente. Mas ainda que seja, Aécio Neves já é apontado como forte candidato do partido nas próximas eleições para presidente.