segunda-feira, 27 de julho de 2020

Meus livros na Amazon

Pessoas, meus livros estão à venda também na Amazon. Caso alguém aí esteja a fim de conferi-los, é só clicar aqui

terça-feira, 14 de julho de 2020

Flavio Sousa, o corajoso

Em nome da clareza, é necessário eu dizer que trabalhei no Sistema Clube de Rádio por quinze anos. A relação entre mim e eles era estritamente profissional. Nunca me envolvi com campanhas políticas das quais participava o dono da emissora, nunca pedi a ninguém que votasse nele nem nunca votei nele, mesmo quando ele reunia os funcionários pedindo apoio para as candidaturas dele; além do mais, sei que ele e que a família dele não precisam do meu voto. Tanto é assim que têm longa carreira política sem meu apoio. Também nunca votei no outro grupo político local; nenhum dos grupos faz o que considero política; obviamente, sei que esse outro pessoal também não precisa de voto meu. Isso não que dizer que o dono do Sistema Clube de Rádio estava errado em pedir que os funcionários da emissora votassem nele. Comento isso para ilustrar que minha convivência com a direção da rádio sempre ficou no campo profissional. Fiz meu trabalho da melhor maneira que pude (o que não quer dizer que eles gostaram do que fiz); não estando mais na emissora, não fiquei devendo favores de nenhuma natureza para eles (pois nunca os pedi) nem eles ficaram me devendo favores de nenhuma natureza (pois nunca me pediram).

Só hoje, no começo da noite, fiquei sabendo do episódio ocorrido com o Flavio Sousa, locutor, repórter e redator do Sistema Clube de Rádio. Num programa da emissora, Flavio criticou a elite dos Patos de Minas. Por causa disso, ele não mais fará comentários na atração, dedicada, segundo o que me foi informado, a debates. Enquanto escrevo esta nota, o locutor segue trabalhando na empresa como repórter e como leitor de notícia.

Nada é surpreendente nessa história. Nos primeiros contatos que tive com o Flavio, ele havia me procurado para que eu ministrasse para ele aulas, acho, de português. Na época, ele era estudante de jornalismo ou estava prestes a começar o curso. Pensei comigo: “Esse tá começando bem, pois está preocupado com o bem falar e o bem escrever”. Essas aulas duraram pouco tempo, o que não fez com que eu perdesse contato com o Flavio. Não acompanho o trabalho dele no rádio por eu não mais escutar nenhuma das emissoras locais há um bom tempo. Do Flavio, acompanho o que ele tem escrito, lendo o que é publicado em redes sociais, seja uma opinião, seja um artigo, seja um conto, seja um poema. Flavio, além de radialista, dedica-se a escrever ficção, tendo já publicado livro.

A história entre ele, o Sistema Clube de Rádio e a elite local não surpreende porque a opinião do Flavio, bem sei, foi expressão do pensamento dele. Ele não estava fazendo um personagem que se dedica a ter audiência a qualquer custo. O que Flavio disse diante do microfone da emissora é expressão do que ele é, não uma expressão de atitude sensacionalista. A reação da rádio não surpreende porque a mentalidade dos que a dirigem é expressão do que pensa a elite local, do que pensa a elite brasileira, uma elite conservadora que deseja manter às custas dos pobres os privilégios (não merecidos) que vêm de séculos (a quem se interessar pelo tema, indico Jessé Souza ou Darcy Ribeiro).

Flavio não disse nada demais. Contudo, o que ele disse é gigantescamente necessário. Ele fez um contraponto ao discurso da elite. Ora, ela, a elite, já tem todos os espaços para apresentar o que pensa e o que (não) faz. Os pobres não têm recursos nem estrutura técnica para que a voz deles chegue a mais pessoas. A dor deles não aparece nos jornais, valendo-me eu de paráfrase de canção do Chico Buarque, o qual, aliás, não raro, é execrado pela elite que o Flavio criticou.

A direção da rádio divulgou nota, também reveladora e nada surpreendente. A primeira coisa que chama a atenção na nota que divulgaram é o cuidado que eles não tiveram com o português (cuidado esse que o Flavio tem). No que a emissora divulgou há coisas como “houveram excessos”. Contudo, o português incorreto é o problema menor da nota; ela é sintoma do conservadorismo da elite brasileira, que, travestida de bom-mocismo, apresenta o que chama de pluralidade de ideias, quando tal pluralidade não há. Esse, sim, é o grande problema da nota que a rádio divulgou. (Os problemas de português seriam resolvidos se um revisor tivesse conferido o texto.)

Diz a nota deles sobre o comentário que o Flavio fizera: “(...) A direção da Rádio Clube reitera que não se trata de opinião da emissora, tratando-se de livre manifestação do pensamento do profissional, sempre permitida por essa empresa em toda sua história, e em especial neste programa, criado para dar espaço a todas as vertentes de pensamentos. Entretanto entendemos que houveram [sic] excessos e palavras mal colocadas, que acabaram ofendendo pessoas, principalmente ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local, a quem a Rádio Clube pede desculpas”.

A emissora diz haver nos microfones dela “espaço a todas as vertentes de pensamentos”, mas alega ter havido “excessos e palavras mal colocadas” por parte do Flavio. Em essência, o que Flavio disse foi que a elite não está nem aí se os pobres não podem pagar por um exame de detecção da covid-19 e que a elite não dá a mínima se os pobres não podem se dar o luxo de se refugiarem contra a epidemia em espaços milionários. Por fim, Flavio disse que uma elite burra pode servir de “púlpito para candidato burro e despreparado”.

A nota da emissora menciona que o discurso do Flavio ofendeu pessoas “ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local”. Não bastassem o bairrismo e a pieguice do trecho, o que Flavio disse não é agressão pessoal; em nenhum momento ele faz referência a nome(s). Ele diz que uma elite burra cai em balela de candidato burro. Ora, pobre burro também cai em balela de candidato burro. Os que se sentiram ofendidos poderiam alegar, talvez, que o Flavio só criticou a elite burra, nada tendo sido dito sobre os pobres burros. Que a emissora, então, apresentasse um contraponto à opinião do Flavio. Não é isso o que ocorreu. Em vez de apresentar o contraponto, preferiram calar as opiniões do jornalista sob o argumento de que ele foi ofensivo.

Ainda sobre a “livre manifestação do pensamento” alegada pela emissora: quando lá trabalhei, o dono do meio de comunicação era candidato a prefeito de Patos de Minas. Ele concederia uma coletiva para jornais, rádios e TVs. Fui escalado para fazer pergunta em nome da Rádio Clube FM (salvo engano, hoje é chamada apenas de 99FM, mas posso estar enganado quanto a isso). Faltando mais ou menos uma hora para o início da coletiva (não lembro mais onde ela ocorreu), um dos funcionários do Sistema Clube de Rádio, envolvido com a campanha do político e superior a mim na hierarquia da firma, pediu-me que eu mostrasse a ele a pergunta que eu faria durante a coletiva. Depois de a ler, ele disse: “Pergunta outra coisa”. A pergunta era: “Já foi dito que os políticos poderiam ser melhores se mantivessem o hábito da leitura. O que o senhor tem lido?”.

A pergunta era simples; ademais, a leitura ou a falta dela, em si mesmas, nada garantem. O sujeito pode ser leitor e ser um péssimo político, bem como pode nada ler e ser um excelente político. Ainda assim, fui “orientado” a não fazer a pergunta que eu preparara. Não a fiz. Não me recordo do que perguntei, mas como não me remanejaram (o que fizeram com o Flavio), devo ter perguntado algo protocolar, algo que não ofendesse pessoas “ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local”.

A opinião do Flavio não foi ofensiva; foi uma opinião sensata. Sobretudo, ele teve uma admirável coragem, por ter dito o que disse no espaço em que estava. Uma rádio pode adotar a política que quiser, pode manifestar o espectro ideológico que quiser. Sei disso. O que critico é a postura de quem se declara “um espaço democrático da comunidade”. É democrático até o momento em que verdades sobre a elite não sejam ditas. Certos espaços democráticos da comunidade não estão interessados em quem dá voz às agruras dos pobres. 

Meu novo livro à venda

Lancei recentemente meu oitavo livro, O fim do Brasil. Em essência, é um livro político, reflexo do modo como encaro o país. Se você acompanha meu trabalho, eu gostaria de contar com sua leitura. O livro pode ser adquirido aqui

Família

Filho 01.
Filho 02.
Filho 03.

Pai 00. 

sábado, 11 de julho de 2020

Ler e olhar

Teófilo Arvelos, estudante e autor dos livros Parnaso e Lágrima, enviou-me texto de prova da Unicamp. O texto é de uma autora que eu não conhecia — Elena Ferrante. Esse nome é um pseudônimo. Segundo o que li, além de escritora, ela seria tradutora.

Ainda não conheço os livros escritos por ela. Preciso ir atrás deles. Depois de ler o texto que o Teófilo me enviou, acessei o site (o necessário e brilhante The Guardian) de que o escrito havia sido retirado. Na prova da universidade, o texto não estava na íntegra. Eu já havia gostado da versão editada; quando a li sem cortes, eu soube que seria necessário me dedicar a mais coisas de Elena Ferrante. Li todos os títulos que ela publicou na coluna que ela tinha no Guardian.

No site, fosse eu escrever sobre os textos dela em termos de gênero, eu diria serem crônicas, no sentido mais brasileiro que se possa dar ao termo, a boa e velha crônica ao modo dos grandes cronistas brasileiros do século XX. Ou, quem sabe, os textos de Elena Ferrante possam ser considerados apontamentos. Mas a questão dos gêneros textuais não me preocupa.

O material dela no jornal The Guardian é extremamente pessoal, mas transformado em algo universal a partir da linguagem, a qual é tema de um texto que alega exatamente o pensamento de que a universalidade está na linguagem, não nas circunstâncias ou nos estereótipos. A escritora não está preocupada em soar profunda, mas em burilar a linguagem, ato este que é a essência do fazer literário.

Metalinguagem, amor, sexo, amizade e questões femininas estão nos textos de Elena Ferrante. Ela escreve de modo comedido, elegante. Há um charme cerebral, altivo. Os textos da autora são a ponta do iceberg do cotidiano. Lemos o trivial; todavia, um trivial que nos deixa entrever suas complexidades a partir do depurado estilo da escritora.

Isso, por si, é motivo para que se confira os textos dela no Guardian. Só que o espaço merece ser frequentado devido a outra razão também, pois os textos de Elena Ferrante são ilustrados por uma artista chamada Andrea Ucini. Os desenhos dela são obras de arte em si; eles podem prescindir dos textos da escritora, embora, é claro, tenham com eles ligações íntimas. Elena Ferrante e Andrea Ucini nos ofertam felicidade em palavras e em imagens. 

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Meu novo livro

Meu novo livro, O fim do Brasil, está à venda. Para comprá-lo, é só clicar aqui.


Desejo

Que tenha ele vida
longa,
pródiga
saudável.

Mesmo de corpos 
que as negligenciam,
as máscaras caem. 

terça-feira, 7 de julho de 2020

Meu novo livro

Haicai 79

Segues acrítico, 
mas o advogado do “messias” 
escondia “cítrico”.

Haicai 78

Preso, o Queiroz,
mas não é quem vai
desatar os nós.

Haicai 77

Prossegue a intenção:
desde janeiro de 2019, sem
ministro da educação.

Revolução

O método de aprendizagem mais inovador é o estudo. O estudo é o mais inovador método de ensino.

domingo, 28 de junho de 2020

Ninguém sabe que estou aqui

Ninguém Sabe que Estou aqui [Nadie sabe que estoy aquí] (2020), realização da Netflix, com direção de Gaspar Antillo e roteiro dele, de Enrique Videla e de Josefina Fernandez, é um filme que lida com a questão de que a pessoa pode abandonar o talento, mas o talento não abandona a pessoa. Isso, por si, já seria instigante. Todavia, o filme lida também com o acerto de contas que, mais cedo ou mais tarde, tem-se de fazer com o passado.

Primeiro longa-metragem do diretor, a produção conta a história de Memo Garrido [Jorge Garcia], que vive recluso em lugarejo ao sul do Chile. Morando com um tio, Memo leva os dias criando e tosquiando ovelhas, comercializando a carne delas. Ensimesmado e aparentemente rude, ele tem sobre os ombros o peso de um dom não exercido e a lembrança amarga de evento ocorrido na meninice.

Memo nasceu para cantar. Quando ainda era criança, foi vítima de negociata entre o pai dele e os executivos de uma gravadora. A princípio, o que era para ser uma chance de Memo ser o que é, ou seja, o que era para ser uma chance de ele exercer o talento que tem, torna-se expressão do como funcionam as engrenagens do entretenimento, as quais são reflexo do “sistema de erros” (expressão do Drummond) que é o mundo, e de como elas podem abalar o edifício da psique.

A vida de Memo é pesada — metafórica e literalmente. Angustiado, dá vazão, de modo consciente e inconsciente, ao artista que ele é e que precisa vir à tona, seja como for. Ele pinta as unhas, costura roupas para si, devaneia, sonha. Tem vida repetitiva, fazendo um trabalho que não quer, concebendo na imaginação um mundo para o qual ele tem talento, mas cujas portas lhe foram fechadas em função de preconceitos quanto à aparência dele.

Talento não exercido e passado mal resolvido curvam o grande corpo de Memo, corpanzil que só não é maior do que o talento que tem para cantar. É como se o corpo tivesse mesmo de ser grande para abarcar tudo o que Memo é, toda a habilidade dele para o canto e tudo o que ele cala, tudo o que ele sofre. Tanto é assim, que numa simbólica cena que rende homenagem ao realismo mágico, quando Memo não mais está conseguindo guardar em si o que está pedindo passagem em cada poro, a câmera mostra um ser humano que não tem outra saída a não ser deixar jorrar o que ele vinha reprimindo. Repressão hiperbólica requer saída hiperbólica.

Por trás da expressão casmurra dele, há uma delicadeza que somente pode ser percebida por aqueles com sensibilidade o bastante para entenderem ou perceberem que ele é a pessoa certa no lugar errado, um homem maior do que as circunstâncias que ele não consegue mudar. Mesmo não sendo quixotesco, pois os devaneios que tem são a partir de habilidade existente, Memo vive a angústia de não cantar e o peso de quase ninguém saber com exatidão a história por que passou.

O Artur da Távola, na crônica, “Os diferentes”, escreveu: “A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes”. Memo é uma pessoa diferente. Marta [María Paz Grandjean], sobrinha de um comerciante com quem Memo tem contato, deu-se conta disso. 

domingo, 21 de junho de 2020

Mergulho

Eu não me lembrava de quando tinha me visto amar.
Não me lembrava da última vez em que tinha visto amor.
Eu te vi, eu te conheci, eu te senti, eu mergulhei: é mar. 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Haicai 76

Ministro da saúde?!
O mandatário quer é
pobre em ataúde. 

O enfiamento da condecoração

O Olavo de Carvalho já enviou recado para o Bolsonaro, dizendo em que orifício anatômico ele pode enfiar a tal condecoração a ele, Carvalho, concedida. Se ela foi enfiada ou se ainda será (afinal, é ordem advinda de um guru), não se sabe. Carvalho, sobre o qual pesam acusações judiciais, queixou-se de não ter sido ajudado por Bolsonaro quanto a elas, como se o presidente tivesse de ajudar Olavo de Carvalho nos processos que há contra ele. O tom da “revolta” do escritor é movido mais por questões pessoais do que cívicas.

O “filósofo” disse ainda que Bolsonaro “vê bandidos cometendo crimes em flagrante mas não faz nada contra”. Volto à minha tese: até os gambás sabiam que o governo Bolsonaro seria o que está sendo; só um gamo ingênuo e saltitante flanando em verdejantes bosques engoliria a balela da luta contra a corrupção e o engodo de que haveria um modo inovador de fazer política. Olavo de Carvalho, a exemplo de outros, vem agora se dizer decepcionado.

Insisto, volto à questão, reitero, escrevo novamente: é cinismo, seja de quem for, seja de que meio de comunicação for, dizer que era esperado um governo que fosse diferente do que está havendo. Insisto, volto à questão, reitero, escrevo novamente: Bolsonaro não pode ser acusado de estar sendo diferente do que ele sempre deixou claro que já era. Ninguém é ingênuo a ponto de supor que um sujeito como ele faria um governo com teor diverso do que tem havido. O que já existia não deixou de existir. A essência de alguém não se dissolve em função de uma roupa que se veste ou de um cargo que se assume.

Olavo de Carvalho “avisou” Bolsonaro: “Continue inativo, continue covarde e eu derrubo essa merda desse seu governo”. Não sei se haveria nessa fala uma estratégia de Carvalho para que Bolsonaro seja ainda mais truculento (adjetivo brando) do que tem sido ou se, de fato, o “guru” acredita ter o poder de derrubar o presidente. Se for o caso de ele realmente crer que tem o poder de fazer Bolsonaro cair, caso isso ocorra (no que não acredito), não terá sido por causa da atuação de Olavo de Carvalho, que, nesse hipotético cenário, não deixaria de se vangloriar de sua suposta atuação em caso de queda do mandatário.

Moro já foi chamado de comunista. Olavo de Carvalho, pelo menos momentaneamente, está no rol em que está o ex-juiz desde que ele rompeu com Bolsonaro. No futuro, seja por que razão for, Carvalho e Bolsonaro podem voltar a ser amiguinhos se isso for de interesse de ambos. Enquanto isso não ocorre (se é que vai ocorrer), não se sabe do paradeiro da condecoração, que já pode estar nos... anais da política brasileira.

domingo, 10 de maio de 2020

Ruína a caminho

O Brasil de hoje é o cenário propício para os que sempre foram fascistas, ditadores, defensores de tortura e de morte para quem pensa de modo diferente deles. Pessoas assim sempre existiram, não são novidade no espectro do brasileiro. O que mudou no Brasil em tempos recentes foi que essas pessoas agora assumem o que são: pessoas que não toleram arte, ciência, lógica, dados gentes outras. Para justificar a ignorância, valem-se de qualquer coisa (qualquer coisa mesmo).

Os pretextos delas podem variar: deus, patriotismo, família, luta contra a corrupção, luta contra o comunismo (este, suponho, ocupa o panteão dos pretextos; até o Moro já foi chamado de comunista). Tais pretextos são úteis para mascarar a burrice e a falta de humanidade ou para dar a elas um ar de... cidadão de bem. Balela: o que a pessoa defende mesmo é a não humanidade.

A tecnologia é ferramenta dadivosa para essas pessoas, não importa se estejam manejando a burrice alheia, não importa se estejam sendo manejadas. Argumento como o de que a vida vale mais ou de que falta humanidade a essas pessoas são inúteis, pois o pretexto ou a justificativa que inventaram para a crueldade delas são mais expressivos do que qualquer razoabilidade. Ensandecida, uma pessoa assim acredita em qualquer coisa que esteja em concordância com o que ela defende, o que, no fundo, é a extirpação do que ela entende como sendo diferente dela.

Consideram-se cidadãos de bem, mas não há problema em torturar. Por que não? Porque o torturado era o demônio, o proscrito, o infiel, o infiltrado, o não patriota, aquele que veio para tirar deles o que eles edificaram para si. E o que edificaram para si? Um condomínio feito de ilusão, de desinformação, de repúdio contra a ciência e de temor contra a arte. O inimigo, elas mesmas inventam-no. Se investissem contra moinhos de vento, menos mal; o problema é que investem contra seres humanos, pois não têm o bom coração do Quixote.

As justificativas para a maldade que têm tornaram-se nítidas, mas sempre pairaram no espaço brasileiro. O grande problema do Brasil sempre foi a ignorância, ignorância no sentido de desconhecimento, ou, caso prefira, a ignorância no sentido de falta de conhecimento. O que está acontecendo no Brasil hoje é que se vive num país refém da ignorância, que assumiu o palco e, por ser ignorante, vai insistir que a ignorância à qual se agarra é o caminho para se fazer um país que ainda não foi feito, sem perceberam que não foi feito ainda por causa da ignorância, que é tal a ponto de eles não se darem conta de que ignorantes são.

Coisas como luta insana pelo dinheiro, interesse de classe, manutenção de privilégios, nojo de pobre nasceram coladas no Brasil, mas não foram inventadas aqui, embora sempre tenham feito parte do cotidiano brasileiro. Todavia, vale para um país o mesmo que vale para uma pessoa. Há momentos em que a pessoa revela quem é. Geralmente, em momentos de muita turbulência. É aí que o fraco se revela como tal, o torturador como tal, o preconceituoso como tal. O momento do país é de turbulência. Quando mais precisamos da sensatez, mais a ignorância assume o protagonismo. O país se revelou como tal, como sempre foi: um país de ignorantes.

Em grau maior ou menor, todos somos e continuaremos sendo vítimas da ignorância, que está naquele senhor a capinar um lote e naquele magnata indo trabalhar em seu helicóptero. Espertalhões estão dando gargalhadas, contando com endinheirados e com quem tem renda de meio salário mínimo por mês. Os riquíssimos estão se esbaldando. A maioria dos demais estão num inferno.

A solução, se vier, não virá no campo da pessoalidade — os ignorantes não vão deixar de ser ignorantes. Se alguma solução vier, do que duvido, ela virá por intermédio do campo histórico, depois que a nação estiver esfacelada por completo (está a caminho de). Das ruínas, pode ser que surja um país não ignorante, do que duvido. Acredito mesmo que a ignorância de agora, depois  de o país estar um bagaço (está a caminho de), voltará em outros trajes, mas com parte da população lutando pelas mesmas “causas”, empunhando os mesmos pretextos, as velhas desculpas para que haja um país asséptico e para que haja genocídio: deus, patriotismo, família, luta contra a corrupção, luta contra o comunismo... 

No momento, o que há é um território ignorante seguindo a cartilha rumo a uma debacle. Uma “gripezinha” aqui, um “e daí?” ali, um “o exército não matou ninguém” acolá, uma feijoada com dezenas de pessoas reunidas num pequeno recinto e postando em rede social foto de celebração do dia das mães num bairro da cidade... O país foi, é e será vítima da ignorância; um lugar assim é paraíso para canalhas, está condenado à destruição. De joelhos, sem recursos e exaurido, levará a porrada derradeira. O Brasil não leva jeito para fênix. 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Você nem Imagina

O que faz uma obra de arte não é a temática de que ela trata, mas o modo como essa temática, seja ela qual for, é desenvolvida. Essa premissa vale para Você nem Imagina [The Half of It], em cartaz na Netflix.  Direção e roteiro são de Alice Wu. O filme estreou recentemente. 

Há livros que dizem a que vieram logo no primeiro parágrafo (alguns, logo na primeira frase). Alguns filmes dizem a que vieram logo na abertura. Essa premissa vale para Você nem Imagina. De cara, o tom poético, engraçado e irônico que permeia a obra. Nos primeiros segundos, questões filosóficas são trazidas para o universo juvenil.

Leah Lewis interpreta Ellie Chu, sobrenome que funciona como onomatopeia com a qual é atazanada pelos colegas de escola. Ellie tem 17 anos, mora na fictícia Squahamish. É a melhor aluna da turma; perdeu a mãe quando ainda era criança. Mora com o pai, que, a despeito da titulação acadêmica (ele é doutor), não conseguiu o êxito profissional almejado. Para ajudar nas despesas da casa, Ellie faz, mediante pagamento, trabalhos escolares para os colegas de sala.

Em certo dia, é abordada por Paul Munsky (Daniel Diemer), um dos colegas dela; ele quer que ela escreva uma carta para Aster Flores (Alexxis Lemire), em quem ele está interessado, como se fosse ele o autor da carta. (Sim, no momento em que isso é mencionado, é inevitável: o telespectador se lembra do enredo de Cyrano de Bergerac.) Só que Ellie também está interessada em Aster, o que é evidenciado já nas cenas iniciais.

A princípio, Ellie recusa escrever a carta, chegando a evitar encontros com Paul nos corredores da escola. Todavia, uma conta de energia elétrica cujo pagamento está atrasado faz com que ela, por 50 dólares, tope escrever a carta para Aster, como se Paul fosse o autor do libelo amoroso.

É curioso como Você nem Imagina consegue abordar grandes questões existenciais sem deixar de ser um filme com temática adolescente. O roteiro de Alice Wu é hábil ao mostrar a inadequação de Ellie, inteligente demais, mas que ainda não se achou. Também é fascinante como há espaço para que conheçamos Paul, de quem, a princípio, acha-se graça, pelo que ele tem de caricato e de ingênuo, mas que, ao longo da história, vai revelando camadas que vão descortinando o jovem de bom coração que, no fundo, ele é. Paralelamente, tem-se a bela Aster, que é namorada de Trig Carson (Wolfgang Novogratz), ele, sim, um babaca.

Referências literárias e filosóficas, metalinguagem, dramas juvenis, perdas, reflexões sobre a vida, partidas... Você nem Imagina é sobre a vida e o que ela tem de sublime e de ridículo; é sobre o amor e o que ele tem de sublime e de ridículo. Squahamish é qualquer lugar; Ellie Chu, Alter Flores, Paul Munsky e Trig Carson estão nos corredores das escolas mundo afora. Sensível e divertido, Você nem Imagina é poesia, cuja delicadeza conta ainda com a bela direção de fotografia de Greta Zozula. 

O filme de Alice Wu tem o velho e delicioso paradoxo: ao não querer soar grandioso, grandioso ele se torna. Enquanto eu assistia à produção, houve momentos em que me lembrei de Juno (2007), do diretor Jason Reitman (o excelente roteiro é de Diablo Cody). Juno MacGuff, Paulie Bleeker, Ellie Chu e Paul Munsky seriam ótimos amigos. Eu tentaria fazer com que conhecessem Holden Caulfield, de O Apanhador no Campo de Centeio, do J.D. Salinger. (Ah, quando for assistir a Você nem Imagina, não deixe de reparar na bela e potente voz de Leah Lewis.) 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

... Focinho do outro

É fácil saber que Bolsonaro nunca deu a mínima, dentre outras coisas, quando o assunto é corrupção. Ele mesmo, muito antes de ser candidato a presidente, já bradava que sonegava impostos. Não é só. No site Sportlight, em matéria publicada no dia 7 de abril de 2020, o imprescindível Lúcio de Castro informa que houve superfaturamentos do então deputado Jair Bolsonaro em reembolsos da verba de combustível.

Não bastasse, nesse caso trazido à tona por Lúcio de Castro, há outros delitos, como o de que datas de abastecimento no Rio de Janeiro coincidem com a presença de Bolsonaro no Congresso, em Brasília. A cota de combustível a parlamentares impossibilita o abastecimento em cidade na qual o político não esteja. Bolsonaro ter feito isso não surpreende. Um pouquinho só de observação já seria o bastante para que se percebesse que a nova política de que se vangloriava o presidente já ronda o Brasil desde 1500.

Também não surpreende Moro ter dito para a Veja que vai apresentar ao STF provas contra Bolsonaro e ter dito que o governo do capitão nunca priorizou o combate à corrupção. Que a prioridade de Bolsonaro nunca foi combater corrupção, até o Tito, meu cachorro, que diz ter interesse mínimo em política, já sabia. O que chama a atenção é que a Veja, caso não surja outro queridinho da revista, já envia sinais de que Moro pode ser o candidato dela em 2022, mesmo com ele tendo dito para o periódico que não quer pensar em política “neste momento”.

Não há como saber se Moro de fato vai apresentar provas contra Bolsonaro, mesmo tendo aquele sido chamado de mentiroso por este. Não temos acesso aos bastidores, aos acordos, aos assessores, aos contatos tanto de um quanto de outro. Mesmo nesse ambiente nebuloso, o que é nítido é que Moro não é o ser mais preocupado com lisura que há no planeta. As arbitrariedades e ilegalidades que ele tomou como juiz são apenas algumas das evidências de que ele, Moro, é tão indigno de crédito e de confiança quanto Bolsonaro. No tempo em que foi ministro da justiça, Moro fingia não ver os delitos do chefe; agora, vem dizer que apresentará provas contra o presidente. Nem um nem outro pagarão pelos danos ao país. 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Moro e Bolsonaro

Moro e Bolsonaro são da mesma laia. Pertencem a uma elite que se julga superior a quem não está nela e que tem entranhados em si os dois grandes males do Brasil: a ignorância (em qualquer sentido do termo) e a mentalidade escravocrata. Moro e Bolsonaro são farinha do mesmo saco.

A diferença que existe está na superfície. Bolsonaro é atrapalhado, um bufão sem tato, um tosco cujos atos e cujas palavras denunciam o tempo todo o troglodita que ele é. Moro tem o verniz da civilidade, da sofisticação; ele sintetiza o que muitos dos iludidos da classe média e da elite (parte daquela acha que faz parte desta) pensam que ele é: um sujeito refinado, elegante.

A sofisticação de Moro é casca, é pose, são convenções. Em essência, ele é tão boçal, preconceituoso e bobo quanto Bolsonaro. Nenhum dos dois tem fulgor mental nem espírito coletivo. Os dois são adeptos da necropolítica, os dois têm um projeto de Brasil que deve ser somente para os muito ricos, o que os torna, em essência, expressão de uma classe que se julga superior às demais, de tudo fazendo para manter os privilégios que têm não por méritos próprios. 

Os dois são tacanhos, desprezíveis e defendem um Brasil para pouquíssimos, travestidos de conduta ilibada (argh!), de retidão e de combate aos corruptos. Não há nada disso em nenhum deles. Por baixo da pose de um e do destrambelhamento do outro, há dois sujeitos presunçosos, nefastos e elitistas. Não passam de símbolos de uma parte do Brasil que é feia e que se julga iluminada. Moro é um Bolsonaro de fraque. 

"E daí?"

Não lembro se foi o Borges ou o Jung... Um deles escreveu que quando uma pessoa morre, todo o gênero humano perde. Mas, bem sabemos, há pessoas para as quais a vida do outro não importa. Bolsonaro é uma dessas pessoas. Para ele, milhares de mortes por causa da covid-19 são comentadas com uma desrespeitosa declaração, nítido sintoma de falta de empatia, de espírito público; declaração nada condizente com alguém que ocupa o cargo de presidente de um país. No entorno, a claque, subserviente, bajuladora e tão descarada quanto o autor do comentário, riu. Outros patéticos, à distância, riram também. Há uma plateia enorme respondendo a estupidezas em uníssono: “E daí?”. 

Dos modos de matar

Quando, no dia 20 de abril, Bolsonaro foi perguntado sobre o número de mortos na pandemia atual, ele disse que não é coveiro (ele está mais preocupado em blindar os filhos, indicando amigo da família para a polícia federal). Todavia, mesmo não sendo coveiro, apoia torturadores, disse que o erro da ditadura foi não ter matado mais e nega quando há mortes (“o exército não matou ninguém”). Sim, Bolsonaro não é coveiro, mas prefere ignorar que a política também mata. 

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Jogada esperta

Se vivêssemos num país, Bolsonaro e Moro teriam de prestar contas à justiça, depois das declarações dadas por este mais cedo. Sabe-se que nada disso vai ocorrer. Moro chegou a dizer que o presidente trocou o comando da PF para ter acesso a investigações e a relatórios da entidade, o que não é permitido pela legislação. No fim das contas, sabemos que nem Moro nem Bolsonaro nem seus filhos terão de explicar alguma coisa.

Moro interferiu nas eleições, já sabia, antes mesmo delas, das ligações da família Bolsonaro com milícias, já sabia dos elogios a torturas... Uma vez como ministro, fingiu não saber de Queiroz, fingiu não saber da milícia digital perpetrada por um dos filhos de Bolsonaro, fingiu não saber dos inúmeros delitos do presidente (já mencionados por mim em outro texto). Não era preciso ser gênio para saber que Bolsonaro seria um desastre como mandatário. Mesmo assim, Moro embarcou. Ainda que não seja candidato a presidente nas próximas eleições presidenciais, saiu-se bem ao deixar o cargo de ministro. 

A maioria da população não levará em conta que ele é um dos responsáveis pelo engodo e pela ascensão do bolsonarismo, pois essa mesma maioria é pró-Moro exatamente por isso. Em lance bem jogado, desvencilha-se, pelo menos por enquanto, do que Bolsonaro representa. A noção de tempo é perfeita: a saída de Moro não soa precipitada nem dá a entender que veio tarde. Os mentores dele sabem o que fazem. 

Se Moro for candidato a presidente, conta, desde já, com o apoio dos demais cínicos (agora dizem terem se arrependido do voto para presidente), que fingiram não saber o tipo de gente que Bolsonaro é. Moro é um desses cínicos, mas não é bobo. Espertalhão, sendo ou não sendo candidato a presidente, saiu como o bom mocinho da história, o que ele nunca foi. 

terça-feira, 21 de abril de 2020

Sobre Pablo Villaça

Ontem, terminei o curso Forma e Estilo Cinematográficos, ofertado pelo crítico de cinema Pablo Villaça. Foi a primeira vez que ele ministrou as aulas online. São dez, cada uma delas com duração de duas horas. O curso aborda os aspectos técnicos que estão a serviço do que o cinema transmite. Embora, evidentemente, ele seja uma arte que pode ser apreciada por leigos, o curso de Pablo Villaça fornece ferramentas que possibilitam uma apreciação mais abrangente do que ocorre no universo de um filme.

Questões como forma e estilo, a diferença entre o gosto pessoal e o julgamento crítico, os elementos da narrativa cinematográfica, o cenário, o figurino e a maquiagem, a luz, a fotografia, a montagem e o som são debatidas. Enquanto vai analisando com olhar de lupa o que é peculiar de cada uma dessas áreas do cinema, Pablo Villaça ilustra as explicações com cenas extraídas de mais de uma centena de trechos de filmes, pertencentes a épocas e a gêneros variados.

O curso contagia não somente pelo vasto conhecimento que Pablo Villaça tem de cinema, não somente em virtude da paixão que ele tem por essa arte, mas também por uma faceta que o profissional tem e que eu não conhecia: ele é um excelente professor. É didático ao explicar, simplifica sem tornar as coisas simplórias e não tem afetação no tom de que se vale. Não bastasse, proporciona, em doses agradáveis, espontaneidade e humor.  

Durante o curso, respondendo a mensagem enviada por mim, Pablo disse que antes de ser crítico de cinema, é escritor. Sobre a crítica tal qual escrita por ele, digo: o patamar a que Pablo elevou a crítica cinematográfica faz com que ela se torne um novo gênero (que ainda não sei nomear), sem, ao mesmo tempo, deixar de ser crítica cinematográfica. Como exemplo, cito o primeiro parágrafo do texto que Pablo Villaça escreveu sobre o filme A Chegada, do diretor Denis Villeneuve:

“Há amores tão imensos que insistimos em vivê-los mesmo sabendo que a experiência resultará inevitavelmente em dor. Não há razão que explique nossa decisão de abraçá-los e o fascinante é que, mesmo que houvesse, não a ouviríamos. São amores tão fortes que parecem existir fora do tempo: não nos lembramos de como éramos antes deles e nem conseguimos nos imaginar como seríamos (ou seremos) depois”.

O sentido do parágrafo é amplificado quando já sabemos o enredo do filme; todavia, mesmo sem saber do que trata A Chegada, o trecho que separei existe por si, é belo por si, independe do filme a que se refere. Nesse sentido, é que advogo o pensamento de que a contribuição de Pablo Villaça para a crítica cinematográfica vai além dela como gênero textual (o que, em si, já é uma enorme e formidável contribuição para a cultura). Ele adentra um território que não é o da crítica, ou, para dizer de um jeito melhor, um território que não é unicamente o da crítica, que, se escrita por ele, pode ter humor, análise detalhada, aguda percepção psicológica ou lirismo em textos que primam por uma linguagem cujo estilo é de elegância rara, literária. (Vale lembrar que além de escrever sobre cinema, Pablo Villaça, em suas redes sociais, publica textos sobre política e sobre sua vida pessoal.)

A primeira vez que escutei falar do Pablo Villaça, quem o mencionou foi o Adriano, um colega de trabalho que tive e que já acompanhava o que o crítico escrevia.  Não lembro há quantos anos isso se deu; do que sei, é que desde então venho acompanhando o legado que Pablo Villaça tem produzido. Quando ele anunciou que faria uma versão online do curso Forma e Estilo Cinematográficos, eu logo me matriculei. O que houve de ruim no curso é que ele terminou. 

sábado, 18 de abril de 2020

Sobre literatura e fotografia

O NAC, Núcleo de Arte e Cultura do Unipam (Patos de Minas), enviou-me algumas perguntas relativas a meu trabalho literário e a meu trabalho fotográfico, pedindo-me que gravasse um vídeo respondendo aos questionamentos. Ei-lo.

Cinco cópias — devidamente assinadas

O burocrata seria útil se ele se esquecesse dos colegas de trabalho, se ele não obrigasse os outros a perder tempo com o que ele inventa por não ser capaz de inventar outra coisa. O burocrata é o defensor de uma linha de produção em cuja essência só há repetição de algo que não faz a menor falta para o andamento do mundo trabalhista. O universo da burocracia não aceita que, muitas vezes, a melhor maneira de fazer com que um trabalhador produza é deixá-lo em paz. 

Permanecesse o defensor da burocracia com suas inutilidades, quieto em seu canto com seus carimbos, seus formulários e suas assinaturas, não haveria problema. Só que não: o burocrata impede que o outro seja o melhor de si, o que torna o burocrata um entrave que julga estar contribuindo para o progresso, o bem-estar, a organização. O burocrata é um empecilho para o crescimento do que o outro tem de melhor, por obrigar o outro a ficar envolvido com tarefas repetitivas, inócuas, imbecis, sem sentido nem lógica. 

O burocrata é, antes de tudo, um ser que não reflete sobre o que ele poderia fazer para não infligir ao próximo um tormento. Feliz o que não tem um burocrata por perto no local de trabalho. O burocrata é torpe porque dá a seu inútil trabalho um ar de produtividade, de quem arregaça as mangas, quando na verdade é o mentor de engrenagens que atravancam o bem-estar de quem trabalha. Qualquer ambiente de trabalho seria mais produtivo sem a burocracia. Nem as frequentes e inúteis reuniões de que o mundo corporativo não abre mão são tão corrosivas quanto a burocracia. 

Só um espírito destituído de imaginação e sem senso de humor é capaz de enxergar utilidade no que é um fardo oneroso, consumidor de tempo que poderia ser usado em algo que preste. A burocracia é a sistematização do tédio e da burrice, a negação de tudo o que é engenho, inspiração, colaboração, fulgor, senso estético. Em sua sordidez, faz pose de imprescindível, quando na verdade não passa de algema disfarçada de eficácia. Os grilhões da burocracia são feitos de papel, de assinaturas, de carimbos, de refeituras de um mesmo trabalho, comprovações do que já está comprovado. O defensor da burocracia tolhe, escraviza, mutila, mata. 

segunda-feira, 6 de abril de 2020

“Grande” Brasil: Verezas

O presidente tem mais um ex-apoiador, o Carlos Vereza. Mais um para o time dos cínicos. Insisto, repito, reitero: o presidente tem de ser acusado de muita coisa, mas não pode ser acusado de estar sendo o que ele não era. Nada nele mudou desde quando ele era deputado. As circunstâncias mudaram; ele, não. Hoje, ele é mais nocivo não porque seja diverso daquele que um dia foi, mas porque tem mais poder do que tinha quando não ocupava a presidência.

Se houve alguma mudança, terá sido o recrudescimento de características que ele já deixava claras: empáfia, ignorância, desdém pela vida, elogio à violência, odes a torturadores, negação da ciência, apoio a milicianos... Não faz o menor sentido dizer-se decepcionado com o presidente, pela simples razão de que nada nele mudou. As características que mencionei são exatamente as razões pelas quais parte do eleitorado votou nele e sempre vai apoiá-lo. Vereza e malta não se dignam nem de serem genuínos. Vereza e súcia não têm o pretexto de que não sabiam que o presidente era como é. Ele mesmo já divulgava o que é muito antes de ser candidato ao cargo que hoje ocupa. Ele jamais posou de cândida ovelhinha. 

Há eleitores do presidente que o apoiam pelas razões que mencionei acima, ou seja, que o apoiam por ele defender a morte de quem tem uma visão de mundo diferente da dele (“o erro da ditadura foi não ter matado mais”) ou por ele ter desprezo pela vida do outro (“o exército não matou ninguém”). Embora eu não concorde com quem apoia ditaduras, homenageia milicianos e faz elogio da tortura, coisas que já eram sabidas antes de o presidente ser eleito, pelo menos os que são pró-morte alheia assumem que são: não ficam com essa balela de “ah, eu me decepcionei com o presidente” ou algo do tipo “eu pensei que o cargo fosse conferir a ele alguma polidez”... 

As arbitrariedades presidenciais neste cenário de covid-19 são apenas o preâmbulo de outras crueldades, desumanidades e inconsequências que estão por vir. Tudo ainda vai piorar muito — ou, levando-se em conta os que não negam que votaram no presidente não apesar de ele ser quem sempre foi, mas exatamente por ele ser quem sempre foi, tudo ainda vai melhorar muito. No time dos que creem em melhora está um Junior Durski, por exemplo, que, pelo menos, não vem com a lenga-lenga de ter suposto que a conduta do chefe do executivo seria diferente. Esperar que o presidente fosse diferente do que está sendo seria como esperar que um monte de cascalho se transformasse numa macieira — ou vice-versa. 

Não faz sentido dizer-se decepcionado com quem nada mudou. Não cabe a desculpa de que o caráter presidencial não fosse conhecido. Todo mundo já sabia do destempero, do gosto pela violência, da falta de espírito, da negação da história. Nunca houve da parte do mandatário a menor tentativa em negar esse tipo de coisa. É uma infâmia dizer-se decepcionado com o presidente. 

sábado, 4 de abril de 2020

Jejum

As classes

Diz o professor:
“A classe dos professores é desunida”.

Diz o músico:
“A classe dos músicos é desunida”.

Diz o fotógrafo:
“A classe dos fotógrafos é desunida”.

Diz o locutor:
“A classe dos locutores é desunida”.

Diz o Lívio: 
“A classe dos humanos é desunida”. 

quarta-feira, 1 de abril de 2020

O desbunde da leitura

Vou começar a leitura do curioso livro Happiness Found in Translation: a Glossary of Joy from Around the World, escrito por Tim Lomas. Cheguei à publicação após ler matéria na revista The New Yorker sobre não lembro mais que assunto.

A ideia de Lomas foi reunir palavras dos mais diversos idiomas que passassem ideias positivas, relacionadas a diversas temáticas. Tendo o livro chegado, iniciei o ritual de observá-lo, tateá-lo, cheirá-lo, folheá-lo (não necessariamente nessa ordem). Nesse deleite, deparei-me com a palavra saudade, que já consta de alguns dicionários de inglês, e com o verbo desbundar. Na explicação do sentido do verbo, escreveu o autor:

“Exceeding one’s limits.
“The liberation of shedding one’s inhibitions (e.g., in having fun).
“The pleasure of relaxing uptight self-control”. 

terça-feira, 31 de março de 2020

De novo, sobre a CNN Brasil

Há alguns dias, escrevi sobre minha convivência como telespectador, durante décadas, da CNN Internacional. No texto, mencionei também que ainda era cedo para que eu emitisse algum juízo mais nítido sobre a CNN à brasileira. A internauta Déa Fonseca, no Facebook, comentou meu texto, escrevendo: “Os donos são a igreja universal e o dono da construtora MRV. Tire suas conclusões”.

Há pouco, assisti, no Youtube, a um vídeo produzido pelo canal Meteoro Brasil (link na seção de comentários). De acordo com a equipe do canal, Rubens Menin, dono da MRV Engenharia, detém 65% da CNN Brasil. Os 35% restantes pertencem Douglas Tavolaro, sobrinho de Edir Macedo.

A CNN Internacional é contra a atuação de Donald Trump, de quem a emissora é crítica implacável. Já da CNN Brasil, depois de fazer breve apresentação sobre os passados de Rubens Menin e dos processos de que ele é réu, e de Douglas Tavolaro, o realista veredito do Meteoro Brasil, em referência à CNN daqui, deve mesmo se cumprir: “A CNN será a favor do governo — de qualquer governo”. 

sábado, 28 de março de 2020

Novo Brazil

Era o dia 29 de março de 2020; 6h da manhã. Zé Alazão acordou. Antes mesmo de os olhos estarem totalmente abertos, já pulara da cama. Embora essa rotina ocorresse todos os dias, o jeito brusco de ele se levantar não deixava de assustar Maria do Morro, a esposa de Zé Alazão. Meio dormindo, meio acordada, ela olhou para o marido, que já estava se vestindo:

— Acorda, sá. Gente dorminhoca não faz um país. Eu não tô saindo de casa, mas não tô deixando de produzir.

O tempo estava frio. De dentro do quarto, no aconchego da cama, Maria do Morro deu-se conta de que caía uma fina garoa lá fora. A vontade que ela teve foi de curtir a cama um pouco mais, permitindo-se uma preguiça inofensiva naquela manhã de domingo. 

O dono do matadouro já estava vestido. Foi até o espelho, passou a mão pela farta cabeleira. Sentia orgulho de não ter nem um fio branco, embora já estivesse se aproximando dos cinquenta. Pegou escova e pasta dental. Antes de começar a escovação, de dentro do banheiro, dirigiu-se a Maria do Morro:

— Levanta. Quero que você me ajude a fazer umas contas do matadouro.

Zé Alazão escovou ligeiro os dentes. Saiu do banheiro, saiu do quarto, fazendo seus passos rápidos, pesados e intempestivos ressoarem pela casa. Chegando à cozinha, enquanto observava, por uma janela que ficava na lateral, o vasto terreno em que ficava o matadouro, tragou um gole de café. Engoliu, jogou o resto pela janela e disse para Dalva, a empregada:

— O café tá horrível. Tá frio e sem graça. Faz outro.

O terreno que pertencia a Zé Alazão tinha 100 hectares. Dentro desse espaço, ficavam o matadouro e a casa em que ele e Maria do Morro viviam; os três filhos do casal haviam se mudado para os EUA. Embora não fosse o maior matadouro que tinha, era o preferido de Zé Alazão, por ter sido o primeiro. No passado, ele dera ao estabelecimento o nome de Horizonte de Minas. No primeiro dia de janeiro de 2019, Zé Alazão mudou o nome da empresa para Novo Brazil.

Enquanto Dalva preparava outro café, Zé Alazão apoiou as mãos na ampla janela. Alheou-se, ora pousando os olhos sobre o gado, ora sobre as montanhas ao longe, ora sobre os empregados do matadouro. A equipe de trabalho, já às voltas com o gado, procurava, na medida do possível, guardar distância uns dos outros, devido a um vírus que estava se espalhando pelo mundo. Zé Alazão voltou a si quando Maria do Morro entrou na cozinha, cambaleante, modorrenta. Ele foi até o canto da cozinha, pegou um dos megafones, comprados havia poucos dias. Estando outra vez apoiado na janela, aproximou o aparelho da boca; berrou:

— Andem rápido! Comecem a levar o gado para o matadouro. O Brasil não pode parar. 

domingo, 22 de março de 2020

O pedido do amigo

Por estes dias, qualquer um que abra as redes sociais vai se deparar com postagens afirmando que a humanidade será melhor depois da covid-19. Eu havia pensado em escrever algo sobre essa questão, mas como tenho visão negativa quanto à melhora dos humanos, decidi não abordar o assunto. Estava isso definido. Contudo, ontem, um amigo entrou em contato comigo, sugerindo que eu escrevesse precisamente sobre possíveis desdobramentos depois de a epidemia passar. O amigo me fez mudar de ideia; decidi escrever sobre o tema, não como quem profetiza, mas como quem tem olhos voltados para o redor e curiosidade voltada para o passado. 

Estou relendo A Montanha Mágica, do Thomas Mann. Na obra, Hans Castorp visita o primo Joachim Ziemssen, que está num sanatório, tentando ser curado de tuberculose. O plano de Castorp era ficar alguns dias. Na edição que tenho, a história termina na página 827. No começo, o narrador, de modo detalhado, vai contando como é a rotina no sanatório. A última frase da página 99 é uma fala de Ziemssen, que indaga o primo (a tradução é de Herbert Caro): 

“— Como quer formar uma opinião logo no primeiro dia?”.

Na primeira frase da página 100, Castorp comenta:

“— Meus Deus! É ainda o primeiro dia? Já me parece que estou aqui há muito, muito tempo...”.

Um dia, pormenorizado em cem páginas, dá clara ideia de como era a vida no sanatório que Hans Castorp fora visitar.

No livro Jane Eyre, da Charlotte Brontë, a personagem principal, que dá título à obra, vai embarcar numa carruagem. Antes de partir, ela perguntara para o condutor se o destino dela ficava longe do lugar em que estavam no momento do embarque. O condutor respondeu (tradução de Anna Duarte e Carlos Duarte):

“— Pouco menos de dez quilômetros”.

Jane Eyre diz a seguir:

“— Em quanto tempo chegaremos lá?”.

A resposta do condutor:

“— Em uma hora e meia”.

Acima, os dois trechos dos livros ilustram que houve uma época em que a humanidade lidava com o tempo tendo uma subjetividade diferente da nossa. Havia menos correria, dentre outros fatores, porque havia menos tecnologia. Com a popularização dos dispositivos eletrônicos e da internete, além da mudança nos meios de locomoção, houve quem dissesse, em meados da década de 90 do século XX, que a tecnologia e todo o seu aparato fariam com que passaríamos a ter mais tempo livre, mais tempo para nos dedicarmos a projetos pessoais.

Décadas depois, sabemos que não é nada disso. O entusiasmo inicial logo seria extinto. A realidade tornar-se-ia bem diversa daquela ingenuidade de meados da década de 90. Não é pequeno o número de pessoas que levam o trabalho para casa, dentro do bolso ou da bolsa, embutido num celular.

Em nosso modo de lidar com o tempo, é comum as pessoas se impacientarem quando a velocidade de navegação na internete não está como é usualmente, um texto de uma página é chamado de “textão”, um caminho de dez quilômetros levar uma hora e meia para ser percorrido é uma aberração, um livro usar quase mil páginas para contar o dia 16 de junho de 1904 na vida de um sujeito é contraproducente. O modo subjetivo como tratamos o tempo neste século XXI não será o mesmo dos séculos que se foram, estando a covid-19 no ar ou não estando. Não sei como nossa subjetividade vai lidar com o tempo no porvir. O que afirmo é que não lidaremos com ele como um dia já lidamos.

Outra possibilidade que as redes sociais têm apontado é a de que haverá novos afetos, ou, melhor dizendo, haverá (mais) afeto, terminada a pandemia. Nesse mundo vindouro, pós-covid-19, relações familiares, amistosas e amorosas teriam se dado conta de que o que realmente importa não são nossa correria nem nosso consumismo. Essa nova era traria um ser humano mais consciente de seu papel no trato para com a Terra e para com o próximo, não importando se o próximo será um vizinho, um parente ou um colega de trabalho. Não consigo vislumbrar essa nova “era”. O único “prognóstico” que faço é o de que os afetos vão continuar como estão agora. Não creio numa humanidade mais consciente depois da passagem da covid-19. Um ou outro pode rever sua existência, mas, no todo, seguiremos basicamente os mesmos.

Alguns otimistas têm ainda divulgado que haverá, depois que o vírus não for mais ameaça, um novo modelo econômico, que também seria mais preocupado com o bem-estar coletivo, em vez de centrado no próprio umbigo. Nesse novo modelo, haveria a possibilidade de todos terem maior dignidade quando em atendimentos de emergência, não importando a condição financeira da pessoa. Haveria menos neoliberalismo e mais cuidado humanitário, o que implicaria menos sanha na defesa de que tudo — tudo mesmo — seja privatizado. Esse modelo não ocorrerá. Para ficar no nosso caso, levando-se em conta que estou em Patos de Minas: governos federal e estadual defendem privatizações. Não é uma pandemia que fará esse pessoal mudar de ideia. Os planos privatizadores seguirão curso passada a pandemia, a qual, de resto, não os impede de prosseguirem. Além do mais, não é somente parte da classe política a querer a privatização de tudo; em meio à população, há grande parcela a defender que todos os serviços públicos estejam em mãos particulares, não importa a natureza do serviço público, mesmo com empresas recorrendo ao governo quando lhes convém, e não é preciso uma pandemia para que governos socorram empresas. 

A utopia é válida, mas utopia que não consegue enxergar, de antemão, as coisas tais quais estão postas corre o risco de se tornar ingenuidade ou desvario. Negar o sonho é perigoso; negar a realidade também é. Não há clima de mudança sendo sugerido, não há um novo modelo de vida sendo edificado pela maioria. O que há é medo e muita ignorância. Leve-se ainda em conta de que é comum as pessoas romantizarem o passado, mormente as que não o pesquisam.

Nesse estado de coisas, há ainda a crença, tida por muitos, de que a natureza se importa conosco ou de que bastaria a fé numa deidade qualquer para que nossas vidas fossem protegidas. Um furacão não pensa algo do tipo “hum, aquele ali é o Zé das Couves [nome fictício]. Vou poupar a casa dele de minha força avassaladora, pois ele é trabalhador, tem bom caráter, é justo”. Quem está na rota de um furacão é engolido por ele, não importam as crenças ou o caráter dessa pessoa. A natureza não sabe de nossos dramas; por mais que alguns insistam, não são preces que pouparão uma pessoa de ter covid-19, ainda que muito se acredite nisso. Não é preciso ser especialista em alguma coisa para saber que, terminada a passagem desse vírus, o número de mortos terá sido maior entre os pobres, os desassistidos, o que nada tem a ver com fé.

Eis, pois, o texto pedido pelo amigo. Em função da amizade, ele me dirá se gostou ou não. Pode ser que discorde de um tópico ou de outro, pode ser que concorde com outro. O amigo é do tipo, não somente quando se dirige a mim, que sabe discordar sem xingamentos, que sabe opor-se sem preconceitos e com inteligência. Eu e ele sabemos que importa a amizade, essa coisa velha que não deixa de fazer sentido.

Por que sou contra os panelaços

O João Doria foi mais um que disse ter se arrependido de seu voto para presidente na última eleição presidencial, como se ele, Doria, fosse um gamo inocente que não sabia o tipo de político que o presidente tem sido ao longo das décadas. Há a história dos ratos, os quais, segundo a alegoria, abandonam o navio ao pressentirem o afundamento. Em breve, Doria vai estar noutro barco, que também vai abandonar.

A cara de pau do Doria é a mesma da Janaina Paschoal, é a mesma do Lobão, é a mesma da Folha de S.Paulo no editorial “Sob ataque, aos 99”, é a mesma dos que bateram panela defendendo golpe, é a mesma dos que votaram no atual presidente por ele defender ditadura, por ele defender milicianos, por ele defender torturadores... Enfim, gente que votou no atual presidente exatamente por ele ser quem é. 

Agora, não me venham com conversinha mole de que estão decepcionados. Conversei com algumas libélulas, aqueles delgados e graciosos insetos. As libélulas me disseram saber há tempos: alguém que não é capaz de se portar como estadista em águas brandas não se comportaria como estadista num mundo povoado por covid-19. Boa parte dos que bateram panela ontem e boa parte dos que estão agendando via internet bater panela hoje à noite, com seu disfarce de cidadania, são uns desavergonhados. 

O presidente está sendo o político que ele sempre foi. Ele pode e deve ser acusado de centenas de atrocidades, mas não pode ser acusado de estar sendo quem ele não era. Os “paneleiros” se fingem surpresos, indignados. Ora, isso é cinismo. O mais expressivo e estrondoso dos atos seria defender a democracia, seria defender a civilidade. Prefiro fazer isso a meu modo a me juntar, seja batendo panela, seja compartilhando chamamentos para outros “paneleiros”, com quem se afina com a ideia de que o erro da ditadura foi não ter matado mais.

Quero dizer com isso que ninguém está sendo genuíno ao bater panela ou ao se dizer arrependido de seu voto para presidente? Não, não quero dizer isso. Em nenhum trecho de meu texto, generalizo. O que quero dizer, é que boa parte dos “paneleiros”, na primeira oportunidade, vai eleger um novo Collor, um novo Bolsonaro. Boa parte dos “paneleiros” é como o dono do posto de gasolina que agora esbraveja contra o valor cobrado pelo álcool em gel, fingindo que não aumentou o valor do combustível quando da greve dos caminhoneiros. Entrementes, vou ali preparar um guisado.
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(Esse texto deveria ter sido publicado no dia 18 de março. Eu o deixei como rascunho e me esqueci de postá-lo aqui. Ainda assim, ei-lo.) 

segunda-feira, 16 de março de 2020

Um domingo e duas frases weberianas

É muito comum as pessoas se valerem do direito de expressão. Sim, ele (ainda) existe, resiste. Há casos em que, ao falar de direito de expressão, as pessoas não estão interessadas em arcar com esses direitos. Direitos podem ter consequências. Tenho o direito de dizer, por exemplo, “o Zé das Couves [nome fictício] é um ladrão”. Se isso digo, tenho de ter clara noção de que há a possibilidade de eu responder judicialmente por essa declaração. Reiteremos: o exercício de um direito pode ter consequências legais.

É direito de qualquer um fazer de seu corpo o que bem entender. Se, digamos, o presidente de um país quiser chupar um picolé de limão, suicidar-se, ir a uma manifestação ou dormir com meias de cores diferentes, isso é direito dele. Todavia, o exercício de um direito, em público, pode interferir de modo negativo na sociedade, pode incorrer em crime. Se um cidadão está com os documentos do carro em dia e se está com sua carteira de motorista devidamente legalizada, ele tem o direito de sair com o carro dele. Mesmo assim, se ele atropela alguém no trajeto, ele poderá, depois de analisado o caso, ser penalizado judicialmente. O fato de os documentos do carro estarem em dia e o fato de não haver problemas com a carteira de motorista dele não o exime da possibilidade de ser responsabilizado caso ele atropele alguém.

Muito se tem falado na irresponsabilidade do presidente da república ao convocar manifestações contra a democracia em vias públicas e em logradouros, e da irresponsabilidade dele ao participar ontem de uma dessas manifestações, ainda mais levando-se em conta o cenário em que o mundo convive com o coronavírus. Pode-se e deve-se falar sobre a irresponsabilidade do presidente.

De sua presença em manifestação, o presidente disse: “Se eu me contaminei, isso é responsabilidade minha”. O cidadão tem o direito de se contaminar; ele tem o direito de inocular em si o vírus que ele bem entender. Mas, como escrito acima, o exercício de um direito pode ter implicações legais. Ele pode ou poderia ter chegado à manifestação já com a covid-19; ele pode ou poderia ter se contaminado com o vírus durante a manifestação. Neste caso, ele se encontrou com outras pessoas depois da manifestação; naquele caso, pode ou poderia ter levado à manifestação o vírus que carregava. Em qualquer um dos casos, foi irresponsável, pois ele teve contato físico com os manifestantes.

O Reinaldo Azevedo, em texto publicado ontem, prestou mais um belo serviço ao jornalismo e ao país, indicando as leis que o presidente infringiu recentemente. Azevedo chega a usar a expressão “criminoso múltiplo” para se referir à conduta do mandatário. Na seção de comentários, abaixo, após este texto, há link para o texto de Azevedo. No parágrafo a seguir, as leis que o presidente infringiu em sua irresponsabilidade. Detalhes podem ser lidos no texto de Reinaldo Azevedo.

O presidente incidiu nos Artigos 6o e 8o da Lei 1.079, que trata dos crimes de responsabilidade. Ele cometeu crime comum ao contribuir para espalhar o vírus; a pena é prevista no Artigo 268 do Código Penal; ele transgrediu os Artigos 17, 18 e 23 da Lei de Segurança Nacional. Houve crime previsto no Inciso II do Artigo 85 da Constituição, com disciplinamento nos itens 1 e 5 do Artigo 6o da Lei 1.079. Também salutar conferir o Artigo 2o dessa Lei. Reinaldo Azevedo o cita, bem como discorre ainda sobre o Parágrafo 4o do Artigo 86 da Constituição. Até a Janaina Paschoal pediu o afastamento do presidente (sic).

É curioso: muita gente por aí se declara defensora de legalidades, de leis e de direitos, mesmo quando faz apologia à tortura (o que é crime), por exemplo. Muita gente por aí fala em legalidades, mesmo sem se valer das leis que compõem o arcabouço jurídico do país em que vive. Num momento tão sério e que demanda maturidade e firmeza, um presidente diz que ele ter se contaminado é responsabilidade dele, como se não estivéssemos num momento em que um vírus pode ser transmitido para o próximo de modo tão fácil. O mandatário não tem empatia nem senso da gravidade do momento. Quanto às leis, mudam com o tempo, mas não é propondo o banimento de instituições democráticas que se busca defender o aparato jurídico de um país.

Mas nega-se não somente o direito, a democracia. O “Zeitgeist” tem levado à negação da biologia, da física, da química, da matemática, da medicina. Milênios de conhecimento são tolamente descartados. O sujeito é incapaz de entender que se ele toma remédio para dor de cabeça, há contribuições de muitos, durante séculos, para que o remédio esteja ao alcance. Sem estudar, sem procurar aprender, nega-se a ciência, o conhecimento. O sujeito cria um canal no Youtube e nega o que a humanidade já sabe há milênios. Há ainda a negação da arte. Estamos na era da negação. O que, em tese, poderia ser algo bom, já que questionar ou duvidar é algo, em princípio, saudável, tem sido praticado de forma tola, desumana e inconsequente. Na era em que estamos, nega-se, sobretudo, o fato. Lembremo-nos da declaração do presidente quando o exército matou, dando centenas de tiros, integrante de uma família que estava indo a uma festa: “O exército não matou ninguém”.

O advogado e professor Weber Abrahão Júnior escreveu em seu Facebook duas frases, as quais pinço: “Os idiotas estão vencendo” e “o ódio está vencendo”. Caro Weber, sem querer soar fatalista nem pessimista, digo que a idiotice e o ódio vencem desde que há pessoas neste planeta, e vão continuar vencendo. Eles sempre foram vencedores. Eles são vencedores. Eles serão vencedores. Tudo isso, entretanto, não é motivo para que se deixe de apontar idiotices e ódios, não é motivo para que não se escancare o fato, a evidência. Idiotice e ódio venceram, vencem, vencerão. Nem por isso terão sossego. Acho que foi o Darcy Ribeiro quem disse ou escreveu algo sobre estar do lado de quem perdeu. Estamos, Weber. Ainda bem. 

domingo, 15 de março de 2020

O vírus invisível

Já comentei que o problema pode não estar na fé, mas, sim, na má-fé e na burrice. Sobre o coronavírus, Edir Macedo disse que a epidemia é “tática de Satanás”. Macedo fala ainda em “pavor que a mídia tem usado”, tática essa que, aliás, já foi usada por outros políticos.

Que há inconsequentes imbecis que preferem ignorar a ciência (muitos deles, enquanto não estão doentes), disso, já sabemos. Ou o sujeito ignora a ciência por interesse próprio ou por burrice (ou pelas duas coisas). Curiosamente, a própria Igreja Universal publicou lista de cuidados contra a covid-19, a despeito da fala de Macedo.

É óbvio que há pessoas de fé que não são burras nem interesseiras; é claro que há pessoas religiosas que querem o bem, o bem do outro ou algo similar. Todavia, há muita coisa por aí chamada de fé que não passa de canalhice de líderes “religiosos” (não importa o dogma que dizem defender) e de burrice de seguidores.