domingo, 23 de junho de 2019

Fotopoema

Revistas

A IstoÉ já foi um saboroso contraponto à Veja. Hoje, aquela é uma embaraçosa e ruborizadora versão desta. 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Até quinta

Qualquer um que tenha tido interesse em ler o que o Jessé Souza tem publicado, falado e divulgado já sabia quem são Moro e similares. Todavia, mesmo quem nunca tinha lido nem escutado Jessé Souza já podia deduzir, pelos fatos em si, que Moro e os satélites dele não são exemplos de ética no trabalho. Só os ingênuos acreditavam nisso; os mal-intencionados, por conveniência, fingiam acreditar, concentrados muito mais em interesses próprios do que em algo parecido com bem-estar coletivo.

Bastaria prestar atenção nos excessos e descaminhos da Lava-Jato para se saber que a operação estava sendo conduzida não em concordância com a (bela) teoria do direito, mas em sintonia com desejos de um grupo de pessoas, que tiveram no jornalismo brasileiro a interpolação dos descalabros da operação. Um jornalismo canalha, que sempre tratou Moro como herói. Houve quem ingenuamente tenha acredito nisso, apesar das evidências que sempre houve de que ele não é confiável. Não foram somente livros que divulgaram isso; a imprensa independente e até alguns jornalistas de maior alcance já escancaravam quem era Moro e o que é a Lava-Jato nos moldes como ela vinha sendo conduzida.

A leitura de livros nem seria necessária para se chegar a conclusões assim. Agora, o pouco ou o não destaque que a chamada grande imprensa ou o chamado grande jornalismo não dão ao que foi divulgado ontem pelo Intercept é só mais um sintoma de que não temos, nos grandes meios de comunicação do país, empresários comprometidos com o bem público. Nesse escaldado indigesto e fétido, Bolsonaro não tem colhões para demitir Morno nem este tem a hombridade de abrir mão do cargo; tanto este quanto aquele são vaidosos e arrogantes demais. A grande imprensa seguirá atendendo aos interesses dos barões que a detém e o judiciário seguirá piando fino e fazendo de conta que não houve nada demais. Amanhã é terça-feira; depois, quarta. Na quinta, Moro já estará incólume (a bem da verdade, está e sempre esteve). Os fãs já estão loucos para vestirem a camisa da CBF. 

Terêncio e o juiz

Não raro, eu me esqueço das coisas que escrevi. O assunto de que vou tratar neste texto, suspeito, já foi abordado por mim. O problema da repetição não me incomoda, mas sei que pode incomodar um leitor ou outro. Releve, pois, a repetição, você que com ela se incomodar.

Eu tinha uns sete ou oito anos. Estava aqui em casa um cantor ensaiando algumas canções com meu pai, que tocava violão; não me lembro do nome dele (o do meu pai, eu me lembro). Esse cantor se dizia muito religioso. O papa da época era o João Paulo II. Num momento em que não estava havendo ensaio, o interlocutor de meu pai disse que o papa era “um homem santo”.

Meu pai começou então um longo discurso contra essa ideia, alegando que, antes de ser papa, Wojtyła era homem, e, como tal, estava sujeito às intempéries, fraquezas e nobrezas que podem ocorrer com qualquer um. O cantor não concordou; voltaram, ele e meu pai, ao ensaio, este ficando com o elemento humano do papa; aquele, com o suposto caráter divino do representante católico.

Não raro, meu pai tecia duros comentários contra padres, categoria que para ele era desprezível. Sempre que ele ficava sabendo de alguma ação danosa realizada por alguém da igreja católica, ele vinha sempre com o discurso de que “a pior classe de gente que existe são os padres”. Nunca entendi essa aversão dele contra religiosos católicos. Eu deveria ter conversado com meu pai sobre essa questão; como isso nunca ocorreu, fiquei sem saber por que os delitos de outros profissionais eram mais tolerados do que os delitos do clero. Claro que se espera que um padre, em teoria, seja virtuoso, mas, como meu pai sempre dizia, antes de alguém ser padre, esse alguém é um homem, e meu pai era capaz de nomear a hipocrisia quando diante dela. Ele morreu; fiquei sem saber a razão de tanta ojeriza dele contra padres. Há canalhas em qualquer profissão.

O que restou disso em mim foram a resignação e a ciência de que o ser humano é capaz dos atos mais vis, não importa quem ele seja. Felizmente, não ficou em mim apenas o ranço contra a espécie. Meu pai tinha bem desenvolvido e definido o senso de que podemos ser imprestáveis; todavia, ele não conseguiu desenvolver com a mesma acuidade o senso de que podemos valer alguma coisa. O resultado em mim de ter convivido com uma pessoa como meu pai foi que logo, logo eu já sabia que não valemos grande coisa. Disso, graças ao modo como meu pai encarava a vida, eu soube desde cedo; em contrapartida, ainda bem jovem aprendi que pode haver beleza em nós.

A convivência com a literatura solidificou o pensamento de que podemos ser uns trastes, bem como intensificou a ideia de que temos capacidade de nobreza, o que a vida acabaria me mostrando e ainda me mostra. Uma das consequências naturais da criação que recebi por intermédio de meu pai e das leituras que fui realizando foi a de não edificar ídolos, pois já estava arraigada em mim a constatação de nossos humanos limites; outra consequência foi não ter me tornado um ingênuo. Dos seres humanos, espero o pior, ciente de que somos capazes do melhor.

Na juventude, eu ainda não conhecia a máxima do Terêncio: “Sou humano; nada do que é humano me é estranho”. Mesmo sem conhecer a sentença, já corria em mim o remédio que me fazia entender que marmanjos que estupram uma garotinha ou filha que mata a mãe se valendo de um machado são expressões de capacidades humanas. Isso não significa ser inabalável, isso não significa que crimes não merecem punição; significa tão somente não encarar o pior de nós como se não fôssemos capazes de atrocidades.

Obviamente, esse pensamento é estendido às esferas da vida como um todo. Não importa se o delito venha de um pedreiro, de um médico ou de um professor, há em mim a resignação ou a compreensão de que estamos sendo nada mais do que humanos quando incorremos em erros, sejam eles pequenos, sejam grandes. Convivo com o outro na profunda certeza de que ele tem o pior e o melhor da espécie, na certeza de que tenho o pior e o melhor da espécie.

Mesmo assim, por muito tempo, tive dificuldade em entender a credulidade que é sintoma de tola ou de perigosa ingenuidade. O que leva alguém a acreditar, por exemplo, num pastor que alega fazer milagres ou num juiz politiqueiro que se arvora como representante da justiça? Todavia, quando eu me fazia esse tipo de pergunta, eu não estava me dando conta do óbvio: a credulidade ingênua ou a ingenuidade crédula são também expressões do que significa ser gente. “Nada do que é humano me é estranho”. 

domingo, 9 de junho de 2019

Um engodo chamado Lava-Jato

A matéria publicada hoje pelo site The Intercept Brasil revelando conversas por intermédio de aplicativos de mensagens entre Moro, Dallagnol e procuradores da Lava-Jato é a grande conquista do jornalismo feito no Brasil nos últimos anos. O Intercept, que pertence ao jornalista norte-americano Glenn Greenwald, traz à tona o que sempre se soube: que Moro não é o juiz imparcial que ele mesmo alega ser e que os defensores dele dizem que ele é. Uma versão resumida da matéria de The Intercept foi publicada não versão em inglês do sítio.

À parte questão partidária ou ideológica, recomendo a leitura do material produzido pela equipe de Glenn Greenwald. Os responsáveis pela matéria dizem que as mensagens chegaram a eles “bem antes da notícia da invasão do celular do ministro Moro”, o qual declarou que não teria havido “captação de conteúdo” nessa invasão.

A matéria veiculada pelo Intercept confirma o que já era sabido desde quando Moro era juiz, ou seja, que ele é um politiqueiro vaidoso que não respeitou nem o cargo que ocupava nem as instituições pelas quais deveria lutar. O que não havia eram as provas de que ele saía de seu papel de juiz e interferia a favor da causa por ele defendida. Está escancarado na matéria que o ex-juiz deu ordens para investigadores e antecipou decisões em conversas de aplicativos. O Ministério Público do Paraná já partiu em defesa do “paladino”: “O conteúdo das conversas não revela nenhuma ilegalidade”.

Está na matéria publicada pelo Intercept: “A Constituição brasileira estabeleceu o sistema acusatório no processo penal, no qual as figuras do acusador e do julgador não podem se misturar. Nesse modelo, cabe ao juiz analisar de maneira imparcial as alegações de acusação e defesa, sem interesse em qual será o resultado do processo. Mas as conversas entre Moro e Dallagnol demonstram que o atual ministro se intrometeu no trabalho do Ministério Público — o que é proibido — e foi bem recebido, atuando informalmente como um auxiliar da acusação.

“A atuação coordenada entre o juiz e o Ministério Público por fora de audiências e autos (ou seja, das reuniões e documentos oficiais que compõem um processo) fere o princípio de imparcialidade previsto na Constituição e no Código de Ética da Magistratura, além de desmentir a narrativa dos atores da Lava Jato de que a operação tratou acusadores e acusados com igualdade. Moro e Dallagnol sempre foram acusados de operarem juntos na Lava Jato, mas não havia provas explícitas dessa atuação conjunta — até agora”.

A despeito do que foi divulgado pela equipe do Intercept, a ignorância, a cegueira e o radicalismo vão alegar que tudo está bem e que não houve nada de grave nas conversas trocadas entre Moro, Dallagnol e procuradores da Lava-Jato. Não somente atitudes antiéticas vieram a público; transgressão e engodo são desnudados pela matéria. Vivêssemos num país sério, Moro não seria ainda o ministro da justiça; fôssemos um país sério, Moro, Dallagnol e procuradores da Lava-Jato envolvidos nas conversas divulgadas pelo Intercept seriam julgados. Mas bem sabemos que não há judiciário por aqui.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O amor musical de Lizandra

Graças a financiamento coletivo, a cantora Lizandra está lançando o EP Guia prático para amar de novo — Parte 1. O trabalho vai estar disponível em todas as plataformas digitais daqui a algumas horas, à meia-noite.

São quatro, as faixas, todas acústicas: “Te Amo Tanto”, “Só por Você”, “Varanda” e “Entardeceu”. Emerge delas a tradição lírico-amorosa da MPB; cenas do cotidiano são o cenário para as afetuosas letras das canções. “Logo de manhã cedinho / Eu paro pra te ver acordar”, diz a letra de “Te Amo Tanto”; já a de “Varanda” tem o seguinte trecho: “Eu largaria tudo por você / Uma rede, uma varanda / Amor simples de viver”.

Tem-se então que Lizandra celebra o amor, o amor do dia a dia, um amor prático, palpável. Um amor que não vem carregado de tintas melancólicas, seja pela delicadeza das interpretações, seja pelas letras em si. Fosse eu definir de modo muito breve o EP de Lizandra, eu diria se tratar de um trabalho terno e delicado. Nas quatro canções, a expressão de uma cantora que se entrega ao pop, com melodias agradavelmente cantáveis, sem deixar de fazer MPB. Longe de querer delimitar e longe de querer esgotar o trabalho da artista num gênero ou num rótulo, Lizandra faz MPB.

O Artur da Távola escreveu, salvo engano, em Do Amor, Ensaio de Enigma, que uma pessoa pronta para o amor é perigosa para qualquer “status quo”. Nesse sentido, Lizandra é muito perigosa, pois se lança mais uma vez em público e ao público para falar de amor ou do amor em forma de canções. Num Brasil em que parte da população, adoecida, orgulha-se da ignorância, Lizandra oferta para nós canções com roupagem simples e que têm a coragem e a rebeldia de cantarem o amor.

Sim, falar de amor é um ato de coragem e um ato de rebeldia num contexto em que coisas como ternura, delicadeza e conhecimento se ausentam. Em tempos assim, falar de amor é compor um libelo; o de Lizandra tem essa audácia de falar de amor em meio a gritos de ódio e atos de desrespeito. Guia prático para amar de novo — Parte 1 é alento por nos lembrar de que há uma humanidade bonita e viável.

Nas quatro faixas, a cantora tem interpretações delicadas, que estão em sintonia com a temática das letras e que evidenciam uma faceta que me soa nova: uma interpretação mais intimista e ao mesmo tempo mais à vontade, em que o lirismo se mistura com uma pitada de terna malícia. Em entrevista que realizei ontem com a cantora e compositora, ela disse estar mais madura como pessoa e como artista do que há cinco anos, quando lançou seu primeiro trabalho musical. Agora, com Guia prático para amar de novo — Parte 1 (em breve, haverá a Parte 2), Lizandra dá mais um passo a fim de mergulhar de vez em sua arte, corajosa para falar de amor, artista para nos tornar melhores. 

sábado, 25 de maio de 2019

“O que há num nome?” ou O fetiche onomástico

A pergunta do título está na peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare. A digressão de Julieta me veio à tona recentemente por eu ter feito, a princípio, sem querer — e depois, de propósito —, um “experimento” em minhas postagens no Facebook, que nem sempre são postadas neste blogue. Desde quando Bolsonaro surgiu como possível candidato a presidente da república, eu o tenho criticado. Nessas críticas, tenho percebido o seguinte padrão: se o nome dele é diretamente mencionado, os que apoiam o governo dele reservam um tempo para comentar as postagens; se não menciono o nome dele, geralmente não reservam esse tempo.

Esse padrão não é regra absoluta, mas é uma tendência que venho percebendo. Sem eu saber o motivo pelo qual isso ocorre, os que defendem o atual governo parecem não encarar a crítica contra ministros, por exemplo, como metonímia em que o criticado é, em última análise, o chefe do executivo federal. Isso me fez cunhar a expressão fetiche onomástico. A menção ao nome de Jair Bolsonaro desengatilha algo nos apoiadores dele que os leva a interagir com minhas publicações; a menção a ministros, no todo, não aciona esse gatilho. (Essa tendência, seja por que motivo for, pode mudar. Minhas postagens no Facebook não são públicas; junte-se a isso o fato de serem pouco lidas; esse contexto, suponho, anularia ou quase anularia a atuação de “robôs” comentando o que escrevo.)

Não há pretensão de análise sociológica nisso que afirmo. Sou apenas um sujeito incrustado no cerrado, que mora no interior, numa cidade desconhecida no cenário nacional. Eu poderia morar aqui e ter grande influência Brasil afora, mas, é evidente, não é esse o caso; poucos me conhecem, poucos leem o que escrevo. Não sou famoso, não sou lido por milhares de pessoas, não influencio centenas com o que publico. Além do mais, pode ser apenas coincidência o fato de o nome do presidente levar os apoiadores a se posicionarem; pode ser que essas pessoas nem tenham lido as postagens em que ministros ou políticas governamentais sejam criticados. Mesmo assim, não deixa de ser curioso o fato de que, coincidência ou não, defensores do atual governo, em minhas postagens, no geral, não saem em defesa de Bolsonaro quando o nome dele não é mencionado diretamente.

Que não haja dúvida: estou apenas constatando tendência que ocorre no que publico; não estou advogando a favor de números absolutos nem a favor de estudo sociológico-comportamental. Não faço a menor ideia de como se dá com outras pessoas que produzem textos próprios contra o atual governo. Não postulo conclusões nem generalizações, não estou adentrando o reino de suposições baseadas apenas no que ocorre em minhas postagens. Isso seria leviano, nada científico. O que relato não passa de curiosidade com que me deparei.

Outro padrão que tenho percebido nos comentários discordantes do que penso é a negação e o desmerecimento das fontes e das pesquisas que divulgo. Sejam pesquisas, sejam fontes, o que predomina dentre os que discordam é a asseveração de que tudo é mentira, tudo é notícia falsa, tudo é complô para que o presidente seja derrubado. Mesmo aqueles que já divulgaram pesquisas em suas postagens já se mostraram, em minhas publicações, contra... pesquisas, sugerindo que só têm valor as pesquisas divulgadas por eles. Já publiquei pesquisas de pelo menos quatro diferentes fontes; foram taxadas de mentirosas ou de falsas ou de interesseiras. Já mencionei fontes diversas; foram colocadas em xeque. Assim como não faz sentido confiar de modo pleno em tudo o que é divulgado, também não faz o menor sentido só confiar no que está de acordo com nossa opinião.

Tivesse eu tempo e fosse eu sociólogo, usaria, dentre outros, meus próprios textos a fim de concluir algo científico a partir de como os apoiadores de Bolsonaro reagem às (minhas) postagens contra ele, também analisando com cuidado publicações alheias. Como não tenho tempo para uma pesquisa dessa, como eu nem saberia como realizá-la, além do que ela demandaria um fôlego que não tenho, e como não sou sociólogo, que fique o registro de algo que julgo curioso. No mais, uma paródia: what’s in a name? that which we call a Bolsonaro / By any other name would not smell as sweet. 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Comentário sobre meus livros e sobre fotos recentes de minha autoria

Abaixo, transmissão ao vivo que fiz pelo Youtube. No vídeo, comento sobre meus livros e sobre algumas fotos que tirei recentemente.

domingo, 19 de maio de 2019

A renovação não virá

O Atlético Mineiro fez um péssimo negócio quando demitiu Thiago Larghi e contratou Levir Culpi. Não tendo ele feito trabalho bom na recente passagem pelo clube, foi demitido; no lugar dele, a equipe contratou Rodrigo Santana, enquanto o time partia em busca de novo técnico; flertou-se com Rogério Ceni; as negociações não foram para frente.

O técnico Jorge Jesus assistiu no estádio Independência ao jogo entre Atlético e Flamengo, ontem, o que foi o bastante para que se cogitasse que o português possa ser contratado pelo time de BH. Todavia, Rodrigo Santana (que já treinou a URT) tem feito um belo trabalho no Atlético, que está, com doze pontos, a apenas um do líder Palmeiras. Impossível prever, mas pode ser que em vez de efetivar um técnico que tem feito um belo trabalho, o Atlético se dê mal, investindo num técnico conhecido mas que pode não dar certo no clube, o que seria, em poucos meses, uma reedição do que ocorreu quando Larghi foi demitido e Culpi foi contratado.

Os chamados técnicos de grife, também conhecidos como medalhões, não têm mostrado desempenho à altura do nome ou da fama que têm. Mesmo Felipão, cuja equipe lidera o campeonato brasileiro, é criticado por não propor nada novo, por insistir num esquema de jogo anacrônico, mesmo a equipe sendo a líder do torneio.

Mano Menezes, outro dos técnicos graúdos, é questionado, estando no Cruzeiro há tempos e mesmo tendo conquistado títulos na equipe. Os que cobram mais de Mano alegam que, com o elenco que ele tem em mãos, era para o Cruzeiro estar jogando um futebol bem melhor do que o praticado atualmente. O campeonato brasileiro está no começo, de modo que não é hora ainda de ligar o sinal de alerta quanto à performance da equipe no que diz respeito a rebaixamento. Todavia, caso o time não avance na Libertadores, em que terá parada duríssima, contra o River Plate, e caso empenho e desempenho no campeonato brasileiro continuem ruins como estão, o trabalho de Mano talvez passe a ser questionado até por aqueles que ainda concordam com o que ele tem feito.

Vanderlei Luxemburgo, após hiato longe do futebol como técnico, estreou hoje no Vasco, que, em São Januário, empatou com o Avaí — 1 a 1. Luxemburgo é outro medalhão que há tempos, não só pelo tempo que ficou longe dos campos, não propõe nada novo. Tem a chance agora, no comando do Vasco. Será mais do mesmo ou vai apresentar alguma ousadia? Lembremos que o elenco do Vasco está longe de elencos poderosos, como os do Flamengo, do Grêmio ou do Cruzeiro.

Poder-se-ia argumentar que por isso mesmo seria difícil para Luxemburgo ousar, pois o elenco não daria ao técnico possibilidade de inovações. Todavia, a nova geração de técnicos tem o nome de Fernando Diniz, que está no Fluminense; mesmo tendo Ganso no elenco, o time não é estrelado como o de outras equipes brasileiras. Diniz não pode ser acusado de não buscar novos caminhos para o futebol praticado no Brasil. Sem elenco badalado, tem mostrado ímpeto e exibido um jeito de jogar que pode não agradar aos defensores do futebol proposto pelos medalhões, mas que é um alento na pasmaceira do futebol nacional. Não creio que os medalhões vão apresentar algo novo. Restaria torcer para que os dirigentes investissem em novos e ousados fôlegos. Mas duvido de que isso vá ocorrer. 

Fim do namoro?

Esta é a capa da piauí deste mês. Está aqui por duas razões: há dias, eu a postei em rede social, mas não consegui, na ocasião, descobrir de quem era a autoria do desenho; é de Nadia Khuzina. Eu já suspeitava de que fosse dela, por ela já ter feito outras capas para a revista, mas não tinha então a certeza. Crédito dado, pois. 

A outra razão pela qual publico a capa do periódico: Olavo de Carvalho anunciou que não mais se meteria no governo, o que foi interpretado como sendo ele mais um apoiador a ter pulado fora. Não sei se Carvalho já mudou de ideia quanto a não se meter no governo e se ele está mesmo pulando fora. Se estiver, o namoro da capa da piauí teria chegado ao fim. De qualquer modo, ainda que Carvalho pule fora do barco, o barco não vai pular fora de Carvalho. A não ser que o barco afunde de vez.

À parte Carvalho, recentemente, o cantor e compositor Lobão anunciou que pulou fora. O MBL também sido crítico contra o governo federal. Para o MBL, Carvalho é influência nefasta, com o que concorda a ala militar do governo. Todavia, o núcleo familiar de Bolsonaro obedece às ordens de Carvalho.

O que é fato: com apenas cinco meses de governo, já se fala em impeachment. Tanto que anteontem (ou, talvez, trasanteontem), no medidor de tendências do Google (Google trends), buscas como “impeachment inabilidade” e “impeachment de Bolsonaro entra no radar” aumentaram (captura de tela na postagem).

Ainda que o governo federal tenha se mostrado inábil para negociar na câmara dos deputados, não conseguindo se articular nem com os aliados, ainda que os setores que apoiaram Bolsonaro não consigam se entender, não vislumbro impeachment, no que posso estar errado. Se o governo cair, terá sido por outro(s) fator(es). Se.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Pequeno é quem votou; pequena é a Globo

A Globo, ao entregar a Sidão, goleiro do Vasco, o “prêmio” de “melhor” jogador da partida realizada ontem, contra o Santos, tentou fazer novamente o que a emissora insiste em realizar: entretenimento em vez de jornalismo. Só que no caso da entrega do “prêmio”, não houve entretenimento, ainda que ruim, mas sarcasmo, ironia e desrespeito contra um profissional. Se alguém jogar mal, que seja criticado, que seja cobrado, mas partir para uma zombaria impensada e cruel é história bem diferente de exercer uma crítica que pode até ajudar o profissional a melhorar.

O goleiro do Vasco foi submetido a uma humilhação. Segundo o que li, os profissionais da emissora que estavam no estádio trabalhando durante a partida teriam sido contra a entrega do “prêmio”. A ordem para que ele fosse dado a Sidão teria partido de algum diretor de esporte, cujo nome não consegui apurar.

O que não tem sido dito até então é o quanto é preciso criticar o comportamento do torcedor, dos que escolheram Sidão como o “melhor” da partida, levando-se em conta que a votação tenha de fato sido como a Globo anuncia, ou seja, por intermédio de escolha dos internautas. Não se mencionou que as pessoas, não somente no futebol, não têm senso o bastante para separar o que é gracejo ou humor inteligente do que é ofensa e desrespeito contra alguém que estava exercendo sua profissão.

O que os torcedores fizeram é a expressão de uma sociedade que não tem pudor de achincalhar alguém que estava trabalhando. Não satisfeita com o achincalhamento, ficou colada na tela da TV para conferir ao vivo a materialização de uma atitude pequena, atroz, levada a cabo por uma emissora que nunca se preocupou em tratar o futebol com abordagem jornalística, fazendo, em vez disso, um espetáculo acrítico e dedicado a uma turba mais preocupada em ver sangue do que sensatez. A Globo deve ser — e foi — criticada pelo que fez com o Sidão, mas não pode ser acusada de não ser reflexo de parte dos que a assistem. Ela não deveria abonar a burrice e a maldade de parte dos telespectadores; entretanto, a história do canal é a prova de que respeito nunca foi moeda corrente nas ondas globais.

Neste ano, a Globo não transmite na totalidade, via Premiere, nem jogos do Palmeiras nem do Athletico Paranaense no campeonato brasileiro. Isso não quer dizer que o império esteja abalado (além do mais, no ano que vem, a emissora pode recuperar direitos de transmissão dessas duas equipes no torneio), mas que os times percebam que há alternativas fora das galhofas sem graça da Globo. Do que ainda não sabemos, é se as galhofas dos concorrentes serão tão cretinas quanto as da emissora carioca. 

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Todos os números do presidente

Havia sido divulgado que o exército dera oitenta tiros e matou Evaldo Rosa dos Santos, no dia sete de abril deste ano, no Rio de Janeiro. Evaldo morreu no mesmo dia; Luciano Macedo morreria onze dias depois, em decorrência dos tiros dados pelo exército. Oitenta e três disparos acertaram o carro em que Evaldo e Luciano estavam.

Todavia, laudo divulgado anteontem revela que houve mais de duzentos disparos contra o carro em que os assassinados estavam. “Mais de duzentos” é um número muito impreciso; o laudo, ou pelo menos o que foi divulgado dele, dirime um pouco dessa imprecisão:

• um tenente disparou 77 vezes (há registros de mais 11 tiros dados pela arma dele no mesmo dia, mas não há confirmação de que teriam sido dados na ação que matou Evaldo Rosa dos Santos e Luciano Macedo);
• outro militar disparou 54 vezes;
• três soldados atiraram 20 vezes cada um;
• outro disparou 14 vezes;
• os demais atiraram de 1 a 9 vezes.

A despeito dos dados acima, a imprecisão permanece no trecho “os demais atiraram de 1 a 9 vezes”. Desconsiderada essa imprecisão, tem-se a seguinte conta:

77 + 54 + 60 + 14 = 205

Sem se levar em conta “os demais”, que atiraram de 1 a 9 vezes, houve 205 disparos. Para efeitos matemáticos e históricos, caso se faça um contingenciamento no número de disparos, tem-se que, por exemplo, 30% de 205 equivalem a 61,5, o que já é um número exorbitante, levando-se em conta que o assunto são disparos contra um carro de civis que estavam indo a uma festa.

Ainda assim, bem sabemos que não haveria problema para o ministro da educação, se fosse o caso, transformar 61,5 em 6,15, valendo-se de barras de chocolate. Também sabemos que, para o presidente, não importa o número de disparos, “o exército não matou ninguém”. 

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Vai que...

Há dias, o presidente exibiu cicatriz na barriga causada pela facada e o ministro da educação exibiu cicatriz no ombro causada por acidente. Se a onda pega, que ninguém no governo passe por circuncisão. 

sábado, 4 de maio de 2019

Poema republicano

“O erro da ditadura foi torturar e não matar. 
“Eu sou favorável à tortura.
“Eu acho que essa polícia militar do Brasil tinha que matar é mais.
“Policial que não mata não é policial”.
“O exército não matou ninguém”.
“Ustra é um herói.
“Eu sonego tudo o que for possível.
“Espero que saia; infartada, com câncer, de qualquer jeito. 
“Só não te estupro porque você não merece.
“Sou homofóbico, sim, com muito orgulho.
“Prefiro ter um filho viciado do que [sic] um filho homossexual.
“Temos famílias (...): quem quiser vir fazer sexo com mulher, fique à vontade”.

Fim.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Classe

Não é só parcela da classe média que gostaria de ser rica. Há parcela de pobres que também gostaria. A diferença é que os pobres não pensam que são. 

Dísticos familiares

“Temos famílias”:
se o exército der oitenta tiros, não terá matado ninguém.

“Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”:
“Temos famílias”. 

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Por si

Não temo a escuridão.
Temo as criaturas que nela pode haver.
Não criaturas sobrenaturais —
nelas, não creio.

Eu temeria a escuridão
a depender das criaturas naturais
que nela estivessem comigo.
São elas o que eu temeria
no escuro ou no claro.

Sozinho, eu vagaria sem medo
pelas trevas ou pelas luzes.
Mas há seres à espreita
quando falta claridade
ou quando falta escuridão. 

terça-feira, 30 de abril de 2019

Os que não suportam a arte

Há quem não suporte a arte. Esse alguém pode ser um intelectual, um presidente, um professor, um gari. Há quem não suporte a arte por ter medo dela. Ou por ter inveja dela. Ou porque é imbecil. A arte incomoda certas pessoas porque elas têm medo de olharem para si no espelho; elas têm medo de olhar para quem se olha no espelho e têm medo de serem olhadas por quem se encara no espelho e as encara.

Há quem tenha medo da arte porque ela inquieta, rebela-se, pergunta, analisa, maravilha-se, denuncia, zomba. Já queimaram livros, já queimaram pessoas, mas a arte, teimosa e bela, aí está, encarando e deixando sem chão criaturas destituídas de senso artístico. Sem saber o que fazer com a arte, essas pessoas ora matam, ora xingam, ora torturam...

Os que não suportam a arte sabem destruir, desfazer, desmanchar, gritar, prender, matar; incapazes de edificar, o verbo, neles, é somente fúria, demolição e ausência de pensamento. Há analfabetos que não suportam a arte; há pessoas cultas que não suportam a arte. Os que se esqueceram de que foram crianças não suportam a arte.

Não suporta a arte quem não entende que somos mais obscuros do que gostaríamos e quem supõe que as questões da vida estão demarcadas rigidamente, como num tabuleiro de damas. Não suporta a arte quem é incapaz de sentir o belo ou quem é incapaz de produzi-lo. Quem não vislumbra no outro homem todos os outros homens não suporta a arte.

Não suporta a arte quem se fecha no próprio corpo, quem não o entende, quem tem medo do próprio corpo, quem demoniza o que ele quer e quem tem medo do corpo do outro, do querer do corpo do outro. Não suporta a arte quem não é capaz do refinamento da inteligência ou da grandeza de ações. Não suporta a arte quem não percebeu que somos, ao mesmo tempo, ricos deuses e pobres diabos.

Os maniqueístas não suportam a arte. Os machões que berram forte a fim de esconder a criançona chorona que há neles não suportam a arte. Não suportam a arte os que não admitem diversidades. Não suporta a arte quem não quer se conhecer e quem não quer conhecer o outro.

Não suporta a arte quem não aguenta três acordes de lucidez. Não suporta a arte quem não sabe o que fazer com uma mulher sedenta ou com uma que procura aconchego. Não suportam a arte os que dependem de um revólver para se sentirem homens. Não suportam a arte os vassalos das fardas, os que cantam com fingida pungência o hino nacional e lesam os cofres públicos.

Não suportam a arte os que erguem muros. Não suportam a arte os que não têm a menor ideia do que sejam sutilezas, do que sejam detalhes, do que sejam pequenas, frequentes e frutíferas transformações. Quem não planta não suporta a arte; não suporta a arte quem destrói a plantação.

Quem só sabe ser barulhento não suporta a arte, bem como quem não sabe se calar. Quem não é capaz de amar não suporta a arte. Os que não gostam de gente não suportam a arte; os destituídos do senso do espanto não a suportam. Os que esquartejam, torturam e assassinam não a suportam. Os que defendem esquartejamentos e torturas não a suportam. Os que defendem ditadores não a suportam. Os ditadores não a suportam. Os que confundem patriotada com patriotismo não suportam a arte. Pode-se esquartejar ou torturar ao som de Mozart. Quem assim age não entendeu a essência da arte, que é comunhão, elevação.

O terreno da arte não são engessadas e superficiais certezas, mas movediças, inspiradoras, iluminadoras e profundas incertezas. A arte requer coragem. Também por isso os covardes não a suportam. 

domingo, 28 de abril de 2019

Velozes e furiosos

A família Bolsonaro tem pelo menos quarenta e quatro multas de trânsito. O presidente, a atual esposa dele e os filhos do militar da reserva foram multados nos últimos cinco anos. As infrações estão registradas no Detran/RJ. As multas da família perfizeram R$ 5.800,00. A maioria delas, vinte e quatro das quarenta e quatro, é por excesso de velocidade.

O presidente anunciou que cancelaria a instalação de oito mil fotossensores nas estradas. Ele também quer revisar contratos já existentes. Além disso, anunciou que é intenção dobrar para 40 pontos o limite de infrações em um ano. Na legislação atual, o limite são 20 pontos. 

A filosofia que cria cordeirinhos para abate

Alegar questões financeiras para não investir em filosofia e em sociologia nas universidades é balela. Em si, os cursos não requerem investimentos pesados, pois não requerem laboratórios nem equipamentos caros, o que é demanda de outros cursos; outro dado que deve ser levado em conta é o de que discentes de filosofia e de sociologia representam 2% dos que estão em cursos superiores em universidades públicas. Fosse mesmo questão econômica, o governo preocupar-se-ia, dente outras coisas, em gastar menos com o cartão corporativo, também mantido pelos contribuintes. Nos dois primeiros meses do atual governo federal, o aumento de gastos com o cartão corporativo foi 16% maior em relação à média dos últimos quatro anos. E olha que esse perdulário governo defendida o fim desse cartão. Não só o manteve como elevou os gastos com ele.

Respeitar o dinheiro do contribuinte é dar a ele oportunidades, não privá-lo delas, não privá-lo do conhecimento, e só uma mente limitada hierarquiza o saber, separando-o em útil e em inútil. Não existe conhecimento inútil. Atribuir níveis de importância aos diversos afluentes do conhecimento é não querer dar a oportunidade ao cidadão de ser uma pessoa mais plena, mais capaz, com maior noção do mundo em que vive, não importa se essa pessoa é um técnico em eletrotécnica ou se é um neurologista. Dominar uma engenharia não significa que alguém não possa conhecer o percurso histórico, sociológico e filosófico por que vem passando a humanidade; isso faz parte da plenitude do que é ser cidadão. A estratégia de excomungar filosofia e sociologia nada tem a ver com questões econômicas, embora seja esse o pretexto.

Para o governo federal, os estudos de humanas não respeitam o dinheiro do contribuinte e não dão retorno imediato. Mentes pequenas não conseguem vislumbrar mais longe do que o dia de amanhã. Há retornos que são imediatos e há retornos que demoram a surgir. Além do mais, o imediatismo não dever ser essência política de um governo. Ao mesmo tempo em que há questões pragmáticas e urgentes, por outro lado, um país precisa de planejamento para o que não é imediato. Qualquer gestor de qualquer área sabe disso. Todavia, é mais fácil apelar para um imediatismo inconsequente do que apresentar um projeto que vislumbre décadas no porvir.

A estratégia de banimento dos estudos de humanidades é simples, mas de eficácia incontestável. Em essência, é uma estratégia que não permite ao ser humano o acesso à palavra. Sem esse acesso, a pessoa vai se tornando algo parecido com um autômato, uma criatura sem capacidade de organizar pensamento e sem capacidade de (se) observar, dois graves entraves para essa própria criatura e para a elevação do pensamento social. Esse cenário é perfeito para engodos políticos. Nesse viés, distopias como “1984”, do George Orwell, e “O planeta dos macacos”, do Pierre Boulle, são contundentes retratos do que pode ocorrer quando o acesso à palavra vai se esvaindo. Mas livros são palavras. Palavras ampliam e refinam o cidadão. Um sujeito com noção histórica, sociológica e filosófica é pedra no sapato e rocha recalcitrante em qualquer projeto que pretenda execrar o pensamento. Para muitos, o negócio é gerar cordeirinhos que se jactam de serem enfileirados para tosa e abate. 

Passeio













Robusta clausura

Tenho medo do mundo,
do meu país, 
da minha cidade.

Tenho medo de ti.

Tenho recebido o mundo
em telas que reluzem
e em páginas que elucidam.
Eu me fechei,
fechei as portas da casa, 
acionei todos os cadeados.

Lá fora, 
armas calibradas 
e encontros desequilibrados,
sem filosofia, sem sociologia,
sem palavras.
Estão ocos e furiosos.

Nem suspeitam de que
não sou o único
que não desistiu.
Nem desconfiam
da existência dos
que acreditam no belo.
Não sabem que são 
transitórios como um tiro
e que somos teimosos
como um verso. 

Do alto

Eu estava a uns treze quilômetros de Patos de Minas quando tirei a foto. O drone estava a mais ou menos duzentos metros de altura de onde eu estava. 

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Charge 12

Presidente preocupado com higiene peniana

Sumário de hoje das aventuras no planalto central: o presidente do Brasil mandou tirar do ar um comercial do Banco do Brasil. O filme de trinta segundos contém diversidade racial e sexual. O diretor de comunicação e marketing da estatal, Delano Valentim, foi afastado do cargo. O equitativo dignatário manda afastar ou exonerar quem não pensa como ele ou quem, por exemplo, aplica multa nele devido a pesca irregular.

Ainda em questões relativas ao ambiente sexual, hoje pela manhã, em café com jornalistas, o consciencioso comandante disse que “o Brasil não pode ser um país do mundo gay, de turismo gay. Temos famílias”. Mais: o atencioso mandatário disse, ao visitar o MEC, estar preocupado com um dado alarmante: as amputações de pênis no Brasil por falta de higiene. Consciente de seus atributos, o presidente disse que “é preciso buscar uma maneira de sair ajudando as pessoas”. O governante está certo, pois cuidados higiênicos assegurariam um “golden shower” limpinho. 

terça-feira, 23 de abril de 2019

Charge 10

Tenho feito uma série de charges sobre a atual relação Brasil/EUA. Na série, eu me valho de alguns cenários urbanos famosos no Brasil. Não é o caso do cenário local; ainda assim, decidi inseri-lo na série.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Defensores de Olavo de Carvalho x defensores dos militares

Um vídeo em que Olavo de Carvalho critica os militares foi postado no sábado no canal de Jair Bolsonaro no Youtube (a crítica foi retirada do canal posteriormente). Carlos Bolsonaro compartilhou esse mesmo vídeo no Twitter. Carvalho diz: “Qual foi a última contribuição nacional das escolas militares para a alta cultura nacional? As obras do Euclides da Cunha. Depois de então foi só cabelo pintado e voz empostada. Cagada, cagada”.

A troca de farpas entre os integrantes do governo que defendem Carvalho e os integrantes do governo que pertencem ao exército parece que vai continuar, o que é indicativo de que a governança seguirá sem início. Além dessa inócua discussão, há quem prefira debater questões relativas a “golden shower”, há quem demore para se posicionar sobre assassinato — “o exército não matou ninguém” ou há quem tenha se predisposto a esconder estudos que, em tese, justificam a reforma da previdência. 

Charge 9

Charge 8

domingo, 21 de abril de 2019

O governo que (se) esconde

O governo federal decretou sigilo sobre os estudos que embasam a reforma da previdência. Isso, na prática, significa que nós, cidadãos, não teremos acesso a dados econômicos e sociais que a sustentam. Vou sempre repetir: essa reforma prevê, dentre outras atrocidades, que uma pessoa venha a receber, entre os sessenta e os setenta anos, quatrocentos reais por mês. Sob ponto de vista estritamente financeiro, descontadas as implicações desumanas da reforma, entendo os empresários a apoiarem, mas quem não é empresário, que pode, aliás, estar nesse grupo que receberá quatrocentos reais por mês durante dez anos, só pode apoiar a reforma da previdência por desinformação ou por estar inserido em grupo que será pouco afetado por ela. Ainda assim, isso seria um total descaso desses grupos quanto à maioria do povo, o que não é surpresa em se tratando de Brasil.

Quanto ao sigilo acerca dos “estudos” que embasam a reforma, ora, o raciocínio chega a ser simplista: se ela fosse boa para o povo, por que esconder dele, povo, os “cálculos” que a sustentam? Por que esconder do povo algo que fosse bom para ele? Se, de fato, ela fosse boa para a população, esses “estudos” tinham de ser, sim, divulgados, espalhados, explicados. Mas não: mais uma vez, o governo opta por atuar na surdina, nas sombras, longe das luzes da humanidade.

É preciso lembrar que não é a primeira vez que o atual governo tenta esconder dos cidadãos informações que são de direito dele, cidadão, conhecer. Já haviam tentado privar a população de dados essenciais, restringindo a lei de acesso à informação; agora, querem esconder do povo os “estudos” em que se baseiam para realizar a reforma da previdência. O que se tem é um governo que nega o óbvio (“o exército não matou ninguém”) e que decidiu esconder do povo dados que terão como consequência um país de velhos miseráveis, desvalidos e sem amparo, precisamente na fase da vida em que mais precisam de apoio. Como a reforma tem incentivo dos grandes empresários, será aprovada, com ou sem divulgação de “estudos” que a sustentam. 

sábado, 20 de abril de 2019

Cruzeiro é campeão mineiro

No dia dez de abril, o Atlético/MG, jogando fora de casa pela Libertadores, tomou quatro gols; no mesmo dia, o Cruzeiro, em casa, também jogando pela Libertadores, fez quatro gols. Depois disso, no Atlético, Levir Culpi foi demitido. O próximo compromisso dos times seria a decisão do campeonato mineiro. O momento do Atlético, complicado na Libertadores, deixou otimistas alguns cruzeirenses e deixou apreensivos alguns atleticanos para a decisão do mineiro.

O primeiro jogo da final foi no domingo passado. Embora o Atlético tenha perdido por dois a um lá no Mineirão, o time já não foi a bagunça que vinha sendo com o Levir Culpi. Sob o comando de Rodrigo Santana, técnico que entrou no lugar de Levir, o Atlético já deu mostras, na primeira partida da decisão do campeonato mineiro, de que o time havia, por assim dizer, renovado-se.

Aos cinco minutos da decisão de hoje, Ricardo Oliveira acertou o travessão do Cruzeiro; aos onze, Ígor Rabelo, em lance contra o próprio gol, acertou o travessão do goleiro Vítor. Aos vinte e nove, o Atlético, merecidamente, já que vinha jogando melhor, marcou: após defesa de Fábio em chute de Ricardo Oliveira, Elias, de cabeça, fez o gol.

Após o intervalo, o Atlético continuou jogando melhor. Percebi no Cruzeiro uma certa apatia, como se o time não estivesse com vontade de jogar, como se demonstrasse pouco interesse pela partida. Mesmo assim, aos trinta e quatro, Fred, cobrando pênalti, que foi marcado após análise de vídeo pelo árbitro, marcou. A Raposa segue invicta na temporada.

Fosse eu torcedor do Atlético, estaria otimista quanto ao futuro, a despeito da situação ruim do time na Libertadores. A equipe errou feio ao demitir Thiago Larghi e ao contratar Levir Culpi. Agora, tenta corrigir a lambança, investindo em Rodrigo Santana, que é promissor. Do lado do Cruzeiro, o torcedor, embora campeão hoje, se for sincero, saberá que o time tem de jogar melhor do que o que jogou hoje se quiser ir longe na Libertadores ou se quiser fazer um belo campeonato brasileiro. 

quarta-feira, 17 de abril de 2019

O não desejado 2

Depois do não do Museu de História Natural de Nova York (comentei o fato em nota anterior), agora foi a vez de outro prestigioso local na cidade não querer o presidente brasileiro, segundo informou Helena Chagas, do site Os Divergentes. Dessa vez, a negativa foi do restaurante Cipriani. Por enquanto, o evento da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, em meados de maio, continua sem local. 

Charge 5

O terno não faz o político

O governo federal estuda a possibilidade de que servidores no Palácio do Planalto sejam proibidos de usar jeans no trabalho. A normativa pode se estender a visitantes da casa. Enquanto isso, anuncia que o salário mínimo não terá aumento real... 

Charge 4

Onde o país?

O país havia começado
para mais gentes.
Os donos de sempre
não gostaram;
destruíram esse começo.

Hoje, outra vez,
moro num país
que, novamente,
não começou.
Moro num arremedo
de nação que adoece
quem edifica
e enriquece
quem demole. 

terça-feira, 16 de abril de 2019

Resumão

O governo federal propôs que o salário mínimo não tenha aumento real (aumento real é quando o salário sobe além da inflação, o que vinha sendo feito em governos anteriores). Enquanto isso, projeto de lei do governo que se nega a dar aumento real para trabalhadores assalariados cogita perdoar bilhões de endividamentos de ruralistas. O rombo aos cofres públicos seria de R$ 30 bilhões.  

Damares, a ministra que viu Jesus na goiabeira, disse que a submissão da mulher no casamento é uma “questão de fé”. Já o Paulo Guedes disse que o presidente não vai mais interferir nos aumentos de preços da Petrobras.

Os caminhoneiros, por sua vez, não descartam nova greve, já que, para eles, o pacote de medidas anunciado pelo governo federal não passa de, segundo eles, “cortina de fumaça” a fim de se evitar que eles, caminhoneiros, entrem em greve. 

O país segue risível, estático, perigoso e caótico. 

Charge 3

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Charge 2

Charge 1

O não desejado

As rejeições e as trapalhadas internacionais do governo federal prosseguem. O mandatário do poder executivo já havia causado mal-estar entre políticos do Chile quando por lá esteve, elogiando Pinochet (há ditadores que o presidente do Brasil elogia e há ditadores que ele critica; o critério, suspeito, é o Trump quem define).

Depois, veio o mal-estar com os palestinos, quando o governo federal anunciou a transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém; ao voltar atrás, ficou mal com Israel; na semana passada, voltou a ficar mal com Israel, após comentar o Holocausto. Voltando atrás, o presidente escreveu carta para autoridades israelenses. Sim, o governante brasileiro se indispôs, em questão de dias, com palestinos e com israelenses.

Também na semana passada, a atualmente ridícula diplomacia brasileira recebeu outro golpe: Bill de Blasio, prefeito de Nova York, fazendo menção ao político brasileiro, disse que este tem “racismo evidente” e mencionou a homofobia do chefe do executivo brasileiro. Afirmou Bill de Blasio: “Esse cara é um ser humano muito perigoso”. De Blasio completou, referindo-se ao Museu de História Natural de Nova York, que abrigaria evento em que o presidente brasileiro estaria presente: “Se você está falando de uma instituição apoiada publicamente e está falando de alguém [o presidente brasileiro] que está fazendo algo tangivelmente destrutivo, fico desconfortável com isso” — declarou De Blasio à rádio WNYC.

As declarações da autoridade americana foram dadas porque estava havendo apelos dele e de outras pessoas para que o presidente brasileiro não recebesse, no Museu de História Natural de Nova York, homenagem em um evento promovido pela Câmara do Comércio Brasil-EUA. De fato, hoje foi publicada uma nota: “Com respeito mútuo pelo trabalho e pelos objetivos da nossa organização individual, decidimos conjuntamente que o Museu não é a locação ideal para o jantar de gala da Câmara de Comércio Brasil-EUA. Esse tradicional evento será direcionado para outra locação na data e horário originais”.

Antes do cancelamento, o próprio Museu já havia declarado: “Estamos profundamente preocupados, e o evento não reflete de forma alguma a posição do museu de que há uma necessidade urgente de conservar a floresta Amazônica, que tem implicações tão profundas para a diversidade biológica, comunidades indígenas, mudanças climáticas e a saúde futura de nosso planeta. Estamos avaliando as nossas opções”. Hoje, de fato, decidiu-se pela não realização do evento no local.

Como esperado, houve quem assumisse as dores do presidente brasileiro. O assessor do presidente para assuntos internacionais, Filipe Martins, disse que o prefeito de Nova York é “uma toupeira”. Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente, também se condoeu: “É a prova que ‘o idiota’ não habita somente a América Latina”. Enquanto digito estas palavras, não fiquei sabendo ainda se alguém já comentou a negativa do Museu de História Natural de Nova York ao presidente brasileiro. 

sexta-feira, 12 de abril de 2019

"Não matou ninguém"

“O exército não matou ninguém”; alega-se que ele é do povo. Não matou ninguém, mesmo atirando oitenta vezes. Oitenta tiros são um “incidente”. A morte de Evaldo Rosa dos Santos foi um “incidente”. Oitenta balas perfazem um “incidente”.

Segundo o dicionário Houaiss, uma das definições para a palavra “incidente”: “Dificuldade passageira que não modifica o resultado de uma operação, de uma linha de conduta”. A morte de um é tida como “incidente”. Quantas mortes são necessárias para que a morte depois de oitenta tiros deixe de ser considerada “incidente”? 

Do que se recomenda

É mais fácil ser político em meio a um bando de desinteressados. Infeliz daqueles (e, em especial, infeliz dos jovens) que endossam as palavras de um mandatário quando ele diz querer que os jovens não se interessem por política. Para os políticos, o desinteresse do cidadão é ótimo. Todavia, a partir do momento em que o cidadão não se interessa por política, ele nem saberá como cobrar o que é dele por direito, por mais que esbraveje em redes sociais.

Consequências do não interesse por política são visíveis quando a pessoa cobra de um vereador o que é da alçada do presidente, quando cobra do presidente o que é da alçada de um governador, cobra de um governador o que é da alçada de um deputado federal... As redes sociais escancararam outra consequência do desinteresse por política: publicações que se querem politizadas não passam de deselegância, notícia falsa ou destempero.

Num país de despolitizados que acreditam estar fazendo política quando insultam, mentem ou divulgam notícias falsas, querer jovens que não se interessem por política é um desserviço ao país (mais um), ainda mais vindo de alguém que deveria incentivar o conhecimento, em vez de ficar fazendo gesto, enquanto segura uma criança, como se estivesse com uma arma em mãos. Cargos políticos são para serem escrutinados vinte e quatro horas por dia. Um cidadão que não se interesse por política abre mão de seus direitos e é manipulado para que apoie causas que são prejudiciais a si mesmo. O desinteresse por política faz com que o cidadão não exija aquilo que ele merece. Acreditar em mamadeira de piroca e em kit gay é sintoma de desinteresse por política.

Política é possibilidade de transformação; o mesmo com a arte, com a ciência. Além do mais, o jovem não pode se iludir: se é para que ele seja um astronauta, como parece desejar o mandatário, é preciso, antes, predispor-se a estudar com dedicação, por anos, pelo menos, muita matemática, muita astronomia e muita física. Não é fácil ser um astronauta, mas é fácil proferir tolas platitudes.

Querer que um jovem não se interesse por política (ou banir da juventude a possibilidade de ela se interessar por política) é correr o risco de que no futuro o jovem seja um político tão obtuso quanto um político que diz querer uma garotada que não se interesse por política. O conhecimento é fascinante demais, tudo é fascinante e diverso demais; em contraposição, nada mais perigoso e boçal do que alguém que despreza os afluentes do conhecimento. No mais, um imbecil é um imbecil — seja na Terra, seja fora dela. 

Interpretação

Toda noite, 
em seu sono inquieto, 
a verdade se te revela.
Não sabes interpretá-la.

Todo dia, 
em tua vigília desatenta, 
a verdade se te revela.
Não sabes interpretá-la. 

quarta-feira, 10 de abril de 2019

A inflação e as mangas

Mais um índice do governo federal neste ano: a inflação do mês de março atingiu a maior taxa desde 2015, segundo o Valor: 0,75%. Todavia, o próprio governo já deu a solução para o problema, pelo menos no que diz respeito à alimentação: se faltar grana para a comida, a ministra da agricultura, pecuária e abastecimento, Tereza Cristina, dá a dica: “Nós não passamos muita fome porque temos mangas nas nossas cidades”.

Não sei como estão os mangueirais no Brasil afora. Nas palavras da ministra, “não passamos muita fome”, o que autoriza a conclusão de que há quem passe alguma fome; e que só não passam mais fome graças às mangas; ou que se o sujeito estiver com fome, é só ele se valer de mangas, já que, de acordo com a ministra, há delas em nossas cidades. De fato: daqui de casa, pude divisar dois pés de manga, um em cada um de quintais nas redondezas.

A fala de Tereza Cristina também autoriza concluir que aquele que por ventura estivesse passando fome poderia ter uma alimentação à base de manga; ou só de manga, já que se o sujeito não tem dinheiro para comprar outros alimentos, restaria a ele a opção de ir ao pé de manga mais próximo e colher uma fruta. Se ela não estiver totalmente madura, esse sujeito pode, talvez, pedir algum sal emprestado, na tentativa de temperar a iguaria.

A ministra não revelou dados sobre se o número de mangueirais atenderia de modo apropriado os que têm fome. Mas caso ela concorde com o pensamento do Paulo Guedes, pode ser que ela esteja levando em conta que, dependendo da situação, quando o sujeito se aposentar, recebendo quatrocentos reais por mês, como a reforma da previdência prevê num dos casos, haverá, quem sabe, dinheiro para comprar... mangas, as quais, além de estarem à disposição, segundo Tereza Cristina, nas cidades, podem ser adquiridas nas casas do ramo.