quinta-feira, 29 de outubro de 2020

O jogo tem vencedor

O jogo dos que se dedicam a retirar do povo direitos que estão na Constituição é vitorioso. O sucesso desses jogadores é tamanho que o desmonte de direitos é aplaudido também pelos que os perderão, mesmo deles dependendo: o coturno pisoteia a face, que, sorrindo, agradece ao genocida pelo esmagamento. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Adoeça em paz

Uma pequena porcentagem dos que elegeram o atual chefe do executivo federal não depende do SUS. Para esses, quando a saúde pública for desmantelada, a vida deles seguirá na mesma toada, pois têm condição de arcar com os custos de hospitais particulares. Todavia, vivemos num país em que 60% dos trabalhadores brasileiros têm renda média inferior a um salário mínimo. Na prática, isso significa que a maioria da população depende dos serviços públicos de saúde.

Não me canso de reiterar: o decreto relativo às Unidades Básicas de Saúde, assinado pelo presidente e pelo ministro da economia, não surpreende, pois sempre deixaram claro que o modo deles de fazer política é não se preocupar com os que não têm condições de bancar serviços particulares, sejam quais forem. Válido mencionar também que muitos dos que não conseguem pagar uma consulta particular aplaudem qualquer iniciativa do governo federal, pois há quem se sinta no dever de agradecer ao chicote que deixa marcas na pele. 

sábado, 24 de outubro de 2020

Ambos

Gosto de roça.
Gosto de cidade.

Gosto de Janis Joplin.
Gosto de Karen Carpenter.

Gosto de loiras.
Gosto de morenas.

Gosto de gente.
Gosto de solidão.

Gosto de guitarra.
Gosto de sanfona.

Gosto de futebol.
Gosto de literatura.

Gosto de Choderlos de Laclos.
Gosto de Catulo da Paixão Cearense.

Gosto de luz.
Gosto de escuro.

Gosto de silêncio.
Gosto de Led Zeppelin.

Gosto de livro.
Gosto de câmera fotográfica.

Gosto de vinho.
Gosto de cerveja.

Gosto de feijão.
Gosto de arroz.

Gosto de vermelho.
Gosto de azul.

Gosto de Garrincha.
Gosto de Maradona.

Gosto de Beatles.
Gosto de Rolling Stones.

Gosto de Camões.
Gosto de Leminski.

Gosto de picanha.
Gosto de rabanete.

Gosto de papel.
Gosto de tela.

Entre um e outro, ambos. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Que morram mais 150 mil

Gastar dinheiro público com cloroquina, que não tem comprovação científica no combate contra a covid-19 e cujos estoques estão encalhados, sem problema. Liberar a CoronaVac, desenvolvida em parceria com cientistas brasileiros, não. Cinismo, burrice, viés ideológico e ódio são componentes dos genocidas.

sábado, 17 de outubro de 2020

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Dinheiro limpo

O senador Chico Rodrigues (DEM-RR) é um dos políticos que mais conseguiram liberar dinheiro de emendas em 2020. O governo do presidente, até terça-feira (14/10), empenhara R$ 15.637.645,00 em emendas do senador, que foi um dos vice-líderes do chefe do executivo federal no senado. Dadivoso, Chico Rodrigues deu emprego para um primo dos filhos do mandatário.

As nádegas e a vizinhança delas comportam, como já é sabido, dinheiro. Em suas intimidades, o senador portava R$ 17.900,00 reais. A título de curiosidade, fiz conta simples, para saber quantas pessoas, em média, seriam necessárias no transporte de R$ 15.637.645,00, levando-se em conta a quantidade de dinheiro que Chico Rodrigues tinha consigo.

Não tendo eu feito a conta incorretamente (caso os cálculos estejam incorretos, gentileza me corrigir), 873 pessoas, arredondando-se para baixo, seriam necessárias para carregar os R$ 15.637.645,00 na cueca. Sabe-se a quê cheira a grana que estava com Chico Rodrigues. O que não se sabe é se 872 pessoas já lavaram o dinheiro. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

15/10

Há um cinismo ou uma hipocrisia de que pouco se fala — o cinismo ou a hipocrisia de parte dos que cumprimentam professores no dia 15 de outubro. Isso pode partir de quem é aluno, de quem já foi, de quem inventa burocracias inúteis para atravancar a vida dos professores ou de quem apoia políticas ou políticos que são contra os docentes.

Alunos que desrespeitam ou desrespeitaram a convivência em sala de aula, superiores que se concentram em burocracias inócuas e se esquecem de que pessoas valem mais do que papéis imbecis, políticos que lideram campanha contra o trabalho de quem ensina. Mas, em todo ano, é a mesma coisa: mensagens piegas e fingidas a favor dos professores são veiculadas.

A melhor maneira de homenagear um professor é deixá-lo exercer o trabalho dele. No dia a dia, não há isso. A aula não flui devido a desrespeitosas atitudes, burocracias e reuniões inúteis tomam horas, políticos perigosamente demagogos têm a missão de atacar quem está em sala de aula ensinando.

Em tese, eu não precisaria dizer que não estou generalizando. Ainda assim, digo que não estou generalizando. Digo também: não expresso neste texto a opinião de uma classe; expresso opinião que é minha. Dito isso, há pessoas que, de fato, contribuem com o trabalho dos professores. Repito: não estou generalizando. Nem todo mundo que parabeniza os professores é cínico. Os que não são, com frequência, não se dedicam a mensagens hipócritas ou insinceras. Eles demonstram em atos, não em palavrório tosco, o respeito ao próximo.
 
Quanto aos cínicos e aos hipócritas, não deveriam perder tempo escrevendo mensagens açucaradas. Melhor seria se deixassem os professores em paz, melhor seria se deixassem os professores trabalharem, seja em sala de aula, seja os poupando de burocracia, seja não instando ignorantes a se voltarem contra eles. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

... Eles existem

Não confiamos nos narradores dos contos de Edgar Allan Poe. Um dos menos confiáveis é o narrador de “O caso do sr. Valdemar”, publicado pela primeira vez em dezembro de 1845. No enredo, um sujeito interessado em magnetismo, que será explicado em linhas gerais já, já, diz a princípio que ainda não havia tido a oportunidade de usar esse conhecimento no momento em que alguém estivesse morrendo. 

Sobre o magnetismo, também conhecido como magnetismo animal: no século XIX, o médico alemão Franz Anton Mesmer tratou de pacientes que padeciam de espasmos epiléticos e transes sonambúlicos. A técnica de que ele se valia tornar-se-ia conhecida como mesmerismo. Mesmerismo ou magnetismo são termos intercambiáveis; algumas técnicas do magnetismo foram incorporadas depois na hipnose. No conto de Poe, o narrador, repito, é entusiasta do magnetismo, que, no período oitocentista, foi usado como tratamento e como paliativo contra dores. Para os adeptos da prática, os humanos, os demais animais e os vegetais teriam uma força natural invisível; essa força poderia curar, sendo transmitida pelo magnetizador para o magnetizado.

Ele combina então com um amigo (o Valdemar do título do conto) que essa tentativa seria feita quando os médicos decidissem que a morte de Valdemar, que era tuberculoso, era iminente. Feito o procedimento, o magnetizado é dúbio no que responde, afirmando estar morto e magnetizado. De qualquer modo, o narrador e uma pequena junta médica deixam Valdemar nesse estado ou nesse limbo por quase sete meses, tendo confabulado que despertar o tísico senhor seria causar a morte dele. Quando, por fim, decidem desmagnetizá-lo, há o horrendo desfecho (em Poe, a expressão “horrendo desfecho” soa até redundante).

Poe, não somente em função de seu trabalho em jornais, mas também por causa de sua mente analítica, interessou-se pela ciência da época, num tempo em que ciências como a medicina e a psicologia ainda não haviam definido com exatidão seu campo de estudo. A atmosfera romântica ainda pairava; não raro, relatos de casos clínicos soavam mais literários do que científicos.

Não nos esqueçamos de que Poe é literato, e um literato imbuído do romantismo como movimento cultural. Poe se vale da ciência para dar verossimilhança às histórias que conta, mas uma verossimilhança que se sustenta, é claro, no ambiente diegético dos contos. Poe não quer fazer ciência, mas, sim, levar à literatura o que a ciência da época andava investigando, levar à literatura o que seria padecer dos distúrbios estudados pela ciência da época. 

Volto à ideia de que Poe deu verossimilhança ao conto de terror, de mistério, mas, em saboroso paradoxo, não raro, Poe cria um narrador que não inspira confiança no leitor (o mesmo ocorre quando lemos as palavras de Dom Casmurro). No escritor inglês, os narradores podem estar sob o efeito de drogas ou podem ter propensão a alucinações ou a demais estados de alteração mental. 

Alguns exemplos: Egeu, o narrador de “Berenice”, declara que sua estirpe “tem sido chamada uma raça de visionários”; William Wilson, no conto de mesmo nome, revela que descende “de uma raça que se assinalou, em todos os tempos, pelo seu temperamento imaginativo e facilmente excitável”; o narrador de “O coração denunciador” afirma que tem sido “nervoso, muito nervoso, terrivelmente nervoso”; o narrador de “Eleonora” também admite que provém “de uma raça notável pelo vigor da imaginação e pelo ardor da paixão”. E como fica o narrador de “O caso do sr. Valdemar”? O título original do conto é “The Facts of M. Valdemar’s Case”. Chamo a atenção para a palavra “fatos”. Vamos, pois, a eles...

Logo no segundo parágrafo, o narrador anuncia: “Torna-se agora necessário que eu exponha os fatos [itálico do autor] – até onde alcança minha compreensão” [1]. Todavia, no décimo parágrafo do conto, o narrador, que, curiosamente, identifica-se com uma inicial, a letra “P” (quem sabe, uma brincadeira com “P” de Poe), declara: “O senhor L***1 teve a bondade de satisfazer meu desejo de tomar notas de tudo quanto ocorresse, e é dessas suas notas que o que vou agora narrar foi na maior parte condensado ou copiado verbatim [itálico do autor]” [2].

Tem-se, pois um problema: o mesmo narrador, que se predispusera a expor fatos declara que a versão desses mesmos fatos não diz respeito somente ao modo como ele, narrador, presenciou e vivenciou o que ocorreu; tais supostos fatos chegam até nós a partir das lembranças do narrador e das notas tomadas por um médico que compunha a pequena junta que cuidava do sr. Valdemar. O narrador e o médico que escrevera as notas estiveram diante do mesmo fenômeno. Ainda assim, preferiu o narrador se valer também da subjetividade alheia para contar sua história. 

Nem é preciso discutir o conceito da palavra fato nem é preciso debater possíveis motivos pelos quais a objetividade absoluta é impossível para nós. Ainda que o narrador se livrasse de emoções e de percepções e de escolhas pessoais (como se isso fosse possível), o que ele nos conta é a realidade como ela foi percebida não somente por ele, mas também por outras pessoas que estiveram diante dos estranhos acontecimentos que acometeram o senhor Valdemar. Como leitores, temos acesso não somente ao universo perceptivo do narrador, mas também ao universo perceptivo registrado nas anotações de um médico. O narrador assume a “coautoria” do que ele conta.

Isso, por si, já torna problemático o uso da palavra “fatos” no título original do conto, bem como torna problemática a afirmação inicial, por parte do narrador, de que exporia as coisas tais quais ocorreram de acordo com sua compreensão. Uma certa desconfiança já começa a se insinuar no leitor. Essa desconfiança se solidifica quando a “insegurança” do narrador é escancarada. Ele escreve: “Sinto agora ter chegado a um ponto desta narrativa diante do qual todo leitor passará a não dar crédito algum” [3].

O que se tem: aquele mesmo narrador que havia anunciado que contaria fatos, primeiramente se vale de anotações de outra pessoa para narrar o que ele mesmo, narrador, havia presenciado. Depois, ainda que estando a narrar, volto a insistir, fatos, o narrador diz que “todo leitor passará a não dar crédito algum” no que lerá. 

É como se o narrador estivesse inseguro quanto à sua escrita. Ele inicia sua história propalando que haverá fatos, que haverá objetividade, mas, à medida que o relato vai seguindo, o que antes era intenção de objetividade efetiva-se como insegurança narrativa. O que aconteceu com o sr. Valdemar não é nada crível, mas, ainda que fosse, paira em nós a sensação de que, não bastasse o que há de assombroso e sobrenatural no que é contado, o narrador é um dos “culpados” para que duvidemos da veracidade do que se conta.  Terminada a leitura, fica para o leitor não o ideal da objetividade, mas a presença da subjetividade, algo que, por fim, era tão caro aos românticos. 

Há outro aspecto desse narrador que me chama a atenção: nos contos de Poe, os narradores são, eles mesmos, os que têm alterações em suas mentes. É bastante divulgada a noção de que uma das inovações de Poe foi ter feito com que o medo ou o terror estivessem não no mundo físico, exterior, mas na mente de quem narra a história. É o que ocorre nos contos que mencionei há pouco. Todavia, pelo menos em tese, a despeito da desconfiança que o narrador de “O caso do sr. Valdemar” provoca, não é ele, o narrador, que está passando por uma alteração de seu estado mental. Poder-se-ia alegar que apenas uma mente enlouquecida alegaria haver algum fato na história de um homem que, magnetizado, fica num limbo entre a vida e a morte. Mesmo assim, o terror que lemos, em teoria, não é criação da mente do narrador, mas algo pelo qual passa o desafortunado Valdemar. Não é o narrador que, ainda que narre em primeira pessoa, procedimento comum em Poe, está passando por uma experiência mental drástica e aterradora, mas outro personagem cuja história é contada, e isso faz com que o narrador de “O caso do sr. Valdemar”, ainda que tenha nos contado algo que permeia o imaginário assombrado e assombroso de Poe, seja uma exceção no universo criado pelo escritor norte-americano.

Mas, ainda assim, não nos esqueçamos: estou falando de Edgar Allan Poe. A despeito do que defendo quanto à técnica narrativa em “O caso do sr. Valdemar”, poderíamos cogitar que, mesmo assim, o narrador estivesse, ele também, passando por alguma alteração mental? Caso sim, isso seria algo que minha leitura não detectou. De qualquer modo, a razão, tal qual a concebemos, não habita os contos de Poe. Quando se trata dele, o que posso afirmar é que eu não acredito em narradores, mas que eles existem, eles existem.

_____

[1] Poe, Edgar Allan, 1809-1849. Contos de terror, de mistério e de morte. Tradução de Oscar Mendes. 6ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 2017. Pág. 208.

[2] Idem. Página 211.

[3] Ibidem. Página 214. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Mandante e mandados

O mandatário mistifica os crédulos. 
Os crédulos mitificam o mandatário. 
Há mugidos bestiais, risos infames. 
Entre a mistificação e a mitificação,
o país, agora incendiado, sucumbe. 

Chega de índios

É... Ainda bem que os europeus chegaram aqui em 1500. Há quem diga que chegaram antes. Não importa. O que importa é que chegaram. Por que foi bom eles terem chegado? Ora, porque índio só sabe botar fogo nas coisas. O que seria da natureza do Brasil se os europeus não tivessem chegado aqui? Mesmo hoje em dia, aqueles danados (não os europeus, mas os índios) insistem em destruir a natureza. Pelo menos se estivessem incendiando a casa deles... Se fosse isso, seria um favor que estariam fazendo para nós. O problema é que ao botarem fogo no ambiente, os índios acabam prejudicando quem não é índio, ou seja, os índios acabam prejudicando as pessoas.

Não vou nem mencionar que esses selvagens preguiçosos e iletrados não sabiam nada de Deus antes de os europeus chegarem aqui. Um bando de almas pagãs que não conheciam desígnios e preceitos divinos. Os caminhos do Senhor precisam ser ensinados, não importa se em latim, não importa se com chicotadas. O problema é que essa raça não emenda. Voltaram a botar fogo no que não é deles. Dessa vez, foi lá no Pantanal. Ah, mandasse eu no país... Eu botaria fogo é nesse bando de índio. No mínimo, eu colocaria essa raça para trabalhar. Estou aqui agora num calor danado. Culpa de quem? Desses índios ignorantes que nem falam inglês nem empreendem. Raça improdutiva, indolente, inútil.

Ainda bem que depois dos europeus, vieram os norte-americanos. Eu gosto dos europeus, mas eu gosto de verdade é dos norte-americanos. Aquilo, sim, é um país. Quanta pujança, quanta organização, quanta disciplina. O American way of life é a evolução ou a quintessência da civilidade. Aqui no Brasil, ainda temos de aturar aquela gentalha morena e beiçuda que se sente no direito de queimar o que é nosso por direito. Pudesse eu, pediria apoio dos EUA (país que é modelo para mim, para o Brasil e para o mundo): no mínimo, obrigaria esses índios a se adaptarem ao modo de vida norte-americano. Se quisessem, assim seria; se não quisessem, ou seriam torturados ou seriam dizimados.

Odeio o que atrapalha o progresso, o que é contrário aos caminhos de Deus, o que não é pudico, familiar, virtuoso, patriótico. Por fim, odeio gente hipócrita, gente que diz estar em comunhão com a natureza, mas taca fogo nela. É muita cara de pau, indecência e nudez dessa gente. Sou um sujeito refinado, já estive em dezenas de países, adoro Nova York, conheço Paris como conheço minhas palmas. Não suporto gente suja, suada, caipira, brega. Em vez de banhos de rios, que, aliás, vivem poluindo, esses índios precisam é de um banho de cortesia e de civilidade. Ainda bem que essa gripezinha, que fracotes chamam de covid-19, não afetará o paradigma supremo; diante de todo esse bando de gente descalça e empoeirada, diante desse bando de índios sem caráter, may Trump help us. 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Meu livro no Kindle

Pessoas, a versão eletrônica de meu recente livro, O Fim do Brasil, já está à venda. Nele, posiciono-me sobre o Brasil de hoje, em especial, de 2013 para cá. Em essência, é um livro político.

Para adquirir, é só clicar aqui

Pegadas

O gado mugiu.
Não satisfeito, rugiu.
Insatisfeito, cuspiu fogo.

Queimou 
galhos,
filhotes,
páginas.

O deus que veneram 
anuiu, culpou os índios.
Desembestada, segue a manada.
O legado são rastros incendiários. 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Primavera de 2020

Primavera, sê bem-vinda.
Traz teus 
brotos,
flores,
frutas,
frutos,
rosas,
árvores,
arbustos,
pólenes.

Vem!
Mostra teu viço,
aproxima-te com teus tons,
tuas cores primaveris.
Entra, fica à vontade.
Saudações,
estação florida.
Chega mais perto.

Brota, viceja.
Já antevejo 
as chamas
que produzirás,
já concebo
tuas labaredas
lambendo as estrelas.

Já é hora de
“ir passando a boiada”.
Vais gerar belas cinzas, primavera.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

O Pequod e o Brasil

Se apenas o que é visível for levado em conta, o enredo de Moby Dick (1851) é simples: Ahab, o capitão de um navio, saindo de Nantucket, nos EUA, embarca com a intenção de se vingar de uma baleia que havia devorado uma das pernas dele. Claro, trata-se de um livro em que há aventura. Todavia, Herman Melville (1819-1891) não escreveu somente sobre o percurso de uma embarcação rumo ao que seria seu destino: ler o livro assim seria como singrar a superfície das águas do mar sem cogitar suas profundezas. Moby Dick, como todo grande livro, está aberto a diferentes leituras, que se renovam, que podem descortinar uma grandeza tão descomunal quanto a de um cachalote.

Quem narra a história é Ishmael, que estava a bordo do Pequod, o vingativo navio baleeiro chefiado por Ahab. Já em alto-mar, ele, durante discurso inflamado contra a baleia que anseia por matar e com a intenção de aliciar a tripulação para sua causa, é interpelado por Starbuck, o primeiro imediato, que menciona a insanidade que é vingar-se de uma baleia, criatura que atacara Ahab por instinto. Não concordando com Starbuck, Ahab vocifera: “Todos os objetos visíveis, homem, não passam de máscaras de papelão. Mas em todos os eventos — na ação viva, na façanha incontestável — revela-se alguma coisa desconhecida, mas racional, por detrás dessa máscara irracional” [1].

Para Ahab, o cachalote que o atacou agira premeditada e racionalmente. Ao longo do livro, Ahab e a tripulação do Pequod atribuem a Moby Dick, a baleia, adjetivos de que nos valemos para nos referirmos a coisas humanas. O livro de Melville pode ser lido como um embate do homem contra a natureza, mesmo ele preferindo ignorar que ele mesmo é essa natureza contra a qual luta; lutar contra a natureza é lutar contra si.

Ahab, junto à tripulação, num ódio que é tão forte quanto convincente, insiste em justificativas irracionais para matar uma criatura que não é dotada de razão humana. Ele enxerga na baleia o que ele tem em si, numa relação que não é especular, pois o gigantesco animal marinho não é dotado da ciência de que Ahab é. Quando do primeiro encontro entre eles, Moby Dick lutou pela vida, enquanto era atacada por Ahab e comandados. Ao engendrar sua canhestra vingança e nela envolver outras pessoas, pois sozinho não conseguiria levar a cabo sua intenção, Ahab torna-se aquele que age movido não pela inteligência, mas pelo ódio, pela vingança. Moby Dick atacou não porque odiava, mas porque instintivamente queria sobreviver. Ahab quer voltar a atacar não porque precisa, mas porque odeia. Moby Dick lutou pela vida; Ahab quer lutar pela morte.

Há outro aspecto muito instigante em Moby Dick, o de que Ahab conseguiu fazer com que uma coletividade embarcasse numa loucura individual. Das várias análises a que o livro pode se prestar, essa é uma das mais profícuas. Ahab envolve o grupo, a partir de fervoroso discurso feito no tombadilho, na causa dele, que é o mesmo que dizer que Ahab envolve o grupo no ódio, palavra essa usada pelo narrador, que é dele, Ahab. Assim, o ódio de um se torna o ódio dos outros; o ódio de um é comunicado para os outros. Ao comunicar seu ódio com retumbância, Ahab contagia os demais. Diz Ishmael:

“Assim, pois, estava esse velho homem [Ahab], grisalho e sem Deus, perseguindo com maldições a baleia de Jó ao redor do mundo, comandando uma tripulação composta basicamente de mestiços renegados, náufragos e canibais — também debilitados moralmente pela incompetência da mera virtude ou honradez perdida de Starbuck, pela invulnerável jovialidade, indiferente e despreocupada de Stubb [o segundo imediato], e pela mediocridade que prevalecia em Flask [o terceiro imediato]. Tal tripulação, com tais oficiais, parecia ser especialmente selecionada e reunida por uma fatalidade diabólica para ajudá-lo em sua vingança monomaníaca” [2].

Tem-se, então, um sujeito vingativamente louco que, não só pela força de seu argumento — há uma “fatalidade diabólica” na “equação” —, envolve os demais na loucura dele. Dizendo de outro modo, a tripulação do Pequod, também em função do acaso e das circunstâncias, estava “pronta” para as insanidades de Ahab. É evidente: um bando de ignorantes e simplórios embarcou na loucura de um... capitão... O acaso ou algo que não sabemos precisar fez com que aqueles homens estivessem naquela embarcação. Na sequência do trecho citado há pouco, Ishmael prossegue:

“Por quais motivos eles [a tripulação do Pequod] reagiram tão vigorosamente à ira do velho — que feitiço diabólico tomou conta de seus espíritos, a ponto de às vezes acreditarem ser sua a raiva de Ahab; e a baleia branca, inimiga inatingível, tão sua quanto dele; como é possível — o que a baleia branca representava para eles, ou como em sua compreensão inconsciente, de algum modo obscuro e insuspeito, ela parecia ter sido o grande demônio imperceptível dos mares da vida — para explicar isso tudo, seria necessário ir mais fundo do que Ishmael consegue” [3].

Moby Dick é tão inescrutável quanto a história que conta. O narrador conta o que sabe, ciente de que não conta tudo, pois há algo subjacente e que permanece indizível, imperscrutável, embora possa ser intuído. A baleia, o Pequod, o mar, Ahab... Tudo é símbolo. Para explicar tudo isso, seria necessário ir mais fundo do que Lívio consegue.

Linhas depois de Ishmael dizer que não alcança a plena compreensão do que narra, ele conta: “Quanto a mim, cedi ao abandono das circunstâncias e do lugar; e, ainda que estivesse apressado para enfrentar a baleia, não podia ver naquela criatura coisa alguma além de maldade mais fatal” [4]. O Pequod tornou-se um baleeiro louco singrando pelos mares a fim de matar um cachalote a quem o insano Ahab atribuíra a capacidade de raciocínio por trás da “máscara” de baleia.

A tripulação pratica ódio fomentado pelo comandante do navio. Antes de embarcarem no Pequod, aqueles homens simplórios já tinham vontade de odiar? A pergunta, retórica, é para dizer que as circunstâncias atuais, no Brasil, uniram o ódio de um (ou de alguns) com a latência cheia de ódio de muitos. Ahab tinha a eloquência. No Brasil de hoje, a fim de trazer à tona o ódio, ela não é mais necessária — basta que se odeie. Quanto mais toscamente esse ódio for propalado, mais eficaz o contágio será. Fosse o Pequod exatamente como o Brasil, bastaria a Ahab grunhir algumas palavras, pegar o bote e desafiar Moby Dick — e os demais seguiriam o capitão. O ódio de Ahab, por mais que ele alegue haver algo racional na baleia, é um ódio contra algo que não é humano, ainda que maléficas características humanas sejam dadas a esse algo. Capitães há que voltam seu ódio não contra cachalotes, mas contra pessoas. Melville já nos ensinou como histórias cheias de ódio acabam.
_____

[1] Melville, Herman. Moby Dick, ou A baleia. Tradução de Irene Hirsch e Alexandre de Souza. Prefácio de Albert Camus; posfácio de Bruno Gambarotto. São Paulo. Editora 34. 2019. Página 177.

[2] Ibidem. Páginas 200 e 201.

[3] Ibidem. Página 201.

[4] Ibidem. 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Violências

Há uma violência que é evidente, como a que ocorre, por exemplo, quando o exército dispara centenas de tiros contra inocentes. Ainda que algum político diga que o exército não matou ninguém num caso como esse, isso é algo violento, bem como é violento um torturador ou quem quer resolver as coisas distribuindo porradas em quem faz perguntas que devem ser respondidas.
 
Todavia, há outro tipo de violência que é sorrateira, sub-reptícia, sutil, melindrosa. O objetivo dela é destruir a inteligência, a sagacidade, o pensamento, a ciência. Aliás, o objetivo dela é fazer com que essas conquistas estejam disponíveis para poucos. Pode-se acabar com uma rede de farmácias populares desde que os ricos possam se valer da ciência em hospitais particulares; pode-se taxar livros, impedindo o acesso do pobre à leitura, desde que os ricos possam enviar os filhos para serem formados no exterior. 

A violência evidente é mostrada por intermédio da imprensa sensacionalista. É o sangue que jorra das telas de TV, que escorre das páginas dos jornais e que tinge as telas dos computadores. Já a violência sutil demanda alguma inteligência para ser percebida e algum esforço para ser criticada, o que aumenta sua eficácia. Como consequência, passa a ser louvada também por parte daqueles que são vítimas dela. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Teclas

Sem pudicícia,
a mão assassina
elege milícia.

Com astúcia, 
a mão assassina
elege a súcia. 

Desavergonhada, 
a mão assassina 
elege a porrada.
 
Da ribalta,
a mão assassina 
elege a malta.
 
Como serva,
a mão assassina
elege a caterva. 

Do pódio, 
a mão assassina
elege o ódio.

Com alarde,
a mão assassina 
elege o covarde. 

Sem pudor, 
a mão assassina 
elege torturador. 

Com descaramento,
a mão assassina elege
o desmatamento. 

Com arrogância, 
a mão assassina elege 
a ignorância. 

Com sandice,
a mão assassina elege 
a burrice. 

Primeiras-damas

 Marcela:
“Bela, recatada e do lar”.

Michelle:
bela, recatada e dólar. 

Jornada

É preciso aprender, seja o que for, não somente para que confirmemos que sabemos pouco demais e o quanto somos pequenos; sim, somos minúsculos, mas, ao mesmo tempo, somos parte de toda a complexidade do Universo. O reconhecimento da pequenez, em saboroso paradoxo, traz maravilhamento ou encantamento. Ou deveria trazer. É que o outro lado da moeda do reconhecimento da pequenez é a ciência do quanto o que está fora (ou dentro) de nós é sutil, intrincado. Aquele que não quer aprender ou aquele que não se maravilha já está meio morto. Ou menos vivo.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Haicais

 1
É ele quem ama:
89 mil na conta
da primeira-dama.

2
Feliz é a Michelle.
Sacou, Bolsonaro?:
89 mil à flor da pele.

3
É vil.
Na conta,
89 mil.

4
Ele viu.
Na conta,
89 mil.

5
Ele vil.
Na conta,
89 mil.

6
Desata os nós.
Queres tu 89 mil?...
Chama o Queiroz.

7
Michelle,
89 mil, Bolsonaro
não repele.

8
É isto, meus caros:
motorista com 89 mil
têm os Bolsonaros.

9
É isto, meu caro:
motorista com 89 mil
têm os Bolsonaro.

10
São 89 mil.
É bondade como
nunca se viu. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O feitiço...

O queridinho de parte dos jornalistas os tem vilipendiado desde que assumiu a presidência. Agora, fingem que nada tiveram a ver com a história, arrotando um espírito democrático que nunca esteve neles. Não sabem o que fazer com a criatura em que jogaram confetes e para a qual apontaram holofotes. O monstro que ajudaram a engendrar está pronto para moê-los.

Pancadas

Hoje, a porrada é num jornalista.
Os súditos aplaudem.

Amanhã, a porrada é numa cidade.
Os súditos aplaudem.

Depois de amanhã, a porrada é na democracia.
Esmurrados, os súditos aplaudem. 

Porradas

É algo grave um político dizer que a vontade é de dar porrada ao ser questionado sobre algo que é da alçada dele responder. Algo mais grave ainda são as multidões dispostas seja a aplaudir esse comportamento seja a dar porrada a fim de defendê-lo. 

Na porrada

O menino brigão achava que tudo se resolvia na porrada.
O rapaz brigão achava que tudo se resolvia na porrada.
O homem brigão achava que tudo se resolvia na porrada.
O menino, o rapaz e o homem são a mesma pessoa.

O homem brigão chamou para a porrada outro homem.
O brigão, de cara e na cara, levou um monte de porrada.
Entendeu que insígnias não socorrem quando a porrada
vem direto na cara e um dente vermelho cai da boca.

O homem brigão juntou pudores, não pediu clemência.
O rapaz brigão quis apelar para a benevolência dos murros.
Sob saraivada de porradas, o homem, que é o rapaz.
Esfolado, luxento e chorão, foi embora um menino. 

A porrada como solução

Alguém escreveu — acho que foi o Flaubert, mas não estou certo disso — que “se a imprensa não existisse, seria preciso não a inventar”. Qualquer um sabe dos efeitos prejudiciais que o jornalismo ruim pode ter.

Todavia, perguntar para o presidente sobre os depósitos feitos por Fabrício Queiroz na conta de Michelle Bolsonaro é algo muito pertinente. Não se trata de uma pergunta boba, fora de contexto. Pode-se argumentar que a pergunta vem tarde, pode-se cogitar o motivo de não terem perguntado anteriormente ao mandatário coisas do mesmo teor.

No passado, perguntas similares foram evitadas. Parte da imprensa tenta agora um fajuto mea-culpa que não convence ninguém. Ainda assim, a pergunta sobre os depósitos de Fabrício Queiroz para Michelle Bolsonaro é necessária.

“Minha vontade é encher tua boca com uma porrada”. A resposta do marido de Michelle Bolsonaro é típica dele. Estranho seria se tivesse dado uma resposta adequada, uma resposta de quem tem espírito cívico, uma resposta que elucidasse as transações financeiras do clã, as quais são investigadas, mesmo todo mundo ciente de que a “famiglia” Bolsonaro não será afetada.

Certas questões podem ser difíceis de serem respondidas. Dizer que a vontade é de dar porrada é saída fácil, tergiversação truculenta de quem se acha mais macho que os demais. Exatamente por isso, a resposta agrada a muitos; precisamente por isso, esse tipo de resposta arregimenta admiradores. 

sábado, 22 de agosto de 2020

Razões

Ele é
ameaçador, 
arrogante, 
bobo, 
boçal, 
bronco, 
cruel, 
desavergonhado, 
desinformado, 
despreparado, 
imaturo, 
inapto, 
inepto, 
maléfico, 
mentiroso, 
nefasto, 
perdido, 
pérfido.
perseguidor, 
perverso, 
preconceituoso, 
sinistro, 
sórdido, 
tacanho, 
tosco, 
violento.

Uns o elevaram,
sem vernizes
de cultura,
sem disfarces 
de humanidade,
por ele ser 
quem ele é.

Outros o elevaram 
porque diziam,
em arremedo
de civilidade,
que ele mudaria 
quando vestisse
trajes de gala.

Uns e outros estão contentes 
porque ele é
violento,
tosco, 
tacanho, 
sórdido, 
sinistro, 
preconceituoso, 
perverso, 
perseguidor, 
pérfido.
perdido, 
nefasto, 
mentiroso, 
maléfico, 
inepto, 
inapto, 
imaturo, 
despreparado, 
desinformado, 
desavergonhado, 
cruel, 
bronco, 
boçal, 
bobo, 
arrogante, 
ameaçador. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Haicai 81

O plano é genocida:
para livros, impostos;
para armas, guarida. 

Haicai 80

Para livros, impostos.
Para armas, benesses.
Assassinos a postos. 

Encruzilhada

Nas prateleiras e nas geladeiras,
diversas criaturas mortas.
Há patos, galos, perus...
No açougue, bois, vacas, carneiros...
Algumas espécies podem ser
adivinhadas através das embalagens.
Outras estão fatiadas,
penduradas em ganchos,
sem embalagens.
Demandam conhecimento
técnico para que sejam identificadas.

Num dos corredores do supermercado,
há uma espécie que morreu há pouco.
Lá jaz; parece alheia aos que passam,
que parecem alheios ao corpo,
coberto por guarda-sóis.

Um tanto curioso,
alguém de nome José
quer saber 
o nome da criatura caída,
que segue morta no corredor.
“O nome dele era Moisés”,
diz Mariana, que tem
olhos vivazes.

José agradece a Mariana
pela informação.
Ele segue fazendo compras.
Vai até a seção de frios e
pega um quilo de moelas.
O gerente da empresa
segue averiguando 
os lucros do CNPJ. 

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Ele não lê

Ele não lê poesia.
Sabe que é possível viver sem ela.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse 
“o erro da ditadura foi torturar e não matar”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“eu sou favorável à tortura”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“eu acho que essa polícia militar do Brasil tinha que matar é mais”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“policial que não mata não é policial”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“o exército não matou ninguém”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“Ustra é um herói”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“eu sonego tudo o que for possível”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“espero que saia; infartada, com câncer, de qualquer jeito”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“só não te estupro porque você não merece”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“sou homofóbico, sim, com muito orgulho”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“prefiro ter um filho viciado do que um filho homossexual”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“é só uma gripezinha”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
se tratar de “histeria”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“não sou coveiro”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“e daí?”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“todo mundo morre um dia”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“vamos parar de divulgar números”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“invadam hospitais e filmem leitos vazios”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“hidroxicloroquina salva”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“é preciso tocar a vida”.

Ele não lê poesia.

Sabe que é possível matar sem ela. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

O que importa

Durante o trabalho, na Ilha de Vera Cruz, um servidor não preenche um papel inútil. Os hierárquicos: “É preciso duas cópias do mesmo trabalho. Assine ambas. Depois, refaça o trabalho. Uma vez tendo refeito, envie duas vias dele para os superiores. Depois de enviar, refaça-o e arquive esse refazimento”.

Durante o trabalho, na Ilha de Vera Cruz, um servidor é chamado de “gorila fedorento”. Os hierárquicos dizem nos bastidores “nada podemos fazer”; divulgam nota: “Lamentamos profundamente o ocorrido”. 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Meus livros na Amazon

Pessoas, meus livros estão à venda também na Amazon. Caso alguém aí esteja a fim de conferi-los, é só clicar aqui

terça-feira, 14 de julho de 2020

Flavio Sousa, o corajoso

Em nome da clareza, é necessário eu dizer que trabalhei no Sistema Clube de Rádio por quinze anos. A relação entre mim e eles era estritamente profissional. Nunca me envolvi com campanhas políticas das quais participava o dono da emissora, nunca pedi a ninguém que votasse nele nem nunca votei nele, mesmo quando ele reunia os funcionários pedindo apoio para as candidaturas dele; além do mais, sei que ele e que a família dele não precisam do meu voto. Tanto é assim que têm longa carreira política sem meu apoio. Também nunca votei no outro grupo político local; nenhum dos grupos faz o que considero política; obviamente, sei que esse outro pessoal também não precisa de voto meu. Isso não que dizer que o dono do Sistema Clube de Rádio estava errado em pedir que os funcionários da emissora votassem nele. Comento isso para ilustrar que minha convivência com a direção da rádio sempre ficou no campo profissional. Fiz meu trabalho da melhor maneira que pude (o que não quer dizer que eles gostaram do que fiz); não estando mais na emissora, não fiquei devendo favores de nenhuma natureza para eles (pois nunca os pedi) nem eles ficaram me devendo favores de nenhuma natureza (pois nunca me pediram).

Só hoje, no começo da noite, fiquei sabendo do episódio ocorrido com o Flavio Sousa, locutor, repórter e redator do Sistema Clube de Rádio. Num programa da emissora, Flavio criticou a elite dos Patos de Minas. Por causa disso, ele não mais fará comentários na atração, dedicada, segundo o que me foi informado, a debates. Enquanto escrevo esta nota, o locutor segue trabalhando na empresa como repórter e como leitor de notícia.

Nada é surpreendente nessa história. Nos primeiros contatos que tive com o Flavio, ele havia me procurado para que eu ministrasse para ele aulas, acho, de português. Na época, ele era estudante de jornalismo ou estava prestes a começar o curso. Pensei comigo: “Esse tá começando bem, pois está preocupado com o bem falar e o bem escrever”. Essas aulas duraram pouco tempo, o que não fez com que eu perdesse contato com o Flavio. Não acompanho o trabalho dele no rádio por eu não mais escutar nenhuma das emissoras locais há um bom tempo. Do Flavio, acompanho o que ele tem escrito, lendo o que é publicado em redes sociais, seja uma opinião, seja um artigo, seja um conto, seja um poema. Flavio, além de radialista, dedica-se a escrever ficção, tendo já publicado livro.

A história entre ele, o Sistema Clube de Rádio e a elite local não surpreende porque a opinião do Flavio, bem sei, foi expressão do pensamento dele. Ele não estava fazendo um personagem que se dedica a ter audiência a qualquer custo. O que Flavio disse diante do microfone da emissora é expressão do que ele é, não uma expressão de atitude sensacionalista. A reação da rádio não surpreende porque a mentalidade dos que a dirigem é expressão do que pensa a elite local, do que pensa a elite brasileira, uma elite conservadora que deseja manter às custas dos pobres os privilégios (não merecidos) que vêm de séculos (a quem se interessar pelo tema, indico Jessé Souza ou Darcy Ribeiro).

Flavio não disse nada demais. Contudo, o que ele disse é gigantescamente necessário. Ele fez um contraponto ao discurso da elite. Ora, ela, a elite, já tem todos os espaços para apresentar o que pensa e o que (não) faz. Os pobres não têm recursos nem estrutura técnica para que a voz deles chegue a mais pessoas. A dor deles não aparece nos jornais, valendo-me eu de paráfrase de canção do Chico Buarque, o qual, aliás, não raro, é execrado pela elite que o Flavio criticou.

A direção da rádio divulgou nota, também reveladora e nada surpreendente. A primeira coisa que chama a atenção na nota que divulgaram é o cuidado que eles não tiveram com o português (cuidado esse que o Flavio tem). No que a emissora divulgou há coisas como “houveram excessos”. Contudo, o português incorreto é o problema menor da nota; ela é sintoma do conservadorismo da elite brasileira, que, travestida de bom-mocismo, apresenta o que chama de pluralidade de ideias, quando tal pluralidade não há. Esse, sim, é o grande problema da nota que a rádio divulgou. (Os problemas de português seriam resolvidos se um revisor tivesse conferido o texto.)

Diz a nota deles sobre o comentário que o Flavio fizera: “(...) A direção da Rádio Clube reitera que não se trata de opinião da emissora, tratando-se de livre manifestação do pensamento do profissional, sempre permitida por essa empresa em toda sua história, e em especial neste programa, criado para dar espaço a todas as vertentes de pensamentos. Entretanto entendemos que houveram [sic] excessos e palavras mal colocadas, que acabaram ofendendo pessoas, principalmente ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local, a quem a Rádio Clube pede desculpas”.

A emissora diz haver nos microfones dela “espaço a todas as vertentes de pensamentos”, mas alega ter havido “excessos e palavras mal colocadas” por parte do Flavio. Em essência, o que Flavio disse foi que a elite não está nem aí se os pobres não podem pagar por um exame de detecção da covid-19 e que a elite não dá a mínima se os pobres não podem se dar o luxo de se refugiarem contra a epidemia em espaços milionários. Por fim, Flavio disse que uma elite burra pode servir de “púlpito para candidato burro e despreparado”.

A nota da emissora menciona que o discurso do Flavio ofendeu pessoas “ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local”. Não bastassem o bairrismo e a pieguice do trecho, o que Flavio disse não é agressão pessoal; em nenhum momento ele faz referência a nome(s). Ele diz que uma elite burra cai em balela de candidato burro. Ora, pobre burro também cai em balela de candidato burro. Os que se sentiram ofendidos poderiam alegar, talvez, que o Flavio só criticou a elite burra, nada tendo sido dito sobre os pobres burros. Que a emissora, então, apresentasse um contraponto à opinião do Flavio. Não é isso o que ocorreu. Em vez de apresentar o contraponto, preferiram calar as opiniões do jornalista sob o argumento de que ele foi ofensivo.

Ainda sobre a “livre manifestação do pensamento” alegada pela emissora: quando lá trabalhei, o dono do meio de comunicação era candidato a prefeito de Patos de Minas. Ele concederia uma coletiva para jornais, rádios e TVs. Fui escalado para fazer pergunta em nome da Rádio Clube FM (salvo engano, hoje é chamada apenas de 99FM, mas posso estar enganado quanto a isso). Faltando mais ou menos uma hora para o início da coletiva (não lembro mais onde ela ocorreu), um dos funcionários do Sistema Clube de Rádio, envolvido com a campanha do político e superior a mim na hierarquia da firma, pediu-me que eu mostrasse a ele a pergunta que eu faria durante a coletiva. Depois de a ler, ele disse: “Pergunta outra coisa”. A pergunta era: “Já foi dito que os políticos poderiam ser melhores se mantivessem o hábito da leitura. O que o senhor tem lido?”.

A pergunta era simples; ademais, a leitura ou a falta dela, em si mesmas, nada garantem. O sujeito pode ser leitor e ser um péssimo político, bem como pode nada ler e ser um excelente político. Ainda assim, fui “orientado” a não fazer a pergunta que eu preparara. Não a fiz. Não me recordo do que perguntei, mas como não me remanejaram (o que fizeram com o Flavio), devo ter perguntado algo protocolar, algo que não ofendesse pessoas “ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local”.

A opinião do Flavio não foi ofensiva; foi uma opinião sensata. Sobretudo, ele teve uma admirável coragem, por ter dito o que disse no espaço em que estava. Uma rádio pode adotar a política que quiser, pode manifestar o espectro ideológico que quiser. Sei disso. O que critico é a postura de quem se declara “um espaço democrático da comunidade”. É democrático até o momento em que verdades sobre a elite não sejam ditas. Certos espaços democráticos da comunidade não estão interessados em quem dá voz às agruras dos pobres. 

Meu novo livro à venda

Lancei recentemente meu oitavo livro, O fim do Brasil. Em essência, é um livro político, reflexo do modo como encaro o país. Se você acompanha meu trabalho, eu gostaria de contar com sua leitura. O livro pode ser adquirido aqui

Família

Filho 01.
Filho 02.
Filho 03.

Pai 00. 

sábado, 11 de julho de 2020

Ler e olhar

Teófilo Arvelos, estudante e autor dos livros Parnaso e Lágrima, enviou-me texto de prova da Unicamp. O texto é de uma autora que eu não conhecia — Elena Ferrante. Esse nome é um pseudônimo. Segundo o que li, além de escritora, ela seria tradutora.

Ainda não conheço os livros escritos por ela. Preciso ir atrás deles. Depois de ler o texto que o Teófilo me enviou, acessei o site (o necessário e brilhante The Guardian) de que o escrito havia sido retirado. Na prova da universidade, o texto não estava na íntegra. Eu já havia gostado da versão editada; quando a li sem cortes, eu soube que seria necessário me dedicar a mais coisas de Elena Ferrante. Li todos os títulos que ela publicou na coluna que ela tinha no Guardian.

No site, fosse eu escrever sobre os textos dela em termos de gênero, eu diria serem crônicas, no sentido mais brasileiro que se possa dar ao termo, a boa e velha crônica ao modo dos grandes cronistas brasileiros do século XX. Ou, quem sabe, os textos de Elena Ferrante possam ser considerados apontamentos. Mas a questão dos gêneros textuais não me preocupa.

O material dela no jornal The Guardian é extremamente pessoal, mas transformado em algo universal a partir da linguagem, a qual é tema de um texto que alega exatamente o pensamento de que a universalidade está na linguagem, não nas circunstâncias ou nos estereótipos. A escritora não está preocupada em soar profunda, mas em burilar a linguagem, ato este que é a essência do fazer literário.

Metalinguagem, amor, sexo, amizade e questões femininas estão nos textos de Elena Ferrante. Ela escreve de modo comedido, elegante. Há um charme cerebral, altivo. Os textos da autora são a ponta do iceberg do cotidiano. Lemos o trivial; todavia, um trivial que nos deixa entrever suas complexidades a partir do depurado estilo da escritora.

Isso, por si, é motivo para que se confira os textos dela no Guardian. Só que o espaço merece ser frequentado devido a outra razão também, pois os textos de Elena Ferrante são ilustrados por uma artista chamada Andrea Ucini. Os desenhos dela são obras de arte em si; eles podem prescindir dos textos da escritora, embora, é claro, tenham com eles ligações íntimas. Elena Ferrante e Andrea Ucini nos ofertam felicidade em palavras e em imagens. 

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Meu novo livro

Meu novo livro, O fim do Brasil, está à venda. Para comprá-lo, é só clicar aqui.


Desejo

Que tenha ele vida
longa,
pródiga
saudável.

Mesmo de corpos 
que as negligenciam,
as máscaras caem. 

terça-feira, 7 de julho de 2020

Meu novo livro

Haicai 79

Segues acrítico, 
mas o advogado do “messias” 
escondia “cítrico”.

Haicai 78

Preso, o Queiroz,
mas não é quem vai
desatar os nós.

Haicai 77

Prossegue a intenção:
desde janeiro de 2019, sem
ministro da educação.

Revolução

O método de aprendizagem mais inovador é o estudo. O estudo é o mais inovador método de ensino.

domingo, 28 de junho de 2020

Ninguém sabe que estou aqui

Ninguém Sabe que Estou aqui [Nadie sabe que estoy aquí] (2020), realização da Netflix, com direção de Gaspar Antillo e roteiro dele, de Enrique Videla e de Josefina Fernandez, é um filme que lida com a questão de que a pessoa pode abandonar o talento, mas o talento não abandona a pessoa. Isso, por si, já seria instigante. Todavia, o filme lida também com o acerto de contas que, mais cedo ou mais tarde, tem-se de fazer com o passado.

Primeiro longa-metragem do diretor, a produção conta a história de Memo Garrido [Jorge Garcia], que vive recluso em lugarejo ao sul do Chile. Morando com um tio, Memo leva os dias criando e tosquiando ovelhas, comercializando a carne delas. Ensimesmado e aparentemente rude, ele tem sobre os ombros o peso de um dom não exercido e a lembrança amarga de evento ocorrido na meninice.

Memo nasceu para cantar. Quando ainda era criança, foi vítima de negociata entre o pai dele e os executivos de uma gravadora. A princípio, o que era para ser uma chance de Memo ser o que é, ou seja, o que era para ser uma chance de ele exercer o talento que tem, torna-se expressão do como funcionam as engrenagens do entretenimento, as quais são reflexo do “sistema de erros” (expressão do Drummond) que é o mundo, e de como elas podem abalar o edifício da psique.

A vida de Memo é pesada — metafórica e literalmente. Angustiado, dá vazão, de modo consciente e inconsciente, ao artista que ele é e que precisa vir à tona, seja como for. Ele pinta as unhas, costura roupas para si, devaneia, sonha. Tem vida repetitiva, fazendo um trabalho que não quer, concebendo na imaginação um mundo para o qual ele tem talento, mas cujas portas lhe foram fechadas em função de preconceitos quanto à aparência dele.

Talento não exercido e passado mal resolvido curvam o grande corpo de Memo, corpanzil que só não é maior do que o talento que tem para cantar. É como se o corpo tivesse mesmo de ser grande para abarcar tudo o que Memo é, toda a habilidade dele para o canto e tudo o que ele cala, tudo o que ele sofre. Tanto é assim, que numa simbólica cena que rende homenagem ao realismo mágico, quando Memo não mais está conseguindo guardar em si o que está pedindo passagem em cada poro, a câmera mostra um ser humano que não tem outra saída a não ser deixar jorrar o que ele vinha reprimindo. Repressão hiperbólica requer saída hiperbólica.

Por trás da expressão casmurra dele, há uma delicadeza que somente pode ser percebida por aqueles com sensibilidade o bastante para entenderem ou perceberem que ele é a pessoa certa no lugar errado, um homem maior do que as circunstâncias que ele não consegue mudar. Mesmo não sendo quixotesco, pois os devaneios que tem são a partir de habilidade existente, Memo vive a angústia de não cantar e o peso de quase ninguém saber com exatidão a história por que passou.

O Artur da Távola, na crônica, “Os diferentes”, escreveu: “A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes”. Memo é uma pessoa diferente. Marta [María Paz Grandjean], sobrinha de um comerciante com quem Memo tem contato, deu-se conta disso. 

domingo, 21 de junho de 2020

Mergulho

Eu não me lembrava de quando tinha me visto amar.
Não me lembrava da última vez em que tinha visto amor.
Eu te vi, eu te conheci, eu te senti, eu mergulhei: é mar. 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Haicai 76

Ministro da saúde?!
O mandatário quer é
pobre em ataúde. 

O enfiamento da condecoração

O Olavo de Carvalho já enviou recado para o Bolsonaro, dizendo em que orifício anatômico ele pode enfiar a tal condecoração a ele, Carvalho, concedida. Se ela foi enfiada ou se ainda será (afinal, é ordem advinda de um guru), não se sabe. Carvalho, sobre o qual pesam acusações judiciais, queixou-se de não ter sido ajudado por Bolsonaro quanto a elas, como se o presidente tivesse de ajudar Olavo de Carvalho nos processos que há contra ele. O tom da “revolta” do escritor é movido mais por questões pessoais do que cívicas.

O “filósofo” disse ainda que Bolsonaro “vê bandidos cometendo crimes em flagrante mas não faz nada contra”. Volto à minha tese: até os gambás sabiam que o governo Bolsonaro seria o que está sendo; só um gamo ingênuo e saltitante flanando em verdejantes bosques engoliria a balela da luta contra a corrupção e o engodo de que haveria um modo inovador de fazer política. Olavo de Carvalho, a exemplo de outros, vem agora se dizer decepcionado.

Insisto, volto à questão, reitero, escrevo novamente: é cinismo, seja de quem for, seja de que meio de comunicação for, dizer que era esperado um governo que fosse diferente do que está havendo. Insisto, volto à questão, reitero, escrevo novamente: Bolsonaro não pode ser acusado de estar sendo diferente do que ele sempre deixou claro que já era. Ninguém é ingênuo a ponto de supor que um sujeito como ele faria um governo com teor diverso do que tem havido. O que já existia não deixou de existir. A essência de alguém não se dissolve em função de uma roupa que se veste ou de um cargo que se assume.

Olavo de Carvalho “avisou” Bolsonaro: “Continue inativo, continue covarde e eu derrubo essa merda desse seu governo”. Não sei se haveria nessa fala uma estratégia de Carvalho para que Bolsonaro seja ainda mais truculento (adjetivo brando) do que tem sido ou se, de fato, o “guru” acredita ter o poder de derrubar o presidente. Se for o caso de ele realmente crer que tem o poder de fazer Bolsonaro cair, caso isso ocorra (no que não acredito), não terá sido por causa da atuação de Olavo de Carvalho, que, nesse hipotético cenário, não deixaria de se vangloriar de sua suposta atuação em caso de queda do mandatário.

Moro já foi chamado de comunista. Olavo de Carvalho, pelo menos momentaneamente, está no rol em que está o ex-juiz desde que ele rompeu com Bolsonaro. No futuro, seja por que razão for, Carvalho e Bolsonaro podem voltar a ser amiguinhos se isso for de interesse de ambos. Enquanto isso não ocorre (se é que vai ocorrer), não se sabe do paradeiro da condecoração, que já pode estar nos... anais da política brasileira.