sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Ontem, passou perfume

Boa parte do eleitorado de Bolsonaro não está interessada em algo que soe como diplomacia, diálogo, conciliação. Esse eleitorado, assim que Bolsonaro passou a ser veiculado nacionalmente, logo percebeu que havia nele um truculento que não estava a fim de lidar com civilidades. Tendo Bolsonaro divulgado a carta de ontem, esses eleitores se sentiram traídos pelo mandatário.

As pessoas se revelam em tudo aquilo que fazem, transpiram o que são, gesticulam o que são, falam o que são. A reação de repúdio de parte dos bolsonaristas quanto à carta divulgada ontem é mais uma amostra do quanto não sabem (nem querem saber) como funciona o tão espancado e incendiado, no Brasil, estado democrático. Um país não pertence a um presidente, um presidente não tem a prerrogativa de fazer com um país o que ele bem entende.

As promessas econômicas de Bolsonaro não foram cumpridas. Todavia, o fracasso econômico, político e diplomático do presidente não incomoda parte dos bolsonaristas, que não reclamam de pagar sete reais num litro de gasolina nem reclamam da fome no país nem reclamam do desemprego porque esses bolsonaristas a que me refiro não estão interessados nem no outro nem na democracia; eles têm um fetiche por ditadores e ditaduras.

Esses eleitores, quando afirmam que o Brasil está melhor com Bolsonaro, não têm olhos para o quanto o número de pedintes de esmola aumentou, não têm olhos para os que não conseguem mais comprar alimentos, comprar gás de cozinha. O que incomoda esses eleitores não é a miséria do país, mas uma cartinha infame, mentirosa e cínica. As pessoas se revelam nos motivos pelos quais ficam iradas. 

Se o sujeito não está (ainda) passando fome, se (ainda) consegue abastecer o carro, se (ainda) consegue saborear seu bife no almoço, sem problema se os demais não têm isso. Para boa parte dos bolsonaristas, a questão não é de humanidade: se eles (ainda) têm o que desejam, melhor ainda que seja, ocupando o poder, um “macho-mito” que fala alto e que, se for o caso, manda fechar seja o que for para demonstrar a “macheza” “mítica” que tem.

O Brasil (ainda) não chegou a outro golpe. Bolsonaro vai tentar um novamente, já que não deu certo no dia sete de setembro. O recuo falso por parte do presidente foi uma tentativa de apaziguar o dia de ontem. Hoje, o Sol voltou a nascer. Logo, logo, boa parte dos bolsonaristas terão mais do que estão sedentos, ou seja, de um sujeito que defende o extermínio dos adversários, que defende ditadores e que liberou o incêndio do país em nome dos interesses de uns poucos. Não importa se o Brasil pega fogo, não importa se as pessoas não têm o que comer, não importa se os índios estão sendo assassinados. 

Boa parte dos eleitores de Bolsonaro não vão assumir a miséria que ajudaram a criar porque concordam com ela. A fim de arrumar justificativas para a incapacidade e para a crueldade do presidente, esses eleitores ora culpam o passado, ora culpam o STF, ora culpam o comunismo (sic). A culpa nunca é de quem votou num sujeito que, durante toda a trajetória política, sempre deixou muito claro que matar é a especialidade dele, como ele mesmo já admitiu publicamente. Para um gambá, o cheiro de outro gambá é agradável. Os eleitores que ainda apoiam Bolsonaro podem ficar tranquilos. Ontem, ele só passou um perfumezinho. Hoje, está de volta a essência dele; ele já está cheirando a ignorância, a violência e a morte. Bolsonaro é putrefato. 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Sem ilusões

Fico imaginando a cara de Bolsonaro ao ver divulgada a carta em que ele diz ser democrata. Ou seja: até quando quer soar conciliador, ele mente, pois ele nunca foi nem é um democrata. Bolsonaro fraquejou para tentar salvar a pele. Disse que respeita as instituições e a constituição. Mentira. Ainda assim, uma mentira que mostra o quão acuado e enfraquecido está. O “mito” subscreve declaração em que diz respeitar o STF. Mentira. Os bolsonaristas têm um “deus” que assina algo contrário à sua essência, algo escrito por Michel Temer, sujeitinho tão desprezível quanto o antidemocrata e covarde (em qualquer acepção do termo) Bolsonaro.

Só que um vaidoso ególatra como Bolsonaro não vai engolir calado a vergonha que está sentindo por causa da divulgação da carta de hoje. É muita humilhação para quem vinha descumprindo a constituição há décadas; é muita humilhação para quem não tem o menor espírito estadista. Bolsonaro bem que queria entrar para a história como um dos grandes. Agora, além de entrar para ela como um genocida miliciano, nela estará como quem arrega. Caras como ele são meninões mimadinhos que, quando em aperto, fazem xixi nas calças e chamam a mamãezinha.

Contudo, não pode haver ilusão. Ele é um moleque fracote, mas está no poder, é perigoso e tem seguidores perigosos. Justamente por estar com o ego ferido, é questão de pouco tempo para que Bolsonaro volte a atacar a democracia. Pode ser que os novos ataques venham por intermédio de atos. Bolsonaro não vai engolir, sem nada fazer, as palavras que ratificou hoje. Ele não está em nenhuma linha do que diz o texto da carta. Ele não deixou de ser o tolo belicoso que sempre foi. Por causa da vaidade, não vai admitir que está ferido. Com a cabeça no travesseiro, sabe que está; com a cabeça no travesseiro, vai urdir os próximos ataques. 

Especialidade

Ainda quando estava em campanha presidencial, na mesma fala em que Bolsonaro havia dito “minha especialidade é matar” (o que, coisa rara, não era bravata), o agora mandatário, referindo-se naquela ocasião a Paulo Guedes, disse: “Ele tem que dar conta do recado. O quê que é dar conta do recado?: inflação baixa, dólar compatível, que não prejudique as exportações nem prejudique as importações (...), diminuir a carga tributária” (...). Hoje, sabe-se que Bolsonaro somente cumpriu a parte em que é especialista. 

"Eficácia"

O governo Bolsonaro deixou vencer a validade de estoque de medicamentos, vacinas e testes de diagnóstico. Essas perdas serão incineradas. O valor delas: duzentos e quarenta milhões de reais. Dentre o que vai ser descartado, há itens para pacientes com diabetes, hepatite C, câncer, Parkinson, Alzheimer e tuberculose. Também perderam-se frascos para aplicação de vacinas contra gripe, BCG, hepatite B e varicela. Seja com armas, seja não comprando vacinas contra covid, seja deixando produtos vencerem, o bolsonarismo é criativo ao matar. 

Robôs que aliciam

No filme Ex Machina, há um momento em que o personagem Nathan [Oscar Isaac] está explicando para Caleb [Domhnall Gleeson] que Ava, a máquina criada por aquele à semelhança de uma mulher, poderia ter sexo e prazer. No original, Nathan diz: “In between her legs, there’s an opening, with a concentration of sensors. You engage’em in the right way, creates, a pleasure response”.

Vi os créditos até o fim; não foi inserido o nome de quem traduziu as falas. De todo modo, na legenda, assim ficou: “Entre as pernas dela, há uma abertura com vários sensores. Se aliciar da forma certa, terá uma resposta de prazer”. Não sei se a pessoa que traduziu fez de modo deliberado, mas achei divertido ela ter usado o verbo “aliciar” — Alicia Vikander interpreta Ava. 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Claro hiato

O começo é escuro.
O fim é escuro.
A paz é escura.

A claridade é
só um átimo.
A luz é
só um hiato. 
_____

(Salvo engano, esse texto já havia sido publicado como fazendo parte de um fotopoema.)

Joga fora

O governo Bolsonaro deixou vencer a validade de estoque de medicamentos, vacinas e testes de diagnóstico. Essas perdas serão incineradas. O valor delas: duzentos e quarenta milhões de reais. Dentre o que vai ser descartado, e que foi comprado com dinheiro público, há itens para pacientes com diabetes, hepatite C, câncer, Parkinson, Alzheimer e tuberculose. Também perderam-se frascos para aplicação de vacinas contra gripe, BCG, hepatite B e varicela. Seja com armas, seja não comprando vacina contra covid, seja deixando produtos vencerem, o bolsonarismo é criativo ao matar. 

sábado, 4 de setembro de 2021

Coragem de inteligência e de beleza

O Brasil anda carente de beleza, de inteligência e de magnanimidade. Com a pandemia, os encontros, dentre os que têm consciência, tornaram-se menos frequentes. A má gestão do vírus da covid pelo governo federal e a existência gritante do bolsonarismo, nenhum deles capaz nem de ciência nem de arte nem de inteligência, perfazem um Brasil feio, pleno de meninos valentões — mas que, na hora do aperto, quando confrontados com a justiça que teimam em banir, choram como o que são: criançolas que só entendem sons guturais e que não suspeitam de algo chamado raciocínio, de algo chamado maturidade.

Os detentores da grana e do poder deixaram de ser os mesmos que pertenciam à classe dos intelectuais. Sedimentada essa separação, os ricos do Brasil cooptaram a classe média e fazem dela o que quiserem, a ponto de essa classe média se achar culta, sofisticada e rica porque foi a Paris ou a Nova York e porque leu os livros da moda. Os intelectuais, por sua vez, não têm mais espaço nem na imprensa nem nos meios de comunicação, que se tornaram porta-vozes da burrice e dos preconceitos arraigados em seus fundadores, membros de uma oligarquia que se atribui ares de importância, não se dando conta que cheiram a naftalina, a despeito dos perfumes caros que compram (não há essência que resolva o problema de uma mentalidade retrógrada e nada generosa).

O anseio por beleza, inteligência e magnanimidade está em todos. Os bolsonaristas não têm a capacidade de perceber isso, mas mesmo dentre eles o anseio de algo elevado e significante existe. Para os que não aderiram à perversidade do bolsonarismo, a consciência de um país mais pobre, menos inteligente e com capacidade de beleza obliterada faz com que a busca pela elevação e pela inteligência seja isolada exceção, e não congraçamento, para o qual nascemos, por mais que o bolsonarismo berre o contrário; ele berra por não saber refinar, sutilizar nem embelezar a linguagem.

A beleza e a inteligência nunca devem se calar. Há momentos em que elas têm de ser mais contundentes. Não na esperança de convencer bolsonaristas, não na esperança de sensibilizar mentes toscas. A beleza e a inteligência têm de se esgueirar para que mentes belas e inteligentes sintam que não estão mesmo sozinhas. Por mais que, no campo das ideias, alguém saiba que não está sozinho, é sempre reconfortante quando se tem prova material dessa não solidão. Não caio nessa balela de que o Brasil é maior do que o bolsonarismo; o Brasil é tão ridículo quanto o bolsonarismo. Todavia, sei que o país não é somente o bolsonarismo; o país é capaz de beleza e de inteligência. 

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Reverências

O deus de alguns
se recusa a comprar vacina contra a covid.
O deus de alguns
tripudia sobre os que morrem de covid.
O deus de alguns
defende a tortura.
O deus de alguns
deseja câncer para o outro. 
O deus de alguns
considera que não matar mais é um erro. 
O deus de alguns 
passeia de moto enquanto o país morre de fome.
O deus de alguns
queima os biomas do Brasil.
O deus de alguns
é a favor de ditaduras.
O deus de alguns 
é corrupto.
O deus de alguns
é miliciano.
O deus de alguns
censura ideias.  

O deus de alguns
é venerado por demônios.

Fotopoema 422


 

Voo


 

Perfil

Pudesse, na tentativa de ser grande e de ser carismático, o presidente imolaria um dos filhos. Substitui a imolação por bravatas e passeios de moto, que não escondem a figura beligerante, pusilânime, infantilizada, perversa, ignorante, minúscula e desprovida de inteligência que é. 

Fotopoema 421


 

Passeio


 

Fotopoema 420


 

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

“Groênlandia” “a fora”, de animais únicos “à atrações turísticas”


Que grandes empresas não dão a mínima para clientes, qualquer um sabe. A consequência desse não se importar com os consumidores desemboca no desprezo com o idioma. No dia 24 de dezembro de 2020, o Google estampou em sua página inicial “siga a jornada dele mundo a fora”. No dia 24 de agosto deste 2021, a tela do Windows continha o trecho “de animas únicos à atrações turísticas”. Ontem (26/08/21), enquanto eu assistia à partida entre Fluminense e Atlético/MG, chamada do SporTV exibiu na tela a palavra “Groênlandia”.

Num país em que pessoas aprovam a gasolina custar sete reais, aprovam um presidente imbecil, ditatorial e genocida e aprovam um ministro da economia que não vê problema em o custo da energia aumentar nem em atirarem restos de comida para os pobres, é natural que desleixo com o idioma não seja percebido; se for, esse desleixo é encarado como desimportante. O descuidado com o português é sintoma de um país esculhambado que não capricha em nada. De professores a advogados, passando por juízes, empresários e “coaches”, usa-se uma linguagem que parece querer se articular, mas que acaba transmitindo algo diverso do que era a intenção. 

Qualquer idioma é muito difícil, todo mundo erra ao lidar com palavras. Contudo, o que há em parte do Brasil é preguiça, desinteresse em aprender, não preocupação com o acerto; no caso de grandes empresas, nem contratam revisor. Uma parcela do país é burra, negligente, imediatista. Essa parcela adora falar bem do capitalismo, mas não tem a básica inteligência de perceber que dar resposta a e-mails pode atrair clientes. Escrever mal e falar mal são consequências do modo de ser de uma multidão que exibe com orgulho tacanho a ignorância, por não ter a coragem e o ânimo para buscar o conhecimento. Uma parte do Brasil é um país covarde, pobre e pusilânime, usando disfarce de civilidade. 

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Atire a primeira pedra

Integrante do legislativo municipal, durante reunião da câmara municipal, reclamou de objeto de estudo de estudante de mineração. Na opinião do vereador, em vez de questões sociais, a discente deveria ter se detido sobre “trabalhos voltados sobre a classificação do mineral, calcário, sobre não sei o quê”. De cara, diga-se que o estudo de determinado aspecto técnico não impede o estudo de questões sociais. Manifestar o pensamento de que uma questão técnica anula uma questão humanística é típico de quem desconhece o processo de evolução das ciências e das humanidades. O que é técnico e o que não é técnico são faces de uma moeda.

Ainda se referindo ao trabalho da estudante, o político patense declara: “Os trabalhos feitos, na disciplina dela, que é mineração, não faz [sic] sentido. Isso aí tá parecendo mais trabalho de ciências sociais. Ela não vai chegar numa Vale da vida, vai ficar falando de quilombola pro pessoal. Ela vai querer fazer um estudo, análise daquela terra, daquela mineração, pros trabalhos da empresa. Se eu fosse empresário, contrataria nesse sentido”.

O discurso tem cara de nobreza, de quem se importa com o que está sendo estudado, de quem se importa com o futuro da jovem; todavia, é uma falácia. Primeiro, na proposta de que deve haver uma radical separação entre o que é técnico e o que é social; segundo, por postular que se alguém se envolve com um estudo técnico, não caberia a esse alguém refletir sobre a sociedade em que vive. O discurso da autoridade tem cara de preocupação social, quando, na verdade, está propondo ausência de reflexão.

O fato de alguém estudar uma determinada disciplina técnica não impede que esse mesmo alguém reflita sobre a sociedade que está em torno desse conhecimento técnico. A separação da realidade entre aquilo que é técnico e aquilo que não é técnico é errônea ou malévola. Essa separação pressupõe divisão do que somos, pressupõe que a uns cabe análise técnica e a outros cabe, por exemplo, análise sociológica, e ai do que técnico que se aventurar a análises sociológicas, ai do sociólogo que quiser compreender questões da matéria. 

Na citação do vereador, a Vale foi mencionada. Qualquer busca rápida na internet revela o quanto a Vale é capaz de destruir. Quem está em Brumadinho sabe disso. Ainda assim, numa realidade em que empresas matam pessoas e biomas, o vereador advoga a favor de técnicos que não pensam sobre a realidade em que vivem, mas que tão somente se dediquem a estudar os aspectos técnicos da profissão que exercem ou que possam vir a exercer.

Para a Vale, só para se ter um exemplo, é ótimo que um técnico não pergunte, não questione. A partir da fala do vereador, conclui-se ser ótimo que, digamos, um eletricista não produza pesquisa sobre as injustiças do mundo e sobre o processo histórico. Se o sujeito lida com mineração, na visão do vereador, não caberia a esse sujeito produzir trabalhos que se debrucem sobre questões sociais; esse sujeito, na visão do político, em vez de tentar entender o mundo em que está, deveria se debruçar unicamente sobre minerais.

O vereador ignora (ou prefere passar a ideia de que ignora) o básico: a pedra se chama pedra porque recebeu do homem esse nome; o mineral se chama mineral porque recebeu do homem esse nome. O conhecimento técnico, seja da mineração seja de qualquer outra área do conhecimento, é intermediado pela humanidade, é realização da humanidade. Os minerais não se classificaram, não se nomearam, não se estudaram; as pedras não se coletaram, não determinaram elas mesmas as suas origens, as suas idades. O ser que atribui nomes e classificações à natureza é o ser humano.

Gente não pode ser decalcada nem retirada da teia histórica de que faz parte. A mesma pessoa que estuda uma pedra é a pessoa que chega em casa, abraça os pais ou se emociona com uma canção. A mesma pessoa que estuda uma pedra é a pessoa que pode se perguntar, em trabalho acadêmico, por que os índios estão sendo mortos ou por que o Brasil está sendo queimado. A mesma pessoa que estuda uma pedra pode responder, em trabalho acadêmico, à maneira dela, o motivo de haver brasileiros que defendem tortura e ditadura.

Para gente como o vereador e para empresas como a Vale, é bom que os que estudam pedras não fiquem se fazendo perguntas demais. “Se você estuda pedras, dedique-se a estudar pedras. Nada de ficar estudando quilombolas. Isso não é de sua alçada”, alegariam. Pensamentos como o do vereador desprezam a natureza eclética do ser humano e a reduzem a algo mecânico, obediente, petrificado. O vereador representa um Brasil que não quer gente pensando, mas, sim, pedras.

Pedras não questionam, não têm múltiplos interesses, não expõem realidades incômodas, não fazem perguntas perturbadoras. Pedras obedecem, estudam o que o outro determina que deve ser estudado. Políticos há que não querem cidadãos, mas pedras que votem neles. Tendo votado, que a pedra continue sendo pedra. Uma pedra não retrucará, não contextualizará, não fará associações, não produzirá arte nem história nem ciência. 

Gente não é pedra. Você, que quer viver num conforto em que haja seres estáticos baixando a cabeça, pode espernear. Gente não foi, não é, não será pedra, por mais que você insista. Uma pessoa que reflete sobre si mesma e sobre o mundo em que vive é perigosa porque desestabiliza construções que servem a poucos e banem muitos. Que aquele que queira estudar pedra estude pedra; que aquele que queira estudar questões sociais estude questões sociais. Que aquele que queira estudar pedra e que queira estudar questões sociais estude pedra e questões sociais.

Que a pedra, como metáfora e como material de estudo, seja bem-vinda. Como metáfora, que a firmeza dela sirva de inspiração. Que se tenha firmeza de pedra, delicadeza de brisa, paixão de fogo, paciência de estalagmite. Gente é pedra, vereador; pessoas são pedras; pedras em movimento com asas poderosas, cientes de que “pedras que rolam não criam limo”. Pessoas vão se polindo, lapidando-se, aprendendo, estudando. Ideias impedem que pessoas se tornem lodosas. A má notícia para o vereador é haver pessoas que são pedras pensantes. Quando atiram pedras nessas pessoas, essas pessoas sabem segurar pedras. Em metáfora e em literalidade. 

Lembranças

Sim, Lembranças [Remember me, 2010], dirigido por Allen Coulter e roteirizado por Will Fetters, é estadunidense demais. Defende os valores deles, exalta a individualidade deles, ainda que poetize essa individualidade. Nenhuma obra de arte deve ser estudada fora da realidade que a produz; o problema de Lembranças é exaltar um aspecto da realidade ou da história que corresponde à imagem que os EUA vendem de si, com seus mitos e histórias (de superação). A produção lambe uma ferida que é do país deles e que foi por ele causada. No contexto histórico internacional, uma produção cheia de problemas; como narrativa fílmica, um primor.

Nos segundos iniciais da produção, duas famosas edificações aparecem ao fundo, o que “adianta” o desfecho e confere a Lembranças um caráter não somente típico da imagem que os EUA continuam passando para o mundo, mas também faz com que a própria cidade em que a história se passa seja, por assim dizer, personagem do enredo. O filme, todavia, tem a sensibilidade de perceber que por trás de cada habitante há uma história, e que essa história é avaliada ou reavaliada quando há um momento divisório na vida. 

Aquilo de que somos feitos: nossas derrotas, vitórias, vivências, modo de vida; aquilo que representamos, as coisas que defendemos, o que condenamos; nossas idiossincrasias, o que fazemos, o que deixamos de fazer, o que foi feito de súbito... Isso serve para algo? Caso sirva, para quê? Esses questionamentos ficam rondando a mente depois que o filme termina. Não há respostas; a existência delas poderia incorrer em amadorismo ou em pieguice. 

Lembranças é também sobre o fio do destino, não no sentido de pré-destinação, mas no sentido de esmiuçar o que ocorreu até o dia em que a vida dos personagens foram marcadas pelo histórico evento que há no fim. Como escrito, Lembranças não oferece respostas; em contrapartida, semeia profícuos e belos questionamentos. 

Os personagens convencem ainda que o filme não tivesse o desfecho que tem. Em função desse mesmo desfecho, olhamos para as vidas deles em retrospecto, passamos a nos simpatizar (mais) com eles, que, por serem quem são, já eram convincentes. É rico o modo como o filme mostra o quanto a História reverbera na história de cada dos personagens, e em como qualquer tentativa de compreensão, seja da realidade individual seja da realidade histórica, somente dever ser esboçada a partir do conhecimento. 

Lembranças é um filme sobre um fato histórico? Hum... É... Não há como separar o fato histórico a que faz referência das vidas dos personagens; contudo, a poesia do filme está na necessária compreensão de que o fato histórico tem consequências individuais. A produção lida com histórias individuais na História. 

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Pague minha lua de mel

Há muita gente lucrando, de modo desonesto, com o governo Bolsonaro. Estes, é claro, não se importam com alguma corrupção que possa partir dele ou que por ele possa ser encoberta. Há os que o apoiam por causa das pautas preconceituosas por ele defendidas; num país pleno de preconceituosos, essas pautas ganham adeptos facilmente. Por fim, há os imbecis que caíram na lábia de que Bolsonaro seria combate contra corrupção. Votou em Bolsonaro quem está a fim de lucrar de modo corrupto, quem tem preconceitos e/ou quem acredita em balelas.

Em abril de 2020, o excelente Lúcio de Castro já havia revelado esquema de superfaturamento do então deputado Jair Bolsonaro em reembolso da verba de combustível. Agora, mais recentemente, os autores Eduardo Militão, Eumano Silva, Lúcio Lambranho e Edson Sardinha, livro Nas Asas da Mamata, revelam que Jair Bolsonaro e Michelle Bolsonaro viajaram, durante lua de mel, bancados por dinheiro público. Ainda segundo o livro, Flávio Bolsonaro e Carlos Bolsonaro também tiveram viagens particulares bancadas com dinheiro público.

Os corruptos, os preconceituosos e os tolos não precisam se preocupar: em caso de aperto de algum deles, Paulo Guedes já separou a lavagem, que será oportunamente jogada no chão, para que os famintos possam lambê-la. Será mais um modo de essas criaturas satisfazerem os desejos, gostos e caprichos dos verdugos, que podem fazer, com dinheiro público, quantas luas de mel quiserem. 

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A rocha, o vendaval, a onça sem fome


Há dias, recebi um vídeo, que, tenho a impressão, é montagem. Nele, uma escavadeira, sem intenção de, deixa uma rocha descer uma encosta. Segundos depois, a rocha se aproxima de um carro azul. Nesse momento, o espectador tem dimensão abrangente do tamanho da rocha; ao que parece, ela vai esmagar carro e motorista, que buzina. A rocha para ao lado do carro, tocando-o de leve. Nesse momento, o vídeo termina, com uma voz masculina comentando: “Nossa Senhora! Se essa mulher não buzina, a pedra não tinha parado, não”.

Não sei como a voz sabia que era uma mulher que estava dirigindo (pode até ser que nem houvesse motorista dentro do carro, tendo o barulho de buzina sido acrescentado depois, em edição), não sei onde o fato teria ocorrido, não sei quando teria ocorrido. Sendo peça de ficção ou sendo um breve registro do que estava diante da câmera do celular, o vídeo vai além do divertido comentário feito pelo homem, mesmo já valendo a pena pelo humor que tem.

Antes de eu comentar sobre o alcance não apenas humorístico do vídeo, ele me remeteu a uma montagem fotográfica que me enviaram há alguns anos. No registro aéreo, feito com grande angular, havia uma série de casas de madeira destruídas, quem sabe, por um vendaval, por um tornado ou por algo assim. Em meio aos destroços, intacta, incólume, altiva, orgulhosa, bem no meio do quadro fotográfico, uma única casa. Claro que a inverossimilhança, nesse caso, não é problema. A imagem vale não pelo caráter de realidade com que não se preocupou (nem tinha de se preocupar), mas pelo que ela prega: além da foto, havia uma frase de cujas palavras não me lembro com exatidão. Eram mais ou menos assim: “O Senhor protege a casa do que tem fé” (o que nos leva a concluir que, na fotomontagem, os que estavam nas casas derrubadas não tiveram fé ou não a tiveram, talvez, o bastante — não sei se a fé tem gradações ou se é algo absoluto).

Tanto o vídeo quanto a foto ilustram a crença de que ações ou rogos humanos têm poder de interferir no curso dos acontecimentos ou da natureza, como se os acontecimentos se importassem com a gente, como se a natureza se importasse com a gente. Certa vez, um amigo comentou que, esperando por um ônibus num abrigo, em estrada de roça, percebeu uma onça atravessando o caminho. Ela olhou para ele por um ou dois segundos; logo após, foi embora. Conclusão do amigo: “Ela não estava com fome nem tinha filhotes com fome”.

Se o felino estivesse com fome ou se os filhotes dele estivessem com fome, o amigo poderia ter sido uma opção no cardápio. Não passariam pela cabeça do bicho coisas como “Fulano é gente fina, é um professor responsável, é dedicado pai de família. Vou poupá-lo”. Um vendaval ou um furacão destrói indiscriminadamente, sem levar em conta a fé das pessoas ou sem levar em conta se o cidadão já quitou a última prestação da casa. Uma rocha despencando pela ribanceira não vai mudar o trajeto nem vai parar de rolar por causa de uma buzina, que pode ter sido acionada num reflexo (o que não mudaria a trajetória da rocha).

A natureza é indiferente a prédicas, a apelos, a orações. O homem a modifica não por intermédio do que diz ou do que pensa, mas por meio do que desmata, do que polui, não importa o nome que se dê (desespero na hora do aperto, reflexo, fé) no instante em que alguém roga ou buzina na intenção de modificar a física, a química, a biologia. Do mesmo modo que nada intervirá a favor da zebra no momento em que o leão estiver a centímetros do pescoço dela, nada interferirá a nosso favor quando uma onça faminta ou que se sente ameaçada estiver a centímetros de nos abocanhar. Se nos safarmos, não terá sido por causa de algumas palavras proferidas nem por causa de uma buzina a percorrer o espaço com desespero. A natureza teria sossego se o homem, sempre tão preocupado com o próprio umbigo, se contentasse com proferir palavras ou com buzinar. 

Parvoíces

Bolsonaro é um parvo cruel eleito por cruéis parvos. Prova disso é que continuam o apoiando. O envolvimento do presidente com neonazistas, para ficar em divulgação recente, e a manutenção do apoio ao governante dizem muito sobre ele e sobre os que o elegeram. Afinal, a desumanidade de Bolsonaro já era bem conhecida antes da eleição; afirmar "eu não sabia dela" é cinismo. O que muitos não supunham é a desumanidade dos que o elegeram. 

terça-feira, 20 de julho de 2021

O som da palavra

No que a palavra “vagido” nomeia, em seu primeiro sentido, há algo de primitivo, de atávico, de não domado. Ao mesmo tempo, há algo de delicado; essa delicadeza, não a sinto no som e na fúria de “vagido”, que me passa a sensação de algo bestial, antigo, sem ternura. “Vagido” é forte demais para o que nomeia; vem de madrugadas escuras, frias e impiedosas. É grito animalesco, grave, terrífico. 

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Todo dia

Coisas que não acabam:
louças para lavar
e estupidez.

Coisas que se multiplicam:
estupidez 
e louças para lavar.

Coisas que dão trégua:
louças para lavar
e limpidez. 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Casca de banana

Inácio não tomava casca picada de banana com água. Morreu devido ao então novo vírus, que assolou o planeta naqueles tempos. João Inácio tomava casca picada de banana com água. O vírus não o matou. Ana e José eram um casal; deduziram que João Inácio sobreviveu ao vírus por ingerir o preparado de casca de banana com água. O “mito” deles berrava sobre a eficácia da mistura. Regozijantes, os produtores de banana fecharam contrato com o governo. O vírus entrou em Ana e José. Quando ele morreu por causa do assalto virótico, Ana disse que pelo menos o marido lutara pela vida. 

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Desejo

Que Bolsonaro fique bem. Que a obstrução intestinal, no futuro, torne-se, em processo metonímico, intestino preso. 

Velha ineficácia

O ministério da saúde do governo Bolsonaro admitiu que o chamado “kit covid” é ineficaz para combater a doença. É o mesmo que dizer que não existe tratamento precoce ou que cloroquina e ivermectina de nada adiantam se usadas contra o coronavírus. Os sensatos já sabiam disso. Muitos dos quinhentos mil mortos pela covid, não. Mas sabe-se que muitos continuarão tomando o kit, recomendado por Bolsonaro, por alguns “médicos” e por “especialistas” de WhatsApp. 

sábado, 10 de julho de 2021

Números

500 mil já morreram de covid. Se depender do pouco inteligente, aí são outros 500. 

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Luz, penumbra, sombra

Fotografar é lidar com a luz, seja jogando luz sobre algo, seja se valendo da luz que sobre algo incide, seja revelando a luz que de algo emana. Essas três instâncias podem coexistir num registro fotográfico. Manejando a luz, o fotógrafo é capaz, caso queira, de criar uma gradação que pode ir da penumbra à sombra. Luz, penumbra e sombra são outras três instâncias que podem coexistir num registro fotográfico. 

O “guru” e o “messias”

Olavo de Carvalho já declarou ser contra serviço público de saúde. Depois de anos no exterior, está no Brasil, para se tratar em hospital público. Dessa vez, a fim de se virar nos Estados Unidos, não pediu dinheiro a seus seguidores. Que ele fique bem. Entrementes, pesquisa XP/Ipespe diz que 63% dos brasileiros desaprovam a maneira como Bolsonaro tem administrado o país. Já o Datafolha afirma que 57% dos entrevistados acham Bolsonaro pouco inteligente. Ele não merece tal eufemismo. Em contrapartida, por ter o cérebro que tem, não terá argúcia para deduzir as implicações de “pouco inteligente”. 

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Reescrevendo

Se o Brasil fosse um país sério,
Bolsonaro não mais seria presidente.

Se o Brasil fosse um país,
Bolsonaro não seria presidente. 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Possível, é...

Outro país é possível.
Um que seja 
inteligente e fraterno.
Esse outro Brasil 
nunca existiu
nem jamais 
existirá. 

sexta-feira, 2 de julho de 2021

Quanto vale a "fé"

No Brasil, grupo evangélico fez oferta paralela de vacina para prefeituras. (Aleluia, irmãos!: em nome de um deus, corrupção.) 

Na África do Sul, e por aqui não é diferente, líder da Universal convence fiéis a doarem casas e carros à igreja. Segundo o Intercept Brasil, o “religioso” disse: “Você pega um versículo, pega algo muito atraente aos olhos e faz as pessoas acreditarem que é bom. E eles darão suas casas, seus carros. Não por causa da fé deles, mas porque você falou”. (Aleluia, irmãos!: sempre foi lucrativo investir na burrice alheia.)

Amém. 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

Wizard

Os que concordam com genocidas
ora ficam em silêncio,
ora gritam,
ora posam de patriotas,
ora oram.

Autores e arautos de infernos,
são bestas fétidas sob 
ternos de fino cortes
e vestidos de caras grifes.

Neles, o sorriso é alvo.
Deles, o povo é alvo. 
Wizard se cala,
Bolsonaro berra.

Sem ar, sem dinheiro,
sem vacina, sem vergonha,
há quem beije o chão 
que o “mito” pisou. 

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Mãos impuras

A donzela elegeu miliciano,
elegeu quem lucra com vacina
e com a morte do povo,
elegeu quem põe fogo no país

Brada contra a corrupção,
faz caridade no Natal,
diz amar a natureza.

Sabe manter as aparências:
palmas suaves e unhas reluzentes
não delatam o sangue que escorre. 

Comoção 2

Gente, olha só que fofo: o governo Bolsonaro teria pedido propina de um dólar por dose de vacina. Só um dólar! A nobreza me comove. 

Comoção 1

Luiz Paulo Dominguetti Pereira afirmou que o governo Bolsonaro pediu propina de 1 dólar por dose de vacina. Estou estarrecido: pediram só um dólar. 

sábado, 26 de junho de 2021

Nos braços do inimigo

Se o deputado federal Luís Miranda tiver dito a verdade à CPI da covid, há motivo para que o presidente seja destituído do cargo. Arthur Lira segue reiterando que continuará barrando os pedidos de destituição (o que Rodrigo Maia fez). Apoiadores do presidente não veem problema algum no “mito” mesmo se Luís Miranda tiver dito a verdade. No auê, Bolsonaro, sem máscara, em aglomeração, tira máscara usada por criança, no país que detém o segundo lugar com mais mortes de crianças por covid. Mas entregar uma criança a Bolsonaro diz muito sobre quem estava responsável por ela. 

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Existe alternativa

Por um lado, é preciso louvar a bela iniciativa da editora Autonomia Literária por ter ela editado Realismo capitalista, de Mark Fisher (1968-2017); por outro, justamente em função de o livro ser um monumento, merecia uma edição mais cuidadosa: os erros de português que a tradução tem são numerosos, amadores, irritantes. O livro merece mais.

Realismo capitalista é paradoxal: a lucidez lancinante constata a maçada em que estamos por causa do capitalismo/neoliberalismo; ao mesmo tempo, essa mesma lucidez propõe possíveis alternativas, ainda que elas não exibam contornos exatos; não é propósito do livro sugerir uma solução pronta. Num tom quase casual, Fisher mistura o erudito e o popular, longe de academicismos mas íntimo de uma contundência iluminadora.

É um livro contra, em seu sentido pejorativo, a individualidade, tão queridinha do neoliberalismo, que, exitoso, faz recair unicamente sobre o indivíduo as derrotas que ele vivencia. A balela da meritocracia talvez seja a faceta mais conhecida desse individualismo; todavia, Fisher vai além, discorrendo sobre outro aspecto cruel do neoliberalismo: se o sujeito tem uma doença mental, somente ele é o responsável por isso. O autor leva em conta a dimensão químico-cerebral de problemas psíquicos, mas ele tem a clareza de entender que esses problemas podem ser reflexos de uma sociedade doente: “É óbvio que toda doença mental tem uma instanciação neurológica, mas isso não diz nada sobre a sua causa” [1] (itálicos de Fisher).

A expressão que Fisher usa para esse estado de coisas é “privatização do estresse”. Se o cidadão sucumbe diante de pressões neoliberais, a culpa é somente dele, que, nesse estado de coisas, seria fraco, incapaz. Não bastasse, há ainda o peso da burocracia, que acabou infestando e apodrecendo os serviços públicos. No campo da educação, o autor descreve com exatidão o que se dá em decorrência dessa opressora e estúpida burocracia: “No caso de inspeções de escolas e universidades, o que será avaliado em você não são suas habilidades como professor, mas sua diligência como burocrata” [2].

A solução de Fisher para que uma alternativa ao neoliberalismo seja implementada não tem contornos nítidos, não é um manual com tópicos exatos sobre como resolver a enrascada em que estamos. Além do mais, as saídas que o autor aponta contam com a existência da democracia e de instituições, como, por exemplo, um parlamento, não importa o regime governamental. Fácil perceber que no caso do Brasil uma alternativa que dizime o projeto neoliberal está, no contexto atual, distante.

Todavia, não nos enganemos: em Realismo capitalista, a constatação de que o neoliberalismo venceu não é para que nos entreguemos à ideia de que não há alternativa, “mantra” apregoado por Margaret Thatcher. Há, sim, alternativa. Ela não se evidencia ainda, mas não virá do indivíduo, sobre quem já recaem coisas demais. Dentre outros bens, Fisher escancara que o capitalismo baniu a solidariedade. Não caiamos no conto de que não há nada a ser feito: “É nossa tarefa desenvolver alternativas às políticas existentes, mantê-las vivas e disponíveis até que o politicamente impossível se torne politicamente inevitável” [3].

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[1] Fisher, Mark. Realismo capitalista. Tradução de Rodrigo Gonsalves, de Jorge Adeodato e de Maikel da Silveira. Autonomia Literária. 2021. Pág. 67.
[2] Idem. Pág. 87.
[3] Ibidem. Pág. 151.
 

terça-feira, 22 de junho de 2021

Êxito

Não se pode negar o sucesso do neoliberalismo: implanta no trabalhador a ilusão de que ele conseguirá bancar serviços essenciais privatizados. Ele passa a exigir o desmanche do que é público. Coroando o êxito do neoliberalismo, esse trabalhador aceitará, comovido e agradecido, as sobras de comida que lhe jogarem. Enquanto se alimenta, comprazendo-se com as migalhas e com os restos de comida, supondo-se abençoado quando os tem, considera-se pleno; reverencioso, lambe no chão a lavagem jogada por Paulo Guedes e asseclas. 

Vacinados contra a covid assistem a show

A banda Foo Fighters fez show em Nova York para vinte mil pessoas — todas vacinadas. Por aqui, o presidente continua defendo remédio ineficaz contra a covid e continua sendo apoiado nessa insanidade. Yes, nós temos fool fighters. 

domingo, 20 de junho de 2021

Meio milhão

Até agora, no Brasil, a pandemia produziu onze novos bilionários, mais de quinhentos mil mortos e milhões de pobres idiotas aplaudindo o lamaçal enquanto nele afundam e afundam todos. Arredondando-se (para baixo) o número de recusas de vacina pelo governo federal, tem-se o numeral 100. É como se cada recusa tivesse matado, em média, cinco mil pessoas. Genocidas defendem o exterminador e celebram o extermínio. 

Macabro

Assisti hoje ao editorial da Globo, lido no Jornal Nacional, sobre os quinhentos mil mortos devido à covid. O cinismo é macabro: assistir à Globo dizer coisas como “direito de viver numa democracia” seria o mesmo que ter assistido a Hitler defender, em Auschwitz, o direito à vida dos judeus. 

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Voto

A modinha agora é falar “eu votei em branco em 2018”. De fato, Bolsonaro não é negro. 

Quedas

Sendo reeleito ou não sendo reeleito, sendo presidente ou não sendo presidente, Bolsonaro, mais cedo ou mais tarde, a exemplo de alguns motoqueiros que estavam, há alguns dias, no bolo que o seguia em São Paulo, vai cair. Diferentemente da queda dos motoqueiros, a de Bolsonaro será metafórica. Uma das implicações disso é que, quando cair, ele não vai conseguir se levantar. 

Uso

Deus fica de fora da história quando a religião é usada por desesperados ou quando é usada por canalhas. 

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Ativismo de “hashtags”

Antes que algum apressado se arvore em dizer que neste texto estou sendo incongruente com o que venho escrevendo ao longo dos séculos, digo que sou a favor de serviços públicos. Não sou adepto da sanha neoliberal, sou contra privatizações. Além do mais, embora, a rigor, não seja necessário, esclareço que criticar determinado aspecto do serviço público não é o mesmo que defender privatizações. Minha crítica poderia ser interpretada, devido a alguma ruim e má interpretação, como piscadela a favor de retirada de direitos da população. Não é.

Devido à pandemia, o baixo escalão do serviço público se vê nesta situação: em páginas oficiais de internet e em inócuos e piegas comunicados internos, lê que esse tipo de serviço se diz preocupado quanto à situação da covid no Brasil. Há campanhas a favor do uso de máscara, há dados sobre o número de mortos, há envios de normativas para os servidores sobre os cuidados que, em tese, estão sendo tomados... Tudo muito lindo, mas, no alto escalão, o que vem daqueles que tomam decisões, sem, claro, consultarem o baixo escalão, está em desacordo com o suposto humanismo divulgado por parte do serviço público. Os cargos de chefia, com frequência, são concedidos pelos superiores, sem que tenha havido eleição dentre os pares. O que advém disso nas redes sociais é que servidores que realizam pose de conscientes, de engajados, escrevendo, em seus perfis pessoais, coisas do tipo “#DefendaOSus”, “#VivaOSus”, “#VacinaSim”, “#FiqueEmCasaSePossível”, “#VivaACiência” e afins, nos bastidores do serviço público, assumem pautas tão genocidas quanto aquelas que criticam.

É muito fácil propor ativismo em rede social e, longe do olhar público, assumir pautas que estão em concordância com a anticiência, com a desvalorização da vida (vírus nos olhos dos outros é refresco). Na prática, isso revela uma atitude condizente com a iniciativa privada, em cujas engrenagens o trabalhador é um número. Se amanhã esse trabalhador morre, depois de amanhã, há outro no lugar do morto. O serviço público, com muita frequência, assume em seu aspecto externo preocupações com os cidadãos, quando, internamente, manda os trabalhadores assumirem risco de morte e coloca em risco os que dependem de determinado serviço — mesmo quando há alternativas outras que não contenham esse risco para que uma dada atividade continue em movimento e mesmo quando os servidores em cargos de chefia têm poder de veto, justamente por serem chefes, quanto a proposições contra a vida.

Seria ingenuidade supor não haver no baixo escalão dos serviços públicos quem defenda pautas de morte. Não é preciso procurar muito para achar um burocrata isolado em sua casa, trabalhando à distância, com sua fachada de descolado em redes sociais, sendo, em sua atuação trabalhista, a favor de que os colegas e a população se entreguem a riscos, ainda que haja alternativas para que esses riscos não sejam corridos. Mesmo assim, em sua maioria, o que ainda resta de humanidade nos serviços públicos está no baixo escalão, pois o alto escalão, em suas microesferas de poder, no todo, não dá a mínima para a existência alheia. Tristemente, são raros os que, no poder, importam-se com as vidas dos outros, embora, como já dito, não seja essa a fachada apregoada nem por eles em suas redes sociais nem pelas instituições em que trabalham. Acessei há pouco páginas de diversos órgãos públicos. Todos têm campanhas anticovid e pró-cuidados contra ela em suas páginas. É o falso cuidado, o humanismo de fachada. É a hipocrisia pública virtual. 

sábado, 12 de junho de 2021

Sobre homens e criaturas dos mares

Segundo o relato bíblico, “Iahweh determinou que surgisse um peixe grande para engolir Jonas. Jonas permaneceu nas entranhas do peixe por três dias e três noites (...). Então Iahweh falou ao peixe, e este vomitou Jonas sobre a terra firme”.

A CNN dos EUA noticiou que o pescador Michael Packard ficou de trinta a quarenta segundos na boca de uma baleia, que, aparentemente não tendo gostado dele, cuspiu o pescador. 

Jonas e Michael conheceram o céu — da boca. 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

O primeiro mentiroso

[Antes de ler a crítica a seguir, saiba que, por um lado, não conto como o filme termina, mas, por outro, adianto o que é a maior implicação contida no trabalho.]
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O planeta dos macacos de Tim Burton tem uma cena em que um personagem passa a mão na parede do que restou de uma antiga e empoeirada astronave. Devido à poeira, as sílabas “-ca”, “-li” e “-ma” podiam ser lidas por quem olhasse para a parede. Assim que a poeira ao redor das sílabas é retirada pela mão do personagem, notamos que há o anúncio 

CAUTION 
LIVE 
ANIMALS
[Cuidado Animais Vivos], 

já mostrado no início do filme.

A cena é forte porque Calima é o nome do deus venerado pelos macacos. Em termos simples, mas nem por isso fracos nem com implicações desimportantes, o deus dos macacos não existe. O “ser” para o qual oram todos os dias, o “ser” a quem consagram a existência deles é um engodo. O nome desse deus nasceu a partir de um engano, de um aviso na parede de uma nave.

A existência de deus pode ser uma mentira. Essa é a mais forte implicação em O primeiro mentiroso (2009) [The invention of lying], dirigido e roteirizado por Ricky Gervais e por Matthew Robinson. No universo do filme, ninguém mente nem nunca mentiu, ninguém tem sequer a noção do conceito de mentira. É algo que não está na mente das pessoas, é algo que o cérebro nem cogita nem imagina, é coisa que não faz parte da existência no dia a dia. Assim, um garçom, enquanto trabalha, pode dizer a um cliente que ele não merece a mulher com quem ele está, um funcionário pode dizer ao chefe que não vai à empresa porque não está a fim de trabalhar. A premissa de que estamos num mundo em que ninguém mente é apresentada nos primeiros segundos; temos de nos ater a ela durante todo o tempo. 

Mark Bellison [Ricky Gervais], roteirista de pouco destaque numa empresa, está na casa dos quarenta; é personagem principal e narrador da história. Nos primeiros minutos, logo sabemos que ele será demitido, que não tem grana para pagar o aluguel e que há tempos tem interesse em Anna McDoogles [Jennifer Garner]. As cenas iniciais deixam nítido o que é viver num mundo em que as pessoas não têm sequer o conceito da mentira: Mark está diante da porta do apartamento de Anna (haviam marcado ida a um restaurante). Mal tendo aberto a porta, ela diz que ele chegou antes do combinado, tendo interrompido a masturbação dela; de cara, Anna também deixa claro que não gostou nada da aparência de Mark.

Nesse astral, o filme vai se desenrolando. Sim, rimos das variadas situações, algumas sendo de fato hilariantes, mas, ao mesmo tempo, logo nos damos conta de que não estamos em apenas mais uma comédia (romântica). A gente ri; todavia, ao mesmo tempo, nós refletimos sobre a hipocrisia nossa de cada dia e sobre as mentiras que, de fato, precisamos contar em determinados momentos, o que me remete a Borges, que escreveu (não me lembro das exatas palavras) que não há quem, ao fim de um dia, não tenho mentido, com razão, várias vezes.

Não importa se levamos em conta o título original do filme ou se levamos em conta a versão em português para o título, haverá a primeira mentira. Quando Mark a profere, uma nova dimensão se abre, pois, não nos esqueçamos, ele está num mundo em que não há a ideia da mentira, num mundo em que ninguém mente. Quando Mark inaugura o que chamaríamos de a primeira mentira, uma gama imensa de consequências se descortina. A princípio, Mark as coloca à prova; depois, começa a tirar proveito de ser ele o único humano com a capacidade de mentir.

Ainda que nos perguntemos por que Mark não é tão “cruel” quanto aqueles que dizem para ele a dura realidade da vida que ele vinha levando, a partir do momento em que ele mente pela primeira vez, é questão de pouco tempo para que ele comece a se valer das vantagens pessoais que isso poderia trazer. Além do mais, num instigante aspecto, Mark mente para algumas pessoas a fim de... melhorar as vidas delas, ainda que tal melhora venha por intermédio de uma mentira, o que nos fornece mais uma profícua reflexão.

Fosse isso, o filme já seria rico demais. Mas há o momento em que Mark conta uma mentira para a mãe dele, estando ela prestes a morrer em cama de asilo. Contada a mentira, a mãe, que, há segundos, estava aflita quanto à morte, torna-se serena e morre. O impacto da cena em nós é incomensurável, pois o que Mark contara à mãe foi a “boa” nova de que, depois da morte, haveria um “homem no céu” (Mark não usa a palavra “deus”, pois, obviamente, não há palavra para nomear uma noção que não perpassa a cabeça das pessoas, noção que, até momentos antes de ele consolar a mãe com uma mentira, não estava também na cabeça de Mark) a cuidar de nós, que não seríamos, depois da morte, pó. (Também válido notar que Mark não usa a palavra “heaven”, mas, sim, “sky”.)

Nesse momento, devido ao impacto da cena, eu pausei o filme e me lembrei de Calima. Em O primeiro mentiroso, deduz-se a princípio que, num mundo sem mentiras, não haveria a ideia de deus, não haveria a crença num deus. A mentira contada por Mark à mãe dele é escutada pelo médico que estava cuidando dela e por duas enfermeiras. Logo, logo, o mundo todo estava agitado por uma mentira, perguntando-se quem seria esse “homem no céu”.

Mark passa a ser assediado pela multidão, pela mídia, com o mundo todo sedento para saber tudo sobre o tal “homem no céu”. A partir daí, o filme assume a coragem de debochar, sem perder o tom em que vinha até então, de conceitos arraigados nos corações e nas mentes das pessoas. Em paródias divertidas, Mark anuncia os mandamentos do “homem no céu” ou, tendo sido readmitido no emprego, inventa roteiros ridículos que são ovacionados. Aliás, outro grande ponto do filme, as histórias que Mark passa a inventar como roteirista depois de recontratado funcionam como ácida crítica contra a estúpida credulidade das pessoas, que podem, dentre outras coisas, por exemplo, tomar cloroquina porque um “messias” a indicou ou entregar o corpo a um religioso porque ele disse que o esperma dele seria bom para a fiel.

Tem-se então que O primeiro mentiroso é um filme pesado, denso, “disfarçado” de comédia. É um filme sério, que postula, com coragem e com humor, ideias que estão em discordância com o que tem sido reverenciado há milênios. Há momentos em que gargalhamos, momentos em que nos sentimos embaraçados por termos achado graça de algo, momentos em que ficamos com um riso amarelo, momentos em que percebemos que “há ferrugem nos sorrisos”. O primeiro mentiroso leva ao riso, à reflexão, à filosofia. Não seria diferente ao revelar o segundo mentiroso. 

domingo, 6 de junho de 2021

João Inácio

Contra a covid, João Inácio ingeriu cloroquina, ingeriu ivermectina e ingeriu água consagrada por R.R. Soares, que, aliás, foi internado por estar com o coronavírus. Bosta de vaca, João Inácio não ingeriu, mas passou no corpo, como fizeram na Índia. Julgando-se, pois, blindado, João Inácio morreu de covid. 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Delírio

Paulo Guedes segue realizando seu plano de sucateamento das universidades federais e de corte de bolsas de pesquisa. Não nos esqueçamos de que ele estudou por intermédio de bolsa do CNPq. Enquanto isso, a piauí revela que militares estão se articulando para ganhar bolsas de estudo milionárias. Tudo isso, Juliana Paes e outros imbecis não chamam de “delírio comunista”. 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Copa América (2)

Propostas para compras de vacinas contra a covid são recusadas durante meses. Realização da Copa América é acatada de imediato. Enquanto isso, muitos dos que ainda vão morrer de covid estão apoiando Bolsonaro. A ideia é haver torcida na final da Copa América. É que o vírus não mata a classe média que se veste com a camisa da seleção brasileira. 

Rita

Rita festejou o aniversário de um dos irmãos com parentes e com amigos. Havia em torno de cinquenta pessoas na celebração. Quando disseram a ela que reunir pessoas era algo arriscado por causa da covid, Rita disse: “Não vou morrer disso. Deus não faria isso comigo”. Dias depois, Rita morreu de covid. Deus nada fez. 

Copa América

Tiago vestiu a camisa da seleção brasileira.
Depois, foi a um bar.
Entre amigos, torceu, gritou,
compartilhou covid.
Dias depois, assistindo à 
seleção pela TV,
com futebol, sem vacina,
em leito de hospital,
morreu no exato momento
de gol da seleção oponente. 

domingo, 30 de maio de 2021

Quando não ser notícia é bom

No Brasil, a chamada grande mídia praticamente não noticiou os protestos de ontem contra o governo federal. Felizmente, hoje, não dependemos mais do que o Tutinha veicula na rádio dele para ficarmos informados, não precisamos mais da família Marinho para saber o que acontece, O Globo, Folha de S.Paulo, Estado de Minas e o Estadão servem para embrulhar mandioca. Além do mais, o fato de esse pessoal praticamente não mencionar as manifestações de ontem é sintomático: tivessem elas sido pequenas, teriam sido destaque nos veículos oligárquicos. Não nos esqueçamos de quando a Globo não noticiou, no fim da ditadura, robusto comício a favor das eleições diretas. 

domingo, 23 de maio de 2021

Apontamento

Todo mundo é, do tempo em que vive, beneficiário e vítima. 

Apontamento

Apoia Bolsonaro não comprar vacinas, foi para o exterior se vacinar. Para uma grande parcela da classe média, fácil defender atrocidades de que ela não é vítima. 

sábado, 22 de maio de 2021

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”

Muitos dos que se dizem religiosos alegam falar como se inspirados por deus, enquanto agem como se conduzidos por demônio. 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Apontamento

Supondo-se protegidas por um deus muitas pessoas abrem mão de suas responsabilidades para consigo mesmas e para com os outros. 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Diálogo pedagógico (4)

     — Está havendo reuniões, conferências, simpósios, seminários, apresentações, debates... É gente preparada, competente. Estão propondo o ensino híbrido. Esse pessoal manda bem.
      — O mais legal é que cada um deles está em sua casa. Além do mais, nenhum deles entra nem vai entrar numa sala de aula. Eles agem nos bastidores, são os que verdadeiramente fazem a engrenagem funcionar. E, claro, não podemos esquecer que escolheram o melhor momento para o retorno presencial das aulas, justamente quando a pandemia está matando mais do que nunca.
     — Sim! A ideia é a de que, por exemplo, na segunda-feira, seja colocada em risco, de acordo com os diários dos professores, a vida dos que vão de A a I; na terça-feira, é a vez do pessoal que vai de J a S; por fim, na quarta, os demais. Na quinta, retorna o pessoal de A a I; a coisa, então, segue. Mas isso pode ser modificado caso uma sala tenha, por exemplo, muitos nomes com a letra G.
     — Saquei. E depois tem gente que ainda reclama da burocracia... 

Analclézio

Do facínora, Analclézio aplaude a compra de tratores para “amigos” políticos do “herói” que elegeu, bem como aplaude a tentativa de inserção da covid em bula de remédio que não é para extirpar a doença. Não se dá conta de que pode morrer por causa dela, tomando medicamento ineficaz contra o coronavírus. Quanto aos tratores, os homens que os têm, quando muito, proporão a Analclézio que puxe carro de bois. Se até lá não tiver morrido de covid, empanturrado de remédio contra vermes, deles será vítima, fazendo, com pungente senso “patriótico”, enquanto toma chibatadas e range, o carro se movimentar. 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Vanidade

Aceito tranquilamente o fato de que a vida pode ser inútil, de que ela pode ser em vão. Não sou dos que têm fé. Isso não quer dizer que eu abra mão da vida. Estou ciente de que ela pode ser vanidade, mas, como na canção do Skank, “acredito em tanta coisa que não vale nada”. 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Em Patos de Minas

Em redes sociais, lamenta o ocorrido com a grande árvore na Getúlio Vargas de Patos de Minas, a senhora que aplaude a motosserra sanguinária de Bolsonaro. Hipocrisia nacional com tempero patense. 

Diálogo pedagógico (3)

[Nomes fictícios.]

     — Oi, Ana, tudo bem?
     — Tudo, Gabi.
     — E como é que tá lá na escola? Com essa pandemia, tá tudo tão difícil... E as aulas?
    — Ah, sim. Me reuni com as autoridades. Claro, reunião on-line. Decidimos voltar. Cada dia, uma porcentagem de alunos vai estar em sala. Já comunicamos os pais.
     — Entendi. Então o Enzo volta pra sala de aula em breve.
     — Nada disso. Filho meu só entra em escola quando todo mundo tiver sido vacinado.

Diálogo pedagógico (2)

       — Filho, como foi o retorno às aulas?
       — Ah, em seus gabinetes ou em suas casas, os de sempre, os que fazem de conta que se importam com a educação e com a vida estão fingindo que não há mais pandemia. Funciona assim: primeiro, coloca-se em risco uma parte dos alunos, professores e funcionários das escolas; no dia seguinte, coloca-se em risco a outra parte. O nome chique e canalha que deram pra isso é ensino híbrido. 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Diálogo pedagógico

            — Filho, como foi o retorno às aulas?
        — Houve algumas pequenas mudanças, mas levando-se em conta a epidemia e levando-se em conta que nem professores nem funcionários nem alunos foram vacinados, não fiquei com nenhuma dúvida quanto aos horários que terei pra levar a morte pra lá ou pra trazê-la pra cá. 

sábado, 1 de maio de 2021

Guedes

Empregada doméstica viajando, expectativa de vida aumentando, filho do porteiro estudando. Paulo Guedes reclamou de tudo isso. Essa mentalidade segregacionista já estava clara antes da eleição. O projeto já era divulgado por Bolsonaro, reitero, antes da eleição. O eleitor o endossou. Dizer que não estava ciente de que o banimento do pobre já era um projeto político é hipocrisia. 

Ovelha

Se não for para se desgarrar, perda de tempo ser ovelha. 

Orquestra de Ouro Preto executa canções do A-Ha

O Danny Elfman, quando ainda era vocalista do Oingo Boingo e quando ainda não compunha para orquestra, disse, certa vez, em entrevista, que o sonho de todo roqueiro é compor para orquestra. Ele levou a sério o que disse e, hoje, compõe para orquestra, tendo já realizado memoráveis peças eruditas para trilhas sonoras de filmes.

A Orquestra de Ouro Preto, em seu canal no YouTube, veiculou neste sábado, primeiro de maio, canções do grupo norueguês A-Ha. Suponho que os integrantes da banda pop não vão ficar sabendo da execução feita pela orquestra.

À parte isso, é difícil imaginar uma consagração maior para um compositor de pop/rock do que ter a criação dele tocada por uma orquestra. Esse tipo de iniciativa rompe a divisão entre o que é erudito e o que é popular, algo que sempre me fascinou, não importa a arte em que isso ocorra.

O grande texto sobre esse assunto foi escrito por Michael Kamen, que foi o regente da orquestra na gravação do álbum S&M, que tem o Metallica se apresentando com orquestra. O texto de Kamen, que pode ser conferido no encarte do CD, é emocionante e reflete o amor à música. Kamen relata, dentre outras coisas, a tensão inicial dos músicos da orquestra e a, que foi surgindo aos poucos à medida que a apresentação prosseguia, curtição a que se entregaram. 

O maestro chega a mencionar que durante a execução de uma peça clássica, caso uma corda de um violino arrebentasse durante o concerto, isso seria motivo de preocupação para o músico. Mas num show com o Metallica, a corda arrebentada estava, digamos, em sintonia com o espírito roqueiro. 

Em ocasiões assim, há um saudável descompromisso, os músicos da orquestra parecem ficar mais à vontade do que numa apresentação de repertório erudito. Durante a apresentação da Orquestra de Outro Preto, mesmo sentada, uma violinista, não resistindo ao contágio, dança, num belíssimo momento.  Que o show prossiga. 

terça-feira, 27 de abril de 2021

Haicai

Não há apostasia.
Querem, do presidente,
a mortal aleivosia.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

A mais gostosa e iluminadora solidão é a que se tem no banheiro

Sou cantor de banheiro. Apresento-me para multidões, canto melhor do que o Robert Plant, toco guitarra melhor do que o Celso Blues Boy. Vou lavando a alma, enquanto berro o mais desafinado que consigo as canções que vão comigo para o banho: já tenho a coleção musical que curto em cartão de memória que está no telefone. Via “bluetooth”, conecto o telefone à caixa de som; ambos tomam banho comigo. 

O resto é me apresentar em plateias mundo afora. Gosto de deixar, no celular, o programa de execução de música no modo aleatório. Caso surja uma canção que não estou interessado em escutar-berrar-junto, já deixo o telefone posicionado de modo que, mesmo sob a ducha, consigo pular de faixa.

No banho de hoje, o tocador de canções escolheu, minutos depois do início do banho, “Where the streets have no name” — a gravação original (tenho outras versões da canção). Mal o teclado deu sinais de vida, já fiquei doido. Quando veio o baixo, eu já estava contagiando um estádio inteiro. Esgoelei o máximo que pude. Enquanto eu “cantava”, eu me lembrei de um texto que li certa vez na revista The New Yorker, um belo ensaio sobre o U2. Lembro-me de que o crítico fez comentários sobre “Where the streets have no name”.

Terminada a faixa, peguei uma toalha, sequei o rosto e me preparei para a próxima canção do show. O tocador de música logo veio com 

Moro onde não mora ninguém
Onde não passa ninguém
Onde não vive ninguém
É lá onde moro
Que eu me sinto bem
Moro onde moro

De repente, mal tendo começado a emitir o segundo verso da canção, dei-me conta de que há, em termos de letra, possíveis afinidades ou sintonias entre “Where the streets have no name” e “Moro onde não mora ninguém” (sábio tocador de canções). Assim sendo, where the streets have no name, moro onde não mora ninguém. 

De pai para filho

A história ocorreu ontem, dia 21 de abril de 2021. O atendente perguntou a um garoto de uns cinco anos:
— Você está bem?
O garoto respondeu:
— Eu estou ótimo!
Surpreso com o tom muito animado da resposta, o atendente disse:
— Que bom! O que deixou você tão bem?
— Estou feliz porque o coronavírus acabou. Graças a Deus.
— Hum... Fica esperto. Ele não acabou, não.
— Acabou, sim. Meu pai é que me contou. 

Burocracia

A burocracia é uma arte e uma ciência: a arte de implementar o que é inútil e a ciência de institucionalizar o que não serve para nada. 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Leda Nagle

Ao ler a notícia falsa, Leda Nagle não exerceu um dos mais básicos princípios do jornalismo: conferir a veracidade do que divulga. Ela agiu como as milhares de pessoas que acreditam em teorias da conspiração, em cloroquina, em duendes. Enquanto lia a “notícia”, a apresentadora comentou “isso é tudo, menos política”. Há décadas, Leda Nagle é tudo, menos jornalismo. 

sábado, 17 de abril de 2021

Ilha de Vera Cruz

Na Ilha de Vera Cruz,
cloroquina,
máscara de oxigênio e
intubação.
Sobre o leito,
o corpo morre.

Há correria,
passos se agitam:
é preciso descartar o cadáver
para que outro corpo ocupe o leito
(corpos gastam).

A poucos metros dali,
risos abertos, 
sem máscaras de proteção.
Em meio ao júbilo,
a rolha de um vinho espoca.
Bocas sorridentes se revezam,
beijando o bico da garrafa. 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

José e Maria

José e Maria moram em Patos de Minas.
Os dois sabiam que estavam com o coronavírus.
Decidem visitar a mãe dele, 
que não mora em Patos de Minas.
Após a visita, a mãe morreu de covid.
José e Maria voltaram para a casa deles.
Foram (e são) avistados em público, sem máscaras,
praguejando contra o uso delas,
orgulhando-se de tomar cloroquina e ivermectina. 

sábado, 20 de março de 2021

Precocidade

José tomou ivermectina.
José tomou cloroquina.
Bradava a eficácia
do tratamento precoce.
Precoce foi a morte. 

sexta-feira, 19 de março de 2021

Zé pagava as contas em dia.
Montou pequeno comércio,
cujos impostos quitava com rigor.
Casou-se aos vinte e seis,
foi pai aos trinta.
Aos trinta e dois,
morreu de covid.

A natureza não se preocupa com 
nossas circunstâncias.
Nem Bolsonaro. 

quinta-feira, 18 de março de 2021

Trilogia “minha especialidade é matar”

1
Segundo o Houaiss, possível definição para “genocídio”: “Extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade”. Outra definição para o termo: (...) “Submissão a condições insuportáveis de vida”. Quem realiza genocídio ou quem extermina coletivamente é genocida. Não é desarrazoado chamar de genocida quem diz de si mesmo “minha especialidade é matar”.

2
Há os que — não raro, com cinismo — lavam as mãos, preferem ignorar a palavra, como se ela pairasse independente ou fora de quem a utiliza, como se ela não fosse sintoma de quem dela se vale. Ora, a palavra está ligada a quem a profere, é expressão de quem a emite, mormente quando dita de modo deliberado ou reiterado. Não se deve desvincular a palavra daquele que a expressa. Os que votaram em Bolsonaro sabiam das palavras que ele proferira antes das eleições que fizeram dele o presidente. Votaram de modo consciente em quem há tempos defende tortura e ditadores, votaram em quem dissera, antes das eleições, “minha especialidade é matar”.

3
Aquele que disser de si
“minha especialidade é dirigir”
pode ser chamado de motorista.

Aquele que disser de si
“minha especialidade é cuidar”
pode ser chamado de enfermeiro.

Aquele que disser de si
“minha especialidade é tocar”
pode ser chamado de instrumentista.

Aquele que disser de si
“minha especialidade é matar”
pode ser chamado de Bolsonaro.