segunda-feira, 14 de setembro de 2020

O Pequod e o Brasil

Se apenas o que é visível for levado em conta, o enredo de Moby Dick (1851) é simples: Ahab, o capitão de um navio, saindo de Nantucket, nos EUA, embarca com a intenção de se vingar de uma baleia que havia devorado uma das pernas dele. Claro, trata-se de um livro em que há aventura. Todavia, Herman Melville (1819-1891) não escreveu somente sobre o percurso de uma embarcação rumo ao que seria seu destino: ler o livro assim seria como singrar a superfície das águas do mar sem cogitar suas profundezas. Moby Dick, como todo grande livro, está aberto a diferentes leituras, que se renovam, que podem descortinar uma grandeza tão descomunal quanto a de um cachalote.

Quem narra a história é Ishmael, que estava a bordo do Pequod, o vingativo navio baleeiro chefiado por Ahab. Já em alto-mar, ele, durante discurso inflamado contra a baleia que anseia por matar e com a intenção de aliciar a tripulação para sua causa, é interpelado por Starbuck, o primeiro imediato, que menciona a insanidade que é vingar-se de uma baleia, criatura que atacara Ahab por instinto. Não concordando com Starbuck, Ahab vocifera: “Todos os objetos visíveis, homem, não passam de máscaras de papelão. Mas em todos os eventos — na ação viva, na façanha incontestável — revela-se alguma coisa desconhecida, mas racional, por detrás dessa máscara irracional” [1].

Para Ahab, o cachalote que o atacou agira premeditada e racionalmente. Ao longo do livro, Ahab e a tripulação do Pequod atribuem a Moby Dick, a baleia, adjetivos de que nos valemos para nos referirmos a coisas humanas. O livro de Melville pode ser lido como um embate do homem contra a natureza, mesmo ele preferindo ignorar que ele mesmo é essa natureza contra a qual luta; lutar contra a natureza é lutar contra si.

Ahab, junto à tripulação, num ódio que é tão forte quanto convincente, insiste em justificativas irracionais para matar uma criatura que não é dotada de razão humana. Ele enxerga na baleia o que ele tem em si, numa relação que não é especular, pois o gigantesco animal marinho não é dotado da ciência de que Ahab é. Quando do primeiro encontro entre eles, Moby Dick lutou pela vida, enquanto era atacada por Ahab e comandados. Ao engendrar sua canhestra vingança e nela envolver outras pessoas, pois sozinho não conseguiria levar a cabo sua intenção, Ahab torna-se aquele que age movido não pela inteligência, mas pelo ódio, pela vingança. Moby Dick atacou não porque odiava, mas porque instintivamente queria sobreviver. Ahab quer voltar a atacar não porque precisa, mas porque odeia. Moby Dick lutou pela vida; Ahab quer lutar pela morte.

Há outro aspecto muito instigante em Moby Dick, o de que Ahab conseguiu fazer com que uma coletividade embarcasse numa loucura individual. Das várias análises a que o livro pode se prestar, essa é uma das mais profícuas. Ahab envolve o grupo, a partir de fervoroso discurso feito no tombadilho, na causa dele, que é o mesmo que dizer que Ahab envolve o grupo no ódio, palavra essa usada pelo narrador, que é dele, Ahab. Assim, o ódio de um se torna o ódio dos outros; o ódio de um é comunicado para os outros. Ao comunicar seu ódio com retumbância, Ahab contagia os demais. Diz Ishmael:

“Assim, pois, estava esse velho homem [Ahab], grisalho e sem Deus, perseguindo com maldições a baleia de Jó ao redor do mundo, comandando uma tripulação composta basicamente de mestiços renegados, náufragos e canibais — também debilitados moralmente pela incompetência da mera virtude ou honradez perdida de Starbuck, pela invulnerável jovialidade, indiferente e despreocupada de Stubb [o segundo imediato], e pela mediocridade que prevalecia em Flask [o terceiro imediato]. Tal tripulação, com tais oficiais, parecia ser especialmente selecionada e reunida por uma fatalidade diabólica para ajudá-lo em sua vingança monomaníaca” [2].

Tem-se, então, um sujeito vingativamente louco que, não só pela força de seu argumento — há uma “fatalidade diabólica” na “equação” —, envolve os demais na loucura dele. Dizendo de outro modo, a tripulação do Pequod, também em função do acaso e das circunstâncias, estava “pronta” para as insanidades de Ahab. É evidente: um bando de ignorantes e simplórios embarcou na loucura de um... capitão... O acaso ou algo que não sabemos precisar fez com que aqueles homens estivessem naquela embarcação. Na sequência do trecho citado há pouco, Ishmael prossegue:

“Por quais motivos eles [a tripulação do Pequod] reagiram tão vigorosamente à ira do velho — que feitiço diabólico tomou conta de seus espíritos, a ponto de às vezes acreditarem ser sua a raiva de Ahab; e a baleia branca, inimiga inatingível, tão sua quanto dele; como é possível — o que a baleia branca representava para eles, ou como em sua compreensão inconsciente, de algum modo obscuro e insuspeito, ela parecia ter sido o grande demônio imperceptível dos mares da vida — para explicar isso tudo, seria necessário ir mais fundo do que Ishmael consegue” [3].

Moby Dick é tão inescrutável quanto a história que conta. O narrador conta o que sabe, ciente de que não conta tudo, pois há algo subjacente e que permanece indizível, imperscrutável, embora possa ser intuído. A baleia, o Pequod, o mar, Ahab... Tudo é símbolo. Para explicar tudo isso, seria necessário ir mais fundo do que Lívio consegue.

Linhas depois de Ishmael dizer que não alcança a plena compreensão do que narra, ele conta: “Quanto a mim, cedi ao abandono das circunstâncias e do lugar; e, ainda que estivesse apressado para enfrentar a baleia, não podia ver naquela criatura coisa alguma além de maldade mais fatal” [4]. O Pequod tornou-se um baleeiro louco singrando pelos mares a fim de matar um cachalote a quem o insano Ahab atribuíra a capacidade de raciocínio por trás da “máscara” de baleia.

A tripulação pratica ódio fomentado pelo comandante do navio. Antes de embarcarem no Pequod, aqueles homens simplórios já tinham vontade de odiar? A pergunta, retórica, é para dizer que as circunstâncias atuais, no Brasil, uniram o ódio de um (ou de alguns) com a latência cheia de ódio de muitos. Ahab tinha a eloquência. No Brasil de hoje, a fim de trazer à tona o ódio, ela não é mais necessária — basta que se odeie. Quanto mais toscamente esse ódio for propalado, mais eficaz o contágio será. Fosse o Pequod exatamente como o Brasil, bastaria a Ahab grunhir algumas palavras, pegar o bote e desafiar Moby Dick — e os demais seguiriam o capitão. O ódio de Ahab, por mais que ele alegue haver algo racional na baleia, é um ódio contra algo que não é humano, ainda que maléficas características humanas sejam dadas a esse algo. Capitães há que voltam seu ódio não contra cachalotes, mas contra pessoas. Melville já nos ensinou como histórias cheias de ódio acabam.
_____

[1] Melville, Herman. Moby Dick, ou A baleia. Tradução de Irene Hirsch e Alexandre de Souza. Prefácio de Albert Camus; posfácio de Bruno Gambarotto. São Paulo. Editora 34. 2019. Página 177.

[2] Ibidem. Páginas 200 e 201.

[3] Ibidem. Página 201.

[4] Ibidem. 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Violências

Há uma violência que é evidente, como a que ocorre, por exemplo, quando o exército dispara centenas de tiros contra inocentes. Ainda que algum político diga que o exército não matou ninguém num caso como esse, isso é algo violento, bem como é violento um torturador ou quem quer resolver as coisas distribuindo porradas em quem faz perguntas que devem ser respondidas.
 
Todavia, há outro tipo de violência que é sorrateira, sub-reptícia, sutil, melindrosa. O objetivo dela é destruir a inteligência, a sagacidade, o pensamento, a ciência. Aliás, o objetivo dela é fazer com que essas conquistas estejam disponíveis para poucos. Pode-se acabar com uma rede de farmácias populares desde que os ricos possam se valer da ciência em hospitais particulares; pode-se taxar livros, impedindo o acesso do pobre à leitura, desde que os ricos possam enviar os filhos para serem formados no exterior. 

A violência evidente é mostrada por intermédio da imprensa sensacionalista. É o sangue que jorra das telas de TV, que escorre das páginas dos jornais e que tinge as telas dos computadores. Já a violência sutil demanda alguma inteligência para ser percebida e algum esforço para ser criticada, o que aumenta sua eficácia. Como consequência, passa a ser louvada também por parte daqueles que são vítimas dela. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Teclas

Sem pudicícia,
a mão assassina
elege milícia.

Com astúcia, 
a mão assassina
elege a súcia. 

Desavergonhada, 
a mão assassina 
elege a porrada.
 
Da ribalta,
a mão assassina 
elege a malta.
 
Como serva,
a mão assassina
elege a caterva. 

Do pódio, 
a mão assassina
elege o ódio.

Com alarde,
a mão assassina 
elege o covarde. 

Sem pudor, 
a mão assassina 
elege torturador. 

Com descaramento,
a mão assassina elege
o desmatamento. 

Com arrogância, 
a mão assassina elege 
a ignorância. 

Com sandice,
a mão assassina elege 
a burrice. 

Primeiras-damas

 Marcela:
“Bela, recatada e do lar”.

Michelle:
bela, recatada e dólar. 

Jornada

É preciso aprender, seja o que for, não somente para que confirmemos que sabemos pouco demais e o quanto somos pequenos; sim, somos minúsculos, mas, ao mesmo tempo, somos parte de toda a complexidade do Universo. O reconhecimento da pequenez, em saboroso paradoxo, traz maravilhamento ou encantamento. Ou deveria trazer. É que o outro lado da moeda do reconhecimento da pequenez é a ciência do quanto o que está fora (ou dentro) de nós é sutil, intrincado. Aquele que não quer aprender ou aquele que não se maravilha já está meio morto. Ou menos vivo.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Haicais

 1
É ele quem ama:
89 mil na conta
da primeira-dama.

2
Feliz é a Michelle.
Sacou, Bolsonaro?:
89 mil à flor da pele.

3
É vil.
Na conta,
89 mil.

4
Ele viu.
Na conta,
89 mil.

5
Ele vil.
Na conta,
89 mil.

6
Desata os nós.
Queres tu 89 mil?...
Chama o Queiroz.

7
Michelle,
89 mil, Bolsonaro
não repele.

8
É isto, meus caros:
motorista com 89 mil
têm os Bolsonaros.

9
É isto, meu caro:
motorista com 89 mil
têm os Bolsonaro.

10
São 89 mil.
É bondade como
nunca se viu. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O feitiço...

O queridinho de parte dos jornalistas os tem vilipendiado desde que assumiu a presidência. Agora, fingem que nada tiveram a ver com a história, arrotando um espírito democrático que nunca esteve neles. Não sabem o que fazer com a criatura em que jogaram confetes e para a qual apontaram holofotes. O monstro que ajudaram a engendrar está pronto para moê-los.

Pancadas

Hoje, a porrada é num jornalista.
Os súditos aplaudem.

Amanhã, a porrada é numa cidade.
Os súditos aplaudem.

Depois de amanhã, a porrada é na democracia.
Esmurrados, os súditos aplaudem. 

Porradas

É algo grave um político dizer que a vontade é de dar porrada ao ser questionado sobre algo que é da alçada dele responder. Algo mais grave ainda são as multidões dispostas seja a aplaudir esse comportamento seja a dar porrada a fim de defendê-lo. 

Na porrada

O menino brigão achava que tudo se resolvia na porrada.
O rapaz brigão achava que tudo se resolvia na porrada.
O homem brigão achava que tudo se resolvia na porrada.
O menino, o rapaz e o homem são a mesma pessoa.

O homem brigão chamou para a porrada outro homem.
O brigão, de cara e na cara, levou um monte de porrada.
Entendeu que insígnias não socorrem quando a porrada
vem direto na cara e um dente vermelho cai da boca.

O homem brigão juntou pudores, não pediu clemência.
O rapaz brigão quis apelar para a benevolência dos murros.
Sob saraivada de porradas, o homem, que é o rapaz.
Esfolado, luxento e chorão, foi embora um menino. 

A porrada como solução

Alguém escreveu — acho que foi o Flaubert, mas não estou certo disso — que “se a imprensa não existisse, seria preciso não a inventar”. Qualquer um sabe dos efeitos prejudiciais que o jornalismo ruim pode ter.

Todavia, perguntar para o presidente sobre os depósitos feitos por Fabrício Queiroz na conta de Michelle Bolsonaro é algo muito pertinente. Não se trata de uma pergunta boba, fora de contexto. Pode-se argumentar que a pergunta vem tarde, pode-se cogitar o motivo de não terem perguntado anteriormente ao mandatário coisas do mesmo teor.

No passado, perguntas similares foram evitadas. Parte da imprensa tenta agora um fajuto mea-culpa que não convence ninguém. Ainda assim, a pergunta sobre os depósitos de Fabrício Queiroz para Michelle Bolsonaro é necessária.

“Minha vontade é encher tua boca com uma porrada”. A resposta do marido de Michelle Bolsonaro é típica dele. Estranho seria se tivesse dado uma resposta adequada, uma resposta de quem tem espírito cívico, uma resposta que elucidasse as transações financeiras do clã, as quais são investigadas, mesmo todo mundo ciente de que a “famiglia” Bolsonaro não será afetada.

Certas questões podem ser difíceis de serem respondidas. Dizer que a vontade é de dar porrada é saída fácil, tergiversação truculenta de quem se acha mais macho que os demais. Exatamente por isso, a resposta agrada a muitos; precisamente por isso, esse tipo de resposta arregimenta admiradores. 

sábado, 22 de agosto de 2020

Razões

Ele é
ameaçador, 
arrogante, 
bobo, 
boçal, 
bronco, 
cruel, 
desavergonhado, 
desinformado, 
despreparado, 
imaturo, 
inapto, 
inepto, 
maléfico, 
mentiroso, 
nefasto, 
perdido, 
pérfido.
perseguidor, 
perverso, 
preconceituoso, 
sinistro, 
sórdido, 
tacanho, 
tosco, 
violento.

Uns o elevaram,
sem vernizes
de cultura,
sem disfarces 
de humanidade,
por ele ser 
quem ele é.

Outros o elevaram 
porque diziam,
em arremedo
de civilidade,
que ele mudaria 
quando vestisse
trajes de gala.

Uns e outros estão contentes 
porque ele é
violento,
tosco, 
tacanho, 
sórdido, 
sinistro, 
preconceituoso, 
perverso, 
perseguidor, 
pérfido.
perdido, 
nefasto, 
mentiroso, 
maléfico, 
inepto, 
inapto, 
imaturo, 
despreparado, 
desinformado, 
desavergonhado, 
cruel, 
bronco, 
boçal, 
bobo, 
arrogante, 
ameaçador. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Haicai 81

O plano é genocida:
para livros, impostos;
para armas, guarida. 

Haicai 80

Para livros, impostos.
Para armas, benesses.
Assassinos a postos. 

Encruzilhada

Nas prateleiras e nas geladeiras,
diversas criaturas mortas.
Há patos, galos, perus...
No açougue, bois, vacas, carneiros...
Algumas espécies podem ser
adivinhadas através das embalagens.
Outras estão fatiadas,
penduradas em ganchos,
sem embalagens.
Demandam conhecimento
técnico para que sejam identificadas.

Num dos corredores do supermercado,
há uma espécie que morreu há pouco.
Lá jaz; parece alheia aos que passam,
que parecem alheios ao corpo,
coberto por guarda-sóis.

Um tanto curioso,
alguém de nome José
quer saber 
o nome da criatura caída,
que segue morta no corredor.
“O nome dele era Moisés”,
diz Mariana, que tem
olhos vivazes.

José agradece a Mariana
pela informação.
Ele segue fazendo compras.
Vai até a seção de frios e
pega um quilo de moelas.
O gerente da empresa
segue averiguando 
os lucros do CNPJ. 

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Ele não lê

Ele não lê poesia.
Sabe que é possível viver sem ela.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse 
“o erro da ditadura foi torturar e não matar”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“eu sou favorável à tortura”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“eu acho que essa polícia militar do Brasil tinha que matar é mais”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“policial que não mata não é policial”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“o exército não matou ninguém”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“Ustra é um herói”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“eu sonego tudo o que for possível”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“espero que saia; infartada, com câncer, de qualquer jeito”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“só não te estupro porque você não merece”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“sou homofóbico, sim, com muito orgulho”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“prefiro ter um filho viciado do que um filho homossexual”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“é só uma gripezinha”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
se tratar de “histeria”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“não sou coveiro”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“e daí?”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“todo mundo morre um dia”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“vamos parar de divulgar números”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“invadam hospitais e filmem leitos vazios”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“hidroxicloroquina salva”.

Não lê poesia.
Se lesse, talvez dissesse
“é preciso tocar a vida”.

Ele não lê poesia.

Sabe que é possível matar sem ela. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

O que importa

Durante o trabalho, na Ilha de Vera Cruz, um servidor não preenche um papel inútil. Os hierárquicos: “É preciso duas cópias do mesmo trabalho. Assine ambas. Depois, refaça o trabalho. Uma vez tendo refeito, envie duas vias dele para os superiores. Depois de enviar, refaça-o e arquive esse refazimento”.

Durante o trabalho, na Ilha de Vera Cruz, um servidor é chamado de “gorila fedorento”. Os hierárquicos dizem nos bastidores “nada podemos fazer”; divulgam nota: “Lamentamos profundamente o ocorrido”. 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Meus livros na Amazon

Pessoas, meus livros estão à venda também na Amazon. Caso alguém aí esteja a fim de conferi-los, é só clicar aqui

terça-feira, 14 de julho de 2020

Flavio Sousa, o corajoso

Em nome da clareza, é necessário eu dizer que trabalhei no Sistema Clube de Rádio por quinze anos. A relação entre mim e eles era estritamente profissional. Nunca me envolvi com campanhas políticas das quais participava o dono da emissora, nunca pedi a ninguém que votasse nele nem nunca votei nele, mesmo quando ele reunia os funcionários pedindo apoio para as candidaturas dele; além do mais, sei que ele e que a família dele não precisam do meu voto. Tanto é assim que têm longa carreira política sem meu apoio. Também nunca votei no outro grupo político local; nenhum dos grupos faz o que considero política; obviamente, sei que esse outro pessoal também não precisa de voto meu. Isso não que dizer que o dono do Sistema Clube de Rádio estava errado em pedir que os funcionários da emissora votassem nele. Comento isso para ilustrar que minha convivência com a direção da rádio sempre ficou no campo profissional. Fiz meu trabalho da melhor maneira que pude (o que não quer dizer que eles gostaram do que fiz); não estando mais na emissora, não fiquei devendo favores de nenhuma natureza para eles (pois nunca os pedi) nem eles ficaram me devendo favores de nenhuma natureza (pois nunca me pediram).

Só hoje, no começo da noite, fiquei sabendo do episódio ocorrido com o Flavio Sousa, locutor, repórter e redator do Sistema Clube de Rádio. Num programa da emissora, Flavio criticou a elite dos Patos de Minas. Por causa disso, ele não mais fará comentários na atração, dedicada, segundo o que me foi informado, a debates. Enquanto escrevo esta nota, o locutor segue trabalhando na empresa como repórter e como leitor de notícia.

Nada é surpreendente nessa história. Nos primeiros contatos que tive com o Flavio, ele havia me procurado para que eu ministrasse para ele aulas, acho, de português. Na época, ele era estudante de jornalismo ou estava prestes a começar o curso. Pensei comigo: “Esse tá começando bem, pois está preocupado com o bem falar e o bem escrever”. Essas aulas duraram pouco tempo, o que não fez com que eu perdesse contato com o Flavio. Não acompanho o trabalho dele no rádio por eu não mais escutar nenhuma das emissoras locais há um bom tempo. Do Flavio, acompanho o que ele tem escrito, lendo o que é publicado em redes sociais, seja uma opinião, seja um artigo, seja um conto, seja um poema. Flavio, além de radialista, dedica-se a escrever ficção, tendo já publicado livro.

A história entre ele, o Sistema Clube de Rádio e a elite local não surpreende porque a opinião do Flavio, bem sei, foi expressão do pensamento dele. Ele não estava fazendo um personagem que se dedica a ter audiência a qualquer custo. O que Flavio disse diante do microfone da emissora é expressão do que ele é, não uma expressão de atitude sensacionalista. A reação da rádio não surpreende porque a mentalidade dos que a dirigem é expressão do que pensa a elite local, do que pensa a elite brasileira, uma elite conservadora que deseja manter às custas dos pobres os privilégios (não merecidos) que vêm de séculos (a quem se interessar pelo tema, indico Jessé Souza ou Darcy Ribeiro).

Flavio não disse nada demais. Contudo, o que ele disse é gigantescamente necessário. Ele fez um contraponto ao discurso da elite. Ora, ela, a elite, já tem todos os espaços para apresentar o que pensa e o que (não) faz. Os pobres não têm recursos nem estrutura técnica para que a voz deles chegue a mais pessoas. A dor deles não aparece nos jornais, valendo-me eu de paráfrase de canção do Chico Buarque, o qual, aliás, não raro, é execrado pela elite que o Flavio criticou.

A direção da rádio divulgou nota, também reveladora e nada surpreendente. A primeira coisa que chama a atenção na nota que divulgaram é o cuidado que eles não tiveram com o português (cuidado esse que o Flavio tem). No que a emissora divulgou há coisas como “houveram excessos”. Contudo, o português incorreto é o problema menor da nota; ela é sintoma do conservadorismo da elite brasileira, que, travestida de bom-mocismo, apresenta o que chama de pluralidade de ideias, quando tal pluralidade não há. Esse, sim, é o grande problema da nota que a rádio divulgou. (Os problemas de português seriam resolvidos se um revisor tivesse conferido o texto.)

Diz a nota deles sobre o comentário que o Flavio fizera: “(...) A direção da Rádio Clube reitera que não se trata de opinião da emissora, tratando-se de livre manifestação do pensamento do profissional, sempre permitida por essa empresa em toda sua história, e em especial neste programa, criado para dar espaço a todas as vertentes de pensamentos. Entretanto entendemos que houveram [sic] excessos e palavras mal colocadas, que acabaram ofendendo pessoas, principalmente ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local, a quem a Rádio Clube pede desculpas”.

A emissora diz haver nos microfones dela “espaço a todas as vertentes de pensamentos”, mas alega ter havido “excessos e palavras mal colocadas” por parte do Flavio. Em essência, o que Flavio disse foi que a elite não está nem aí se os pobres não podem pagar por um exame de detecção da covid-19 e que a elite não dá a mínima se os pobres não podem se dar o luxo de se refugiarem contra a epidemia em espaços milionários. Por fim, Flavio disse que uma elite burra pode servir de “púlpito para candidato burro e despreparado”.

A nota da emissora menciona que o discurso do Flavio ofendeu pessoas “ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local”. Não bastassem o bairrismo e a pieguice do trecho, o que Flavio disse não é agressão pessoal; em nenhum momento ele faz referência a nome(s). Ele diz que uma elite burra cai em balela de candidato burro. Ora, pobre burro também cai em balela de candidato burro. Os que se sentiram ofendidos poderiam alegar, talvez, que o Flavio só criticou a elite burra, nada tendo sido dito sobre os pobres burros. Que a emissora, então, apresentasse um contraponto à opinião do Flavio. Não é isso o que ocorreu. Em vez de apresentar o contraponto, preferiram calar as opiniões do jornalista sob o argumento de que ele foi ofensivo.

Ainda sobre a “livre manifestação do pensamento” alegada pela emissora: quando lá trabalhei, o dono do meio de comunicação era candidato a prefeito de Patos de Minas. Ele concederia uma coletiva para jornais, rádios e TVs. Fui escalado para fazer pergunta em nome da Rádio Clube FM (salvo engano, hoje é chamada apenas de 99FM, mas posso estar enganado quanto a isso). Faltando mais ou menos uma hora para o início da coletiva (não lembro mais onde ela ocorreu), um dos funcionários do Sistema Clube de Rádio, envolvido com a campanha do político e superior a mim na hierarquia da firma, pediu-me que eu mostrasse a ele a pergunta que eu faria durante a coletiva. Depois de a ler, ele disse: “Pergunta outra coisa”. A pergunta era: “Já foi dito que os políticos poderiam ser melhores se mantivessem o hábito da leitura. O que o senhor tem lido?”.

A pergunta era simples; ademais, a leitura ou a falta dela, em si mesmas, nada garantem. O sujeito pode ser leitor e ser um péssimo político, bem como pode nada ler e ser um excelente político. Ainda assim, fui “orientado” a não fazer a pergunta que eu preparara. Não a fiz. Não me recordo do que perguntei, mas como não me remanejaram (o que fizeram com o Flavio), devo ter perguntado algo protocolar, algo que não ofendesse pessoas “ligadas ao nosso valoroso e pujante comércio local”.

A opinião do Flavio não foi ofensiva; foi uma opinião sensata. Sobretudo, ele teve uma admirável coragem, por ter dito o que disse no espaço em que estava. Uma rádio pode adotar a política que quiser, pode manifestar o espectro ideológico que quiser. Sei disso. O que critico é a postura de quem se declara “um espaço democrático da comunidade”. É democrático até o momento em que verdades sobre a elite não sejam ditas. Certos espaços democráticos da comunidade não estão interessados em quem dá voz às agruras dos pobres. 

Meu novo livro à venda

Lancei recentemente meu oitavo livro, O fim do Brasil. Em essência, é um livro político, reflexo do modo como encaro o país. Se você acompanha meu trabalho, eu gostaria de contar com sua leitura. O livro pode ser adquirido aqui

Família

Filho 01.
Filho 02.
Filho 03.

Pai 00. 

sábado, 11 de julho de 2020

Ler e olhar

Teófilo Arvelos, estudante e autor dos livros Parnaso e Lágrima, enviou-me texto de prova da Unicamp. O texto é de uma autora que eu não conhecia — Elena Ferrante. Esse nome é um pseudônimo. Segundo o que li, além de escritora, ela seria tradutora.

Ainda não conheço os livros escritos por ela. Preciso ir atrás deles. Depois de ler o texto que o Teófilo me enviou, acessei o site (o necessário e brilhante The Guardian) de que o escrito havia sido retirado. Na prova da universidade, o texto não estava na íntegra. Eu já havia gostado da versão editada; quando a li sem cortes, eu soube que seria necessário me dedicar a mais coisas de Elena Ferrante. Li todos os títulos que ela publicou na coluna que ela tinha no Guardian.

No site, fosse eu escrever sobre os textos dela em termos de gênero, eu diria serem crônicas, no sentido mais brasileiro que se possa dar ao termo, a boa e velha crônica ao modo dos grandes cronistas brasileiros do século XX. Ou, quem sabe, os textos de Elena Ferrante possam ser considerados apontamentos. Mas a questão dos gêneros textuais não me preocupa.

O material dela no jornal The Guardian é extremamente pessoal, mas transformado em algo universal a partir da linguagem, a qual é tema de um texto que alega exatamente o pensamento de que a universalidade está na linguagem, não nas circunstâncias ou nos estereótipos. A escritora não está preocupada em soar profunda, mas em burilar a linguagem, ato este que é a essência do fazer literário.

Metalinguagem, amor, sexo, amizade e questões femininas estão nos textos de Elena Ferrante. Ela escreve de modo comedido, elegante. Há um charme cerebral, altivo. Os textos da autora são a ponta do iceberg do cotidiano. Lemos o trivial; todavia, um trivial que nos deixa entrever suas complexidades a partir do depurado estilo da escritora.

Isso, por si, é motivo para que se confira os textos dela no Guardian. Só que o espaço merece ser frequentado devido a outra razão também, pois os textos de Elena Ferrante são ilustrados por uma artista chamada Andrea Ucini. Os desenhos dela são obras de arte em si; eles podem prescindir dos textos da escritora, embora, é claro, tenham com eles ligações íntimas. Elena Ferrante e Andrea Ucini nos ofertam felicidade em palavras e em imagens. 

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Meu novo livro

Meu novo livro, O fim do Brasil, está à venda. Para comprá-lo, é só clicar aqui.


Desejo

Que tenha ele vida
longa,
pródiga
saudável.

Mesmo de corpos 
que as negligenciam,
as máscaras caem. 

terça-feira, 7 de julho de 2020

Meu novo livro

Haicai 79

Segues acrítico, 
mas o advogado do “messias” 
escondia “cítrico”.

Haicai 78

Preso, o Queiroz,
mas não é quem vai
desatar os nós.

Haicai 77

Prossegue a intenção:
desde janeiro de 2019, sem
ministro da educação.

Revolução

O método de aprendizagem mais inovador é o estudo. O estudo é o mais inovador método de ensino.

domingo, 28 de junho de 2020

Ninguém sabe que estou aqui

Ninguém Sabe que Estou aqui [Nadie sabe que estoy aquí] (2020), realização da Netflix, com direção de Gaspar Antillo e roteiro dele, de Enrique Videla e de Josefina Fernandez, é um filme que lida com a questão de que a pessoa pode abandonar o talento, mas o talento não abandona a pessoa. Isso, por si, já seria instigante. Todavia, o filme lida também com o acerto de contas que, mais cedo ou mais tarde, tem-se de fazer com o passado.

Primeiro longa-metragem do diretor, a produção conta a história de Memo Garrido [Jorge Garcia], que vive recluso em lugarejo ao sul do Chile. Morando com um tio, Memo leva os dias criando e tosquiando ovelhas, comercializando a carne delas. Ensimesmado e aparentemente rude, ele tem sobre os ombros o peso de um dom não exercido e a lembrança amarga de evento ocorrido na meninice.

Memo nasceu para cantar. Quando ainda era criança, foi vítima de negociata entre o pai dele e os executivos de uma gravadora. A princípio, o que era para ser uma chance de Memo ser o que é, ou seja, o que era para ser uma chance de ele exercer o talento que tem, torna-se expressão do como funcionam as engrenagens do entretenimento, as quais são reflexo do “sistema de erros” (expressão do Drummond) que é o mundo, e de como elas podem abalar o edifício da psique.

A vida de Memo é pesada — metafórica e literalmente. Angustiado, dá vazão, de modo consciente e inconsciente, ao artista que ele é e que precisa vir à tona, seja como for. Ele pinta as unhas, costura roupas para si, devaneia, sonha. Tem vida repetitiva, fazendo um trabalho que não quer, concebendo na imaginação um mundo para o qual ele tem talento, mas cujas portas lhe foram fechadas em função de preconceitos quanto à aparência dele.

Talento não exercido e passado mal resolvido curvam o grande corpo de Memo, corpanzil que só não é maior do que o talento que tem para cantar. É como se o corpo tivesse mesmo de ser grande para abarcar tudo o que Memo é, toda a habilidade dele para o canto e tudo o que ele cala, tudo o que ele sofre. Tanto é assim, que numa simbólica cena que rende homenagem ao realismo mágico, quando Memo não mais está conseguindo guardar em si o que está pedindo passagem em cada poro, a câmera mostra um ser humano que não tem outra saída a não ser deixar jorrar o que ele vinha reprimindo. Repressão hiperbólica requer saída hiperbólica.

Por trás da expressão casmurra dele, há uma delicadeza que somente pode ser percebida por aqueles com sensibilidade o bastante para entenderem ou perceberem que ele é a pessoa certa no lugar errado, um homem maior do que as circunstâncias que ele não consegue mudar. Mesmo não sendo quixotesco, pois os devaneios que tem são a partir de habilidade existente, Memo vive a angústia de não cantar e o peso de quase ninguém saber com exatidão a história por que passou.

O Artur da Távola, na crônica, “Os diferentes”, escreveu: “A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana. De que só os diferentes são capazes”. Memo é uma pessoa diferente. Marta [María Paz Grandjean], sobrinha de um comerciante com quem Memo tem contato, deu-se conta disso. 

domingo, 21 de junho de 2020

Mergulho

Eu não me lembrava de quando tinha me visto amar.
Não me lembrava da última vez em que tinha visto amor.
Eu te vi, eu te conheci, eu te senti, eu mergulhei: é mar. 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Haicai 76

Ministro da saúde?!
O mandatário quer é
pobre em ataúde. 

O enfiamento da condecoração

O Olavo de Carvalho já enviou recado para o Bolsonaro, dizendo em que orifício anatômico ele pode enfiar a tal condecoração a ele, Carvalho, concedida. Se ela foi enfiada ou se ainda será (afinal, é ordem advinda de um guru), não se sabe. Carvalho, sobre o qual pesam acusações judiciais, queixou-se de não ter sido ajudado por Bolsonaro quanto a elas, como se o presidente tivesse de ajudar Olavo de Carvalho nos processos que há contra ele. O tom da “revolta” do escritor é movido mais por questões pessoais do que cívicas.

O “filósofo” disse ainda que Bolsonaro “vê bandidos cometendo crimes em flagrante mas não faz nada contra”. Volto à minha tese: até os gambás sabiam que o governo Bolsonaro seria o que está sendo; só um gamo ingênuo e saltitante flanando em verdejantes bosques engoliria a balela da luta contra a corrupção e o engodo de que haveria um modo inovador de fazer política. Olavo de Carvalho, a exemplo de outros, vem agora se dizer decepcionado.

Insisto, volto à questão, reitero, escrevo novamente: é cinismo, seja de quem for, seja de que meio de comunicação for, dizer que era esperado um governo que fosse diferente do que está havendo. Insisto, volto à questão, reitero, escrevo novamente: Bolsonaro não pode ser acusado de estar sendo diferente do que ele sempre deixou claro que já era. Ninguém é ingênuo a ponto de supor que um sujeito como ele faria um governo com teor diverso do que tem havido. O que já existia não deixou de existir. A essência de alguém não se dissolve em função de uma roupa que se veste ou de um cargo que se assume.

Olavo de Carvalho “avisou” Bolsonaro: “Continue inativo, continue covarde e eu derrubo essa merda desse seu governo”. Não sei se haveria nessa fala uma estratégia de Carvalho para que Bolsonaro seja ainda mais truculento (adjetivo brando) do que tem sido ou se, de fato, o “guru” acredita ter o poder de derrubar o presidente. Se for o caso de ele realmente crer que tem o poder de fazer Bolsonaro cair, caso isso ocorra (no que não acredito), não terá sido por causa da atuação de Olavo de Carvalho, que, nesse hipotético cenário, não deixaria de se vangloriar de sua suposta atuação em caso de queda do mandatário.

Moro já foi chamado de comunista. Olavo de Carvalho, pelo menos momentaneamente, está no rol em que está o ex-juiz desde que ele rompeu com Bolsonaro. No futuro, seja por que razão for, Carvalho e Bolsonaro podem voltar a ser amiguinhos se isso for de interesse de ambos. Enquanto isso não ocorre (se é que vai ocorrer), não se sabe do paradeiro da condecoração, que já pode estar nos... anais da política brasileira.

domingo, 10 de maio de 2020

Ruína a caminho

O Brasil de hoje é o cenário propício para os que sempre foram fascistas, ditadores, defensores de tortura e de morte para quem pensa de modo diferente deles. Pessoas assim sempre existiram, não são novidade no espectro do brasileiro. O que mudou no Brasil em tempos recentes foi que essas pessoas agora assumem o que são: pessoas que não toleram arte, ciência, lógica, dados gentes outras. Para justificar a ignorância, valem-se de qualquer coisa (qualquer coisa mesmo).

Os pretextos delas podem variar: deus, patriotismo, família, luta contra a corrupção, luta contra o comunismo (este, suponho, ocupa o panteão dos pretextos; até o Moro já foi chamado de comunista). Tais pretextos são úteis para mascarar a burrice e a falta de humanidade ou para dar a elas um ar de... cidadão de bem. Balela: o que a pessoa defende mesmo é a não humanidade.

A tecnologia é ferramenta dadivosa para essas pessoas, não importa se estejam manejando a burrice alheia, não importa se estejam sendo manejadas. Argumento como o de que a vida vale mais ou de que falta humanidade a essas pessoas são inúteis, pois o pretexto ou a justificativa que inventaram para a crueldade delas são mais expressivos do que qualquer razoabilidade. Ensandecida, uma pessoa assim acredita em qualquer coisa que esteja em concordância com o que ela defende, o que, no fundo, é a extirpação do que ela entende como sendo diferente dela.

Consideram-se cidadãos de bem, mas não há problema em torturar. Por que não? Porque o torturado era o demônio, o proscrito, o infiel, o infiltrado, o não patriota, aquele que veio para tirar deles o que eles edificaram para si. E o que edificaram para si? Um condomínio feito de ilusão, de desinformação, de repúdio contra a ciência e de temor contra a arte. O inimigo, elas mesmas inventam-no. Se investissem contra moinhos de vento, menos mal; o problema é que investem contra seres humanos, pois não têm o bom coração do Quixote.

As justificativas para a maldade que têm tornaram-se nítidas, mas sempre pairaram no espaço brasileiro. O grande problema do Brasil sempre foi a ignorância, ignorância no sentido de desconhecimento, ou, caso prefira, a ignorância no sentido de falta de conhecimento. O que está acontecendo no Brasil hoje é que se vive num país refém da ignorância, que assumiu o palco e, por ser ignorante, vai insistir que a ignorância à qual se agarra é o caminho para se fazer um país que ainda não foi feito, sem perceberam que não foi feito ainda por causa da ignorância, que é tal a ponto de eles não se darem conta de que ignorantes são.

Coisas como luta insana pelo dinheiro, interesse de classe, manutenção de privilégios, nojo de pobre nasceram coladas no Brasil, mas não foram inventadas aqui, embora sempre tenham feito parte do cotidiano brasileiro. Todavia, vale para um país o mesmo que vale para uma pessoa. Há momentos em que a pessoa revela quem é. Geralmente, em momentos de muita turbulência. É aí que o fraco se revela como tal, o torturador como tal, o preconceituoso como tal. O momento do país é de turbulência. Quando mais precisamos da sensatez, mais a ignorância assume o protagonismo. O país se revelou como tal, como sempre foi: um país de ignorantes.

Em grau maior ou menor, todos somos e continuaremos sendo vítimas da ignorância, que está naquele senhor a capinar um lote e naquele magnata indo trabalhar em seu helicóptero. Espertalhões estão dando gargalhadas, contando com endinheirados e com quem tem renda de meio salário mínimo por mês. Os riquíssimos estão se esbaldando. A maioria dos demais estão num inferno.

A solução, se vier, não virá no campo da pessoalidade — os ignorantes não vão deixar de ser ignorantes. Se alguma solução vier, do que duvido, ela virá por intermédio do campo histórico, depois que a nação estiver esfacelada por completo (está a caminho de). Das ruínas, pode ser que surja um país não ignorante, do que duvido. Acredito mesmo que a ignorância de agora, depois  de o país estar um bagaço (está a caminho de), voltará em outros trajes, mas com parte da população lutando pelas mesmas “causas”, empunhando os mesmos pretextos, as velhas desculpas para que haja um país asséptico e para que haja genocídio: deus, patriotismo, família, luta contra a corrupção, luta contra o comunismo... 

No momento, o que há é um território ignorante seguindo a cartilha rumo a uma debacle. Uma “gripezinha” aqui, um “e daí?” ali, um “o exército não matou ninguém” acolá, uma feijoada com dezenas de pessoas reunidas num pequeno recinto e postando em rede social foto de celebração do dia das mães num bairro da cidade... O país foi, é e será vítima da ignorância; um lugar assim é paraíso para canalhas, está condenado à destruição. De joelhos, sem recursos e exaurido, levará a porrada derradeira. O Brasil não leva jeito para fênix. 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Você nem Imagina

O que faz uma obra de arte não é a temática de que ela trata, mas o modo como essa temática, seja ela qual for, é desenvolvida. Essa premissa vale para Você nem Imagina [The Half of It], em cartaz na Netflix.  Direção e roteiro são de Alice Wu. O filme estreou recentemente. 

Há livros que dizem a que vieram logo no primeiro parágrafo (alguns, logo na primeira frase). Alguns filmes dizem a que vieram logo na abertura. Essa premissa vale para Você nem Imagina. De cara, o tom poético, engraçado e irônico que permeia a obra. Nos primeiros segundos, questões filosóficas são trazidas para o universo juvenil.

Leah Lewis interpreta Ellie Chu, sobrenome que funciona como onomatopeia com a qual é atazanada pelos colegas de escola. Ellie tem 17 anos, mora na fictícia Squahamish. É a melhor aluna da turma; perdeu a mãe quando ainda era criança. Mora com o pai, que, a despeito da titulação acadêmica (ele é doutor), não conseguiu o êxito profissional almejado. Para ajudar nas despesas da casa, Ellie faz, mediante pagamento, trabalhos escolares para os colegas de sala.

Em certo dia, é abordada por Paul Munsky (Daniel Diemer), um dos colegas dela; ele quer que ela escreva uma carta para Aster Flores (Alexxis Lemire), em quem ele está interessado, como se fosse ele o autor da carta. (Sim, no momento em que isso é mencionado, é inevitável: o telespectador se lembra do enredo de Cyrano de Bergerac.) Só que Ellie também está interessada em Aster, o que é evidenciado já nas cenas iniciais.

A princípio, Ellie recusa escrever a carta, chegando a evitar encontros com Paul nos corredores da escola. Todavia, uma conta de energia elétrica cujo pagamento está atrasado faz com que ela, por 50 dólares, tope escrever a carta para Aster, como se Paul fosse o autor do libelo amoroso.

É curioso como Você nem Imagina consegue abordar grandes questões existenciais sem deixar de ser um filme com temática adolescente. O roteiro de Alice Wu é hábil ao mostrar a inadequação de Ellie, inteligente demais, mas que ainda não se achou. Também é fascinante como há espaço para que conheçamos Paul, de quem, a princípio, acha-se graça, pelo que ele tem de caricato e de ingênuo, mas que, ao longo da história, vai revelando camadas que vão descortinando o jovem de bom coração que, no fundo, ele é. Paralelamente, tem-se a bela Aster, que é namorada de Trig Carson (Wolfgang Novogratz), ele, sim, um babaca.

Referências literárias e filosóficas, metalinguagem, dramas juvenis, perdas, reflexões sobre a vida, partidas... Você nem Imagina é sobre a vida e o que ela tem de sublime e de ridículo; é sobre o amor e o que ele tem de sublime e de ridículo. Squahamish é qualquer lugar; Ellie Chu, Alter Flores, Paul Munsky e Trig Carson estão nos corredores das escolas mundo afora. Sensível e divertido, Você nem Imagina é poesia, cuja delicadeza conta ainda com a bela direção de fotografia de Greta Zozula. 

O filme de Alice Wu tem o velho e delicioso paradoxo: ao não querer soar grandioso, grandioso ele se torna. Enquanto eu assistia à produção, houve momentos em que me lembrei de Juno (2007), do diretor Jason Reitman (o excelente roteiro é de Diablo Cody). Juno MacGuff, Paulie Bleeker, Ellie Chu e Paul Munsky seriam ótimos amigos. Eu tentaria fazer com que conhecessem Holden Caulfield, de O Apanhador no Campo de Centeio, do J.D. Salinger. (Ah, quando for assistir a Você nem Imagina, não deixe de reparar na bela e potente voz de Leah Lewis.) 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

... Focinho do outro

É fácil saber que Bolsonaro nunca deu a mínima, dentre outras coisas, quando o assunto é corrupção. Ele mesmo, muito antes de ser candidato a presidente, já bradava que sonegava impostos. Não é só. No site Sportlight, em matéria publicada no dia 7 de abril de 2020, o imprescindível Lúcio de Castro informa que houve superfaturamentos do então deputado Jair Bolsonaro em reembolsos da verba de combustível.

Não bastasse, nesse caso trazido à tona por Lúcio de Castro, há outros delitos, como o de que datas de abastecimento no Rio de Janeiro coincidem com a presença de Bolsonaro no Congresso, em Brasília. A cota de combustível a parlamentares impossibilita o abastecimento em cidade na qual o político não esteja. Bolsonaro ter feito isso não surpreende. Um pouquinho só de observação já seria o bastante para que se percebesse que a nova política de que se vangloriava o presidente já ronda o Brasil desde 1500.

Também não surpreende Moro ter dito para a Veja que vai apresentar ao STF provas contra Bolsonaro e ter dito que o governo do capitão nunca priorizou o combate à corrupção. Que a prioridade de Bolsonaro nunca foi combater corrupção, até o Tito, meu cachorro, que diz ter interesse mínimo em política, já sabia. O que chama a atenção é que a Veja, caso não surja outro queridinho da revista, já envia sinais de que Moro pode ser o candidato dela em 2022, mesmo com ele tendo dito para o periódico que não quer pensar em política “neste momento”.

Não há como saber se Moro de fato vai apresentar provas contra Bolsonaro, mesmo tendo aquele sido chamado de mentiroso por este. Não temos acesso aos bastidores, aos acordos, aos assessores, aos contatos tanto de um quanto de outro. Mesmo nesse ambiente nebuloso, o que é nítido é que Moro não é o ser mais preocupado com lisura que há no planeta. As arbitrariedades e ilegalidades que ele tomou como juiz são apenas algumas das evidências de que ele, Moro, é tão indigno de crédito e de confiança quanto Bolsonaro. No tempo em que foi ministro da justiça, Moro fingia não ver os delitos do chefe; agora, vem dizer que apresentará provas contra o presidente. Nem um nem outro pagarão pelos danos ao país. 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Moro e Bolsonaro

Moro e Bolsonaro são da mesma laia. Pertencem a uma elite que se julga superior a quem não está nela e que tem entranhados em si os dois grandes males do Brasil: a ignorância (em qualquer sentido do termo) e a mentalidade escravocrata. Moro e Bolsonaro são farinha do mesmo saco.

A diferença que existe está na superfície. Bolsonaro é atrapalhado, um bufão sem tato, um tosco cujos atos e cujas palavras denunciam o tempo todo o troglodita que ele é. Moro tem o verniz da civilidade, da sofisticação; ele sintetiza o que muitos dos iludidos da classe média e da elite (parte daquela acha que faz parte desta) pensam que ele é: um sujeito refinado, elegante.

A sofisticação de Moro é casca, é pose, são convenções. Em essência, ele é tão boçal, preconceituoso e bobo quanto Bolsonaro. Nenhum dos dois tem fulgor mental nem espírito coletivo. Os dois são adeptos da necropolítica, os dois têm um projeto de Brasil que deve ser somente para os muito ricos, o que os torna, em essência, expressão de uma classe que se julga superior às demais, de tudo fazendo para manter os privilégios que têm não por méritos próprios. 

Os dois são tacanhos, desprezíveis e defendem um Brasil para pouquíssimos, travestidos de conduta ilibada (argh!), de retidão e de combate aos corruptos. Não há nada disso em nenhum deles. Por baixo da pose de um e do destrambelhamento do outro, há dois sujeitos presunçosos, nefastos e elitistas. Não passam de símbolos de uma parte do Brasil que é feia e que se julga iluminada. Moro é um Bolsonaro de fraque. 

"E daí?"

Não lembro se foi o Borges ou o Jung... Um deles escreveu que quando uma pessoa morre, todo o gênero humano perde. Mas, bem sabemos, há pessoas para as quais a vida do outro não importa. Bolsonaro é uma dessas pessoas. Para ele, milhares de mortes por causa da covid-19 são comentadas com uma desrespeitosa declaração, nítido sintoma de falta de empatia, de espírito público; declaração nada condizente com alguém que ocupa o cargo de presidente de um país. No entorno, a claque, subserviente, bajuladora e tão descarada quanto o autor do comentário, riu. Outros patéticos, à distância, riram também. Há uma plateia enorme respondendo a estupidezas em uníssono: “E daí?”. 

Dos modos de matar

Quando, no dia 20 de abril, Bolsonaro foi perguntado sobre o número de mortos na pandemia atual, ele disse que não é coveiro (ele está mais preocupado em blindar os filhos, indicando amigo da família para a polícia federal). Todavia, mesmo não sendo coveiro, apoia torturadores, disse que o erro da ditadura foi não ter matado mais e nega quando há mortes (“o exército não matou ninguém”). Sim, Bolsonaro não é coveiro, mas prefere ignorar que a política também mata. 

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Jogada esperta

Se vivêssemos num país, Bolsonaro e Moro teriam de prestar contas à justiça, depois das declarações dadas por este mais cedo. Sabe-se que nada disso vai ocorrer. Moro chegou a dizer que o presidente trocou o comando da PF para ter acesso a investigações e a relatórios da entidade, o que não é permitido pela legislação. No fim das contas, sabemos que nem Moro nem Bolsonaro nem seus filhos terão de explicar alguma coisa.

Moro interferiu nas eleições, já sabia, antes mesmo delas, das ligações da família Bolsonaro com milícias, já sabia dos elogios a torturas... Uma vez como ministro, fingiu não saber de Queiroz, fingiu não saber da milícia digital perpetrada por um dos filhos de Bolsonaro, fingiu não saber dos inúmeros delitos do presidente (já mencionados por mim em outro texto). Não era preciso ser gênio para saber que Bolsonaro seria um desastre como mandatário. Mesmo assim, Moro embarcou. Ainda que não seja candidato a presidente nas próximas eleições presidenciais, saiu-se bem ao deixar o cargo de ministro. 

A maioria da população não levará em conta que ele é um dos responsáveis pelo engodo e pela ascensão do bolsonarismo, pois essa mesma maioria é pró-Moro exatamente por isso. Em lance bem jogado, desvencilha-se, pelo menos por enquanto, do que Bolsonaro representa. A noção de tempo é perfeita: a saída de Moro não soa precipitada nem dá a entender que veio tarde. Os mentores dele sabem o que fazem. 

Se Moro for candidato a presidente, conta, desde já, com o apoio dos demais cínicos (agora dizem terem se arrependido do voto para presidente), que fingiram não saber o tipo de gente que Bolsonaro é. Moro é um desses cínicos, mas não é bobo. Espertalhão, sendo ou não sendo candidato a presidente, saiu como o bom mocinho da história, o que ele nunca foi. 

terça-feira, 21 de abril de 2020

Sobre Pablo Villaça

Ontem, terminei o curso Forma e Estilo Cinematográficos, ofertado pelo crítico de cinema Pablo Villaça. Foi a primeira vez que ele ministrou as aulas online. São dez, cada uma delas com duração de duas horas. O curso aborda os aspectos técnicos que estão a serviço do que o cinema transmite. Embora, evidentemente, ele seja uma arte que pode ser apreciada por leigos, o curso de Pablo Villaça fornece ferramentas que possibilitam uma apreciação mais abrangente do que ocorre no universo de um filme.

Questões como forma e estilo, a diferença entre o gosto pessoal e o julgamento crítico, os elementos da narrativa cinematográfica, o cenário, o figurino e a maquiagem, a luz, a fotografia, a montagem e o som são debatidas. Enquanto vai analisando com olhar de lupa o que é peculiar de cada uma dessas áreas do cinema, Pablo Villaça ilustra as explicações com cenas extraídas de mais de uma centena de trechos de filmes, pertencentes a épocas e a gêneros variados.

O curso contagia não somente pelo vasto conhecimento que Pablo Villaça tem de cinema, não somente em virtude da paixão que ele tem por essa arte, mas também por uma faceta que o profissional tem e que eu não conhecia: ele é um excelente professor. É didático ao explicar, simplifica sem tornar as coisas simplórias e não tem afetação no tom de que se vale. Não bastasse, proporciona, em doses agradáveis, espontaneidade e humor.  

Durante o curso, respondendo a mensagem enviada por mim, Pablo disse que antes de ser crítico de cinema, é escritor. Sobre a crítica tal qual escrita por ele, digo: o patamar a que Pablo elevou a crítica cinematográfica faz com que ela se torne um novo gênero (que ainda não sei nomear), sem, ao mesmo tempo, deixar de ser crítica cinematográfica. Como exemplo, cito o primeiro parágrafo do texto que Pablo Villaça escreveu sobre o filme A Chegada, do diretor Denis Villeneuve:

“Há amores tão imensos que insistimos em vivê-los mesmo sabendo que a experiência resultará inevitavelmente em dor. Não há razão que explique nossa decisão de abraçá-los e o fascinante é que, mesmo que houvesse, não a ouviríamos. São amores tão fortes que parecem existir fora do tempo: não nos lembramos de como éramos antes deles e nem conseguimos nos imaginar como seríamos (ou seremos) depois”.

O sentido do parágrafo é amplificado quando já sabemos o enredo do filme; todavia, mesmo sem saber do que trata A Chegada, o trecho que separei existe por si, é belo por si, independe do filme a que se refere. Nesse sentido, é que advogo o pensamento de que a contribuição de Pablo Villaça para a crítica cinematográfica vai além dela como gênero textual (o que, em si, já é uma enorme e formidável contribuição para a cultura). Ele adentra um território que não é o da crítica, ou, para dizer de um jeito melhor, um território que não é unicamente o da crítica, que, se escrita por ele, pode ter humor, análise detalhada, aguda percepção psicológica ou lirismo em textos que primam por uma linguagem cujo estilo é de elegância rara, literária. (Vale lembrar que além de escrever sobre cinema, Pablo Villaça, em suas redes sociais, publica textos sobre política e sobre sua vida pessoal.)

A primeira vez que escutei falar do Pablo Villaça, quem o mencionou foi o Adriano, um colega de trabalho que tive e que já acompanhava o que o crítico escrevia.  Não lembro há quantos anos isso se deu; do que sei, é que desde então venho acompanhando o legado que Pablo Villaça tem produzido. Quando ele anunciou que faria uma versão online do curso Forma e Estilo Cinematográficos, eu logo me matriculei. O que houve de ruim no curso é que ele terminou. 

sábado, 18 de abril de 2020

Sobre literatura e fotografia

O NAC, Núcleo de Arte e Cultura do Unipam (Patos de Minas), enviou-me algumas perguntas relativas a meu trabalho literário e a meu trabalho fotográfico, pedindo-me que gravasse um vídeo respondendo aos questionamentos. Ei-lo.

Cinco cópias — devidamente assinadas

O burocrata seria útil se ele se esquecesse dos colegas de trabalho, se ele não obrigasse os outros a perder tempo com o que ele inventa por não ser capaz de inventar outra coisa. O burocrata é o defensor de uma linha de produção em cuja essência só há repetição de algo que não faz a menor falta para o andamento do mundo trabalhista. O universo da burocracia não aceita que, muitas vezes, a melhor maneira de fazer com que um trabalhador produza é deixá-lo em paz. 

Permanecesse o defensor da burocracia com suas inutilidades, quieto em seu canto com seus carimbos, seus formulários e suas assinaturas, não haveria problema. Só que não: o burocrata impede que o outro seja o melhor de si, o que torna o burocrata um entrave que julga estar contribuindo para o progresso, o bem-estar, a organização. O burocrata é um empecilho para o crescimento do que o outro tem de melhor, por obrigar o outro a ficar envolvido com tarefas repetitivas, inócuas, imbecis, sem sentido nem lógica. 

O burocrata é, antes de tudo, um ser que não reflete sobre o que ele poderia fazer para não infligir ao próximo um tormento. Feliz o que não tem um burocrata por perto no local de trabalho. O burocrata é torpe porque dá a seu inútil trabalho um ar de produtividade, de quem arregaça as mangas, quando na verdade é o mentor de engrenagens que atravancam o bem-estar de quem trabalha. Qualquer ambiente de trabalho seria mais produtivo sem a burocracia. Nem as frequentes e inúteis reuniões de que o mundo corporativo não abre mão são tão corrosivas quanto a burocracia. 

Só um espírito destituído de imaginação e sem senso de humor é capaz de enxergar utilidade no que é um fardo oneroso, consumidor de tempo que poderia ser usado em algo que preste. A burocracia é a sistematização do tédio e da burrice, a negação de tudo o que é engenho, inspiração, colaboração, fulgor, senso estético. Em sua sordidez, faz pose de imprescindível, quando na verdade não passa de algema disfarçada de eficácia. Os grilhões da burocracia são feitos de papel, de assinaturas, de carimbos, de refeituras de um mesmo trabalho, comprovações do que já está comprovado. O defensor da burocracia tolhe, escraviza, mutila, mata.