quinta-feira, 22 de abril de 2021

A mais gostosa e iluminadora solidão é a que se tem no banheiro

Sou cantor de banheiro. Apresento-me para multidões, canto melhor do que o Robert Plant, toco guitarra melhor do que o Celso Blues Boy. Vou lavando a alma, enquanto berro o mais desafinado que consigo as canções que vão comigo para o banho: já tenho a coleção musical que curto em cartão de memória que está no telefone. Via “bluetooth”, conecto o telefone à caixa de som; ambos tomam banho comigo. 

O resto é me apresentar em plateias mundo afora. Gosto de deixar, no celular, o programa de execução de música no modo aleatório. Caso surja uma canção que não estou interessado em escutar-berrar-junto, já deixo o telefone posicionado de modo que, mesmo sob a ducha, consigo pular de faixa.

No banho de hoje, o tocador de canções escolheu, minutos depois do início do banho, “Where the streets have no name” — a gravação original (tenho outras versões da canção). Mal o teclado deu sinais de vida, já fiquei doido. Quando veio o baixo, eu já estava contagiando um estádio inteiro. Esgoelei o máximo que pude. Enquanto eu “cantava”, eu me lembrei de um texto que li certa vez na revista The New Yorker, um belo ensaio sobre o U2. Lembro-me de que o crítico fez comentários sobre “Where the streets have no name”.

Terminada a faixa, peguei uma toalha, sequei o rosto e me preparei para a próxima canção do show. O tocador de música logo veio com 

Moro onde não mora ninguém
Onde não passa ninguém
Onde não vive ninguém
É lá onde moro
Que eu me sinto bem
Moro onde moro

De repente, mal tendo começado a emitir o segundo verso da canção, dei-me conta de que há, em termos de letra, possíveis afinidades ou sintonias entre “Where the streets have no name” e “Moro onde não mora ninguém” (sábio tocador de canções). Assim sendo, where the streets have no name, moro onde não mora ninguém. 

De pai para filho

A história ocorreu ontem, dia 21 de abril de 2021. O atendente perguntou a um garoto de uns cinco anos:
— Você está bem?
O garoto respondeu:
— Eu estou ótimo!
Surpreso com o tom muito animado da resposta, o atendente disse:
— Que bom! O que deixou você tão bem?
— Estou feliz porque o coronavírus acabou. Graças a Deus.
— Hum... Fica esperto. Ele não acabou, não.
— Acabou, sim. Meu pai é que me contou. 

Burocracia

A burocracia é uma arte e uma ciência: a arte de implementar o que é inútil e a ciência de institucionalizar o que não serve para nada. 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Leda Nagle

Ao ler a notícia falsa, Leda Nagle não exerceu um dos mais básicos princípios do jornalismo: conferir a veracidade do que divulga. Ela agiu como as milhares de pessoas que acreditam em teorias da conspiração, em cloroquina, em duendes. Enquanto lia a “notícia”, a apresentadora comentou “isso é tudo, menos política”. Há décadas, Leda Nagle é tudo, menos jornalismo. 

sábado, 17 de abril de 2021

Ilha de Vera Cruz

Na Ilha de Vera Cruz,
cloroquina,
máscara de oxigênio e
intubação.
Sobre o leito,
o corpo morre.

Há correria,
passos se agitam:
é preciso descartar o cadáver
para que outro corpo ocupe o leito
(corpos gastam).

A poucos metros dali,
risos abertos, 
sem máscaras de proteção.
Em meio ao júbilo,
a rolha de um vinho espoca.
Bocas sorridentes se revezam,
beijando o bico da garrafa. 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

José e Maria

José e Maria moram em Patos de Minas.
Os dois sabiam que estavam com o coronavírus.
Decidem visitar a mãe dele, 
que não mora em Patos de Minas.
Após a visita, a mãe morreu de covid.
José e Maria voltaram para a casa deles.
Foram (e são) avistados em público, sem máscaras,
praguejando contra o uso delas,
orgulhando-se de tomar cloroquina e ivermectina. 

sábado, 20 de março de 2021

Precocidade

José tomou ivermectina.
José tomou cloroquina.
Bradava a eficácia
do tratamento precoce.
Precoce foi a morte. 

sexta-feira, 19 de março de 2021

Zé pagava as contas em dia.
Montou pequeno comércio,
cujos impostos quitava com rigor.
Casou-se aos vinte e seis,
foi pai aos trinta.
Aos trinta e dois,
morreu de covid.

A natureza não se preocupa com 
nossas circunstâncias.
Nem Bolsonaro. 

quinta-feira, 18 de março de 2021

Trilogia “minha especialidade é matar”

1
Segundo o Houaiss, possível definição para “genocídio”: “Extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade”. Outra definição para o termo: (...) “Submissão a condições insuportáveis de vida”. Quem realiza genocídio ou quem extermina coletivamente é genocida. Não é desarrazoado chamar de genocida quem diz de si mesmo “minha especialidade é matar”.

2
Há os que — não raro, com cinismo — lavam as mãos, preferem ignorar a palavra, como se ela pairasse independente ou fora de quem a utiliza, como se ela não fosse sintoma de quem dela se vale. Ora, a palavra está ligada a quem a profere, é expressão de quem a emite, mormente quando dita de modo deliberado ou reiterado. Não se deve desvincular a palavra daquele que a expressa. Os que votaram em Bolsonaro sabiam das palavras que ele proferira antes das eleições que fizeram dele o presidente. Votaram de modo consciente em quem há tempos defende tortura e ditadores, votaram em quem dissera, antes das eleições, “minha especialidade é matar”.

3
Aquele que disser de si
“minha especialidade é dirigir”
pode ser chamado de motorista.

Aquele que disser de si
“minha especialidade é cuidar”
pode ser chamado de enfermeiro.

Aquele que disser de si
“minha especialidade é tocar”
pode ser chamado de instrumentista.

Aquele que disser de si
“minha especialidade é matar”
pode ser chamado de Bolsonaro. 

quarta-feira, 17 de março de 2021

Consequências

O poeta lê:
surgem poemas.

O músico lê:
surgem melodias.

O físico lê:
surgem explicações.

O “mito” não lê:
surge a morte.

O “mito” lê:
surge a morte. 

Visitação

O morto tem endereço.
A mãe o visita, conversa com ele; a mãe chora.
O morto nada diz.

O morto tem endereço.
O filho o visita, conversa com ele; o filho chora.
O morto nada diz.

O morto tem endereço.
A mulher o visita, conversa com ele; a mulher chora.
Um passarinho pousa e canta sobre o jazigo.
A mulher nada diz. 

O julgamento

Levaram, então, uma mulher: “Ela foi surpreendida em flagrante delito de adultério. A lei ordena que ela seja apedrejada. Você, que se acha cheio de razão, vai fazer o quê?”. O homem escrevia na terra com o dedo. Ergueu-se e lhes disse: “Quem não tem pecado que seja o primeiro a jogar uma pedra nela”. Mal tendo o homem começado a falar, já havia algumas pessoas fazendo gestos, como que atirando com revólveres ou com metralhadoras. O vozerio despejava impropérios. Foi quando um cidadão de bem, indo até o carro dele, pegou um fuzil e o descarregou sobre a mulher e sobre o homem. Houve risos, júbilo. Durante a agitação, as palavras que haviam sido escritas na terra foram apagadas. 

quinta-feira, 11 de março de 2021

Cadê a máscara?

Flávio Bolsonaro postou “nossa arma é a vacina”. Já o presidente, ontem, usou máscara em evento. Em Israel, Eduardo Bolsonaro usou máscara publicamente. Os dois primeiros, enquanto digito estas palavras, ainda estão fazendo de conta que defendem vacina e uso de máscara; o terceiro não conseguiu se manter no fingimento de civilizado. Ontem à noite, referindo-se a máscaras, declarou: “Enfia no rabo, gente”. Fez a declaração sem máscara. Não sei se executara a enfiadura indicada por ele.  

quarta-feira, 10 de março de 2021

Maia

Dentre os velhos cínicos, Rodrigo Maia é o mais recente a fingir que se preocupa com o Brasil. 

terça-feira, 9 de março de 2021

Entupidos

O povo se entope de ivermectina.
O povo se entope de cloroquina.

Os cemitérios se entopem de cadáveres. 

Fisiológico

O povo engole a mentira e
se torna claque do “mito”.

O povo engole a mentira e
vomita o que sobrou da ivermectina.

O povo engole a mentira e
caga o que sobrou da cloroquina.

O povo engole a mentira e
leva para o caixão o que sobrou de si. 

sábado, 6 de março de 2021

“Remédios”

De um lado, um governante que já deixara claro a que veio: “Minha especialidade é matar”. De outro, aqueles que, em vez de assumirem responsabilidades, delegam para um deus a resolução de problemas. Eles não são resolvidos. Vem a morte. Aí é um tal de “que deus o receba” ou um tal de “essa pandemia é vingança de deus” ou um tal de “que deus nos ajude”. Para que a consciência siga em paz, cloroquina, ivermectina e afins. 

quinta-feira, 4 de março de 2021

Sem leme

Prefeitos e governadores Brasil afora, muitos deles assumida e orgulhosamente sabujos de Bolsonaro, não contam agora com a ajuda dele. O cotidiano do cidadão é vivenciado não por ele, mas por governadores e, mais em especial, por prefeitos. O encontro no dia a dia se dá com prefeitos, não com o presidente. Eles é que têm de se virar para resolver um problema que muitos deles ajudaram a intensificar, quando manifestaram profunda sintonia com o “ideário” do chefe do executivo federal.

Este texto não é para defender prefeitos. Reitero: muitos deles são obedientes ao que o “guru” presidencial determina. Há deles por aí, por exemplo, que fazem questão de serem fotografados ao lado dele, sem que ninguém, evidentemente, use máscara. Afinal, para esse tipo de gente, máscara é artefato que atrapalha a felicidade. Este texto é somente para dizer que os prefeitos que tanto se encantaram com o presidente agora têm de se virar por conta própria em suas aldeias.

É paradoxal, é verdade, mas, no Brasil, quanto mais alto o cargo, menos satisfações os altos escalões dão. Longe das vítimas, é fácil para alguém desses escalões falar que são “frescura” e “mimimi”, palavras usadas hoje pelo presidente [1], a revolta quanto ao número de mortos pela covid e as reações contra a falta de política federal ao lidar com a pandemia. O presidente sabe que ninguém vai argumentar contra ele, pois ele está blindado, e quando confrontado por alguma pergunta a que ele tem obrigação de responder, ele vai embora. Assim, é fácil.

Sobrou para os governadores e, nas esquinas das cidades, para os prefeitos. Tanto estes quanto aqueles foram criticados hoje pelo presidente [2], ou seja, muitos desses governadores e desses prefeitos foram criticados e são agora abandonados por quem tanto bajularam. Surfaram na onda do bolsonarismo, foram eleitos; agora, veem-se abandonados pelo “‘mito’”. Estão sozinhos, estamos sozinhos.

O presidente sabe que poucos estão comprometidos em fazer a parte que cabe a cada um quanto à evitação do contágio pelo coronavírus. Propagar uso de remédios que nada resolvem no que diz respeito a tratamento contra a covid é mais fácil do que assumir a responsabilidade do cargo. Em jogada demagógica, e, por isso mesmo, eficaz, Bolsonaro afirmou hoje que políticos devem ir “para o meio do povo” [3]. 

De minha parte, digo que seria melhor se ele não desse as caras em público e cuidasse daquilo que é obrigação dele há muito tempo, que é a de conduzir, pelo menos com respeito, o manejo da epidemia no Brasil. Mas, claro, sei que dele, nem respeito virá. O Brasil estaria melhor se ele ficasse calado num gabinete qualquer. Ele sabe disso. 

quarta-feira, 3 de março de 2021

Mais chicotadas por favor

Alguns estarrecidos perguntam-se como apenas um homem, no caso, o presidente, esteja causando tantas mortes devido à não atuação dele para combater a pandemia. Ele não está sozinho e sabe disso. Conta com a tolerância da chamada grande mídia, que é a favor do neoliberalismo do Guedes e caterva. Essa mídia e outras empresas grandes apoiam a retirada de direitos trabalhistas (a reforma da previdência foi uma dessas estratégias).

Há o apoio de empresários muito ricos e o apoio da chamada grande mídia, que é comandada por empresários muitos ricos. De vez em quando, essa mídia finge uma oposiçãozinha. Esse quadro, por si, já praticamente garantiria a solidez da permanência do presidente no cargo. Todavia, não bastassem os apoios dos muito ricos, o presidente tem o apoio dos que não são muito ricos, os quais, por orgulho, crueldade ou burrice, têm aceitado a piora no poder aquisitivo e a tragédia por que passa o Brasil devido à covid.

Que o presidente nunca deu a mínima para a vida alheia, ele mesmo já havia evidenciado isso antes da eleição que o consagrou como chefe do executivo federal; o elogio dele a torturadores já escancara o desprezo que tem pelo outro. A covid seguirá matando e o presidente seguirá indiferente a funestos cortejos. O fato de ele contar com o apoio da população, mesmo ele nada fazendo para proteger a vida dessa mesma população, diz muito não somente sobre o que é o presidente, cuja crueldade e cujo despreparo ele mesmo já espalhava antes de ocupar o cargo em que está agora, mas sobre o país.

É comum ser veiculada a ideia de que o brasileiro é maior do que o bolsonarismo e as atrocidades que ele representa. Balela. Sem generalizações, fácil diagnosticar que, no todo, o brasileiro é cafona, individualista, violento, despreparado, indolente, paroquial, desinformado, ignorante, boçal, arrogante, incômodo, incivilizado, fanático, submisso; não tem senso de coletividade, de cooperação, de empatia. 

Se uma pessoa que tomava cloroquina morre por causa da covid, o brasileiro, em vez de escutar a ciência, prefere dizer que essa pessoa morreu lutando, prefere escutar um lunático que lucra com a desinformação. O fracasso do país ao lidar com a pandemia é o fracasso do brasileiro como povo. A morbidez social pela qual estamos passando é consequência não somente da desumanidade de um genocida nem somente da perversidade de grandes corporações, mas do caráter conspurcado e iludido de um povo que não enxerga a si mesmo. 

Os valores em que o bolsonarismo se inspirou foram tão bem-sucedidos que a vítima do chicote passou a exigir mais chibatadas. Enquanto a pele vai sendo marcada e o sangue começa a escorrer, a mão pesada aumenta a força dos golpes. Exausto, aquele que apanhou, mal tendo se erguido, já começa a desejar a próxima surra. Para criar a ilusão de que estará recomposto quando ela vier, ingere cloroquina e ivermectina. 

terça-feira, 2 de março de 2021

Carros e cinema

Há poderosas sequências cinematográficas que não me canso de rever; comento três em que há carros. A primeira (não em ordem preferencial, mas em ordem cronológica), os minutos finais de Thelma & Louise (1991), do diretor Ridley Scott, quando Thelma [Geena Davis] e Louise [Susan Sarandon] se olham e, a seguir, fecham seus destinos. A segunda é do filme Um Beijo Roubado (2007), do diretor Kar-Wai Wong, no momento em que Elizabeth [Norah Jones] e Leslie [Natalie Portman] se despedem, acenando uma para a outra, cada uma em seu carro, enquanto dirigem numa rodovia. A terceira é uma sequência que está em As Vantagens de Ser Invisível (2012), do diretor Stephen Chbosky, quando Charlie [Logan Lerman] vai para a parte de trás da caminhonete, enquanto escutamos uma narração dele mesmo; terminado o belo texto da narração, passamos a escutar “‘Heroes’”, do David Bowie. São três sequências catárticas. 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

O velho neoliberalismo

Bolsonaro não é a vitória do PSDBismo, mas é a do neoliberalismo. Seja ao modo de FHC, seja ao modo de Bolsonaro, o neoliberalismo não se importa com pessoas, pois o deus dele é o mercado. Havendo lucro, a morte de um ou de milhões é indiferente. Em FHC, o neoliberalismo usou disfarce de civilidade; em Bolsonaro, escancarou o desprezo que tem por gente. 

Efeitos

Ontem, o presidente falou de supostos “efeitos colaterais” do uso de máscaras. A “fonte” seria “uma universidade alemã”. Naturalmente, o mandatário não especificou qual universidade, e ainda que tivesse especificado, esses supostos efeitos colaterais seriam menos expressivos do que a morte. Também ontem, no Brasil, a covid-19 matou 1.582 pessoas. A ignorância presidencial tem seus efeitos. 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Apontamento

No ano passado, Romeu Zema, referindo-se ao corona, disse que “o vírus precisa viajar”. Ele foi muito bem recebido em Patos de Minas. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Outros dois brasileiros

— Não vou tomar a vacina.
— Nem eu. Fiquei sabendo que ela é parte de um plano dos comunistas pra dominar o mundo.
— Sim, e o pastor lá da igreja disse que a vacina tem um chipe que faz as pessoas perderem a fé. 

Casa

Cada um da família
num lugar da casa.
A construção 
tem muitos cômodos.
Cada um da família, 
muitos incômodos. 

Instâncias de uma torneira

A torneira da pia vinha me avisando que morreria em breve. Não querendo sair por causa da pandemia, que não é “só uma gripezinha”, fiquei adiando a substituição da torneira, que, ontem, não mais resistiu. Tendo ela parado de funcionar, fui a uma loja de material de construção.

Quando lá cheguei, o vendedor me perguntou se a torneira era de bancada ou se estava fixada numa parede (os cômodos de minha casa convivem comigo há uns vinte e sete ou vinte e oito anos). A pergunta desestruturou aquilo de que sou feito, pois eu simplesmente não me lembrava se a moribunda torneira era de bancada (não sei o que é uma bancada) ou se estava fixada numa parede. Mesmo sabendo o que é uma parede, eu não me lembrava se a torneira estava fixada numa.

Segundos se passaram. Para que o bagaço em mim não ruísse sobre o piso de uma loja de material de construção, saí de lá e vim aqui conferir a torneira, que estava quietinha, fixada numa parede. Voltei à loja. Escolhido o modelo da torneira, o vendedor me entregou um papelzinho e apontou um caminho a seguir.

Cheguei ao caixa, paguei. A atendente, depois de me entregar um papel, disse-me que eu teria de atravessar a rua para buscar a torneira. Atravessei, cheguei a um cômodo em cuja entrada havia uma placa na qual se lia “Clientes”. Um funcionário me disse que eu teria de passar por um largo portão e procurar por uma janela de vidro que ficava à esquerda do portão; diante dele, um funcionário me indicou a direção da janela de vidro.

Cheguei a ela. Do outro lado do vidro escuro, eu não conseguia enxergar direito a funcionária; ela me disse algo que não consegui escutar com exatidão. Ela ergueu a voz. Continuei não escutando, mas supus que ela estava me pedindo o papel que me havia sido entregue quando paguei pela torneira.

Entreguei o papel para a funcionária. Ela se movimentou; segundos depois, devolveu-me o papel e apontou um caminho; eu deveria cruzar um pátio e chegar a um cômodo em cuja parede havia, salvo engano, o número 415. Atravessei o pátio. Entrei no cômodo 415, portando o papel que me havia sido entregue pela funcionária que trabalha atrás do vidro escuro.

Entreguei o papel a um jovem, que logo se afastou e foi buscar a torneira. Quando voltou, o jovem, além da torneira, entregou-me um pedaço de papel, dizendo que eu deveria mostrá-lo ao senhor que estava na entrada (ou na saída) do depósito. Quando mostrei o papel ao senhor, ele pegou a sacola em que estava a torneira, retirou-a, leu o papel que me fora entregue momentos antes pelo jovem, leu a embalagem da torneira. Comparou o quê com não sei o quê e me liberou. Kafka é aqui.

Eu não saberia substituir a torneira morta pela torneira jovem. Entrei em contato com um amigo, que fez a substituição. Dentro da pia, uma tonelada de coisas a serem lavadas. Fiz a estreia da nova torneira. Como a anterior estava difícil de ser manejada, lidar com a nova me deu ânimo súbito para a chata tarefa de lavar louças e utensílios.

Não ficaram nem mais limpos nem mais sujos do que ficavam quando eram lavados diante da torneira velha. Ela estava recalcitrante, é verdade, mas não é a torneira, desde que ela funcione, ainda que capengando, que definirá o quão limpas as louças ficarão. A torneira nova, é verdade, facilitou o trabalho, sem, todavia, em si e por si, fazer com que eu me tornasse um exímio lavador de talheres, de vasilhas e de similares.

Recentemente, comprei nova câmera fotográfica, depois de supor que minha anterior havia morrido em definitivo. Não havia; foi possível consertá-la. Antes do conserto, eu comprara uma câmera nova, que facilita meu trabalho, pois as especificações dela são melhores do que as da anterior. Não tenho feito registros melhores com a nova câmera, pois não é uma torneira nova que faz com que as louças fiquem bem lavadas. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Todos

Os coronéis de Patos de Minas.
Os trabalhadores de Porto Seguro.

Os que votaram na “nova” política.
Os que não elegeram milícias.

Os evangélicos que defendem tortura.
Os que amam o próximo.

Os que tomam cloroquina.
Os que usam máscara.

Os que tomam ivermectina.
Os que se informam.

Os que se aglomeram.
Os que entendem a solidão.

Os que acreditam que a Terra é plana.
Os que gostam de se divertir com uma bola.

Os que defendem tortura.
Os que têm coragem de amar.

Os que defendem ditaduras.
Os que querem um mundo sem Ustras.

Os que acreditam que é “só uma gripezinha”.
Os que sabem ler.

Os que creem que o “mito” é divino.
Os que sabem do mandatário miliciano.

Os que acreditam em seu deus.
Os que não precisam de deuses para serem bons.

Os que acreditam em chipe na vacina.
Os que buscam entender a diferença entre vírus e bactéria.

Os que alegam que orações destroem epidemia.
Os que investem na ciência.

Os que dividiram o pagamento da arma em 10 vezes.
Os que terminaram de ler mais um livro ontem.

A covid não faz distinção entre uns e outros.
Estão todos enterrando os seus. 

A covid não separa uns dos outros.
Todos podem ser enterrados amanhã. 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Ilusão

Os que apoiam o governo genocida têm a ilusão de que a vida deles é importante para o governo genocida. 

Dois brasileiros

José ofereceu caixas de ivermectina para Pedro. José garante que não teve covid porque tomou o remédio. Disse ter achado um absurdo o laboratório que fabrica o medicamento ter dito que ele não funciona contra a covid. Pedro concordou. Comprou metade do estoque de José. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Lista de compras

— Hoje é dia de compras, tá ok? Lê a lista. Não quero que falte nada.

— Alfafa, chiclete, geleia de mocotó, picolé, sagu, vinho.

— Beleza.

— É pra comprar vacina também?

— Não. Nada de gastar com coisa inútil. 

Haicais

De gritar, ficou rouco.
Milhões em leite condensado.
Gritou que era pouco.
_____

Na lista, alfafa.
O ruminante engole.
A milícia se safa.

Haicai lácteo

Miliciano empossado.
Não adianta chorar sobre
o leite condensado.

Camuflagem

Dos que defendem torturadores, ditadores e viciados em leite condensado, os mais sórdidos não são os que se declaram a favor de torturas e de ditaduras; esses são sórdidos, mas pior do que eles são os que posam de civilizados, de amantes do belo e da(s) humanidade(s), camuflando o que de fato são: endossadores de genocidas. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

“Impeachment” e diferenciações

Não é somente sobre aqueles que não sabem diferenciar um camelo de um dromedário que o chefe do executivo federal tem influência. Ele tem influência também sobre quem acredita em cloroquina no tratamento contra covid-19, quem acredita que ele é um ungido, um enviado que é bom demais para estar pisando solos tão mundanos, pois o pastor ou o padre assim disseram, quem acredita que ele é competente e trabalhador, quem acredita que não houve corrupção durante a ditadura militar ou quem acredita que a corrupção acabou de dois anos para cá...

Não bastassem os milhões acima, há outros milhões: os que agem de má-fé, os que são a favor de que não haja alíquotas de importação para armas e defendem impostos sobre livros, os que se julgam cientes por lerem a Veja, os que acreditam em qualquer coisa que for dita pela tal da chamada grande mídia, os que enxergam sagacidade em seres como Alexandre Garcia, os que defendem “espiões” embutidos em vacinas, os que querem torturas e ditadores, os que admiram Luciano Hang, os que são adeptos do tribalismo masculino, os que não se importam com o que está ocorrendo em Manaus, os que desdenham do isolamento social...

A chamada grande mídia finge faniquito quando o mandatário berra a ignorância dele (o que ele tem berrado há décadas). Essa mesma grande mídia convence milhões de que ela nada tem a ver com a tragédia que é ter colaborado para que esteja no poder um cara sem o menor senso de algo que soe como espírito público, civilidade ou empatia. Para piorar, em meio à classe política, há muitos deles lucrando, seja de modo literal, seja de modo figurado, com o estado das coisas como estão. A parcela dos hipócritas que se fingem arrependidos (hipócritas porque o próprio chefe do executivo federal divulga há tempos a crueldade e a preferência por dizimações) é pequena e não está a fim de exercer pressão sobre políticos. Pelo que escrevi até agora e por questões que eu nem saberia anunciar, não vai haver o “impeachment” presidencial.

Por fim, é preciso escrever com justeza. Nem todo mundo que não sabe diferenciar o camelo do dromedário, o rato do camundongo, o coelho da lebre, o jacaré do crocodilo, o vírus da bactéria, a guitarra do contrabaixo, o coentro da salsa, a Winona Ryder (em qualquer filme) da Keira Knightley (em Desejo e reparação), o Brasília do Variant votou no defensor de torturadores. Muita gente não sabe diferenciar nada disso, mas não ignorou a obviedade escancarada pelo próprio defensor de genocídios e por tantos outros que desde que surgiu para a cena política, o político que diz ter histórico de atleta já gritava ser o que tem sido. Quem nega isso não sabe diferenciar um burro de um presidente.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O ar não é para todos

Nada novo vindo de um chefe de Estado que continua (e continuará) não se importando com a vida alheia. Ele mesmo vive defendendo torturadores e ditadores. Se o outro morre sob tortura ou sem ar, isso é irrelevante para quem a vida desse outro é inútil. Muitos votantes concordam com o votado, pois, ainda que alguns deles posem de sofisticados e de defensores do próximo e da natureza como um todo (são os mais cínicos), endossaram, por intermédio do voto, alguém que, há décadas, tem deixado claro que já era o que tem sido — um sujeito para o qual o outro é um mal a ser eliminado. Insisto, repito, reitero, reescrevo: o que tem vindo do chefe de Estado não surpreende. Só um hipócrita, um imbecil ou um adepto de torturas e afins poderia alegar ter suposto que seria diferente: quem sempre defendeu a violência não vai se tornar de repente um estadista preocupado com o destino do outro. Asfixiado, o país vai morrendo. Todavia, sejamos justos: o governo federal não é o único a defender a crueldade. Ele tem adeptos. Os corresponsáveis pela debacle podem estar num gabinete político, numa mansão ou numa mercearia (este, contando os trocados, verificando se o dinheiro vai ser o bastante para comprar o arroz). 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Sangue meu

O índio é o outro.
O índio sou eu.
Eu sou o índio.
O outro sou eu.

O preto é o outro.
O preto sou eu.
Eu sou o preto.
O outro sou eu.

Meu sangue da África,
meu sangue da floresta,
vermelho como 
sangue do preto,
vermelho como 
sangue do índio. 

sábado, 2 de janeiro de 2021

Praia Grande

 — Não há plano de vacinação, há pessoas morrendo... E o que o comandante faz?

— Nada. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Recado para 2021

2020, estou me despedindo de você,
mas, 2021, não conte com um Lívio diferente.
Eu sei, é tentador a gente se empanturrar de álcool e
de resoluções em 31 de dezembro.
Somos mais estrondosos do que os fogos,
tão artificiais quanto.
As resoluções do réveillon
acordam de ressaca,
não chegam a dois de janeiro.

2021, não espere um Lívio diferente.
Seguirei sendo antiburocracia e
com preguiça de ir a supermercado.
Continuarei lendo e brincando com meu cachorro.
Sua pandemia, 2020, não causou novidade em mim.
Sigo o velho que sempre fui,
sem fé na humanidade, sem fé.

Sei, 2021, que você trará 
as mesmas babaquices do 2020,
que não as inventou.
Eu e você, 2021,
herdaremos a estupidez dos séculos,
a violência dos milênios e
a burrice dos que defendem bolsonaros.

Seguirei sendo o velho corpo cansado,
o antigo comodismo congênito,
os mesmos pretextos criativos.
Que você chegue, 2021,
mas não espere nada de mim.
Eu não espero nada de você.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Sobre a natureza

A natureza não sabe que amanhã é terça-feira
nem que está chovendo agora.
Ela não está interessada no destino de João
nem na tristeza de Paulo.
Se Tereza está feliz
ou se Jânio ganhou na loteria,
isso não importa.
Artur sobreviveu à covid-19;
Maria Clara morreu por causa dela.
O câncer levou Ana, 
mas poupou Tiago.
A enchente levou a casa de Hermes
e a seca fez o corpo do menino Anderson secar.

A natureza não sabe que ontem foi domingo.
Ela não descansou.
Suas cachoeiras,
que não estavam aqui ontem,
não estarão amanhã.
As belas paisagens não são belas para nós.
A natureza não fez as estrelas para nosso regozijo.
O Sol que nos banha não sabe que Zé da Silva deve ao banco.
O balé da revoada de estorninhos não é para me agradar.
Fora de nós, a natureza não adjetiva, não abstrai, não compõe.
A natureza é. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O país dos maricas

Presidente, algumas perguntas a partir do uso que você fez de “maricas”...

Os 160 mil que, até agora, morreram por causa da covid-19 eram maricas? Ou alguns deles morreram porque quiseram ser mais machos do que os demais?

Maricas é quem não votou em você? É quem não votou em você e morreu de covid-19? É quem votou em você e morreu de covid-19? Quem não votou em você e não morreu de covid-19 é maricas? Ou maricas é quem usa máscara? É quem não quer transmitir a covid-19?

Você disse que “todos nós vamos morrer um dia”. Isso quer dizer que não temos razão para tomarmos precauções quanto à covid-19 devido ao fato de que “vamos morrer um dia?”. Esse mesmo “raciocínio” vale para outros contágios ou para outras doenças? Ou isso somente vale quando o assunto for a covid-19? Caso sim, por quê?

O mesmo vale, por exemplo, quando o assunto é o câncer? “Todos nós vamos morrer um dia”; logo, não devemos tratar o câncer nem devemos tomar cuidado com ele? Nem com a leptospirose? E quanto a possíveis facadas? Devemos deixar de ser maricas e não procurarmos um hospital caso levemos uma facada? Ou o “todos nós vamos morrer um dia” só é válido quando se trata da covid-19? Caso sim, por quê?

Você foi examinado por um médico quando teve covid-19. Isso é ser maricas? Ou maricas são os que procuram médico e, ainda assim, morrem? Quem não procura médico em caso de covid-19 provou não ser um maricas?

O que é, exatamente, ser um maricas? É quem não quer morrer devido à covid-19? É quem toma cuidados para tentar não morrer em breve? É quem toma cuidado para não matar os demais? O presidente de um país que deixa a população desse país sem ministro da saúde durante meses numa pandemia é um maricas? Ou isso é sinal de macheza?

Para que eu entenda sua “ideia”: o João tem covid-19 e a transmite para José, que morre de covid-19, transmitida por João. Quem é o maricas?... É o João?... Caso sim, por quê?... Caso não, por que não?... É o José?... Caso sim, por quê?... Caso não, por que não?... São os dois? Caso sim, por quê?... Caso não, por que não?...

De acordo com você, a pandemia foi “superdimensionada”. Já há 160 mil mortos. O que seria não “superdimensionar”? Seu critério é numérico? Tive apenas uma pessoa morrido, isso não importaria? (Se o critério for seu, sou levado a crer que não. Afinal, quando o exército matou, fuzilando, você declarou que “o exército não matou ninguém”. Isso é regra sua que tem validade somente para os outros? Ou ela tem validade para você?)

Cinco milhões já foram infectados pela covid-19. São maricas? Ou maricas são apenas os 160 mil que já morreram? Maricas é quem não teve covid-19 e tem medo de ter? É quem deseja que haja vacina?

O que é, com exatidão, um maricas? É um covarde? Um fraco? Caso sim, o que é um fraco para você? Ser maricas é não querer morrer? Ou é não querer morrer devido à covid-19?

Referindo-se aos que buscam os mortos pelo regime militar, você endossou cartaz com os dizeres “quem procura osso é cachorro”. Agora, você usou o termo “urubuzada”. “Animalesco”, você. Todavia, urubus se alimentam de carniça; assim fazendo, realizam trabalho de limpeza. A vida é assim mesmo: uns limpam, outros sujam; uns se alimentam do que já morreu; outros matam. 

sábado, 7 de novembro de 2020

A ilha Brasil

“A visão de Trump tem um lastro em uma longa tradição intelectual e sentimental que vai de Ésquilo a Oswald Spengler, e mostra o nacionalismo como indissociável do Ocidente. Em seu centro, está não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história. Não se trata tampouco de uma proposta de expansionismo ocidental, mas de um pan-nacionalismo. O Brasil precisa refletir e decidir se faz parte desse Ocidente”.

Essas palavras foram escritas pelo atual ministro das relações exteriores, em texto intitulado “Trump e o Ocidente”. Escreveu ainda o ministro: “Esse Deus pelo qual os ocidentais anseiam ou deveriam ansiar, o Deus de Trump, não é o Deus-consciência-cósmica, ainda vagamente admitido em alguns rincões da cultura dominante. Nada disso. É o Deus que age na história, transcendente e imanente ao mesmo tempo”.

Não somente por essas palavras, a revista norte-americana Jacobin, em fevereiro de 2019, deu ao ministro das relações exteriores do Brasil a alcunha de o pior diplomata do mundo. A imprensa e os meios de comunicação daqui, desde quando a vitória de Joe Biden começou a se esboçar, têm cogitado sobre o que pode vir a ser a diplomacia brasileira a partir de agora.

Enquanto isso, em seu quintal, os estadunidenses têm de lidar com um perdedor que, pelo menos até agora, não apresentou prova alguma das fraudes que ele diz ter havido. (Em nosso quintal, Aécio Neves pode ser elencado como tendo tido o mesmo comportamento, que, aliás, é discutido no imprescindível Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Para eles, um dos indícios de ausência de espírito democrático por parte de alguns políticos é o fato de eles se empenharem em fazer com que as instituições sejam desacreditadas ou com que sejam demolidas.)

A tônica do que a imprensa e os meios de comunicação têm dito é a de que o governo federal terá de mudar sua postura diplomática, sob pena de ficar à parte no cenário internacional. Celso Amorim deu declaração ao UOL, afirmando que “Bolsonaro vai ter que mudar muito. Se ele tentar fazer o que tem feito até agora, que é invocar uma falsa noção de soberania, uma grande parte da elite brasileira que está tendo tolerância com ele até agora deixará de tê-la. Se tem uma coisa que a elite brasileira não suporta é brigar com os Estados Unidos”.

Sim, uma parte da elite brasileira é baba-ovo dos EUA, o que também ocorre com o chefe do executivo federal em relação a Trump. Depois de ler o que Celso Amorim declarou, pensei: essa parte da elite brasileira que se presta a ser capacho dos EUA não mudará os valores excludentes, antiéticos e antiecológicos do trumpismo, que, no governo federal, têm fiéis. 

Não consigo enxergar ninguém nesse governo a fim de fazer o que eles até agora não fizeram: diplomacia. Devido a insanidades como a de que “o Deus de Trump” é “transcendente e imanente”, só consigo pensar num Brasil (mais) isolado e (mais) vexaminoso diplomaticamente. Que eu esteja enganado. 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Os de lá e os daqui

Ontem, ao vivo em canais de TV, enquanto Trump estava dizendo haver fraude nas eleições dos EUA, âncoras e jornalistas entraram ao vivo durante a fala do político para dizer que ele não apresentara até então nenhuma prova do que estava dizendo. Do que não sei, pois não acompanho os canais que disseram que Trump mente ou blefa, é se eles estavam sendo cínicos como os daqui, que não moveram uma sobrancelha para desmascarar, por exemplo, coisas como mamadeira de piroca ou kit gay, e pousam agora de mocinhos preocupados com a democracia, fingindo não serem inescrupulosos.

À parte isso, se uma versão à brasileira do Trump, preferencialmente sem provas, disser por aqui que eleições estão sendo, foram ou serão fraudadas, minutos depois já haverá nas TVs, rádios e sites de notícias “analistas”, “comentaristas” e “especialistas” endossando esse hipotético Trump dos trópicos. Em termos técnicos, tudo é feito com esmero. Numa analogia, poder-se-ia dizer que a imprensa e os meios de comunicação brasileiros, em sórdida assepsia, são como o cidadão que, vestindo roupas caras, modulando gentilmente a voz e querendo transmitir ares de civilidade, sofisticação, competência, ética, honestidade e preocupação com o país, camufla vilezas e preconceitos. A maior parte do jornalismo brasileiro faz de conta que é combativa e republicana. Muitos acreditam. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Culposo

Denúncias contra um senador: peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita, organização criminosa. Mas ele não é pobre. Ainda que haja toneladas de documentos comprovando os crimes, sairá ileso: é rico, é homem, é branco, tem pai influente. O criativo judiciário, num longínquo futuro, em caso de culpa do político, vai inocentá-lo, nem precisando de malabarismos mentais. Basta dizer que houve peculato culposo, lavagem de dinheiro culposa, apropriação indébita culposa e organização criminosa culposa. Funciona. 

O Estado do Cinismo

Sabe o sujeito do filme de comédia que pratica delito e sai assoviando, como se nada tivesse com a história?: é assim que agem a imprensa e os meios de comunicação do Brasil quanto ao governo federal, fingindo que nada tiveram a ver com a eleição. A mais recente desfaçatez foi do jornal O Estado de São Paulo, que publicou texto dizendo que o presidente “arrasta o País para o abismo”. O periódico é mais um a lavar as mãos (sujas), como se não fosse ele um dos responsáveis pela eleição do causador da debacle. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

O país do “estupro culposo”

Ser branco, homem e rico no Brasil dá ao detentor de tais predicados a regalia de ter à sua disposição algo do tipo “estupro culposo”, malabarismo classista do judiciário local, invenção macabra de parte de uma elite retrógrada, saqueadora e sem o menor senso de humanidade. São reflexos de uma classe que é o entrave do país; reflexos que escancaram o teatro cruel que o judiciário brasileiro pode ser.

O que covardes fizeram com Mariana Ferrer durante o “julgamento” extrapola o que estava em consideração e descamba para o machismo, a prepotência, a humilhação, a tergiversação desrespeitosa. Moeda corrente no judiciário que, quando quer, sabe ser farsa, seja para desferir golpes políticos, seja para inocentar quem pertence à mesma classe daqueles que, no Brasil, há séculos, pilham, mentem, humilham, estupram. 

Se não têm as provas que desejam, para eles bastam as convicções; se contra eles há provas, que se invente qualquer coisa (qualquer mesmo) para inocentá-los. Nas mãos deles, o judiciário é uma ficção criada para salvar a pele deles e para que eles punam quem não é da panelinha. Fazem assim porque sabem que o arremedo de justiça aqui vigente é controlado por eles. Provas?... A depender do caso, ou as desconsideram ou as criam. 

Sim, a obrigação de qualquer advogado é defender seu cliente. O que está em jogo não é o cumprimento de uma obrigação, mas o modo como ela foi realizada. O que foi infligido a Mariana Ferrer não foi a solidez de argumentos, mas a sordidez de privilégios criados por uma elite nojenta que é o câncer do Brasil.

domingo, 1 de novembro de 2020

A Finlândia não é aqui

Desde que foi veiculado, faz sucesso um vídeoque dura algo em torno de vinte minutos, sobre o sistema educacional na Finlândia. É uma produção da Globo. Com frequência, esse vídeo é usado como argumento quando se quer elogiar a educação recebida pelos finlandeses e criticar a recebida pelos brasileiros.

É preciso ponderar a partir do que é dito no vídeo. É que sempre fico reticente quando há a tentativa de comparação entre a educação na Finlândia e a educação no Brasil. A primeira razão pela qual fico reticente é óbvia: o contexto finlandês é diferente do contexto brasileiro.

É dito no breve documentário que a Finlândia é o país mais feliz do mundo. À parte o fato de eu achar que felicidade é um conceito difícil de ser medido, pois o parâmetro de um pode ser diferente do parâmetro de outro, chamou minha atenção o seguinte: eles são um dos países menos desiguais do mundo.

Permitam-me um raciocínio simplório, mas necessário: o vídeo permite a fácil dedução de que menos desigualdade e felicidade estão conectadas. Mantendo o raciocínio simplório: igualdade e felicidade estão conectadas. Para nós, o problema começa na desigualdade. O Brasil é um país edificado sobre a desigualdade, que pode ser conferida em qualquer esquina do país.

Isso, por si, já é uma questão melindrosa. Mas a coisa fica pior: não há empenho de toda a sociedade para que as desigualdades sejam amenizadas ou dizimadas. O Brasil é um país em que quando se fala em ensino gratuito para todo mundo, há quem diga que não é obrigação governamental ofertar educação para todos. Segundo o vídeo, na Finlândia, “todas as crianças estão em escolas públicas” e “todo mundo tem as mesmas oportunidades”. Vou reescrever a frase: “Todo mundo tem as mesmas oportunidades”. Também é dito no trabalho da Globo que na Finlândia a educação é gratuita até o término do ensino superior. 

Acho estranho o que, com frequência, ocorre no Brasil: exalta-se a igualdade no exterior, mas se deplora a busca dela por aqui, onde há quem queira insistir na ideia de que o sujeito nascido na periferia de São Paulo tem as mesmas oportunidades de um nascido no Morumbi, e que se os projetos daquele não se concretizaram, a culpa é dele, que seria preguiçoso, indolente, burro. É dito no vídeo: “Você não precisa vir de família rica para se tornar alguém”. Lá, isso é possível porque há igualdade.

Tudo, contudo, fica pior: há uma cena do vídeo em que se mostra uma professora ensinando o processo de formação da Terra. Aqui no Brasil, congressos têm sido realizados para se afirmar que o planeta é plano, indivíduos têm negado princípios básicos da ciência. Estou sugerindo com isso que não cabe à escola fazer algo?

Não. Com isso, estou defendendo a ideia de que comparações entre países devem ser feitas com cautela, e que o ensino tem limites, principalmente se inserido em contexto desfavorável, caso do Brasil. A escola, ao mesmo tempo em que pode influenciar a sociedade, por ela é influenciada. Seria muita pretensão afirmar, no caso brasileiro, que a escola, sozinha, realizará a melhora.

No Brasil, a profissão de professor é desvalorizada, o que, segundo o vídeo, não ocorre na Finlândia. O professor, no Brasil, é visto, por alguns setores da sociedade, como um proscrito, um coordenador de badernas. Não bastasse, os professores, na Ilha de Vera Cruz, são enterrados sob um escombro de burocracia e de vigilância. Reitero: não sugiro desistência, mas ponderações quando insistem em querer aplicar o modelo educacional finlandês no Brasil.

Certa vez, perguntaram para o García Márquez se o artista tem de ser ou de estar triste para produzir. A resposta dele: “Escrevo melhor de barriga cheia”. O Brasil tem uma multidão de estudantes que não têm o que comer; estuda-se melhor de barriga cheia.  É dito no vídeo que a Finlândia teve guerra civil e fome. Superaram ambas. Vamos superar a fome no Brasil? Vamos ter uma sociedade composta por oportunidades iguais? Não tenho respostas.

Qual a importância em se conhecer a realidade educacional da Finlândia? Uma das importâncias é o saber em si, o estar informado. Outra importância: a ciência de que há um país como a Finlândia inspira a utopia, tal qual a concebe o Eduardo Galeano (1). Vídeos como esse, assim concebo, não são para que imitemos as engrenagens da Finlândia ou de outro país, nem para que tentemos implantar o sistema educacional deles aqui, mas para que saibamos que uma sociedade igualitária pode ser feliz. Seremos?

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(1) Há um texto do Eduardo Galeano em que ele se vale da seguinte imagem para ilustrar o que é o caráter utópico: a utopia é querer chegar à linha o horizonte; chega-se. Lá chegando, enxerga-se outra linha do horizonte, que deve, então, ser buscada; chega-se a ela. Lá chegando... 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Uma jovem senhora

Os modos são civilizados, polidos. O jeito de caminhar é leve, mas calculado; é como se estivesse desfilando, mas sem espalhafato. É que a vida é uma passarela. Ela sabe que atrai. Os gestos, também estudados com dedicação, querem passar ideia de espontaneidade. A voz é doce, tem alguma melodia, que, se escutada, deixa escapar, em seu timbre, alguma afetação, que a jovem senhora insiste em esconder. Quase sempre, com sucesso.

Nas reuniões com os amigos e nas redes sociais, procurando falsa modéstia, dá notícia das doações que faz todo ano; se há um gesto caridoso, como, digamos, um alimento que é dado a um faminto, isso é divulgado. Não com alarde, o que seria trair a tão almejada classe, mas com discrição que camufla o ego enorme. A jovem senhora sabe fingir que não quer atenção para si o tempo todo. Sorri para ricos e para pobres.

Jacta-se de dizer em quantos países já esteve. Chega a um lugar, tira fotos em algum monumento famoso e corre para outra cidade; lá chegando, tira fotos em algum monumento famoso e corre para outro país; lá chegando, tira fotos em algum monumento famoso e corre para outro continente. Com o corpo, já esteve em muito lugar. Gosta de Paris. Mas adorar, adora mesmo é Nova York. Quanto às belezas do Brasil, vive a falar bem delas sem ter vontade de conhecê-las; mal conhece a cidade em que vive.

Ela cuida da linguagem, embora haja na jovem senhora alguma ilusão quanto ao português que tem e muita ilusão quanto ao inglês que emite. Dependesse dela, teria a língua de Trump como nativa. Em situações públicas, sejam pessoais, sejam virtuais, o carisma, mais pensado do que genuíno, entoa cânticos a favor da paz, envia elogios à gentileza e aos bons modos, declara-se tocado pela arte de Romero Britto, propaga amor à natureza.

Também não espontâneo, há um certo recato. Os desavisados, diante de cada parte do que ela é, recebem o impacto do todo, sem desconfiarem de que sob o aspecto liso, saudável e belo do rosto dela há uma jovem senhora que não gosta de pretos, não gosta de pobres, não gosta de índios, não gosta de gays. Muitos gostam dela por não saberem quem ela é; muitos gostam dela por saberem quem ela é.

Para ela, o Brasil precisa ser higienizado; pensa que não faz sentido um país que não seja habitado por peles branquinhas. Ela, que já lamenta não haver em terras tropicais o branco da neve, não lida bem com o desconsolo que sente quando tem de sair de casa e se deparar com pessoas suadas e de pele encardida, adjetivo este de que ela se vale quando se refere às pessoas que realizam trabalhos braçais ou que pegam ônibus. Para ela, só ditadores resolvem esses problemas.

O marido pertence a um clube. Não basta existir para frequentá-lo. É preciso ser convidado, é preciso ser eleito. A confraria divulga a si mesma como filantrópica. Na prática, dedicam-se a jogos políticos que enriquem a si mesmos e depenam os pobres. Quando o marido da jovem senhora está nas reuniões do clube, não é raro ela estar se refestelando no corpo do musculoso amante. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

O jogo tem vencedor

O jogo dos que se dedicam a retirar do povo direitos que estão na Constituição é vitorioso. O sucesso desses jogadores é tamanho que o desmonte de direitos é aplaudido também pelos que os perderão, mesmo deles dependendo: o coturno pisoteia a face, que, sorrindo, agradece ao genocida pelo esmagamento. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2020

Adoeça em paz

Uma pequena porcentagem dos que elegeram o atual chefe do executivo federal não depende do SUS. Para esses, quando a saúde pública for desmantelada, a vida deles seguirá na mesma toada, pois têm condição de arcar com os custos de hospitais particulares. Todavia, vivemos num país em que 60% dos trabalhadores brasileiros têm renda média inferior a um salário mínimo. Na prática, isso significa que a maioria da população depende dos serviços públicos de saúde.

Não me canso de reiterar: o decreto relativo às Unidades Básicas de Saúde, assinado pelo presidente e pelo ministro da economia, não surpreende, pois sempre deixaram claro que o modo deles de fazer política é não se preocupar com os que não têm condições de bancar serviços particulares, sejam quais forem. Válido mencionar também que muitos dos que não conseguem pagar uma consulta particular aplaudem qualquer iniciativa do governo federal, pois há quem se sinta no dever de agradecer ao chicote que deixa marcas na pele. 

sábado, 24 de outubro de 2020

Ambos

Gosto de roça.
Gosto de cidade.

Gosto de Janis Joplin.
Gosto de Karen Carpenter.

Gosto de loiras.
Gosto de morenas.

Gosto de gente.
Gosto de solidão.

Gosto de guitarra.
Gosto de sanfona.

Gosto de futebol.
Gosto de literatura.

Gosto de Choderlos de Laclos.
Gosto de Catulo da Paixão Cearense.

Gosto de luz.
Gosto de escuro.

Gosto de silêncio.
Gosto de Led Zeppelin.

Gosto de livro.
Gosto de câmera fotográfica.

Gosto de vinho.
Gosto de cerveja.

Gosto de feijão.
Gosto de arroz.

Gosto de vermelho.
Gosto de azul.

Gosto de Garrincha.
Gosto de Maradona.

Gosto de Beatles.
Gosto de Rolling Stones.

Gosto de Camões.
Gosto de Leminski.

Gosto de picanha.
Gosto de rabanete.

Gosto de papel.
Gosto de tela.

Entre um e outro, ambos. 

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Que morram mais 150 mil

Gastar dinheiro público com cloroquina, que não tem comprovação científica no combate contra a covid-19 e cujos estoques estão encalhados, sem problema. Liberar a CoronaVac, desenvolvida em parceria com cientistas brasileiros, não. Cinismo, burrice, viés ideológico e ódio são componentes dos genocidas.

sábado, 17 de outubro de 2020

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Dinheiro limpo

O senador Chico Rodrigues (DEM-RR) é um dos políticos que mais conseguiram liberar dinheiro de emendas em 2020. O governo do presidente, até terça-feira (14/10), empenhara R$ 15.637.645,00 em emendas do senador, que foi um dos vice-líderes do chefe do executivo federal no senado. Dadivoso, Chico Rodrigues deu emprego para um primo dos filhos do mandatário.

As nádegas e a vizinhança delas comportam, como já é sabido, dinheiro. Em suas intimidades, o senador portava R$ 17.900,00 reais. A título de curiosidade, fiz conta simples, para saber quantas pessoas, em média, seriam necessárias no transporte de R$ 15.637.645,00, levando-se em conta a quantidade de dinheiro que Chico Rodrigues tinha consigo.

Não tendo eu feito a conta incorretamente (caso os cálculos estejam incorretos, gentileza me corrigir), 873 pessoas, arredondando-se para baixo, seriam necessárias para carregar os R$ 15.637.645,00 na cueca. Sabe-se a quê cheira a grana que estava com Chico Rodrigues. O que não se sabe é se 872 pessoas já lavaram o dinheiro. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

15/10

Há um cinismo ou uma hipocrisia de que pouco se fala — o cinismo ou a hipocrisia de parte dos que cumprimentam professores no dia 15 de outubro. Isso pode partir de quem é aluno, de quem já foi, de quem inventa burocracias inúteis para atravancar a vida dos professores ou de quem apoia políticas ou políticos que são contra os docentes.

Alunos que desrespeitam ou desrespeitaram a convivência em sala de aula, superiores que se concentram em burocracias inócuas e se esquecem de que pessoas valem mais do que papéis imbecis, políticos que lideram campanha contra o trabalho de quem ensina. Mas, em todo ano, é a mesma coisa: mensagens piegas e fingidas a favor dos professores são veiculadas.

A melhor maneira de homenagear um professor é deixá-lo exercer o trabalho dele. No dia a dia, não há isso. A aula não flui devido a desrespeitosas atitudes, burocracias e reuniões inúteis tomam horas, políticos perigosamente demagogos têm a missão de atacar quem está em sala de aula ensinando.

Em tese, eu não precisaria dizer que não estou generalizando. Ainda assim, digo que não estou generalizando. Digo também: não expresso neste texto a opinião de uma classe; expresso opinião que é minha. Dito isso, há pessoas que, de fato, contribuem com o trabalho dos professores. Repito: não estou generalizando. Nem todo mundo que parabeniza os professores é cínico. Os que não são, com frequência, não se dedicam a mensagens hipócritas ou insinceras. Eles demonstram em atos, não em palavrório tosco, o respeito ao próximo.
 
Quanto aos cínicos e aos hipócritas, não deveriam perder tempo escrevendo mensagens açucaradas. Melhor seria se deixassem os professores em paz, melhor seria se deixassem os professores trabalharem, seja em sala de aula, seja os poupando de burocracia, seja não instando ignorantes a se voltarem contra eles. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

... Eles existem

Não confiamos nos narradores dos contos de Edgar Allan Poe. Um dos menos confiáveis é o narrador de “O caso do sr. Valdemar”, publicado pela primeira vez em dezembro de 1845. No enredo, um sujeito interessado em magnetismo, que será explicado em linhas gerais já, já, diz a princípio que ainda não havia tido a oportunidade de usar esse conhecimento no momento em que alguém estivesse morrendo. 

Sobre o magnetismo, também conhecido como magnetismo animal: no século XIX, o médico alemão Franz Anton Mesmer tratou de pacientes que padeciam de espasmos epiléticos e transes sonambúlicos. A técnica de que ele se valia tornar-se-ia conhecida como mesmerismo. Mesmerismo ou magnetismo são termos intercambiáveis; algumas técnicas do magnetismo foram incorporadas depois na hipnose. No conto de Poe, o narrador, repito, é entusiasta do magnetismo, que, no período oitocentista, foi usado como tratamento e como paliativo contra dores. Para os adeptos da prática, os humanos, os demais animais e os vegetais teriam uma força natural invisível; essa força poderia curar, sendo transmitida pelo magnetizador para o magnetizado.

Ele combina então com um amigo (o Valdemar do título do conto) que essa tentativa seria feita quando os médicos decidissem que a morte de Valdemar, que era tuberculoso, era iminente. Feito o procedimento, o magnetizado é dúbio no que responde, afirmando estar morto e magnetizado. De qualquer modo, o narrador e uma pequena junta médica deixam Valdemar nesse estado ou nesse limbo por quase sete meses, tendo confabulado que despertar o tísico senhor seria causar a morte dele. Quando, por fim, decidem desmagnetizá-lo, há o horrendo desfecho (em Poe, a expressão “horrendo desfecho” soa até redundante).

Poe, não somente em função de seu trabalho em jornais, mas também por causa de sua mente analítica, interessou-se pela ciência da época, num tempo em que ciências como a medicina e a psicologia ainda não haviam definido com exatidão seu campo de estudo. A atmosfera romântica ainda pairava; não raro, relatos de casos clínicos soavam mais literários do que científicos.

Não nos esqueçamos de que Poe é literato, e um literato imbuído do romantismo como movimento cultural. Poe se vale da ciência para dar verossimilhança às histórias que conta, mas uma verossimilhança que se sustenta, é claro, no ambiente diegético dos contos. Poe não quer fazer ciência, mas, sim, levar à literatura o que a ciência da época andava investigando, levar à literatura o que seria padecer dos distúrbios estudados pela ciência da época. 

Volto à ideia de que Poe deu verossimilhança ao conto de terror, de mistério, mas, em saboroso paradoxo, não raro, Poe cria um narrador que não inspira confiança no leitor (o mesmo ocorre quando lemos as palavras de Dom Casmurro). No escritor inglês, os narradores podem estar sob o efeito de drogas ou podem ter propensão a alucinações ou a demais estados de alteração mental. 

Alguns exemplos: Egeu, o narrador de “Berenice”, declara que sua estirpe “tem sido chamada uma raça de visionários”; William Wilson, no conto de mesmo nome, revela que descende “de uma raça que se assinalou, em todos os tempos, pelo seu temperamento imaginativo e facilmente excitável”; o narrador de “O coração denunciador” afirma que tem sido “nervoso, muito nervoso, terrivelmente nervoso”; o narrador de “Eleonora” também admite que provém “de uma raça notável pelo vigor da imaginação e pelo ardor da paixão”. E como fica o narrador de “O caso do sr. Valdemar”? O título original do conto é “The Facts of M. Valdemar’s Case”. Chamo a atenção para a palavra “fatos”. Vamos, pois, a eles...

Logo no segundo parágrafo, o narrador anuncia: “Torna-se agora necessário que eu exponha os fatos [itálico do autor] – até onde alcança minha compreensão” [1]. Todavia, no décimo parágrafo do conto, o narrador, que, curiosamente, identifica-se com uma inicial, a letra “P” (quem sabe, uma brincadeira com “P” de Poe), declara: “O senhor L***1 teve a bondade de satisfazer meu desejo de tomar notas de tudo quanto ocorresse, e é dessas suas notas que o que vou agora narrar foi na maior parte condensado ou copiado verbatim [itálico do autor]” [2].

Tem-se, pois um problema: o mesmo narrador, que se predispusera a expor fatos declara que a versão desses mesmos fatos não diz respeito somente ao modo como ele, narrador, presenciou e vivenciou o que ocorreu; tais supostos fatos chegam até nós a partir das lembranças do narrador e das notas tomadas por um médico que compunha a pequena junta que cuidava do sr. Valdemar. O narrador e o médico que escrevera as notas estiveram diante do mesmo fenômeno. Ainda assim, preferiu o narrador se valer também da subjetividade alheia para contar sua história. 

Nem é preciso discutir o conceito da palavra fato nem é preciso debater possíveis motivos pelos quais a objetividade absoluta é impossível para nós. Ainda que o narrador se livrasse de emoções e de percepções e de escolhas pessoais (como se isso fosse possível), o que ele nos conta é a realidade como ela foi percebida não somente por ele, mas também por outras pessoas que estiveram diante dos estranhos acontecimentos que acometeram o senhor Valdemar. Como leitores, temos acesso não somente ao universo perceptivo do narrador, mas também ao universo perceptivo registrado nas anotações de um médico. O narrador assume a “coautoria” do que ele conta.

Isso, por si, já torna problemático o uso da palavra “fatos” no título original do conto, bem como torna problemática a afirmação inicial, por parte do narrador, de que exporia as coisas tais quais ocorreram de acordo com sua compreensão. Uma certa desconfiança já começa a se insinuar no leitor. Essa desconfiança se solidifica quando a “insegurança” do narrador é escancarada. Ele escreve: “Sinto agora ter chegado a um ponto desta narrativa diante do qual todo leitor passará a não dar crédito algum” [3].

O que se tem: aquele mesmo narrador que havia anunciado que contaria fatos, primeiramente se vale de anotações de outra pessoa para narrar o que ele mesmo, narrador, havia presenciado. Depois, ainda que estando a narrar, volto a insistir, fatos, o narrador diz que “todo leitor passará a não dar crédito algum” no que lerá. 

É como se o narrador estivesse inseguro quanto à sua escrita. Ele inicia sua história propalando que haverá fatos, que haverá objetividade, mas, à medida que o relato vai seguindo, o que antes era intenção de objetividade efetiva-se como insegurança narrativa. O que aconteceu com o sr. Valdemar não é nada crível, mas, ainda que fosse, paira em nós a sensação de que, não bastasse o que há de assombroso e sobrenatural no que é contado, o narrador é um dos “culpados” para que duvidemos da veracidade do que se conta.  Terminada a leitura, fica para o leitor não o ideal da objetividade, mas a presença da subjetividade, algo que, por fim, era tão caro aos românticos. 

Há outro aspecto desse narrador que me chama a atenção: nos contos de Poe, os narradores são, eles mesmos, os que têm alterações em suas mentes. É bastante divulgada a noção de que uma das inovações de Poe foi ter feito com que o medo ou o terror estivessem não no mundo físico, exterior, mas na mente de quem narra a história. É o que ocorre nos contos que mencionei há pouco. Todavia, pelo menos em tese, a despeito da desconfiança que o narrador de “O caso do sr. Valdemar” provoca, não é ele, o narrador, que está passando por uma alteração de seu estado mental. Poder-se-ia alegar que apenas uma mente enlouquecida alegaria haver algum fato na história de um homem que, magnetizado, fica num limbo entre a vida e a morte. Mesmo assim, o terror que lemos, em teoria, não é criação da mente do narrador, mas algo pelo qual passa o desafortunado Valdemar. Não é o narrador que, ainda que narre em primeira pessoa, procedimento comum em Poe, está passando por uma experiência mental drástica e aterradora, mas outro personagem cuja história é contada, e isso faz com que o narrador de “O caso do sr. Valdemar”, ainda que tenha nos contado algo que permeia o imaginário assombrado e assombroso de Poe, seja uma exceção no universo criado pelo escritor norte-americano.

Mas, ainda assim, não nos esqueçamos: estou falando de Edgar Allan Poe. A despeito do que defendo quanto à técnica narrativa em “O caso do sr. Valdemar”, poderíamos cogitar que, mesmo assim, o narrador estivesse, ele também, passando por alguma alteração mental? Caso sim, isso seria algo que minha leitura não detectou. De qualquer modo, a razão, tal qual a concebemos, não habita os contos de Poe. Quando se trata dele, o que posso afirmar é que eu não acredito em narradores, mas que eles existem, eles existem.

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[1] Poe, Edgar Allan, 1809-1849. Contos de terror, de mistério e de morte. Tradução de Oscar Mendes. 6ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 2017. Pág. 208.

[2] Idem. Página 211.

[3] Ibidem. Página 214. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Mandante e mandados

O mandatário mistifica os crédulos. 
Os crédulos mitificam o mandatário. 
Há mugidos bestiais, risos infames. 
Entre a mistificação e a mitificação,
o país, agora incendiado, sucumbe. 

Chega de índios

É... Ainda bem que os europeus chegaram aqui em 1500. Há quem diga que chegaram antes. Não importa. O que importa é que chegaram. Por que foi bom eles terem chegado? Ora, porque índio só sabe botar fogo nas coisas. O que seria da natureza do Brasil se os europeus não tivessem chegado aqui? Mesmo hoje em dia, aqueles danados (não os europeus, mas os índios) insistem em destruir a natureza. Pelo menos se estivessem incendiando a casa deles... Se fosse isso, seria um favor que estariam fazendo para nós. O problema é que ao botarem fogo no ambiente, os índios acabam prejudicando quem não é índio, ou seja, os índios acabam prejudicando as pessoas.

Não vou nem mencionar que esses selvagens preguiçosos e iletrados não sabiam nada de Deus antes de os europeus chegarem aqui. Um bando de almas pagãs que não conheciam desígnios e preceitos divinos. Os caminhos do Senhor precisam ser ensinados, não importa se em latim, não importa se com chicotadas. O problema é que essa raça não emenda. Voltaram a botar fogo no que não é deles. Dessa vez, foi lá no Pantanal. Ah, mandasse eu no país... Eu botaria fogo é nesse bando de índio. No mínimo, eu colocaria essa raça para trabalhar. Estou aqui agora num calor danado. Culpa de quem? Desses índios ignorantes que nem falam inglês nem empreendem. Raça improdutiva, indolente, inútil.

Ainda bem que depois dos europeus, vieram os norte-americanos. Eu gosto dos europeus, mas eu gosto de verdade é dos norte-americanos. Aquilo, sim, é um país. Quanta pujança, quanta organização, quanta disciplina. O American way of life é a evolução ou a quintessência da civilidade. Aqui no Brasil, ainda temos de aturar aquela gentalha morena e beiçuda que se sente no direito de queimar o que é nosso por direito. Pudesse eu, pediria apoio dos EUA (país que é modelo para mim, para o Brasil e para o mundo): no mínimo, obrigaria esses índios a se adaptarem ao modo de vida norte-americano. Se quisessem, assim seria; se não quisessem, ou seriam torturados ou seriam dizimados.

Odeio o que atrapalha o progresso, o que é contrário aos caminhos de Deus, o que não é pudico, familiar, virtuoso, patriótico. Por fim, odeio gente hipócrita, gente que diz estar em comunhão com a natureza, mas taca fogo nela. É muita cara de pau, indecência e nudez dessa gente. Sou um sujeito refinado, já estive em dezenas de países, adoro Nova York, conheço Paris como conheço minhas palmas. Não suporto gente suja, suada, caipira, brega. Em vez de banhos de rios, que, aliás, vivem poluindo, esses índios precisam é de um banho de cortesia e de civilidade. Ainda bem que essa gripezinha, que fracotes chamam de covid-19, não afetará o paradigma supremo; diante de todo esse bando de gente descalça e empoeirada, diante desse bando de índios sem caráter, may Trump help us. 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Meu livro no Kindle

Pessoas, a versão eletrônica de meu recente livro, O Fim do Brasil, já está à venda. Nele, posiciono-me sobre o Brasil de hoje, em especial, de 2013 para cá. Em essência, é um livro político.

Para adquirir, é só clicar aqui

Pegadas

O gado mugiu.
Não satisfeito, rugiu.
Insatisfeito, cuspiu fogo.

Queimou 
galhos,
filhotes,
páginas.

O deus que veneram 
anuiu, culpou os índios.
Desembestada, segue a manada.
O legado são rastros incendiários. 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Primavera de 2020

Primavera, sê bem-vinda.
Traz teus 
brotos,
flores,
frutas,
frutos,
rosas,
árvores,
arbustos,
pólenes.

Vem!
Mostra teu viço,
aproxima-te com teus tons,
tuas cores primaveris.
Entra, fica à vontade.
Saudações,
estação florida.
Chega mais perto.

Brota, viceja.
Já antevejo 
as chamas
que produzirás,
já concebo
tuas labaredas
lambendo as estrelas.

Já é hora de
“ir passando a boiada”.
Vais gerar belas cinzas, primavera.