terça-feira, 18 de janeiro de 2022

A Outra Terra


Uma obra-prima não tem de necessariamente lidar com um grande tema. Trivialidades podem ser o substrato de um monumental trabalho. Não é, pois, a temática que define o que é ou o que não é uma obra de arte. O que define isso é o modo como o artista desenvolve a temática de que decide se ocupar. Todavia, o grande artista não tem medo de enfrentar uma grande temática. A Outra Terra (2011), é uma obra-prima com uma grande temática. 

Dirigido por Mike Cahill e roteirizado por ele e por Brit Marling, que é a atriz principal da produção, A Outra Terra é um filme de ficção científica. Como todo grande filme de ficção científica, está preocupado nem tanto ou não exclusivamente com os desígnios do Universo, embora isso possa perpassar em filmes de ficção científica, mas com o que é essa coisa que chamamos de ser humano. Tanto é assim que o roteiro, ao mencionar biólogos, afirmando que cada vez mais estudam coisas cada vez menores, e astrônomos, afirmando que cada vez mais estudam coisas cada vez maiores, cogita a ideia de que talvez o grande mistério seja o bicho homem visto de perto, o que, sim, acaba remetendo a Caetano, com o famoso verso “de perto, ninguém é normal. 

Diante do Universo, a simples sugestão de que talvez sejamos o que há de mais complicado que há nele soa arrogante; ainda assim, nada mais humano do que a arrogância. Se não arrogância, nada mais humano do que a constatação de que medimos tudo quanto há a partir dessa coisa que somos, como já preconizava o sofista Protágoras: “O homem á a medida de todas as coisas”. A preocupação de A Outra Terra somos nós (dessa linhagem, A Chegada (2016), de Denis Villeneuve, e Love (2011), de William Eubank, são outros belos exemplos).

Nos primeiros oito minutos de A Outra Terra já sabemos que Rhoda Williams [Brit Marling] carregará consigo o peso da culpa. Dirigindo bêbada após sair de uma festa em que celebrava a aprovação no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Rhoda bate num carro e mata quase todos os integrantes de uma família. O sobrevivente é John Burroughs [William Mapother], compositor prestigioso que entrou em coma depois do acidente. Tendo “acordado”, leva, sem a esposa e sem o filho, mortos na colisão, uma vida deseixada. Já Rhoda, saindo da prisão após quatro anos, procura John na intenção de dizer a ele que ela é a motorista que causou a morte da família de John (quando do acidente, Rhoda era menor de idade — tinha dezessete anos —, e, pela lei então vigente em Connecticut, embora com autorização legal para dirigir, o nome dela, por ela ser menor, não foi divulgado para a sociedade nem revelado a John).

Só que Rhoda fraqueja, vacila, desconversa. Uma carreira brilhante na astronomia havia sido interrompida depois que ela matou a família de John. Agora, lutando para se desculpar diante dele, ela carrega consigo o peso da culpa, ao mesmo tempo em que deseja a redenção. Tem-se na culpa a grande temática de A Outra Terra (outro filme que aborda essa temática é o também brilhante O Operário (2004), de Brad Anderson). Os encontros com John vão se amiudando, Rhoda vai seguindo sem coragem de contar a ele que ela estava dirigindo o carro na noite do fatal acidente. John, por sua vez, vai recobrando o ânimo, passa a se envolver novamente com a música; a casa dele, que no começo do filme era escura, passa a ter janelas abertas, a luz solar vai dourando o ambiente, conferindo a ele ideia de calidez, de aconchego. Numa cena plena de significados, John pega um telescópio para observar a outra Terra: as janelas da casa de John estão abertas para enxergar o exterior e para receber o que o lado de fora tem a oferecer. O lado de fora trouxe o Sol, trouxe Rhoda.

(A despeito da poeticidade da cena, vale dizer, não em nome do preciosismo, mas da verossimilhança mesmo, que John, com um telescópio caseiro, viu consideráveis detalhes da outra Terra. O filme se passa numa época em que poderosos telescópios já eram feitos pelo homem. Assim, seria possível ter uma visão muito mais precisa da superfície do planeta. Isso poderia ter sido considerado, ainda que levasse, consequentemente, a um enredo diferente do que se tem, mas com as mesmas implicações caso fizessem questão delas.)

Enquanto trabalha na limpeza de uma escola de ensino médio e realiza gestos da mais tocante ternura, quando, por exemplo, vai visitar, no hospital, Purdeep [Kumar Pallana], seu colega de trabalho, Rhoda é pressionada por si mesma a contar para John o que ela causou à família dele. Ela quer se redimir, está mesmo arrependida; sabe que para ter paz na consciência, precisa escancarar para John que ela era a motorista do carro no dia em que a família dele morreu.

Os desdobramentos filosóficos de A Outra Terra são instigantes: o que seríamos não fossem nossas culpas? e se houvesse um lugar em que uma versão de nós sem nossos erros existisse? o que é, de fato, encontrar-se consigo mesmo? o que é se achar? o que faríamos se nos achássemos?... Como seria cada um sem o seu “inferno” pessoal?... Na falta de respostas, olhemos para nós, abramos portas e janelas, observemos o céu. Que não haja um cometa se aproximando da Terra em rota de colisão. 

sábado, 15 de janeiro de 2022

Decisão

Toninho Pedregulho acordou desejoso de mudar a rotina. Agindo em consonância com o desejo, entrou em um supermercado a que nunca tido a fim de comprar uma garrafa de pinga. Caminhando por entre as fileiras embotadas de produtos inúteis, ele viu, sem que se dessem conta dele, sua esposa beijando um homem. Resoluto, Toninho Pedregulho nunca mais mudou a rotina. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Ponte sob o rio Paranaíba

Fotos da enchente do Rio Paranaíba, em Patos de Minas. Registros feitos hoje.









 

domingo, 9 de janeiro de 2022

Apontamentos dominicais pós-terceira dose da vacina contra covid

1.
Vacinas não são garantia absoluta. Pouca coisa na medicina tem garantia absoluta. A extirpação de um câncer não quer dizer que ele jamais voltará; um remédio contra a gripe não dá a certeza de que a gripe cederá. Vacinas são armadura para o corpo. A armadura não assegura àquele que a usa sair vivo do combate, mas é melhor combater dentro de uma. 

2.
No Brasil, o segundo semestre do ano passado teve queda no número de mortes por covid. A razão disso é a vacina. Tivesse o país um governo que não sabotasse a vacinação, o fim do ano teria sido auspicioso. Dados internacionais divulgados no fim de 2021 revelaram que 95% dos internados por covid eram não vacinados. 

3.
Teorias da conspiração são coisas de quem fala, dentre outros assuntos, de ameaça comunista sem sequer ter uma ideia do que foi o comunismo ou do que tenha sido ou do é um regime político, não importa qual. Não bastasse a falácia ou o desvario da apregoada, há décadas, ameaça comunista, o teórico da conspiração não se dá conta de que insumos chineses estão presentes em dezenas de remédios. No mundo tal como configurado hoje, é difícil ingerir ou consumir algo que não venha da China. Mas, então, um apoucado presidente arrota descalabros que acham guarida em quem já tem, há muito tempo, na corrente sanguínea, substâncias fabricadas na China. 

4.
Apesar do presidente que o Brasil tem, um presidente que, a princípio, indicou remédios ineficazes contra a covid e que faz de tudo para sabotar a vacina, tomei a terceira dose. No contexto brasileiro, isso é uma gigantesca vitória da ciência e do atendimento público, tudo o que Bolsonaro tem destruído. 

5.
Nos três momentos em que eu estava saindo dos locais de vacinação, senti um vigor que não era corporal, mas anímico. É claro que imunidade implica vigor físico; todavia, o vigor que comento agora diz respeito ao estado de ânimo com que saí do local de vacinação depois de cada uma das três doses da vacina. Além da questão política, pois cada dose da vacina que é aplicada em cada cidadão é uma vitória contra Bolsonaro, há a questão de eu sair mais preparado para a vida. Não iludido com inexistentes garantias absolutas, mas esperançoso.

6.
Eu não quero passar para o outro nada que possa ser fatal para ele. O Artur da Távola, pródigo em neologismos, criou o vocábulo “eutro”, junção de “eu” e de “outro”. O Kiss, em “We are one”, canta “you are me, I am you”. O outro é a minha comunidade. Se o outro está bem, a possibilidade de eu ficar bem aumenta. Se eu estou mal, a possibilidade de o outro estar mal aumenta. Viver é interagir. Se eu estiver gripado, não vou sair por aí espirrando na cara do outro. Se eu não tenho covid, não vou passar para o outro algo que pode ser fatal para o que ele é. Se o outro não tem covid, não vai passar para mim algo que pode ser fatal para o que sou. O mínimo que devo fazer em nome do senso de comunidade ou de coletividade é me vacinar. 

7.
Acredito mesmo que mais cedo ou mais tarde a humanidade vai sucumbir, seja diante de um vírus, de uma praga, de uma catástrofe natural, de uma guerra. Só que isso não é pretexto para que nada façamos na intenção de seguirmos vivos. É preciso teimar a favor da vida, não a favor de um babaca presidente que já se declarou a favor da tortura, da morte. Não há na história um governante insano que tenha promovido a vida. Todos os governos insanos levaram a tragédias, a mortes, a guerras, a fomes, a pobrezas. A insanidade não gosta da vida.

8.
Minha manhã de domingo começou com uma vitória contra a ignorância, uma vitória daquilo que o espírito humano pode ter de nobre, elevado. Qualquer nobreza ou elevação é uma vitória contra o bolsonarismo. 

sábado, 8 de janeiro de 2022

Natural

A natureza é indiferente a nossas vidas. De nada adiantam mandingas, rezas, preces, orações, pedidos, apelos, superstições, rogos, prédicas, simpatias, súplicas. Diante das forças da natureza, pouco ou nada podemos fazer quando ela age com vigor. Ela não sabe se somos pios ou se somos ímpios. A natureza não sabe que deus (não) existe. O fervoroso morreu soterrado ao lado do ateu, que, vivo, seguiu; o ímpio foi levado pelas águas enquanto o religioso conseguiu se agarrar a um galho de árvore e sobreviver. Ela, mãe e esposa dedicada, chegou a tempo, embarcou, mas aves causaram a queda do avião; ele, negligente com a família, se atrasou para o voo fatal porque estava com a amante. Não importa para a natureza se somos éticos ou antiéticos, corruptos ou honestos, trabalhadores ou preguiçosos, sensatos ou antivacinas, burgueses ou andarilhos. Nossos códigos, convenções, moedas ou divisas não são levados em conta pela natureza, que segue, age, reage, com ou sem nós. Nosso controle sobre nossas vidas é uma ilusão, um fiapo. Não sabemos os desígnios, os mecanismos — se é que os há. 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Aos que perguntaram, aos que perguntam, aos que por ventura vierem a perguntar

Vou salvar o link desta postagem e, no futuro, quando alguém me perguntar, via internet, por que desprezo Bolsonaro, pedirei à pessoa que leia o que agora digito. É que desde 2018, tenho escrito sobre as inúmeras razões pelas quais sou contra Bolsonaro e as coisas que ele defende, coisas essas já esmiuçadas em postagens anteriores. Para eu não ter de ficar digitando a mesma resposta quando a mesma pergunta for feita, fica ou ficará esta postagem como resposta.

Desde, pelo menos, 2018, tenho deixado claros os motivos pelos quais considero Bolsonaro um vitupério. É claro que quem me pergunta por que não aprovo o presidente nunca leu nada do que escrevo; não há o menor problema nisso. Eu também não leio nada do que escrevem ou do que postam as pessoas que me fazem essa pergunta, o que não é um problema; além do mais, as publicações delas não aparecem para mim. Assim como eu tenho outras coisas para ler, essas pessoas que me perguntam por que não aprovo Bolsonaro têm outras coisas para ler. Em arranjos que não sei decifrar, de vez em quando, uma dessas pessoas chega ao que publico.

Talvez as postagens delas não apareçam para mim em função dos algoritmos usados em redes sociais, mas não sei se o motivo é mesmo esse. Lembrando-me agora das pessoas que já me fizeram, via internet, perguntas sobre meus posicionamentos políticos, dou-me conta de que não sei o que essas pessoas têm em mente na atualidade, pois ou não convivo com elas ou nunca conferi o que escrevem ou o que postam, mesmo eu sabendo que me enviaram pedido de amizade virtual há tempos, mas se me perguntam por que sou contra Bolsonaro, elas também não sabem o que tenho em mente, por não conviverem comigo ou por não lerem o que escrevo. Se soubessem, não me perguntariam sobre algo que venho respondendo há anos. Eu as ignoro, no sentido de não saber o que pensam, elas me ignoram (nada disso, que fique claro, é problema), só que, de vez em quando, sem que eu saiba com precisão os motivos pelos quais isso ocorre, elas se deparam com algo que escrevi. 

Há dois caminhos para que se tenha acesso aos motivos pelos quais acho Bolsonaro desprezível. O primeiro, e um pouco mais longo do que o segundo, é ir conferindo minhas postagens de 2018 para cá, embora as anteriores a esse período já deixem claro que não faria o menor sentido eu dar crédito ao presidente. Ter escrito o que escrevi ao longo das décadas e depois concordar com o credo bolsonarista seria incongruência de minha parte; eu teria de ter mudado muito para me sentir em sintonia com quem diz de si mesmo “minha especialidade é matar”. Sendo assim, os que quiserem mais respostas para a pergunta sobre por que escrevo contra Bolsonaro podem conferir também as postagens escritas antes de 2018. Como não deleto o que publico, fiquem à vontade para a leitura. São textos curtos, simples, diretos.

O caminho mais curto, que apresenta um “resumão” dos motivos pelos quais desaprovo Bolsonaro, seria a leitura de O Fim do Brasil. Esse meu breve livro tem alguns textos (poemas em sua maioria) que deixam claro o que penso do país de 2013 para cá, mesmo não sendo o livro restrito unicamente a esse corte temporal. Se os que me perguntam por que não aprovo Bolsonaro não têm tempo para ler o que venho publicando em redes sociais, pode ser que queiram entender as razões de minha desaprovação a partir de uma leitura que demanda menos tempo do que ler o que venho publicando na internet. O link para se adquirir o livro é este: (se a pressa for muita, pode-se pedir a versão eletrônica, que, nesse formato, estará disponível para leitura imediatamente). 

sábado, 1 de janeiro de 2022

A Filha Perdida

Forçoso dizer logo de cara que nada li da Elena Ferrante a não ser os textos (crônicas?) que ela publicou no jornal The Guardian. Sim, isso significa conhecer parte minúscula da obra dela. Mesmo assim, esse quase nada é brilhante. É que o filme A Filha Perdida é baseado num dos livros de Elena Ferrante. A diretora e roteirista é Maggie Gyllenhaal (a atuação dela em Secretária, do diretor Steven Shainberg, a partir de um conto de Mary Gaitskill, é estupenda).
 
Em A Filha Perdida, Leda, interpretada por Olivia Colman, está em férias numa praia grega. Lá, ela tem contato com uma família que logo, logo faz com que ela, Leda, se lembre da família que teve. Em saltos temporais que ora mostram o desenrolar da vida de Leda enquanto ela curte as férias, ora colocam em cena o passado dela, o enredo vai se desenvolvendo.

Eu queria simpatizar com Leda. Ou, melhor dizendo, eu queria entendê-la. Terminado o filme, com ela não simpatizei, não a entendi. E isso é ótimo — a pior coisa que pode acontecer para quem cria um personagem é esse personagem ser insosso, esquecível. Não há como ser indiferente a Leda.

O filme de Maggie Gyllenhaal lida com a temática do casamento e os cansaços a que ele pode levar. Mas, há mais: a produção não tem medo de abordar as agruras da maternidade. Dito com outras simples palavras, a questão de que a pessoa pode não estar pronta para ou pode não querer ser mãe/pai. 

Leda não queria mesmo ser mãe ou não estava pronta para ser mãe? Não importa se isto ou aquilo. Independentemente da resposta, por que o passado tanto a atormenta? Por que ela tanto lamenta a mãe que foi? A pergunta nos leva, aparentemente, a deduzir a mãe que ela gostaria de ter sido. Mas será que ela gostaria mesmo de ter sido a mãe que deduzimos que ela gostaria de ter sido?... Não sei.

Do que sei, é que A Filha Perdida suscita questões demais. Sugere-se algo “apodrecido” em Leda (as frutas podres sobre a mesa, a minhoca (?) que sai de dentro da boneca). Por outro lado, leva-se em conta haver uma jovem com esplendor intelectual e com um potencial gigantesco tendo de cuidar das filhas pequenas e de conviver com um marido que não a satisfazia sexualmente.

Conhecendo a Leda do passado, queremos entender a Leda do presente. Ou, pelo menos, queremos, vá lá, justificar a Leda do presente. Nada disso se conclui (não bastasse, o filme de Maggie Gyllenhaal tem o mérito de evidenciar que Dakota Johnson não se resume à patuscada que é Cinquenta Tons de Cinza). À medida que A Filha Perdida ia se desdobrando, ora eu pensava “esse filme é ruim, mas é bom”, ora eu pensava “esse filme é bom, mas é ruim”. Iniciados os créditos, pensei: “Esse filme é uma obra-prima”. 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Contrafação

Parte da classe média brasileira imita, sem sucesso, o que os EUA têm de bom, e consegue, na verdade, piorar o que eles têm de ruim. 

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Preposições

Sob as águas, 
em tragédia brasileira, 
a Bahia.

Sobre as águas, 
em veículo aquático, 
o presidente.

Sob a lama, 
em legado bolsonarista, 
o Brasil. 

domingo, 26 de dezembro de 2021

Não é só um cometinha

O diretor Adam McKay não tem medo de ser óbvio em Não Olhe para Cima (2021). O roteiro é dele e de David Sirota. Logo no início do filme já sabemos que ele desenvolver-se-á quando dois astrônomos, Randall Mindy [Leonardo DiCaprio] e Kate Dibiasky [Jennifer Lawrence] têm provas visuais e matemáticas de que um cometa vai atingir e destruir a vida na Terra.

O destemor de McKay quanto à obviedade está na ausência de sutilezas com relação aos personagens, que acabam sendo estereótipos das categorias a que pertencem. Assim, Randall Mindy é o cientista desajeitado, Kate Dibiasky é a cientista jovem que não se adéqua, a presidente Orlean [Meryl Streep] é o político imbecil, Brie Evantee [Cate Blanchett] é a apresentadora midiática no que a mídia tem de pior, Peter Isherwell [Mark Rylance] é o magnata sem escrúpulos que manda na presidente por ter sido o maior financiador da campanha dela.

Pode-se argumentar haver algum arco dramático na trajetória de Randall Mindy, que acaba deixando-se seduzir (no caso em questão, literalmente) pelos apelos midiáticos. Todavia, Não Olhe para Cima não é um filme sobre estudos de personagens, mas uma produção que escancara, sem sutilezas, uma época sem sutilezas.

Randall e Kate são ridicularizados não somente porque os negacionistas desdenham deles, mas também porque a mensagem que entregam, que é o fim iminente da vida na Terra, é levada ao público não de modo espalhafatoso, circense. Mesmo quando dão um polimento na imagem de Randall, a notícia do fim da vida na Terra não é absorvida por grande parte do público, que, anestesiado, vai para as redes sociais fazer piadinhas com a tragicidade do evento cósmico.

O filme é uma sátira-espelho de um tempo, que finge nada ter a ver com a destruição do planeta e que ri daquilo que não tem graça nenhuma. Adam McKay entrega algo que, se levar ao riso, será aquele tipo de riso travado de quando se está diante da perigosa burrice dos que detêm o poder.

Curiosamente, uma das poucas metáforas do filme (senão a única) é o cometa em si. E, caso raro, uma metáfora que pode ser encarada em dois planos — o literal e o figurado. A metáfora, em regra, não é interpretada ao pé da letra. Se alguém diz “você é Sol da minha vida”, sabe-se, é claro, que ninguém é o Sol. Ou seja, a frase “você é o Sol da minha vida” vale não pelo que é literalmente dito, mas por aquilo que se quer dizer, por aquilo que é sugerido.
 
De modo análogo, o cometa em Não Olhe para Cima pode ser uma metáfora, e ainda que assim interpretado, o diretor, mantendo o tom do filme, deixa óbvia essa metáfora. Há, por exemplo, a criação de dois movimentos sociais: os que se organizam para pedir à população que não olhe para cima e os que se organizam para pedir à população que enxergue o óbvio, bastando, para isso, olhar para cima. Como metáfora, o cometa simboliza tudo aquilo que a ciência descobre e o efeito que isso tem numa sociedade idiotizada. (A bem-vinda obviedade de Não Olhe para Cima lembra a igualmente bem-vinda de Viagens de Gulliver, do Jonathan Swift.)

No filme, a presidente Orlean, movida também por interesses financeiro-pessoais, é uma negacionista. O cometa é uma ameaça que vem do céu, mas pode ser metáfora de uma ameaça que existe em forma minúscula e que não é só uma “gripezinha”. De resto, quando o assunto é um governante negacionista, sabemos bem que no cenário como o do filme, um desses governantes diria algo como “é só um cometinha”. 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

A promessa

Beijos, carícias, peles eriçadas, preliminares ditosas. Nus, os dois. Sexos ávidos pela trama. Ela diz:
— Hoje, não. Pensando bem, quero que você seja não o meu primeiro homem, mas o segundo. 

Llosa

O Vargas Llosa continua lamentável. Com relação ao Brasil, já compôs loas para o Moro. Agora, mais recentemente, quanto ao Chile, louvou José Antonio Kast. É muito fácil apoiar a extrema-direita quando não se é alvo dela. Mas não nos esqueçamos de que há casos em que os alvejados por ela, ainda assim, glorificam o algoz. Isso ocorre, por exemplo, no Brasil. 

O que se aceita

Queiroga disse que mortes de crianças por covid “estão dentro de patamar aceitável”. Para o governo Bolsonaro, o que é inaceitável é a vida. 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

O otimista Bresser-Pereira

Pesquisas recentes têm revelado a queda de Bolsonaro. Diante de números, o imprescindível Luiz Carlos Bresser-Pereira, após pesquisa divulgada pelo Datafolha, escreveu no Facebook: “Os brasileiros caíram em si. Depois do imenso erro que cometeram elegendo um presidente de extrema-direita, eles voltaram a pensar”. Quisera eu pensar como o Bresser-Pereira, mas não consigo deixar de supor que o brasileiro está mais do que pronto para, assim que tiver oportunidade, eleger um governo cuja tosquedade seja similar ou pior do que a de Bolsonaro. No futuro, o brasileiro somente não elegerá um governo que defenda tortura e ditadores e que homenageia milicianos se tal candidato não apontar no horizonte. 

sábado, 18 de dezembro de 2021

Cléverson Lima

Fiquei sabendo há pouco que o Cléverson Lima morreu. Estava morando na cidade de onde veio, Araxá. Quem frequentou bares em Patos de Minas na década de 1990 e na década de 2000 se lembra do Cléverson Lima.

Não havia como não gostar dele: agregador, talentoso, carismático; tinha humor involuntário e uma capacidade assombrosa de saber de cor toneladas de canções; sobretudo, foi um sujeito com alma generosa, boa. Assistindo a shows dele em bares de Patos de Minas e da região, tive momentos memoráveis, catárticos. Assistir às apresentações dele era um modo de ser feliz.

Não sei detalhes sobre a morte do Cléverson. Num áudio que me enviaram, é dito que infarto foi a causa. A fim de materializar minha admiração pelo Cléverson, eu o mencionei em dois de meus livros: no Algo de Sempre, há um poema em que faço referência ao Cléverson; no Anacrônicas, há uma crônica sobre ele. Ambos os textos estão também neste blogue. Abaixo, links em que há a presença do Cléverson.
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https://liviosoares.blogspot.com/2008/09/clverson-lima.html

https://liviosoares.blogspot.com/2009/06/fotopoema-110-cleverson-lima_27.html

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

A velha novidade

Assisto novamente a filmes como se eu quase estivesse assistindo a eles pela primeira vez. Assim foi ontem com Newness (2017), dirigido por Drake Doremus e roteirizado por Ben York Jones. No enredo, Martin Hallock [Nicholas Hoult] e Gabi Silva [Laia Costa] são dois jovens que se conhecem por intermédio de aplicativo telefônico.

O filme pode ser entendido como o amor nos tempos do celular. Newness é um retrato poético e eficaz de como os jovens de relacionam com a tecnologia e com o que sentem. Ela é, por assim dizer, personagem, é extensão dos mundos de Martin e de Gabi. 

Se, por um lado, o casal está antenado quanto a relacionamentos que começam na esfera eletrônica, por outro, os dramas, as dúvidas, as dificuldades de que padecem são os mesmos a que o amor pode levar, não importa a época em que ocorra. Newness é um filme sobre o amor, tem os ingredientes dele, com suas alegrias e seus pesos. 

Martin e Gabi não sabem o que fazer com o que sentem. Ou assim se tornam quando entendem que gostam um do outro. E não há tecnologia que ensine o que fazer com isso; a resposta, se é que há, é de cada um. No que diz respeito à tecnologia, estão em sintonia com o tempo em que vivem; no que diz respeito ao amor, as dificuldades que enfrentam no dia a dia da relação são as dificuldades de sempre, as alegrias que vivenciam são as de sempre. Em meio à parafernália eletrônica, o amor, na ótica, do filme, permanece o mesmo.

A paleta da produção é pouco saturada, as cores são frias, as imagens são subexpostas, a profundidade de campo é reduzida. Nessas escolhas estéticas, Martin e Gabi são com frequência mostrados em contraluz. A câmera de Drake Doremus, quase sempre em movimento, ora enquadra os personagens em tomadas fechadas, ora os observa com discrição, seja através de uma vidraça, seja a partir de outro cômodo. Em imprecisos contornos, somos postos diante das imprecisões de Martin e de Gabi.

A despeito da estética descolada, Newness é filme cujos personagens principais são, no fundo, conservadores. Martin e Gabi se entregam à vida e ao amor, às diversões e às possibilidades de encontros que nasceram a partir de aplicativos para celulares. Os dois jovens não sabem ao certo o que fazer com o que querem nem o que fazer com o que supõem querer. Querem crer que o conservadorismo não combina com o modo de vida que elegeram; destrambelham-se, contudo, quando tentam não ser conservadores.

Martin e Gabi são o amor como ele sempre foi, embora tentem exercê-lo no que julgam ser contemporâneo. O celular substituiu as encardidas missivas. No entanto, o casal encarna o amor no que ele tem de antigo e, talvez, de perene. Ele, o amor, pode fazer com que, diante da tela de um telefone ou numa pista de dança, a pessoa tenha em si os mesmos sentimentos de quando bilhetes marcando hora e local de encontros eram entregues às escondidas. 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Canções em casamentos

Recentemente, a Carina Fragozo, responsável, no YouTube, pelo canal English in Brazil, publicou um vídeo em que ela menciona cinco canções que são escolhidas com frequência para serem executadas em casamentos porque parecem românticas. Todavia, esse suposto romantismo estaria nos arranjos, mas não nas letras. Dentre essas canções, Carina menciona, por exemplo, “More than words”, da banda Extreme. 

O vídeo dela me fez lembrar de que aqui em Patos de Minas, é comum os noivos pedirem que “Hallelujah”, a clássica canção do Leonard Cohen, seja executada em cerimônias de casamento. É claro que o casal tem direito de escolher a canção que bem entender. Mesmo assim, tenho a impressão de que parte desses casais não pediriam a execução de “Hallelujah” durante seus casamentos se conhecessem o teor do que é cantado. Ainda no terreno das impressões, outra que tenho é a de que os noivos, talvez, deixem-se guiar pela melodia e pelo pequeno coral. Reunidos — o título da canção, a melodia, o coral e o arranjo — confeririam uma atmosfera “sagrada” ao aleluia de Leonard Cohen.  

Abaixo, tradução da letra. Levei em conta o original gravado pelo compositor canadense. Ele mesmo canta uma versão estendida do texto num show gravado em Londres. Essa versão estendida poderia “redimir” a letra original, para que ela soasse “apropriada” numa cerimônia de casamento. Mesmo assim, ou seja, mesmo levando-se em conta a versão gravada ao vivo em Londres, estão presentes os originais versos “problemáticos” para serem cantados durante um casamento. Não bastasse isso, essa versão tem os seguintes versos:

Bem, talvez haja um Deus lá em cima
Quanto a mim, tudo o que aprendi do amor
É como atirar em alguém que sacou a arma mais rápido do que você
Mas não é um crime você estar aqui hoje à noite
Não é algum peregrino que alegue ter visto a Luz
Não, é um frio e um muito sofrido Aleluia

Agradeço aos músicos Edgar Medeiros e César Braga em virtude das pacientes explicações que me deram quanto ao trecho da letra que faz referências à nomenclatura e às características dos acordes mencionados nos versos da canção. Sem as ajudas do Edgar e do César, eu teria um painel menos vasto do esmero de Cohen. Eis, pois, a tradução, em consonância com a gravação original de “Hallelujah”:  

Agora ouvi dizer que havia um acorde secreto
Que Davi tocava e que agradava ao Senhor [1]
Mas você realmente não se importa com música, não é?
É assim, o quarto, o quinto
O menor desce, o maior sobe
O perplexo rei compondo Aleluia [2]

Sua fé era forte, mas você precisava de prova
Você a viu se banhando no telhado
A beleza dela e o luar sobrepujaram você
Ela amarrou você a uma cadeira da cozinha
E ela destruiu seu trono e cortou seu cabelo
E dos seus lábios ela fez sair o Aleluia [3]

Você diz que levei o nome em vão
Eu nem sei o nome
Mas se eu soubesse, numa boa, o que é isso para você?

Há um clarão de luz em cada palavra
Não importa qual você tenha ouvido
O Aleluia sagrado ou o sofrido

Eu fiz o meu melhor, isso não foi muito
Eu não conseguia sentir, então tentei tocar
Eu falei a verdade, eu não vim para enganar você
E embora tudo tenha dado errado
Ficarei diante do Senhor da Canção
Com nada em minha língua a não ser Aleluia 
_____

[1] O Davi da estrofe é o do antigo testamento. Segundo o relato bíblico, ele gostava de dançar e de compor elegias.

[2] A segunda metade da primeira estrofe é metalinguística: os versos descrevem o que está ocorrendo nos acordes e em seus graus na harmonia da canção.

[3] A segunda estrofe faz alusão a duas histórias bíblicas. Os três primeiros versos envolvem Davi, Betsabeia e o marido dela, Urias. Davi a vê tomar banho, manda buscá-la, ela engravida dele. Não assumindo a paternidade e livrando a barra de Betsabeia, Davi arquiteta para que Urias morra durante uma batalha. Os três últimos versos envolvem Sansão e Dalila, que, depois de insistências, o convenceu a contar para ela qual era o segredo da descomunal força dele. Tendo por fim obtido a resposta, Dalila, mediante pagamento, entrega Sansão aos inimigos dele.
 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Bacana















Este é o Vicente, conhecido como Bacana (ou como Chazim). Meu pai e o Bacana tocavam juntos com muita frequência. Era comum ensaiarem num cômodo que ficava ali na praça Bandeirantes (quem também participava dos ensaios era o Formiga, de cujo nome não me lembro). Na época em que esses ensaios ocorriam, eu devia ter, suponho, uns sete ou oito anos. O Bacana gostava de bater na corda mais grave do contrabaixo imitando o que seria o embarque de uma locomotiva. Ele começava golpeando a corda e ia gradativamente aumentando o andamento, até o momento em que a “locomotiva” atingia velocidade de cruzeiro. Meu pai sempre me levava a esses ensaios. Eu mal via o Bacana e já pedia a ele algo do tipo “cara, faz a locomotiva”. 

Com muita frequência, passo em frente ao local de trabalho do Bacana, onde ele ainda vive às voltas com instrumentos musicais, com equipamentos de som e com quem lida com música, seja em que nível for. Sempre que eu passava por lá, ocorria-me o pensamento de que eu precisava fotografar o Bacana, um modo meu de homenagear não só um personagem que marcou minha infância, mas também um modo meu de homenagear uma das grandes figuras da cidade. Na sexta-feira, dia 19 de novembro, conversei pessoalmente com ele e mencionei o desejo de fotografá-lo. Ele topou. Fizemos as fotos hoje pela manhã. 

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Atlético (quase) campeão

Quando o Atlético/MG contratou o Hulk, pensei: “Estão jogando dinheiro fora”. Não jogaram. O jogador é um dos destaques do time, que é cheio de destaques. No que diz respeito ao futebol em campo, as decisões têm sido acertadas. Não sei dizer sobre as finanças e os negócios do clube. Será que amanhã o Atlético será o Cruzeiro de hoje? Não sei. Torço para que não seja, pois esse seria um fiasco não somente para o futebol mineiro, mas para o futebol nacional. Quanto maior o número de times fortes, melhor para o esporte.

Da década de 70 para cá, a única vez em que o Atlético venceu o campeonato brasileiro foi em 1971. Uma das consequências disso é que a maioria da torcida atleticana nunca testemunhou o alvinegro conquistar esse título. O torcedor do time só não se sentirá plenamente satisfeito porque o Atlético não venceu o Flamengo há dias, lá no Maracanã, e porque o Cruzeiro, em tese, assim parece, não vai cair para a série C. Isso não quer dizer que parte da torcida atleticana não se regozije com a continuidade do Cruzeiro na série B. O futebol é como a vida, é a vida em movimento; assim como há na vida, no futebol há Schadenfreude.

De fato, o Atlético não é o campeão brasileiro deste ano. Tem tudo para ser, mas não é. Há jornalistas que andam dizendo que essa recusa em confirmar o time como o campeão brasileiro deste ano é coisa de mineiro, que seria, por natureza, ressabiado, comedido, desconfiado. Nada disso. Boa parte do que dizem sobre o mineiro e sobre o que é a mineiridade é um mito ou um estereótipo. Nem este nem aquele se sustentam diante do que há em meio às montanhas do estado. (Não mineiros dirão que escrever assim é coisa de mineiro.)

O torcedor atleticano não bate o martelo, declarando o time como campeão brasileiro, simplesmente porque esse torcedor seria muito burro se assim declarasse. Uma coisa é o time ser favorito para a conquista do torneio, uma coisa é ter uma das melhores equipes do Brasil, uma coisa é conquistar pontos mesmo quando a equipe não joga bem; outra coisa é não mais poder ser alcançado por nenhum dos adversários. O galo não conta com o ovo da galinha, no que está certo. Seria no mínimo precipitado já se declarar o campeão da peleja.

O efeito psicológico sobre o time, caso o título não venha, pode ser devastador. Em anos anteriores, depois de 1971, o clube esteve com as mãos perto da taça de campeão. Não é novidade disputarem esse título. A novidade é que desde 2003, quando a disputa do torneio passou a ser por pontos corridos, nunca foi tão grande a possibilidade de o Atlético ser o primeiro colocado.

Torcedores imbecis, há deles em todos os times do mundo, assim como há, em todos os times do mundo, torcedores inteligentes. Dito isso, reconheça-se que a torcida do Atlético merece o título que está muito perto de ser conquistado. O Cuca, que não prima por jogos de palavras, disse, todavia, antes da partida de ontem, contra o Corinthians, que era para o torcedor ir para o Mineirão não para torcer, mas para trabalhar.

A torcida foi e trabalhou; a torcida do Atlético trabalha muito. Neste 2021, sendo o time campeão brasileiro, o grito vitorioso, suspeito, embora sem saber se o torcedor atleticano concorda comigo, será mais catártico do que o grito de quando a equipe ganhou a Libertadores. 

terça-feira, 9 de novembro de 2021

Feijão com arroz

Pessoas com pratos cheios de comida apoiarem um governo que, por enquanto, levou vinte milhões a passarem fome é algo que diz muito sobre os apoiadores e sobre o apoiado. 

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Lixo

O Brasil se tornou novamente um país para poucos com o apoio de muitos. Em meio a esses muitos, há muitos catando alimento no lixo. Lixando-se estão Bolsonaro e Guedes. 

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Escatologia

Bolsonaro é escatológico,
em verbo,
em ato,
em qualquer sentido.

A Besta
(em qualquer sentido)
o segue,
em verbo,
em ato,
até o fim do mundo. 

Sangue

No geral, as pessoas tendem a crer em qualquer coisa; quanto mais tolo e estapafúrdio for aquilo em que se crê, tão mais fervorosa é a crença. Também por isso, acredita-se em coisas como o “projeto” político de Bolsonaro, que é, como já disseram, “desprovido de inteligência”. Tivesse apenas a burrice, Bolsonaro seria, talvez, ridiculamente risível. Todavia, nele, aliada à burrice, há a perversidade. Seja o que escorre pelas pernas, seja o que é derramado pelas milícias, seja o que é defendido pelo cidadão de “bem”, Bolsonaro quer o sangue dos pobres se esvaindo. 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Danação

No país do 
o-povo-que-se-dane,
parte do povo que se dana
defende a turma do
o-povo-que-se-exploda.

A turma do o-povo-que-se-vire
homenageia Temer em jantar.
Faminto, doente, danado,
o povo é explodido.
A turma de Temer
faz um brinde. 

Duas mulheres

Gabriel García Márquez, no conto “Eva está dentro de su gato” (título original) e Charles Bukowski, no conto “A mulher mais linda da cidade” (infelizmente, não me lembro do nome de quem o traduziu) lidam com algo em comum: cada uma das histórias retrata uma mulher que renega algo que muitos gostariam muito de ter — a beleza física. Tanto na narrativa de García Márquez quanto na de Bukowski, há uma mulher que gostaria de ser valorizada não pela beleza que tem, mas pelo que nelas não se enxerga com os olhos. Belo tema. 

Regressão

Há quem valorize seus antepassados até o ponto em que se depara com um índio ou com um negro. 

Vento

Suaves lufadas.
Não as vejo, mas
sei que são fadas. 

Ossos

Bolsonaro é presidente 
para os filhos, 
para as milícias 
e para si.

Guedes é ministro 
para bilionários estrangeiros 
e para si.

Para os pobres com fome 
(muitos não caem em si),
os ossos do ofício. 

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Haicai

Ela é atrevida.
Veio a morte num
descuido da vida. 

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Ontem, passou perfume

Boa parte do eleitorado de Bolsonaro não está interessada em algo que soe como diplomacia, diálogo, conciliação. Esse eleitorado, assim que Bolsonaro passou a ser veiculado nacionalmente, logo percebeu que havia nele um truculento que não estava a fim de lidar com civilidades. Tendo Bolsonaro divulgado a carta de ontem, esses eleitores se sentiram traídos pelo mandatário.

As pessoas se revelam em tudo aquilo que fazem, transpiram o que são, gesticulam o que são, falam o que são. A reação de repúdio de parte dos bolsonaristas quanto à carta divulgada ontem é mais uma amostra do quanto não sabem (nem querem saber) como funciona o tão espancado e incendiado, no Brasil, estado democrático. Um país não pertence a um presidente, um presidente não tem a prerrogativa de fazer com um país o que ele bem entende.

As promessas econômicas de Bolsonaro não foram cumpridas. Todavia, o fracasso econômico, político e diplomático do presidente não incomoda parte dos bolsonaristas, que não reclamam de pagar sete reais num litro de gasolina nem reclamam da fome no país nem reclamam do desemprego porque esses bolsonaristas a que me refiro não estão interessados nem no outro nem na democracia; eles têm um fetiche por ditadores e ditaduras.

Esses eleitores, quando afirmam que o Brasil está melhor com Bolsonaro, não têm olhos para o quanto o número de pedintes de esmola aumentou, não têm olhos para os que não conseguem mais comprar alimentos, comprar gás de cozinha. O que incomoda esses eleitores não é a miséria do país, mas uma cartinha infame, mentirosa e cínica. As pessoas se revelam nos motivos pelos quais ficam iradas. 

Se o sujeito não está (ainda) passando fome, se (ainda) consegue abastecer o carro, se (ainda) consegue saborear seu bife no almoço, sem problema se os demais não têm isso. Para boa parte dos bolsonaristas, a questão não é de humanidade: se eles (ainda) têm o que desejam, melhor ainda que seja, ocupando o poder, um “macho-mito” que fala alto e que, se for o caso, manda fechar seja o que for para demonstrar a “macheza” “mítica” que tem.

O Brasil (ainda) não chegou a outro golpe. Bolsonaro vai tentar um novamente, já que não deu certo no dia sete de setembro. O recuo falso por parte do presidente foi uma tentativa de apaziguar o dia de ontem. Hoje, o Sol voltou a nascer. Logo, logo, boa parte dos bolsonaristas terão mais do que estão sedentos, ou seja, de um sujeito que defende o extermínio dos adversários, que defende ditadores e que liberou o incêndio do país em nome dos interesses de uns poucos. Não importa se o Brasil pega fogo, não importa se as pessoas não têm o que comer, não importa se os índios estão sendo assassinados. 

Boa parte dos eleitores de Bolsonaro não vão assumir a miséria que ajudaram a criar porque concordam com ela. A fim de arrumar justificativas para a incapacidade e para a crueldade do presidente, esses eleitores ora culpam o passado, ora culpam o STF, ora culpam o comunismo (sic). A culpa nunca é de quem votou num sujeito que, durante toda a trajetória política, sempre deixou muito claro que matar é a especialidade dele, como ele mesmo já admitiu publicamente. Para um gambá, o cheiro de outro gambá é agradável. Os eleitores que ainda apoiam Bolsonaro podem ficar tranquilos. Ontem, ele só passou um perfumezinho. Hoje, está de volta a essência dele; ele já está cheirando a ignorância, a violência e a morte. Bolsonaro é putrefato. 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Sem ilusões

Fico imaginando a cara de Bolsonaro ao ver divulgada a carta em que ele diz ser democrata. Ou seja: até quando quer soar conciliador, ele mente, pois ele nunca foi nem é um democrata. Bolsonaro fraquejou para tentar salvar a pele. Disse que respeita as instituições e a constituição. Mentira. Ainda assim, uma mentira que mostra o quão acuado e enfraquecido está. O “mito” subscreve declaração em que diz respeitar o STF. Mentira. Os bolsonaristas têm um “deus” que assina algo contrário à sua essência, algo escrito por Michel Temer, sujeitinho tão desprezível quanto o antidemocrata e covarde (em qualquer acepção do termo) Bolsonaro.

Só que um vaidoso ególatra como Bolsonaro não vai engolir calado a vergonha que está sentindo por causa da divulgação da carta de hoje. É muita humilhação para quem vinha descumprindo a constituição há décadas; é muita humilhação para quem não tem o menor espírito estadista. Bolsonaro bem que queria entrar para a história como um dos grandes. Agora, além de entrar para ela como um genocida miliciano, nela estará como quem arrega. Caras como ele são meninões mimadinhos que, quando em aperto, fazem xixi nas calças e chamam a mamãezinha.

Contudo, não pode haver ilusão. Ele é um moleque fracote, mas está no poder, é perigoso e tem seguidores perigosos. Justamente por estar com o ego ferido, é questão de pouco tempo para que Bolsonaro volte a atacar a democracia. Pode ser que os novos ataques venham por intermédio de atos. Bolsonaro não vai engolir, sem nada fazer, as palavras que ratificou hoje. Ele não está em nenhuma linha do que diz o texto da carta. Ele não deixou de ser o tolo belicoso que sempre foi. Por causa da vaidade, não vai admitir que está ferido. Com a cabeça no travesseiro, sabe que está; com a cabeça no travesseiro, vai urdir os próximos ataques. 

Especialidade

Ainda quando estava em campanha presidencial, na mesma fala em que Bolsonaro havia dito “minha especialidade é matar” (o que, coisa rara, não era bravata), o agora mandatário, referindo-se naquela ocasião a Paulo Guedes, disse: “Ele tem que dar conta do recado. O quê que é dar conta do recado?: inflação baixa, dólar compatível, que não prejudique as exportações nem prejudique as importações (...), diminuir a carga tributária” (...). Hoje, sabe-se que Bolsonaro somente cumpriu a parte em que é especialista. 

"Eficácia"

O governo Bolsonaro deixou vencer a validade de estoque de medicamentos, vacinas e testes de diagnóstico. Essas perdas serão incineradas. O valor delas: duzentos e quarenta milhões de reais. Dentre o que vai ser descartado, há itens para pacientes com diabetes, hepatite C, câncer, Parkinson, Alzheimer e tuberculose. Também perderam-se frascos para aplicação de vacinas contra gripe, BCG, hepatite B e varicela. Seja com armas, seja não comprando vacinas contra covid, seja deixando produtos vencerem, o bolsonarismo é criativo ao matar. 

Robôs que aliciam

No filme Ex Machina, há um momento em que o personagem Nathan [Oscar Isaac] está explicando para Caleb [Domhnall Gleeson] que Ava, a máquina criada por aquele à semelhança de uma mulher, poderia ter sexo e prazer. No original, Nathan diz: “In between her legs, there’s an opening, with a concentration of sensors. You engage’em in the right way, creates, a pleasure response”.

Vi os créditos até o fim; não foi inserido o nome de quem traduziu as falas. De todo modo, na legenda, assim ficou: “Entre as pernas dela, há uma abertura com vários sensores. Se aliciar da forma certa, terá uma resposta de prazer”. Não sei se a pessoa que traduziu fez de modo deliberado, mas achei divertido ela ter usado o verbo “aliciar” — Alicia Vikander interpreta Ava. 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Claro hiato

O começo é escuro.
O fim é escuro.
A paz é escura.

A claridade é
só um átimo.
A luz é
só um hiato. 
_____

(Salvo engano, esse texto já havia sido publicado como fazendo parte de um fotopoema.)

Joga fora

O governo Bolsonaro deixou vencer a validade de estoque de medicamentos, vacinas e testes de diagnóstico. Essas perdas serão incineradas. O valor delas: duzentos e quarenta milhões de reais. Dentre o que vai ser descartado, e que foi comprado com dinheiro público, há itens para pacientes com diabetes, hepatite C, câncer, Parkinson, Alzheimer e tuberculose. Também perderam-se frascos para aplicação de vacinas contra gripe, BCG, hepatite B e varicela. Seja com armas, seja não comprando vacina contra covid, seja deixando produtos vencerem, o bolsonarismo é criativo ao matar. 

sábado, 4 de setembro de 2021

Coragem de inteligência e de beleza

O Brasil anda carente de beleza, de inteligência e de magnanimidade. Com a pandemia, os encontros, dentre os que têm consciência, tornaram-se menos frequentes. A má gestão do vírus da covid pelo governo federal e a existência gritante do bolsonarismo, nenhum deles capaz nem de ciência nem de arte nem de inteligência, perfazem um Brasil feio, pleno de meninos valentões — mas que, na hora do aperto, quando confrontados com a justiça que teimam em banir, choram como o que são: criançolas que só entendem sons guturais e que não suspeitam de algo chamado raciocínio, de algo chamado maturidade.

Os detentores da grana e do poder deixaram de ser os mesmos que pertenciam à classe dos intelectuais. Sedimentada essa separação, os ricos do Brasil cooptaram a classe média e fazem dela o que quiserem, a ponto de essa classe média se achar culta, sofisticada e rica porque foi a Paris ou a Nova York e porque leu os livros da moda. Os intelectuais, por sua vez, não têm mais espaço nem na imprensa nem nos meios de comunicação, que se tornaram porta-vozes da burrice e dos preconceitos arraigados em seus fundadores, membros de uma oligarquia que se atribui ares de importância, não se dando conta que cheiram a naftalina, a despeito dos perfumes caros que compram (não há essência que resolva o problema de uma mentalidade retrógrada e nada generosa).

O anseio por beleza, inteligência e magnanimidade está em todos. Os bolsonaristas não têm a capacidade de perceber isso, mas mesmo dentre eles o anseio de algo elevado e significante existe. Para os que não aderiram à perversidade do bolsonarismo, a consciência de um país mais pobre, menos inteligente e com capacidade de beleza obliterada faz com que a busca pela elevação e pela inteligência seja isolada exceção, e não congraçamento, para o qual nascemos, por mais que o bolsonarismo berre o contrário; ele berra por não saber refinar, sutilizar nem embelezar a linguagem.

A beleza e a inteligência nunca devem se calar. Há momentos em que elas têm de ser mais contundentes. Não na esperança de convencer bolsonaristas, não na esperança de sensibilizar mentes toscas. A beleza e a inteligência têm de se esgueirar para que mentes belas e inteligentes sintam que não estão mesmo sozinhas. Por mais que, no campo das ideias, alguém saiba que não está sozinho, é sempre reconfortante quando se tem prova material dessa não solidão. Não caio nessa balela de que o Brasil é maior do que o bolsonarismo; o Brasil é tão ridículo quanto o bolsonarismo. Todavia, sei que o país não é somente o bolsonarismo; o país é capaz de beleza e de inteligência. 

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Reverências

O deus de alguns
se recusa a comprar vacina contra a covid.
O deus de alguns
tripudia sobre os que morrem de covid.
O deus de alguns
defende a tortura.
O deus de alguns
deseja câncer para o outro. 
O deus de alguns
considera que não matar mais é um erro. 
O deus de alguns 
passeia de moto enquanto o país morre de fome.
O deus de alguns
queima os biomas do Brasil.
O deus de alguns
é a favor de ditaduras.
O deus de alguns 
é corrupto.
O deus de alguns
é miliciano.
O deus de alguns
censura ideias.  

O deus de alguns
é venerado por demônios.

Fotopoema 422


 

Voo


 

Perfil

Pudesse, na tentativa de ser grande e de ser carismático, o presidente imolaria um dos filhos. Substitui a imolação por bravatas e passeios de moto, que não escondem a figura beligerante, pusilânime, infantilizada, perversa, ignorante, minúscula e desprovida de inteligência que é. 

Fotopoema 421


 

Passeio


 

Fotopoema 420


 

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

“Groênlandia” “a fora”, de animais únicos “à atrações turísticas”


Que grandes empresas não dão a mínima para clientes, qualquer um sabe. A consequência desse não se importar com os consumidores desemboca no desprezo com o idioma. No dia 24 de dezembro de 2020, o Google estampou em sua página inicial “siga a jornada dele mundo a fora”. No dia 24 de agosto deste 2021, a tela do Windows continha o trecho “de animas únicos à atrações turísticas”. Ontem (26/08/21), enquanto eu assistia à partida entre Fluminense e Atlético/MG, chamada do SporTV exibiu na tela a palavra “Groênlandia”.

Num país em que pessoas aprovam a gasolina custar sete reais, aprovam um presidente imbecil, ditatorial e genocida e aprovam um ministro da economia que não vê problema em o custo da energia aumentar nem em atirarem restos de comida para os pobres, é natural que desleixo com o idioma não seja percebido; se for, esse desleixo é encarado como desimportante. O descuidado com o português é sintoma de um país esculhambado que não capricha em nada. De professores a advogados, passando por juízes, empresários e “coaches”, usa-se uma linguagem que parece querer se articular, mas que acaba transmitindo algo diverso do que era a intenção. 

Qualquer idioma é muito difícil, todo mundo erra ao lidar com palavras. Contudo, o que há em parte do Brasil é preguiça, desinteresse em aprender, não preocupação com o acerto; no caso de grandes empresas, nem contratam revisor. Uma parcela do país é burra, negligente, imediatista. Essa parcela adora falar bem do capitalismo, mas não tem a básica inteligência de perceber que dar resposta a e-mails pode atrair clientes. Escrever mal e falar mal são consequências do modo de ser de uma multidão que exibe com orgulho tacanho a ignorância, por não ter a coragem e o ânimo para buscar o conhecimento. Uma parte do Brasil é um país covarde, pobre e pusilânime, usando disfarce de civilidade. 

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Atire a primeira pedra

Integrante do legislativo municipal, durante reunião da câmara municipal, reclamou de objeto de estudo de estudante de mineração. Na opinião do vereador, em vez de questões sociais, a discente deveria ter se detido sobre “trabalhos voltados sobre a classificação do mineral, calcário, sobre não sei o quê”. De cara, diga-se que o estudo de determinado aspecto técnico não impede o estudo de questões sociais. Manifestar o pensamento de que uma questão técnica anula uma questão humanística é típico de quem desconhece o processo de evolução das ciências e das humanidades. O que é técnico e o que não é técnico são faces de uma moeda.

Ainda se referindo ao trabalho da estudante, o político patense declara: “Os trabalhos feitos, na disciplina dela, que é mineração, não faz [sic] sentido. Isso aí tá parecendo mais trabalho de ciências sociais. Ela não vai chegar numa Vale da vida, vai ficar falando de quilombola pro pessoal. Ela vai querer fazer um estudo, análise daquela terra, daquela mineração, pros trabalhos da empresa. Se eu fosse empresário, contrataria nesse sentido”.

O discurso tem cara de nobreza, de quem se importa com o que está sendo estudado, de quem se importa com o futuro da jovem; todavia, é uma falácia. Primeiro, na proposta de que deve haver uma radical separação entre o que é técnico e o que é social; segundo, por postular que se alguém se envolve com um estudo técnico, não caberia a esse alguém refletir sobre a sociedade em que vive. O discurso da autoridade tem cara de preocupação social, quando, na verdade, está propondo ausência de reflexão.

O fato de alguém estudar uma determinada disciplina técnica não impede que esse mesmo alguém reflita sobre a sociedade que está em torno desse conhecimento técnico. A separação da realidade entre aquilo que é técnico e aquilo que não é técnico é errônea ou malévola. Essa separação pressupõe divisão do que somos, pressupõe que a uns cabe análise técnica e a outros cabe, por exemplo, análise sociológica, e ai do que técnico que se aventurar a análises sociológicas, ai do sociólogo que quiser compreender questões da matéria. 

Na citação do vereador, a Vale foi mencionada. Qualquer busca rápida na internet revela o quanto a Vale é capaz de destruir. Quem está em Brumadinho sabe disso. Ainda assim, numa realidade em que empresas matam pessoas e biomas, o vereador advoga a favor de técnicos que não pensam sobre a realidade em que vivem, mas que tão somente se dediquem a estudar os aspectos técnicos da profissão que exercem ou que possam vir a exercer.

Para a Vale, só para se ter um exemplo, é ótimo que um técnico não pergunte, não questione. A partir da fala do vereador, conclui-se ser ótimo que, digamos, um eletricista não produza pesquisa sobre as injustiças do mundo e sobre o processo histórico. Se o sujeito lida com mineração, na visão do vereador, não caberia a esse sujeito produzir trabalhos que se debrucem sobre questões sociais; esse sujeito, na visão do político, em vez de tentar entender o mundo em que está, deveria se debruçar unicamente sobre minerais.

O vereador ignora (ou prefere passar a ideia de que ignora) o básico: a pedra se chama pedra porque recebeu do homem esse nome; o mineral se chama mineral porque recebeu do homem esse nome. O conhecimento técnico, seja da mineração seja de qualquer outra área do conhecimento, é intermediado pela humanidade, é realização da humanidade. Os minerais não se classificaram, não se nomearam, não se estudaram; as pedras não se coletaram, não determinaram elas mesmas as suas origens, as suas idades. O ser que atribui nomes e classificações à natureza é o ser humano.

Gente não pode ser decalcada nem retirada da teia histórica de que faz parte. A mesma pessoa que estuda uma pedra é a pessoa que chega em casa, abraça os pais ou se emociona com uma canção. A mesma pessoa que estuda uma pedra é a pessoa que pode se perguntar, em trabalho acadêmico, por que os índios estão sendo mortos ou por que o Brasil está sendo queimado. A mesma pessoa que estuda uma pedra pode responder, em trabalho acadêmico, à maneira dela, o motivo de haver brasileiros que defendem tortura e ditadura.

Para gente como o vereador e para empresas como a Vale, é bom que os que estudam pedras não fiquem se fazendo perguntas demais. “Se você estuda pedras, dedique-se a estudar pedras. Nada de ficar estudando quilombolas. Isso não é de sua alçada”, alegariam. Pensamentos como o do vereador desprezam a natureza eclética do ser humano e a reduzem a algo mecânico, obediente, petrificado. O vereador representa um Brasil que não quer gente pensando, mas, sim, pedras.

Pedras não questionam, não têm múltiplos interesses, não expõem realidades incômodas, não fazem perguntas perturbadoras. Pedras obedecem, estudam o que o outro determina que deve ser estudado. Políticos há que não querem cidadãos, mas pedras que votem neles. Tendo votado, que a pedra continue sendo pedra. Uma pedra não retrucará, não contextualizará, não fará associações, não produzirá arte nem história nem ciência. 

Gente não é pedra. Você, que quer viver num conforto em que haja seres estáticos baixando a cabeça, pode espernear. Gente não foi, não é, não será pedra, por mais que você insista. Uma pessoa que reflete sobre si mesma e sobre o mundo em que vive é perigosa porque desestabiliza construções que servem a poucos e banem muitos. Que aquele que queira estudar pedra estude pedra; que aquele que queira estudar questões sociais estude questões sociais. Que aquele que queira estudar pedra e que queira estudar questões sociais estude pedra e questões sociais.

Que a pedra, como metáfora e como material de estudo, seja bem-vinda. Como metáfora, que a firmeza dela sirva de inspiração. Que se tenha firmeza de pedra, delicadeza de brisa, paixão de fogo, paciência de estalagmite. Gente é pedra, vereador; pessoas são pedras; pedras em movimento com asas poderosas, cientes de que “pedras que rolam não criam limo”. Pessoas vão se polindo, lapidando-se, aprendendo, estudando. Ideias impedem que pessoas se tornem lodosas. A má notícia para o vereador é haver pessoas que são pedras pensantes. Quando atiram pedras nessas pessoas, essas pessoas sabem segurar pedras. Em metáfora e em literalidade.