segunda-feira, 18 de junho de 2018

Gol contra de brasileiros

A brilhante Patrícia Lélis publicou um vídeo em que comenta sobre os homens que estão dizendo estar havendo “mimimi” por parte das mulheres que estão criticando a burrice dos brasileiros ensinando o que parece ser uma estrangeira a falar palavrões. A estratégia de Patrícia Lélis para demonstrar a babaquice dos brasileiros que aparecem no vídeo e daqueles os quais alegam que as mulheres estão com frescura ao reclamarem foi nos conclamar a imaginarmos o seguinte exemplo: numa roda há algumas mulheres e apenas um homem. Elas, referindo-se a ele, começam a entoar o coro: “É pau pequeno, é pau pequeno”. A seguir, elas entoam: “O pau é fino, o pau é fino”. A seguir: “O pau é torto, o pau é torto”. Por fim: “Não sabe fazer a mulher gozar, não sabe fazer a mulher gozar”.

Claro que a situação seria embaraçosa, desrespeitosa, assim como foi desrespeitoso o comportamento dos caras que aparecem no vídeo em que pedem a uma mulher que repita palavrões em português. A postagem da Patrícia Lélis não vai mudar a mentalidade de gente imbecil como aqueles caras do vídeo, mas isso não é motivo para que algo deixe de ser feito. A burrice e a falta de tato deles precisam ser mencionadas. Patrícia soube fazer isso de modo genial.

Essa história fez com que eu me lembrasse do pessoal do 20 Fingers, que na década de 90 fez sucesso com uma canção chamada “Short dick man”. Na letra da canção, um eu lírico feminino se dirige a um homem dizendo que não quer nada com ele precisamente porque o pênis dele é muito pequeno. Os machistas de então se revoltaram, esquecendo-se dos insultos que usualmente proferem contra as mulheres. A vocalista do 20 Fingers era uma cantora chamada Gillette. Ela se justificou em entrevista quanto à letra de “Short dick man”, dizendo que há várias ofensas machistas, e que a canção era uma tentativa de fazer com que os homens entendessem o que é ser vítima de comentários ou comportamentos sexistas o tempo todo. Não entenderam. 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

De português para português

Cristiano Ronaldo fez três gols. A equipe dele dava sinais de que não resistiria à espanhola, que, a despeito da mudança de técnico de última hora, mostrou o jogo pelo qual ela é conhecida, com muito toque de bola, ficando com ela a maioria do tempo.

Portugal não vai ganhar a Copa do Mundo. Mesmo assim, o torneio mostrou, mais uma vez, que o célebre português é um craque. O que ele fez hoje foi um feito. A atuação dele acabou me remetendo a outro português, que cito:

“Em perigos e guerras esforçados,
“Mais do que prometia a força humana,
“E entre gente remota edificaram
“Novo Reino, que tanto sublimaram”.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Que o Brasil não ganhe a Copa do mundo

Os tentáculos da Globo e os grandes anunciantes fazem de conta que patriotismo e patriotada são a mesma coisa. Em anúncios piegas, ora enaltecem glórias passadas do futebol nacional ora colocam Tite em cena. A competência dele no futebol pode levar a seleção da CBF a ganhar a Copa. Se isso ocorrer, mídia e grandes empresas investirão mais ainda no pseudopatriotismo que propalam. 

A Globo, que prima por moldar a realidade do país à feição de seu projeto maquiado de brasilidade, tem todo interesse em que o Brasil seja campeão na Rússia, o que seria perfeito na tentativa de se criar uma onda “patriota” que seguiria omitindo os esquemas escusos da CBF, o 7 a 1 e os problemas que assolam o futebol nacional. Um deles, o calendário e os horários estúpidos, exigidos pela própria família Marinho.

O título do Brasil seria perfeito para a Globo e para seus poderosos anunciantes. Precisamente pela influência que têm, soprariam sobre o país um bafo de pseudoufanismo e de falsa autoestima. Como são muito poderosos, convenceriam muitos de que somos o tal do país do futebol, embora não sejamos. 

Para eles, que sabem realizar muito bem a mistura entre futebol e política, é boa a ideia de a população supor que, mesmo no governo Temer, ainda somos um país possível, viável. O hexacampeonato seria um afago, uma suspensão do peso do cotidiano. Um olhar um pouco mais cuidadoso, todavia, descortina o nosso futebol chinfrim e a caricatura de país que nos tornamos. Ganhar uma Copa não é atestado de que por trás do título há uma nação.

Não há dúvida de que o futebol pode ser algo mágico, bonito, emocionante. Qualquer pelada entre amigos pode conter elementos épicos ou grandiosos. Podendo o futebol ser tão elevado, o que lamento não é a existência dele em si, mas ele ter se tornado ferramenta política e dispositivo de manipulação nas mãos de empresas como Globo, como seus anunciantes e como a CBF, organizações que não têm o menor interesse no bem do Brasil nem no do futebol aqui praticado.

Se o Brasil ganhar a Copa, vão dizer que o orgulho de ser brasileiro foi resgatado. Jamais vão admitir que é melhor ter um péssimo futebol mas um país decente. A euforia da conquista caso o hexa venha será inflada. O sucesso será garantido, pois eles têm ao seu lado o pessoal que vestiu a camisa da CBF e fez passeata alegando cidadania de 2013 para cá. 

O que vai curar este país doente não é a conquista de um torneio esportivo. Eu gostaria muito que o futebol não fosse usado como instrumento para tapear incautos ou para enriquecer espertalhões, pois ele é maior do que Globo, CBF, patrocinadores e paneleiros. O futebol não deveria ser usado usado como paliativo contra as dores de um país que não consegue se fazer.

Apontamento 376

Chega o tempo (ou deveria chegar) em que percebemos o que somos. Ou suspeitamos do que somos. Ou temos uma ideia mais exata do que não somos. Damo-nos conta então de que poderíamos ter feito mais do que fizemos e de que não somos tão capazes o quanto já havíamos suposto em rompantes juvenis. A partir daí, a questão é aprender a não desprezar aquilo de que somos capazes, ainda que não sejamos tão capazes quanto gostaríamos de ser (e não somos). 

Os estorninhos são bons em matemática

Acho que foi o Pitágoras quem disse que “o livro do Universo está escrito em caracteres matemáticos”. A ideia, bela por si, fascinava os gregos. Na modernidade, tem gerado filmes, documentários, desenhos animados... Um documentário que recomendo é Understanding Beauty (Tudo sobre a beleza); já um desenho animado que recomendo é Donald Duck in Mathmagic Land (Donald no País da Matemágica).

Há uma produção da BBC que está disponível na Netflix intitulada The Code. A pequena série de três episódios segue a linhagem de trabalhos que afirmam haver propriedades matemáticas em qualquer manifestação da natureza. Isso valeria para flocos de neve, para o comportamento dos lêmingues ou para uma multidão de humanos. A série The Code é apresentada pelo matemático Marcus du Sautoy.

Há quem argumente que destrinchar os mecanismos de algo retira o encanto desse algo, com o que não concordo. A maravilha de trazer à tona o que causa ou o que move determinado fenômeno torna tudo mais fascinante. Há mágicos que não gostam quando os truques deles são revelados; para mim, essa revelação torna a mágica mais incrível do que ela já é. Talvez por isso eu goste tanto de conferir feituras de filmes.

Séries que ressaltam a importância da matemática estão, por assim dizer, tentando descobrir a feitura do Universo, estão, digamos, investigando o “truque” por trás da “mágica” que é o Universo. Só um misticismo deturpado ou um cérebro desprovido de senso do espanto não conseguiriam enxergar beleza quando padrões matemáticos são revelados nos mecanismos da natureza.

Por falar em padrões matemáticos, há uma sequência em que Marcus du Sautoy está discorrendo sobre o belíssimo padrão de voo dos estorninhos, enquanto uma revoada deles é mostrada pela câmera. Diante da cena, ficou nítido para mim que num breve instante os milhares de estorninhos “desenham” no céu o número 6.

De imediato, pensei se tratar de uma “brincadeira” de edição da BBC; tanto foi assim que fiquei aguardando algum comentário sobre isso da parte de Marcus du Sautoy. Todavia, nada foi dito sobre o número 6 no céu. Além do mais, a edição não nos permite concluir que a formação dos estorninhos teria sido algo produzido em estúdio.

Tendo sido ou não feito em estúdio, foi bom demais a formação dos pássaros no céu (acho que os estorninhos estavam... po(u)sando para as câmeras...)  terem produzido algo parecido com o número 6 (pareidolia?) num documentário que ressalta precisamente a matemática como sendo a chave que abre ou explica como tudo é gerado na natureza. Nesta postagem, uma foto da cena do voo dos estorninhos no documentário da BBC. 

sábado, 2 de junho de 2018

Meu novo livro já à venda

A Fenamilho está acabando. Em breve, anuncio data de lançamento de meu novo livro, Anacrônicas, coletânea de textos que escrevi para a imprensa. Mas caso você já queira ler o livro, ele já está à venda neste link

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O público e o privado

Sempre é preciso mencionar desinformação, patologia, ingenuidade, má-fé, patriotada e outras coisas que nem sei dizer quando pessoas vão a um quartel, prostram-se e pedem intervenção militar. Há ainda um componente psicológico, que nada tem de problemático se ficar restrito à esfera particular: em ajoelhar-se e pedir açoite há, consciente ou inconscientemente, vassalagem e masoquismo. 

Prova

Valor: 10 pontos
Data: 01/06/2018

Questão 1
Na Ilha de Vera Cruz, jamais serão presos:
a) Aécio, FHC, Serra, Temer;
b) Temer, Serra, FHC, Aécio;
c) FHC, Aécio, Temer, Serra;
d) Serra, Temer, Aécio, FHC. 

Haicai 69 / Fotopoema 417

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Fé líquida

João Doria, aquele que mandou retirar, com jatos d’agua, em madrugada fria, mendigos do centro de São Paulo, foi hoje a evento intitulado Marcha para Jesus. Eu não sabia que, além de cidadão de bem, Doria é religioso. 

Haicai 68

Não sou homem de fé,
não sei nadar.
Vou até onde dá pé. 

Eu tenho medo de ditadores

A democracia tem seus defeitos, mas o bom dela é que aqueles que não a querem podem dizer abertamente não querê-la. Regimes militares não se inclinam a dar à população essa prerrogativa. A própria ditadura no Brasil provou isso. Em ditaduras, quando se quer dizer que não se concorda com elas, é preciso haver subterfúgios sutis e sofisticados, o que está longe dos nada sutis nem sofisticados métodos que as ditaduras usam para prender, torturar ou matar.

No que diz respeito à economia, à corrupção e à manutenção de privilégios, a ditadura brasileira foi tão incompetente quanto parte dos políticos eleitos durante a democracia. Só que no regime democrático, pode-se dizer que determinado político foi incompetente no exercício de seu trabalho. Ai daqueles que escancararam a burrice, a brutalidade e a ignorância dos ditadores latino-americanos.

Há uns três ou quatro anos escrevi — e agora reitero: prefiro os problemas da democracia às soluções da ditadura. É muita desinformação acreditar que uma ditadura ou um político possa ser redentor, salvador. Há também desinformação quando se alega que o avô ou o pai dizem que no período da ditadura o Brasil era melhor. Pode ter sido melhor ou até indiferente para o seu avô ou para o seu pai, mas isso não quer dizer que tenha sido melhor para o país.

Nasci em 1970. Cresci durante o regime militar. Minha família não passou fome, não foi torturada nem exilada nem morta pela ditadura. Todavia, isso não quer dizer que o país estava saudável. Meus pais não sabiam ao certo o que estava acontecendo. Coube a mim, o que é minha obrigação, procurar me informar sobre o Brasil que era divulgado e o Brasil que era escamoteado durante o regime ditatorial no Brasil.

Li recentemente a autobiografia do imprescindível Jô Soares (segundo ele, haverá um segundo volume de suas memórias). Num trecho, ele comenta do medo que sentiu, durante o regime militar, ao ser levado ao Dops para ser interrogado. De acordo com ele, não o torturaram.

O problema é que há pessoas que defendem a ditadura só porque não tiveram entes torturados. O raciocínio é simplista. De minha parte, asseguro que prefiro viver sem medo de ditadores. No mais, há muito machão metido a corajoso por aí que perderia todo esse furor ao ser torturado numa cela fria e fétida. Eu tenho medo de ditadores. 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Documentário sobre Gabriel García Márquez

Assisti ontem ao terno documentário Gabo: a Criação de Gabriel García Márquez [Gabo: the magic of reality], do diretor Justin Webster. A produção, disponível na Netflix, é de 2015, realizada, portanto, um ano depois da morte do autor colombiano.

Amigos e parentes de García Márquez dão depoimentos sobre a vida e a obra do escritor, destacando as facetas da vida dele. Mesmo para leitores e conhecedores da vida de Gabo, como ele era conhecido pelos amigos, o documentário vale a pena, principalmente pelos trechos de entrevista que há com o próprio autor.

Para os que querem adentrar no universo de García Márquez, o documentário enfoca os pilares tanto da obra quanto da vida do criador de O Outono do Patriarca. O episódio do rompimento com Vargas Llosa não é mencionado, mas a amizade de García Márquez com Fidel Castro, que tanto debate gerou, é abordada.

No todo, um belo e feliz tributo a um autor que parece ter tido uma vida bela. Por mais piegas que possa parecer, a impressão que tenho de García Márquez é a de que ele foi uma pessoa feliz. Gabo: a Criação de Gabriel García Márquez faz justiça a isso. 

sábado, 26 de maio de 2018

Apontamento 375

A poesia é possível. Por que desperdiçá-la quando ela faz de ti uma possibilidade? 

Karius e nós

Os erros de Karius foram imensos. Quando falhas dessa natureza ocorrem, diminuem a distância entre um grande jogo e a pelada do fim de semana no campo da várzea mais próxima. Pela natureza da profissão e por terem chegado ao ponto em que chegaram, os erros de atletas em grandes equipes são vistos por milhões, bem como as consequências dos fracassos deles. Mesmo assim, o que aconteceu mais cedo com o Karius aproxima não somente o grande time da equipe de amigos que disputa um torneio amador, mas aproxima todos nós uns dos outros, pois falhas como a do goleiro do Liverpool atestam o quão grandes podem ser os tropeços de qualquer humano, ocorram eles diante de milhões ou na intimidade de um quarto escuro. Karius, ao vivo, provou mais uma vez o que há de mais frágil e essencial em todos nós. 

Resistência

Ontem, lavando talheres, esbarrei numa xícara, que caiu no chão. Não quebrou. Nela, está inscrito o nome de Pablo Neruda. A poesia há de resistir. 

Cinismo

Aula de cinismo: Temer, que congelou investimentos na educação por décadas, diz que a greve dos caminhoneiros não pode impedir o acesso das crianças às escolas. Ele autorizou ontem o uso das forças federais de segurança para desbloquear as estradas. Ou seja: o que falta em habilidade e legitimidade políticas ele compensa com a porrada. É sempre a saída dos covardes e dos que não sabem governar. É a saída dos que querem soluções fáceis e ditatoriais, tal qual deseja parte da população. 

Haicai 67

Muitos têm a ideia:
trabalhador é cordeirinho.
Viva a alcateia. 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O petróleo não é nosso

Os discípulos dessa corporação uníssona chamada grande mídia nunca vão admitir dados de que não houve quebradeira no Brasil depois do governo de FHC e antes do governo de Temer. Nesse viés, nunca vão admitir que o problema dos preços dos combustíveis não é herança do governo petista. Isso não quer dizer o governo do PT não tenha errado — Belo Monte é exemplo de erro grave pelo etnocídio que tem causado. Negar que houve corrupção no governo petista seria burrice, assim como é burrice alegar que a corrupção foi inventada pelo PT ou alegar que não houve corrupção durante a ditadura militar ou negar que não houve corrupção no blindado governo FHC (neste caso, a leitura de A Privataria Tucana esclarece muito).

Como eu já disse, nunca tive ilusão nem pretensão de mudar o pensamento de alguém quando escrevo; isso seria luta mais vã do que as outras lutas vãs com que me envolvo (“lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã”). Sei que os crédulos vão continuar acreditando nas grandes corporações de comunicação, vão continuar dizendo que os governos Lula e de Dilma quebraram o Brasil. Nunca tive a intenção de mudar a ideia de quem pensa assim, pois quem assim pensa não vai mudar de ideia por uma série de questões, que podem até dizer respeito a coisas que não são estritamente da política, como, por exemplo, a falta de um mindinho ou o vestido de alguém.

O assunto em voga é a falta de combustíveis nos postos de gasolina. Por todo o Brasil, donos de postos já deram prova do quanto o brasileiro é “solidário”: ontem, houve “cidadão de bem” que chegou a vender gasolina por R$ 9,99 (https://bit.ly/2x9XCR6). Isso é muito revelador do quanto estamos distantes de construir para nós um país para todos.

Sobre esse problema, recorri a um estudante de economia, que me pediu para ficar no anonimato. Segundo ele, há uma teoria em economia chamada de “questão da utilidade marginal”. Segundo o economista, “a questão da utilidade marginal na hora de determinar os preços é uma teoria econômica que diz que o preço de um bem reflete não o seu custo, mas, sim, o quanto ele é útil naquele momento. Por exemplo: se você está no deserto do Saara e encontra um vendedor de água, na primeira garrafa você está disposto a pagar o preço que ele quiser cobrar porque o bem é extremamente útil pra você naquele momento; na segunda garrafa você já está disposto a pagar um pouco menos, porque já é menos útil pra você, até que chega um momento em que a água é um estorvo e você não está disposto a pagar mais nada, ou até está disposto a pagar para não ter o bem. Essa é uma teoria importante na questão da formação dos preços, que acaba refletindo na questão da lei da oferta e da demanda, e acho que se aplica bem nesses momentos de crise com bens muito úteis, como a gasolina, por exemplo”.

A própria economia admite ainda haver fatores não racionais que devem ser levados em conta: “Ninguém age o tempo todo de forma racional. Inúmeras vezes, agimos por impulso, sem medir as consequências de nossos atos. Outras tantas vezes, agimos por mero hábito, por condicionamento social, porque ‘é assim que sempre se fez’. E, normalmente, mesmo quando procuramos ser racionais, não deixamos de ser influenciados pela cultura e por nossas pulsões (tantas vezes, inconscientes) avessas à racionalização. (...) De forma que o ‘homem econômico racional’ tem que ser tomado como uma construção ideal, e não como uma representação realista da ação humana. O que não significa — insistamos — que esta representação seja inútil”. [1]

É preciso ter em mente que a utilidade marginal ou o argumento de que não somos racionais o tempo todo não são salvo-conduto para os donos de postos de gasolina cobrarem os preços que bem entenderem. Esse ato pode ser ilegal, os postos podem ser denunciados. Sabemos que denúncias desse tipo não dão em nada no Brasil, mas nem por isso temos de aceitar que os postos cobrem dos consumidores o que bem quiserem.

Quando nasci, em 1970, a ditadura militar estava expulsando, torturando ou matando quem dela discordava (por isso mesmo há quem queira a volta do regime militar). O aumento do preço dos combustíveis era anunciado previamente, o que fazia com que os consumidores pegassem os veículos e corressem para os postos de gasolina para encher os tanques antes que o aumento entrasse em vigor. Ontem, indo para o trabalho, pude conferir as filas nos postos da avenida JK, aqui em Patos de Minas, em cena muito parecida com a que eu presenciava com frequência quando menino; à noite, no centro da cidade, mais filas para abastecimento. Tomo a liberdade de tirar a vírgula do “slogan” do Elsinho Mouco, modificando os números dele: o Brasil voltou quarenta anos em dois.

Aproveito para reiterar alguns números, que são públicos, embora escondidos da grande mídia — em especial os dados contidos nos dois primeiros links. O primeiro deles tem uma série de registros que fazem comparação entre os governos FHC e Lula/Dilma; o segundo é sobre o que há embutido no valor dos combustíveis; o terceiro é um contraponto aos dois primeiros.

https://bit.ly/2IHsA4w

https://bit.ly/2xbxKEu

https://bit.ly/2s4UT6o
___________

[1] Paiva, Carlos Águedo Nagel. Noções de economia / Carlos Águedo Nagel Paiva, André Moreira Cunha. Brasília. Fundação Alexandre de Gusmão. 2008. 

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Lex

A lei é para bodos.
A lei é para codos.
A lei é para dodos.
A lei é para godos.
A lei é para lodos.
A lei é para rodos.

A lei é para toldos. 

Apontamento 374

Temer pediu trégua aos caminhoneiros. Ele não a merece porque ele não a dá. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

Fotopoema 416

O que está perturbando Gilbert Grape

Se você tem família, leia What’s eating Gilbert Grape, do escritor Peter Hedges. Salvo engano, o livro não tem edição em português, embora tenha se tornado um filmão, estrelado por Johnny Depp e por Leonardo DiCaprio.

O livro é a história da família Grape; quem a narra é um dos integrantes dela, o Gilbert Grape do título. Só sarcasmo e humor corrosivo para fazer com que ele consiga suportar o dia a dia da família, cujo núcleo central é composto por ele, por duas irmãs, por um irmão que tem problemas mentais e pela mãe deles, a qual nunca sai de casa por ser gorda demais; ela começou a engordar depois do suicídio do marido. Um casal de irmãos que não mora na casa aparece no decorrer do enredo por causa do aniversário de Arnie, o que tem problemas mentais.

Gilbert Grape não suporta somente a casa em que vive. Ele está cansado também de Endora (cujo nome é grafado pelo narrador algumas vezes como ENDora), a pequena cidade em que vive. Gilbert tem vinte e quatro anos; dos integrantes da família, é o mais próximo a Arnie. Somente uma ironia perversa que esconde as frustrações dele e dos demais faz com que o ambiente pareça suportável em meio à vida atribulada e cheia de incidentes o tempo todo.

Sempre há algo espezinhando, sempre há uma discussão, sempre algo dá errado. O cotidiano da família Gilbert cansa; tudo é muito barulhento, nunca há um acordo, uma trégua, um descanso, uma pausa, uma possibilidade de sintonia. A rotina deles asfixia; a atmosfera é pesada, sendo que o peso da mãe é um retrato literal da falta de leveza da família. Ao mesmo tempo, os personagens encarnam os dramas e os fracassos de qualquer família. Por isso mesmo, é incrível o quanto é fácil gostar deles. A escrita de Peter Hedges faz com que os compreendamos em sua humanidade frágil e estraçalhada.

Não é todo dia que se tem a chance de ler um livro como What’s Eating Gilbert Grape. É o tipo de obra que nos modifica, que nos torna maiores, melhores. Somos mais amplos depois de termos lido um grande livro. Ler algo como o que Peter Hedges escreveu é renascer. Hoje à tarde, quando li a última palavra da história, renasci.

Num trecho, o narrador comenta: “Espera-se que seja algo natural, subir as escadas. Não na família Grape — aqui, o simples se torna extraordinário”. De fato, essa coisa de o simples se tornar extraordinário permeia a história. No cotidiano deles, há muito de mágico, de alegórico. O trabalho de Hedges é um poderoso lembrete quanto ao que pode haver de extraordinário na leitura de um livro. 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Visitas

Geisel, Temer... A cidade merece a visita de gente melhor. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Lá vem o Temer para ver o que é que há

Seria muito bom se a população daqui não desse a Temer a chance de ele fazer o que em tese fará depois de pousar em Patos de Minas. Há dias, em São Paulo, ele foi expulso do lugar onde estavam os destroços de um prédio que havia ruído. Creio que o episódio teria descambado para a violência tivesse o presidente insistido em ficar por lá.

Temer não será expulso daqui. Não por não haver pessoas insatisfeitas com ele, mas porque a cidade é pequena. O número de pessoas insatisfeitas — e que estariam dispostas a bolar algo sem violência e com criatividade para impedir a presença temeriana por aqui é pequeno. Em termos percentuais, esse número, suspeito, não variaria muito de um lugar para outro, só que num grande centro esse percentual é o bastante para compor um volume maior do que o que há em cidades pequenas.

Além do mais, em São Paulo, ele foi expulso não por uma ação orquestrada, mas pelo clamor espontâneo dos populares que estavam por perto no momento. A visita a Patos de Minas já foi anunciada. O que vai ficar é o registro dos sabujos. Há deles em todos os lugares, mas em cidades pequenas consegue-se com mais facilidade amplificar a voz dos bajuladores e abafar a dos indignados. 

Expulsá-lo com elegância e com inteligência não seria indelicadeza; “indelicadeza” é o que ele faz quando trabalha. Seria belo se todos o ignorassem em plenitude, mas isso não vai ocorrer. Há quem seja obrigado a participar do teatro e há quem faça questão de subir no palco mesmo sem ter sido convidado. 

E vem a Patos para ver o que é que há

Autor da ideia de levar Temer ao local onde o prédio desabara, em São Paulo: Elsinho Mouco.

Autor da ideia “o Brasil voltou, 20 anos em 2: Elsinho Mouco.

Autor da ideia de trazer Temer a Patos de Minas: Elsinho Louco? 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

À espera

Fazendo o rastreamento no site da transportadora, constato que os exemplares do Anacrônicas, meu livro mais recente, estão em Uberlândia. A gana de tê-los em mãos quase me compele a ir até lá. Quando eu tiver o livro em mãos, digo.

À parte isso, Anacrônicas já pode ser adquirido neste link

Terminação

Para o que deseja companhia:
cão.

Para o que pula do prédio:
chão.

Para o que planta:
grão.

Para o que se masturba:
mão.

Para o que não se permite:
não.

Para o que tem fome:
pão.

O que escreve versos:
vão. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

Peles

O hábito não faz o monge.
A farda não faz o soldado.
O jaleco não faz o cientista.

A nudez não desfaz o corpo. 

&

Ser e ter:
eis a questão. 

Sobre Tom Wolfe

Ontem, Tom Wolfe, autor do magistral A Fogueira das Vaidades, morreu. Ele foi um dos destaques do chamado Novo Jornalismo, que misturava técnicas romanescas ao texto jornalístico. Na primeira metade da década de 70, ele escreveu que “os repórteres estavam destinados a tornar os romancistas obsoletos”. 

Ele mesmo dedicar-se-ia ao romance como gênero. À parte isso, a “previsão” de que os jornalistas substituíram os romancistas não se cumpriu, nem lá fora nem no Brasil. Além do mais, por aqui, da década de 70 para cá, o jornalismo foi investindo cada vez menos em quem sabe escrever. Os que sabem, nos poucos espaços que têm, não tomaram o lugar dos romancistas, mas se valem de técnicas do dândi Tom Wolfe. 

terça-feira, 1 de maio de 2018

Haicai 66

Manhã; aclamei.
Ao longe escutava-se
o Brian May. 

Por que não escuto Galvão Bueno

Nem Galvão Bueno nem a Globo precisam de minha audiência. Não sou um dos “milhões de uns”, na expressão de atual campanha publicitária da emissora. Isso não me impede de dizer que Galvão Bueno é o que há de pior no jeito de a Rede Globo fazer as coisas. Não bastasse a chatice imensa, ele encarna o que de mais podre há na emissora: a pauta acrítica, o puxa-saquismo, a patriotada do canal da família Marinho; bastam alguns segundos do Bem, Amigos!, atração comandada pelo locutor no Sportv, para que essas coisas sejam percebidas. Por isso mesmo, não assisto ao programa. A favor de si, Galvão Bueno tem a voz, que é excelente, mas tem contra si algo lamentável em quem está num meio de comunicação — a burrice. Ele é espertalhão, mas a esperteza por si não define em totalidade o que é ser inteligente.

Para piorar, julga-se carismático; quando tenta ser engraçado, presenciamos algo constrangedor. Ele, como porta-voz mor do que a Globo faz contra o futebol brasileiro, reveste sua atuação com uma pseudobrasilidade nada interessada no real crescimento do futebol praticado aqui. Ainda bem que há muitos anos tenho opções para não acompanhar as transmissões conduzidas por ele. A última partida ao vivo que conferi narrada por Galvão Bueno foi a final da Copa do Mundo de 1994. Tempos depois, eu conferiria, não ao vivo, a história contada por ele no jogo em que a Alemanha goleou o time da CBF por 7 a 1. No dia, não escutei o locutor, mas meses depois fiz questão de acompanhar a reação dele diante do fiasco da equipe da Confederação Brasileira de Futebol, fiasco do qual a emissora que ele nojentamente defende também tem culpa.

Galvão Bueno epitoma o que a Rede Globo tem de pior. Parte dos demais profissionais do canal, sem se mostrarem partidários interesseiramente ensandecidos da ca(u)sa, seguem a linha editorial ditada pelos chefes, conforme o que acompanho, principalmente, no Sportv. Mas seguir as diretrizes dos chefes não é o bastante para Galvão Bueno. Seja por ser descaradamente teatral seja por ser fervorosamente genuíno (ou as duas coisas), o locutor é a expressão mais literal e figuradamente escandalosa da superficialidade com que a Globo trata todas as coisas importantes. É espantoso o quanto ele incorpora a futilidade do canal. Galvão Bueno é um desserviço para a comunicação, para o futebol, para o Brasil. É o que há de mais pernicioso quando um empregado decide ser vassalo de seus chefes e de tudo o que fizeram e fazem contra o país. 

Um pedido que não será lido por Temer

Temer causou hoje mais uma patuscada para si. Exercendo sua hipocrisia, foi ao local onde está o que sobrou de um prédio que pegou fogo e que desabou em São Paulo. O presidente disse que estava lá para prestar solidariedade às vítimas. Vindo de quem só tem demonstrado não ter a menor solidariedade nem a menor sensibilidade quanto às necessidades dos pobres, isso soa como populismo sem falta de autocrítica e como hipocrisia. Xingado e hostilizado pela população, mal tendo chegado, foi embora do lugar a que, tivesse ele algum senso do ridículo, não deveria ter ido.

Não importa se a decisão de ir lá tenha sido de um assessor ou do presidente, ficou evidente mais uma vez que as “boas” intenções de Temer não são bem-vindas. A presença dele no local da queda do edifício revelou mais uma vez o quanto o presidente não tem carisma. Sempre que tenta guinada a fim de passar uma imagem de quem está ao lado do povo, malogra. É que não há como decidir ter carisma. Como a sensualidade, carisma é o tipo da coisa que se tem ou não se tem. Não há como agir ao modo de quem tem carisma, não há como fingir ser alguém com carisma; isso seria imitação tosca. Valer-se de mesóclise não torna ninguém carismático.

É comum políticos se valerem de tragédias para executarem tacadas populistas. Todavia, a figura pública de Temer e suas medidas políticas deixam evidentes que ele não está a favor de pessoas a quem ele disse que ofereceria solidariedade hoje, lá em São Paulo. Não fosse ele serviçal de corporações que querem sugar o Brasil, Temer, em atitude inteligente, deixar-nos-ia (valer-se de mesóclise não torna ninguém carismático) em paz. Mas não foi para isso que ele topou compor o golpe. Estou de acordo quanto à expulsão de Temer ocorrida hoje. Não precisamos da pseudossolidariedade dele. Mesmo sabendo que ele nunca me lerá, peço: deixe-nos em paz, Temer; esqueça-nos. Somos melhores sem você. 

Escuriluz

Existe a luz.
Existe a treva.
Da mistura do que há 
de claro 
e do que há 
de escuro
em nós,
surge aquilo
que somos:
penumbra. 

Fotopoema 415

Haicai 65

Não se trata de pátema.
Dependendo de quem vem,
é bem melhor o anátema. 

Vaivém

“Você está me seguindo”.
“Ou vice-versa”.

Na dúvida, 
vide verso. 

Em cores

Olho para o céu.
O azul está passando
em brancas nuvens. 

Fotopoema 414

Haicai 64

Tenho o agora.
O resto é pensamento 
fazendo hora. 

Curicaca

Locutora de futebol no Esporte Interativo

Eu me lembro de que quando a Mabel Cezar começou a fazer as chamadas da Globo, revezando esse trabalho com o genial Dirceu Rabelo, houve imbecis que criticaram a escolha do canal, por ele ter permitido a uma mulher que gravasse as chamadas da emissora. A reclamação desses caras é a cara do machismo à brasileira.

Desde quando a Fox anunciou que terá narradora(s) na Copa do Mundo, tenho aguardado para conferir o resultado. Até o dia de hoje, eu nunca havia escutado uma partida de futebol ser narrada por uma mulher. Só que há pouco mais de meia hora, o Edgar, meu irmão, entrou em contato comigo e disse para eu ligar a TV no Esporte Interativo 2.

Neste momento, há uma locutora narrando a partida entre Real Madrid e Bayern de Munique. O nome dela é Viviane (o comentarista Mauro Beting se refere a ela como Vivi). No sítio do canal, não consegui achar o sobrenome dela, se é que ela adotou algum para sua persona pública. Ainda na página da emissora, pode-se inferir que houve ou está havendo uma espécie de concurso para escolha de narradora(s). 

domingo, 22 de abril de 2018

O conto de Lucas

Quaquá, uma cidade que fica no exoplaneta 2405, tem políticos e empresários que barraram o florescimento de uma universidade pública no local. Nesse longínquo tempo, um cidadão chamado Lucas Bridge protestou contra a falta de espírito público desses empresários e políticos, criou petições, acionou o ministério público. Os que impediram a universidade, donos de Quaquá, riram tanto de Lucas que as gargalhadas puderam ser ouvidas lá na Terra. 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Azul e amarelo

Durante catorze anos disseram que azul é amarelo.

Tomé levou um dia para acreditar que azul é amarelo.
Jeane levou dois dias para acreditar que azul é amarelo.
Tatiane levou três anos para acreditar que azul é amarelo.
Gustavo levou quatro anos para acreditar que azul é amarelo.
Pedro levou treze anos e meio para acreditar que azul é amarelo.

Ana Vitória nasceu.
Abriu os olhos.
Viu que isso era bom.
A primeira coisa que disseram para ela foi que azul é amarelo. 

Dai aos patos o que é dos patos

Quando lancei meu quarto livro, fui ao Rio de Janeiro participar do programa Conversa com o Autor, apresentado por Katy Navarro. Na ocasião, ela me perguntou se havia mineiridade no que escrevo. Eu disse que não há. Pelo menos não há a confirmação do mito da mineiridade, um mito que povoa o imaginário precisamente pela força que os mitos têm. Se há algo de mineiro no que escrevo, isso se deve apenas ao fato de eu ter nascido em Minas Gerais. Não há nada demais nisso; eu ter nascido aqui é apenas algo circunstancial. Eu não valeria nem mais nem menos se tivesse nascido lá no Acre ou lá em Tegucigalpa.

No que já publiquei em livros, Patos de Minas está presente, de modo explícito, duas vezes. No Algo de Sempre, escrevi:

Patos de Minas.
Cidade incrível. 
Aqui acontecem coisas 
que só acontecem 
em todo lugar.

No Dislexias, escrevi:

Nasci em Patos de Minas.
Contra patos não há argumentos.

Menciono a mim mesmo não por empáfia infantiloide, mas para ilustrar que não embarco nisso de mineiridade. Com isso, não nego que Minas Gerais tenha suas peculiaridades, mas, ora, todo lugar tem suas peculiaridades. Ao mesmo tempo, Minas pode ser universal, assim como pode ser universal qualquer lugar.

Qualquer região é peculiar e universal. Isso vale para coisas ruins. É frequente atribuírem a Patos de Minas um conservadorismo que existiria somente aqui. Mas há gente conservadora no mundo inteiro. De modo análogo, isso vale para o bairrismo, a vaidade, o desejo de a cidade ser maior do que é, a ilusão de que aqui é mais especial do que ali ou do que lá ou acolá. Isso não são exclusividades patenses.

Li no Patos Hoje que alguns têm criticado, seja por hipocrisia, seja por conservadorismo, um quadro de Gisele Tavares (não a conheço). É óbvio que tanto a hipocrisia quanto o conservadorismo metido a moralista são lamentáveis. Com o que não concordo, é com os que têm dito que somente numa cidade como Patos de Minas poderia haver tamanha hipocrisia ou tamanho conservadorismo.

Na hora de dizer que a amálgama entre representação do triângulo (invertido) da bandeira de Minas Gerais e dos pelos vermelhos de uma mulher é algo libertino, acionam sua verborragia, eriçam seus pruridos “virtuosos”. O “cidadão de ‘bem’” é assim em sua hipocrisia ou em seu conservadorismo seletivo. Só que a caretice, a hipocrisia e o conservadorismo não são atributos só de cidades pequenas. Tentativa de banimento de performances em museus já ocorreram em grandes centros, obras artísticas já foram proibidas de ficarem em lugares públicos em capitais.

Há sempre representantes dos bons costumes berrando contra o que consideram delitos. O que praticam nunca é delitoso. Escreveu Oscar Wilde: “Pornográfico é o sexo dos outros”. Patos de Minas merece críticas pelo conservadorismo, pela empáfia, pela vaidade, pela caretice, pela falta de cultura, pelos políticos que tem e teve. Mesmo assim, dizer que essas coisas são piores aqui é ser injusto com a terra dos patos selvagens. 

Portas

Abre a porta.
Abre a outra porta.
Abre todas as portas.
Se quiseres,
brincamos o jogo em que
entro pela janela.

Tua casa é meu lar,
meu bar.
Entro sedento,
saio embevecido.
Eu me vou embora.
Sei que voltarei.
Tua casa é por onde entro
para querer não mais sair. 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Modos de expressão

A edição 138 da revista Piauí tem um (excelente) texto de Michel Laub intitulado “Notas sobre o fígado”. O artigo é sobre os bastidores dos prêmios literários no Brasil. Num trecho, Laub escreve: “Segundo um juiz habitual de prêmios no país, quando há debates para se chegar a um consenso, a melhor coisa para um livro é ter um defensor ‘agressivo’, pois isso constrange quem precisa argumentar contra’”.

Quem já conviveu em grupo sabe que defensores agressivos de fato constrangem, intimidam, não importa se no trabalho, se em família, se numa conversa de bar, se em redes sociais. A sutileza não tem espaço; o ruído que ela faz é solapado pelos decibéis da retórica sem conteúdo mas dita em volume alto.

Saber quando calar e quando falar é arte difícil e ligada a questões pessoais. Não bastasse, ainda que maduros, ainda que experientes, é comum falarmos e depois nos arrependermos ou não falarmos e depois nos arrependermos. Mesmo sendo difícil lidar com esse equilíbrio entre silêncio e palavra, a sutileza não pode ser abandonada quando optamos por dizer.

Quem fala alto ou quem grita convence muitos, quem vocifera se impõe diante de turbas animalescas. Sempre foi moeda corrente as pessoas deixaram-se levar não pelo conteúdo de algo, mas pelo modo tosco como esse algo é dito. O mundo é um lugar inóspito para a elegância, para a ponderação. Bons modos convencem poucos; isso não quer dizer que devamos abrir mão deles.

Ponderação ou sutileza não deveriam se calar. Os barulhentos sabem que não precisam de ideias, mas quem as tem não deveria deixar de expô-las. Não na esperança de convencer os que se deixam levar por quem rosna nem na expectativa de fazer os ruidosos mudarem as práticas. A elegância da expressão não deveria se calar porque elegância é sintoma de humanidade e de inteligência.

Essas são duas coisas que nunca estiveram na moda, mas são viáveis, possíveis, fazem parte do que há em ser gente. Elas existem; em nós, o que existe, se existe mesmo, quer se manifestar, quer ser. Quem oferece a truculência age assim porque é o que tem a oferecer; aquele que tem a elegância não deveria deixar de ofertá-la. Além do mais, exercer a elegância que se tem é, antes de tudo, um dever da pessoa para consigo mesma. No que diz respeito à convivência, há quem atribua charme no silêncio, sem se dar conta de que a expressão pode ser sedutora. 

sábado, 14 de abril de 2018

"Radio Gaga"

Decidi hoje comprar um rádio. Eu nem sabia que ainda eram fabricados. São. Uma mercearia aqui perto de casa os vende. Perguntei para o casal que é dono do estabelecimento quem ainda compra rádio. Segundo eles, o pessoal que mora na roça.

Patos é uma roça um pouco maior (não sou pejorativo ao afirmar isso; sou daqui). Mas é claro que não foi por isso que comprei um rádio. Comprei para conviver outra vez com um dispositivo que sempre tive por perto, por causa do meu pai, que sempre escutava rádio.

O modelo que comprei é simples, barato (custou só cento e quinze reais), pequeno (mede vinte e um e meio de largura e treze e meio de altura). Embora abra concessões modernosas (aceita pendrive, cartão SD e capta áudio de TVs), é no visual e nos atributos um aparelho de rádio à moda antiga. Sintoniza AMs (embora estejam migrando para a frequência modulada), FMs e ondas curtas.

À medida que o sintonizador é girado, pode-se escutar o chiado típico que há quando o aparelho tenta achar as emissoras. Tanto gostei de manejar o brinquedo que mesmo para sintonizar as rádios locais de maior potência não recolhi a antena. Estações se misturam, uma ou outra é escutada ao fundo, lá “longe”. O Queen está certo: “Radio, someone still loves you”. 

terça-feira, 10 de abril de 2018

Filha de Deus

Ana de Armas é uma das mais talentosas e belas atrizes da nova geração (outra talentosa e bela é Alicia Vikander). De Armas nasceu em Cuba; tem vinte e nove anos.

Vale demais a pena conferir as atuações dela em Cães de Guerra, em Blade Runner 2049 e em Filha de Deus (direção e roteiro de Gee Malik Linton). Este é estrelado por ela, que está no papel de Isabel de la Cruz, católica no nome e no comportamento.

O namorado dela está no Iraque, tendo sido convocado pelo exército americano. Num jantar com a família dele, ela anuncia que está grávida, declarando ser isso um milagre. Claro que ninguém acredita nela.

Paralelamente, o detetive Galban, interpretado por Keanu Reeves, está investigando o assassinato de seu parceiro profissional. Pouco antes de ser assassinado, havia tirado fotos de Isabel e de amigos dela, que estavam em frente a uma boate. Junte-se a isso o fato de que Isabel vê “fantasmas”. Há ainda a convivência dela com a garota Elisa (interpretada por Venus Ariel; foi o papel de estreia dela no cinema), que é aluna de Isabel numa escola infantil.

Quando Isabel diz que a gravidez dela é um milagre, ficamos sem saber se ela é embusteira ou se é louca. O ritmo do filme, um tanto lento, acelera-se nas sequências finais, quando se elucidam a questão de gravidez de Isabel, da convivência dela com Elisa e do assassinato do detetive. É quando Filha de Deus se revela um drama de fortes implicações psicológicas, a ponto de Isabel ter me remetido a Trevor Reznik, o personagem de Christian Bale em O Operário

Versão eletrônica de livro sobre Lula pode ser baixado gratuitamente

Em iniciativa da editora Boitempo, é possível baixar de graça a versão digital do livro “A verdade vencerá”, sobre Lula. É uma entrevista concedida aos jornalistas Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, ao professor de relações internacionais Gilberto Maringoni e à editora Ivana Jinkings, fundadora e diretora da editora Boitempo. Há também textos de Eric Nepomuceno, Luis Fernando Verissimo, Luis Felipe Miguel e Rafael Valim. Do texto do Verissimo, cito o trecho abaixo.

(...) “A desigualdade brasileira não é uma fatalidade, tem autores identificáveis, pais conhecidos. Através da história, ela vem sendo mantida, principalmente, pelo que pode ser chamado de controle de natalidade de qualquer opção de esquerda, proibida de nascer ou se criar. Até onde a casta dominante está disposta a ir para evitar que a esquerda prolifere, nós já vimos. Os gritos de dor dos torturados pela ditadura de 1964 ainda ecoam em porões abandonados. E 1964 é apenas um exemplo do que tem sido uma constante histórica”. 

Apontamento 373

Cozinhar é temperar alquimia com paciência. 

sábado, 7 de abril de 2018

Uma ideia

Nunca duvidei de que prenderiam Lula. Era questão de tempo. Levando-se em conta o ataque de décadas contra ele, demoraram. É que quiseram dar um ar de legalidade e de civilidade aos preconceitos e ao ódio que têm.

Claro que não concordo com as estratégias sujas deles, embora esteja por demais evidente que obtiveram sucesso. Isso prova que o êxito, dependendo do que o causa, depõe contra os bem-sucedidos.

O impedimento de Dilma, o acordo entre judiciário, imprensa e meios de comunicação, a prisão de Lula... Mas não se iludam: a elite perniciosa que o Brasil tem só vai sossegar quando Lula morrer. Por causa do fanatismo dessa elite, ele vai morrer no cárcere. Aí, sim, o plano deles terá recebido o que querem.

Haverá júbilo entre eles. Serão estrepitosos (assim como estão sendo agora). Talvez coloram as ruas vestidos com camiseta da CBF; alegarão patriotismo, terão orgulho em dizer que fizeram tudo pelo bem do Brasil. Sabemos que é para o bem deles, e, no caso desse pessoal, o bem deles implica impedir que aqueles que não são do time deles possam ter algo. Quem não é do time deles tem de ser erradicado, assim como vão erradicar Lula.

Em discurso realizado hoje, ele disse: “Eu vou sair de lá [da prisão] de cabeça erguida e de peito estufado”. Não acredito que ele vá sair vivo do cárcere. Não se trata de exercício barato de adivinhação nem de pessimismo de minha parte. Para afirmar isso, levo em conta o que a direita tem feito contra o Lula. Não vão deixá-lo sair vivo da prisão.

Mas ele mesmo se definiu, no mesmo discurso de hoje: “Eu não sou um ser humano, sou uma ideia”. Isso, sim, não há direita que mate. Nem a Globo nem a Veja nem o judiciário são capazes de matar a ideia de um Brasil para todos. Ela está em mim, ela está em você. Nós somos transitórios, Lula é transitório. A ideia, não. Ela já existia antes de nós, antes do Lula; ela existe, vai continuar existindo.

O corpo de Lula vai ficar na prisão. A história escancara o que fazem com o corpo de quem tem uma ideia: encarceram, torturam, matam. Mas o corpo que expressou uma ideia não ficou sozinho. A multidão de corpos se faz num mesmo espaço, num mesmo tempo. A multidão de ideias não depende do mesmo instante nem do mesmo local para existir. Vez ou outra, nossos corpos podem estar juntos. Mesmo quando não estiverem, mesmo quando eu tiver ido embora, mesmo quando você tiver ido embora, a ideia de um país que é também dos pobres vai existir. Isso independe de mim, de você, do Lula e das sacanagens da direita.

Uma ideia, a princípio, pode parecer vaga, etérea, imprecisa. Não é. Uma ideia é o auge do corpo; depois que ela sai da cabeça, não pode ser aprisionada. Engana-se quem pensa que apagar um corpo é apagar o pensamento. Nesse percurso, a direita ainda fará várias vítimas. Mas isso não impede nem vai impedir estes nossos corpos e outros corpos vindouros de disseminarem ideias e sonhos. 

De novo, Reinaldo Azevedo

Sou leitor do Reinaldo Azevedo desde quando ele escrevia para a revista Bravo!. Passado esse tempo, fiquei anos sem ter notícia do jornalista; depois, ele passou a escrever para a Veja, espaço em que se firmou como um dos porta-vozes da direita brasileira. Mesmo eu não concordando com o que ele escrevia para o semanário, era fácil reconhecer que ele escreve bem. Depois que deixou a Veja, Azevedo foi para a Jovem Pan (fácil reconhecer que ele tem voz boa e excelente dicção); tendo saído da emissora, foi para a Band. Nos estúdios do canal, tem sido uma das vozes da razão. Sobre a prisão de Lula, ele mesmo disse que há “um caso claro de perseguição política”.

Acho que entendo Azevedo. Ele é antiLula, nunca escondeu isso. Só que, ao que parece, ele tem honestidade intelectual. No fundo, na leitura que faço, ele não quer dar à esquerda motivos para que ela reclame com razão do que tem sido feito com o Lula. Não que Reinaldo Azevedo tenha mudado a maneira como encara o mundo. Não se trata disso: trata-se, sim, de fazer as coisas de modo que não restasse à esquerda argumentos para rechaçar o julgamento de Lula.

Não há como negar a eficácia do embuste que a direita está aprontando com o Brasil. Lula preso é o que queriam. Nesse aspecto, o sucesso da empreitada é inegável. Só que Reinaldo Azevedo é inteligente. Não mantém o debate em nível rasteiro. Tanto é assim que critica os que concordam com ele mas se expressam com insensatez. Da maneira como tudo foi arranjado, reacenderam a esquerda. Não é o que a direita queria. Não é o que Azevedo queria.

Para assistir ao vídeo em que ele se pronuncia, o link é este: https://bit.ly/2GJ6hKL. Abaixo, transcrição de alguns trechos da fala dele:

“Esses cuidados do Sérgio Moro de não usar algema, dar o benefício de se entregar... Puro fru-fru para disfarçar a truculência da decisão. Obviamente uma decisão coordenada entre os três desembargadores da 8ª turma e o Sérgio Moro.

“Cada vez mais convencido de que estamos lidando com fanáticos, porque não dão ao Lula nem o direito a recurso a que ele tem direito. Aí realmente é querer deixar claro o seguinte: nós fazemos nesse país o que bem entendemos. Infelizmente, não há direita liberal no Brasil, a direita no Brasil hoje é a direita chucra, com raras exceções.

“Sabe qual é o problema da direita brasileira? Ela odeia gente de língua presa, ela odeia gente de nove dedos, ela odeia gente de origem operária. Ah, não, porque ele roubou! Mentira. Mentira porque está cercada de outros ladrões.

Uma direita que não respeita direitos constitucionais, uma direita que não respeita a lei, uma direita que não respeita direitos individuais, uma direita que permite que a justiça se comporte como o poder absoluto, insisto, negando a um condenado a ter um recurso a que ele tem direito, independentemente do conteúdo da condenação, se justo ou injusto, isso não é direita liberal. Isso é no mínimo direita ‘fascistoide’. Porque aí a questão é a seguinte: já que nós não conseguimos nos impor eleitoralmente, então vamos tirar de circulação aquele que se impõe”. 

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Gratto, Muylaert

Hoje pela manhã, recebi via whatsapp um vídeo que tem narração de um texto [1] atribuído a Herton Gustavo Gratto. À medida que o texto vai sendo lido, belas imagens completam o trabalho. Eu nunca tinha ouvido falar de Herton Gustavo Gratto. Conferi o perfil dele no Facebook. O texto que recebi pela manhã foi escrito por ele; está na linha do tempo do ator, dramaturgo, poeta, roteirista e compositor, segundo identificação fornecida por ele.

No texto, o eu lírico é de uma pessoa de classe média ou de classe alta que assume o discurso de ataque contra o ex-presidente Lula não pelos erros dele, mas pelos acertos. Para muitos, não é paradoxal criticar alguém pelos acertos. Tais acertos deram alguma possibilidade de ascensão intelectual e financeira a quem não tinha contexto favorável para exercer a inteligência. Isso, estranhamente, incomoda muitos que têm dinheiro (ou pensam que têm).

O tom do texto de Herton Gustavo Gratto acabou me remetendo ao filme Que horas ela volta?, de 2015, dirigido por Anna Muylaert, que também é a roteirista. Jéssica (interpretada por Camila Márdila), personagem do filme de Muylaert, é encarnação ou personificação dos atacados no eu lírico do poema de Gratto. Ou, seguindo linha cronológica, o texto de Gratto é a transformação em verso do roteiro da diretora.

O filme não menciona nomes de políticos, mesmo deixando claro que a história se passa num período em que, graças às políticas públicas implantadas pelo PT, o viciado cenário social brasileiro, governado há séculos pela “elite da rapina” (valendo-me de expressão do Jessé Souza), deu oportunidade de conquistas financeiras e intelectuais a pobres.

No livro Cheiro de goiaba, Plinio Apuleyo Mendoza pergunta a Gabriel García Márquez: “Que tipo de governo você desejaria para o seu país?”. A resposta do escritor é simples: “Qualquer governo que faço os pobres felizes. Imagine!” [2].

Lula fez com que os pobres percebessem em dimensão inédita que o país é deles também e que eles também têm o direito de ser felizes. Tanto o filme de Muylaert quanto o texto de Gratto escancaram que há uma parte da elite que se ressente com a felicidade do outro se esse outro for pobre. Até o Reinaldo Azevedo admite que “é evidente que Lula está sendo vítima de um processo de exceção e de procedimentos que agridem o direito de defesa” [3]. Uma elite que faz maracutaias para que as riquezas do país sejam somente dela não vai garantir a um ex-metalúrgico barbudo, de dicção ruim e com quatro dedos numa das mãos o direito de defesa.
_____

[1] Disponível em https://bit.ly/2ErGSmG. Acesso em 06/04/2018.

[2] MÁRQUEZ, García Gabriel. Cheiro de goiaba: conversas com Plinio Apuleyo Mendoza. Tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro. Record. 1993. Pág. 113.

[3] Disponível em https://bit.ly/2q8oafG. Acesso em 06/04/2018. 

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Construção

Invente apartamento,
crie estado de sítio.
A sangria será contida,
o país será supremo.
Romero declamou a odisseia,
a Vênus Platinada a transmitiu.
As fardas, elas ficam ouriçadas.

Moro num país asséptico,
branquinho como 
cocaína em helicóptero. 

Poderes

Plebeu,
playboy:
perdemos. 

Banhos

Tomou dois banhos:
um de chuva e 
um de chuveiro.
O primeiro lavou a alma. 

terça-feira, 3 de abril de 2018

Terreno

Ou
porque foram seduzidos pela imaginação 
ou
porque foram supersticiosos
ou
porque tiveram medo
ou 
porque quiseram controlar o povo,
inventaram
céu,
paraíso
e similares.

Ou 
porque a vida não é o bastante. 
Um não bastante
que é só o que temos, 
tudo o que temos.
Quem quiser consolo,
que o ache em vida.