terça-feira, 22 de junho de 2021

Êxito

Não se pode negar o sucesso do neoliberalismo: implanta no trabalhador a ilusão de que ele conseguirá bancar serviços essenciais privatizados. Ele passa a exigir o desmanche do que é público. Coroando o êxito do neoliberalismo, esse trabalhador aceitará, comovido e agradecido, as sobras de comida que lhe jogarem. Enquanto se alimenta, comprazendo-se com as migalhas e com os restos de comida, supondo-se abençoado quando os tem, considera-se pleno; reverencioso, lambe no chão a lavagem jogada por Paulo Guedes e asseclas. 

Vacinados contra a covid assistem a show

A banda Foo Fighters fez show em Nova York para vinte mil pessoas — todas vacinadas. Por aqui, o presidente continua defendo remédio ineficaz contra a covid e continua sendo apoiado nessa insanidade. Yes, nós temos fool fighters. 

domingo, 20 de junho de 2021

Meio milhão

Até agora, no Brasil, a pandemia produziu onze novos bilionários, mais de quinhentos mil mortos e milhões de pobres idiotas aplaudindo o lamaçal enquanto nele afundam e afundam todos. Arredondando-se (para baixo) o número de recusas de vacina pelo governo federal, tem-se o numeral 100. É como se cada recusa tivesse matado, em média, cinco mil pessoas. Genocidas defendem o exterminador e celebram o extermínio. 

Macabro

Assisti hoje ao editorial da Globo, lido no Jornal Nacional, sobre os quinhentos mil mortos devido à covid. O cinismo é macabro: assistir à Globo dizer coisas como “direito de viver numa democracia” seria o mesmo que ter assistido a Hitler defender, em Auschwitz, o direito à vida dos judeus. 

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Voto

A modinha agora é falar “eu votei em branco em 2018”. De fato, Bolsonaro não é negro. 

Quedas

Sendo reeleito ou não sendo reeleito, sendo presidente ou não sendo presidente, Bolsonaro, mais cedo ou mais tarde, a exemplo de alguns motoqueiros que estavam, há alguns dias, no bolo que o seguia em São Paulo, vai cair. Diferentemente da queda dos motoqueiros, a de Bolsonaro será metafórica. Uma das implicações disso é que, quando cair, ele não vai conseguir se levantar. 

Uso

Deus fica de fora da história quando a religião é usada por desesperados ou quando é usada por canalhas. 

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Ativismo de “hashtags”

Antes que algum apressado se arvore em dizer que neste texto estou sendo incongruente com o que venho escrevendo ao longo dos séculos, digo que sou a favor de serviços públicos. Não sou adepto da sanha neoliberal, sou contra privatizações. Além do mais, embora, a rigor, não seja necessário, esclareço que criticar determinado aspecto do serviço público não é o mesmo que defender privatizações. Minha crítica poderia ser interpretada, devido a alguma ruim e má interpretação, como piscadela a favor de retirada de direitos da população. Não é.

Devido à pandemia, o baixo escalão do serviço público se vê nesta situação: em páginas oficiais de internet e em inócuos e piegas comunicados internos, lê que esse tipo de serviço se diz preocupado quanto à situação da covid no Brasil. Há campanhas a favor do uso de máscara, há dados sobre o número de mortos, há envios de normativas para os servidores sobre os cuidados que, em tese, estão sendo tomados... Tudo muito lindo, mas, no alto escalão, o que vem daqueles que tomam decisões, sem, claro, consultarem o baixo escalão, está em desacordo com o suposto humanismo divulgado por parte do serviço público. Os cargos de chefia, com frequência, são concedidos pelos superiores, sem que tenha havido eleição dentre os pares. O que advém disso nas redes sociais é que servidores que realizam pose de conscientes, de engajados, escrevendo, em seus perfis pessoais, coisas do tipo “#DefendaOSus”, “#VivaOSus”, “#VacinaSim”, “#FiqueEmCasaSePossível”, “#VivaACiência” e afins, nos bastidores do serviço público, assumem pautas tão genocidas quanto aquelas que criticam.

É muito fácil propor ativismo em rede social e, longe do olhar público, assumir pautas que estão em concordância com a anticiência, com a desvalorização da vida (vírus nos olhos dos outros é refresco). Na prática, isso revela uma atitude condizente com a iniciativa privada, em cujas engrenagens o trabalhador é um número. Se amanhã esse trabalhador morre, depois de amanhã, há outro no lugar do morto. O serviço público, com muita frequência, assume em seu aspecto externo preocupações com os cidadãos, quando, internamente, manda os trabalhadores assumirem risco de morte e coloca em risco os que dependem de determinado serviço — mesmo quando há alternativas outras que não contenham esse risco para que uma dada atividade continue em movimento e mesmo quando os servidores em cargos de chefia têm poder de veto, justamente por serem chefes, quanto a proposições contra a vida.

Seria ingenuidade supor não haver no baixo escalão dos serviços públicos quem defenda pautas de morte. Não é preciso procurar muito para achar um burocrata isolado em sua casa, trabalhando à distância, com sua fachada de descolado em redes sociais, sendo, em sua atuação trabalhista, a favor de que os colegas e a população se entreguem a riscos, ainda que haja alternativas para que esses riscos não sejam corridos. Mesmo assim, em sua maioria, o que ainda resta de humanidade nos serviços públicos está no baixo escalão, pois o alto escalão, em suas microesferas de poder, no todo, não dá a mínima para a existência alheia. Tristemente, são raros os que, no poder, importam-se com as vidas dos outros, embora, como já dito, não seja essa a fachada apregoada nem por eles em suas redes sociais nem pelas instituições em que trabalham. Acessei há pouco páginas de diversos órgãos públicos. Todos têm campanhas anticovid e pró-cuidados contra ela em suas páginas. É o falso cuidado, o humanismo de fachada. É a hipocrisia pública virtual. 

sábado, 12 de junho de 2021

Sobre homens e criaturas dos mares

Segundo o relato bíblico, “Iahweh determinou que surgisse um peixe grande para engolir Jonas. Jonas permaneceu nas entranhas do peixe por três dias e três noites (...). Então Iahweh falou ao peixe, e este vomitou Jonas sobre a terra firme”.

A CNN dos EUA noticiou que o pescador Michael Packard ficou de trinta a quarenta segundos na boca de uma baleia, que, aparentemente não tendo gostado dele, cuspiu o pescador. 

Jonas e Michael conheceram o céu — da boca. 

sexta-feira, 11 de junho de 2021

O primeiro mentiroso

[Antes de ler a crítica a seguir, saiba que, por um lado, não conto como o filme termina, mas, por outro, adianto o que é a maior implicação contida no trabalho.]
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O planeta dos macacos de Tim Burton tem uma cena em que um personagem passa a mão na parede do que restou de uma antiga e empoeirada astronave. Devido à poeira, as sílabas “-ca”, “-li” e “-ma” podiam ser lidas por quem olhasse para a parede. Assim que a poeira ao redor das sílabas é retirada pela mão do personagem, notamos que há o anúncio 

CAUTION 
LIVE 
ANIMALS
[Cuidado Animais Vivos], 

já mostrado no início do filme.

A cena é forte porque Calima é o nome do deus venerado pelos macacos. Em termos simples, mas nem por isso fracos nem com implicações desimportantes, o deus dos macacos não existe. O “ser” para o qual oram todos os dias, o “ser” a quem consagram a existência deles é um engodo. O nome desse deus nasceu a partir de um engano, de um aviso na parede de uma nave.

A existência de deus pode ser uma mentira. Essa é a mais forte implicação em O primeiro mentiroso (2009) [The invention of lying], dirigido e roteirizado por Ricky Gervais e por Matthew Robinson. No universo do filme, ninguém mente nem nunca mentiu, ninguém tem sequer a noção do conceito de mentira. É algo que não está na mente das pessoas, é algo que o cérebro nem cogita nem imagina, é coisa que não faz parte da existência no dia a dia. Assim, um garçom, enquanto trabalha, pode dizer a um cliente que ele não merece a mulher com quem ele está, um funcionário pode dizer ao chefe que não vai à empresa porque não está a fim de trabalhar. A premissa de que estamos num mundo em que ninguém mente é apresentada nos primeiros segundos; temos de nos ater a ela durante todo o tempo. 

Mark Bellison [Ricky Gervais], roteirista de pouco destaque numa empresa, está na casa dos quarenta; é personagem principal e narrador da história. Nos primeiros minutos, logo sabemos que ele será demitido, que não tem grana para pagar o aluguel e que há tempos tem interesse em Anna McDoogles [Jennifer Garner]. As cenas iniciais deixam nítido o que é viver num mundo em que as pessoas não têm sequer o conceito da mentira: Mark está diante da porta do apartamento de Anna (haviam marcado ida a um restaurante). Mal tendo aberto a porta, ela diz que ele chegou antes do combinado, tendo interrompido a masturbação dela; de cara, Anna também deixa claro que não gostou nada da aparência de Mark.

Nesse astral, o filme vai se desenrolando. Sim, rimos das variadas situações, algumas sendo de fato hilariantes, mas, ao mesmo tempo, logo nos damos conta de que não estamos em apenas mais uma comédia (romântica). A gente ri; todavia, ao mesmo tempo, nós refletimos sobre a hipocrisia nossa de cada dia e sobre as mentiras que, de fato, precisamos contar em determinados momentos, o que me remete a Borges, que escreveu (não me lembro das exatas palavras) que não há quem, ao fim de um dia, não tenho mentido, com razão, várias vezes.

Não importa se levamos em conta o título original do filme ou se levamos em conta a versão em português para o título, haverá a primeira mentira. Quando Mark a profere, uma nova dimensão se abre, pois, não nos esqueçamos, ele está num mundo em que não há a ideia da mentira, num mundo em que ninguém mente. Quando Mark inaugura o que chamaríamos de a primeira mentira, uma gama imensa de consequências se descortina. A princípio, Mark as coloca à prova; depois, começa a tirar proveito de ser ele o único humano com a capacidade de mentir.

Ainda que nos perguntemos por que Mark não é tão “cruel” quanto aqueles que dizem para ele a dura realidade da vida que ele vinha levando, a partir do momento em que ele mente pela primeira vez, é questão de pouco tempo para que ele comece a se valer das vantagens pessoais que isso poderia trazer. Além do mais, num instigante aspecto, Mark mente para algumas pessoas a fim de... melhorar as vidas delas, ainda que tal melhora venha por intermédio de uma mentira, o que nos fornece mais uma profícua reflexão.

Fosse isso, o filme já seria rico demais. Mas há o momento em que Mark conta uma mentira para a mãe dele, estando ela prestes a morrer em cama de asilo. Contada a mentira, a mãe, que, há segundos, estava aflita quanto à morte, torna-se serena e morre. O impacto da cena em nós é incomensurável, pois o que Mark contara à mãe foi a “boa” nova de que, depois da morte, haveria um “homem no céu” (Mark não usa a palavra “deus”, pois, obviamente, não há palavra para nomear uma noção que não perpassa a cabeça das pessoas, noção que, até momentos antes de ele consolar a mãe com uma mentira, não estava também na cabeça de Mark) a cuidar de nós, que não seríamos, depois da morte, pó. (Também válido notar que Mark não usa a palavra “heaven”, mas, sim, “sky”.)

Nesse momento, devido ao impacto da cena, eu pausei o filme e me lembrei de Calima. Em O primeiro mentiroso, deduz-se a princípio que, num mundo sem mentiras, não haveria a ideia de deus, não haveria a crença num deus. A mentira contada por Mark à mãe dele é escutada pelo médico que estava cuidando dela e por duas enfermeiras. Logo, logo, o mundo todo estava agitado por uma mentira, perguntando-se quem seria esse “homem no céu”.

Mark passa a ser assediado pela multidão, pela mídia, com o mundo todo sedento para saber tudo sobre o tal “homem no céu”. A partir daí, o filme assume a coragem de debochar, sem perder o tom em que vinha até então, de conceitos arraigados nos corações e nas mentes das pessoas. Em paródias divertidas, Mark anuncia os mandamentos do “homem no céu” ou, tendo sido readmitido no emprego, inventa roteiros ridículos que são ovacionados. Aliás, outro grande ponto do filme, as histórias que Mark passa a inventar como roteirista depois de recontratado funcionam como ácida crítica contra a estúpida credulidade das pessoas, que podem, dentre outras coisas, por exemplo, tomar cloroquina porque um “messias” a indicou ou entregar o corpo a um religioso porque ele disse que o esperma dele seria bom para a fiel.

Tem-se então que O primeiro mentiroso é um filme pesado, denso, “disfarçado” de comédia. É um filme sério, que postula, com coragem e com humor, ideias que estão em discordância com o que tem sido reverenciado há milênios. Há momentos em que gargalhamos, momentos em que nos sentimos embaraçados por termos achado graça de algo, momentos em que ficamos com um riso amarelo, momentos em que percebemos que “há ferrugem nos sorrisos”. O primeiro mentiroso leva ao riso, à reflexão, à filosofia. Não seria diferente ao revelar o segundo mentiroso. 

domingo, 6 de junho de 2021

João Inácio

Contra a covid, João Inácio ingeriu cloroquina, ingeriu ivermectina e ingeriu água consagrada por R.R. Soares, que, aliás, foi internado por estar com o coronavírus. Bosta de vaca, João Inácio não ingeriu, mas passou no corpo, como fizeram na Índia. Julgando-se, pois, blindado, João Inácio morreu de covid. 

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Delírio

Paulo Guedes segue realizando seu plano de sucateamento das universidades federais e de corte de bolsas de pesquisa. Não nos esqueçamos de que ele estudou por intermédio de bolsa do CNPq. Enquanto isso, a piauí revela que militares estão se articulando para ganhar bolsas de estudo milionárias. Tudo isso, Juliana Paes e outros imbecis não chamam de “delírio comunista”. 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Copa América (2)

Propostas para compras de vacinas contra a covid são recusadas durante meses. Realização da Copa América é acatada de imediato. Enquanto isso, muitos dos que ainda vão morrer de covid estão apoiando Bolsonaro. A ideia é haver torcida na final da Copa América. É que o vírus não mata a classe média que se veste com a camisa da seleção brasileira. 

Rita

Rita festejou o aniversário de um dos irmãos com parentes e com amigos. Havia em torno de cinquenta pessoas na celebração. Quando disseram a ela que reunir pessoas era algo arriscado por causa da covid, Rita disse: “Não vou morrer disso. Deus não faria isso comigo”. Dias depois, Rita morreu de covid. Deus nada fez. 

Copa América

Tiago vestiu a camisa da seleção brasileira.
Depois, foi a um bar.
Entre amigos, torceu, gritou,
compartilhou covid.
Dias depois, assistindo à 
seleção pela TV,
com futebol, sem vacina,
em leito de hospital,
morreu no exato momento
de gol da seleção oponente. 

domingo, 30 de maio de 2021

Quando não ser notícia é bom

No Brasil, a chamada grande mídia praticamente não noticiou os protestos de ontem contra o governo federal. Felizmente, hoje, não dependemos mais do que o Tutinha veicula na rádio dele para ficarmos informados, não precisamos mais da família Marinho para saber o que acontece, O Globo, Folha de S.Paulo, Estado de Minas e o Estadão servem para embrulhar mandioca. Além do mais, o fato de esse pessoal praticamente não mencionar as manifestações de ontem é sintomático: tivessem elas sido pequenas, teriam sido destaque nos veículos oligárquicos. Não nos esqueçamos de quando a Globo não noticiou, no fim da ditadura, robusto comício a favor das eleições diretas. 

domingo, 23 de maio de 2021

Apontamento

Todo mundo é, do tempo em que vive, beneficiário e vítima. 

Apontamento

Apoia Bolsonaro não comprar vacinas, foi para o exterior se vacinar. Para uma grande parcela da classe média, fácil defender atrocidades de que ela não é vítima. 

sábado, 22 de maio de 2021

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”

Muitos dos que se dizem religiosos alegam falar como se inspirados por deus, enquanto agem como se conduzidos por demônio. 

quinta-feira, 20 de maio de 2021

Apontamento

Supondo-se protegidas por um deus muitas pessoas abrem mão de suas responsabilidades para consigo mesmas e para com os outros. 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

Diálogo pedagógico (4)

     — Está havendo reuniões, conferências, simpósios, seminários, apresentações, debates... É gente preparada, competente. Estão propondo o ensino híbrido. Esse pessoal manda bem.
      — O mais legal é que cada um deles está em sua casa. Além do mais, nenhum deles entra nem vai entrar numa sala de aula. Eles agem nos bastidores, são os que verdadeiramente fazem a engrenagem funcionar. E, claro, não podemos esquecer que escolheram o melhor momento para o retorno presencial das aulas, justamente quando a pandemia está matando mais do que nunca.
     — Sim! A ideia é a de que, por exemplo, na segunda-feira, seja colocada em risco, de acordo com os diários dos professores, a vida dos que vão de A a I; na terça-feira, é a vez do pessoal que vai de J a S; por fim, na quarta, os demais. Na quinta, retorna o pessoal de A a I; a coisa, então, segue. Mas isso pode ser modificado caso uma sala tenha, por exemplo, muitos nomes com a letra G.
     — Saquei. E depois tem gente que ainda reclama da burocracia... 

Analclézio

Do facínora, Analclézio aplaude a compra de tratores para “amigos” políticos do “herói” que elegeu, bem como aplaude a tentativa de inserção da covid em bula de remédio que não é para extirpar a doença. Não se dá conta de que pode morrer por causa dela, tomando medicamento ineficaz contra o coronavírus. Quanto aos tratores, os homens que os têm, quando muito, proporão a Analclézio que puxe carro de bois. Se até lá não tiver morrido de covid, empanturrado de remédio contra vermes, deles será vítima, fazendo, com pungente senso “patriótico”, enquanto toma chibatadas e range, o carro se movimentar. 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Vanidade

Aceito tranquilamente o fato de que a vida pode ser inútil, de que ela pode ser em vão. Não sou dos que têm fé. Isso não quer dizer que eu abra mão da vida. Estou ciente de que ela pode ser vanidade, mas, como na canção do Skank, “acredito em tanta coisa que não vale nada”. 

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Em Patos de Minas

Em redes sociais, lamenta o ocorrido com a grande árvore na Getúlio Vargas de Patos de Minas, a senhora que aplaude a motosserra sanguinária de Bolsonaro. Hipocrisia nacional com tempero patense. 

Diálogo pedagógico (3)

[Nomes fictícios.]

     — Oi, Ana, tudo bem?
     — Tudo, Gabi.
     — E como é que tá lá na escola? Com essa pandemia, tá tudo tão difícil... E as aulas?
    — Ah, sim. Me reuni com as autoridades. Claro, reunião on-line. Decidimos voltar. Cada dia, uma porcentagem de alunos vai estar em sala. Já comunicamos os pais.
     — Entendi. Então o Enzo volta pra sala de aula em breve.
     — Nada disso. Filho meu só entra em escola quando todo mundo tiver sido vacinado.

Diálogo pedagógico (2)

       — Filho, como foi o retorno às aulas?
       — Ah, em seus gabinetes ou em suas casas, os de sempre, os que fazem de conta que se importam com a educação e com a vida estão fingindo que não há mais pandemia. Funciona assim: primeiro, coloca-se em risco uma parte dos alunos, professores e funcionários das escolas; no dia seguinte, coloca-se em risco a outra parte. O nome chique e canalha que deram pra isso é ensino híbrido. 

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Diálogo pedagógico

            — Filho, como foi o retorno às aulas?
        — Houve algumas pequenas mudanças, mas levando-se em conta a epidemia e levando-se em conta que nem professores nem funcionários nem alunos foram vacinados, não fiquei com nenhuma dúvida quanto aos horários que terei pra levar a morte pra lá ou pra trazê-la pra cá. 

sábado, 1 de maio de 2021

Guedes

Empregada doméstica viajando, expectativa de vida aumentando, filho do porteiro estudando. Paulo Guedes reclamou de tudo isso. Essa mentalidade segregacionista já estava clara antes da eleição. O projeto já era divulgado por Bolsonaro, reitero, antes da eleição. O eleitor o endossou. Dizer que não estava ciente de que o banimento do pobre já era um projeto político é hipocrisia. 

Ovelha

Se não for para se desgarrar, perda de tempo ser ovelha. 

Orquestra de Ouro Preto executa canções do A-Ha

O Danny Elfman, quando ainda era vocalista do Oingo Boingo e quando ainda não compunha para orquestra, disse, certa vez, em entrevista, que o sonho de todo roqueiro é compor para orquestra. Ele levou a sério o que disse e, hoje, compõe para orquestra, tendo já realizado memoráveis peças eruditas para trilhas sonoras de filmes.

A Orquestra de Ouro Preto, em seu canal no YouTube, veiculou neste sábado, primeiro de maio, canções do grupo norueguês A-Ha. Suponho que os integrantes da banda pop não vão ficar sabendo da execução feita pela orquestra.

À parte isso, é difícil imaginar uma consagração maior para um compositor de pop/rock do que ter a criação dele tocada por uma orquestra. Esse tipo de iniciativa rompe a divisão entre o que é erudito e o que é popular, algo que sempre me fascinou, não importa a arte em que isso ocorra.

O grande texto sobre esse assunto foi escrito por Michael Kamen, que foi o regente da orquestra na gravação do álbum S&M, que tem o Metallica se apresentando com orquestra. O texto de Kamen, que pode ser conferido no encarte do CD, é emocionante e reflete o amor à música. Kamen relata, dentre outras coisas, a tensão inicial dos músicos da orquestra e a, que foi surgindo aos poucos à medida que a apresentação prosseguia, curtição a que se entregaram. 

O maestro chega a mencionar que durante a execução de uma peça clássica, caso uma corda de um violino arrebentasse durante o concerto, isso seria motivo de preocupação para o músico. Mas num show com o Metallica, a corda arrebentada estava, digamos, em sintonia com o espírito roqueiro. 

Em ocasiões assim, há um saudável descompromisso, os músicos da orquestra parecem ficar mais à vontade do que numa apresentação de repertório erudito. Durante a apresentação da Orquestra de Outro Preto, mesmo sentada, uma violinista, não resistindo ao contágio, dança, num belíssimo momento.  Que o show prossiga. 

terça-feira, 27 de abril de 2021

Haicai

Não há apostasia.
Querem, do presidente,
a mortal aleivosia.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

A mais gostosa e iluminadora solidão é a que se tem no banheiro

Sou cantor de banheiro. Apresento-me para multidões, canto melhor do que o Robert Plant, toco guitarra melhor do que o Celso Blues Boy. Vou lavando a alma, enquanto berro o mais desafinado que consigo as canções que vão comigo para o banho: já tenho a coleção musical que curto em cartão de memória que está no telefone. Via “bluetooth”, conecto o telefone à caixa de som; ambos tomam banho comigo. 

O resto é me apresentar em plateias mundo afora. Gosto de deixar, no celular, o programa de execução de música no modo aleatório. Caso surja uma canção que não estou interessado em escutar-berrar-junto, já deixo o telefone posicionado de modo que, mesmo sob a ducha, consigo pular de faixa.

No banho de hoje, o tocador de canções escolheu, minutos depois do início do banho, “Where the streets have no name” — a gravação original (tenho outras versões da canção). Mal o teclado deu sinais de vida, já fiquei doido. Quando veio o baixo, eu já estava contagiando um estádio inteiro. Esgoelei o máximo que pude. Enquanto eu “cantava”, eu me lembrei de um texto que li certa vez na revista The New Yorker, um belo ensaio sobre o U2. Lembro-me de que o crítico fez comentários sobre “Where the streets have no name”.

Terminada a faixa, peguei uma toalha, sequei o rosto e me preparei para a próxima canção do show. O tocador de música logo veio com 

Moro onde não mora ninguém
Onde não passa ninguém
Onde não vive ninguém
É lá onde moro
Que eu me sinto bem
Moro onde moro

De repente, mal tendo começado a emitir o segundo verso da canção, dei-me conta de que há, em termos de letra, possíveis afinidades ou sintonias entre “Where the streets have no name” e “Moro onde não mora ninguém” (sábio tocador de canções). Assim sendo, where the streets have no name, moro onde não mora ninguém. 

De pai para filho

A história ocorreu ontem, dia 21 de abril de 2021. O atendente perguntou a um garoto de uns cinco anos:
— Você está bem?
O garoto respondeu:
— Eu estou ótimo!
Surpreso com o tom muito animado da resposta, o atendente disse:
— Que bom! O que deixou você tão bem?
— Estou feliz porque o coronavírus acabou. Graças a Deus.
— Hum... Fica esperto. Ele não acabou, não.
— Acabou, sim. Meu pai é que me contou. 

Burocracia

A burocracia é uma arte e uma ciência: a arte de implementar o que é inútil e a ciência de institucionalizar o que não serve para nada. 

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Leda Nagle

Ao ler a notícia falsa, Leda Nagle não exerceu um dos mais básicos princípios do jornalismo: conferir a veracidade do que divulga. Ela agiu como as milhares de pessoas que acreditam em teorias da conspiração, em cloroquina, em duendes. Enquanto lia a “notícia”, a apresentadora comentou “isso é tudo, menos política”. Há décadas, Leda Nagle é tudo, menos jornalismo. 

sábado, 17 de abril de 2021

Ilha de Vera Cruz

Na Ilha de Vera Cruz,
cloroquina,
máscara de oxigênio e
intubação.
Sobre o leito,
o corpo morre.

Há correria,
passos se agitam:
é preciso descartar o cadáver
para que outro corpo ocupe o leito
(corpos gastam).

A poucos metros dali,
risos abertos, 
sem máscaras de proteção.
Em meio ao júbilo,
a rolha de um vinho espoca.
Bocas sorridentes se revezam,
beijando o bico da garrafa. 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

José e Maria

José e Maria moram em Patos de Minas.
Os dois sabiam que estavam com o coronavírus.
Decidem visitar a mãe dele, 
que não mora em Patos de Minas.
Após a visita, a mãe morreu de covid.
José e Maria voltaram para a casa deles.
Foram (e são) avistados em público, sem máscaras,
praguejando contra o uso delas,
orgulhando-se de tomar cloroquina e ivermectina. 

sábado, 20 de março de 2021

Precocidade

José tomou ivermectina.
José tomou cloroquina.
Bradava a eficácia
do tratamento precoce.
Precoce foi a morte. 

sexta-feira, 19 de março de 2021

Zé pagava as contas em dia.
Montou pequeno comércio,
cujos impostos quitava com rigor.
Casou-se aos vinte e seis,
foi pai aos trinta.
Aos trinta e dois,
morreu de covid.

A natureza não se preocupa com 
nossas circunstâncias.
Nem Bolsonaro. 

quinta-feira, 18 de março de 2021

Trilogia “minha especialidade é matar”

1
Segundo o Houaiss, possível definição para “genocídio”: “Extermínio deliberado, parcial ou total, de uma comunidade”. Outra definição para o termo: (...) “Submissão a condições insuportáveis de vida”. Quem realiza genocídio ou quem extermina coletivamente é genocida. Não é desarrazoado chamar de genocida quem diz de si mesmo “minha especialidade é matar”.

2
Há os que — não raro, com cinismo — lavam as mãos, preferem ignorar a palavra, como se ela pairasse independente ou fora de quem a utiliza, como se ela não fosse sintoma de quem dela se vale. Ora, a palavra está ligada a quem a profere, é expressão de quem a emite, mormente quando dita de modo deliberado ou reiterado. Não se deve desvincular a palavra daquele que a expressa. Os que votaram em Bolsonaro sabiam das palavras que ele proferira antes das eleições que fizeram dele o presidente. Votaram de modo consciente em quem há tempos defende tortura e ditadores, votaram em quem dissera, antes das eleições, “minha especialidade é matar”.

3
Aquele que disser de si
“minha especialidade é dirigir”
pode ser chamado de motorista.

Aquele que disser de si
“minha especialidade é cuidar”
pode ser chamado de enfermeiro.

Aquele que disser de si
“minha especialidade é tocar”
pode ser chamado de instrumentista.

Aquele que disser de si
“minha especialidade é matar”
pode ser chamado de Bolsonaro. 

quarta-feira, 17 de março de 2021

Consequências

O poeta lê:
surgem poemas.

O músico lê:
surgem melodias.

O físico lê:
surgem explicações.

O “mito” não lê:
surge a morte.

O “mito” lê:
surge a morte. 

Visitação

O morto tem endereço.
A mãe o visita, conversa com ele; a mãe chora.
O morto nada diz.

O morto tem endereço.
O filho o visita, conversa com ele; o filho chora.
O morto nada diz.

O morto tem endereço.
A mulher o visita, conversa com ele; a mulher chora.
Um passarinho pousa e canta sobre o jazigo.
A mulher nada diz. 

O julgamento

Levaram, então, uma mulher: “Ela foi surpreendida em flagrante delito de adultério. A lei ordena que ela seja apedrejada. Você, que se acha cheio de razão, vai fazer o quê?”. O homem escrevia na terra com o dedo. Ergueu-se e lhes disse: “Quem não tem pecado que seja o primeiro a jogar uma pedra nela”. Mal tendo o homem começado a falar, já havia algumas pessoas fazendo gestos, como que atirando com revólveres ou com metralhadoras. O vozerio despejava impropérios. Foi quando um cidadão de bem, indo até o carro dele, pegou um fuzil e o descarregou sobre a mulher e sobre o homem. Houve risos, júbilo. Durante a agitação, as palavras que haviam sido escritas na terra foram apagadas. 

quinta-feira, 11 de março de 2021

Cadê a máscara?

Flávio Bolsonaro postou “nossa arma é a vacina”. Já o presidente, ontem, usou máscara em evento. Em Israel, Eduardo Bolsonaro usou máscara publicamente. Os dois primeiros, enquanto digito estas palavras, ainda estão fazendo de conta que defendem vacina e uso de máscara; o terceiro não conseguiu se manter no fingimento de civilizado. Ontem à noite, referindo-se a máscaras, declarou: “Enfia no rabo, gente”. Fez a declaração sem máscara. Não sei se executara a enfiadura indicada por ele.  

quarta-feira, 10 de março de 2021

Maia

Dentre os velhos cínicos, Rodrigo Maia é o mais recente a fingir que se preocupa com o Brasil. 

terça-feira, 9 de março de 2021

Entupidos

O povo se entope de ivermectina.
O povo se entope de cloroquina.

Os cemitérios se entopem de cadáveres. 

Fisiológico

O povo engole a mentira e
se torna claque do “mito”.

O povo engole a mentira e
vomita o que sobrou da ivermectina.

O povo engole a mentira e
caga o que sobrou da cloroquina.

O povo engole a mentira e
leva para o caixão o que sobrou de si. 

sábado, 6 de março de 2021

“Remédios”

De um lado, um governante que já deixara claro a que veio: “Minha especialidade é matar”. De outro, aqueles que, em vez de assumirem responsabilidades, delegam para um deus a resolução de problemas. Eles não são resolvidos. Vem a morte. Aí é um tal de “que deus o receba” ou um tal de “essa pandemia é vingança de deus” ou um tal de “que deus nos ajude”. Para que a consciência siga em paz, cloroquina, ivermectina e afins. 

quinta-feira, 4 de março de 2021

Sem leme

Prefeitos e governadores Brasil afora, muitos deles assumida e orgulhosamente sabujos de Bolsonaro, não contam agora com a ajuda dele. O cotidiano do cidadão é vivenciado não por ele, mas por governadores e, mais em especial, por prefeitos. O encontro no dia a dia se dá com prefeitos, não com o presidente. Eles é que têm de se virar para resolver um problema que muitos deles ajudaram a intensificar, quando manifestaram profunda sintonia com o “ideário” do chefe do executivo federal.

Este texto não é para defender prefeitos. Reitero: muitos deles são obedientes ao que o “guru” presidencial determina. Há deles por aí, por exemplo, que fazem questão de serem fotografados ao lado dele, sem que ninguém, evidentemente, use máscara. Afinal, para esse tipo de gente, máscara é artefato que atrapalha a felicidade. Este texto é somente para dizer que os prefeitos que tanto se encantaram com o presidente agora têm de se virar por conta própria em suas aldeias.

É paradoxal, é verdade, mas, no Brasil, quanto mais alto o cargo, menos satisfações os altos escalões dão. Longe das vítimas, é fácil para alguém desses escalões falar que são “frescura” e “mimimi”, palavras usadas hoje pelo presidente [1], a revolta quanto ao número de mortos pela covid e as reações contra a falta de política federal ao lidar com a pandemia. O presidente sabe que ninguém vai argumentar contra ele, pois ele está blindado, e quando confrontado por alguma pergunta a que ele tem obrigação de responder, ele vai embora. Assim, é fácil.

Sobrou para os governadores e, nas esquinas das cidades, para os prefeitos. Tanto estes quanto aqueles foram criticados hoje pelo presidente [2], ou seja, muitos desses governadores e desses prefeitos foram criticados e são agora abandonados por quem tanto bajularam. Surfaram na onda do bolsonarismo, foram eleitos; agora, veem-se abandonados pelo “‘mito’”. Estão sozinhos, estamos sozinhos.

O presidente sabe que poucos estão comprometidos em fazer a parte que cabe a cada um quanto à evitação do contágio pelo coronavírus. Propagar uso de remédios que nada resolvem no que diz respeito a tratamento contra a covid é mais fácil do que assumir a responsabilidade do cargo. Em jogada demagógica, e, por isso mesmo, eficaz, Bolsonaro afirmou hoje que políticos devem ir “para o meio do povo” [3]. 

De minha parte, digo que seria melhor se ele não desse as caras em público e cuidasse daquilo que é obrigação dele há muito tempo, que é a de conduzir, pelo menos com respeito, o manejo da epidemia no Brasil. Mas, claro, sei que dele, nem respeito virá. O Brasil estaria melhor se ele ficasse calado num gabinete qualquer. Ele sabe disso. 

quarta-feira, 3 de março de 2021

Mais chicotadas por favor

Alguns estarrecidos perguntam-se como apenas um homem, no caso, o presidente, esteja causando tantas mortes devido à não atuação dele para combater a pandemia. Ele não está sozinho e sabe disso. Conta com a tolerância da chamada grande mídia, que é a favor do neoliberalismo do Guedes e caterva. Essa mídia e outras empresas grandes apoiam a retirada de direitos trabalhistas (a reforma da previdência foi uma dessas estratégias).

Há o apoio de empresários muito ricos e o apoio da chamada grande mídia, que é comandada por empresários muitos ricos. De vez em quando, essa mídia finge uma oposiçãozinha. Esse quadro, por si, já praticamente garantiria a solidez da permanência do presidente no cargo. Todavia, não bastassem os apoios dos muito ricos, o presidente tem o apoio dos que não são muito ricos, os quais, por orgulho, crueldade ou burrice, têm aceitado a piora no poder aquisitivo e a tragédia por que passa o Brasil devido à covid.

Que o presidente nunca deu a mínima para a vida alheia, ele mesmo já havia evidenciado isso antes da eleição que o consagrou como chefe do executivo federal; o elogio dele a torturadores já escancara o desprezo que tem pelo outro. A covid seguirá matando e o presidente seguirá indiferente a funestos cortejos. O fato de ele contar com o apoio da população, mesmo ele nada fazendo para proteger a vida dessa mesma população, diz muito não somente sobre o que é o presidente, cuja crueldade e cujo despreparo ele mesmo já espalhava antes de ocupar o cargo em que está agora, mas sobre o país.

É comum ser veiculada a ideia de que o brasileiro é maior do que o bolsonarismo e as atrocidades que ele representa. Balela. Sem generalizações, fácil diagnosticar que, no todo, o brasileiro é cafona, individualista, violento, despreparado, indolente, paroquial, desinformado, ignorante, boçal, arrogante, incômodo, incivilizado, fanático, submisso; não tem senso de coletividade, de cooperação, de empatia. 

Se uma pessoa que tomava cloroquina morre por causa da covid, o brasileiro, em vez de escutar a ciência, prefere dizer que essa pessoa morreu lutando, prefere escutar um lunático que lucra com a desinformação. O fracasso do país ao lidar com a pandemia é o fracasso do brasileiro como povo. A morbidez social pela qual estamos passando é consequência não somente da desumanidade de um genocida nem somente da perversidade de grandes corporações, mas do caráter conspurcado e iludido de um povo que não enxerga a si mesmo. 

Os valores em que o bolsonarismo se inspirou foram tão bem-sucedidos que a vítima do chicote passou a exigir mais chibatadas. Enquanto a pele vai sendo marcada e o sangue começa a escorrer, a mão pesada aumenta a força dos golpes. Exausto, aquele que apanhou, mal tendo se erguido, já começa a desejar a próxima surra. Para criar a ilusão de que estará recomposto quando ela vier, ingere cloroquina e ivermectina. 

terça-feira, 2 de março de 2021

Carros e cinema

Há poderosas sequências cinematográficas que não me canso de rever; comento três em que há carros. A primeira (não em ordem preferencial, mas em ordem cronológica), os minutos finais de Thelma & Louise (1991), do diretor Ridley Scott, quando Thelma [Geena Davis] e Louise [Susan Sarandon] se olham e, a seguir, fecham seus destinos. A segunda é do filme Um Beijo Roubado (2007), do diretor Kar-Wai Wong, no momento em que Elizabeth [Norah Jones] e Leslie [Natalie Portman] se despedem, acenando uma para a outra, cada uma em seu carro, enquanto dirigem numa rodovia. A terceira é uma sequência que está em As Vantagens de Ser Invisível (2012), do diretor Stephen Chbosky, quando Charlie [Logan Lerman] vai para a parte de trás da caminhonete, enquanto escutamos uma narração dele mesmo; terminado o belo texto da narração, passamos a escutar “‘Heroes’”, do David Bowie. São três sequências catárticas. 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

O velho neoliberalismo

Bolsonaro não é a vitória do PSDBismo, mas é a do neoliberalismo. Seja ao modo de FHC, seja ao modo de Bolsonaro, o neoliberalismo não se importa com pessoas, pois o deus dele é o mercado. Havendo lucro, a morte de um ou de milhões é indiferente. Em FHC, o neoliberalismo usou disfarce de civilidade; em Bolsonaro, escancarou o desprezo que tem por gente. 

Efeitos

Ontem, o presidente falou de supostos “efeitos colaterais” do uso de máscaras. A “fonte” seria “uma universidade alemã”. Naturalmente, o mandatário não especificou qual universidade, e ainda que tivesse especificado, esses supostos efeitos colaterais seriam menos expressivos do que a morte. Também ontem, no Brasil, a covid-19 matou 1.582 pessoas. A ignorância presidencial tem seus efeitos. 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

Apontamento

No ano passado, Romeu Zema, referindo-se ao corona, disse que “o vírus precisa viajar”. Ele foi muito bem recebido em Patos de Minas. 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Outros dois brasileiros

— Não vou tomar a vacina.
— Nem eu. Fiquei sabendo que ela é parte de um plano dos comunistas pra dominar o mundo.
— Sim, e o pastor lá da igreja disse que a vacina tem um chipe que faz as pessoas perderem a fé. 

Casa

Cada um da família
num lugar da casa.
A construção 
tem muitos cômodos.
Cada um da família, 
muitos incômodos. 

Instâncias de uma torneira

A torneira da pia vinha me avisando que morreria em breve. Não querendo sair por causa da pandemia, que não é “só uma gripezinha”, fiquei adiando a substituição da torneira, que, ontem, não mais resistiu. Tendo ela parado de funcionar, fui a uma loja de material de construção.

Quando lá cheguei, o vendedor me perguntou se a torneira era de bancada ou se estava fixada numa parede (os cômodos de minha casa convivem comigo há uns vinte e sete ou vinte e oito anos). A pergunta desestruturou aquilo de que sou feito, pois eu simplesmente não me lembrava se a moribunda torneira era de bancada (não sei o que é uma bancada) ou se estava fixada numa parede. Mesmo sabendo o que é uma parede, eu não me lembrava se a torneira estava fixada numa.

Segundos se passaram. Para que o bagaço em mim não ruísse sobre o piso de uma loja de material de construção, saí de lá e vim aqui conferir a torneira, que estava quietinha, fixada numa parede. Voltei à loja. Escolhido o modelo da torneira, o vendedor me entregou um papelzinho e apontou um caminho a seguir.

Cheguei ao caixa, paguei. A atendente, depois de me entregar um papel, disse-me que eu teria de atravessar a rua para buscar a torneira. Atravessei, cheguei a um cômodo em cuja entrada havia uma placa na qual se lia “Clientes”. Um funcionário me disse que eu teria de passar por um largo portão e procurar por uma janela de vidro que ficava à esquerda do portão; diante dele, um funcionário me indicou a direção da janela de vidro.

Cheguei a ela. Do outro lado do vidro escuro, eu não conseguia enxergar direito a funcionária; ela me disse algo que não consegui escutar com exatidão. Ela ergueu a voz. Continuei não escutando, mas supus que ela estava me pedindo o papel que me havia sido entregue quando paguei pela torneira.

Entreguei o papel para a funcionária. Ela se movimentou; segundos depois, devolveu-me o papel e apontou um caminho; eu deveria cruzar um pátio e chegar a um cômodo em cuja parede havia, salvo engano, o número 415. Atravessei o pátio. Entrei no cômodo 415, portando o papel que me havia sido entregue pela funcionária que trabalha atrás do vidro escuro.

Entreguei o papel a um jovem, que logo se afastou e foi buscar a torneira. Quando voltou, o jovem, além da torneira, entregou-me um pedaço de papel, dizendo que eu deveria mostrá-lo ao senhor que estava na entrada (ou na saída) do depósito. Quando mostrei o papel ao senhor, ele pegou a sacola em que estava a torneira, retirou-a, leu o papel que me fora entregue momentos antes pelo jovem, leu a embalagem da torneira. Comparou o quê com não sei o quê e me liberou. Kafka é aqui.

Eu não saberia substituir a torneira morta pela torneira jovem. Entrei em contato com um amigo, que fez a substituição. Dentro da pia, uma tonelada de coisas a serem lavadas. Fiz a estreia da nova torneira. Como a anterior estava difícil de ser manejada, lidar com a nova me deu ânimo súbito para a chata tarefa de lavar louças e utensílios.

Não ficaram nem mais limpos nem mais sujos do que ficavam quando eram lavados diante da torneira velha. Ela estava recalcitrante, é verdade, mas não é a torneira, desde que ela funcione, ainda que capengando, que definirá o quão limpas as louças ficarão. A torneira nova, é verdade, facilitou o trabalho, sem, todavia, em si e por si, fazer com que eu me tornasse um exímio lavador de talheres, de vasilhas e de similares.

Recentemente, comprei nova câmera fotográfica, depois de supor que minha anterior havia morrido em definitivo. Não havia; foi possível consertá-la. Antes do conserto, eu comprara uma câmera nova, que facilita meu trabalho, pois as especificações dela são melhores do que as da anterior. Não tenho feito registros melhores com a nova câmera, pois não é uma torneira nova que faz com que as louças fiquem bem lavadas. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Todos

Os coronéis de Patos de Minas.
Os trabalhadores de Porto Seguro.

Os que votaram na “nova” política.
Os que não elegeram milícias.

Os evangélicos que defendem tortura.
Os que amam o próximo.

Os que tomam cloroquina.
Os que usam máscara.

Os que tomam ivermectina.
Os que se informam.

Os que se aglomeram.
Os que entendem a solidão.

Os que acreditam que a Terra é plana.
Os que gostam de se divertir com uma bola.

Os que defendem tortura.
Os que têm coragem de amar.

Os que defendem ditaduras.
Os que querem um mundo sem Ustras.

Os que acreditam que é “só uma gripezinha”.
Os que sabem ler.

Os que creem que o “mito” é divino.
Os que sabem do mandatário miliciano.

Os que acreditam em seu deus.
Os que não precisam de deuses para serem bons.

Os que acreditam em chipe na vacina.
Os que buscam entender a diferença entre vírus e bactéria.

Os que alegam que orações destroem epidemia.
Os que investem na ciência.

Os que dividiram o pagamento da arma em 10 vezes.
Os que terminaram de ler mais um livro ontem.

A covid não faz distinção entre uns e outros.
Estão todos enterrando os seus. 

A covid não separa uns dos outros.
Todos podem ser enterrados amanhã. 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Ilusão

Os que apoiam o governo genocida têm a ilusão de que a vida deles é importante para o governo genocida. 

Dois brasileiros

José ofereceu caixas de ivermectina para Pedro. José garante que não teve covid porque tomou o remédio. Disse ter achado um absurdo o laboratório que fabrica o medicamento ter dito que ele não funciona contra a covid. Pedro concordou. Comprou metade do estoque de José. 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Lista de compras

— Hoje é dia de compras, tá ok? Lê a lista. Não quero que falte nada.

— Alfafa, chiclete, geleia de mocotó, picolé, sagu, vinho.

— Beleza.

— É pra comprar vacina também?

— Não. Nada de gastar com coisa inútil. 

Haicais

De gritar, ficou rouco.
Milhões em leite condensado.
Gritou que era pouco.
_____

Na lista, alfafa.
O ruminante engole.
A milícia se safa.

Haicai lácteo

Miliciano empossado.
Não adianta chorar sobre
o leite condensado.

Camuflagem

Dos que defendem torturadores, ditadores e viciados em leite condensado, os mais sórdidos não são os que se declaram a favor de torturas e de ditaduras; esses são sórdidos, mas pior do que eles são os que posam de civilizados, de amantes do belo e da(s) humanidade(s), camuflando o que de fato são: endossadores de genocidas. 

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

“Impeachment” e diferenciações

Não é somente sobre aqueles que não sabem diferenciar um camelo de um dromedário que o chefe do executivo federal tem influência. Ele tem influência também sobre quem acredita em cloroquina no tratamento contra covid-19, quem acredita que ele é um ungido, um enviado que é bom demais para estar pisando solos tão mundanos, pois o pastor ou o padre assim disseram, quem acredita que ele é competente e trabalhador, quem acredita que não houve corrupção durante a ditadura militar ou quem acredita que a corrupção acabou de dois anos para cá...

Não bastassem os milhões acima, há outros milhões: os que agem de má-fé, os que são a favor de que não haja alíquotas de importação para armas e defendem impostos sobre livros, os que se julgam cientes por lerem a Veja, os que acreditam em qualquer coisa que for dita pela tal da chamada grande mídia, os que enxergam sagacidade em seres como Alexandre Garcia, os que defendem “espiões” embutidos em vacinas, os que querem torturas e ditadores, os que admiram Luciano Hang, os que são adeptos do tribalismo masculino, os que não se importam com o que está ocorrendo em Manaus, os que desdenham do isolamento social...

A chamada grande mídia finge faniquito quando o mandatário berra a ignorância dele (o que ele tem berrado há décadas). Essa mesma grande mídia convence milhões de que ela nada tem a ver com a tragédia que é ter colaborado para que esteja no poder um cara sem o menor senso de algo que soe como espírito público, civilidade ou empatia. Para piorar, em meio à classe política, há muitos deles lucrando, seja de modo literal, seja de modo figurado, com o estado das coisas como estão. A parcela dos hipócritas que se fingem arrependidos (hipócritas porque o próprio chefe do executivo federal divulga há tempos a crueldade e a preferência por dizimações) é pequena e não está a fim de exercer pressão sobre políticos. Pelo que escrevi até agora e por questões que eu nem saberia anunciar, não vai haver o “impeachment” presidencial.

Por fim, é preciso escrever com justeza. Nem todo mundo que não sabe diferenciar o camelo do dromedário, o rato do camundongo, o coelho da lebre, o jacaré do crocodilo, o vírus da bactéria, a guitarra do contrabaixo, o coentro da salsa, a Winona Ryder (em qualquer filme) da Keira Knightley (em Desejo e reparação), o Brasília do Variant votou no defensor de torturadores. Muita gente não sabe diferenciar nada disso, mas não ignorou a obviedade escancarada pelo próprio defensor de genocídios e por tantos outros que desde que surgiu para a cena política, o político que diz ter histórico de atleta já gritava ser o que tem sido. Quem nega isso não sabe diferenciar um burro de um presidente.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O ar não é para todos

Nada novo vindo de um chefe de Estado que continua (e continuará) não se importando com a vida alheia. Ele mesmo vive defendendo torturadores e ditadores. Se o outro morre sob tortura ou sem ar, isso é irrelevante para quem a vida desse outro é inútil. Muitos votantes concordam com o votado, pois, ainda que alguns deles posem de sofisticados e de defensores do próximo e da natureza como um todo (são os mais cínicos), endossaram, por intermédio do voto, alguém que, há décadas, tem deixado claro que já era o que tem sido — um sujeito para o qual o outro é um mal a ser eliminado. Insisto, repito, reitero, reescrevo: o que tem vindo do chefe de Estado não surpreende. Só um hipócrita, um imbecil ou um adepto de torturas e afins poderia alegar ter suposto que seria diferente: quem sempre defendeu a violência não vai se tornar de repente um estadista preocupado com o destino do outro. Asfixiado, o país vai morrendo. Todavia, sejamos justos: o governo federal não é o único a defender a crueldade. Ele tem adeptos. Os corresponsáveis pela debacle podem estar num gabinete político, numa mansão ou numa mercearia (este, contando os trocados, verificando se o dinheiro vai ser o bastante para comprar o arroz). 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Sangue meu

O índio é o outro.
O índio sou eu.
Eu sou o índio.
O outro sou eu.

O preto é o outro.
O preto sou eu.
Eu sou o preto.
O outro sou eu.

Meu sangue da África,
meu sangue da floresta,
vermelho como 
sangue do preto,
vermelho como 
sangue do índio. 

sábado, 2 de janeiro de 2021

Praia Grande

 — Não há plano de vacinação, há pessoas morrendo... E o que o comandante faz?

— Nada. 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Recado para 2021

2020, estou me despedindo de você,
mas, 2021, não conte com um Lívio diferente.
Eu sei, é tentador a gente se empanturrar de álcool e
de resoluções em 31 de dezembro.
Somos mais estrondosos do que os fogos,
tão artificiais quanto.
As resoluções do réveillon
acordam de ressaca,
não chegam a dois de janeiro.

2021, não espere um Lívio diferente.
Seguirei sendo antiburocracia e
com preguiça de ir a supermercado.
Continuarei lendo e brincando com meu cachorro.
Sua pandemia, 2020, não causou novidade em mim.
Sigo o velho que sempre fui,
sem fé na humanidade, sem fé.

Sei, 2021, que você trará 
as mesmas babaquices do 2020,
que não as inventou.
Eu e você, 2021,
herdaremos a estupidez dos séculos,
a violência dos milênios e
a burrice dos que defendem bolsonaros.

Seguirei sendo o velho corpo cansado,
o antigo comodismo congênito,
os mesmos pretextos criativos.
Que você chegue, 2021,
mas não espere nada de mim.
Eu não espero nada de você.

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Sobre a natureza

A natureza não sabe que amanhã é terça-feira
nem que está chovendo agora.
Ela não está interessada no destino de João
nem na tristeza de Paulo.
Se Tereza está feliz
ou se Jânio ganhou na loteria,
isso não importa.
Artur sobreviveu à covid-19;
Maria Clara morreu por causa dela.
O câncer levou Ana, 
mas poupou Tiago.
A enchente levou a casa de Hermes
e a seca fez o corpo do menino Anderson secar.

A natureza não sabe que ontem foi domingo.
Ela não descansou.
Suas cachoeiras,
que não estavam aqui ontem,
não estarão amanhã.
As belas paisagens não são belas para nós.
A natureza não fez as estrelas para nosso regozijo.
O Sol que nos banha não sabe que Zé da Silva deve ao banco.
O balé da revoada de estorninhos não é para me agradar.
Fora de nós, a natureza não adjetiva, não abstrai, não compõe.
A natureza é. 

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O país dos maricas

Presidente, algumas perguntas a partir do uso que você fez de “maricas”...

Os 160 mil que, até agora, morreram por causa da covid-19 eram maricas? Ou alguns deles morreram porque quiseram ser mais machos do que os demais?

Maricas é quem não votou em você? É quem não votou em você e morreu de covid-19? É quem votou em você e morreu de covid-19? Quem não votou em você e não morreu de covid-19 é maricas? Ou maricas é quem usa máscara? É quem não quer transmitir a covid-19?

Você disse que “todos nós vamos morrer um dia”. Isso quer dizer que não temos razão para tomarmos precauções quanto à covid-19 devido ao fato de que “vamos morrer um dia?”. Esse mesmo “raciocínio” vale para outros contágios ou para outras doenças? Ou isso somente vale quando o assunto for a covid-19? Caso sim, por quê?

O mesmo vale, por exemplo, quando o assunto é o câncer? “Todos nós vamos morrer um dia”; logo, não devemos tratar o câncer nem devemos tomar cuidado com ele? Nem com a leptospirose? E quanto a possíveis facadas? Devemos deixar de ser maricas e não procurarmos um hospital caso levemos uma facada? Ou o “todos nós vamos morrer um dia” só é válido quando se trata da covid-19? Caso sim, por quê?

Você foi examinado por um médico quando teve covid-19. Isso é ser maricas? Ou maricas são os que procuram médico e, ainda assim, morrem? Quem não procura médico em caso de covid-19 provou não ser um maricas?

O que é, exatamente, ser um maricas? É quem não quer morrer devido à covid-19? É quem toma cuidados para tentar não morrer em breve? É quem toma cuidado para não matar os demais? O presidente de um país que deixa a população desse país sem ministro da saúde durante meses numa pandemia é um maricas? Ou isso é sinal de macheza?

Para que eu entenda sua “ideia”: o João tem covid-19 e a transmite para José, que morre de covid-19, transmitida por João. Quem é o maricas?... É o João?... Caso sim, por quê?... Caso não, por que não?... É o José?... Caso sim, por quê?... Caso não, por que não?... São os dois? Caso sim, por quê?... Caso não, por que não?...

De acordo com você, a pandemia foi “superdimensionada”. Já há 160 mil mortos. O que seria não “superdimensionar”? Seu critério é numérico? Tive apenas uma pessoa morrido, isso não importaria? (Se o critério for seu, sou levado a crer que não. Afinal, quando o exército matou, fuzilando, você declarou que “o exército não matou ninguém”. Isso é regra sua que tem validade somente para os outros? Ou ela tem validade para você?)

Cinco milhões já foram infectados pela covid-19. São maricas? Ou maricas são apenas os 160 mil que já morreram? Maricas é quem não teve covid-19 e tem medo de ter? É quem deseja que haja vacina?

O que é, com exatidão, um maricas? É um covarde? Um fraco? Caso sim, o que é um fraco para você? Ser maricas é não querer morrer? Ou é não querer morrer devido à covid-19?

Referindo-se aos que buscam os mortos pelo regime militar, você endossou cartaz com os dizeres “quem procura osso é cachorro”. Agora, você usou o termo “urubuzada”. “Animalesco”, você. Todavia, urubus se alimentam de carniça; assim fazendo, realizam trabalho de limpeza. A vida é assim mesmo: uns limpam, outros sujam; uns se alimentam do que já morreu; outros matam. 

sábado, 7 de novembro de 2020

A ilha Brasil

“A visão de Trump tem um lastro em uma longa tradição intelectual e sentimental que vai de Ésquilo a Oswald Spengler, e mostra o nacionalismo como indissociável do Ocidente. Em seu centro, está não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história. Não se trata tampouco de uma proposta de expansionismo ocidental, mas de um pan-nacionalismo. O Brasil precisa refletir e decidir se faz parte desse Ocidente”.

Essas palavras foram escritas pelo atual ministro das relações exteriores, em texto intitulado “Trump e o Ocidente”. Escreveu ainda o ministro: “Esse Deus pelo qual os ocidentais anseiam ou deveriam ansiar, o Deus de Trump, não é o Deus-consciência-cósmica, ainda vagamente admitido em alguns rincões da cultura dominante. Nada disso. É o Deus que age na história, transcendente e imanente ao mesmo tempo”.

Não somente por essas palavras, a revista norte-americana Jacobin, em fevereiro de 2019, deu ao ministro das relações exteriores do Brasil a alcunha de o pior diplomata do mundo. A imprensa e os meios de comunicação daqui, desde quando a vitória de Joe Biden começou a se esboçar, têm cogitado sobre o que pode vir a ser a diplomacia brasileira a partir de agora.

Enquanto isso, em seu quintal, os estadunidenses têm de lidar com um perdedor que, pelo menos até agora, não apresentou prova alguma das fraudes que ele diz ter havido. (Em nosso quintal, Aécio Neves pode ser elencado como tendo tido o mesmo comportamento, que, aliás, é discutido no imprescindível Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt. Para eles, um dos indícios de ausência de espírito democrático por parte de alguns políticos é o fato de eles se empenharem em fazer com que as instituições sejam desacreditadas ou com que sejam demolidas.)

A tônica do que a imprensa e os meios de comunicação têm dito é a de que o governo federal terá de mudar sua postura diplomática, sob pena de ficar à parte no cenário internacional. Celso Amorim deu declaração ao UOL, afirmando que “Bolsonaro vai ter que mudar muito. Se ele tentar fazer o que tem feito até agora, que é invocar uma falsa noção de soberania, uma grande parte da elite brasileira que está tendo tolerância com ele até agora deixará de tê-la. Se tem uma coisa que a elite brasileira não suporta é brigar com os Estados Unidos”.

Sim, uma parte da elite brasileira é baba-ovo dos EUA, o que também ocorre com o chefe do executivo federal em relação a Trump. Depois de ler o que Celso Amorim declarou, pensei: essa parte da elite brasileira que se presta a ser capacho dos EUA não mudará os valores excludentes, antiéticos e antiecológicos do trumpismo, que, no governo federal, têm fiéis. 

Não consigo enxergar ninguém nesse governo a fim de fazer o que eles até agora não fizeram: diplomacia. Devido a insanidades como a de que “o Deus de Trump” é “transcendente e imanente”, só consigo pensar num Brasil (mais) isolado e (mais) vexaminoso diplomaticamente. Que eu esteja enganado. 

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Os de lá e os daqui

Ontem, ao vivo em canais de TV, enquanto Trump estava dizendo haver fraude nas eleições dos EUA, âncoras e jornalistas entraram ao vivo durante a fala do político para dizer que ele não apresentara até então nenhuma prova do que estava dizendo. Do que não sei, pois não acompanho os canais que disseram que Trump mente ou blefa, é se eles estavam sendo cínicos como os daqui, que não moveram uma sobrancelha para desmascarar, por exemplo, coisas como mamadeira de piroca ou kit gay, e pousam agora de mocinhos preocupados com a democracia, fingindo não serem inescrupulosos.

À parte isso, se uma versão à brasileira do Trump, preferencialmente sem provas, disser por aqui que eleições estão sendo, foram ou serão fraudadas, minutos depois já haverá nas TVs, rádios e sites de notícias “analistas”, “comentaristas” e “especialistas” endossando esse hipotético Trump dos trópicos. Em termos técnicos, tudo é feito com esmero. Numa analogia, poder-se-ia dizer que a imprensa e os meios de comunicação brasileiros, em sórdida assepsia, são como o cidadão que, vestindo roupas caras, modulando gentilmente a voz e querendo transmitir ares de civilidade, sofisticação, competência, ética, honestidade e preocupação com o país, camufla vilezas e preconceitos. A maior parte do jornalismo brasileiro faz de conta que é combativa e republicana. Muitos acreditam. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Culposo

Denúncias contra um senador: peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita, organização criminosa. Mas ele não é pobre. Ainda que haja toneladas de documentos comprovando os crimes, sairá ileso: é rico, é homem, é branco, tem pai influente. O criativo judiciário, num longínquo futuro, em caso de culpa do político, vai inocentá-lo, nem precisando de malabarismos mentais. Basta dizer que houve peculato culposo, lavagem de dinheiro culposa, apropriação indébita culposa e organização criminosa culposa. Funciona. 

O Estado do Cinismo

Sabe o sujeito do filme de comédia que pratica delito e sai assoviando, como se nada tivesse com a história?: é assim que agem a imprensa e os meios de comunicação do Brasil quanto ao governo federal, fingindo que nada tiveram a ver com a eleição. A mais recente desfaçatez foi do jornal O Estado de São Paulo, que publicou texto dizendo que o presidente “arrasta o País para o abismo”. O periódico é mais um a lavar as mãos (sujas), como se não fosse ele um dos responsáveis pela eleição do causador da debacle. 

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

O país do “estupro culposo”

Ser branco, homem e rico no Brasil dá ao detentor de tais predicados a regalia de ter à sua disposição algo do tipo “estupro culposo”, malabarismo classista do judiciário local, invenção macabra de parte de uma elite retrógrada, saqueadora e sem o menor senso de humanidade. São reflexos de uma classe que é o entrave do país; reflexos que escancaram o teatro cruel que o judiciário brasileiro pode ser.

O que covardes fizeram com Mariana Ferrer durante o “julgamento” extrapola o que estava em consideração e descamba para o machismo, a prepotência, a humilhação, a tergiversação desrespeitosa. Moeda corrente no judiciário que, quando quer, sabe ser farsa, seja para desferir golpes políticos, seja para inocentar quem pertence à mesma classe daqueles que, no Brasil, há séculos, pilham, mentem, humilham, estupram. 

Se não têm as provas que desejam, para eles bastam as convicções; se contra eles há provas, que se invente qualquer coisa (qualquer mesmo) para inocentá-los. Nas mãos deles, o judiciário é uma ficção criada para salvar a pele deles e para que eles punam quem não é da panelinha. Fazem assim porque sabem que o arremedo de justiça aqui vigente é controlado por eles. Provas?... A depender do caso, ou as desconsideram ou as criam. 

Sim, a obrigação de qualquer advogado é defender seu cliente. O que está em jogo não é o cumprimento de uma obrigação, mas o modo como ela foi realizada. O que foi infligido a Mariana Ferrer não foi a solidez de argumentos, mas a sordidez de privilégios criados por uma elite nojenta que é o câncer do Brasil.

domingo, 1 de novembro de 2020

A Finlândia não é aqui

Desde que foi veiculado, faz sucesso um vídeoque dura algo em torno de vinte minutos, sobre o sistema educacional na Finlândia. É uma produção da Globo. Com frequência, esse vídeo é usado como argumento quando se quer elogiar a educação recebida pelos finlandeses e criticar a recebida pelos brasileiros.

É preciso ponderar a partir do que é dito no vídeo. É que sempre fico reticente quando há a tentativa de comparação entre a educação na Finlândia e a educação no Brasil. A primeira razão pela qual fico reticente é óbvia: o contexto finlandês é diferente do contexto brasileiro.

É dito no breve documentário que a Finlândia é o país mais feliz do mundo. À parte o fato de eu achar que felicidade é um conceito difícil de ser medido, pois o parâmetro de um pode ser diferente do parâmetro de outro, chamou minha atenção o seguinte: eles são um dos países menos desiguais do mundo.

Permitam-me um raciocínio simplório, mas necessário: o vídeo permite a fácil dedução de que menos desigualdade e felicidade estão conectadas. Mantendo o raciocínio simplório: igualdade e felicidade estão conectadas. Para nós, o problema começa na desigualdade. O Brasil é um país edificado sobre a desigualdade, que pode ser conferida em qualquer esquina do país.

Isso, por si, já é uma questão melindrosa. Mas a coisa fica pior: não há empenho de toda a sociedade para que as desigualdades sejam amenizadas ou dizimadas. O Brasil é um país em que quando se fala em ensino gratuito para todo mundo, há quem diga que não é obrigação governamental ofertar educação para todos. Segundo o vídeo, na Finlândia, “todas as crianças estão em escolas públicas” e “todo mundo tem as mesmas oportunidades”. Vou reescrever a frase: “Todo mundo tem as mesmas oportunidades”. Também é dito no trabalho da Globo que na Finlândia a educação é gratuita até o término do ensino superior. 

Acho estranho o que, com frequência, ocorre no Brasil: exalta-se a igualdade no exterior, mas se deplora a busca dela por aqui, onde há quem queira insistir na ideia de que o sujeito nascido na periferia de São Paulo tem as mesmas oportunidades de um nascido no Morumbi, e que se os projetos daquele não se concretizaram, a culpa é dele, que seria preguiçoso, indolente, burro. É dito no vídeo: “Você não precisa vir de família rica para se tornar alguém”. Lá, isso é possível porque há igualdade.

Tudo, contudo, fica pior: há uma cena do vídeo em que se mostra uma professora ensinando o processo de formação da Terra. Aqui no Brasil, congressos têm sido realizados para se afirmar que o planeta é plano, indivíduos têm negado princípios básicos da ciência. Estou sugerindo com isso que não cabe à escola fazer algo?

Não. Com isso, estou defendendo a ideia de que comparações entre países devem ser feitas com cautela, e que o ensino tem limites, principalmente se inserido em contexto desfavorável, caso do Brasil. A escola, ao mesmo tempo em que pode influenciar a sociedade, por ela é influenciada. Seria muita pretensão afirmar, no caso brasileiro, que a escola, sozinha, realizará a melhora.

No Brasil, a profissão de professor é desvalorizada, o que, segundo o vídeo, não ocorre na Finlândia. O professor, no Brasil, é visto, por alguns setores da sociedade, como um proscrito, um coordenador de badernas. Não bastasse, os professores, na Ilha de Vera Cruz, são enterrados sob um escombro de burocracia e de vigilância. Reitero: não sugiro desistência, mas ponderações quando insistem em querer aplicar o modelo educacional finlandês no Brasil.

Certa vez, perguntaram para o García Márquez se o artista tem de ser ou de estar triste para produzir. A resposta dele: “Escrevo melhor de barriga cheia”. O Brasil tem uma multidão de estudantes que não têm o que comer; estuda-se melhor de barriga cheia.  É dito no vídeo que a Finlândia teve guerra civil e fome. Superaram ambas. Vamos superar a fome no Brasil? Vamos ter uma sociedade composta por oportunidades iguais? Não tenho respostas.

Qual a importância em se conhecer a realidade educacional da Finlândia? Uma das importâncias é o saber em si, o estar informado. Outra importância: a ciência de que há um país como a Finlândia inspira a utopia, tal qual a concebe o Eduardo Galeano (1). Vídeos como esse, assim concebo, não são para que imitemos as engrenagens da Finlândia ou de outro país, nem para que tentemos implantar o sistema educacional deles aqui, mas para que saibamos que uma sociedade igualitária pode ser feliz. Seremos?

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(1) Há um texto do Eduardo Galeano em que ele se vale da seguinte imagem para ilustrar o que é o caráter utópico: a utopia é querer chegar à linha o horizonte; chega-se. Lá chegando, enxerga-se outra linha do horizonte, que deve, então, ser buscada; chega-se a ela. Lá chegando... 

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Uma jovem senhora

Os modos são civilizados, polidos. O jeito de caminhar é leve, mas calculado; é como se estivesse desfilando, mas sem espalhafato. É que a vida é uma passarela. Ela sabe que atrai. Os gestos, também estudados com dedicação, querem passar ideia de espontaneidade. A voz é doce, tem alguma melodia, que, se escutada, deixa escapar, em seu timbre, alguma afetação, que a jovem senhora insiste em esconder. Quase sempre, com sucesso.

Nas reuniões com os amigos e nas redes sociais, procurando falsa modéstia, dá notícia das doações que faz todo ano; se há um gesto caridoso, como, digamos, um alimento que é dado a um faminto, isso é divulgado. Não com alarde, o que seria trair a tão almejada classe, mas com discrição que camufla o ego enorme. A jovem senhora sabe fingir que não quer atenção para si o tempo todo. Sorri para ricos e para pobres.

Jacta-se de dizer em quantos países já esteve. Chega a um lugar, tira fotos em algum monumento famoso e corre para outra cidade; lá chegando, tira fotos em algum monumento famoso e corre para outro país; lá chegando, tira fotos em algum monumento famoso e corre para outro continente. Com o corpo, já esteve em muito lugar. Gosta de Paris. Mas adorar, adora mesmo é Nova York. Quanto às belezas do Brasil, vive a falar bem delas sem ter vontade de conhecê-las; mal conhece a cidade em que vive.

Ela cuida da linguagem, embora haja na jovem senhora alguma ilusão quanto ao português que tem e muita ilusão quanto ao inglês que emite. Dependesse dela, teria a língua de Trump como nativa. Em situações públicas, sejam pessoais, sejam virtuais, o carisma, mais pensado do que genuíno, entoa cânticos a favor da paz, envia elogios à gentileza e aos bons modos, declara-se tocado pela arte de Romero Britto, propaga amor à natureza.

Também não espontâneo, há um certo recato. Os desavisados, diante de cada parte do que ela é, recebem o impacto do todo, sem desconfiarem de que sob o aspecto liso, saudável e belo do rosto dela há uma jovem senhora que não gosta de pretos, não gosta de pobres, não gosta de índios, não gosta de gays. Muitos gostam dela por não saberem quem ela é; muitos gostam dela por saberem quem ela é.

Para ela, o Brasil precisa ser higienizado; pensa que não faz sentido um país que não seja habitado por peles branquinhas. Ela, que já lamenta não haver em terras tropicais o branco da neve, não lida bem com o desconsolo que sente quando tem de sair de casa e se deparar com pessoas suadas e de pele encardida, adjetivo este de que ela se vale quando se refere às pessoas que realizam trabalhos braçais ou que pegam ônibus. Para ela, só ditadores resolvem esses problemas.

O marido pertence a um clube. Não basta existir para frequentá-lo. É preciso ser convidado, é preciso ser eleito. A confraria divulga a si mesma como filantrópica. Na prática, dedicam-se a jogos políticos que enriquem a si mesmos e depenam os pobres. Quando o marido da jovem senhora está nas reuniões do clube, não é raro ela estar se refestelando no corpo do musculoso amante.