sábado, 2 de novembro de 2019

Lambança diplomática

Primeiro, o mandatário brasileiro disse que não parabenizaria o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández. Agora, Bolsonaro tem dito que não irá à posse do argentino. Ainda no rol das lambanças do clã da família bolsonarista, Eduardo Bolsonaro postou imagem em que, à direita, ele, Eduardo, está em meio a armas; à esquerda, Estanislao Fernández, filho de Alberto Fernández, está usando fantasia. Enquanto isso, Trump não se fez de rogado: ligou para o presidente eleito da Argentina e o parabenizou, ocasião em que teria dito: “Parabéns pela grande vitória. Vimos pela televisão. Você vai fazer um trabalho fantástico”.

Embora se possa elencar semelhanças entre Trump e Bolsonaro e embora o presidente brasileiro não esconda a admiração que tem pelo colega norte-americano, há uma diferença básica: Trump não é tão burro quanto Bolsonaro nem quanto a família deste. Trump é esperto o bastante para saber que inabilidade nas relações diplomáticas pode implicar perda de dinheiro para os países. Não há como eu saber o que de fato Trump pensa sobre Alberto Fernández. Isso não importa. O que importa é que ele não foi imbecil o bastante a ponto de não perceber que ele tem um papel diplomático e político a cumprir. Ao ligar para Fernández, Trump está no mínimo levando em conta que ele representa os EUA e que há parceria comercial entre o país dele e a Argentina.

Em âmbito mundial, a Argentina é o terceiro maior comprador de produtos do Brasil. Goste Bolsonaro ou não, Fernández foi eleito democraticamente. Além disso, há uma série de acordos comerciais que vêm sendo alinhavados ao longo do tempo; parte desses acordos ainda não foi implementada ou não foi concluída. Faniquitos não deveriam fazer parte do comportamento de um presidente, mas o nosso é pródigo em fricotes, seja quando não responde a questionamentos que são da alçada dele responder, abandonando coletivas de imprensa, seja quando não responde a questionamentos e prefere a falta de compostura nas palavras, seja quando é destemperado em transmissões ao vivo, seja quando não pensa no país e faz declarações infantis, rancorosas e toscas. Bolsonaro não tem de bajular Fernández, mas se Bolsonaro e família ficassem calados em questões que resvalam para a diplomacia, já estariam fazendo bem para o Brasil. 

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Flamengo dá uma surra no Grêmio

A instituição Grêmio, os torcedores do time e os atletas que estiveram há pouco em campo no Maracanã não merecem o que ocorreu hoje no estádio; o Portaluppi, com a empáfia dele, sim. A goleada do Flamengo deixou claro, mais uma vez, o atraso dos técnicos brasileiros em relação aos estrangeiros. Técnicos, ex-técnicos, jogadores e ex-jogadores do futebol jogado por aqui, num deletério corporativismo, têm distribuído farpas, alegando que o brasileiro tem a mania de valorizar o que vem de fora em detrimento do que há aqui, numa referência indireta aos elogios que têm sido feitos para Jorge Jesus.

De fato, isso é da natureza de parte dos brasileiros, que preferem deglutir qualquer gororoba que venha de fora em vez de dar valor às coisas boas que temos. Todavia, no caso específico do futebol, no todo, não temos bons técnicos. No geral, os que temos servem para o futebolzinho praticado aqui; não sobrevivem a vinte minutos nas grandes competições, não sobrevivem a dois jogos contra um técnico estrangeiro (refiro-me, neste último caso, ao Grêmio de há pouco, que enfrentou o Flamengo, com seu técnico português).

Não é preciso entender de futebol para se constatar que o Grêmio foi esmagado no jogo de hoje no Maracanã. Jorge Jesus, ainda que sem querer, esfregou na cara do ludopédio brasileiro o quanto somos incompetentes para produzir um futebol respeitável e profissional. O jeitinho, a falta de profissionalismo e a cabotinice foram pisoteados na partida que terminou há pouco.

Suspeito de que o River Plate será o campeão da Libertadores; à parte isso, Jorge Jesus é a prova de que cartolas e técnicos brasileiros estão aquém do futebol mundial. Mesmo sem ganhar a Libertadores, Jorge Jesus é a grande lição que o futebol brasileiro seguirá não aprendendo. O Grêmio foi pequeno, foi a cara do futebol aqui jogado. A instituição Grêmio é imensa; o atual técnico deles sentiu na pele que pueris jogos de palavras, vaidade e presunção não ganham partidas.

Tivesse o futebol brasileiro alguma humildade, estivessem os que gerem esse esporte a fim de aprenderem algo, isso já teria sido feito depois do 7 a 1 lá no Mineirão, na Copa de 2014; a goleada não serviu para nada, pois o futebol daqui continuou sofrível. Hoje, tivemos mais uma lição de que chega o dia em que amadorismo e arrogância são moídos. O futebol daqui seguirá iludido e dizendo para si mesmo que é bom, enquanto leva goleadas, sejam elas dadas por técnicos estrangeiros, sejam dadas por jogadores do exterior. 

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Como eu escrevo

José Nunes faz doutorado em direito pela UnB. Paralelamente, ele tem um projeto intitulado Como Eu Escrevo, em que algumas perguntas são enviadas para escritores e pesquisadores. Fui um dos entrevistados no projeto. Caso alguém se interesse em conferir, é só clicar aqui

sábado, 7 de setembro de 2019

Os indecentes

O Crivella quis proibir veiculação de HQ contendo beijo gay. A história, publicada em 2010, foi escrita por Allan Heinberg e desenhada por Jim Cheung. A atitude do prefeito é anacrônica e ditatorial: os exemplares disponíveis na Bienal estavam lacrados. Não bastasse, acabou se tornando um garoto-propaganda involuntário para o trabalho, que passou a ser muito procurado (esgotou-se no evento) e divulgado. O @felipeneto vai distribuir dez mil livros com temática LGBT no evento, numa bela resposta à atitude tacanha do Crivella.

Há quem alegue ser indecência ou ser ataque contra a família quando há a expressão de comportamentos homossexuais. Curiosamente, esse pessoal não enxerga problemas quando de fato há. Para eles, um beijo gay é indecência, mas aplaudir quem defende ditador pedófilo, aplaudir quem defende tortura ou aplaudir quem nega o conhecimento científico não é indecência.

Os que se declaram plenos de espírito cívico deveriam se lembrar da Constituição: “É livre a manifestação do pensamento”. Ou ainda: “É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”. (Por falar em atividade científica, há quem aplauda governo que veta pesquisa contra câncer ou que nega dados quanto a queimadas.) 

sábado, 31 de agosto de 2019

Tia Olinda

Esta é minha tia Olinda; ela é irmã de meu pai (ele morreu há vinte anos). Olinda tem oitenta, é viúva há sessenta. Se não me engano, um trem de ferro passou por cima do ex-marido dela numa visita que ele fez a um parente em Barbacena. Viúva aos vinte anos, Olinda nunca se casou novamente. Ela e o ex-marido tiveram três filhos.

Há um tempão era ideia minha fotografar a tia Olinda, que é uma senhora simples e que mora no mesmo lugar, uma casa também simples, desde que tenho memória. Durante a sessão de fotos, ela disse que a casa estava desarrumada, mas comentei com ela que minha intenção era buscar certa espontaneidade não só no lugar, mas também em minha tia.

Para isso, nada de poses mirabolantes; ademais, não faria sentido pedir isso a uma senhora. Procurei apenas pedir a ela que se virasse e que ora encarasse a lente, ora não a encarasse. O ensaio foi breve e frutífero. A tia Olinda não ficou sem jeito diante da lente, para a qual ofereceu expressão e olhar fortes.

Enquanto eu tirava as fotos, ela ficou rememorando as histórias da família, em especial, as ligadas a mim e a meus irmãos. Num certo momento, disse-me que quando eu era pequeno, eu dizia que queria ser escritor quando eu crescesse. Eu jamais me lembraria disso. 

A rigor, mesmo depois de a tia Olinda ter mencionado a pequena história, não consigo me lembrar de alguma vez ter dito que eu queria ser escritor. Mesmo assim, fiquei contente em saber que na infância eu expressava esse desejo, que, afinal, concretizou-se. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Os insistentes

Não sabemos rastrear o fio da memória. Do “nada”, uma lembrança vem à tona. Hoje, eu me lembrei da Amway. Fiquei o dia todo com a lembrança na cabeça. Depois do trabalho, fiz breve pesquisa, na intenção de saber se a empresa ainda existe. Não entendi muito bem o que era (nem entendi há pouco, conferindo a página deles) a Amway quando algumas pessoas me procuraram para que eu me tornasse, se bem me lembro, consumidor e vendedor do empreendimento. Conferindo a versão brasileira do sítio deles, leio o trecho: “Somos a maior empresa de vendas diretas do mundo”. Há ainda: “Bônus de Ativação, Bônus de Performance, Bônus de Liderança, Bônus por Novas Qualificações”.

Não sei se a companhia mantém hoje o “modus operandi” da época em que alguns vendedores deles me procuraram. Ainda no sítio, há a informação de que estão no Brasil há vinte e sete anos, ou seja, desde 1992. A memória que tenho nunca foi prodigiosa quanto a datas, mas enquanto fiquei matutando sobre a Amway, tive a sensação de que os representantes dela haviam me procurado antes desse ano.

Não faço a menor ideia de como me acharam, não me lembro de nenhum dos que vinham aqui em casa. Nada de nomes, nada dos rostos deles; quase tudo sumiu. O que ficou: chegavam de carro e estavam sempre com roupas impecáveis. Pena que roupas não impedem chatice. Eram uns caras muito aporreantes. Fosse hoje, suponho que eu teria sido menos sutil; fosse hoje, eu teria achado um modo de pedir a eles que não mais me procurassem. Na época, não agi assim. Sou de 1970; isso quer dizer que eu tinha vinte e um ou vinte e dois anos quando esse pessoal chegava por aqui. A velhice não é pretexto para que se perca a polidez, mas tira o drama que há quando temos de pedir a alguém que não mais nos procure. Na época, não tive o expediente de deixar claro para eles que eu não estava nada interessado no que eles estavam me propondo.

Difícil imaginar uma pessoa menos apta para vender do que eu. Por falha minha, não sabiam disso; repetiam e repetiam, num proselitismo monótono, que eu deveria ser parte da Amway. Na época, não estando eu enganado, era mais ou menos assim: se eu topasse o negócio, eu teria de ser cliente da Amway, comprando uns produtos deles (não sei se são os mesmos tipos de produtos anunciados no sítio deles conforme o que conferi há pouco) e, ao mesmo tempo, não estando eu incorreto, tendo de oferecer a possíveis compradores esses mesmos produtos. Pode não haver exatidão nessa logística apontada por mim; mesmo assim, estou certo: eu teria de lidar com vendas.

A falta de talento para vender não impede a desconfiança quando dinheiro fácil é anunciado. O pessoal que vinha aqui em casa me enchia de fartas promessas de ganhos financeiros, o que, segundo eles, permitiria que eu realizasse meus sonhos, fossem eles quais fossem. Do pouco que ficou na memória daquelas visitas inconvenientes, há uma frase, dita por um dos caras que estavam aqui: “Meu sonho é enviar meus filhos pra estudar na Europa”.

Não sei se o sonho dele se concretizou. Que tenha se concretizado. A impressão que eu tinha na época é a de que o pessoal que vinha aqui estava iludido quanto à possibilidade de ficar rico em pouco tempo. Pode ser que tenham mesmo ficado ricos em pouco tempo, pode ser que sejam ricos hoje (torço mesmo para que sim); do que sei, é que minha inépcia para vender não me deixaria milionário, fosse eu seguir a proposta deles, nem daqui a um milhão, quinhentos mil e duzentos e treze anos. Além do mais, não tenho talento para ganhar dinheiro.

Eu me lembro vagamente de que havia uma espécie de hierarquia, uma classificação para os vendedores. Pedras preciosas é que nomeavam essas classificações. Nada entendo de gemas, mas digamos que o diamante fosse o topo no sistema criado pela Amway naquele tempo; o auge, pois, seria tornar-se um vendedor-diamante. Sei que eu não sairia da base da pirâmide.

Em retrospecto, percebo que errei ao não ter deixado claro para eles que eu estava achando tudo aquilo muito cansativo. Fui convidado a participar de pelo menos uma reunião. Claro que não fui. Isso, penso, deveria ter sido motivo para que eles não me procurassem mais. Eu não ter ido à tal reunião parece ter atiçado ainda mais o desejo deles em me tornar um dos integrantes da rede. Sim, eram um porre, mas isso não implica dizer que fossem maus indivíduos. Não lembro se eram de Patos de Minas. Na época, eu pensava neles como pessoas maçantes querendo dinheiro de um modo que não se ajusta ao que sou. 

Se alguém que trabalha na Amway (ou para a Amway) ler este texto, entenda que ele não é um ataque contra ela nem contra quem presta algum serviço para ela nem contra quem recebe salário da empresa nem contra quem tenha se tornado um vendedor rico, mas apenas o registro de lembrança que me chegou hoje, lembrança de uns caras insistentes e bem vestidos. Se você que me lê agora é um dos que vinham aqui, que você e seus companheiros de venda tenham ficado ricos. Tendo ficado ou não tendo ficado, sintam-se convidados para um café, desde que não insistam em me oferecer algo para eu vender.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Cinzas

Podem queimar o país.
Os bichos morrerão,
vão compor as
cinzas do amanhã.
Podem queimar o país.
O fogo infernal é aqui,
liberado numa assinatura,
festejado por demônios
em gabinetes,
em ricos infernos
e em pobres mentalidades.
Os homens morrerão.
Vão compor as cinzas
do depois de amanhã. 

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Bolsonaro e Johnny Bravo

Bolsonaro se comparou com Johnny Bravo. Concordo. A similaridade é exata tendo o presidente se dado conta do sarcasmo do desenho animado ou tendo o presidente não se dado conta do sarcasmo do desenho animado. Se Bolsonaro se deu conta, ele se assume tão ridículo quanto Johnny Bravo, que não é quixotesco, mas, sim, ridículo (Quixote tem bom coração, o que, claro, não é ridículo). Se Bolsonaro não se deu conta da paródia ou da sátira que é o desenho animado, ele estaria (o que não surpreende) reagindo como alguns leitores que, numa passagem do Viagens de Gulliver, supõem que o que está sendo debatido de fato é se o ovo deve ser quebrado pela ponta mais fina ou pela ponta mais grossa. Johnny Bravo é uma espécie de Bolsonaro “avant la lettre”; Bolsonaro é uma espécie de Johnny Bravo que se tornou presidente. 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Nove quilos de filé mignon

O presidente Jair Bolsonaro voltou a defender ontem a indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada do Brasil nos Estados Unidos. Disse Bolsonaro, o pai: “Se puder dar um filé mignon para o meu filho, dou” (nesse caso, o filho não estaria mais envolvido com hambúrgueres, como ele, filho, disse que esteve, mas com filé mignon). Disse ainda o pai que pretende “beneficiar o filho, sim”. Depois, voltou ao filé mignon: “Mas não tem nada a ver com filé mignon essa história aí”, para então afirmar, com tautologia, que a intenção é aprofundar relações com os Estados Unidos.

Bolsonaro, o pai, disse que “não é nepotismo” indicar o filho para o cargo na embaixada. Uma das definições de “nepotismo”, segundo o Houaiss, é esta: “Favoritismo para com parentes, especialmente pelo poder público”. O presidente agora não admite dar o nome certo ao ato de indicar o filho dele para a embaixada. Para os eleitores de Bolsonaro, o pai, que não gostaram da indicação de Bolsonaro, o filho, para o cargo diplomático, a justificativa de Bolsonaro, o pai, foi esta: “Quem diz que não vai mais votar em mim, paciência”.

Esse mesmo presidente nepotista é o campeão do fisiologismo (a “nova” política) quanto à relação com deputados para a aprovação da reforma da previdência. O mesmo presidente que se vale de filé mignon como metáfora para justificar o nepotismo para com o filho dele é o presidente que apoiou uma previdência que, dentre outros descalabros, propunha que um cidadão recebesse quatrocentos reais por mês. Liguei para um açougue e perguntei o valor do quilo de filé mignon. “Quarenta e quatro reais”, informou-me a funcionária. Com os quatrocentos reais da aposentadoria que foi apoiada por Bolsonaro, daria para ele comprar nove quilos de filé mignon para o filho indicado à embaixada. 

Vozes e línguas

O Caetano quer sentir a língua dele roçar a de Camões. A voz do Morten Harket, aqui e ali, roça a do Marian Gold. Duvidas? Então escuta. 

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Em breve, novo livro


Meu novo livro, de ficção, já está sendo diagramado pela editora. Esta é a capa. 

domingo, 30 de junho de 2019

Como não interpretar um texto

Um internauta, a quem vou atribuir o nome de “X”, comentou recentemente, no Facebook, um texto que escrevi. (Vou chamar o internauta de “X” porque, para esta postagem, o que importa não é o nome que uma pessoa tem, mas o que se deu a partir do que escrevi.)

“X” afirmou que um texto escrito por mim estabelecia o que ele, “X”, chamou de paralelo entre um fato e o presidente da república ou um paralelo entre o fato e a suposta responsabilidade do presidente da república. Tenho as capturas de tela dos comentários do internauta e das minhas respostas a eles.

Não entendi bem o uso da palavra “paralelo”, por entender que um paralelo é feito entre uma coisa e outra(s). Mas o que importa é que “X” escreveu que, ainda que não tenha sido minha pretensão (“pretensão” foi o termo usado pelo internauta), eu teria afirmado em meu texto ou teria dado a entender em meu texto que há alguma ligação entre os 39 quilos de cocaína que estavam no avião da FAB e o presidente da república.

Antes de eu voltar à questão linguística: eu teria de ser muito burro ou muito irresponsável ou muito inconsequente se eu afirmasse haver alguma ligação entre a cocaína e o presidente. Que prova(s) tenho eu disso? Nenhuma. Em meu texto, que logo, logo será transcrito, afirmo que havia num avião da FAB 39 quilos de cocaína. Isso é fato. Em nenhuma parte de meu texto menciono seja o nome do presidente seja alguma expressão seja alguma palavra que a ele possa se referir.

Todavia, até agora, tenho somente afirmado que não escrevi o que “X” disse que escrevi. Para ser didático e para ser mais claro, transcrevo, a seguir, o que publiquei. Minha postagem, cujo título é “De grão em grão”, foi esta:

Trinta e nove quilos.
De cocaína.
Transportada por militar.
Em avião da FAB.

A poeira vai baixar.
O pó vai percorrer outros ares.
A única certeza:
“Ao pó tornarás”.

Ainda que o presidente estivesse a bordo do avião em que estava a cocaína e ainda que eu tivesse escrito, nessa hipótese, que o presidente estava a bordo, eu não estaria ligando o mandatário à droga, eu não estaria fazendo associação entre a droga e o político ou afirmando ser a droga do político. “X” afirma ter dado uma opinião sobre meu texto. Não, ele não deu opinião: ele distorceu minhas palavras.

Ele teria dado uma opinião se ele tivesse escrito algo do tipo “seu texto é ruim”, “seu texto é chato”. Coisas desse teor seriam opiniões, e mesmo opiniões sobre um texto deveriam ser embasadas nele. “X” não deu uma opinião, não adjetivou. A partir do momento em que ele afirma que fiz associação entre o presidente da república e a droga, ou “X” está sendo injusto ou está sendo mau leitor. O que ele fez não foi dar uma opinião, mas afirmar que escrevi o que não escrevi.

É nítido que tive a intenção de soar literário na postagem. Claro que pode-se ter a opinião de que a peça, feita para ser literária, é ruim. Contudo, embora o texto literário seja aberto a diversas interpretações, essas interpretações têm de partir é do texto. Se assim não for, o que há não é interpretação, mas palpite, opinião, afirmações sem fundamento, sem base, sem critério — a não ser os critérios subjetivos ou vagos que alguém possa ter. Vagueza e subjetividade não dão a ninguém o direito de afirmar que alguém escreveu algo sem que se prove, a partir do texto, que esse alguém escreveu esse algo; vagueza e subjetividade não são interpretação.

“X”, ao afirmar que é opinião dele haver em meu texto implicações entre a droga e o presidente, teria de mostrar, a partir de trechos do que escrevi, em que pontos estariam essas implicações. Ora, é muito fácil ler algo e simplesmente declarar seja o que for, sem apontar sequer uma palavra que justifique o argumento. Se assim for, posso ler qualquer coisa e afirmar que o autor disse qualquer coisa. É pouco inteligente e muito fácil afirmar que alguém escreveu algo sem que se demonstre, a partir do texto, essa afirmação.

Todo leitor leva para o texto do outro os vieses, as opiniões, as idiossincrasias, as vivências e, dependendo de quem seja a pessoa, os preconceitos desse leitor (não estou sugerindo que “X” seja preconceituoso). Isso é inevitável. Mas não se pode esquecer: o texto é do outro. Do ou-tro. Antes de se afirmar o que o outro declarou, é preciso o básico: o que o outro de fato declarou? Pode haver subentendidos no que o outro escreveu, pode haver ironias, pode haver sugestões? Claro que sim. Mas não há em meu texto a menor sugestão de que associei o presidente da república aos 39 quilos de cocaína que estavam no avião da FAB.

Todo leitor chega ao texto do outro com tudo o que ele, leitor, é. Todavia, isso não exime esse leitor da responsabilidade que ele deve ter ao atribuir ao outro palavras, ideias ou sugestões que podem não estar no texto do outro. Se isso for feito por se ignorar preceitos básicos de interpretação, há esperança, pois isso é o tipo da coisa que se resolve com um pouco de leitura e de senso, e aquela pode ajudar muito neste. Se isso for feito devido à má-fé, e acredito que não tenha sido esse o caso de “X”, então não tenho sugestões para que a falha seja superada. O que está em questão no comentário de “X” não é algo relativo a divergência política. Fosse isso, não haveria o que eu dizer, pois do mesmo modo que “X” tem o ponto de vista dele, tenho o meu. O que está em questão diz respeito ao modo e ao ato de ler.

Nunca comentei uma postagem de “X”. Elas não aparecem em minha linha do tempo. Numa única vez, visitei o perfil de “X”, que havia comentado numa postagem minha duvidar de pesquisas, sendo que bastaram alguns segundos dessa minha única visita ao perfil dele para me deparar com duas... pesquisas (tenho as capturas de tela).

Mesmo eu não sabendo o que “X” posta, se algum dia eu me decidir por comentar alguma coisa que ele escreveu ou que compartilhou (não sei se ele escreve textos próprios ou se somente compartilha conteúdos alheios), tomarei muito cuidado para não atribuir à postagem ou ao texto dele algo que nela ou nele não está. É o mínimo que devo fazer ao comentar o compartilhamento de alguém ou o trabalho de alguém.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Rihanna de Azevedo

“É ela! É ela! — murmurei tremendo”.
“You can stand under my umbrella, ella, ella”…
“E o eco ao longe suspirou — é ela!”... “Ella, ella”... 

Duo

quarta-feira, 26 de junho de 2019

De grão em grão

Trinta e nove quilos.
De cocaína.
Transportada por militar.
Em avião da FAB.

A poeira vai baixar.
O pó vai percorrer outros ares.
A única certeza:
“Ao pó tornarás”. 

domingo, 23 de junho de 2019

Fotopoema

Revistas

A IstoÉ já foi um saboroso contraponto à Veja. Hoje, aquela é uma embaraçosa e ruborizadora versão desta. 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Até quinta

Qualquer um que tenha tido interesse em ler o que o Jessé Souza tem publicado, falado e divulgado já sabia quem são Moro e similares. Todavia, mesmo quem nunca tinha lido nem escutado Jessé Souza já podia deduzir, pelos fatos em si, que Moro e os satélites dele não são exemplos de ética no trabalho. Só os ingênuos acreditavam nisso; os mal-intencionados, por conveniência, fingiam acreditar, concentrados muito mais em interesses próprios do que em algo parecido com bem-estar coletivo.

Bastaria prestar atenção nos excessos e descaminhos da Lava-Jato para se saber que a operação estava sendo conduzida não em concordância com a (bela) teoria do direito, mas em sintonia com desejos de um grupo de pessoas, que tiveram no jornalismo brasileiro a interpolação dos descalabros da operação. Um jornalismo canalha, que sempre tratou Moro como herói. Houve quem ingenuamente tenha acredito nisso, apesar das evidências que sempre houve de que ele não é confiável. Não foram somente livros que divulgaram isso; a imprensa independente e até alguns jornalistas de maior alcance já escancaravam quem era Moro e o que é a Lava-Jato nos moldes como ela vinha sendo conduzida.

A leitura de livros nem seria necessária para se chegar a conclusões assim. Agora, o pouco ou o não destaque que a chamada grande imprensa ou o chamado grande jornalismo não dão ao que foi divulgado ontem pelo Intercept é só mais um sintoma de que não temos, nos grandes meios de comunicação do país, empresários comprometidos com o bem público. Nesse escaldado indigesto e fétido, Bolsonaro não tem colhões para demitir Morno nem este tem a hombridade de abrir mão do cargo; tanto este quanto aquele são vaidosos e arrogantes demais. A grande imprensa seguirá atendendo aos interesses dos barões que a detém e o judiciário seguirá piando fino e fazendo de conta que não houve nada demais. Amanhã é terça-feira; depois, quarta. Na quinta, Moro já estará incólume (a bem da verdade, está e sempre esteve). Os fãs já estão loucos para vestirem a camisa da CBF. 

Terêncio e o juiz

Não raro, eu me esqueço das coisas que escrevi. O assunto de que vou tratar neste texto, suspeito, já foi abordado por mim. O problema da repetição não me incomoda, mas sei que pode incomodar um leitor ou outro. Releve, pois, a repetição, você que com ela se incomodar.

Eu tinha uns sete ou oito anos. Estava aqui em casa um cantor ensaiando algumas canções com meu pai, que tocava violão; não me lembro do nome dele (o do meu pai, eu me lembro). Esse cantor se dizia muito religioso. O papa da época era o João Paulo II. Num momento em que não estava havendo ensaio, o interlocutor de meu pai disse que o papa era “um homem santo”.

Meu pai começou então um longo discurso contra essa ideia, alegando que, antes de ser papa, Wojtyła era homem, e, como tal, estava sujeito às intempéries, fraquezas e nobrezas que podem ocorrer com qualquer um. O cantor não concordou; voltaram, ele e meu pai, ao ensaio, este ficando com o elemento humano do papa; aquele, com o suposto caráter divino do representante católico.

Não raro, meu pai tecia duros comentários contra padres, categoria que para ele era desprezível. Sempre que ele ficava sabendo de alguma ação danosa realizada por alguém da igreja católica, ele vinha sempre com o discurso de que “a pior classe de gente que existe são os padres”. Nunca entendi essa aversão dele contra religiosos católicos. Eu deveria ter conversado com meu pai sobre essa questão; como isso nunca ocorreu, fiquei sem saber por que os delitos de outros profissionais eram mais tolerados do que os delitos do clero. Claro que se espera que um padre, em teoria, seja virtuoso, mas, como meu pai sempre dizia, antes de alguém ser padre, esse alguém é um homem, e meu pai era capaz de nomear a hipocrisia quando diante dela. Ele morreu; fiquei sem saber a razão de tanta ojeriza dele contra padres. Há canalhas em qualquer profissão.

O que restou disso em mim foram a resignação e a ciência de que o ser humano é capaz dos atos mais vis, não importa quem ele seja. Felizmente, não ficou em mim apenas o ranço contra a espécie. Meu pai tinha bem desenvolvido e definido o senso de que podemos ser imprestáveis; todavia, ele não conseguiu desenvolver com a mesma acuidade o senso de que podemos valer alguma coisa. O resultado em mim de ter convivido com uma pessoa como meu pai foi que logo, logo eu já sabia que não valemos grande coisa. Disso, graças ao modo como meu pai encarava a vida, eu soube desde cedo; em contrapartida, ainda bem jovem aprendi que pode haver beleza em nós.

A convivência com a literatura solidificou o pensamento de que podemos ser uns trastes, bem como intensificou a ideia de que temos capacidade de nobreza, o que a vida acabaria me mostrando e ainda me mostra. Uma das consequências naturais da criação que recebi por intermédio de meu pai e das leituras que fui realizando foi a de não edificar ídolos, pois já estava arraigada em mim a constatação de nossos humanos limites; outra consequência foi não ter me tornado um ingênuo. Dos seres humanos, espero o pior, ciente de que somos capazes do melhor.

Na juventude, eu ainda não conhecia a máxima do Terêncio: “Sou humano; nada do que é humano me é estranho”. Mesmo sem conhecer a sentença, já corria em mim o remédio que me fazia entender que marmanjos que estupram uma garotinha ou filha que mata a mãe se valendo de um machado são expressões de capacidades humanas. Isso não significa ser inabalável, isso não significa que crimes não merecem punição; significa tão somente não encarar o pior de nós como se não fôssemos capazes de atrocidades.

Obviamente, esse pensamento é estendido às esferas da vida como um todo. Não importa se o delito venha de um pedreiro, de um médico ou de um professor, há em mim a resignação ou a compreensão de que estamos sendo nada mais do que humanos quando incorremos em erros, sejam eles pequenos, sejam grandes. Convivo com o outro na profunda certeza de que ele tem o pior e o melhor da espécie, na certeza de que tenho o pior e o melhor da espécie.

Mesmo assim, por muito tempo, tive dificuldade em entender a credulidade que é sintoma de tola ou de perigosa ingenuidade. O que leva alguém a acreditar, por exemplo, num pastor que alega fazer milagres ou num juiz politiqueiro que se arvora como representante da justiça? Todavia, quando eu me fazia esse tipo de pergunta, eu não estava me dando conta do óbvio: a credulidade ingênua ou a ingenuidade crédula são também expressões do que significa ser gente. “Nada do que é humano me é estranho”. 

domingo, 9 de junho de 2019

Um engodo chamado Lava-Jato

A matéria publicada hoje pelo site The Intercept Brasil revelando conversas por intermédio de aplicativos de mensagens entre Moro, Dallagnol e procuradores da Lava-Jato é a grande conquista do jornalismo feito no Brasil nos últimos anos. O Intercept, que pertence ao jornalista norte-americano Glenn Greenwald, traz à tona o que sempre se soube: que Moro não é o juiz imparcial que ele mesmo alega ser e que os defensores dele dizem que ele é. Uma versão resumida da matéria de The Intercept foi publicada não versão em inglês do sítio.

À parte questão partidária ou ideológica, recomendo a leitura do material produzido pela equipe de Glenn Greenwald. Os responsáveis pela matéria dizem que as mensagens chegaram a eles “bem antes da notícia da invasão do celular do ministro Moro”, o qual declarou que não teria havido “captação de conteúdo” nessa invasão.

A matéria veiculada pelo Intercept confirma o que já era sabido desde quando Moro era juiz, ou seja, que ele é um politiqueiro vaidoso que não respeitou nem o cargo que ocupava nem as instituições pelas quais deveria lutar. O que não havia eram as provas de que ele saía de seu papel de juiz e interferia a favor da causa por ele defendida. Está escancarado na matéria que o ex-juiz deu ordens para investigadores e antecipou decisões em conversas de aplicativos. O Ministério Público do Paraná já partiu em defesa do “paladino”: “O conteúdo das conversas não revela nenhuma ilegalidade”.

Está na matéria publicada pelo Intercept: “A Constituição brasileira estabeleceu o sistema acusatório no processo penal, no qual as figuras do acusador e do julgador não podem se misturar. Nesse modelo, cabe ao juiz analisar de maneira imparcial as alegações de acusação e defesa, sem interesse em qual será o resultado do processo. Mas as conversas entre Moro e Dallagnol demonstram que o atual ministro se intrometeu no trabalho do Ministério Público — o que é proibido — e foi bem recebido, atuando informalmente como um auxiliar da acusação.

“A atuação coordenada entre o juiz e o Ministério Público por fora de audiências e autos (ou seja, das reuniões e documentos oficiais que compõem um processo) fere o princípio de imparcialidade previsto na Constituição e no Código de Ética da Magistratura, além de desmentir a narrativa dos atores da Lava Jato de que a operação tratou acusadores e acusados com igualdade. Moro e Dallagnol sempre foram acusados de operarem juntos na Lava Jato, mas não havia provas explícitas dessa atuação conjunta — até agora”.

A despeito do que foi divulgado pela equipe do Intercept, a ignorância, a cegueira e o radicalismo vão alegar que tudo está bem e que não houve nada de grave nas conversas trocadas entre Moro, Dallagnol e procuradores da Lava-Jato. Não somente atitudes antiéticas vieram a público; transgressão e engodo são desnudados pela matéria. Vivêssemos num país sério, Moro não seria ainda o ministro da justiça; fôssemos um país sério, Moro, Dallagnol e procuradores da Lava-Jato envolvidos nas conversas divulgadas pelo Intercept seriam julgados. Mas bem sabemos que não há judiciário por aqui.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O amor musical de Lizandra

Graças a financiamento coletivo, a cantora Lizandra está lançando o EP Guia prático para amar de novo — Parte 1. O trabalho vai estar disponível em todas as plataformas digitais daqui a algumas horas, à meia-noite.

São quatro, as faixas, todas acústicas: “Te Amo Tanto”, “Só por Você”, “Varanda” e “Entardeceu”. Emerge delas a tradição lírico-amorosa da MPB; cenas do cotidiano são o cenário para as afetuosas letras das canções. “Logo de manhã cedinho / Eu paro pra te ver acordar”, diz a letra de “Te Amo Tanto”; já a de “Varanda” tem o seguinte trecho: “Eu largaria tudo por você / Uma rede, uma varanda / Amor simples de viver”.

Tem-se então que Lizandra celebra o amor, o amor do dia a dia, um amor prático, palpável. Um amor que não vem carregado de tintas melancólicas, seja pela delicadeza das interpretações, seja pelas letras em si. Fosse eu definir de modo muito breve o EP de Lizandra, eu diria se tratar de um trabalho terno e delicado. Nas quatro canções, a expressão de uma cantora que se entrega ao pop, com melodias agradavelmente cantáveis, sem deixar de fazer MPB. Longe de querer delimitar e longe de querer esgotar o trabalho da artista num gênero ou num rótulo, Lizandra faz MPB.

O Artur da Távola escreveu, salvo engano, em Do Amor, Ensaio de Enigma, que uma pessoa pronta para o amor é perigosa para qualquer “status quo”. Nesse sentido, Lizandra é muito perigosa, pois se lança mais uma vez em público e ao público para falar de amor ou do amor em forma de canções. Num Brasil em que parte da população, adoecida, orgulha-se da ignorância, Lizandra oferta para nós canções com roupagem simples e que têm a coragem e a rebeldia de cantarem o amor.

Sim, falar de amor é um ato de coragem e um ato de rebeldia num contexto em que coisas como ternura, delicadeza e conhecimento se ausentam. Em tempos assim, falar de amor é compor um libelo; o de Lizandra tem essa audácia de falar de amor em meio a gritos de ódio e atos de desrespeito. Guia prático para amar de novo — Parte 1 é alento por nos lembrar de que há uma humanidade bonita e viável.

Nas quatro faixas, a cantora tem interpretações delicadas, que estão em sintonia com a temática das letras e que evidenciam uma faceta que me soa nova: uma interpretação mais intimista e ao mesmo tempo mais à vontade, em que o lirismo se mistura com uma pitada de terna malícia. Em entrevista que realizei ontem com a cantora e compositora, ela disse estar mais madura como pessoa e como artista do que há cinco anos, quando lançou seu primeiro trabalho musical. Agora, com Guia prático para amar de novo — Parte 1 (em breve, haverá a Parte 2), Lizandra dá mais um passo a fim de mergulhar de vez em sua arte, corajosa para falar de amor, artista para nos tornar melhores. 

sábado, 25 de maio de 2019

“O que há num nome?” ou O fetiche onomástico

A pergunta do título está na peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare. A digressão de Julieta me veio à tona recentemente por eu ter feito, a princípio, sem querer — e depois, de propósito —, um “experimento” em minhas postagens no Facebook, que nem sempre são postadas neste blogue. Desde quando Bolsonaro surgiu como possível candidato a presidente da república, eu o tenho criticado. Nessas críticas, tenho percebido o seguinte padrão: se o nome dele é diretamente mencionado, os que apoiam o governo dele reservam um tempo para comentar as postagens; se não menciono o nome dele, geralmente não reservam esse tempo.

Esse padrão não é regra absoluta, mas é uma tendência que venho percebendo. Sem eu saber o motivo pelo qual isso ocorre, os que defendem o atual governo parecem não encarar a crítica contra ministros, por exemplo, como metonímia em que o criticado é, em última análise, o chefe do executivo federal. Isso me fez cunhar a expressão fetiche onomástico. A menção ao nome de Jair Bolsonaro desengatilha algo nos apoiadores dele que os leva a interagir com minhas publicações; a menção a ministros, no todo, não aciona esse gatilho. (Essa tendência, seja por que motivo for, pode mudar. Minhas postagens no Facebook não são públicas; junte-se a isso o fato de serem pouco lidas; esse contexto, suponho, anularia ou quase anularia a atuação de “robôs” comentando o que escrevo.)

Não há pretensão de análise sociológica nisso que afirmo. Sou apenas um sujeito incrustado no cerrado, que mora no interior, numa cidade desconhecida no cenário nacional. Eu poderia morar aqui e ter grande influência Brasil afora, mas, é evidente, não é esse o caso; poucos me conhecem, poucos leem o que escrevo. Não sou famoso, não sou lido por milhares de pessoas, não influencio centenas com o que publico. Além do mais, pode ser apenas coincidência o fato de o nome do presidente levar os apoiadores a se posicionarem; pode ser que essas pessoas nem tenham lido as postagens em que ministros ou políticas governamentais sejam criticados. Mesmo assim, não deixa de ser curioso o fato de que, coincidência ou não, defensores do atual governo, em minhas postagens, no geral, não saem em defesa de Bolsonaro quando o nome dele não é mencionado diretamente.

Que não haja dúvida: estou apenas constatando tendência que ocorre no que publico; não estou advogando a favor de números absolutos nem a favor de estudo sociológico-comportamental. Não faço a menor ideia de como se dá com outras pessoas que produzem textos próprios contra o atual governo. Não postulo conclusões nem generalizações, não estou adentrando o reino de suposições baseadas apenas no que ocorre em minhas postagens. Isso seria leviano, nada científico. O que relato não passa de curiosidade com que me deparei.

Outro padrão que tenho percebido nos comentários discordantes do que penso é a negação e o desmerecimento das fontes e das pesquisas que divulgo. Sejam pesquisas, sejam fontes, o que predomina dentre os que discordam é a asseveração de que tudo é mentira, tudo é notícia falsa, tudo é complô para que o presidente seja derrubado. Mesmo aqueles que já divulgaram pesquisas em suas postagens já se mostraram, em minhas publicações, contra... pesquisas, sugerindo que só têm valor as pesquisas divulgadas por eles. Já publiquei pesquisas de pelo menos quatro diferentes fontes; foram taxadas de mentirosas ou de falsas ou de interesseiras. Já mencionei fontes diversas; foram colocadas em xeque. Assim como não faz sentido confiar de modo pleno em tudo o que é divulgado, também não faz o menor sentido só confiar no que está de acordo com nossa opinião.

Tivesse eu tempo e fosse eu sociólogo, usaria, dentre outros, meus próprios textos a fim de concluir algo científico a partir de como os apoiadores de Bolsonaro reagem às (minhas) postagens contra ele, também analisando com cuidado publicações alheias. Como não tenho tempo para uma pesquisa dessa, como eu nem saberia como realizá-la, além do que ela demandaria um fôlego que não tenho, e como não sou sociólogo, que fique o registro de algo que julgo curioso. No mais, uma paródia: what’s in a name? that which we call a Bolsonaro / By any other name would not smell as sweet. 

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Comentário sobre meus livros e sobre fotos recentes de minha autoria

Abaixo, transmissão ao vivo que fiz pelo Youtube. No vídeo, comento sobre meus livros e sobre algumas fotos que tirei recentemente.

domingo, 19 de maio de 2019

A renovação não virá

O Atlético Mineiro fez um péssimo negócio quando demitiu Thiago Larghi e contratou Levir Culpi. Não tendo ele feito trabalho bom na recente passagem pelo clube, foi demitido; no lugar dele, a equipe contratou Rodrigo Santana, enquanto o time partia em busca de novo técnico; flertou-se com Rogério Ceni; as negociações não foram para frente.

O técnico Jorge Jesus assistiu no estádio Independência ao jogo entre Atlético e Flamengo, ontem, o que foi o bastante para que se cogitasse que o português possa ser contratado pelo time de BH. Todavia, Rodrigo Santana (que já treinou a URT) tem feito um belo trabalho no Atlético, que está, com doze pontos, a apenas um do líder Palmeiras. Impossível prever, mas pode ser que em vez de efetivar um técnico que tem feito um belo trabalho, o Atlético se dê mal, investindo num técnico conhecido mas que pode não dar certo no clube, o que seria, em poucos meses, uma reedição do que ocorreu quando Larghi foi demitido e Culpi foi contratado.

Os chamados técnicos de grife, também conhecidos como medalhões, não têm mostrado desempenho à altura do nome ou da fama que têm. Mesmo Felipão, cuja equipe lidera o campeonato brasileiro, é criticado por não propor nada novo, por insistir num esquema de jogo anacrônico, mesmo a equipe sendo a líder do torneio.

Mano Menezes, outro dos técnicos graúdos, é questionado, estando no Cruzeiro há tempos e mesmo tendo conquistado títulos na equipe. Os que cobram mais de Mano alegam que, com o elenco que ele tem em mãos, era para o Cruzeiro estar jogando um futebol bem melhor do que o praticado atualmente. O campeonato brasileiro está no começo, de modo que não é hora ainda de ligar o sinal de alerta quanto à performance da equipe no que diz respeito a rebaixamento. Todavia, caso o time não avance na Libertadores, em que terá parada duríssima, contra o River Plate, e caso empenho e desempenho no campeonato brasileiro continuem ruins como estão, o trabalho de Mano talvez passe a ser questionado até por aqueles que ainda concordam com o que ele tem feito.

Vanderlei Luxemburgo, após hiato longe do futebol como técnico, estreou hoje no Vasco, que, em São Januário, empatou com o Avaí — 1 a 1. Luxemburgo é outro medalhão que há tempos, não só pelo tempo que ficou longe dos campos, não propõe nada novo. Tem a chance agora, no comando do Vasco. Será mais do mesmo ou vai apresentar alguma ousadia? Lembremos que o elenco do Vasco está longe de elencos poderosos, como os do Flamengo, do Grêmio ou do Cruzeiro.

Poder-se-ia argumentar que por isso mesmo seria difícil para Luxemburgo ousar, pois o elenco não daria ao técnico possibilidade de inovações. Todavia, a nova geração de técnicos tem o nome de Fernando Diniz, que está no Fluminense; mesmo tendo Ganso no elenco, o time não é estrelado como o de outras equipes brasileiras. Diniz não pode ser acusado de não buscar novos caminhos para o futebol praticado no Brasil. Sem elenco badalado, tem mostrado ímpeto e exibido um jeito de jogar que pode não agradar aos defensores do futebol proposto pelos medalhões, mas que é um alento na pasmaceira do futebol nacional. Não creio que os medalhões vão apresentar algo novo. Restaria torcer para que os dirigentes investissem em novos e ousados fôlegos. Mas duvido de que isso vá ocorrer. 

Fim do namoro?

Esta é a capa da piauí deste mês. Está aqui por duas razões: há dias, eu a postei em rede social, mas não consegui, na ocasião, descobrir de quem era a autoria do desenho; é de Nadia Khuzina. Eu já suspeitava de que fosse dela, por ela já ter feito outras capas para a revista, mas não tinha então a certeza. Crédito dado, pois. 

A outra razão pela qual publico a capa do periódico: Olavo de Carvalho anunciou que não mais se meteria no governo, o que foi interpretado como sendo ele mais um apoiador a ter pulado fora. Não sei se Carvalho já mudou de ideia quanto a não se meter no governo e se ele está mesmo pulando fora. Se estiver, o namoro da capa da piauí teria chegado ao fim. De qualquer modo, ainda que Carvalho pule fora do barco, o barco não vai pular fora de Carvalho. A não ser que o barco afunde de vez.

À parte Carvalho, recentemente, o cantor e compositor Lobão anunciou que pulou fora. O MBL também sido crítico contra o governo federal. Para o MBL, Carvalho é influência nefasta, com o que concorda a ala militar do governo. Todavia, o núcleo familiar de Bolsonaro obedece às ordens de Carvalho.

O que é fato: com apenas cinco meses de governo, já se fala em impeachment. Tanto que anteontem (ou, talvez, trasanteontem), no medidor de tendências do Google (Google trends), buscas como “impeachment inabilidade” e “impeachment de Bolsonaro entra no radar” aumentaram (captura de tela na postagem).

Ainda que o governo federal tenha se mostrado inábil para negociar na câmara dos deputados, não conseguindo se articular nem com os aliados, ainda que os setores que apoiaram Bolsonaro não consigam se entender, não vislumbro impeachment, no que posso estar errado. Se o governo cair, terá sido por outro(s) fator(es). Se.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Pequeno é quem votou; pequena é a Globo

A Globo, ao entregar a Sidão, goleiro do Vasco, o “prêmio” de “melhor” jogador da partida realizada ontem, contra o Santos, tentou fazer novamente o que a emissora insiste em realizar: entretenimento em vez de jornalismo. Só que no caso da entrega do “prêmio”, não houve entretenimento, ainda que ruim, mas sarcasmo, ironia e desrespeito contra um profissional. Se alguém jogar mal, que seja criticado, que seja cobrado, mas partir para uma zombaria impensada e cruel é história bem diferente de exercer uma crítica que pode até ajudar o profissional a melhorar.

O goleiro do Vasco foi submetido a uma humilhação. Segundo o que li, os profissionais da emissora que estavam no estádio trabalhando durante a partida teriam sido contra a entrega do “prêmio”. A ordem para que ele fosse dado a Sidão teria partido de algum diretor de esporte, cujo nome não consegui apurar.

O que não tem sido dito até então é o quanto é preciso criticar o comportamento do torcedor, dos que escolheram Sidão como o “melhor” da partida, levando-se em conta que a votação tenha de fato sido como a Globo anuncia, ou seja, por intermédio de escolha dos internautas. Não se mencionou que as pessoas, não somente no futebol, não têm senso o bastante para separar o que é gracejo ou humor inteligente do que é ofensa e desrespeito contra alguém que estava exercendo sua profissão.

O que os torcedores fizeram é a expressão de uma sociedade que não tem pudor de achincalhar alguém que estava trabalhando. Não satisfeita com o achincalhamento, ficou colada na tela da TV para conferir ao vivo a materialização de uma atitude pequena, atroz, levada a cabo por uma emissora que nunca se preocupou em tratar o futebol com abordagem jornalística, fazendo, em vez disso, um espetáculo acrítico e dedicado a uma turba mais preocupada em ver sangue do que sensatez. A Globo deve ser — e foi — criticada pelo que fez com o Sidão, mas não pode ser acusada de não ser reflexo de parte dos que a assistem. Ela não deveria abonar a burrice e a maldade de parte dos telespectadores; entretanto, a história do canal é a prova de que respeito nunca foi moeda corrente nas ondas globais.

Neste ano, a Globo não transmite na totalidade, via Premiere, nem jogos do Palmeiras nem do Athletico Paranaense no campeonato brasileiro. Isso não quer dizer que o império esteja abalado (além do mais, no ano que vem, a emissora pode recuperar direitos de transmissão dessas duas equipes no torneio), mas que os times percebam que há alternativas fora das galhofas sem graça da Globo. Do que ainda não sabemos, é se as galhofas dos concorrentes serão tão cretinas quanto as da emissora carioca. 

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Todos os números do presidente

Havia sido divulgado que o exército dera oitenta tiros e matou Evaldo Rosa dos Santos, no dia sete de abril deste ano, no Rio de Janeiro. Evaldo morreu no mesmo dia; Luciano Macedo morreria onze dias depois, em decorrência dos tiros dados pelo exército. Oitenta e três disparos acertaram o carro em que Evaldo e Luciano estavam.

Todavia, laudo divulgado anteontem revela que houve mais de duzentos disparos contra o carro em que os assassinados estavam. “Mais de duzentos” é um número muito impreciso; o laudo, ou pelo menos o que foi divulgado dele, dirime um pouco dessa imprecisão:

• um tenente disparou 77 vezes (há registros de mais 11 tiros dados pela arma dele no mesmo dia, mas não há confirmação de que teriam sido dados na ação que matou Evaldo Rosa dos Santos e Luciano Macedo);
• outro militar disparou 54 vezes;
• três soldados atiraram 20 vezes cada um;
• outro disparou 14 vezes;
• os demais atiraram de 1 a 9 vezes.

A despeito dos dados acima, a imprecisão permanece no trecho “os demais atiraram de 1 a 9 vezes”. Desconsiderada essa imprecisão, tem-se a seguinte conta:

77 + 54 + 60 + 14 = 205

Sem se levar em conta “os demais”, que atiraram de 1 a 9 vezes, houve 205 disparos. Para efeitos matemáticos e históricos, caso se faça um contingenciamento no número de disparos, tem-se que, por exemplo, 30% de 205 equivalem a 61,5, o que já é um número exorbitante, levando-se em conta que o assunto são disparos contra um carro de civis que estavam indo a uma festa.

Ainda assim, bem sabemos que não haveria problema para o ministro da educação, se fosse o caso, transformar 61,5 em 6,15, valendo-se de barras de chocolate. Também sabemos que, para o presidente, não importa o número de disparos, “o exército não matou ninguém”. 

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Vai que...

Há dias, o presidente exibiu cicatriz na barriga causada pela facada e o ministro da educação exibiu cicatriz no ombro causada por acidente. Se a onda pega, que ninguém no governo passe por circuncisão. 

sábado, 4 de maio de 2019

Poema republicano

“O erro da ditadura foi torturar e não matar. 
“Eu sou favorável à tortura.
“Eu acho que essa polícia militar do Brasil tinha que matar é mais.
“Policial que não mata não é policial”.
“O exército não matou ninguém”.
“Ustra é um herói.
“Eu sonego tudo o que for possível.
“Espero que saia; infartada, com câncer, de qualquer jeito. 
“Só não te estupro porque você não merece.
“Sou homofóbico, sim, com muito orgulho.
“Prefiro ter um filho viciado do que [sic] um filho homossexual.
“Temos famílias (...): quem quiser vir fazer sexo com mulher, fique à vontade”.

Fim.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Classe

Não é só parcela da classe média que gostaria de ser rica. Há parcela de pobres que também gostaria. A diferença é que os pobres não pensam que são. 

Dísticos familiares

“Temos famílias”:
se o exército der oitenta tiros, não terá matado ninguém.

“Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade”:
“Temos famílias”. 

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Por si

Não temo a escuridão.
Temo as criaturas que nela pode haver.
Não criaturas sobrenaturais —
nelas, não creio.

Eu temeria a escuridão
a depender das criaturas naturais
que nela estivessem comigo.
São elas o que eu temeria
no escuro ou no claro.

Sozinho, eu vagaria sem medo
pelas trevas ou pelas luzes.
Mas há seres à espreita
quando falta claridade
ou quando falta escuridão. 

terça-feira, 30 de abril de 2019

Os que não suportam a arte

Há quem não suporte a arte. Esse alguém pode ser um intelectual, um presidente, um professor, um gari. Há quem não suporte a arte por ter medo dela. Ou por ter inveja dela. Ou porque é imbecil. A arte incomoda certas pessoas porque elas têm medo de olharem para si no espelho; elas têm medo de olhar para quem se olha no espelho e têm medo de serem olhadas por quem se encara no espelho e as encara.

Há quem tenha medo da arte porque ela inquieta, rebela-se, pergunta, analisa, maravilha-se, denuncia, zomba. Já queimaram livros, já queimaram pessoas, mas a arte, teimosa e bela, aí está, encarando e deixando sem chão criaturas destituídas de senso artístico. Sem saber o que fazer com a arte, essas pessoas ora matam, ora xingam, ora torturam...

Os que não suportam a arte sabem destruir, desfazer, desmanchar, gritar, prender, matar; incapazes de edificar, o verbo, neles, é somente fúria, demolição e ausência de pensamento. Há analfabetos que não suportam a arte; há pessoas cultas que não suportam a arte. Os que se esqueceram de que foram crianças não suportam a arte.

Não suporta a arte quem não entende que somos mais obscuros do que gostaríamos e quem supõe que as questões da vida estão demarcadas rigidamente, como num tabuleiro de damas. Não suporta a arte quem é incapaz de sentir o belo ou quem é incapaz de produzi-lo. Quem não vislumbra no outro homem todos os outros homens não suporta a arte.

Não suporta a arte quem se fecha no próprio corpo, quem não o entende, quem tem medo do próprio corpo, quem demoniza o que ele quer e quem tem medo do corpo do outro, do querer do corpo do outro. Não suporta a arte quem não é capaz do refinamento da inteligência ou da grandeza de ações. Não suporta a arte quem não percebeu que somos, ao mesmo tempo, ricos deuses e pobres diabos.

Os maniqueístas não suportam a arte. Os machões que berram forte a fim de esconder a criançona chorona que há neles não suportam a arte. Não suportam a arte os que não admitem diversidades. Não suporta a arte quem não quer se conhecer e quem não quer conhecer o outro.

Não suporta a arte quem não aguenta três acordes de lucidez. Não suporta a arte quem não sabe o que fazer com uma mulher sedenta ou com uma que procura aconchego. Não suportam a arte os que dependem de um revólver para se sentirem homens. Não suportam a arte os vassalos das fardas, os que cantam com fingida pungência o hino nacional e lesam os cofres públicos.

Não suportam a arte os que erguem muros. Não suportam a arte os que não têm a menor ideia do que sejam sutilezas, do que sejam detalhes, do que sejam pequenas, frequentes e frutíferas transformações. Quem não planta não suporta a arte; não suporta a arte quem destrói a plantação.

Quem só sabe ser barulhento não suporta a arte, bem como quem não sabe se calar. Quem não é capaz de amar não suporta a arte. Os que não gostam de gente não suportam a arte; os destituídos do senso do espanto não a suportam. Os que esquartejam, torturam e assassinam não a suportam. Os que defendem esquartejamentos e torturas não a suportam. Os que defendem ditadores não a suportam. Os ditadores não a suportam. Os que confundem patriotada com patriotismo não suportam a arte. Pode-se esquartejar ou torturar ao som de Mozart. Quem assim age não entendeu a essência da arte, que é comunhão, elevação.

O terreno da arte não são engessadas e superficiais certezas, mas movediças, inspiradoras, iluminadoras e profundas incertezas. A arte requer coragem. Também por isso os covardes não a suportam. 

domingo, 28 de abril de 2019

Velozes e furiosos

A família Bolsonaro tem pelo menos quarenta e quatro multas de trânsito. O presidente, a atual esposa dele e os filhos do militar da reserva foram multados nos últimos cinco anos. As infrações estão registradas no Detran/RJ. As multas da família perfizeram R$ 5.800,00. A maioria delas, vinte e quatro das quarenta e quatro, é por excesso de velocidade.

O presidente anunciou que cancelaria a instalação de oito mil fotossensores nas estradas. Ele também quer revisar contratos já existentes. Além disso, anunciou que é intenção dobrar para 40 pontos o limite de infrações em um ano. Na legislação atual, o limite são 20 pontos. 

A filosofia que cria cordeirinhos para abate

Alegar questões financeiras para não investir em filosofia e em sociologia nas universidades é balela. Em si, os cursos não requerem investimentos pesados, pois não requerem laboratórios nem equipamentos caros, o que é demanda de outros cursos; outro dado que deve ser levado em conta é o de que discentes de filosofia e de sociologia representam 2% dos que estão em cursos superiores em universidades públicas. Fosse mesmo questão econômica, o governo preocupar-se-ia, dente outras coisas, em gastar menos com o cartão corporativo, também mantido pelos contribuintes. Nos dois primeiros meses do atual governo federal, o aumento de gastos com o cartão corporativo foi 16% maior em relação à média dos últimos quatro anos. E olha que esse perdulário governo defendida o fim desse cartão. Não só o manteve como elevou os gastos com ele.

Respeitar o dinheiro do contribuinte é dar a ele oportunidades, não privá-lo delas, não privá-lo do conhecimento, e só uma mente limitada hierarquiza o saber, separando-o em útil e em inútil. Não existe conhecimento inútil. Atribuir níveis de importância aos diversos afluentes do conhecimento é não querer dar a oportunidade ao cidadão de ser uma pessoa mais plena, mais capaz, com maior noção do mundo em que vive, não importa se essa pessoa é um técnico em eletrotécnica ou se é um neurologista. Dominar uma engenharia não significa que alguém não possa conhecer o percurso histórico, sociológico e filosófico por que vem passando a humanidade; isso faz parte da plenitude do que é ser cidadão. A estratégia de excomungar filosofia e sociologia nada tem a ver com questões econômicas, embora seja esse o pretexto.

Para o governo federal, os estudos de humanas não respeitam o dinheiro do contribuinte e não dão retorno imediato. Mentes pequenas não conseguem vislumbrar mais longe do que o dia de amanhã. Há retornos que são imediatos e há retornos que demoram a surgir. Além do mais, o imediatismo não dever ser essência política de um governo. Ao mesmo tempo em que há questões pragmáticas e urgentes, por outro lado, um país precisa de planejamento para o que não é imediato. Qualquer gestor de qualquer área sabe disso. Todavia, é mais fácil apelar para um imediatismo inconsequente do que apresentar um projeto que vislumbre décadas no porvir.

A estratégia de banimento dos estudos de humanidades é simples, mas de eficácia incontestável. Em essência, é uma estratégia que não permite ao ser humano o acesso à palavra. Sem esse acesso, a pessoa vai se tornando algo parecido com um autômato, uma criatura sem capacidade de organizar pensamento e sem capacidade de (se) observar, dois graves entraves para essa própria criatura e para a elevação do pensamento social. Esse cenário é perfeito para engodos políticos. Nesse viés, distopias como “1984”, do George Orwell, e “O planeta dos macacos”, do Pierre Boulle, são contundentes retratos do que pode ocorrer quando o acesso à palavra vai se esvaindo. Mas livros são palavras. Palavras ampliam e refinam o cidadão. Um sujeito com noção histórica, sociológica e filosófica é pedra no sapato e rocha recalcitrante em qualquer projeto que pretenda execrar o pensamento. Para muitos, o negócio é gerar cordeirinhos que se jactam de serem enfileirados para tosa e abate. 

Passeio