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domingo, 24 de abril de 2022
Entrevista com Luís André Nepomuceno
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Luís André Nepomuceno
domingo, 10 de abril de 2022
Em breve, novo livro de Luís André Nepomuceno
Em breve, o escritor Luís André Nepomuceno lança seu novo livro, Relicário de Todas as Coisas. Neste vídeo, o autor lê trechos do romance.
quinta-feira, 31 de março de 2022
A educação após Bolsonaro
Com a devida autorização do autor, publico o texto abaixo.
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A educação após Bolsonaro
Luís André Nepomuceno
Em 1949, Theodor Adorno publicou “Crítica cultural e sociedade”, um ensaio desconcertante, em que ele dizia que escrever poesia após Auschwitz é um ato bárbaro. O filósofo de Frankfurt parecia antever uma dificuldade imensa de retorno à consciência ilustrada depois da degeneração da cultura em tamanhos atos de barbárie. Adorno pensava a profundidade que se encerra no seio do totalitarismo. E sobre ele precisamos também pensar com urgência.
O totalitarismo, dizia Hanna Arendt, diferentemente das políticas ditatoriais e dos governos despóticos, encontra-se dentro do indivíduo. Sua ação é no interior de cada um, transformando ou consolidando profundamente sua forma de agir e de pensar, por meio da propaganda e da doutrinação. Como no fascismo, por exemplo. Por isso, essa “sociedade secreta montada à luz do dia” precisa de uma massa humana amorfa, fácil de ser manipulada, uma massa sem consciência de si e do outro, por vezes até mesmo indiferente à política, uma massa ressentida e ignorante das complexidades que a manipulam.
Mais que isso, o totalitarismo implica a morte do indivíduo e de sua consciência, a anulação de sua memória e de sua identidade, agora disposta a colaborar com a nova máquina política de aniquilação do outro, o outro negro, o outro pobre, o outro índio, o outro mulher, o outro socialista, o outro diferente, que deve ser banido. Dizem que soldados portugueses cristãos, em guerras no oriente, eram orientados a não olhar nos olhos dos inimigos muçulmanos, para não se darem conta de que por trás dos olhos havia um ser humano. Era melhor compreendê-los como abstrações a ser exterminadas.
Essa massa disforme que se entrega ao totalitarismo são os indivíduos “fáceis”, imbuídos de uma consciência social e política frágil. Em nosso cenário, o governo Bolsonaro descobriu que esses indivíduos, bem como instituições inteiras, são tão fáceis quanto as mulheres ucranianas que Arthur do Val observou, pleno de excitação.
O modelo totalitário de Bolsonaro também entendeu que as escolas precisam ser fáceis de alguma forma. Por isso, aplaudiu o antigo projeto da Escola sem Partido, um modelo ultraconservador de tendência fundamentalista e neoliberal que, antes de ser acusado de ideológico, apressa-se em dizer que o outro é que é ideológico, como fácil motivação para persegui-lo. É por meio de uma campanha totalitária, apoiada inclusive por grupos neopentecostais, que pais e estudantes conservadores buscam impor uma agenda puritana nos domínios da sala de aula. Hipócritas e reacionários, procuram vigiar cada passo do professor, ávidos por flagrar nele alguma insinuação sexual, alguma ideologia de gênero ou doutrinação marxista. Qualquer indivíduo é suspeito no modelo totalitário, dizia Hanna Arendt.
Em dezembro de 2018, um mês depois da eleição de Bolsonaro, mães de alunos de uma escola municipal no interior de São Paulo proibiram seus filhos de assistir ao espetáculo teatral “Miguilim Mutum”, da Companhia Azul Celeste (baseado na obra de Guimarães Rosa), porque alegaram que tinham receio sobre o conteúdo da peça. O espetáculo foi cancelado. Que pena: se tivessem assistido, os meninos teriam se encantado com o mágico universo da infância de Miguilim e seu duro aprendizado rumo à vida adulta. Mães puritanas, movidas pela máquina totalitária, subtraíram a seus filhos a chance da maturidade. Talvez tenha faltado a elas os óculos que o personagem usa na última cena para enxergar o mundo.
Professores de português já me confessaram que se veem forçados a levar para a sala de aula um amontoado de textos insípidos, frases sem contexto para análise sintática, por receio de represália dos pais. Enquanto isso, a escola vai deixando de
formar o leitor, com toda a sua potencialidade crítica, com toda a inteligência que lhe é devida, sem que ele suspeite que a aula de português, para além da gramática, da sintaxe, é também, e essencialmente, a amplitude da consciência crítica sobre o humano. Lemos para entender que por trás dos olhos apavorados do outro existe um ser com história, identidade e memória subjetiva.
O pior legado de Bolsonaro não será a economia (que esta, com o tempo, se conserta), nem a polarização política, nem mesmo a negligência com a saúde. O pior legado de Bolsonaro estará dentro do indivíduo: a educação depois de seu plano totalitário, a dificuldade imensa de retorno ao discernimento ilustrado depois da degeneração da cultura, a transformação sombria da consciência das pessoas. Deste legado vêm todos os outros.
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segunda-feira, 29 de outubro de 2018
"Caravela da Ilusão"
Recentemente, foi realizado o VI Festival de Teatro Universitário de Patos de Minas. Um dos espetáculos foi “Caravela da Ilusão”. Abaixo, resenha sobre o espetáculo escrita pelo professor, escritor e ensaísta Luís André Nepomuceno.
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O mundo sob as asas de um anjo
“Caravela da ilusão” mistura linguagens cênicas e põe à vista a prostituição do sagrado
Luís André Nepomuceno (*)
Em sua página no Facebook, a Companhia de Teatro Espaço Núcleo, de Limeira-SP, antecipa que “Caravela da Ilusão” é um espetáculo que tem a morte como sua protagonista. Ainda que seja verdade, isso diz pouco para a riqueza e a complexidade do espetáculo que venceu seis prêmios no VI Festival de Teatro Universitário de Patos de Minas, promovido pelo UNIPAM entre os dias 9 e 14 de outubro, com apoio da Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal. Na sinopse da grade de programação do Festival, a Companhia ainda nos informa que o espetáculo aborda a vida de uma família que se vê perdida numa ilha após um naufrágio.
Mas “Caravela da ilusão”, no entanto, também é mais que tudo isso. Com texto e concepção cênica de Jonatas Noguel, contando com Matheus Gonçalvez, Felipe Santos e Pablo Abritta no elenco, o espetáculo, bastante premiado em festivais pelo país, é uma visão sombria, mística, mas ao mesmo tempo cômica da existência humana. A família a que se refere a sinopse é metáfora de todos nós: depois de um naufrágio numa ilha que não remete a nenhuma geografia ou a nenhum local específico, num tempo que igualmente não remete a nenhum tempo histórico, a família se vê como sobrevivente numa terra que fora amaldiçoada por guerras. Pelayo tem um filho pequeno que não para de chorar, e a avó anseia por ficar surda para não ouvir o choro.
A rotina dessa gente é interrompida pela enigmática chegada de um anjo, que parece dar vida à ilha e curar a criança. Misto de encantamento e prosaísmo, não é um anjo representado na sua concepção convencionalmente cristã, mas uma figura ambígua, de asas negras, que fala língua estranha, que muda o cenário a seu redor, que é decadente e tem vestes em frangalhos. Sua presença, mais que sua chegada, é o retrato vivo das contradições que se impõem ao entendimento humano.
Mas frente a esse mesmo entendimento, não deixa de ser em essência um anjo. E cura. E de tal maneira cura, que a família, tomada de ambição, sujeita esse mesmo anjo a seu capricho materialista: expõe sua imagem à peregrinação dos necessitados, prostitui sua divindade, vende seu corpo. Desse comércio do sublime, a família herda senão aquilo que a caracteriza: a mundanidade, a total incompreensão dos segredos mais fundos da vida. Vem novo naufrágio, e todos deverão submeter-se uma vez mais à roda da vida e da morte, como quem nada entendeu da visita que recebera. Apenas uma criança, um “menino que viveu sozinho por anos nesta ilha”, restará como a imagem intocada pela prostituição do sagrado.
“Caravela da ilusão”, misturando cantigas folclóricas com cenários e figurinos arquetípicos, é um espetáculo necessário num país que anda corrompendo e degradando até a última gota o seu projeto de nação e a lenta construção de seus anseios mais profundamente humanos. Aliás, terá sido este o recado do VI Festival de Teatro Universitário de Patos de Minas, com sua mostra de 15 espetáculos competitivos e dois convidados internacionais: o de que os ideais humanos, ainda que aviltados pelo rebaixamento das verdades, podem superar a prostituição daquilo que, para muitos, ainda é sagrado.
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(*) Luís André Nepomuceno é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, e professor de Literatura no Centro Universitário de Patos de Minas.
quinta-feira, 9 de março de 2017
Entrevista
Neste áudio, sou entrevistado pelo escritor e professor Luís André Nepomuceno. Falamos de meu mais recente livro, Amor de Palavra, que será lançado amanhã (10/03), bem como de outros assuntos.
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quarta-feira, 16 de novembro de 2016
Entrevista com Luís André Nepomuceno
Neste áudio, bate-papo com o professor, ensaísta e ficcionista Luís André Nepomuceno, que vai lançar em breve seu quinto livro de ficção.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Luís André Nepomuceno em entrevista sobre Cyro dos Anjos
Neste “link”, áudio de entrevista que o escritor e professor Luís André Nepomuceno, do Unipam, o Centro Universitário de Patos de Minas, concedeu hoje para a Rádio UFMG.
No bate-papo, Luís André fala sobre Cyro dos Anjos, escritor de Montes Claros. Cyro morreu em 1994. Se vivo estivesse, faria aniversário hoje.
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terça-feira, 27 de setembro de 2016
As luzes de Luís André Nepomuceno
Luís André Nepomuceno, escritor, tradutor, ensaísta e professor, é de Patos de Minas/MG. Nasceu em 1968. Cursou letras no Unipam, o Centro Universitário de Patos de Minas. Seus estudos de pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado) foram realizados na Unicamp. É professor do Unipam.
O autor tem uma vasta produção acadêmica, com publicações no Brasil e no exterior. Todavia, este texto não se deterá sobre o que Nepomuceno tem produzido na academia. A intenção aqui é jogar alguma luz sobre o que o intelectual tem produzido na ficção.
Quatro livros dele já foram publicados pela editora 7Letras: Antipalavra (2004, contos), A Lanterna Mágica de Jeremias (2005, romance), Os Anões (2009, romance) e Histórias Abandonadas (2011, contos). Está no prelo Diário da Criação do Mundo, livro de contos (será lançado daqui a pouco mais de um mês, em novembro).
Tanto em seu trabalho acadêmico quanto em seu trabalho de ficcionista, Nepomuceno tem no Humanismo um dos pilares. Seu trabalho intelectual, seja ele voltado para a academia, seja ele dedicado à literatura de imaginação, investe na possibilidade de elevação do homem, que é, na visão do autor, o grande projeto a ser edificado. Nesse projeto, há fios condutores que podem ser identificados.
Seus personagens, não raro, estão às voltas com a literatura. Eles são leitores ou são escritores. Considerado no todo, o trabalho de Nepomuceno é expressão de um autor nem um pouco preocupado com iconoclastias nem com negações do que nos legaram as tradições. O que se dá é bem diferente disso: há a busca de uma prosa poética que alude com sutileza e verossimilhança ao arcabouço da literatura clássica.
Na dicção do autor, os clássicos convivem com seu jeito moderno de narrar. Nesse jogo, dá-se a reflexão metalinguística. É um tópico que perpassa toda a sua obra. O questionamento é frequente: teria a palavra a capacidade de realmente expressar a essência do que somos? Não há uma resposta pronta, mas ambivalências.
Em determinado momento, no conto “Antipalavra”, que dá título à primeira obra de ficção publicada por Nepomuceno, o narrador reflete: “Para que serve uma palavra, senão para distanciar os homens?” (1). Por outro lado, em A Lanterna Mágica de Jeremias, há um diálogo de Olavo, editor, com Jeremias, que Olavo quer publicar. Diz este: “— Sr. Jeremias, escrever é uma dádiva que deve ser preservada pelos maiores. É a sua dádiva, e não deve ser nunca escondida dos outros” (2).
Na obra do escritor, ora a palavra é o que nos revela, ora é aquilo que nos esconde; ora é ponte, ora é abismo; oração, ora maldição. Paira nos livros do autor mineiro um jogo de dizer e de não dizer. Nesse viés, em última instância, não é paradoxal afirmar que dizemos e não dizemos, seja com o corpo, seja com a palavra.
Mencione-se a reflexão que a obra nepomuceniana tece sobre a violência. Embora o cenário das histórias, em sua maioria, seja o interior, em especial um interior mineiro de outras épocas, isso não implica ausência de crueldade. No conto “Os homens do morro”, que está em Antipalavra, um grupo de homens aborda um senhor que seguia seu destino em carroça puxada por cavalo. No decorrer da narrativa, ele, o senhor, é forçado pelos homens a puxar a carroça, como se fosse ele o cavalo.
Em “A Caminho de Damasco”, conto de Histórias Abandonadas, o narrador, enquanto dirige, vê um corpo caído na beira da estrada. Segue dirigindo, embora o corpo não lhe saia da cabeça. Decide voltar. A princípio, pensara se tratar de um homem; quando está diante do corpo, dá-se conta de que era uma mulher que vestia roupas masculinas. A continuidade da história revela que ela era uma prostituta; estava na beira da estrada porque havia sido espancada.
No romance Os Anões, há cenas de intensa e dramática violência física. Todavia, é preciso ressaltar que a violência nos livros de Nepomuceno não se dá no cenário urbano, essa violência que é principalmente fruto da pobreza, do tráfico de drogas e da corrupção. Os livros do autor não lidam com o caos urbano, o que não implica dizer que não haja neles a substância do que é a maldade.
Parece contraditório eu mencionar a violência, tendo dito que o projeto do autor é humanista. A contradição é aparente. Se por um lado há a manifestação da crueldade de que o homem é capaz, por outro, a literatura do autor é edificada sobre a esperança, que é outro poderoso afluente dos contos e dos romances produzidos por ele. Logo no começo de A Lanterna Mágica de Jeremias, o narrador declara: “Sou das luzes, não suporto escuridão” (3).
Num escritor maduro, esperança não implica ingenuidade. A literatura de Luís André Nepomuceno, sem evitar o que o homem tem de sórdido, busca a iluminação. Os livros dele estão plenos de referências metafóricas à luz, a olhos que não sabem enxergar, mas que um dia hão de. No mundo criado pelo escritor, há uma riqueza que vai além do que os olhos contemplam agora; um dia, vamos transcender, seremos plenos de luz. Não bastasse, o amor. Visitar grandes temas não é obrigação dos grandes artistas, mas o autor os aborda. Estão nas páginas de Nepomuceno as inquietações, as ambiguidades e as delícias do amor e do sexo.
Eu diria serem esses alguns dos pontos pelos quais a obra do ficcionista pode ser estudada. Acrescente-se aí uma pitada de humor na quantidade certa. O quadro que se tem é tão vasto quanto a natureza do que somos. No mais, fio-me nas palavras do narrador do conto “Da dignidade humana”, que está em Antipalavra: “Essas lições me vêm à cabeça só porque gosto muito de gente” (4).
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(1) NEPOMUCENO, Luís André. Antipalavra. Rio de Janeiro: 7Letras. 2004. Pág. 33.
(2) NEPOMUCENO, Luís André. A Lanterna Mágica de Jeremias. Rio de Janeiro: 7Letras. 2005. Pág. 73.
(3) NEPOMUCENO, Luís André. A Lanterna Mágica de Jeremias. Rio de Janeiro: 7Letras. 2005. Pág. 18.
(4) NEPOMUCENO, Luís André. Antipalavra. Rio de Janeiro: 7Letras. 2004. Pág. 84.
quinta-feira, 19 de maio de 2016
Professor Luís André Nepomuceno ministrará curso
Vem aí mais um curso de extensão ministrado pelo professor Luís André Nepomuceno — O Decameron de Giovanni Boccaccio. Vai ser nos dias 4 e 18 de junho. Não é preciso ser aluno do Unipam para participar. Bora nessa?
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terça-feira, 15 de setembro de 2015
SIMPÓSIO SOBRE CYRO DOS ANJOS É REALIZADO
No fim de semana, participei, no Unipam (Centro Universitário de Patos de Minas), do Primeiro Simpósio de escritores de Minas: Cyro dos Anjos. Publico nesta postagem algumas fotos e a programação do evento. Publico também um texto meu sobre o escritor a que o simpósio era dedicado.
Programação
11/09
19h, abertura
19h15, apresentação musical: canções folclóricas de Minas, com o Grupo Tupam (Núcleo de Arte e Cultura/Unipam)
19h30, mesa-redonda de abertura:
Professor doutor Élcio Lucas (Unimontes): “O homem que espia o homem: o Belmiro por trás da letra”
Professor doutor Luís André Nepomuceno (Unipam): “A menina do sobrado: o amor e o belo como distintivos sociais”
Mediador: Professor Lívio Soares de Medeiros
12/09
14h, mesa-redonda 1
Professor mestre Carlos Roberto da Silva (Unipam): “O herói fracassado em O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos: notas de leitura”
Professora mestra Bruna Pereira Caixeta (doutoranda em Teoria e História Literária pela Unicamp): “A menina do sobrado e o romance não autobiográfico de Cyro dos Anjos”
Professor doutor Frederico de Sousa Silva (UFU): “Apontamentos clássicos em Cyro dos Anjos”
Mediador: Luís André Nepomuceno
15h45, mesa-redonda 2
Professor Moacir Manoel Felisbino (Unipam): “Ofício de escritor — da arquitetura textual à indagação acerca do sentido da vida em Abdias”
Professor Lívio Soares de Medeiros (IFTM): “Poemas coronários, de Cyro dos Anjos: impressões de leitura
Mediador: Carlos Roberto da Silva
Belmiro Borba e Belmiro Montesclarino — Lívio Soares de Medeiros
Cyro dos Anjos publicou “Poemas coronários” em 1964. O livro havia sido escrito no ano anterior, de vinte e dois de agosto a dezenove de setembro, enquanto o autor estava internado. Os doze breves poemas que compõem o volume foram escritos na iminência da morte.
O autor logo anuncia um eu lírico para os poemas — Belmiro Montesclarino. De imediato, a “piscadela” nos remete ao narrador de “O amanuense Belmiro”, romance de Cyro dos Anjos. Ora, se por um lado há que se tomar certo cuidado ao associar a biografia do autor à sua obra, por outro, o próprio Cyro dos Anjos, ao nomear o eu lírico de “Poemas coronários” como sendo Belmiro Montesclarino, propõe um jogo lúdico-literário-biográfico. Afinal, Cyro dos Anjos é de Montes Claros; além do mais, ele, de fato, relembremos, esteve internado devido a problemas coronários.
Seria útil e didático comentar brevemente cada um dos “Poemas coronários”. A paráfrase deles que faço a seguir os empobrecerá, mas será útil para que se tenha uma visão global do que é, em minha leitura, o corpo do texto. Os poemas não têm títulos. Na ordem em que aparecem, enumero-os e comento-os a seguir:
Poema 1: celebra-se o nascimento do dia;
Poema 2: na iminência da morte, cria-se um deus;
Poema 3: não se quer nem o deus de Aristóteles nem o deus de Espinosa: quer-se um deus com zangas e birras, mas que seja bom;
Poema 4: confessa-se a fragilidade que se tem, bem como a dependência que se tem dos outros;
Poema 5: a morte é visita; pede-se que ela vá embora, pois há um filho para se criar;
Poema 6: não saber quem se é nem se o que se é vale para algo;
Poema 7: atmosfera de tristeza e de fragilidade. O tom é quixotesco;
Poema 8: expressa-se a alegria de estar vivo ao acordar (o que acaba remetendo o leitor ao primeiro poema do livro);
Poema 9: “O corpo vence a morte”;
Poema 10: a vida vale a pena, desde que vivida uns pelos outros;
Poema 11: a família do autor é apresentada;
Poema 12: a morte tem belo aspecto; desculpas são pedidas “aos poetas de ofício”.
Emerge da leitura dos doze textos o retrato de um eu lírico fragilizado, humanizado. Essa fragilidade se expressa em textos que não têm conhecidos (embora eficazes) truques literários. A literariedade, que poderia ter ficado mais evidente do que o que se confere na leitura, está em segundo plano (os textos, por exemplo, são classificados como poesia muito mais em função do aspecto visual do que pela cadência que têm); o que há são os medos, inseguranças e alegrias de quem está num hospital, temendo perder a vida. É como se o que importasse não fosse fazer literatura, mas, sim, registrar o que poderiam ser as últimas palavras a serem escritas por um paciente em um hospital.
O caráter frágil a que me referi acima é também estilístico. Os “Poemas coronários” se valem da retórica da falsa modéstia. Antes mesmo do primeiro poema, numa espécie de introdução, o eu lírico usa as expressões “lira ingênua”, “escritor menor” e “imperito nas artes poéticas”; no último poema, recordemos, esse mesmo eu lírico pede desculpas “aos poetas de ofício”. Cyro do Anjos, prosador que era, estava, nos “Poemas coronários”, pisando terreno que não percorria em sua trajetória de escritor. Essa falsa modéstia acaba por estar em sintonia com o tom espontâneo dos poemas.
De “O amanuense Belmiro”, valho-me de uma frase, a fim de realçar algumas diferenças entre o narrador do romance e o eu lírico dos “Poemas coronários”. Num dado momento, Belmiro anuncia: “Creio que já não quero o mito mas a pessoa”. A pessoa em questão é Carmélia, de quem Belmiro fala ao longo da obra.
Os “Poemas coronários” abrem mão de um mito, por assim dizer; abrem mão do mito literário. Em “O amanuense Belmiro”, há a construção de um personagem/narrador. Dito de outro modo: forja-se um personagem/narrador. Seria um tanto difícil para o leitor que não teve contato pessoal com Cyro dos Anjos apontar o que dele, Cyro dos Anjos, há em Belmiro. Em contrapartida, talvez um tanto irresponsavelmente, afirmo: o eu lírico dos “Poemas coronários” é Cyro dos Anjos. Se não o é plenamente, pelo menos o é em maior escala do que Belmiro Borba. Este passa o livro todo construindo um mito, seja por não ter Carmélia, seja por edificar uma persona literária. Quando não tem mais a capacidade de erigir mitos, desiste de escrever.
Nesse sentido, é curioso o quanto o narrador Belmiro é diferente do narrador Casmurro. Menciono isso por já ter havido comparações entre Cyro dos Anjos e Machado de Assis. À parte a concordância ou a não concordância quanto a tais comparações, Casmurro e Belmiro diferem nisto: aquele, terminada sua narrativa, já adquiriu o gosto pela escrita; tanto é assim que anuncia, nas linhas finais de “Dom Casmurro”, que iniciará a escrita de outro livro; já Belmiro, mesmo tendo escrito o segmento “esta literatura íntima é a minha salvação”, acaba por anunciar que não há mais o que escrever, pois a vida se tornara vazia. Um dá sentido à vida por intermédio da escrita; o outro abandona a escrita por ter perdido o sentido da vida.
domingo, 10 de maio de 2015
EM SALA DE AULA
Uma boa aula tem sobre o espírito o mesmo efeito de uma boa leitura: ambas são inspiradoras. Ontem à tarde, no Unipam, depois de três horas de aula com o professor Luís André Nepomuceno, pós-doutor em teoria literária pela Unicamp, saí inspirado.
Ele começou ontem o curso de extensão “Literatura e Psicanálise”; a continuidade será no dia vinte e três de maio. Segundo material distribuído pelo professor, os objetivos do curso são “analisar os conceitos fundamentais da psicanálise freudiana, como forma de identificá-los com uma teoria crítica da literatura” e “aplicar conceitos da psicanálise na leitura de textos literários diversos”.
Na aula deste nove de maio, Luís André fez uma introdução às ideias que precederam a psicanálise, tendo sempre em mente o ambiente histórico que produziu tais ideias. A seguir, conceitos fundamentais da psicanálise foram expostos, sempre com o viés histórico em mente. Numa terceira etapa, e à luz do que havia sido debatido durante a aula, foi lido o poema “Coleção de cacos”, de Carlos Drummond de Andrade. Para a aula de vinte e três de maio, além de produções drummondianas, estão programadas discussões de textos de Aníbal Machado, de Hans Christian Andersen, dos irmãos Grimm e de D.H. Lawrence.
Luís André Nepomuceno tem profícua trajetória acadêmica; vem se dedicando ao ensino, à pesquisa, à tradução e à escrita de ensaios. Paralelamente, é ficcionista, tendo publicado contos e romances pela 7Letras. Ele foi meu professor (de literaturas inglesa e americana) por dois anos; posteriormente, eu seria colega de trabalho dele no Unipam.
Por algumas vezes, em conversas com o Luís André, eu me vali do adjetivo “industrioso” para me referir à postura dele diante do mundo das palavras, sejam elas textos acadêmicos, sejam textos ficcionais. Ele produz muito. Como professor, o didatismo dele é do tipo que não tira nem a beleza nem a profundidade do que está sendo estudado. Consciente de seu papel de docente no ensino superior, oferta, com seu jeito diplomático de conduzir as relações em sala de aula e com sua cultura, momentos em que a beleza do conhecimento toma conta do ambiente.
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
LUÍS ANDRÉ NEPOMUCENO INTERPRETA TEXTO DE MINHA AUTORIA
De tempos em tempos, Luís André Nepomuceno vem aqui para casa a fim de gravar alguns textos literários. São momentos de risadas e de literatura, o que já é motivo o bastante para que as gravações ocorram.
Professor e escritor, Luís André ainda tem a verve de ator, o que, ademais, é comum na família dele. Nesta postagem, ele interpreta Proposta, texto de minha autoria. Basta dar “play” acima para que você escute o poema.
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PROPOSTA
Texto: Lívio Soares de Medeiros
Interpretação: Luís André Nepomuceno
Casa comigo.
Casa comigo num aquário.
Ou então debaixo de uma árvore – ou sobre ela.
Casa comigo: pode ser na rua,
num túnel ou num estádio.
Numa capela ou numa mansão.
Ou dentro de um carro.
Quem sabe na roça?...
Ou numa grande cidade?...
Casa comigo.
Casa comigo todos os dias.
Casa comigo agora.
Casa comigo numa praça ou num canto.
Num riacho ou num restaurante.
Casa comigo de manhã, de madrugada
ou às quinze para as quatro.
Casa comigo.
Não precisa contar para o padre – conte comigo.
Casa comigo e depois, se preciso, a gente conta.
A gente conta e casa depois.
A gente casa quantas vezes for preciso.
Casa comigo, vestida de noiva ou de vestido.
De tênis ou de salto.
No escuro ou na ribalta.
Casa comigo.
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sexta-feira, 14 de março de 2014
"O DIFÍCIL PARTO DO PORCO-ESPINHO"
As fotos desta postagem foram tiradas no dia trinta de dezembro de 2006. A princípio, quando vi o porco-espinho, pensei se tratar de um ninho (sic) ou algo assim. Só que de repente o “ninho” começou a se movimentar...
Desci logo da moto, já com a câmera pronta. À medida que o bicho se movia, eu o fotografava. Dava ele a impressão de estar próximo a uma área urbana (fiz o registro lá no bairro Copacabana) por causa da enchente pela qual o Rio Paranaíba passou em 2006.
Enquanto eu fotografava, um carro da polícia militar ia se aproximando. De longe, os policiais viram que eu apontava algo em direção a uma árvore. Aceleraram então o veículo e dele desceram rapidamente, talvez tendo suposto, vendo-me de longe, que a lente longa acoplada à câmera fosse o cano de alguma arma.
Quando desceram do carro, fiz, lentamente, gesto para que não se movessem, voltando-me logo após para o porco-espinho. Os policiais então entenderam o que estava ocorrendo e se aproximaram pé por pé, para não espantar o bicho. Pude fazer mais de uma dezena de fotos dele.
O título desta postagem é o título de um conto do professor, ensaísta, tradutor e escritor Luís André Nepomuceno. O conto está no livro “Antipalavra”, lançado em 2004 pela editora 7Letras. Também pela mesma casa o autor lançou “A lanterna mágica de Jeremias” (2005) “Os anões” (2009) e “Histórias abandonadas” (2011).
sábado, 3 de setembro de 2011
CAIU NA REDE (76)
Pessoas, está no ar a edição 76 do programa Caiu na Rede. O entrevistado desta edição é Luís André Nepomuceno, que lança no próximo 10 de setembro (ver convite em postagem abaixo) o livro “Histórias abandonadas”.
Luís André, que já havia concedido, via e-mail, entrevista para este blogue, é professor, ensaísta e escritor. “Histórias abandonadas” é seu quarto livro de ficção.
Agradeço demais ao Luís André pela entrevista e pela predisposição em gravar o Caiu na Rede, no que foi uma divertida e agradável tarde de sábado.
Para baixar a entrevista, clique aqui.
Para baixar a entrevista, clique aqui.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
LUÍS ANDRÉ NEPOMUCENO LANÇA LIVRO NO PRÓXIMO DIA 10
Pessoas, abaixo, convite para o lançamento do livro “Histórias abandonadas”, de Luís André Nepomuceno, que já concedeu entrevista para este blogue.
Brevemente, Luís André Nepomuceno será entrevistado no Caiu na Rede – embora ele ainda não saiba disso...
segunda-feira, 25 de julho de 2011
CAIU NA REDE (70)
Pessoas, está no ar a edição 70 do programa Caiu na Rede. Para escutar, é só dar “play” aí no alto, à direita, onde está escrito “dê ‘play’ e escute o Caiu na Rede”.
Os entrevistados desta edição são Luiz Salgado e Lilian Fulô. Muito gentilmente, estiveram aqui em casa numa tarde de domingo (24/7) para a gravação do programa. Houve também a participação especial de Luís André Nepomuceno.
No bate-papo, a gente se esqueceu de falar do DVD de Luiz Salgado e de sua presença nas redes sociais. Em parte, preencho esta lacuna: para conferir o perfil de Salgado no Facebook, clique aqui; para conferir a página dele no Youtube, clique aqui; para conferir o trabalho no Myspace, aqui; e para conhecer o blogue, aqui.
Eu já havia comentado no Liviano sobre Luiz Salgado, quando ele e Fulô fizeram um show num restaurante local. Na ocasião, conversamos sobre música e escrevi uma breve nota sobre o show.
Nesta edição do Caiu na Rede, o tempo para o bate-papo foi maior. Agradeço demais ao Luiz Salgado e à Lilian Fulô pela extrema gentileza, pelo humor e por terem partilhado o talento que têm.
E você, que lê esta postagem agora, espero que goste do programa. Caso queira baixá-lo, basta clicar aqui. Valeu.
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009
LUÍS ANDRÉ NEPOMUCENO ESCREVE SOBRE "O CADERNO SECRETO DE LORI"
Jornal local publicou recentemente texto de Luís André Nepomuceno, professor do Unipam (Centro Universitário de Patos de Minas), sobre a peça teatral “O caderno secreto de Lori”. Abaixo, com a devida autorização do autor, o texto que saiu no jornal.
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HILDA HILST CONTINUA NOS INCOMODANDO
Espetáculo baseado na obra da escritora, e apresentado no III Festival de Teatro em Patos de Minas, é visão amarga da infância destruída
Luís André Nepomuceno
Dentre os espetáculos apresentados no III Festival Nacional de Teatro Universitário de Patos de Minas, promovido pelo UNIPAM, “O caderno secreto de Lori” parece ter provocado um debate bem mais caloroso e acirrado do que os demais espetáculos normalmente vinham provocando. O monólogo, resultado do Trabalho de Conclusão de Curso de Jéssica Azevedo na UFMG, dirigido por Marcelo Rocco, e tendo Jéssica Azevedo no papel de Lori, é uma adaptação do polêmico romance de Hilda Hilst, “O caderno rosa de Lori Lamby” (1990), cuja mais recente edição saiu pela Editora Globo, com desenhos de Millôr Fernandes (2005). Lori é uma menina de 8 anos, vítima de seduções e da iniciação sexual que vem de seus próprios familiares, como os pais, os tios, ou de fregueses que participam das bandalheiras de que a menina é obrigada a participar. Seria comovente e, por certo, receberia a aprovação de qualquer espectador disposto a condenar um dos mais graves crimes do mundo moderno, a pedofilia, não fosse um detalhe comovente e incômodo: Lori (a exemplo de outras personagens clássicas da literatura libertina) registra, em boa parte de seu monólogo, que, embora seja ingênua, sente-se naturalmente inclinada aos favores sexuais que os adultos lhe impõem, nada vendo de reprovável no fato de que, para isso, receba chocolate e sorvetes como prêmio.
Uma das acusações feitas ao olhar de Marcelo Rocco e Jéssica Azevedo é a de que o diretor teria conduzido todo o espetáculo a uma exaltação dos prazeres da menina, em detrimento de uma denúncia mais pungente dos crimes que lhe são impostos. Em suma: que a direção estaria evidenciando na menina muito mais o prazer de ser pervertida do que o sofrimento que isso certamente acarreta.
Rocco, na verdade, optou por uma saída engenhosa e sutil, levando o espectador a rever seus próprios preconceitos. A primeira atitude de quem está diante da cena é acusar a menina de safadinha, de pervertida, de quem está gostando das orgias de que é obrigada a participar. Mas é nisso que reside o lado provocador do texto: o sofrimento da menina, que existe com profundidade, é preenchido por espaços vazios e quase invisíveis, sempre a nos revelar que sociedade nunca os enxerga. Cabe ao espectador (tanto quanto ao leitor, no livro da Hilda Hilst) completar e compreender esses espaços, como os terríveis momentos de silêncio de uma menina que não compreende o que está dizendo e o que está acontecendo com ela. É um exercício de revisão de valores por parte do espectador. Na verdade, um exercício de compreensão sutil de quem fez um julgamento precipitado.
Há pontuações evidentes do sofrimento de Lori: a dor física que ela sente, depois de se entregar aos homens; o processo cruel de sedução dos adultos (que ela não entende que é sedução); a dança desengonçada e sofrida de um balé estranho; a cegueira insinuada, quando ela tem os olhos vendados; e por fim, a crueldade da cena final, quando ela é sugestivamente violentada por um ícone da indústria infantil, um bichinho de pelúcia que se transforma num monstro. Aliás, entre as armadilhas da sedução dos adultos, evidencia-se no drama de Marcelo Rocco uma sátira cruel à imensa indústria infantil de erotização da criança. Como aponta Alcir Pécora, na apresentação do livro de Hilda Hilst, “a obscenidade n’O caderno não é senão demonstração ostensiva do lixo nacional, particularidade (nunca exceção) do sórdido humano”.
Hilda Hilst parte de uma estratégia que considero entre as mais engenhosas na estrutura de uma narrativa: ela é capaz de construir a identidade de um narrador que conta uma história, a partir de um determinado enfoque ingênuo e mal compreendido. A personagem do romance de Hilst e a personagem do monólogo de Marcelo Rocco são narradoras a quem não se pode dar crédito, pela sua própria incapacidade de discernimento do real. É o que o crítico John Gledson chama de “narrador impostor”, a respeito dos personagens dos romances de Machado de Assis. São narradores incapazes de compreender a própria natureza daquilo que veem e narram, ou narradores que arrastam o leitor a uma compreensão parcial dos fatos. O discernimento, nesse caso, é um exercício do leitor, ou do espectador, jamais do narrador. Trata-se de uma ironia cruel e amarga. Se o espectador não souber compreender esse exercício de desdobramento das vozes da narrativa, ou da linguagem cênica, por certo não será capaz de ter compaixão pela menina (exercício imprescindível no acompanhamento do espetáculo), e terá por ela um sórdido sentimento de preconceito. É uma safadinha, não mais que isso.
Mas devemos lembrar sempre que, na arte cruel da sedução, Lori é a seduzida, não o sedutor, é a vítima, não o carrasco. Mais que isso, de depravada, torna-se ingênua, quase inocente. Mais ainda: torna-se limpa e pura na sua simplicidade extrema de falar o que vem à boca. Não é à toa que um dos mais comoventes momentos do espetáculo é a “Ave Maria” que se toca ao fundo, enquanto ela nos revela o seu caderno secreto, o seu diário de menina.
Sim, Marcelo Rocco poderia ter optado por evidenciar o sofrimento de Lori, com toda a clareza possível, de tal forma que a peça ficasse mais óbvia e mais didática. Mas sua narradora tem apenas 8 anos e não é capaz de discernir moralmente os fatos; no entanto, narra-os de tal forma que nos obriga a fazer esse discernimento por ela.
Está aí a percepção sensível do que foi mostrado. Comovente, belo, irônico, amargo e desafiador, o espetáculo de Rocco acrescenta muito ao romance de Hilda Hilst. Pena que a peça não recebeu premiação alguma no Festival em Patos de Minas.
sexta-feira, 27 de março de 2009
ENTREVISTA COM LUÍS ANDRÉ NEPOMUCENO
Amanhã, 28 de março, a partir das 20h, no auditório do Colégio Marista, vai ocorrer o lançamento do livro “Os anões”, de Luís André Nepomuceno. É seu terceiro livro de ficção, todos lançados pela Editora 7Letras, por intermédio da qual já saíram “Antipalavra” (2004) e “A lanterna mágica de Jeremias” (2005).O autor também é ensaísta. Publicou “A musa desnuda e o poeta tímido: o petrarquismo na Arcádia Brasileira” (Annablume, 2002) e “Petrarca e o Humanismo” (Edusc, 2008). Em seu trabalho acadêmico, vem publicando em revistas do Brasil e do exterior.
Pleno homem das letras, também se dedica à tradução, tendo vertido para o português “Vida de Petrarca”, de Ugo Dotti (Unicamp, 2006). Com pós-doutorado pela Unicamp, Nepomuceno é professor no curso de Letras do Centro Universitário de Patos de Minas (Unipam). Na instituição, foi até recentemente o coordenador do curso em que leciona, cargo que exerceu por quase dez anos. Atualmente, além das aulas, é o responsável pelo Núcleo de Editoria e Publicações do Unipam, criado neste 2009.
Procurado por mim, o autor gentilmente concedeu a entrevista abaixo, a primeira publicada por este blogue. Entrevista e texto crítico sobre o livro (este, já publicado aqui) serão publicados também na edição deste sábado do jornal Folha Patense.
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Liviano: Parece-me que “Os anões” tem uma linguagem e uma sintaxe diferentes de seus dois outros livros de ficção. Essa mudança se deve ao tema do livro ou não somente ao tema?
Luís André Nepomuceno: O abuso nas estruturas sintáticas, na construção deste livro, se deve essencialmente ao tema e às formas de olhar o mundo do próprio personagem-narrador, que é portador de uma miopia avançada e, tendo perdido os óculos no começo da narrativa, não é capaz de perceber com exatidão as coisas que acontecem a seu redor. O estranhamento da linguagem é um pouco a representação disso. A estrutura narrativa, em especial a estrutura dos diálogos (escritos de tal forma a confundir as vozes do discurso) reflete um pouco esse olhar, que é igualmente uma metáfora das formas restritivas de se olhar o mundo e a sociedade.
Liviano: O que mudou no ficcionista desde o “Antipalavra” até “Os anões”? E o que não mudou?
Nepomuceno: Em geral, não gosto muito de ler meus textos já publicados, porque sempre dá uma vontade enorme de mexer numa coisa ou outra. É incrível como, de um livro para outro, a gente sente um processo de desenvolvimento que, por vezes, só é percebido inteiramente pelo próprio autor. Relendo alguns contos de “Antipalavra”, especialmente os mais antigos, tenho sempre o ímpeto e o desejo da mudança. “Antipalavra” foi um livro gestado numa década inteira, numa época em que houve contos que foram inteiramente reescritos, outros lançados ao lixo, outros engavetados à espera de outras possibilidades. O que mudou? A linguagem, sem dúvida, que hoje parece mais limpa, menos intoxicada com exercícios inúteis de malabarismo. O que não mudou? Meus ideais, que continuam os mesmos: a crença no belo, na eternidade, no próprio homem para além de suas fronteiras. Isso não parece nem um pouco moderno? Mas o que se há de fazer? Detestaria a angústia de dizer o que não sinto, o que não quero.
Liviano: O que lhe dá mais prazer: a ficção, o ensaio ou a tradução? Ou são prazeres diferentes?
Nepomuceno: São prazeres diferentes, sim, mas a ficção está acima de qualquer coisa, às vezes parece substituir a própria vida. Como não é possível viver todos os mundos possíveis, todas as vidas sonhadas, então escrevemos ficção. Pode também parecer sublimação freudiana, mas acho que a arte e as projeções da beleza precedem essas análises, que sempre parecerão reducionistas. No ensaio, as idéias são muito técnicas, e particularmente prefiro o ensaio de natureza acadêmica, que não inventa de ser poesia. A tradução é uma experiência curiosa, porque eventualmente te força a escrever de uma forma que você não deseja. Mas o tradutor, para não ser traidor, deve sempre fazer o exercício de não ser ele mesmo, mas aquele que ele traduz. Por tudo isso, a ficção (para além da poesia, é claro) se revela como a face mais íntima do escritor. É o momento em que ele é ele mesmo, ainda que sob máscaras.
Liviano: Jorge Luis Borges disse que o escritor passa a vida inteira escrevendo o mesmo livro. Caso você concorde, qual seria o seu?
Nepomuceno: É uma pergunta difícil, mas concordo inteiramente com Borges. Tenho, sim, a curiosa sensação de estar escrevendo o mesmo livro, a mesma coisa, apenas com variações por aqui e ali. Isso me incomodava até certo tempo, mas depois que entendi que o processo é esse mesmo, fiquei conformado. Tenho na cabeça a idéia de um romance em que o narrador procura avidamente (e depois descobre) os manuscritos antigos de um filósofo de outro tempo. À medida que vai lendo seus escritos, entende que sua própria vida se modifica em função dos seus entendimentos sobre o conteúdo daqueles escritos. Tudo isso me pareceu uma repetição de “A lanterna mágica de Jeremias”, ou do “Cartografias da imagem” (romance inédito, ainda por ser revisto). Será que eu estava escrevendo a mesma coisa? Acho que sim, mas definitivamente isso não me parece um problema.
Liviano: Você tem preferência maior por algum de seus livros de ficção? (Por quê?)
Nepomuceno: Penso que a gente sempre tem preferência pelo último texto escrito, por ele ainda estar compatível com os seus últimos anseios. Gosto de “Os anões”. Às vezes me ocorrem pensamentos como “eu precisava muito escrever tal coisa”, e depois me lembro: mas isso está em “Os anões”. Sinto certo alívio. Depois penso: Mas como eu acho importante ter escrito isso. Cada um considera as suas importâncias. Eu considero as minhas.
Liviano: Em sua atuação acadêmica, você se dedica à pesquisa sobre Petrarca e Boccaccio, que estiveram no alvorecer do Humanismo. Até que ponto o Humanismo é influência em seu trabalho de ficção?
Nepomuceno: Sempre pensei que, na minha ficção, nunca tinha dado respostas pessoais às obras de Petrarca e Boccaccio. Mas os escritores não têm que legitimar e ponderar sobre essas influências. De qualquer forma, entendi depois que os ideais humanistas estavam impregnados na minha ficção, muito mais do que eu imaginava. Quem me chamou a atenção para isso foi ninguém menos que Fábio Lucas, que me deu a honra de comentar os meus dois livros. Mencionando certos contos de “Antipalavra”, apontou neles esse viés do Humanismo, e especialmente o de Petrarca. Uma vez mais: não parece nada moderno? O que se há de fazer? Que os mais contemporâneos e afinados com as últimas exigências da técnica pós-qualquer coisa me perdoem. Ou pelo menos que me tolerem. “Cartas do novo mundo”, que é um livro que por enquanto está apenas na minha cabeça, é a reescrita de um episódio que aconteceu na vida de Petrarca que, quando esteve em Verona, fugindo de perseguições políticas, encontrou um dos mais raros manuscritos da Idade Média: as cartas de Cícero e Ático. Não podendo furtar o manuscrito (como fez o atrevido Boccaccio, numa biblioteca da Itália), ele teve de copiar o manuscrito inteiro à mão (seriam 700 páginas hoje), e com o braço direito quebrado! Acho o episódio maravilhoso. Isso é um amor irrestrito à humanidade e ao legado que o ser humano é capaz de nos oferecer.
Liviano: Acho complicado perguntar para um ficcionista sobre os escritores de sua predileção, pois me parece que tudo o que é lido acaba “respingando” no que se escreve. Ainda assim, você poderia apontar escritores que julga decisivos em sua formação?
Nepomuceno: Quando li Thomas Mann, tive a nítida impressão de que minha visão sobre a literatura e sobre meus projetos pessoais estavam divididos entre antes e depois dessa leitura. Thomas Mann disse coisas que há muito eu esperava ouvir, especialmente as relações entre os anseios sociais e espirituais do escritor e sua condenada inclinação burguesa para o prazer estético. É uma angústia de natureza platônica, como está em “Morte em Veneza”, por exemplo. Eu diria que é um escritor que determinou a formação das minhas idéias mais essenciais sobre a literatura e a arte. Mas há tanta gente por aí que seria injusto não mencionar: Graciliano Ramos, Drummond, Machado de Assis (sempre, não é?), o próprio Guimarães Rosa (que me ajudou a formar, embora hoje já não o tenha como um modelo); e os clássicos inevitáveis: Homero (a “Ilíada” me impressionou profundamente – n’Os anões, há uma cena nitidamente homérica, quando disputam o corpo de um cadáver), Boccaccio, que é um contador de histórias extraordinário; e outros modernos, Walt Whitman, Shakespeare. Sabe quando percebo que estou diante de um grande escritor? Quando ele próprio me incita a escrever, depois de ler o seu livro. É o que tem acontecido com Mário de Andrade, que recentemente tem quase me obrigado a escrever alguma coisa, depois de eu ter lido a sua ficção. Genial.
Liviano: Você já se dedicou ao estudo do violão. Também já realizou exposição de quadros. O fato de não mais exercer essas atividades se deve somente à falta de tempo?
Nepomuceno: Não é falta de tempo. Há um tempo para tudo. No passado, me dediquei fervorosamente à música, depois às artes plásticas, namorei o teatro rapidamente, depois nem sei mais. Essas coisas me deram respostas a certos anseios, em determinados momentos. A literatura, não, me acompanhou a vida inteira. Esposa fidelíssima. Se eu tivesse mais tempo hoje (e como desejaria ter!), tenho certeza de que me dedicaria cada vez mais a ler e escrever. E escrever muito.
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