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domingo, 6 de dezembro de 2015

APONTAMENTO 296

Nunca nutri grandes esperanças nem quanto à humanidade nem quanto aos desígnios da vida, se é que os há. Há em mim um intenso sentimento de resignação; todavia, do outro lado da moeda, um intenso desejo de rebeldia. Eu me rebelo contra, para me valer de uma expressão do Drummond, o “sistema de erros” do mundo, mesmo sem nutrir expectativas quanto à mudança de atitude na pequenez do homem. Essa minha inútil rebeldia convive com a profunda certeza de que nada vai mudar. Se mudar, será para pior. Mas sei que minha rebeldia não se calará. Ela não deixa de ser uma espécie de esperança. Inútil. Mas esperança. É paradoxal, mas é assim. Apesar de minha resignação, eu me rebelo, também numa tentativa de me sentir mais próximo de outros que já se rebelaram. Minha rebeldia é meu jeito de ter esperança, ainda que uma esperança estranha. Minha rebeldia é meu modo de não me render à insanidade. 

terça-feira, 7 de abril de 2015

SOBRE OS REBELDES

A expressão “rebelde inteligente”, do modo como encaro a rebeldia, é redundante. O espírito rebelde, tal qual o concebo, é sagaz, não destrutivo. A rebeldia constrói ideias, instiga, inspira, entusiasma.

O verdadeiro rebelde quer o bem comum. Para quem não sabe entendê-lo, o rebelde é visto como mero arruaceiro, desses que tolamente saem por aí fazendo tolas pichações. Nada mais distante de um rebelde do que um arruaceiro.

O verdadeiro rebelde luta por conquistas coletivas. Nessa sua luta, pode se enganar, é claro, mas ele não se predispõe a enganar os demais. Pode ser visto como encrenqueiro ou como individualista. Com frequência, é banido, mas as coisas pelas quais luta são atemporais.

O verdadeiro rebelde incomoda os conservadores por quebrar a pasmaceira, por questionar, por ter noção de seus direitos e por cumprir os deveres. Por natureza ou em essência, o rebelde é um idealista, um sonhador, um utópico. Suas atitudes são consequência desse espírito.

O sonhador incomoda por mexer no estado em que as coisas se encontram. O que para ele é simples afirmação pode ser visto como balbúrdia por aqueles que têm interesse em conservar o astral como ele está. O mundo melhora graças aos rebeldes, não graças aos que estão interessados mais em si mesmos do que na evolução de uma coletividade.

O rebelde professa, quer ensinar, quer mostrar, quer contar. Ele quer dizer a todos sobre uma outra possibilidade; uma possibilidade livre, menos pesada, menos opressora. Ele se cansa, ele desiste; contudo, para apoquentação de muitos, o rebelde volta. Se não em pessoa, voltam suas ideias, as quais, a rigor, nunca vão embora.

O rebelde incomoda quando age. Sua beleza é tal que ele continua incomodando mesmo depois de ter ido embora. Às vezes, mesmo sem intenção, o rebelde desestrutura, agita, faz vibrar.

O rebelde sabe que nunca terá a seu lado os mais poderosos. Mas ele não anseia pelas bênçãos de quem está no poder. O rebelde se sente à vontade é com aqueles que não têm oportunidade para se manifestarem. Ou que não se manifestam por temerem retaliações.

Poderosos caretas não entendem a beleza da rebeldia. No entanto, reconhecem o perigo que pode haver num grupo quando nele há um rebelde. Sempre haverá um não conformado sendo proscrito. Por um lado, isso é ruim; por outro, se sempre há um rebelde sendo exilado, sinal de que a pujança da rebeldia não nos abandona.

O rebelde não seduz os preconceituosos; é desprezado pelos que, por migalhas ou por carros, bajulam os poderosos; pode causar inveja nos que morrem de vontade de ser como ele. Ainda que sem querer, o rebelde perturba. Por isso mesmo, não raro, é espezinhado.

Os inteligentes não ressentidos, os de mente aberta, ainda que não concordem com alguma ideia dos rebeldes, nem por isso deixam de constatar: os rebeldes são mais do que necessários — eles são encantadores.