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quinta-feira, 27 de setembro de 2018

“Todo Dia a mesma Noite”

O jornalismo brasileiro não se dedica a matérias de fôlego, alimentando-se da preguiça mental de parte dos leitores, ao mesmo tempo em que fomenta essa mesma preguiça. Uma das exceções é a revista Piauí, que ainda realiza matérias densas, escritas com capricho.

Outra louvável exceção no jornalismo do país é a Daniela Arbex, autora de Holocausto Brasileiro e de Cova 312. A jornalista lançou neste 2018 Todo Dia a mesma Noite: a História não Contada da Boate Kiss.

Na noite de vinte e sete de janeiro de 2013, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, a Kiss pegou fogo. Duzentas e quarenta e duas pessoas morreram. Ao esmiuçar a tragédia, Daniela Arbex mistura inteligência, objetividade e afeto num texto que, a despeito da abordagem jornalística, que ela não abandona, emociona não pela desgraça do ocorrido, conhecida de todos, mas por a jornalista evidenciar o aspecto humano e individual de alguns dos personagens que perderam entes no dia do incêndio.

Esse debruçamento sobre o indivíduo já havia sido feito no brilhante Holocausto Brasileiro, em que a jornalista conta a história de famoso manicômio em Barbacena/MG, que por décadas do século XX foi uma usina que fazia adoecer e matava pessoas, com a anuência de políticos e de parte de uma ignorante sociedade. A mesma ignorância e a mesma desumanidade estão presentes em Todo Dia a mesma Noite. Ao se aproximar de sobreviventes ou ao abordar familiares destroçados pelas perdas de familiares na boate, Daniela Arbex revela o descaso e o oportunismo de políticos ou o radicalismo tosco e a falta de compaixão de quem se diz religioso, ao mesmo tempo em que, ao se voltar para os que perderam filhos no incêndio, a jornalista exibe as minúcias do que é ser gente.

O olhar cuidadoso, terno e jornalístico que Arbex tem ao contar a história acaba fazendo com que ela roce a literatura, o que só torna o livro mais grandioso ainda. Marcelo Canellas, autor do prefácio, foi muito feliz ao escrever que Todo Dia a mesma Noite é um “inventário de saudades”. A poética expressão de Canellas dá o tom do livro, que, a despeito de lidar com perdas e com sofrimento, em momento algum resvala na pieguice.

Os objetos que temos são parte de nossa história. Assim, um batom, um par de sapatos, um vestido ou um telefone podem assumir uma dimensão tocante quando os associamos a uma pessoa. Enquanto as dezenas de corpos eram retirados da boate, num dos celulares, ao lado da palavra “mãe”, havia cento e trinta e quatro chamadas não atendidas.

Ao se aproximar dos que foram diretamente afetados pelo incêndio, incluindo familiares, sobreviventes e profissionais que lidaram com o acontecimento, Daniela Arbex emociona; além do mais, o livro acaba sendo alerta quanto ao que pode ocorrer quando há descaso e protelação. Todo Dia a mesma Noite é um documento, uma obra-prima do jornalismo, um sopro de literatura e um testemunho de humanidade. 

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Veja só

A editora Abril, que publica, dentre outras revistas, a Veja, dá, agora, prova de sua desonestidade não somente em seu carro-chefe, mas também em não pagar os direitos dos profissionais que demitiu recentemente. Cerca de oitocentas pessoas foram recentemente mandadas embora pela família Civita. Dessas oitocentas pessoas, cento e cinquenta são jornalistas.

É direito da editora contratar e demitir quem ela quiser, quando quiser. O direito que ela não tem é o de dar o cano nos que trabalharam para ela. Desonesta com o país, qualquer um sabe que a Abril sempre foi. O que eu não sabia é que ela é desonesta na hora de pagar direitos trabalhistas de quem ela demite.

Os jornalistas que foram dispensados criaram um comitê, que por sua vez emitiu comunicado em que tornaram público o vilipêndio da Abril na recusa da editora em pagar o que a lei ainda assegura a trabalhadores. O vexaminoso comportamento da família Civita me remete a Balzac, para quem “por trás de toda grande fortuna há um crime”.

A Veja, a despeito de não fazer jornalismo, vai continuar tendo um séquito à disposição, leitores que seguirão acompanhando o semanário, ainda que a revista abandone o papel e se torne disponível somente em telas eletrônicas. Quanto aos processos que receberá por parte dos profissionais que demitiu, a família Civita sabe que está do lado mais forte na disputa que terão contra ela.

Os que dizem que a Veja abandonou o jornalismo e passou a se dedicar a outro tipo de coisa, do modo como vejo, erram no julgamento: não há como abandonar o que nunca se fez. Outra frase do Balzac se aplica também à revista da Abril: “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”. A Veja vai continuar existindo. 

quinta-feira, 19 de julho de 2018

ESPN

Na chamada grande imprensa e nos chamados grandes meios de comunicação, infelizmente, quase que apenas os profissionais da área esportiva têm feito jornalismo contundente no Brasil. Essa contundência faz com que, não raro, resvalem em temas que, a rigor, deveriam ser abordados por colegas de outras áreas. Ainda bem que o bom jornalismo esportivo tem levado em conta não somente o esporte em si, mas tem entendido que há aspectos sociológicos e políticos que se refletem no esporte.

Dos meios de comunicação do Brasil, a ESPN tem feito um serviço louvável. Ao mesmo tempo em que se dedicam a analisar, principalmente o futebol, sob o ponto de vista tático e sob o prisma das contratações e dos bastidores, entendem que há outras facetas que precisam ser mencionadas. Ao mencioná-las, a ESPN faz um jornalismo gigante, ético e de fato comprometido com o país e seu esporte. Muitos não entendem essa abordagem, por preferirem pseudonacionalismos ou patriotadas em formas de gritos. Os que não percebem o poder da sutileza e da inteligência amiúde concluem que a ESPN não torce a favor do esporte brasileiro.

Em redes sociais e em sítios, acompanho alguns dos integrantes da equipe do canal. Um dos que acompanho é o Breiller Pires, que escreve para o El País Brasil. Seja na TV, seja no espaço em que escreve, Breiller se mostra um conhecedor do futebol, das implicações político-sociais-ideológicas que pode haver nele e do idioma. Muitos alegarão que o domínio do português é condição básica para se exercer o jornalismo, mas não é o que tem ocorrido. Por isso, aludi ao português do Breiller Pires, não importa se escrevendo para o El País, não importa se falando na ESPN.

Outro que acompanho, via Twitter, Instagram e Youtube, é o Mauro Cezar. Em suas redes sociais, além de exibir o apurado senso crítico e a aguda inteligência, que já podem ser conferidos na ESPN, o comentarista não se cala diante dos que arrotam ignorância (a resposta do Mauro a um desses sem capacidade de expressão ilustra esta postagem).

Mesmo deixando de ter direitos de transmissão de grandes campeonatos de futebol, a ESPN é um refrigério para os que acreditam no poder que o jornalismo tem. As concorrentes do canal ou apelam para um assepsia acrítica ou para um histrionismo cansativo. A ESPN acerta no tom e na crítica (que assim continuem). O tipo de jornalismo que fazem surpreende, levando-se em conta que a corporação Walt Disney é a dona do canal. Já demitiram o José Trajano, o que foi uma baita perda para a emissora. Mesmo assim, que continuem a fazer no Brasil o que deveria estar sendo feito pelas outras corporações também: jornalismo. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

APONTAMENTO 309

A diferença entre literatura e jornalismo é que a literatura se propõe a buscar a verdade. 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

JOICE HASSELMANN E AS PALAVRAS ALHEIAS

A Joice Hasselmann foi acusada de plagiar sessenta e cinco (!) reportagens. Ela negou; em nota publicada no Facebook, esbravejou contra aqueles que a estão acusando, mas... apagou, do blogue em que escreve, as postagens que estão sendo acusadas de serem plágio. Ora, se ela garante que os textos são dela, se ela está certa disso, por que apagá-los?... 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

SIM, NÓS TEMOS HOLOCAUSTO


Uma mulher é internada num hospício depois de ter sido estuprada pelo patrão. Uma outra pessoa é internada por ser tímida. Outra, por ter perdido a carteira... Setenta por cento dos internados não tinham diagnóstico de doença mental. 

São histórias que estão em “Holocauto brasileiro” (publicado pela Geração Editorial), de Daniela Arbex. Ela escreveu um livro tão importante, que ele deve ser lido não somente por aqueles que se interessam pelo que se considera a loucura. “Holocausto brasileiro” deve ser lido por quem se interessa por gente. Se não é esse seu caso, insisto: o livro deve ser lido por quem é gente. 

Há um dado na capa do livro: “Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil”. O número se refere aos mortos em Barbacena/MG, no hospício conhecido como Colônia. No auge do extermínio, o lugar chegou a ter dezesseis mortes por dia. 

O texto de Daniela Arbex, bem como as fotos de Luiz Alfredo, publicadas originalmente na revista O Cruzeiro, contam uma história sinistra que perpassou boa parte do século XX. Com sensatez e inteligência, Arbex não se rende ao sensacionalismo: em meio a relatos de vidas dilaceradas no hospício, não deixa de trazer à tona a capacidade que o ser humano tem de ser magnânimo — há histórias grandiosas no livro da jornalista. 

O genocídio sistematizado em Barbacena revela conivência de médicos, de funcionários da instituição e da população. Ao mesmo tempo, conta-se a atuação de alguns médicos, de alguns funcionários e de quem não gravitava na Colônia para que os pacientes de lá não precisassem nem comer ratos nem beber urina. Algumas mães, a fim de protegerem a gestação, passavam fezes no corpo, para não serem molestadas. 

Arguta, Arbex adverte: “Ontem foram os judeus e os loucos, hoje os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos”. “Holocausto brasileiro” evidencia o que o ser humano é capaz de fazer quando, movido por ódio ou ignorância, sente-se apto a realizar uma limpeza social, decidindo, arbitrariamente, quem pode e quem não pode estar em sociedade. “Holocausto brasileiro” é um livro fundamental. Leia.

domingo, 15 de junho de 2014

ESPN BRASIL

É um refrigério poder assistir a um canal como a ESPN Brasil. Não bastassem as análises que dizem respeito aos esportes em si mesmos, os profissionais da emissora dão uma aula de civilidade, de espírito democrático, de ousadia e de musicalidade. Sim, de musicalidade. 

Além dessa musicalidade, fácil perceber, de tempos em tempos, a cultura geral que os integrantes da emissora têm. Tudo bem que cultura geral é meio que condição indispensável para quem trabalha num grande meio de comunicação, mas o modo como a ESPN deixa-nos entrever isso é sutil, inteligente.

Não embarcando num confortável e preconceituoso jornalismo panfletário, as análises esportivas da emissora transmitem independência e autenticidade. Cosmopolitas, não apelam para uma patriotada interesseira e boba; sagazes, acabam exibindo o lado saudável e sensato que o ufanismo pode ter.

Uma pena se tratar de um canal fechado. Por outro lado, ainda bem que o acesso à televisão por assinatura tem se tornado cada vez mais fácil. Que assim continue, para que mais e mais pessoas tenham acesso a uma aula de jornalismo, de comprometimento, de paixão e de cidadania. 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

VEJA SÓ

As pessoas com quem convivo sabem que considero a revista Veja uma excrescência, uma degeneração do jornalismo; a Veja é deplorável, asquerosa, afetada. O meio é uma das piores expressões da imprensa brasileira — se não for a pior.

Entusiastas do periódico acreditam que ele faz jornalismo. É que, à primeira vista, a publicação se parece mesmo com uma revista semanal de informações. Contudo, basta a leitura de matéria qualquer ou de qualquer um de seus articulistas para se perceber que a Veja não está nem um pouco preocupada com jornalismo. Ademais, o tom da revista é uma das coisas mais abjetas que já li.

Obviamente, sei do poder que ela tem para influenciar a população. Além disso, não deixo de reconhecer quando ela faz um trabalho bom — o que é muito raro. Ainda assim, a capa da edição de 14 de maio de 2014 evidencia o poder da leitura; em especial, segundo a capa, a leitura de ficção. Ainda não li a matéria. Embora otimista com ela, não me surpreenderei se houver o usual tom "blasé" e pedante da publicação. Também não será surpresa se o texto for apenas uma propaganda sobre o John Green travestida de jornalismo.