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sábado, 21 de julho de 2018

Que livro você é?

A edição da revista Quatro cinco um deste julho tem texto de Ramin Bahrani; ele fez refilmagem e roteiro de Fahrenheit 451, que já havia sido adaptado para o cinema por François Truffaut, em 1966. Tanto a versão de Truffaut quanto a de Bahrani têm como base o indispensável livro de mesmo título, publicado em 1953 por Ray Bradbury.

Admiro a coragem de diretores que ousam adaptar para o cinema um grande livro, pois existe a conhecida brincadeira a afirmar que, em geral, livros ruins dão filmes bons e livros bons dão filmes ruins. Tanto o filme de Truffaut quanto o de Bahrani não confirmam a “tese” da brincadeira.

A refilmagem de 2018 incorporou a internete como elemento. Aliás, na distopia do filme, essa internete (ou o desdobramento dela), embora tenha preservado comportamentos bizarros fáceis de serem conferidos em postagens ou comentários de redes sociais ou em sítios de notícias, é a detentora absoluta das mentes dos que nela navegam, algo que já ocorre e que se agiganta mais do que a capacidade de armazenamento dos dispositivos eletrônicos. A distopia no filme de Bahrani tem elementos facilmente identificáveis em qualquer regime totalitário, de modo que não há como o espectador não se remeter, por exemplo, a outra poderosa e eloquente distopia do século XX, 1984, do George Orwell, publicado em 1949. 

Fahrenheit 451 não deixa de tocar a ferida: se a sociedade que exibe é regida por opressores que não querem ter acesso a livros, a conhecimento, a liberdade, assim é por elas, as pessoas, terem permitido que as coisas tomassem o rumo que tomaram. Sem cair em discursos longos ou em libelos juvenis contra a publicidade e contra o controle absoluto nas mãos de poucos, Bahrani não deixa de evidenciar o perigo que há quando a tecnologia, para o cidadão, torna-se um fim em si mesma e não um instrumento para que a pessoa seja alguém melhor, enquanto, para o governo, torna-se ferramenta de esmagamento de individualidades. Essa mesma tecnologia, no filme, faz com que a queima de livros ou de pessoas seja espetáculo curtido e compartilhado, enquanto as imagens ardentes aparecem nas paredes dos edifícios. Mesmerizadas pelo show, as pessoas não têm acesso às palavras que poderiam esclarecer o que ocorre na abafadora atmosfera de Fahrenheit 451.

Em determinado momento do filme, uma personagem diz: “O Ministério tem apagado línguas a fim de apagar o pensamento”. Volto a Orwell; em 1984, há o mesmo procedimento, o de se eliminar a linguagem para se manipular o outro. Aliás, a perda da palavra, do verbo, é o mesmo que acomete os humanos no magnífico O Planeta dos Macacos, publicado em 1963, do Pierre Boulle.

Claro que não é coincidência 1984, Fahrenheit 451 e O Planeta dos Macacos lidarem com a perda da capacidade de verbalização. Reflexos de seu tempo, essas obras têm o cerne das distopias, ou seja, não são exercícios de adivinhação nem são deduções do porvir. Elas são hipérboles ou recrudescimentos de tendências que já estavam presentes na época em que foram escritas. O filme de Ramin Baharani manteve a essência da distopia de Bradbury no universo sufocante que exibe e no amor pelos livros que teima em existir.

O amor pela palavra vai permanecer porque ele é o amor pela humanidade. Podem queimar livros, podem queimar pessoas, podem tentar impedir a rebeldia, podem matar, incinerar, deletar, prender. Não conseguirão impedir o voo das palavras. Vocês passarão, elas passarinho. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

EU SOU VOCÊ


É natural que sejamos influenciados pelas coisas com as quais convivemos. Quanto maior a convivência, maior a influência. Num certo sentido, tornamo-nos as pessoas ou as coisas com as quais convivemos. Passamos, por exemplo, a adotar uma palavra que é usada pela pessoa que amamos. Nesse sentido, tornamo-nos, também, os livros com os quais convivemos (essa ideia está, de modo literal, presente em “Fahrenheit 451”, do Ray Bradbury).

A caminho do cemitério, quando meu pai morreu, pela janela do carro, olhei para o mundo. Nada havia mudado: as pessoas continuavam com sua correria, os carros continuavam com suas buzinas. Foi quando me lembrei do poema “Funeral Blues”, do W.H. Auden. No texto, o eu lírico, lamentando a perda de uma pessoa querida, pede que o mundo dê uma pausa em sua continuidade.

Isso de querer que as coisas se importem conosco devido a uma dor que se tem está num trecho de “Ensaios de amor”, do Alain de Botton. Diz o narrador do livro: “Tal recusa de mudança era um lembrete de que o mundo era uma entidade independente que continuaria a funcionar estando eu apaixonado ou não, feliz ou infeliz, vivo ou morto. Eu não podia esperar que o mundo mudasse sua expressão de acordo com o meu humor, nem que os grandes blocos de pedras que formavam as ruas da cidade dessem a mínima para minha história de amor. Embora eles tivessem ficado felizes em acomodar minha felicidade, tinham coisas melhores a fazer do que caírem aos pedaços agora que Chloe tinha ido embora”.

A letra da canção “Virgem”, sucesso na voz da Marina Lima, diz: “As coisas não precisam de você”. Mesmo assim, talvez por um certo egoísmo ou por uma certa vaidade de que padecemos, parece-me inevitável querermos que o mundo reaja, seja como for, a fim de nos ajudar a suportar nossas dores. Ficamos a desejar que o mundo seja solidário conosco, ainda que estejamos, no fundo, cientes de que não há solidariedade, mas solidão.

Acima, mencionei o Auden. Encerrando esta postagem, compartilho linque que contém cena do filme “Quatro casamentos e um funeral” (1994), do diretor Mike Newell. Na sequência, o ator John Hannah, que interpreta Matthew, declama (legenda em português) a elegia “Funeral Blues”. As coisas não precisam de nós nem se importam com nosso destino. Diante disso, componhamos elegias ou canções.

Abaixo, com legenda em português, o texto do Auden, declamado no filme.

Lívio Soares de Medeiros
_____

W.H. Auden — Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message “He is Dead”.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good.