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quinta-feira, 14 de julho de 2016

"Imitação de Cristo"

A leitura precisa ser feita com espírito aberto, sensato, crítico. Ser contra o nazismo não deveria impedir uma pessoa de ler “Minha luta”, do Hitler; pode-se gostar de Neruda sem ser comunista, ou mesmo apreciar Llosa sem ser de direita. Não ser cristão não deveria impedir alguém de ler “Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis (1380-1471).

A edição que tenho foi publicada pela Martin Claret. A tradução é de Luiz Fernando Guimarães. O livro de Kempis, escrito de modo simples, direto, já no título deixa claro o que uma pessoa dever fazer para alcançar plenitude depois da morte. Para Kempis, obviamente, Cristo é o modelo, o que dever ser seguido ou... imitado para que tenhamos acesso ao paraíso.

De cunho prático, “Imitação de Cristo”, em essência, é um tratado contra as ilusões que são cultivadas pelo homem enquanto não chega a hora da morte. Ao postular que as almejadas glórias sejam vaidade, o livro reverbera o Eclesiastes, que diz: “Então examinei todas as obras de minhas mãos e o trabalho que me custou para realizá-las, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nada havia de proveitoso debaixo do sol”.

Poder-se-ia alegar que Kempis está enganado ao postular a existência de vida eterna após a morte, que para se evitar a danação, uma vez terminada a vida terrena, deve-se seguir o que Cristo pregou. Mesmo assim, seu livro permite uma leitura desvinculada de questões religiosas, exatamente por ter um caráter sumamente prático; o ponto forte de “Imitação de Cristo” não é afirmar a salvação dos bons, mas, sim, oferecer soluções práticas para a vida que levamos aqui na Terra.

Não faço aqui um julgamento irresponsável, interpretando a bel-prazer o que Kempis escreveu ou desvinculando o livro de seu contexto. “Imitação de Cristo” é um livro carregado de ideologia católica. O que o torna universal, é claro, não é o que ele tem de religiosidade: é o que ele recomenda para o dia a dia; o objetivo de Kempis é ofertar uma espécie de guia para a salvação, mas o caráter prático da obra faz com que “Imitação de Cristo” possa ser praticado, por exemplo, por um ateu ou um budista.

Ao propor humildade, falta de ilusão quanto ao que somos e desapego com relação a coisas materiais, Kempis advoga a favor das ações. Não é preciso ser adepto de nenhuma religião para se constatar a sensatez de trechos como “devemos ler livros simples e devotos com a mesma disposição que lemos os eruditos e profundos. Não devemos ser influenciados pela autoridade do escritor, seja ele um grande astro literário ou não, e sim pelo amor à verdade simples. Não devemos perguntar quem está falando, mas prestar atenção ao que é dito”.

Naturalmente, a prédica de Kempis vem acompanhada de catolicismo. Num trecho, escreve: “Deveríamos apreciar bastante paz se não nos preocupássemos com o que os outros fazem e dizem, pois tais coisas não nos dizem respeito. Como pode um homem que se ocupa com assuntos que não são seus, que procura distrações fora de si e que pouco se recolhe ao seu eu interior, viver em paz?”. A citação, que não precisa estar ligada a nenhum dogma para ser vivenciada, vem, por sua vez, acompanhada do seguinte trecho:

“Abençoados sejam os simples de coração, pois eles terão abundância de paz.

“Por que alguns santos se dedicavam de forma tão perfeita e determinada à contemplação? Porque tentaram refrear completamente em si mesmos todos os desejos terrenos, assim foram capazes de se ligar a Deus com todo o coração e concentrar-se livremente em seus pensamentos mais íntimos”.

Ainda que o catolicismo de Kempis possa, de antemão, “afugentar” muitos, “Imitação de Cristo” é atemporal não pelo viés religioso que tem, mas por seus conselhos e sugestões terem um viés que nos seja útil para o cotidiano. Tanto é assim que é difícil supor algo mais atual do que “diferenças de opinião muitas vezes dividem amigos e conhecidos, mesmo entre religiosos e devotos”. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

LAIA

Antes de ser padre, ele é gente.
Antes de ser cientista, ele é gente.
Antes de ser ator, ele é gente.
Antes de ser professor, ele é gente.
Antes de ser padeiro, ele é gente.
Antes de ser preto, ele é gente.
Antes de ser branco, ele é gente.
Antes de ser leitor, ele é gente.
Antes de ser gari, ele é gente.
Antes de ser jogador, ele é gente.
Antes de ser marceneiro, ele é gente.

Antes de ser gente, ele é Hitler.
Antes de ser único, é mais um. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

EINSTEIN E O CACHORRO

Antes de eu dizer o que vou dizer, afirmo: gosto de cachorros. Fui criado numa casa em que havia deles, por causa de meu pai, que sempre os teve. Depois que meu pai morreu a tradição foi mantida. Reitero: gosto de cachorros. 

Recentemente, no Facebook, tem sido veiculada uma foto em que há o Einstein. Junto a ela, a seguinte frase: “Não confio em pessoas que não gostam de cachorro, mas confio totalmente num cachorro quando ele não gosta de uma pessoa”.

Não entendi, para começar, o motivo de haver uma foto do Einstein “ilustrando” a frase. Quiseram com isso, buscando um suposto argumento de autoridade, dizer que o físico é o autor da frase? Isso cheira a autoria incorreta.

Contudo, o curioso é que a frase não faz o menor sentido. Não confiar em uma pessoa pelo fato de ela não gostar de cachorro?! Quer dizer então que o critério para se confiar em alguém é o fato de a pessoa gostar de cachorro? O sujeito pode ser um calhorda, mas se gosta de cachorro é, portanto, confiável? Ou calhordas não são capazes de gostar de cachorro?...

Quer dizer então que todo mundo que gosta de cachorro é confiável? Quer dizer que basta à pessoa gostar de cachorro para que se confie nela? Será que não há alguém nesse mundo de bilhões de pessoas que goste de cachorro e que seja um trapaceiro?...

Ora, isso é limitar a confiança a um critério sem sentido. Hitler gostava de cachorro. Ele gostava de crianças também, e, dizem os biógrafos, não havia nisso traço do que poderíamos chamar de populismo. Pergunte a um judeu se ele confiaria em Hitler após saber que ele gostava de cachorro...

A frase, que já havia começado ruim, terminar pior do que começara: “Confio totalmente num cachorro quando ele não gosta de uma pessoa”. Nesse caso, o critério para se confiar numa pessoa é decidido por um... cachorro. 

E se um cachorro não gostar de sua mãe?... (Será que todos os cachorros do planeta gostam de sua mãe?...) E se um cachorro não gostar de seu melhor amigo?... (Será que todos os cachorros da Terra hão de gostar de seu melhor amigo?...) E se um cachorro não gostar de você?... E se um cachorro vier a não gostar de sua esposa ou de seu marido?...

Um cachorro não vale nem mais nem menos do que um tatu, por exemplo. A diferença é que o cachorro foi domesticado. Séculos e séculos de convivência criaram uma dependência mútua entre cachorro e gente.

Ainda assim, a psique humana é mais melindrosa e multifacetada do que é capaz de deduzir a sagacidade de um cão, por mais sofisticada que ela seja. Não sei se um cachorro se deixa levar pela imaginação, mas o ser humano se deixa, a ponto de dizer que o “parecer” de um cão é critério para se confiar numa pessoa.