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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O nome

Serra da Saudade.
Pode haver lugar mais bonito.
Não há lugar com
o nome mais bonito. 

Horário

Nasci num domingo.
Exatamente às 15h.
Não me lembro de
muita coisa, não. 
Quando percebi,
já era tarde demais. 

O morto e o vivo

O morto não lê.
O vivo esbanja ignorância.

O morto não enxerga.
O vivo divulga cegueira.

O morto não ama.
O vivo tortura.

O morto não furta.
O vivo trapaceia.

O morto não sonha.
O vivo tem pesadelo.

O morto não adoece.
O  vivo é doentio.

O morto não tem pressa.
O vivo fura o sinal vermelho.

O morto não ressuscita.
O vivo inventa o terceiro dia. 

Sobre a literatura

A literatura é útil. Só que a utilidade dela é atemporal e não é imediatista. Não se toca a utilidade da literatura; o espectro de cores dos benefícios dela, os olhos não alcançam. É por não ser imediatista, por ser atemporal e por ser profunda, que se troca a literatura por engodos como empreendedorismo e "coaching". Eles têm aspecto de solução real por as pessoas enxergarem neles soluções imediatas. Eles são a maquiagem sobre a mancha na pele. Quem usa essa maquiagem acredita que a mancha desapareceu. A literatura retira a maquiagem, e muitos não são capazes de olharem para si mesmos sem filtros de ilusão. A literatura não constrói ilusões, mas sonhos; não alimenta ingenuidades, mas faz nascer imprescindíveis malícias; não é o óbvio fácil, mas a sutileza iluminadora; não disfarça os feios que somos: escancara-nos; não promete felicidade fácil, mas assegura a base uma felicidade que, se vier, será madura. 

Cansaço

Cansado de Brasil, 
cogitou mudar de país.
Cansado de Brasil, 
pensou em desistir de si.
Cansado de Brasil, 
ficou sem ver gente o dia todo.

Cansado de Brasil, 
tomou longo banho,
descansou por horas,
refugiou-se em si.
Voltou à tona,
não descansado de Brasil,
mas revigorado no país
que, há décadas, faz em si. 

terça-feira, 13 de setembro de 2022

Ventos

Se bem me lembro,
ventos do mês de agosto
chegam a setembro. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Novo livro vindo aí

Em breve, vou lançar meu nono livro. Para detalhes, é só clicar aqui

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Três em um

Em nome de deus, morte.
Em nome da pátria, milícia.
Em nome da família, mentira.

Em nome de deus, mentira.
Em nome da pátria, morte.
Em nome da família, milícia. 

Em nome de deus, milícia.
Em nome da pátria, mentira.
Em nome da família, morte. 

Em nome da mentira, Jair.
Em nome da milícia, Messias.
Em nome da morte, Bolsonaro. 

domingo, 21 de agosto de 2022

Grilhões

É coisa antiga:
inventam,
de tempos
em tempos,
um deus-carrasco.
Velhos testamentos
provam a invenção.

É invenção antiga:
elevam,
de tempos
em tempos,
à categoria de deus,
um carrasco.
A ascensão de Jair
prova a baixeza. 

terça-feira, 12 de julho de 2022

Helena e Beatriz

Helena — Amiga, você viu as notícias sobre aquele eleitor do presidente que invadiu uma festa dos petistas e matou uma pessoa?

Beatriz — Ah, vi, sim. Mas esse pessoal da esquerda não é confiável. Vivem provocando. Aquela decoração de péssimo gosto e exagerada pra comemorar um aniversário. Até demorou pra esse tipo de coisa acontecer. E que delícia, esse chá. Onde você comprou?

Helena — Oh, obrigada. Eu trouxe da viagem que fiz aos EUA recentemente. Aproveitei e trouxe umas coisinhas. O pessoal da alfândega encasquetou. Mas eu liguei pro João Alberto e tudo se resolveu.  E, sim, o nosso país tá muito violento. E concordo com você: esse pessoal da esquerda é muito bobo. Estão até levando as palavras do presidente ao pé da letra. O povo tá achando que ele tava falando sério quando disse que era pra fuzilar a “petralhada”.

Beatriz — O povo é bobo demais. Mas, cá entre nós, no fundo, e falo isso só pra você, a ideia do presidente não é das piores.

Helena — Também muito cá entre nós, eu também concordo. Mas é que ele tem mesmo o jeito destrambelhado dele. No fundo, é uma alma boa.

Beatriz — Sim. Talvez falte um certo refinamento. Mas não vejo isso como problema. Isso é questão menor. O importe é que ele consertou o Brasil. 

Helena — Consertou. Quem reclama é principalmente gente pobre que tá com preguiça de trabalhar e acha que o Estado é obrigado a sustentar. 

Beatriz — É verdade. No fundo, isso é a tramoia de sempre desse pessoal. E a intenção deles é queimar a imagem do presidente, mas não vão conseguir. Agora, virou modinha: o pessoal dos direitos humanos, imprensa, ONU e não sei mais o quê anda dizendo que o Brasil voltou ao tal mapa da fome.

Helena — Conversa fiada. Não me preocupo com o que dizem. Eu tô com a consciência tranquila. A minha família, por exemplo, faz doações para uma instituição de caridade. Tenho certeza de que a sua família também ajuda quem precisa.

Beatriz — Claro. Todo ano, na época do Natal, nós levamos brinquedos e alimentos pra algumas instituições, mas os tais defensores dos direitos humanos não reconhecem isso. Ah, ando cansada desse povo, sabe. Nada do que a gente faz tá bom. 

Helena — Deixa esse povo pra lá. A gente sabe que o progresso do país depende é de gente como a gente, que ama o país e que luta pelo bem dele. Nosso presidente vai cuidar desses esquerdistas. Se ele não cuidar, há quem cuide em nome dele. A gente continua fazendo a nossa parte. Enquanto isso, uma viagem aqui, outra ali... Não vale a pena ficar esquentando a cabeça com essa corja. Vamos falar de coisa boa. 

Beatriz — Sim, a gente ganha muito mais. Óh, fiquei sabendo de uma loja em Nova York que vai ter tudo o que você quer pra celebrar seus trinta anos de casamento.

Helena — Que fofo! Eles têm produtos relacionados à Disney?

Beatriz — Eles têm tudo da Disney. Sua casa vai ficar parecendo um castelo encantado. E vi um vestido deles que vai ser perfeito pra você. Aliás, você e o João Alberto vão formar um belíssimo casal na festa de vocês.  Vocês vão ar-ra-sar: você de Minnie e ele de Mickey vão ficar um charme só. 

Helena — Que delícia! 

terça-feira, 5 de julho de 2022

A praga

Pragueja contra o vento.
Pragueja contra a chuva.
Pragueja contra o calor.
Pragueja contra o frio.

Pragueja contra
a primavera,
o verão,
o outono,
o inverno.

Pragueja contra dias nublados.
Pragueja contra céus azuis.
Pragueja contra Saturno.
Pragueja contra a Via Láctea.

Não se dá conta de que
a praga deste mundo
é quem pragueja,
quem não pragueja. 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Para-si-mesmos

Álvaro de Campos, um dos heterônimos do Fernando Pessoa, no poema “Tabacaria”, escreveu sobre aqueles que são “gênios-para-si-mesmos sonhando” com grandes realizações, sem, contudo, concretizá-las. O texto menciona “cem mil cérebros” se concebendo como gênios, mas que nada realizaram. Pior ainda do que um “gênio-para-si-mesmo” é um “gênio-para-si-mesmo” ressentido porque não tem seu talento-para-si-mesmo reconhecido. 

quinta-feira, 23 de junho de 2022

Culto

Ministro abre o MEC para dois pastores.
Aleluia, irmão!

Ministro manda inserir a cara dele em impressão de Bíblias.
Aleluia, irmão!

Só recebendo ouro, pastor libera recurso. 
Aleluia, irmão!

Só abrindo igreja, pastor libera verba.
Aleluia, irmão!

Só recebendo dinheiro, pastor libera obra.
Aleluia, irmão!

Ciente, mandatário não demitiu ministro.
Aleluia, irmão!

Enquanto isso, mandatário torra grana com cartão corporativo. 
Aleluia, irmão!

Deus proverá inocência.
Aleluia, irmão! 

sexta-feira, 10 de junho de 2022

Bulgákov e Drummond

O russo Mikhail Bulgákov é autor de uma novela intitulada Morfina. O narrador, um médico, está a trabalho num ermo russo, numa pequena localidade. Convive com pacientes e com colegas de trabalho. O médico se envolve com uma enfermeira. Escreve ele: “Anna K. tornou-se minha amante. Não podia ser diferente, de jeito nenhum”. Posteriormente, o Drummond escreveria: “Que pode uma criatura senão, / entre criaturas, amar?”. 

Não país

O rico finge falar inglês ou ser europeu.
A classe média finge ser rica.
O país que nunca foi finge que é
enquanto o pobre, sem fingir,
cata comida no lixo.

O Brasil, arremedo de país,
feito de um arremedo de consciências,
louva um arremedo de estadista
com base num arremedo de jornalismo. 

Haicai

Orgulho na chacina.
Matar pobres e pretos,
consideram faxina. 

quinta-feira, 26 de maio de 2022

Controle populacional

E se não houver câmara de gás?
A polícia faz uma no camburão.

Por acaso, um pobre vivo?
A polícia já vai cuidar disso.

É um preto o que vem ali?
A polícia cuida de apagá-lo.

Os índios estão na terra deles?
Calma: a polícia vai queimá-los.

Querem chacina para hoje?
Deixem a polícia cuidar disso.

Enquanto se fingem indignados,
alguns na classe média sorriem.

O presidente virulento aplaude a polícia,
mãos sangrentas aplaudem o presidente.

Fotopoema 425


 

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Cão

É um cão raivoso.
Meio amorfo,
mas um cão.
Mas raivoso.

Não sabe
que é meio amorfo,
que é um cão,
que é raivoso,
que foi adestrado.

O adestrador
não se identifica.
Atende por 
nome genérico —
mídia.

O cão raivoso
baba,
late,
morde.

Visto de longe,
parece um 
cidadão de bem. 

terça-feira, 17 de maio de 2022

Michel de Montaigne e Jerome K. Jerome

O Jerome K. Jerome de Devaneios Ociosos de um Desocupado é um Montaigne galhofeiro. Sabemos que Montaigne entende o drama da vida; sobre ele, de modo solene, a despeito de uma pitada de humor aqui e ali, escreve. Jerome K. Jerome parece não entender o drama da vida. Ele brinca o tempo todo. Por trás das brincadeiras, alguém que entende o drama da vida, um arguto observador, um atento cronista, um profícuo filósofo, um elevado poeta.