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sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Llosa

O Vargas Llosa continua lamentável. Com relação ao Brasil, já compôs loas para o Moro. Agora, mais recentemente, quanto ao Chile, louvou José Antonio Kast. É muito fácil apoiar a extrema-direita quando não se é alvo dela. Mas não nos esqueçamos de que há casos em que os alvejados por ela, ainda assim, glorificam o algoz. Isso ocorre, por exemplo, no Brasil. 

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Literatura, futebol e salmão

Eu queria comer algo de verdade. Eu havia acabado de sair da Bienal, em São Paulo. No evento, estavam vendendo sanduíches, cachorros-quentes e afins. Digo que isso não é comida de verdade. Longe de casa, num hotel que não servia almoço, perguntei para a funcionária da recepção onde eu poderia comer algo que não lembrasse um sanduíche. Ela me indicou um bar que fica bem em frente ao hotel, ao mesmo tempo em que parece ter lido em minha expressão uma certa incredulidade. Quando eu estava prestes a deixar a recepção do hotel, a funcionária disse: “É bar, mas servem comida”.

Entrei e pedi uma cerveja. Eu me sentei perto do cubículo em que o cozinheiro estava fritando um peixe. Olhando para a panela, contemplei um pedaço de salmão. Pedi a ele (não ao salmão, mas ao cozinheiro) que preparasse também para mim um salmão. Pedi ainda que houvesse pouca salada e pouco arroz. Enquanto a comida estava sendo preparada, eu ia tomando a cerveja.

O próprio cozinheiro me serviu o que ele havia preparado. Perguntou-me se eu queria outra cerveja; pedi um refrigerante. Ele foi pegá-lo. Tendo voltado, perguntou de onde eu era. Eu disse que era de Minas Gerais. Ele quis saber se eu era de Belo Horizonte. “Não, de Patos de Minas”, eu disse. Respondendo à minha pergunta sobre de onde ele era, o cozinheiro disse: “Sou de Alagoas, terra do Graciliano Ramos”.

A partir daí, iniciamos conversa sobre escritores e sobre literatura. Heleno, cozinheiro e dono do bar, já leu muito. Tem quarenta anos. Mora em São Paulo desde os dezesseis. Desde então, trabalhou em hotéis durante boa parte desse tempo. Há cinco meses, deixou o ramo hoteleiro e abriu o bar. Heleno não tem curso superior. Segundo ele, começou a estudar gastronomia, mas não terminou o curso. À medida que ele ia conversando, eu ficava impressionado com a familiaridade que ele demonstrava ter não somente com os autores do nordeste, mas também com os demais escritores nacionais e internacionais.

Ele mencionou Sade, Drummond, Machado, João Cabral, Cecília Meireles, Llosa, Suassuna... Dos autores de que falava, comentava os livros que havia lido, citava trechos, fazia referência a cenas.

A conversa rendia. Quanto mais a gente batia papo, mais eu me surpreendia com o vasto conhecimento que Heleno tem da literatura universal. Num certo momento, perguntei-lhe se escrevia. Segundo o que respondeu, não, mas que tinha vontade de se arriscar. Tentei encorajá-lo para que começasse.

Os demais fregueses do bar já estavam se alimentando. Quando queriam pedir algo, eram atendidos pela esposa de Heleno. Quando um novo freguês chegou, pedindo uma refeição, o dono do bar se afastou. Quando voltou, continuamos nossa conversa sobre escritores.

Quando eu já estava quase terminando minha refeição, o dono do bar me perguntou se eu gostava de futebol. Tive a impressão que o tom dele era de quem não acreditava que gosto de futebol. “Sou cruzeirense; e você?” Ele é flamenguista. A partir daí, passamos a falar de futebol.

Eu e ele não tivemos o privilégio de assistir nem ao Santos de Pelé nem ao Botafogo de Garrincha. Mesmo assim, elencamos os melhores times que presenciamos. Depois de ponderações, cortes e argumentos, chegamos a esta lista: o Flamengo de 1981, o São Paulo do Telê, o Palmeiras de meados da década de noventa, o Corinthians de 1998 e o Cruzeiro de 2003. Meu companheiro de conversa fez a ressalva: “Mas aquele time do Atlético mineiro do começo da década de oitenta, o time do Reinaldo, era um baita time”.

Achei curioso ele se lembrar tão nítido do Flamengo e do Atlético do comecinho da década de oitenta, pois, se tem quarenta anos, ele tinha uns seis quando esses times brilharam. Quando falamos do rubro-negro, dei a escalação do time, só que fora de ordem. Heleno escalou os jogadores nas posições que ocupavam, encostando o indicador da mão direita na mesa do bar, indicando onde estariam os atletas, como se a mesa fosse um campo de futebol.

Enquanto conversávamos, tive a ideia de dar a ele um exemplar de meu livro Dislexias. Assim que paguei a conta, atravessei a rua, fui ao quarto do hotel e peguei o livro. Voltei ao bar, fiz a dedicatória. Heleno a leu, me agradeceu e disse que faria questão de fazer a leitura. É gratificante imaginar que poderei ser lido por ele. 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

"Imitação de Cristo"

A leitura precisa ser feita com espírito aberto, sensato, crítico. Ser contra o nazismo não deveria impedir uma pessoa de ler “Minha luta”, do Hitler; pode-se gostar de Neruda sem ser comunista, ou mesmo apreciar Llosa sem ser de direita. Não ser cristão não deveria impedir alguém de ler “Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis (1380-1471).

A edição que tenho foi publicada pela Martin Claret. A tradução é de Luiz Fernando Guimarães. O livro de Kempis, escrito de modo simples, direto, já no título deixa claro o que uma pessoa dever fazer para alcançar plenitude depois da morte. Para Kempis, obviamente, Cristo é o modelo, o que dever ser seguido ou... imitado para que tenhamos acesso ao paraíso.

De cunho prático, “Imitação de Cristo”, em essência, é um tratado contra as ilusões que são cultivadas pelo homem enquanto não chega a hora da morte. Ao postular que as almejadas glórias sejam vaidade, o livro reverbera o Eclesiastes, que diz: “Então examinei todas as obras de minhas mãos e o trabalho que me custou para realizá-las, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nada havia de proveitoso debaixo do sol”.

Poder-se-ia alegar que Kempis está enganado ao postular a existência de vida eterna após a morte, que para se evitar a danação, uma vez terminada a vida terrena, deve-se seguir o que Cristo pregou. Mesmo assim, seu livro permite uma leitura desvinculada de questões religiosas, exatamente por ter um caráter sumamente prático; o ponto forte de “Imitação de Cristo” não é afirmar a salvação dos bons, mas, sim, oferecer soluções práticas para a vida que levamos aqui na Terra.

Não faço aqui um julgamento irresponsável, interpretando a bel-prazer o que Kempis escreveu ou desvinculando o livro de seu contexto. “Imitação de Cristo” é um livro carregado de ideologia católica. O que o torna universal, é claro, não é o que ele tem de religiosidade: é o que ele recomenda para o dia a dia; o objetivo de Kempis é ofertar uma espécie de guia para a salvação, mas o caráter prático da obra faz com que “Imitação de Cristo” possa ser praticado, por exemplo, por um ateu ou um budista.

Ao propor humildade, falta de ilusão quanto ao que somos e desapego com relação a coisas materiais, Kempis advoga a favor das ações. Não é preciso ser adepto de nenhuma religião para se constatar a sensatez de trechos como “devemos ler livros simples e devotos com a mesma disposição que lemos os eruditos e profundos. Não devemos ser influenciados pela autoridade do escritor, seja ele um grande astro literário ou não, e sim pelo amor à verdade simples. Não devemos perguntar quem está falando, mas prestar atenção ao que é dito”.

Naturalmente, a prédica de Kempis vem acompanhada de catolicismo. Num trecho, escreve: “Deveríamos apreciar bastante paz se não nos preocupássemos com o que os outros fazem e dizem, pois tais coisas não nos dizem respeito. Como pode um homem que se ocupa com assuntos que não são seus, que procura distrações fora de si e que pouco se recolhe ao seu eu interior, viver em paz?”. A citação, que não precisa estar ligada a nenhum dogma para ser vivenciada, vem, por sua vez, acompanhada do seguinte trecho:

“Abençoados sejam os simples de coração, pois eles terão abundância de paz.

“Por que alguns santos se dedicavam de forma tão perfeita e determinada à contemplação? Porque tentaram refrear completamente em si mesmos todos os desejos terrenos, assim foram capazes de se ligar a Deus com todo o coração e concentrar-se livremente em seus pensamentos mais íntimos”.

Ainda que o catolicismo de Kempis possa, de antemão, “afugentar” muitos, “Imitação de Cristo” é atemporal não pelo viés religioso que tem, mas por seus conselhos e sugestões terem um viés que nos seja útil para o cotidiano. Tanto é assim que é difícil supor algo mais atual do que “diferenças de opinião muitas vezes dividem amigos e conhecidos, mesmo entre religiosos e devotos”. 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Do fundo do cérebro 2

Em texto de 1987, Mario Vargas Llosa escreve sobre “Lolita”, do Nabokov. O último parágrafo-frase do texto é “sí, cumplidos los treinta, Dolores Haze, Dolly, Lo, Lo-li-ta, sigue fresca, equívoca, prohibida, tentadora, humedeciendo los labios y acelerando el pecho de los caballeros que, como Humbert Humbert, aman con la cabeza y sueñan con el corazón”.

No dia vinte de março deste ano, publiquei postagem em que mencionei o que uma aluna dissera certa vez em sala de aula; segundo ela, a gente ama é do fundo do cérebro. A estudante me disse na ocasião de quem ouvira o comentário, mas não lembro quem possa ter sido.

À parte isso, o Llosa já havia usado a expressão “aman con la cabeza” na segunda metade da década de 80. Não se trata aqui de buscar a gênese desse pensamento ou dessa expressão. A questão é que a ideia de que se ama com a cabeça é atraente demais. Penso que voltarei ao tema. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

Por favor, uma dose de nódoa

Estou lendo “La verdad de las mentiras”, do Mario Vargas Llosa. Além de uma bela introdução em que o escritor discorre sobre o paradoxo de que a literatura “mente” para trazer à tona verdades que de outro modo continuariam escondidas, o livro tem vinte e cinco ensaios sobre romances que marcaram o século XX.

Um dos ensaios do livro de Llosa é sobre “Mrs. Dalloway”, da Virginia Woolf. Septimus Warren Smith é nome de personagem criado por ela nesse livro. O enredo, que prima por aquela famosa aparente simplicidade de alguns grandes escritos, narra um dia da senhora Dalloway. A “monotonia” é quebrada por um evento drástico — o suicídio de Septimus Warren Smith.

A partir daí, escreve Llosa: “En alguna parte leí que un célebre calígrafo japonés acostumbraba macular sus escritos con una mancha de tinta. ‘Sin ese contraste no se apreciaría debidamente la perfección de mi trabajo’, explicaba. Sin la pequeña huella de cruda realidad que la historia de Septimus Warren Smith deja en el libro, no sería tan impoluto y espiritual, tan áureo y tan artístico el mundo en el que nació — y contribuye tanto a crear — Clarissa Dalloway”. O suicídio de Septimus Warren Smith “conspurca” a “pureza” da narrativa em “Mrs. Dalloway”. O personagem “estraga” o livro.

Tudo isso me remete ao Manuel Bandeira. Não somente por ele ter a aparente simplicidade a que já fiz referência, mas por ele ter expressado tão bem, com tão poucas palavras, que o espírito da poesia, por mais paradoxal que possa soar, é o de “estragar” as coisas, é o de “incomodar” as coisas. É curioso: a beleza precisa de uma “mancha”. No modo como encaro as coisas, isso vale até para a beleza física das pessoas. É preciso algo que “destoe”. Escreveu o Bandeira: “A poesia é a nódoa no brim”. 

quarta-feira, 4 de março de 2015

PREFERÊNCIAS

Prefiro maçã a pera. 
Prefiro Cynara Menezes a Rachel Sheherazade. 
Prefiro Hulk a Huck.
Prefiro vinho a uísque.
Prefiro García Márquez a Vargas Llosa.
Prefiro hábito a rotina.
Prefiro ESPN a SporTV.
Prefiro livro a tela.
Prefiro arroz a feijão.

Prefiro Beatles e Rolling Stones.