quinta-feira, 15 de março de 2018

Não voto

Em conversa que mantenho com amigos, tenho me deparado com aqueles que têm a opinião de que quando os debates políticos na corrida presidencial se iniciarem, Bolsonaro vai se “queimar”; alguns internautas têm manifestado pensamento similar em redes sociais. Os que afirmam isso levam em conta que o total despreparo e a ignorância dele são o que, por fim, farão com que os apoiadores dele de agora se deem conta no futuro do que já é patente — a... obtusidade (é um eufemismo) de Bolsonaro.

Muito infelizmente, temo que o “diagnóstico” dos amigos e de alguns em redes sociais não esteja correto. Ainda que Bolsonaro confirme, reconfirme e dê inúmeras provas do quanto é um bufão retrógrado e simplista, isso não vai afugentar os apoiadores dele. Acredito mesmo que quanto mais bobo e truculento ele for, não somente não vai perder os apoiadores que tem, como vai arregimentar outros.

Há os que defendem ditadura militar; os ingênuos que acreditam que Bolsonaro é paradigma de honestidade se exultam ao apoiá-lo; preconceituosos de todos os matizes veem nele o candidato ideal. Quanto mais bronco, anacronicamente conservador e beligerante Bolsonaro for, mais haverá exultação entre ingênuos, machistas, homofóbicos, armamentistas, misóginos, eugenistas, racistas, xenófobos, belicistas...

Até a data das eleições, vislumbro alguma muito remota possibilidade de mudança entre o grupo dos ingênuos; os demais, que, lamentavelmente, são muitos, estão com Bolsonaro não apesar das declarações toscas dele, mas por causa delas. Pode ser que os marqueteiros da campanha dele sugiram “burilar” ou “suavizar” a imagem pública dele. Mas abandonar pautas intolerantes, ele não vai. Isso seria perder boa parte dos eleitores que ele tem.

Recentemente, assisti a uma entrevista com Malala Yousafzai no programa O Próximo Convidado com David Letterman, exibido pela Netflix. Num determinado momento, ele pergunta para Malala a opinião dela sobre Donald Trump. Ela devolve a pergunta para ele, que responde: “Eu sinto que, pessoalmente — não politicamente, mas pessoalmente —, ele não está apto a me representar”. Letterman conclui: “Não acredito que ele esteja apto a representar ninguém neste espaço” (o programa é gravado no que parece ser um teatro; há plateia).

A resposta do apresentador acabou me remetendo a Bolsonaro, por ser algo que eu responderia se alguém me perguntasse o que acho do pré-candidato à presidência. Politicamente, estou longe do espectro ditatorial defendido por ele; no plano pessoal, ele é o tipo de gente que eu não chamaria para tomar uma cerveja aqui em casa. Se em algum dia nos conhecêssemos (sei que isso não vai ocorrer), estou ciente de que a recíproca valeria. Sou o tipo de pessoa de que ele não faria a menor questão. Além do mais, ele não precisa de mim, em nenhum aspecto.

É comum os defensores alegarem a honestidade dele, sem nem saberem se ela existe de fato. As notícias de nebuloso enriquecimento dele e dos filhos dele, veiculadas em janeiro deste ano, não se desdobraram (o que já era esperado). “Historicamente, apenas o tema da corrupção, no Brasil, propicia a manipulação perfeita do público cativo: aquela que não toca nem de perto no acordo das elites nem nos seus privilégios e permite focar todo o fogo no inimigo de classe da ocasião. Trata-se de um tema que não oferece nenhuma reflexão e compreensão real do mundo, mas que possibilita todo tipo de distorção, seletividade e manipulação emotiva de um público cativo” [1]. Muitos dos “paladinos” da honestidade não passam de cativos.

É muita ingenuidade acreditar que basta a truculência de alguém para se acabar com a corrupção no Brasil, que é institucional e praticada em todas as esferas. No mais, alegar que um simpatizante de torturadores dizimaria a corrupção por ter sido militar é supor que não houve corrupção durante a ditadura. Pensar assim é revelar ignorância histórica.
_____

[1] SOUZA, Jessé. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Rio de Janeiro. Leya. 2016. Pp. 88 e 89. 

O que a escola faz

Muito se fala sobre o papel da escola, sobre o que ela deve fazer, o que não deve fazer, a quem deve prestar contas... Quem muito fala sobre a função da escola geralmente prefere deixar de lado a importante noção de que a escola tem limites e de que nem tudo é obrigação dela. Querem exigir cada vez mais do ensino, no mais das vezes não dando a ele aquilo de que ele necessita para realizar o trabalho que a ele compete, sem levar em conta que não é obrigação dele preparar para tudo nem ser responsável pelo que o cidadão vai fazer depois de não mais frequentar uma escola — ou pelo que ele vai fazer quando o horário de aula termina e ele toma as ruas.

Quando alguém incorre em erro de português, é lugar-comum culparem as escolas por a pessoa não escrever corretamente segundo a gramática; se alguém não sabe fazer uma simples regra de três, a culpa é da escola. Já afirmei anteriormente haver professores que se jactaram de nunca terem lido um livro depois de terminarem a faculdade: a escola tem imperfeições porque é feita por imperfeitos. Mesmo assim, não é justo culpá-la pelas mazelas intelectuais do país.

Sou testemunha de que a escola tem ensinado. Se o ensino não é eficaz enquanto a pessoa ainda está em sala de aula, os menos responsáveis por essa ineficácia são os professores. Não bastasse, boa parte das pessoas, depois de terminarem o período em que tiveram de ficar em salas de aula, entregam-se a uma preocupante indolência intelectual. Na expressão mais visível dessa apatia mental, qualquer texto que tenha cinco linhas é textão, qualquer frase que comece a exigir um pouco de concentração é abandonada. Há muitos não interessados em alguma atividade intelectual.

Não há como a escola reger em totalidade nem as vidas dos que ainda frequentam salas de aulas; exigir dela que o cidadão adulto domine um conhecimento de que ele pode nem ter feito questão enquanto estava em sala de aula e de que não faz questão agora que não tem de se sentar e assistir a alguém lecionando é exigir desonestamente da escola. Eu citaria miríadas de professores que ensinaram e ensinam a diferença entre “mas” e “mais” ou que ensinaram a calcular porcentagens ou que ensinaram como se dá a fotossíntese. Contudo, se o cidadão que não mais frequenta um ambiente escolar está mais preocupado em postar fotos exibindo armas de fogo, não há nada que a escola possa fazer. Por ele, o que ela podia fazer, ela já fez. 

Marielle Franco

O mais recente capítulo da invasão no Rio de Janeiro foi escrito ontem. A morte de Marielle Franco escancara a inutilidade do que as autoridades estão fazendo lá. A truculência contra o cidadão “anônimo” já tem sido denunciada. Ontem, a fim de radicalizar o modo como lidam com quem se opõe contra a sacanagem que estão fazendo na cidade, mataram a vereadora.

Alguns dos que são a favor da invasão ou dos que não estão a fim de entender que ela é uma tacada populista e cruel contra as vítimas de sempre celebraram o assassinato de Marielle. Tristemente, isso não surpreende, pois tem sido assim em redes sociais. Também tristemente, a morte de civis num país que já sofreu tanto com intervenção militar não é novidade.

O que está claro é o que já se sabia de Marielle, ou seja, que ela era contra a presença do exército no Rio. Posso estar enganado quanto ao que vou escrever, mas sei como é o Brasil. Não acredito que os assassinos serão descobertos; e ainda que sejam, não serão punidos. Na hora de os invasores coagirem favelados e distribuírem gibis hipócritas e imbecis em ônibus, há empenho. Não haverá esse empenho nem por parte deles nem por parte de burocratas inúteis que estão em gabinetes em achar os assassinos da vereadora. Que eu esteja enganado. 

domingo, 11 de março de 2018

Árvore

Epitelial

Carregarás em tua pele
a lembrança do que sou.
Mais precisamente,
do que sou quando 
estou contigo.
Só contigo sou marcante. 

Na gráfica e no estádio

Embora eu não concorde com o modo como os torcedores protestaram contra a Globo, recentemente, em jogo entre Santos e Corinthians, entoando "Globo, vai tomar no c*", claro que partilho do sentimento contra a emissora, mesmo sem saber até que ponto esse sentimento era genuíno nos quase quarenta mil torcedores que xingaram o canal em partida que ele estava transmitindo; mesmo assim, suponho que o "cântico" era genuíno em alguns. Não concordo com a maneira (mandar tomar no c*), mas concordo com a essência.

De modo análogo, não concordo com a invasão realizada hoje pela manhã no parque gráfico do jornal O Globo, no Rio. Uma das razões alegadas para a invasão foi a defesa da democracia, mais uma vez atacada pela Globo e seus sinistros tentáculos no golpe de 2016. Vale lembrar que, sintomaticamente, a Globo surgiu no ano de 1965, um ano depois do golpe da década de 60. Nesse golpe, nem jornal O Globo nem militares nem demais partidários do saque contra o Brasil se preocuparam em espargir nele ares de legalidade, o que fizeram em 2016.

Mesmo eu não concordando com o modus operandi de hoje no jornal O Globo nem com o de dias atrás no Pacaembu, no jogo entre Santos e Corinthians, ambas as manifestações deixam claro que o rebanho subjugado pela Globo, mesmo ainda sendo gigantesco, tem oponentes que sabem do quanto o canal asfixia e mata o Brasil. Havendo conscientização e não havendo canalhice, o caminho natural é ser contra a Globo, seja de que modo for.

A nota surreal do dia de hoje ficou por conta da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), da Aner (Associação Nacional de Editores de Revistas) e da ANJ (Associação Nacional de Jornais), que divulgaram texto condenando os que, segundo as associações, "são incapazes de conviver em ambiente democrático". Esse pessoal não é imbecil. Defender o grupo Globo, alegando princípios democráticos a favor de um conglomerado que vive sacaneando os brasileiros é ser hipócrita e partidário dessa sacanagem. 

O que a escola faz

Muito se fala sobre o papel da escola, sobre o que ela deve fazer, o que não deve fazer, a quem deve prestar contas... Quem muito fala sobre a função da escola geralmente prefere deixar de lado a importante noção de que a escola tem limites e de que nem tudo é obrigação dela. Querem exigir cada vez mais do ensino, no mais das vezes não dando a ele aquilo de que ele necessita para realizar o trabalho que a ele compete, sem levar em conta que não é obrigação dele preparar para tudo nem ser responsável pelo que o cidadão vai fazer depois de não mais frequentar uma escola — ou pelo que ele vai fazer quando o horário de aula termina e ele toma as ruas.

Quando alguém incorre em erro de português, é lugar-comum culparem as escolas por a pessoa não escrever corretamente segundo a gramática; se alguém não sabe fazer uma simples regra de três, a culpa é da escola. Já afirmei anteriormente haver professores que se jactaram de nunca terem lido um livro depois de terminarem a faculdade: a escola tem imperfeições porque é feita por imperfeitos. Mesmo assim, não é justo culpá-la pelas mazelas intelectuais do país.

Sou testemunha de que a escola tem ensinado. Se o ensino não é eficaz enquanto a pessoa ainda está em sala de aula, os menos responsáveis por essa ineficácia são os professores. Não bastasse, boa parte das pessoas, depois de terminarem o período em que tiveram de ficar em salas de aula, entregam-se a uma preocupante indolência intelectual. Na expressão mais visível dessa apatia mental, qualquer texto que tenha cinco linhas é textão, qualquer frase que comece a exigir um pouco de concentração é abandonada. Há muitos não interessados em alguma atividade intelectual.

Não há como a escola reger em totalidade nem as vidas dos que ainda frequentam salas de aulas; exigir dela que o cidadão adulto domine um conhecimento de que ele pode nem ter feito questão enquanto estava em sala de aula e de que não faz questão agora que não tem de se sentar e assistir a alguém lecionando é exigir desonestamente da escola. Eu citaria miríadas de professores que ensinaram e ensinam a diferença entre “mas” e “mais” ou que ensinaram a calcular porcentagens ou que ensinaram como se dá a fotossíntese. Contudo, se o cidadão que não mais frequenta um ambiente escolar está mais preocupado em postar fotos exibindo armas de fogo, não há nada que a escola possa fazer. Por ele, o que ela podia fazer, ela já fez. 

domingo, 4 de março de 2018

Fotopoema 413

Céus


Curicacas




Os invasores estão de volta

Uma das coisas tristes sobre a invasão do exército no Rio de Janeiro é que isso não resolve nada. Estão lá, coagindo os de sempre, fichando-os, enquanto quem está em gabinetes ou em carros luxuosos seguem incólumes e felizes, cientes de que nem exércitos nem polícia vão mexer com eles.

A balela dos invasores é a de que a presença deles no Rio quer a segurança pública, mas já deixaram claro que não estão a fim de conversar (a pseudocoletiva em que as perguntas tiveram de ser lidas e tiveram de passar pelo crivo deles prova isso), o que não surpreende, pois o forte desse pessoal não é a arte do diálogo, mas apontar contra os próprios brasileiros aparatos de repressão, de tortura e de morte.

Alegam que é pela segurança, que é pela ordem, que é para zelar pelo "cidadão de bem" (adoram essa expressão). Muitas pessoas, por ingenuidade ou por burrice, defendem intervenção militar. O golpe de 64 mostrou o que ditadores e exército são capazes de fazer quando alegam que é para defender o país, o que são capazes de realizar quando se voltam contra os compatriotas. 

quinta-feira, 1 de março de 2018

O traje do poder e da subserviência

A inutilidade e a sacanagem da invasão do exército no Rio acabaram fazendo com que eu voltasse a pensar no comportamento de instituições que valorizam demais o que chamam de disciplina, de amor à pátria ou de senso ordeiro. São ambientes em que a aparência conta mais do que o que é de fato disciplina ou amor ao país. Quem ama o país não tortura, não mata, não confabula golpes políticos. Em termos históricos, o golpe de 64 foi ontem. Agora, há outro em curso. Os tempos são outros, as estratégias são outras, mas o desejo de saquear, mais uma vez, o país para uns poucos é o mesmo.

A subserviência de alguns ante os poderosos ou o fervor que têm quanto a hierarquias caretas e tolamente mandonas mais se parecem com o mais desbragado masoquismo. Há algo de infantil no encanto que sentem ante um fardão, uma farda, um sinal de distinção qualquer, ou quando se entregam a pompas afetadas.

Mesmo os que detêm cargos de comando assumem discurso típico de vassalos quando diante de alguém em hierarquia superior. Eles e seus pares têm vocabulário que, dependendo da situação, pode ser típico de ditadores ou típico de servos. Quem berra brandindo um cassetete tem a capacidade de se ajoelhar em submissão. Isso não é digno de chacota porque pode ser perigoso, quando agem em consonância com o pensamento de que são donos do povo e melhores do que ele.

Quando se sentem superiores pelo que ostentam, pelo que vestem, não têm noção de que “o hábito não faz o monge”, a farda não faz o soldado, a condecoração não faz o doutor. Nem hábitos nem fardas nem condecorações fazem o homem. Enquanto isso, quem não tem insígnias se incha vestindo toga ou terno. 

"Rio quarenta graus"

Exército no Rio não é solução.
Solução seria prender quem
transporta drogas em avião.

Sem argumentos na epopeia:
o exército exibe suas armas;
tem o aval de tosca plateia.

Fizeram do Rio o seu quintal.
Peixes grandes nadam em paz.
Nos pequenos, descem o pau.

Para os engravatados, carreiras.
Para os pobres, intimidação.
Dos ricos, cocaína nas esteiras.

Metidos em fardas, nada novo:
querem para si e para os deles
o que não é deles e é do povo. 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Feitos um para o outro

Sou antiGlobo. Isso é coisa antiga, vem desde a juventude. A emissora da família Marinho e as ramificações do império que edificaram são contra o Brasil. Muitos se deixam levar por questões técnicas e por um populismo interesseiro, alegando que haveria boas intenções na Globo e nos afluentes dela. A emissora vende bem a ideia de que se importa com o Brasil. O flerte com a ditadura e o silêncio quando do famoso comício a favor das eleições diretas em São Paulo são apenas duas provas patentes que os interesses da família Marinho não são os interesses do Brasil. Ditadores e golpistas ditam a pauta do que a família Marinho divulga. Não sou vassalo deles nem teleguiado pelo que transmitem.

Hoje, no Rio de Janeiro, representantes do exército dariam uma coletiva sobre a invasão (sim: invasão) realizada pelo exército na cidade. A rigor, não houve coletiva. As perguntas tiveram de ser escritas e foram previamente analisadas pelo exército (o que não havia sido divulgado anteriormente), que respondeu basicamente às perguntas da... Globo. Claro que isso não surpreende. Só uma emissora que cala os interesses do povo poderia ser contemplada numa pseudocoletiva dada pelo exército.

Naturalmente, o jornalismo do exterior sabe das intenções escusas da emissora. Tanto é assim que Dom Phillips, que é inglês e esteve hoje na “coletiva” do exército, publicou no Twitter que a Globo havia sido favorecida no evento. Obviamente, esse favorecimento ocorre por a emissora não fazer as perguntas que realmente interessam à população. A Globo e o exército se entendem, realizam conversa de compadres.

Fossem as coisas transparentes, que mal haveria em responder a perguntas que fossem honestas ou contrárias à decisão do exército? Por que a necessidade de ler as perguntas anteriormente? Não bastasse, integrante do exército, durante a coletiva, declarou que o Rio de Janeiro “é um laboratório para o Brasil”. Antigamente, os golpes vinham da noite para o dia; hoje, vêm em doses homeopáticas.

Há um ditado o qual diz que grandes mentes pensam semelhantemente. Não nos esqueçamos, todavia, que mentes pequenas não pensam muito diferentemente umas das outras. Globo e exército estão em sintonia; não os considero grandes mentes. O poder que têm não me seduz. Enquanto isso, fazem do Brasil o laboratório deles. O brasileiro não merece isso. 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Mandando balas nos estudos

A mais recente do Trump foi divulgar a ideia de que o problema das mortes causadas por atiradores nas escolas de lá pode ser resolvido assim: dê armas para os professores. O presidente dos EUA aventou a possibilidade de pagar bônus aos docentes que topassem. Trump sabe que não está sozinho na burrice dele, não somente lá. No Brasil, há quem sente até frêmitos em pensar na excitante possibilidade de trocar horas de leitura e de estudo por um curso de tiro. 

Na terra e no céu

Um helicóptero pode servir
para jogar panfletos sobre favela
ou para transportar cocaína.
Num caso ou noutro,
o “aviãozinho”
cairá por terra,
voará pelos ares. 

"As impurezas do branco"

Embora, ao longo dos séculos, os detentores do poder tenham se valido de diferentes estratégias, um dos objetivos continua o mesmo: varrer os pobres para debaixo do tapete. Com o advento da República, por exemplo, no Rio de Janeiro, houve o bota-abaixo, que teve como consequência o deslocamento de milhares de pobres das áreas centrais para locais de difícil acesso. A intenção era correr com os pobres para que dessem lugar a largas avenidas, no projeto de urbanização da época. Recentemente, foi a vez de João Doria tentar afugentar pobres do centro de São Paulo. O “modus operandi”? Contratar empresa para jogar água fria nos mendigos que estivessem dormindo nas calçadas.

No Rio de Janeiro do século XXI, com suas largas avenidas, a ocupação da cidade pelo exército é teatro sinistro que, se prender, prenderá os de sempre — negros, pobres. Não há cerco contra poderosos corruptos, apenas contra pobres, não importa se desonestos ou honestos. Dândis ricos continuarão a comercializar e a cheirar a cocaína deles em helicópteros. Ricos (ou os que se acham ricos) podem circular ou voar ou cheirar à vontade. 

Haicai 63

Retina 
cansada:
rotina. 

“Gilbert Grape: Aprendiz de sonhador”

É comum a ideia de que livros ruins geram filmes bons e a de que livros bons geram filmes ruins. Há exceções. “Drácula”, do Coppola, é um filmão baseado num grande livro. Não sei se “What's eating Gilbert Grape”, de Peter Hedges, é um grande livro, mas ele é a base de um grande filme, de 1993, que em inglês tem o mesmo título do livro. Releve o título brega que o filme recebeu em português (Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador). É um filmaço. O diretor é Lasse Hallström; Peter Hedges é também o autor do roteiro do filme.

Há as atuações de Leonardo DiCaprio, que tinha dezenove anos na época, e de Johnny Depp, então com trinta anos. Depp interpreta o Gilbert Grape do título; Arnie, interpretado por DiCaprio, é irmão de Gilbert. Arnie tem problemas mentais. Quem cuida dele a maior parte do tempo é Gilbert. A mãe deles é Bonnie Grape. Ela é interpretada por Darlene Cates, que morreu em março do ano passado. Ela tinha obesidade mórbida. Bonnie Grape foi um dos poucos papéis dela no cinema.

Este trabalho de Lasse Hallström tem o maior dos apelos que uma narrativa pode ter: é uma boa história. Sei que isso soa impreciso, turvo, mas sabemos reconhecer uma grande história quando estamos diante de uma. “Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador” não precisa apelar para firulas técnicas a fim de convencer e de sensibilizar. A poderosa narrativa fala por si.

Um grande filme não precisa ter espiões, magnatas, gente com superpoderes. Personagens assim podem estar em belos filmes; mesmo assim, é bonito assistir a uma produção em que a força das pessoas está exatamente nos dramas por que passam em suas “vidinhas”. Não é fácil produzir arte a partir de personagens tão triviais. A maioria de nós é gente sem nada de acachapante. Todavia, trabalhos como “Gilbert Grape: Aprendiz de Sonhador” não nos deixam esquecer de que as pequenas-grandes lutas da maioria de nós todos os dias podem assumir dimensões artísticas ou grandiosas. 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Uma história e um vídeo



No dia treze de janeiro de 2008, Edgar, meu irmão, levou um tiro após uma briga de trânsito aqui em Patos de Minas. O que atirou e o que estava dirigindo a moto (ambos não tiraram os capacetes) no momento do disparo nunca foram identificados.

Quando recebi a notícia de que o Edgar havia sido baleado, eu estava em Caldas Novas com amigos. Momentos antes de eu ficar sabendo do ocorrido, eu havia comido muito. Tendo recebido a notícia, meu estômago ficou embrulhado, mas não cheguei a colocar para fora os alimentos.

Eram em torno de 21h quando fiquei sabendo do que havia ocorrido com meu irmão. Após ligações que fiz aqui para Patos, ficou decidido que eu sairia de Caldas Novas no dia seguinte, no primeiro horário de ônibus para Uberlândia. De lá, eu teria carona até Patos. Não consegui dormir naquela noite.

Os primeiros dias são muito difíceis. A gente fica sem saber o que fazer com o corpo de quem, de uma hora para outra, fica paraplégico. A esperança de que a pessoa volte a caminhar causa, no leigo, o temor de manejar o corpo do outro. Logo, logo, contratamos Diego Bueno Guimarães, enfermeiro que ficava aqui em casa durante o dia.

Ao mesmo tempo, eu e amigos passávamos os dias tentando vaga para que o Edgar pudesse ser atendido no Sarah, em Brasília, o que ocorreu pouco mais de um mês depois da briga que causou a paraplegia. Às noites, quando o Diego não estava aqui, eu colocava o relógio para despertar de duas em duas horas, a fim de mudar a posição do corpo do Edgar, para que ele não ficasse com escaras; devido ao tempo passado na cama e à quase imobilidade inicial, a pele pode ter feridas. O Sarah não admite pacientes com escaras.

Antes mesmo de meu irmão ir para Brasília, eu disse a ele que a partir do instante em que ele havia levado o tiro, a vida dele poderia ser encarada de dois modos: que ela havia acabado ou que ela havia renascido. É claro que eu torcia pela última alternativa, embora sem saber o que fazer para que ela existisse de fato no espírito do Edgar.

Na época, argumentei com ele que o mesmo capricho o qual fizera com que a bala o deixasse paraplégico poderia ter atingido um órgão vital. É uma questão de centímetros. Anos depois de ele ter levado o tiro, perguntei para o Edgar se ele achava que tinha valido a pena sair vivo daquela briga de trânsito. Ele respondeu: “Cê tá é louco: claro que sim!”.

Mas nada do que eu ou os amigos disséssemos não teria efeito se não fosse a atitude do Edgar em relação ao ocorrido e à vida como um todo. Dez anos depois do triste episódio, ele continua trabalhando, continua produtivo. Tanto é assim que está gravando um CD com músicas de autoria dele. A alternativa do renascimento tanto prevaleceu que o próprio Edgar diz que ele faz aniversário em duas datas: no dia em que nasceu e no dia em que levou o tiro.

Quando comentou comigo que gravaria um CD, propus a meu irmão fazermos um clipe que mostrasse o dia a dia dele. Ele topou. O clipe que mostra o cotidiano dele não é o desta postagem, embora já tenhamos filmado parte desse vídeo. O clipe desta postagem não deixa de mostrar uma parte do que o Edgar faz em seu dia a dia, mas a proposta foi desde o começo criar um clima mais intimista, devido ao astral da música.

Gravamos no Teatro Municipal Leão de Formosa, na tarde do dia dois de fevereiro de 2018. As pessoas a quem temos de agradecer por terem ajudado a realizar o projeto estão nos créditos; é o primeiro clipe que realizo. Para as tomadas estáticas, usei tripé. Para as tomadas em que há movimento, usei um trilho apoiado sobre duas cadeiras, que por sua vez estavam apoiadas sobre uma mesa, que por sua vez era carregada pelo palco do teatro. Em apenas uma das tomadas, a câmera estava sobre o piano. A fim de não danificá-lo, em vez de ela ficar sobre o trilho, eu a coloquei sobre uma toalha e puxei o tecido, imitando o movimento que o trilho possibilita.

Para os registros, usei uma Canon EOS 70D e duas lentes: uma delas (para a maioria das tomadas), uma Canon 50mm F/1.4; para duas ou três tomadas, uma Canon 18-135mm F/3.5-5.6. Em ambas as lentes, usei sempre a abertura máxima, variando ISO e velocidade conforme a luz.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Uivo

Noites de Lua cheia 
são para lobos.
Se quiserem, 
que os cordeirinhos 
façam suas preces.
De qualquer modo, 
morrerão. 

Vindo

São enganados ou querem enganar

Tendo lido A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado, do Jessé Souza, publicado pela editora Leya, não vacilo em inseri-lo na galeria de nomes como o de um Darcy Ribeiro, autor do imprescindível e brilhante O povo brasileiro. Ribeiro foi importante para a época e ainda é importante para se entender o Brasil. Souza é importante e seguirá sendo pela mesma razão.

Também do Jessé Souza, falta eu ler A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite e A elite do atraso: da escravidão à lava jato, que tenho aqui perto de mim enquanto digito este texto. Embora A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado não tenha a palavra “elite” no título, a obra é dedicada a esmiuçar os mecanismos pelos quais uma meia dúzia de endinheirados (que Jessé Souza considera ser a verdadeira elite do dinheiro) conseguiu incutir na tradicional classe média, que se julga mais refinada do que realmente é e mais inteligente do que do que de fato é, a bandeira da luta contra a corrupção, quando, de fato, no entender de Jessé Souza, o único interesse das aves de rapina da elite endinheirada foi o de sempre: saquear o país mais uma vez.

O texto de Jessé Souza é claro, direto, elegante. Ele não usa eufemismos, mas não está preocupado com polêmicas bobas nem com soar bombástico. Dizendo o que tem de ser dito de modo simples, Souza questiona bases do pensamento político e econômico brasileiro como, por exemplo, a edificada por Sérgio Buarque de Hollanda. Nem preciso dizer que Jessé Souza não cai na armadilha boba de querer soar iconoclasta em relação aos que critica.

Jessé Souza escreve: (...) “Os setores da classe média, que se julgam bem-informados por consumirem sua dose diária de veneno midiático, e se deixam manipular pelos endinheirados e seus interesses, não são tão inteligentes e racionais como se acreditam” [1]. Não sendo tão inteligentes quanto pensam que são, vestiram camisetas da CBF, bateram panelas e foram a passeatas, supostamente se manifestando contra a corrupção, quando, na visão de Jessé Souza, com a qual concordo, estavam apenas a serviço da mídia, que, por sua vez, está a serviço da elite do dinheiro, que, por sua vez, está apenas interessada em um modo de, mais uma vez, lesar o país; dessa vez, é com a roupagem do discurso anticorrupção.

Na visão de Jessé Souza, a classe média brasileira comprou fácil esse discurso por motivos conscientes e inconscientes. Dentre os motivos que podem ser rastreados, Souza menciona nosso vergonhoso passado de escravidão, que não é tão infame assim para setores dos endinheirados e da classe média. Além do mais, manipulada pela mídia, que é regida pela elite do dinheiro, “uma fração significativa da classe média interpretou o incômodo da maior proximidade física das classes populares em espaços sociais de consumo antes exclusivos da classe média como o primeiro passo de um processo que podia significar uma ameaça aos privilégios reais de salário e prestígio. Esse aspecto é irracional, já que a qualidade da incorporação do capital cultural típico da classe média é outro” [2].

Numa obra desse teor, natural que Jessé Souza critique a tão elogiada meritocracia. Valendo-se de argumentos sociológicos, o autor ataca a falácia de que a classe média se dá bem em termos financeiros porque é inteligente e trabalhadora, e que o pobre não consegue patamar de vida melhor porque é burro e preguiçoso.

Contundente e acessível, Jessé Souza vai juntando as peças do Brasil atual e compõe um painel lúcido, diante do qual é impossível ficar indiferente. Tenho dito que o Brasil está pagando caro (e vai pagar mais caro ainda) por um antiesquerdismo ora doentio ora interesseiro. Livros como o de Jessé Souza advogam não a favor de um partido, mas do povo brasileiro. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado escancara como a elite do dinheiro está mais uma vez, de modo canalha, minando o país para ter lucro agora. No jogo atual, estão dando a ideia de que tudo é em nome da moralidade, das pessoas de bem, da luta contra a corrupção.

É um livro que, se por um lado, deixa o leitor com nojo das artimanhas dos endinheirados, por outro, envia um sinal de esperança. Quem nunca engoliu o discurso de que tudo o que tem sido feito é para combater a corrupção não está sozinho. E quando um Reinaldo Azevedo aponta as incongruências jurídicas da galera do TRF4, isso torna a leitura de um Jessé Souza uma necessidade e uma inspiração. Que ele e a editora Leya prossigam com o trabalho que têm feito.
_____

[1] Souza, Jessé. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Rio de Janeiro. Leya. 2016. Pág. 84
[2] Idem. Pág. 85. 

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Entrevista para a Rádio Clube

Neste áudio, comento sobre meu livro Anacrônicas, que em breve será publicado.

 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Breves notas de leitura

Leitura de ontem: Discografia legionária, de Chris Fuscaldo. Publicado pela editora Leya, o livro tem detalhes técnicos de todos os discos do Legião Urbana e de todos do Renato Russo em carreira solo. Para quem curte como se dão as coisas em estúdio, o livro pormenoriza, mencionando, dentre outras coisas, microfones usados em algumas gravações e a tecnologia utilizada em determinados registros.

(Para o fãs do Legião Urbana, também indico As quatro estações, de Mariano Marovatto. Nele, o autor detalha produção do quarto trabalho lançado pelos legionários. O livro faz parte da série O Livro do Disco, editada pela Cobogó (dessa série, também indico o dedicado a Unknown pleasures, do Joy Division). Nessa série, cada livro se debruça sobre um disco de determinado artista.)
_____

Leitura de hoje: O lago desconhecido: entre Proust e Freud, publicação da L&PM Editores. A autoria é de Jean-Yves Tadié; a tradução é de Julia da Rosa Simões. No ensaio, num instigante estudo comparativo entre dois dos pilares do século XX, Tadié, profundo estudioso de Proust, traça os paralelos e convergências entre arte e ciência a partir das produções de Proust e de Freud. Leitura que envolve e que inspira.
_____

Leituras a serem iniciadas: estou aqui com três livros que eu vinha paquerando já há algum tempo, três livros do Jessé Souza: A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado, A tolice da inteligência brasileira: o como o país se deixa manipular pela elite e A elite do atraso: da escravidão à lava jato. Os três foram publicados pela editora Leya, que presta um belo serviço ao Brasil publicando o trabalho de Jessé Souza; em breve, resenha.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

“Que tiro foi esse”?

Somente ontem escutei “Que tiro foi esse”. Eu não conhecia a canção nem sabia que as pessoas estão fazendo coreografias, registrando-as em vídeos e as postando em redes sociais. Assim que comecei a escutar, pensei que eu havia perdido o início. A cantora entoa “que tiro foi esse”; depois é que se ouve o “tiro”. Como a frase é “que tiro foi esse”, supus que o “tiro” já havia sido disparado, para então se fazer a pergunta ou o comentário sobre que tiro havia sido aquele. Hoje, escutei de novo a canção, a fim de conferir se a pergunta ou o comentário sobre o “tiro” vem antes do próprio. É o que parece.

À parte isso, que foi só uma boba tentativa minha de buscar alguma lógica no trabalho, também hoje, conferi uma entrevista com Jojo Maronttinni, que canta “Que tiro foi esse”. Ela disse que a expressão “que tiro” é usada quando uma pessoa quer dizer que a roupa ou o visual do outro está bonito, vistoso ou algo assim. Eu não conhecia a expressão.

Prefiro outros “tiros” ou “estrondos” do pop e do rock: os “disparos” no começo de “Demônia”, do Kiko Zambianchi, as batidas iniciais em “Rough boy”, do ZZ Top, o estrondo em “The whole of the moon”, da banda The Waterboys, o também estrondo em “Right between the eyes”, com The Wax, o gongo no fim de “Big in Japan”, do Alphaville, a “bomba” em “Get your filthy hands off my desert” ou o “tiro” em “The final cut”, ambas do Pink Floyd. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Bovary, Kariênina, Capitu

Madame Bovary é um livro da escola realista. É sobre uma mulher que se apaixona por outros homens enquanto é casada. Nada mais de acordo com o tema da escola realista do que isso. Num julgamento apressado e preconceituoso, seria fácil falar mal de Emma Bovary.

De antemão, é preciso ter em mente que as Madames Bovarys, as Annas Kariêninas e as Capitus não são prostitutas (Capitu, nem sabemos se ela teve de fato um romance com Escobar, pois Bentinho, mais uma criação genial de Machado de Assis, é um narrador não confiável). Prostituta é aquela que entrega o corpo por dinheiro, o que não é o caso nem de Emma Bovary nem de Anna Kariênina nem de Capitu. Num julgamento superficial e machista, seriam. Todavia, lembremo-nos, uma das características do realismo é justamente exibir a derrocada do casamento como instituição burguesa.

Emma Bovary não suporta o marido, que é o típico burguês. Ela é sonhadora, idealiza o amor, os amantes. Se, por um lado, pode-se dizer dela que foi ingênua, por outro, pode-se dizer de Charles, o marido dela, que ele é o responsável pela monotonia que é o casamento deles. E o narrador não perdoa: logo na primeira cena do livro, quando Charles está em uma sala de aula, ainda menino, o tom de zombaria do narrador em relação ao personagem já está presente. Charles é o típico marido burguês, que nada acrescenta à esposa, seja em que aspecto for; ela, por sua vez, quer o sonho, o aprendizado, a aventura, o amor, o sexo, ainda que os busque com ingenuidade.

Há quem veja na escola realista muito de machismo pelo fato de que as mulheres, com muita frequência, se dão mal. Não vejo isso como machismo. No realismo, as mulheres são vítimas das instituições da burguesia. O Borges escreveu que “o casamento é um destino pobre para uma mulher”, embora ele, no fim da vida, tenha se casado com uma.

Não é regra que o casamento seja um destino pobre para uma mulher. Hoje, ela, quando se casa, na maioria das vezes, está em busca não dos aspectos, digamos, burgueses do casamento, mas do amor, do sexo, da aventura consequente, querendo, ao mesmo tempo, sentir-se segura.

O chamado bom marido burguês pode se tornar muito desinteressante para a esposa ao longo do casamento. Ele é talhado para ser um bom burguês, o que não implica, na ótica feminina, ser necessariamente um bom marido.

Nesse sentido, o realismo persiste não somente como escola literária. Além do mais, hoje em dia, há caminhões de mulheres independentes, que têm o próprio dinheiro e que estão predispostas a aprender, sonhar, transar gostoso. Mas, com frequência, não é isso o que elas têm tido no casamento burguês, que continuará fazendo com que elas, não raro, sejam as vítimas.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Vida

Não raro, tem-se uma visão ingênua da vida, o que leva a ignorar que, para existir, ela precisa eliminar outras vidas. Com esse objetivo, fará o que for preciso. Uma horda de abutres que fica aguardando a morte de uma vaca pode ser adjetivada como cruel ou sádica, mas os abutres estão em busca da vida, assim como esteve a vaca. Eles fazem o que fazem não por sadismo nem por maldade.

Nós, humanos, adjetivamos a natureza, assim atribuindo a ela características que são nossas. Um filhote de cachorro é chamado de dócil, uma leoa que estraçalhe uma zebra pode ser chamada de cruel. Mas nem o filhote de cachorro pensa em termos de docilidade nem a leoa concebe o mundo em termos de crueldade — ela quer sobrevier.

Com frequência, nossa presunção nos leva a ignorar não somente a força da natureza, mas também nos faz esquecer de que somos parte dela; logo, estamos sujeitos às leis da sobrevivência, estamos lutando pela vida. Nesse jogo, atacamos e somos atacados, somos caçadores e caças, predadores e presas.

Do micro ao macro, a vida quer acontecer. Uma onça que esteja perseguindo alguém não levará em conta se essa pessoa paga os impostos em dia, se é um bom pai ou se é religiosa. Um micro-organismo que esteja no corpo de um indivíduo pode levá-lo à morte, não importa se esse indivíduo é um gênio ou um tolo. A natureza não se preocupa conosco. Se a sobrevivência dela implicar nossa morte, ela não vai deixar de tentar sobreviver.

Premissas como essas estão em Vida [Life], do diretor Daniel Espinosa. O roteiro é de Rhett Reese e de Paul Wernick. Astronautas na estação espacial internacional levam a bordo um micro-organismo que logo revela uma capacidade de sobrevivência e de adaptação que, aos nossos olhos, pode se mostrar aterradora.

Além da questão de que a existência da natureza não está ligada à ética humana, o filme lida também com a temática do perigo que a manipulação da vida pode gerar. Se “Vida” não inova nas temáticas que aborda (o que em si não é um problema), ele não deixa, a despeito de não ser um grande filme, de ser um lembrete: nossa arrogância pouco pode quando a vida quer acontecer. 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O "milagre" de Ernest Renan

Quanto mais o tempo passa, mais robusta se torna minha opinião de que o melhor leitor que a Bíblia já teve foi Ernest Renan, autor do Vida de Jesus. 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Fotopoema 412

Apontamento 372

Ler me traz sorte. 

Interessado?

O conto de Tadeu

Tadeu acordou de madrugada. O mundo era um mar de escuro e de silêncio. Tadeu estava intranquilo. Como sempre, para não atrapalhar o sono da esposa e dos filhos, mal respirava, mal se mexia na cama. Mesmo assim, naquele dia, temeu que sua consciência pesada acordasse todo o Universo. 

Nua, crua

Teu corpo em minha cama:
verdade nua.

Meu corpo dentro do teu:
verdade crua.

Teu corpo querendo ser inédito:
verdade tua. 

domingo, 24 de dezembro de 2017

Um homem chamado Ove



O que somos agora é o resultado de todas as nossas experiências passadas, sejam conscientes, sejam inconscientes. Se, aparentemente, temos a capacidade de dar às nossas vidas o rumo que bem quisermos, não devemos, todavia, ignorar o fato de que grande parte do que somos é consequência de nosso passado, que determina em larga medida nosso comportamento no presente.

Essa reflexão é o fio condutor de Um homem chamado Ove [En man som heter Ove], produção sueca de 2015. O diretor é Hannes Holm. O roteiro é dele e de Fredrik Backman, autor do romance que originou o filme. Ove, interpretado por Rolf Lassgård, é um velho ranzinza que tem o hábito de visitar o túmulo da mulher com quem foi casado; enquanto está no cemitério, “conversa” com ela. No dia a dia, flerta com o suicídio. 

Ao mesmo tempo em que achamos graça das manias de Ove, há momentos em que elas nos irritam. Sendo ao mesmo tempo reflexão sobre a velhice, não há como assistir a Um homem chamado Ove sem pensar nos velhos que talvez venhamos a ser, ainda mais levando-se em conta que a velhice parece incrementar ou cristalizar defeitos que carregamos conosco desde sempre. A intenção primeira diante do modo como Ove age é tentarmos não ser tão rabugentos e chatos quanto ele, mas à medida que o filme vai avançando, o personagem começa a tomar um alcance diverso daquele que vínhamos tendo dele até então.

Quando o passado dele é contextualizado, o filme assume de vez algo que já vinha se insinuando, que é uma delicada e profunda reflexão sobre a amizade, a velhice, o amor e, principalmente, sobre as marcas que determinadas experiências podem deixar num coração. Ove não deixa de ser o velho metódico e turrão. Todavia, a compreensão ampla de quem ele é/foi confere beleza e poeticidade à trajetória dele. Ao tomarmos conhecimento das experiências que o fizeram ser o que dele presenciamos, descortina-se um personagem profundamente humano. Não há como não gostar dele.

(Além do cartaz do filme, inseri nesta postagem duas fotos que fiz após pausar Um homem chamado Ove. Num determinado momento do enredo, o personagem faz uma viagem à Espanha; lá, hospeda-se num hotel chamado Araxa (sem acento mesmo). Dei uma conferida rápida na internet. Há mesmo um hotel com esse nome na Espanha; fica em Palma de Mallorca.) 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Piolhos

Eu pensava que os piolhos, assim como os dinossauros, haviam entrado em extinção. Pensava eu que piolho era coisa da minha época. Fiquei surpreso de fato quando descobri que ainda infestam os pensamentos dos alunos.

Minha mãe tentou um tratamento nada ortodoxo contra os que tive. Ela borrifava um veneno chamado Neocid, que vinha numa lata amarela, redonda. Depois de borrifar, amarrava um pano na minha cabeça. Não me lembro se o tratamento era eficaz contra piolhos, mas descobri que sou à prova de Neocid. 

Êxito e fracasso

Em texto que escrevi em 2013, mencionei o livro O andar do bêbado, escrito por Leonard Mlodinow. Nele, o autor discorre sobre a presença do acaso e do aleatório em nossas vidas. A tese do livro de Mlodinow é a de que não há como sabermos as causas do que leva uma pessoa a se dar bem ou a se dar mal.

Ontem, comecei a ler Ética e vergonha na cara!, livro de conversas entre Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho. Em determinado momento, Steve Jobs é citado por Clóvis de Barros Filho: “Queria lembrar Steve Jobs que, em um momento de sua autobiografia, diz algo mais ou menos assim: ‘Curioso, porque jamais poderia imaginar que as coisas que eu estava fazendo levariam a esse resultado a que cheguei. Hoje as pessoas julgam o que eu fiz em função do ponto a que cheguei, mas não houve da minha parte uma estratégia deliberativa orquestrada para chegar aonde cheguei. Porque aonde cheguei decorreu de um milhão de causas que até eu ignoro — causas psicológicas das pessoas que contratei, causas macroeconômicas que eu não podia controlar. E hoje as pessoas querem fazer de mim um guru por ter arquitetado as coisas de maneira que chegasse a esse resultado. Mas não sou causa dos resultados que eu mesmo colhi’”.

Os defensores da chamada meritocracia querem incutir naqueles que consideram perdedores a ideia de que são perdedores porque são preguiçosos, incompetentes ou imbecis, ao passo que eles, meritocratas, vencedores aos próprios olhos, são disciplinados, talentosos e inteligentes; exatamente por terem tais atributos, deram certo.

O meritocrata tem uma visão egoísta de si; com frequência, o egoísmo leva a uma visão distorcida da realidade. O defensor intransigente da meritocracia se considera o único responsável por ter atingido o que ele chama de sucesso. De modo análogo, para ele, aquele que ele considera perdedor é o único responsável pelo que o meritocrata chama de fracasso.

É impossível saber o que leva uma pessoa ao fracasso ou ao sucesso. Também por isso, as palestras motivacionais de empreendedorismo incorrem em erro quanto os palestrantes expõem fórmulas para se ter êxito, exibindo “cases” (palavrinha que eles adoram) de sucesso.

Teria sido muito fácil para um sujeito como o Steve Jobs se considerar o único responsável pelo sucesso que obteve. Contudo, ele teve a inteligência de perceber que não há como uma pessoa saber o que a levou à vitória — ou à derrota. Isso não nos livra de nossa responsabilidade em nossos fracassos nem anula nossa participação em nossos êxitos. Todavia, a partir daí, como querem os “sábios” da meritocracia, atribuir somente ao indivíduo a causa por seu sucesso ou por sua derrota é indício de ignorância ou de desonestidade intelectual. 

domingo, 17 de dezembro de 2017

Você é sonso?

Quando eu era pequeno, minha mãe me dizia que eu era sonso. Com isso, ela queria dizer que eu era lento, bobo. Passei décadas supondo que esse era o sentido do vocábulo “sonso”. Num dia, enquanto eu estava folheando um velho dicionário em busca de uma palavra, meus olhos se deparam com a palavra “sonso”. O significado dela me surpreendeu: “Que ou aquele que finge não ter defeitos ou se faz de simplório, palerma, inocente, mas faz coisas reprováveis dissimuladamente ou pelas costas; manhoso, dissimulado, santo do pau oco”.

A definição acima é a que está na versão eletrônica do dicionário Houaiss, que tem o mesmo teor da definição do Aurélio, com a qual me deparei há tempos. Ou seja, o sonso não é um palerma, um bobo. Ele se finge de. A cultura popular pegou a parte visível do fingimento e a tomou como significado da palavra, quando de fato a totalidade do significado está no fingimento e no que ele esconde.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Empáfia e jeitinho não ganham jogo

Há ocasiões em que não há espaço para o improviso, o descompromisso, o achar que as coisas vão se resolver a partir de um jeitinho, de um drible. O futebol brasileiro insiste em negar essa evidência, a despeito do sete a um na Copa aqui realizada.

O jogo entre Real Madrid e Grêmio, terminado há pouco, jogou luz mais uma vez sobre o quanto nosso futebol está distante do profissionalismo do futebol europeu. A culpa disso é dos nossos cartolas e do espírito improvisador do brasileiro, o qual acha que tudo resolver-se-á a partir da genialidade, que é rara e não anula a necessidade de treino, disciplina e profissionalismo.

Durante a partida, o próprio locutor do Fox Sports ficou clamando por um lance de genialidade. O brasileiro como um todo e o futebol aqui praticado precisam aprender que esse negócio de genialidade, no futebol de hoje, não se fará sem rigor, concentração e seriedade.

Como somos um povo que não vai assumir esse compromisso, teremos em campo o que houve há pouco no jogo entre Grêmio e Real Madrid. Mesmo disputando um torneio para o qual não dão importância, e que o Grêmio considerava essencial, a equipe espanhola ganhou com facilidade do time brasileiro. Os europeus nem tiveram de se esforçar para chegarem à vitória.

O primeiro tempo foi monótono. No segundo, Cristiano Ronaldo bateu falta que passou no meio da barreira e foi parar dentro do gol. Houvesse para o Grêmio a mesma desimportância que o jogo tinha para o Real Madrid, a derrota seria menos sintomática do modo amador como nosso futebol é gerido. Mesmo as equipes tendo entrado em campo com atitudes tão distintas, o Real Madrid passeou enquanto o Grêmio escancarou o fiasco de nosso jeitinho, despreparo e incompetência. Mas não será isso que vai nos livrar de nossa atávica empáfia e de nossa perigosa ilusão quanto a nossos talentos. 

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

"Confesso que perdi"

Dizer que se espera de um profissional que ele seja ético parece ser algo redundante. Mas é uma daquelas redundâncias que precisam ser ditas, por haver tantos profissionais sem ética. Não é diferente no jornalismo. Interesses espúrios, ideologias pessoais ou puxa-saquismo acabam deturpando o que deveria ou poderia ser jornalismo.

Juca Kfouri é o jornalismo feito com ética, beleza e espírito combativo. Numa época em que meios de comunicação contratam profissionais que não sabem lidar nem com o próprio idioma de que se valem para se comunicar com leitores, ouvintes e telespectadores, Kfouri é o cuidado com o idioma, que não é pose nem é inócuo porque vem, antes de tudo, sustentado por uma conduta corajosa e honesta.

Todo esse espírito está em Confesso que perdi, livro de memórias publicado recentemente por Juca Kfouri; a obra saiu pela Companhia das Letras. Há momentos líricos, ternos. Sem cair em discurso açucarado nem em condescendência para consigo, Confesso que perdi se detém mais sobre o universo profissional do autor, ainda que, o que é natural nesse tipo de livro, haja menção a questões mais intimistas.

A leitura do livro é um refrigério. Mesmo que o autor confesse ter perdido, com o que concordo, a partir da justificativa que ele dá no livro e que tem dado em entrevistas e depoimentos, Confesso que perdi, a despeito de ser a crônica de uma derrota anunciada já no título, é, paradoxalmente e ao mesmo tempo, a vitória de um profissional que é uma pérola no jornalismo brasileiro.

Juca Kfouri conta casos, bastidores dos eventos que cobriu, histórias sobre as pessoas com as quais conviveu e as quais entrevistou. À medida que eu ia lendo o livro, a memória resgatava cenas de Kfouri que conferi na TV ou memoráveis páginas com a presença dele em revistas. Enquanto lia Confesso que perdi, eu me dei conta de que o autor está mais presente na minha vida de telespectador e de leitor do que eu havia percebido.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Haicai 62

Para minha cura,
não importa o mal,
drágeas de leitura. 

O que Zezé di Camargo enxerga e o que Marcelo Rubens Paiva enxerga

Os que defendem o retorno da ditadura deveriam ler Ainda estou aqui, do Marcelo Rubens Paiva, cujo pai, o político Rubens Paiva, foi torturado e morto pelo regime militar. Mas gente a favor da tortura ou do regime militar não está interessada nesse tipo de leitura. Gente assim está preocupada em não aprender sobre a história do país.

Não raro, isso as leva a negar a história. É o que fez, dentre outros, em setembro, Zezé di Camargo, ao declarar que não existiu ditadura militar, mas o que ele chamou de “militarismo vigiado”. Na ocasião, o cantor disse ainda que o Brasil “nunca chegou a ser uma ditadura daquelas que você ou está a favor ou você é morto”. Ele deveria ler o livro de Marcelo Rubens Paiva. Mas não vai. E ainda que lesse, não mudaria o pensamento.

Ao se deter no microcosmo da família do autor, Ainda estou aqui escancara o mal que a ditadura fez ao país. Claro que ele não é o primeiro a fazer isso; nem será o último. O que não impedirá que haja pessoas concordando com o Zezé di Camargo ou pessoas alegando que os militares fizeram bem em torturar e em matar. 

O engano não é só do Bono

Autorias atribuídas incorretamente passaram a ocorrer com mais furor após os ventos da internet e das redes sociais. Um desses casos é o poema “Instantes”, tido como sendo de Jorge Luis Borges. Eu mesmo tenho um jornal em casa em que o texto é atribuído a Borges. Quando ele não é atribuído a Borges, é atribuído a uma estadunidense de nome Nadine Stair. “Instantes” não é nem de Stair nem de Borges. É de Don Herold, humorista dos Estados Unidos.

A atribuição incorreta dessa autoria já causou episódios curiosos ou divertidos. Num deles, Bono Vox, vocalista do U2, disse, num canal de TV mexicano, antes de ler trechos do poema, que declamaria alguns versos do “poeta chileno Borges”. Há duas informações incorretas na afirmação do Bono: Borges não é chileno, mas argentino. 

O apelo do Tito

Tive um dia desses mais uma prova insofismável do quanto sou desafinado: comecei a cantar, o Tito, meu cachorro, começou a resmungar num choro baixinho. Parei de cantar, o Tito voltou a sorrir. 

Apontamento 371

Por mais que vivamos, a morte sempre recebe um rascunho. 

Comunhão

Não escrevo na ilusão de mudar as pessoas nem de mudar o mundo. Isso seria muita empáfia minha. O que escrevo é meu modo de dizer que você não está sozinho, que eu não estou sozinho, que não estamos sozinhos. Mas sei: ainda que sozinho eu estivesse, escreveria. Mas saber que não estou sozinho é mais uma razão para que eu escreva. 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

A ghost story

Se por acaso você cogitar não assistir ao filme A ghost story (2017) por achar que o enredo remete a Ghost — do outro lado da vida (1990), esqueça isso. Também não deixe de assistir ao filme por achar que um fantasma representado por uma pessoa coberta por um lençol é algo muito infantil ou inverossímil para ser conferido. Por fim, se você não gosta de filmes de terror, leve em conta que A ghost story não é um filme de terror e que qualquer gênero tem obras-primas.

O filme não tem pressa e subverte regras clássicas de composição dos quadros cinematográficos. Acostumados do modo como estamos aos cortes frenéticos da maioria das produções atuais, o diretor David Lowery, também o autor do roteiro, propõe longas tomadas com a câmera estática.

O filme é estrelado por Casey Affleck e Rooney Mara. C (interpretado por Casey Affleck) morre em acidente de carro. M (interpretada por Rooney Mara) fica sozinha na casa deles. Pouco depois de deixar o hospital a que havia sido chamada para fazer o reconhecimento do corpo de C, M vai embora; instantes depois, C se levanta e sai caminhando, coberto pelo lençol que estava sobre seu corpo no hospital.

O fantasma de C vai parar na casa que era compartilhada por ele e por M, onde ela passa a morar sozinha. A partir daí, A ghost story se torna uma bela e poética reflexão sobre a inexorabilidade da passagem do tempo e sobre a destrutibilidade de tudo o que edificamos. Com relação ao espaço que ocupamos, o acesso ao que houve e o conhecimento do que haverá não anulam a destruição cabal. Num eufemismo, dir-se-ia que a transformação é que vem, não a destruição. 

Pode-se assistir ao filme de David Lowery como uma alegoria da dificuldade que temos em nos desapegar daqueles com quem um dia convivemos ou daquilo que um dia esteve em nossas mãos. Num limbo melancólico, o fantasma de C não se conforma com a dissolvência do que um dia foi o espaço dele, mas que foi e será o espaço de outros.

Pode ser que chegue o instante em que não haverá o espaço de ninguém. Numa dimensão cósmica, pode ser que não restará nem memória nem átomo do que fomos ou dos lugares que ocupamos ou das coisas que tivemos em mãos. Diante da duração e da extensão do Universo, nossas vidas são ínfimas. Não bastasse, um vento macondiano poderá aniquilar qualquer possibilidade de permanência de qualquer coisa. Mas isso não é pretexto para que deixemos de assistir a filmes como A ghost story. Que se reserve tempo e espaço para o trabalho de David Lowery. 

Sobre práticas pronominais

Ainda há pessoas que se encantam porque o presidente usa mesóclise. Sob pretexto de moralizar o país e sem saber (ou sabendo) que vai doer nelas também, dar-se-ão por satisfeitas com o pronome oblíquo no meio. 

Haicai

Constato demais:
é bonito e sedutor
quem lê mais.