sexta-feira, 15 de julho de 2016

Fotopoema 394

Questionário

Em quem você pensa quando você se toca?
De quem é o rosto que procura na multidão?
Com quem queria estar agora?
Ao lado de quem quer estar durante a gargalhada?
Com quem sente vontade de compartilhar o texto?
Com quem sonha?
De quem tem saudade?
Com quem devaneia?
Para quem quer contar sobre o passeio?
Com quem quase entra em contato todos os dias?

Você responderia às perguntas acima com um só nome? 

Na roça

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Corpo literário

Que eu escreva com cuidado e com força, 
como se tua pele fosse a superfície de minhas palavras. 
Que meu texto tenha delicadeza e vigor, 
como se estivesse eu amando teu corpo. 

"Imitação de Cristo"

A leitura precisa ser feita com espírito aberto, sensato, crítico. Ser contra o nazismo não deveria impedir uma pessoa de ler “Minha luta”, do Hitler; pode-se gostar de Neruda sem ser comunista, ou mesmo apreciar Llosa sem ser de direita. Não ser cristão não deveria impedir alguém de ler “Imitação de Cristo”, de Tomás de Kempis (1380-1471).

A edição que tenho foi publicada pela Martin Claret. A tradução é de Luiz Fernando Guimarães. O livro de Kempis, escrito de modo simples, direto, já no título deixa claro o que uma pessoa dever fazer para alcançar plenitude depois da morte. Para Kempis, obviamente, Cristo é o modelo, o que dever ser seguido ou... imitado para que tenhamos acesso ao paraíso.

De cunho prático, “Imitação de Cristo”, em essência, é um tratado contra as ilusões que são cultivadas pelo homem enquanto não chega a hora da morte. Ao postular que as almejadas glórias sejam vaidade, o livro reverbera o Eclesiastes, que diz: “Então examinei todas as obras de minhas mãos e o trabalho que me custou para realizá-las, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nada havia de proveitoso debaixo do sol”.

Poder-se-ia alegar que Kempis está enganado ao postular a existência de vida eterna após a morte, que para se evitar a danação, uma vez terminada a vida terrena, deve-se seguir o que Cristo pregou. Mesmo assim, seu livro permite uma leitura desvinculada de questões religiosas, exatamente por ter um caráter sumamente prático; o ponto forte de “Imitação de Cristo” não é afirmar a salvação dos bons, mas, sim, oferecer soluções práticas para a vida que levamos aqui na Terra.

Não faço aqui um julgamento irresponsável, interpretando a bel-prazer o que Kempis escreveu ou desvinculando o livro de seu contexto. “Imitação de Cristo” é um livro carregado de ideologia católica. O que o torna universal, é claro, não é o que ele tem de religiosidade: é o que ele recomenda para o dia a dia; o objetivo de Kempis é ofertar uma espécie de guia para a salvação, mas o caráter prático da obra faz com que “Imitação de Cristo” possa ser praticado, por exemplo, por um ateu ou um budista.

Ao propor humildade, falta de ilusão quanto ao que somos e desapego com relação a coisas materiais, Kempis advoga a favor das ações. Não é preciso ser adepto de nenhuma religião para se constatar a sensatez de trechos como “devemos ler livros simples e devotos com a mesma disposição que lemos os eruditos e profundos. Não devemos ser influenciados pela autoridade do escritor, seja ele um grande astro literário ou não, e sim pelo amor à verdade simples. Não devemos perguntar quem está falando, mas prestar atenção ao que é dito”.

Naturalmente, a prédica de Kempis vem acompanhada de catolicismo. Num trecho, escreve: “Deveríamos apreciar bastante paz se não nos preocupássemos com o que os outros fazem e dizem, pois tais coisas não nos dizem respeito. Como pode um homem que se ocupa com assuntos que não são seus, que procura distrações fora de si e que pouco se recolhe ao seu eu interior, viver em paz?”. A citação, que não precisa estar ligada a nenhum dogma para ser vivenciada, vem, por sua vez, acompanhada do seguinte trecho:

“Abençoados sejam os simples de coração, pois eles terão abundância de paz.

“Por que alguns santos se dedicavam de forma tão perfeita e determinada à contemplação? Porque tentaram refrear completamente em si mesmos todos os desejos terrenos, assim foram capazes de se ligar a Deus com todo o coração e concentrar-se livremente em seus pensamentos mais íntimos”.

Ainda que o catolicismo de Kempis possa, de antemão, “afugentar” muitos, “Imitação de Cristo” é atemporal não pelo viés religioso que tem, mas por seus conselhos e sugestões terem um viés que nos seja útil para o cotidiano. Tanto é assim que é difícil supor algo mais atual do que “diferenças de opinião muitas vezes dividem amigos e conhecidos, mesmo entre religiosos e devotos”. 

No meio do caminho...

"A terceira margem do rio"

terça-feira, 12 de julho de 2016

Convite

Vou participar da 24ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Acabei de receber confirmação da Chiado Editora de que estarei no evento no dia 30 de agosto, das 12h às 12h50, quando haverá sessão de autógrafos do livro Dislexias, que foi lançado pela Chiado neste ano. 

segunda-feira, 11 de julho de 2016

"Beleza americana"

Ninguém é o que parece ser. Parece-me que esse pensamento define a essência de “Beleza americana” (1999), do diretor Sam Mendes; Alan Ball é o roteirista. Quando o filme foi lançado, antes mesmo de o assistir, era fácil nutrir a expectativa de que seria um filmão, pois um título assim só poderia ter uma ironia amarga.

Na primeira vez em que o conferi, não me ocorreu o quanto a cor vermelha está presente no filme, seja num buquê, num vestido, numa porta; essa cor e tudo o que ela possa simbolizar. O tom de vermelho em “Beleza americana” é vivo, escuro, fazendo lembrar a cor de alguns vinhos ou a do sangue. Toda essa vivacidade contrasta com o tom desbotado das vidas dos personagens.

Eles são tão miseráveis que quase sentimos pena deles. São existências monocórdias e emperradas buscando algo que não seja fingimento social. Ninguém é santo; ninguém é diabo. Pode-se considerá-los desequilibrados, mas há neles nuances e sutilezas que não os fazem cair em maniqueísmos fáceis e reducionistas. São pessoas “somente” tentando ser felizes, por mais elusivo que o conceito de felicidade possa parecer. 

sábado, 9 de julho de 2016

Brincando com fogo

Quando ministro curso de fotografia, sempre digo que água e fogo são grandes assuntos enquanto se fotografa. Onde há água ou fogo, que se aguce o olhar.







Apontamento 341

Não faltam grilhões: o trabalho não desejado, o Estado, as religiões, as ideologias. Somos todos barrados, limitados, impedidos; estamos cercados. Em meio a sistemas, o corpo de cada um. O corpo e a capacidade de amar que pulsa sob a pele. Em maior ou menor grau, somos todos adestrados. Ainda assim, subjaz em cada um o poder e a vontade do corpo.

Um dos desejos do corpo é a vontade de amar. Vontade que desestabiliza sistemas, pessoas — se o indivíduo não souber lidar com a energia que seu corpo tem. O corpo é selvagem, não quer saber de regras. Felizes os que sabem escutar seus apelos, os que não são arruinados pelos mecanismos que insistem em domar, canalizar para atividades laborais ou sublimar, seja como for, o que temos de energia.

Num mundo em que somos tão cerceados, vigiados e esquadrinhados, muitas pessoas nunca ficam sabendo que são o amor em movimento, em potencial, em latência. Amor: sexo, inteligência, delicadeza, confiança, arte, cumplicidade, força. O amor é uma possibilidade de se tentar alguma libertação. O corpo é talhado para o amor; o amor quer um corpo; este quer amar. 

Livre

Haicai 48

Manhã, melodia.
Buscar cedo o
Sol de todo dia. 

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Chegada

Se há motivo para que
você tenha vindo, não sei.
Você veio, você chegou.
Tendo chegado,
me causou amor.

Penso em você
em tudo o que é dia,
em tudo o que é noite.
No que é dia
e no que é noite,
existem 
chuva,
montanha,
livro,
ave,
palavra,
cerrado.

No que dura o dia
e no que dura a noite,
sou durante.
Enquanto há luz,
enquanto há breu,
que eu entregue para você
o que em mim é amor. 

Enfeites juninos

Apontamento 340

É muito comum as pessoas fazerem menção à pegada que o outro tem. “Pegada” é uma dessas palavras imprecisas que sabemos o que é quando estamos com quem a tem. Nessa imprecisão, há algo de literalmente palpável quando as pessoas, cheias de... pegada, louvam o ato erótico.

A pegada não está ligada só a questões do corpo. Claro que ela é dependente dele, mas, ao mesmo tempo, tanto maior ela é quanto mais ela possa contar com a imaginação ou com a inteligência. Precisamente por não depender só do corpo, há um convite e uma vontade que vêm daquilo que em nós e no outro não é só corporal.

Nessa mistura cujos elementos não sabemos precisar, há corpo, inteligência, imaginação, senso artístico, modos de encarar o mundo. No encontro dos corpos que vão se unindo no desejo de possuir o que é do outro e de dar ao outro o que se é, aquilo que não é palpável vem à tona, louco para desaguar na pele e na alma do outro. Um gozo que é feito de corpo, de imaginação, de inteligência, de sons, de tatos, de fogos. 

Fogo

Ontem, eu estava indo para o trabalho quando me deparei com este fogo às margens da BR-365. Mesmo sem câmera fotográfica, tive vontade de registrar a cena. O jeito foi me valer do celular. 

Apontamento 339

Não sei se é verdadeira, a história de Demóstenes com os seixos na boca, bem como não sei se os fonoaudiólogos aprovam o que o orador grego teria feito. Isso pouco importa. Há histórias que valem não pela literalidade, mas pelo que têm de alegoria ou de símbolo. 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Você na saudade

Quando a memória tem afeto: saudade.
Quando a memória tem gosto: saudade.
Quando a memória tem cheiro: saudade.
Quando a memória tem timbre: saudade.
Quando a saudade tem você: amor. 

terça-feira, 5 de julho de 2016

Dando bandeira







Como se fosse um presente

Nuvens migram para
perto do horizonte,
onde são tingidas
de tom roseado
pelo Sol que está
quase nascendo.

Todo esse espetáculo
não é para mim,
embora eu o contemple.
Sem desejar,
é como se o dia
me desejasse
um bom dia. 

domingo, 3 de julho de 2016

Apontamento 338

Não descreio da existência da inspiração. O que digo, é que o escritor profissional não deve contar com ela para escrever. Se o momento é inspirado, que haja por parte de quem escreve a capacidade de transformar esse elã em palavras que lhe agradem. Na ausência da inspiração, que o escritor produza, pois o trabalho de escrever é um trabalho como qualquer outro.

O Romantismo recrudesceu o mito do poeta inspirado que, benfeito, recebe das musas a graça da palavra. Uma concepção assim tem um apelo muito sedutor no imaginário das pessoas, que gostam de supor a criação artística como que necessariamente atrelada à inspiração, quando, a bem da verdade, é algo mais ligado a trabalho mental, a atitude e a disciplina. 

sábado, 2 de julho de 2016

"Bom dia, Ramón"

Ramón (Kristyan Ferrer) é um jovem mexicano que já tentara atravessar a fronteira do México para os EUA por quatro vezes; falha na quinta. É quando um amigo menciona uma tia que mora na Alemanha, para onde Ramón vai. Tendo chegado, não consegue contato com a tia do amigo. Sem dinheiro, só com a roupa do corpo e sem falar nada de alemão, Ramón está perdido numa cidade do interior da Alemanha, passando frio e fome. A partir desse quadro, o diretor e roteirista de “Bom dia, Ramón (Guten Tag, Ramón, 2013), Jorge Ramírez-Suárez, constrói uma história delicada e poética, temperada com um humor simples e cativante.

A vida de Ramón começa a melhorar quando ele tem contato com Ruth (Ingeborg Schöner), mulher gentil e solitária (ela tem como companhia somente os vizinhos do lugar em que vive) que se oferece para ajudá-lo, proporcionando a ele a possibilidade de ganhar algum dinheiro e dando a ele abrigo no porão do apartamento em que ela vive. Em pouco tempo, Ruth apresenta Ramón aos demais moradores do prédio, que abriga velhos solitários.

Devido a seus bons modos e a ser muito solícito, o jovem mexicano vai se tornando amigo dos moradores do prédio; a exceção é Schneider (Karl Friedrich), que acaba denunciando a situação ilegal de Ramón na Alemanha. A solução para o imbróglio pode não convencer, mas isso não estraga o filme, que é permeado de ternura.

Um dos pontos altos é quando Ruth convida Ramón para jantar na casa dela. Ele nada domina do alemão nem ela domina nada do espanhol. Ainda assim, os dois mantêm um “diálogo”. Ela diz a ele o que foi o passado dela; ele diz a ela a saga por que passou até estar junto a ela. Mesmo sem que nenhum entenda nada do que o outro esteja falando, estabelece-se uma curiosa sintonia entre os dois. É uma cena bonita.

“Bom dia, Ramón”, em sua simplicidade, é retrato do que pode haver quando se está disposto a saber quem é o outro. Ruth e Ramón pertencem a culturas bem diferentes uma da outra; ele é jovem, ela é velha. A despeito disso, a película destaca o que a ausência de preconceitos pode gerar no encontro com o outro. Nesse sentido, paira em “Bom dia, Ramón” um inspirador tom whitmaniano. Em tempos tão migratórios, mas, ao mesmo tempo, tão intolerantes e preconceituosos, o filme, em vez de denunciar as mazelas que o preconceito cria, evidencia a beleza da alteridade, do reconhecimento do outro e do respeito por ele. 

Sonho e palavra

Estando eu de olhos abertos,
tu és o sonho que eu tenho.
Estando eu de olhos fechados,
tu és o sonho que eu tenho.
Mais um dia, mais um sonho.
Mais uma noite, mais um sonho.
Tão real quanto o sonho, o poema. 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Do fundo do cérebro 2

Em texto de 1987, Mario Vargas Llosa escreve sobre “Lolita”, do Nabokov. O último parágrafo-frase do texto é “sí, cumplidos los treinta, Dolores Haze, Dolly, Lo, Lo-li-ta, sigue fresca, equívoca, prohibida, tentadora, humedeciendo los labios y acelerando el pecho de los caballeros que, como Humbert Humbert, aman con la cabeza y sueñan con el corazón”.

No dia vinte de março deste ano, publiquei postagem em que mencionei o que uma aluna dissera certa vez em sala de aula; segundo ela, a gente ama é do fundo do cérebro. A estudante me disse na ocasião de quem ouvira o comentário, mas não lembro quem possa ter sido.

À parte isso, o Llosa já havia usado a expressão “aman con la cabeza” na segunda metade da década de 80. Não se trata aqui de buscar a gênese desse pensamento ou dessa expressão. A questão é que a ideia de que se ama com a cabeça é atraente demais. Penso que voltarei ao tema. 

A invasão

Surge, na linha reta do horizonte, 
o não imaginado por aqueles que, 
em terra, observam o que traz o mar. 
O não convocado flutua sobre águas. 
Agiganta-se o olhar nu do contemplador.
O não concebido deixa as águas 
e pisa solo firme, doce, pródigo.
Vem do mar azul o buscador, que já 
embarcara tingindo d’ouro seu destino. 
A ele chegando, chama-o de paraíso.
Todavia, bafeja nele ares infernais. 
Deixa de ser jardim, o éden invadido. 

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Apontamento 337

Erudição não gera talento, mas pode robustecê-lo.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Amarelo e azul

Em busca da imaginação

Padeço de mania de lógica. Há nisso algo que me parece mais hábito e treino do que essência. No que produzo, insisto na lógica, em as coisas fazerem sentido, em fazer com que sejam inteligíveis. Todavia, exagero. Só que estou acostumado a fazer as coisas com essa abordagem; não consigo dela me desvencilhar quando vou escrever ou quando vou fotografar.

Essa luta excessiva pela inteligibilidade começou na adolescência. Como tenho quarenta e cinco, estou pelo menos há uns trinta anos labutando para inserir sentido, coerência e lógica em tudo que cismo de criar. As vantagens dessa abordagem são evidentes; seria inconsequência entregar-me somente a patuscadas plenamente destituídas de sentido. Em contrapartida, nunca deixei de ter em mim que tenho busca exagerada pelo que faz sentido.

Nem sempre as coisas precisam ter sentido. Nada tira de minha cabeça que acabo tolhendo minha imaginação, de tanto buscar o que é lógico, sensato, calculado, medido, pesado. Peco por exagero de sistematizações. Não consegui achar equilíbrio entre imaginação e rigor mental. Sou seduzido demais pelos dois; acabo me entregando a apenas a um.

Tenho fascínio pelos prodígios que a imaginação é capaz de dar à luz. Sei apreciar o que não faz sentido (ou que pelo menos parece não fazer). O que não sei, talvez devido à minha mania de lógica, é criar o que não faz sentido (ou que pelo menos parece não fazer). Dando a ela tratamento de adulto, como resgatar aquela imaginação tão pródiga que tive na infância? 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O que se planta

A espera aqui fora. 
A demora lá dentro. 
Vale a pena quando
brota a semente.

Quando não brota, 
vale a pena o semeio?

Só se tiver sido feito com amor. 

Quimera

De nada adiantam esses números 
a indicar que há novas mensagens 
se nenhum deles traz teu nome.

Se um deles trouxesse, 
poderia trazer tuas palavras. 
Elas poderiam trazer esperança. 
Ela poderia te trazer.

O aplicativo exibe mais um número. 
Não trouxe teu amado nome. 

Amor-alimento

O ato de cozinhar precisa de
pelo menos um amor:
o amor pela química que é
lidar com alimentos, 
condimentos, utensílios.
Amor com tempero é gostoso.

Sem esse amor, cozinha-se.
Só que o amor é ingrediente
que passa de quem cozinha
para o que é cozinhado.
Amor transferido é gostoso.

Pode ser que além do amor
pela alquimia que se dá na cozinha,
cozinha-se para o amor que
se tem no coração.
É quando cozer tem especiaria
que vai de quem ama 
para quem é amado.
Amor comido é gostoso. 

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Palavras e roupas para um engodo

Quando se apoia uma causa, é preciso haver o exame consciente, maduro e sincero das motivações por trás desse apoio. Nem todo mundo tem consciência, maturidade e sinceridade para uma análise profunda. Além disso, há quem não assuma publicamente que o preconceito contra algo é o que pode levar alguém a defender seja o que for, seja quem for.

Nesse sentido, se uma pessoa é decididamente contra as causas de um candidato, ela apoiará quase qualquer coisa que venha do candidato oposto. Nesse estado de coisas, até os interesses democráticos podem sair de cena. Caso a pessoa não admita isso diretamente, ela pode, consciente ou inconscientemente, inventar pretextos frágeis para justificar sua escolha.

Não raro, essas pessoas alegam que seu candidato ou tem domínio do português ou é bonito. O mesmo discurso está na mídia: pouco depois do que o próprio Michel Temer chamou de golpe, o Noblat escreveu: “Uma coisa que eu jamais observara: como Temer é um senhor elegante. Quase diria bonito. A senhora dele, também”.

Para algumas pessoas, não importa se houve um golpe (repito: palavra que o próprio Temer usou), desde que o político a assumir o cargo seja bonito ou tenha curso superior; se for bonito e se tiver curso superior, melhor ainda. Como se aparência ou estudo fossem garantias de competência ou de espírito democrático.

Nem preciso dizer que este texto não é libelo contra os belos ou contra os que têm curso superior ou contra os que têm bom português. É sempre agradável olhar para uma pessoa bonita, é sempre ótimo quando alguém (não importa quem) tem a oportunidade de fazer faculdade, é sempre louvável o cuidado que se tem com o próprio idioma, seja ao escrever, seja ao falar. Todavia, nada disso pode ser salvo-conduto para que a pessoa empreenda um golpe (reitero: termo de que o próprio Temer se valeu) político.

No mais das vezes, discursos e entrevistas com políticos, no terreno das ideias, independentemente dos partidos a que estejam ligados, são carregados de lugares-comuns, de chavões, de obviedades. A oratória é habilidade das mais difíceis; não é um curso superior que a garante, não é o hábito de falar em público ou de dar entrevistas que a assegura. No todo, ou os políticos não querem se dedicar a ela ou não têm tempo para esse tipo de estudo.

Mesmo assim, a aparência de que se é convence mais do que de fato ser. Ternos caros, algumas sessões com publicitários e com fonoaudiólogo e ensaios de uma retórica salpicada aqui e ali de citações e de palavras “cultas” dão um verniz que pode ser engodo. Para um desavisado, o que fica é um discurso “chique”, coeso, “superior”, quando na verdade o que há é um desfile de clichês. Para o desavisado, trata-se da arte da palavra em sua essência, quando na verdade são apenas alguns truques ensaiados. A oratória depende de treino, mas é mais profunda do que manhas ditadas pelo marketing de algum político.

Não raro, alguns amigos comentam comigo sobre o inglês de alguns locutores de estações de rádio FM as quais se dedicam ao pop/rock. Esses amigos alegam que locutor de FM desse segmento deve ter inglês bom. Sempre digo que não, pois o mais importante na profissão, do modo como a encaro, não é o inglês. Ter carisma e estar bem informado contam muito mais. Se, além disso, o profissional tem o inglês bom, melhor ainda.

De modo análogo, pergunto: estar bem vestido, ter curso superior e parecer falar bem (ou de fato falar bem) são o mais importante para que a pessoa seja um político? Minha resposta: não. Se o sujeito é político em essência, se sabe se vestir bem, se é bonito e se tem curso superior, que ótimo! No mais, prefiro um Mujica andando de Fusca e vestindo roupas simples a um Temer bem vestido articulando o que ele mesmo chamou de golpe.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

... Assim falou Temer...

Michel Temer, presidente do Brasil, disse que havia restringido, em entrevista a Roberto D’Ávila, as viagens de Dilma Rousseff com aviões da Força Aérea Brasileira porque ela poderia usar o benefício “para fazer campanha denunciando o golpe”. Não estou usando a palavra “golpe”; ele, Temer, usou o termo. Na mesma entrevista, o presidente do Brasil elogiou Eduardo Cunha, dizendo que ele, Cunha, é um “batalhador no campo político e no campo jurídico”. Não elogiei Cunha; ele, Temer, elogiou. 

Apontamento 336

O que escrevo é leitura fermentada.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Por favor, uma dose de nódoa

Estou lendo “La verdad de las mentiras”, do Mario Vargas Llosa. Além de uma bela introdução em que o escritor discorre sobre o paradoxo de que a literatura “mente” para trazer à tona verdades que de outro modo continuariam escondidas, o livro tem vinte e cinco ensaios sobre romances que marcaram o século XX.

Um dos ensaios do livro de Llosa é sobre “Mrs. Dalloway”, da Virginia Woolf. Septimus Warren Smith é nome de personagem criado por ela nesse livro. O enredo, que prima por aquela famosa aparente simplicidade de alguns grandes escritos, narra um dia da senhora Dalloway. A “monotonia” é quebrada por um evento drástico — o suicídio de Septimus Warren Smith.

A partir daí, escreve Llosa: “En alguna parte leí que un célebre calígrafo japonés acostumbraba macular sus escritos con una mancha de tinta. ‘Sin ese contraste no se apreciaría debidamente la perfección de mi trabajo’, explicaba. Sin la pequeña huella de cruda realidad que la historia de Septimus Warren Smith deja en el libro, no sería tan impoluto y espiritual, tan áureo y tan artístico el mundo en el que nació — y contribuye tanto a crear — Clarissa Dalloway”. O suicídio de Septimus Warren Smith “conspurca” a “pureza” da narrativa em “Mrs. Dalloway”. O personagem “estraga” o livro.

Tudo isso me remete ao Manuel Bandeira. Não somente por ele ter a aparente simplicidade a que já fiz referência, mas por ele ter expressado tão bem, com tão poucas palavras, que o espírito da poesia, por mais paradoxal que possa soar, é o de “estragar” as coisas, é o de “incomodar” as coisas. É curioso: a beleza precisa de uma “mancha”. No modo como encaro as coisas, isso vale até para a beleza física das pessoas. É preciso algo que “destoe”. Escreveu o Bandeira: “A poesia é a nódoa no brim”. 

A história por trás da foto (92)


O Bruno Fontoura, cantor e compositor local, nos versos iniciais de “Despertar”, canta:

Faça tudo cedo. 
Deixe todo enredo ficar pra trás.
O que se faz mais cedo 
é muito menos peso pra se deixar.
E tudo que lhe causa medo, 
será só mais algum brinquedo
e nunca mais vai causar.

Hoje, seguindo o belo “preceito” do Bruno, comecei a fotografar cedo. Trabalho no IFTM, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro, campus Patos de Minas. Ontem, indo trabalhar, eu me arrependi de não ter levado a câmera comigo, pois o nascimento do dia, próximo ao horizonte, estava muito bonito. Ontem mesmo, eu havia decidido que hoje eu levaria o equipamento fotográfico.

Assim foi. Só que, saindo aqui de casa, mal tendo passado pelo portão que dá acesso à rua, percebi que a Lua estava no céu. Como ainda não estava muito perto do horizonte, eu soube que haveria tempo de eu chegar ao trabalho e fotografá-la de lá.

Assim foi. Próximo ao portão de entrada do IFTM, tirei a foto do Sol nascendo. Já dentro do instituto, minutos depois, tirei a foto da Lua, que, nesse momento, já se aproximava do horizonte. 

domingo, 19 de junho de 2016

O lugar

Em devaneio, 
criei para nós um lugar. 
Não havia espaço
entre os corpos.

Não era um 
lugar geográfico definido.
Havia tu e eu.
Teu corpo é o lugar. 

O ataque ao vendedor de bananas

Em postagem anterior, já fiz referência à falta de capacidade de expressão de parte dos internautas. Incapazes de articular um discurso que tenha civilidade, partem para onomatopeias e memes que, em tese, deveriam substituir as palavras que não são capazes de produzir. No mais das vezes, esses memes e essas onomatopeias reforçam a falta de criatividade e a incapacidade de linguagem articulada e polida.

É claro que cada um posta o que quiser nas contas que mantém em redes sociais. Só que há quem, não satisfeito em exibir sua incapacidade em seus perfis, vai até o perfil do outro, não somente com a inabilidade de se expressar com gentileza, mas também com a intenção de agredir, muitas vezes só pelo outro ter emitido uma opinião discordante da do agressor.

Na falta de tato para o diálogo, parte-se para o ataque pessoal, ainda que esse ataque esteja disfarçado de falsas gentilezas ou de falsas brincadeiras. Desse modo, expressões como “você até que é inteligente” precedem os ataques, como se tais expressões, em si, já não fossem um ataque. Desse “você até que é inteligente”, pode-se deduzir “você não é muito inteligente” ou “minha inteligência é superior à sua, a ponto de eu perceber que você não é muito inteligente”. O emissor se coloca num nível de perspicácia mais elevado do que aquele que “até é inteligente”.

Numa típica construção que tem por objetivo atacar, não argumentar, uma típica frase poderia ser: “Você até que é inteligente, mas não sabe nada de política. Continua vendendo banana na sua feira que dá mais certo”. É claro que, depois de um comentário assim, haverá o retumbante “kkkkkkkk”, talvez numa tentativa de revestir a grosseria com (canhestro) senso de humor, como se o comentário tivesse sido uma brincadeira.

O segmento “você até que é inteligente, mas não sabe nada de política” pode ser interpretado como “eu, sim, tenho capacidade e inteligência para falar de política”. O segmento “continua vendendo banana na sua feira que dá mais certo”, antes de tudo, reforça a suposta incapacidade de ideias por parte de quem vende bananas, como se houvesse algo de inferior nisso; o trecho sugere: aquele que vende bananas não está, pela natureza de seu trabalho, apto a emitir opiniões políticas.

A paráfrase do comentário poderia ficar assim: “Eu sou mais inteligente do que você; por isso, eu, sim, estou apto a opinar sobre política. Você não passa de um vendedor de bananas, e vendedores de banana, exatamente por serem vendedores de banana, já mostraram que não são muito inteligentes. Se fossem, não estariam vendendo bananas”.

Afirmações como “você até que é inteligente, mas não sabe nada de política. Continua vendendo banana na sua feira que dá mais certo” revelam o que é prática diária em redes sociais e em comentários que são deixados em sítios de notícia. O que há é o desejo de agredir. Não há a mínima tentativa de compreensão do outro. Sem ideias, o agressor mostra os dentes, num discurso onomatopaico, preconceituoso, arrogante e animalesco. 

"Chove lá fora"

Até hoje, não sei se chove mais em “Cem anos de solidão”, do García Márquez, ou em “Blade Runner”, do Ridley Scott. 

Enquanto isso, na plateia

Num mundo barulhento, perde-se a capacidade de fazer silêncio, de escutar. Num universo em que é cada vez mais fácil dizer, não importa o quê, não importa como, muitos emitem sons, poucos cultivam o silêncio ou a escuta.

No dia quinze de junho, no Teatro Municipal Leão de Formosa, conferi evento promovido pela escola Instituto Presbiteriano de Educação. Era uma apresentação com estudantes do nono ano e do ensino médio. O que me chamou a atenção foi exatamente a capacidade de escuta da plateia.

Não foram poucas as vezes nas quais estive em situações barulhentas quando deveria ter havido silêncio. Certa vez, em Belo Horizonte, em evento promovido por uma escola de lá, eu estava na plateia, com mais uns mil e quinhentos professores. No palco, uma bela e talentosa atriz realizava seu trabalho, atuando, cantando, dançando.

Num determinado momento da apresentação, ela para, encara o público: “Se vocês não fizerem silêncio, não há como eu entregar o texto pra vocês”. Por um lado, chamou minha atenção o uso do verbo “entregar”, que achei bonito na frase; por outro, considerei vexaminoso que se precisasse chamar a atenção de uma plateia composta basicamente por professores.

No dia quinze, no Teatro Municipal, constatei que ainda é possível haver a gentileza de se escutar a mensagem do outro. No caso específico de ontem, essa mensagem eram poemas que fizeram parte da apresentação realizada pelo Instituto Presbiteriano. Foi bonito conferir os alunos no palco, num dia em que a plateia também deu um show. 

Confluência

Estrada afora

domingo, 12 de junho de 2016

Sin gracia


Não falo espanhol, não domino o idioma. Isso não me impede de ser cara de pau. Como nesse caso o que não me faltou foi caradura, escrevi e gravei o texto. 

Cruzeiro derrota o Atlético

Atlético e Cruzeiro fizeram um jogo à altura da grandeza dos dois. Uma partida que daria uma média de gol a cada dezoito minutos. O Atlético começa vencendo, o Cruzeiro vira, o Atlético empata, o Cruzeiro faz. Não é pouco para um clássico, que geralmente se caracteriza por ser um jogo truncado, não raro sem graça. Não foi o que ocorreu há pouco no Independência.

O dado ruim da partida foram as expulsões, de modo que o Atlético terminou com dez jogadores; o Cruzeiro, com oito. Mesmo quando o Cruzeiro tinha nove em campo e o Atlético tinha dez, a partida já havia assumido feição de ataque contra defesa. Todo recuado, o Cruzeiro não conseguiu partir para o contra-ataque; mesmo na pressão, o Atlético não conseguiu ser eficaz. Pelo Atlético, Marcos Rocha foi expulso; pelo Cruzeiro, Bryan, Lucas e Lucas Romero (este, aos quarenta e sete do segundo tempo).

Fred logo deu provas de que é sempre um excelente investimento, fazendo um dos gols do Atlético, mesmo ainda não tendo se entrosado com o time. Do lado cruzeirense, o destaque foi Arrascaeta, que, mesmo não tendo feito gol, fez uma ótima partida, principalmente na jogada que realizou quando a Raposa conseguiu fazer o segundo gol.

As duas equipes não estão bem colocadas no campeonato. O torcedor cruzeirense mais exaltado, pelo menos por hoje, não vai se importar com isso; afinal, o Cruzeiro derrotou o Atlético no Independência e ainda empurrou o Galo para a zona de rebaixamento. O jogo, embora tenha sido bom, não deve deixar apagar a luz de alerta nas duas equipes, que muito precisam melhorar para buscar pelo menos estar entre os quatro primeiros colocados no fim do torneio.

Rafael Carioca, aos treze do primeiro tempo, marcou para o Atlético. Alisson, aos dezoito do primeiro tempo, empatou para o Cruzeiro. Riascos, após bela jogada de Arrascaeta, virou para o Cruzeiro, aos três da segunda etapa; aos dez, Fred empatou a peleja. Aos dezessete, Bruno Rodrigo marcou o terceiro do Cruzeiro. 

sábado, 11 de junho de 2016

O selvagem e o civilizado

Há algo que me chama para a escuridão.
Longe dos prédios e das luzes das cidades, 
o animal se regozija.

Há algo que me chama para as luzes.
Longe das árvores e do espírito do cerrado, 
o cidadão se regozija. 

Florescências 2

Os “frutos” da árvore são os seguintes:

— Cien años de soledad — Gabriel García Márquez
— Obras completas (volume III) — Jorge Luis Borges
— The complete works — William Shakespeare
— Perfume — Patrick Süskind
— O planeta dos macacos — Pierre Boulle 
— Dislexias — Lívio Soares de Medeiros 

Pondo-se

Um tanto de gente

Somos tantos e somos uma só voz.
A redenção canta em nossas vozes.
Somos todos nós e cada um de nós.
Em permuta, criamos a redenção 
e somos por ela criados.
Somos um e somos todos. 
Ninguém deixa de ser quem é, 
ao mesmo tempo em que 
cada um é todos os outros.
É bom olhar para o outro
nesta manhã que (nos) irradia. 

Marília Gabriela no Facebook

Há pessoas que imprimem charme e elegância em tudo o que fazem. A rigor, há pessoas que são charme e elegância. Às vezes, charme, elegância e sensualidade. Essas coisas que ou se tem ou não se tem. É em vão de um momento para outro a pessoa dizer para si mesma “a partir de agora tenho sensualidade”, “a partir de agora sou uma pessoa carismática”. Não que eu duvide do poder do ser humano em modificar a si mesmo; esse poder existe.

Em contrapartida, há coisas que são naturais, natas, espontâneas; coisas que fluem, sem que a pessoa tenha de premeditar como será o próximo gesto, que inflexão dará à voz. Quando a pessoa tenta criar em si algo que não está, pelo menos, latente nela, o esforço é descomunal, a graça e a espontaneidade vão embora, o labor se torna penoso, cansativo. Melhorar aquilo em que temos facilidade já é trabalhoso o bastante. Em vez de passar o tempo tentando burilar o que é recalcitrante, mais prazeroso e compensador é lapidar o que em nós flui.

Tudo isso é para dizer que a Marília Gabriela é uma dessas pessoas que exalam charme, elegância e sensualidade em tudo o que fazem. É uma dessas pessoas que não erram no tom, seja pelo profissionalismo que têm, seja pelo talento imenso. Com a página dela aqui no Facebook não seria diferente. Tudo tem a “cara” dela, a elegância se mostra no cuidado com a estética, com as palavras.

Hoje em dia, isso não está ligado só a dinheiro. Se a pessoa não tem esse cuidado, se não tem esse capricho, não há nem dinheiro nem profusão de recursos técnicos que resolvam desinteresse, desleixo, falta de esmero ou de talento. Com um equipamento razoável são possíveis produções de extremo bom gosto. A popularização da tecnologia ampliou a possibilidade de produções caprichadas que podem ser feitas mesmo quando não se está nos grandes centros.

Se por um lado é verdade que uma pessoa como Marília Gabriela tem acesso aos melhores recursos e aos melhores profissionais, por outro, nada disso reverberaria no que ela exibe não fosse algo de sofisticado, bonito e talentoso que ela tem em si, mesmo antes de ter tido acesso a recursos tecnológicos. A página dela no Facebook é esta. 

"O ameaçado"

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A onda do mutum

Mutum é palavra
que ecoa cerrado afora.
Em certa madrugada,
as vibrações dela fizeram
estremecer a bateria do celular.
Eu digitei o texto.

O 7 a 1 que conta

 O 7 a 1 que revela o que é a seleção da CBF é o da Copa do Mundo. O de ontem, contra o Haiti, não é um placar que reflita mudança de postura na entidade que comanda o que ocorre com o time de futebol que disputa competições oficiais. O paradigma que permanece na CBF é o de um modelo arcaico e atrelado a empresas que não se importam nem com o futebol nem com o torcedor.

Os que lucram com o que é a CBF e com o que ela fez do futebol brasileiro vão descontextualizar o 7 a 1 de ontem, fazendo com que ele tenha robustez que não tem. Parte da torcida, influenciada por essas mesmas empresas que lucram a partir do que a CBF produz, vai levar em conta a versão descontextualizada do 7 a 1 contra o Haiti.

Ainda mais que o 7 a 1 que de fato revela o que é a CBF e as empresas que gravitam em torno dela vai se distanciando no tempo. Quanto mais distante ele vai ficando, mais o esquema CBF-empresas-parceiras continuará lucrando a partir do já combalido e defasado futebol nacional.

Sou defensor do boicote dos torcedores quanto aos jogos promovidos pela CBF. Fico pensando em, por exemplo, um Flamengo x Corinthians em que não haja nenhum torcedor — justamente por ela, torcida, ter decidido não ir. Sei que isso nunca ocorrerá.

Pode haver estádios sem torcida; só que isso será decisão da CBF, não dos torcedores. Se a Confederação Brasileira de Futebol e os parceiros dela efetivamente quiserem, farão uma assepsia total; nesse cenário, pode não haver torcedor algum nos estádios durante as partidas.

Se for para haver “torcedores”, que sejam aqueles que não oferecem nem paixão pelo futebol nem críticas contra a CBF e seus parceiros. Num contexto assim, tudo seria reluzentemente limpinho. O mesmo tipo de limpeza pela qual prima a CBF e suas parceiras.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Apontamento 335

Nunca em minha vida escrevi um texto longo, de maior fôlego. Mesmo assim, escrever é difícil. Claro que sei que um longo texto não é escrito de uma vez; a gente se serve do bolo quando ele já está pronto, mas, na escrita, as fatias são feitas com disciplina, aos poucos. De qualquer modo, nunca consegui servir um bolo grande. Texto grande ou texto pequeno, escrever é difícil.

Esboço, leio, releio, faço, refaço, corrijo, faço de novo, penso, repenso. A busca é a da excelência. Busca utópica, como muitas das buscas, mas que vale a pena, como algumas das buscas. Há casos em que o texto já vem pronto ou quase; também nessas ocasiões, escrever é difícil.

Nunca é fácil, mesmo quando simples, mesmo quando a temática não demanda análise acurada. Escrever é difícil, não importa o gênero, a ocasião, o astral em que estou. Mesmo quando tudo é favorável, é difícil. Para mim, é muito difícil.
Escrever é meu auge. Por isso, insisto. Pináculo truncado, cheio de regras bobas inventadas por mim e de limitações inevitáveis; existe a sensação de que nunca está como eu quero — paciência. Meu auge é assim, é com palavras, apesar de sempre me sentir aquém de algo que nem precisar ao certo o que é; tenho consciência do absurdo disso.

Batuco no teclado, tento organizar o pensamento num rigor mais idealizado do que atingido. O que fica pronto é o melhor que posso fazer de mim; isso é razão para que, mal acabado um, eu já comece a pensar no próximo, que será feito com dificuldade. 

Apontamento 334

Há um bem e uma calma advindos da convivência com a natureza. Aves cortam o silêncio de tempos em tempos, um teiú atravessa empoeirada estrada do cerrado, cobras se esgueiram mato afora, um gavião estraçalha a presa; mais tarde, uma revoada de garças aterrissa perto de uma lagoa. Uma vez deixada a civilização, a princípio, repara-se no ambiente. Depois, com o hábito, tem-se uma atenção diferente daquela inicial. Quando isso ocorre, já se está num estágio em que não há a mais a separação ou a distinção entre nós e natureza “lá fora”. Há uma serenidade que é consequência de quando nos apercebemos de que somos, antes de tudo, mais um bicho da natureza.

Vide o verso

Toda vez em que
não te digo o que
meu coração quer
que eu te diga,
crio em mim
pequenas mortes.
Este versos provam
que não quero
mais me matar.

sábado, 4 de junho de 2016

Apontamento 333

Ter razão sozinho, dependendo do ambiente em que a pessoa esteja, pode fazer com que ela se volte contra todos. É preciso saber ter razão, o que é difícil. Em muitas situações, é melhor calar a razão que se tem, o que não é o mesmo que comodismo nem subserviência. Todavia, há algo pior do que ter razão sozinho, que é se voltar contra todos mesmo quando se está errado sozinho. 

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Apontamento 332

O arrebatamento pode nos levar à convivência. Por si, embora o arrebatamento possa dizer muito no momento em que ocorre, isso não quer dizer que ele vá reverberar no futuro ou que nos levará a mudança significativa.

Mudanças importantes são trazidas pela convivência. O arrebatamento pode causar a vontade de convivência, mas, sem ela, coisas transformadoras não frutificam. A emoção produzida pelo arrebatamento fica na memória. Por mais significativa que seja essa memória, é a convivência que solidifica o que o arrebatamento causa.

Além do mais, a convivência tem um poder — ela pode fazer com que, mesmo sem ter havido um arrebatamento inicial, algo sólido e crucial seja edificado. Basta dizer que não há amor sem convivência. É ela que leva ao amor ou ao prazer do exercício de uma profissão... É notório que ela pode desaguar em desgaste, mas não há como haver plenitude sem haver convivência.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Apontamento 331

Estou interessado no que é elevado, grandioso. Estou interessado no arrebatamento, no êxtase, desde que laicos, seculares. 

Ode ao mutum

Mutum é palavra rotunda,
boa de se pronunciar.
Palíndromo do tamanho
do mundo se esgueirando
com altivez pelo cerrado. 

Mutum

Plateia

Os caminhos do cerrado,
as nuances de uma canção,
o espetáculo das vozes,
o conforto dos livros,
a busca do belo,
o mundo das estrelas.
Fecham-se as cortinas.
Queres saber da feitura,
queres esquadrinhar bastidores,
sem que saibas ao certo se os há. 

Suculenta

Ela apanhou a fruta no pé. 
Ele a chupou. 

Fotopoema 393

Trata-se de montagem.

Florescências


sábado, 28 de maio de 2016

Um velho velho

Se eu for velho, que eu seja um velho com cabeça de velho. Não quero ser um velho com cabeça de jovem. Não compro essa ideia de que o que importa não é a idade cronológica, mas a idade do espírito. Que meu espírito tenha a idade de meu corpo — nem mais nem menos. Se um dia eu chegar a ter, digamos, noventa e um anos, que eu tenha cabeça de noventa e um anos.

Parece-me que aqueles os quais dizem não querer que a cabeça envelheça têm medo de ser tornarem caretas, como se a velhice trouxesse necessariamente a caretice. Têm medo de não acompanhar tendências, medo de ficar para trás. Pode haver velhice com lucidez, com informação, com leituras. A velhice pode ser atualizada.

Envelhecer pode fazer com que uma pessoa fique retrógrada. Contudo, o velho retrógrado, na maioria dos casos, foi retrógrado a vida toda, ainda que com menos intensidade. Geralmente, não é a velhice que traz comportamento obsoleto. Tal comportamento pode vir a ocorrer na velhice; contudo, isso não implica dizer que tornar-se velho seja o mesmo que se tornar antiquado.

Basta um velho ter bom humor ou ser espirituoso ou entender novas atitudes sociais para se dizer que ele tem espírito jovem. Senso de humor ou compreensão de vanguardas, sejam elas quais forem, nada têm a ver com a suposta idade do espírito. Isso está ligado a uma postura e a um temperamento sedimentados ao longo de toda uma vida. 

Velho usando roupa de velho e pensando como velho não implica obrigatoriamente ser datado nem anacrônico. Anacrônico é velho pensar como jovem. Velhice não é pasmaceira. Há inquietude em qualquer idade; se eu ficar velho, que eu tenha inquietudes de velho, não as de um homem de vinte e cinco anos. Há entusiasmo em qualquer idade; se eu ficar velho, que eu tenha entusiasmos de velho, não os de um jovem de dezoito.

A velhice pode ser elegante, pode ter brilho mental. Se eu tiver saúde e lucidez razoáveis, que eu me vista como velho, que eu pense como velho, que eu converse como velho se velho ficar. O culto exagerado da juventude e da aparência incutiu nas pessoas o pensamento de que ser velho é se vestir de modo feio, é cheirar mal, é ser ultrapassado. Compreender e descartar as bobagens do presente não é o mesmo que ser careta. 

Relógio 10

Relógio 9