quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

NÃO BASTA

Não basta dar a luz para ser Thomas Edison.
Não basta ser dândi para ser Oscar Wilde.
Não basta morar num castelo para ser Montaigne.
Não basta mostrar a língua para ser Einstein.
Não basta tomar ácido para ser Jim Morrison.
Não basta ser condenado para ser Galileu.
Não basta vir ao Brasil para ser Darwin.
Não basta viajar para ser Melville.
Não basta não viajar para ser Drummond.
Não basta ter pegada para ser Sade.
Não basta ser torto para ser Garrincha.
Não basta gostar de “poodles” para ser Schopenhauer.
Não basta ter bigode para ser Nietzsche.
Não basta ser linda para ser Elizabeth Taylor.
Não basta ser pintor, escultor, desenhista,
projetista nem inventor para ser Da Vinci.
Não basta uma lista para ser um poema.

Não basta uma lista para ser um poema. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

QUE CANÇÃO É ESTA?

Alguém aí sabe o nome da canção incidental que o Renato Russo canta a partir dos cinco minutos e quarenta segundos?... A mesma canção, não estando eu enganado, vai até aos seis minutos e trinta e dois segundos...

À parte isso, há citações de Madonna, Prince, Janis Joplin, Led Zeppelin. Este show, que ocorreu no Rio de Janeiro, acabou sendo um tributo ao Cazuza, que morreu na data de realização do espetáculo, no dia sete de julho de 1990.

APONTAMENTO 232

A bonança é pródiga em revelar sábios. 

SEGREGAÇÃO

Só gente branquinha 
na plateia: 
público alvo. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O CORPO, A MENTE

[Obrigado a Maíra Queiroz Rezende, professora de biologia do IFTM, campus Patos de Minas, pela explicação sobre sinapses e neurotransmissores.]

O Orson Welles disse certa vez que assistir à TV é mais fácil do que ler um livro. É mesmo. De modo correlato, assistir à TV é mais fácil do que praticar uma atividade física. Embora, é óbvio, haja diferenças entre a atividade física e a intelectual, há simetrias possíveis entre as duas.

Nenhuma delas é fácil, independentemente da preferência por uma ou por outra. Num plano superficial, e seguindo o comentário do Welles, basta dizer que é mais fácil não ler nada nem praticar atividade física nenhuma. Mas aí há um paradoxo curioso: é mais fácil, mas é prejudicial. Dizendo de outro modo, focando-se o outro lado da moeda: o que faz bem demanda esforço.

Salvo exceções, seja de pessoas com capacidade cerebral privilegiada, seja de pessoas com habilidades corporais excepcionais, a maioria de nós tem mais ou menos corpos similares e inteligências médias. Com relação ao corpo, excetuando-se alguma doença devastadora, podemos melhorar a condição física que temos por intermédio do hábito. O mesmo vale para a inteligência.

A atividade física e a intelectual, para que resultem em plenitude, dependem do hábito. Isso, assim me parece, é mais literalmente visível na atividade física; já na atividade intelectual, não raro, há a visão romântica e equivocada do gênio iluminado que recebe dos deuses graças inspiradas.

Ainda que a pessoa tenha um corpo saudável sem atividades físicas e ainda que tenha inteligência o bastante sem atividade intelectual, grandes conquistas, tanto corporais quanto cerebrais, não vêm sem hábito, sem alguma disciplina, sem algum esforço. Diante do brilho de um corpo ou de uma inteligência, é preciso levar em conta as horas e horas de dedicação que foram necessárias para se chegar àquela excelência, seja ela física, seja intelectual.

É comum dizer que o corpo enferruja. O cérebro também. É necessário exigir do corpo para que ele melhore. O mesmo vale para o cérebro. Músculos se atrofiam; sinapses, idem. Atividades físicas e intelectuais nada garantem, não asseguram proteção contra doenças. Elas são um benefício para o presente. Se o futuro se beneficiar delas, melhor ainda.

Tratei separadamente as atividades físicas e as atividades intelectuais. Não é segredo, contudo, que o cérebro se beneficia das atividades físicas; não me parece desarrazoado dizer que o corpo pode se beneficiar das atividades intelectuais, seja lá como for. Há, de fato, a dualidade mente/corpo? Não sei. À parte isso, sem esforço, não seremos o melhor de nós. “No pain, no gain”, o lema dos fisiculturistas, vale também para os intelectuais.

"SOLIDÃO"

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

AGORA HÁ POUCO


Hoje, tendo chegado do trabalho, saí para fotografar. Deparei-me então com este gavião-carijó (Rupornis magnirostris). Nem preciso dizer do quanto valeu a pena ter saído para fotografar. 

SOBRE ALMAS E VIAGENS

Em meados da década de 90, enquanto eu assistia à CNN, noticiaram a queda de um avião. O porta-voz, de cujo nome não me lembro, funcionário de uma companhia aérea, ao anunciar o número de mortos, disse : “Havia 215 almas naquele avião” (o dado que usei é ilustrativo; não me lembro do número real de mortos).

Há instantes, conferindo no UOL as fotos tiradas do espaço pelo astronauta canadense Chris Hadfield, ele escreveu como legenda para uma foto de Teresina vista do espaço: “Morada tropical para um milhão de nós no Rio Parnaíba”, postou o astronauta no Twitter. Em legenda de foto tirada sobre Recife, ele edificou construção similar: (...) “Cerca de 4 milhões de nós moram aqui” (...).

Tanto a construção do porta-voz da companhia aérea quanto as do astronauta são, sobretudo, poéticas. O porta-voz poderia ter dito algo como “215 pessoas morreram na queda do avião”. Contudo, o uso da palavra “almas” dá um tom grandioso ao enunciado, mesmo considerando-se que o que se conta é uma tragédia. Nem sei se existe alma; ainda assim, jamais me esqueci do anúncio do porta-voz.

Hadfield, ao escrever “morada tropical para um milhão de nós” ou “4 milhões de nós moram aqui”, veicula uma obviedade (quase nunca praticada) que é também bonita: somos uma só humanidade, não importa onde estejamos. O astronauta, por assim dizer, coloca-se no nível de nós, que estamos aqui embaixo; ou nos eleva para o nível dele...

Além do mais, observando a Terra do espaço, ele tem acesso a uma porção de... terra e mar que é inacessível para nós. Sugerir uma só humanidade, estilisticamente, está em sintonia com quem tem o privilégio de olhar para a casa que habita de um ponto de vista inatingível para a maioria: o olhar dele abarca mais do que teremos oportunidade de contemplar.

Fotografando a Terra ou fotografando uma lagarta, somos um só. As frases de Hadfield transmitem um senso de unidade e de pertencimento que é poético, que não é excludente, que propõe o gênero humano como sendo uno. Algo muito whitmaniano e, não só por isso, poético. 

FOTOPOEMA 365

BREVE RELATO DE UMA TRAJETÓRIA

Tudo começou por causa de uma profunda admiração pela inteligência. Isso, muito antes de eu me tornar um leitor. Tanto que o primeiro fascínio foi pelos professores (isso se mantém). Daí, estender essa fascinação para outras inteligências que não somente as dos professores foi um passo um tanto natural.

O desejo era o de destrinchar os mecanismos da inteligência do outro, que podia ser um professor, um amigo, um filósofo que li, um cientista ou um músico. Decifrar os meandros da inteligência a fim de tentar aprender a ser inteligente. A veneração pela inteligência é o que acabou causando uma vontade firme de querer ser inteligente.

O Borges escreveu que “ninguém escreve o que quer, mas o que consegue”. De modo análogo, por mais inteligente que se queira ser, há limites que não podem ser transpostos por absoluta falta de talento. Se dependesse de eu fazer uma escultura ou pintar um quadro, por exemplo, eu não saberia como começar. Após flertes com alguns ramos do conhecimento, acabei tomando o caminho das letras. Não por um talento abissal na área, mas por falta de talento em outros campos.

O resto é leitura, é escrita. Aferrei-me às palavras. Passei-me a dedicar à riqueza do português. Trata-se de meu idioma, e me sinto quase que na obrigação de esmiuçá-lo. Além do mais, é uma língua que acho bonita, cheia de possibilidades, seja para a fala, seja para a escrita. A palavra passou a ser a meta. A palavra exata ao escrever. A palavra exata, pronunciada com exatidão, ao falar.

Há muito de sonho nessa história, muito de busca, muito de ideal. Em meu caso, a concretização está sempre longe do que se tinha em mente. Por outro lado, sem esmorecimento, é preciso não exigir tanto de si. Há que se ter resignação, aceitando com rebelde tranquilidade o que se é capaz de produzir. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

(DES)APONTAMENTO 16

Promoções em lojas: quando os lucros deixam de ser muito exorbitantes e se tornam apenas exorbitantes. 

sábado, 3 de janeiro de 2015

A PAIXÃO EM SEU COMEÇO

É muito instigante observar a paixão quando ela começa. Não me refiro ao impacto que a beleza de alguém pode causar em nós. Esse impacto pode vir a ser paixão, mas paixão ainda não é. Nela, há um clique inicial, que nem precisa ser forte. Algo nos capta a atenção; pode ser a aparência da pessoa, pode ser um talento que ela tem, pode ser a voz, pode ser o modo como ela se comporta... Pode ser isso tudo.

A paixão tem íntima conexão com a imaginação. A princípio, a gente se apaixona muito mais pela ideia que fazemos da pessoa do que pela pessoa em si. Essa fase revela mais o que somos e menos o que o outro é. Caso se tenha a chance de relacionamento com a pessoa que passou a mexer com nossa imaginação, passamos a ter referências mais reais para o mosaico que vamos construindo à medida que estamos apaixonados.

A partir das peças desse mosaico, vamos tentando compor uma imagem mais concreta da pessoa pela qual estamos apaixonados. Depois do clique inicial, passamos a reparar nela. De ouvidos aguçados e com olhares concentrados, o outro toma conta da atenção. Quando ele não está por perto, o pensamento revive os encontros havidos.

Não demora muito para que passemos a ver a pessoa como um todo. Não um todo com o qual já estamos familiarizados, mas um todo que deixamos de fatiar. Quer-se a pessoa pelos talentos que ela tem? Também por eles. Pela beleza que ela tem? Também por ela. Pelo espirituoso senso de humor? Também por ele.

Mas há sempre algo que nos escapa, que nos parece indefinível, intocável, inefável. Nem as partes nem o todo conseguem dar a exatidão dos motivos pelos quais nos apaixonamos por alguém. É por causa de algo que está em nós e por causa de algo que está na outra pessoa. É por causa de coisas visíveis, palpáveis, mas há motivos ou coisas aos quais não conseguimos ter acesso. Paira sempre uma imprecisão.

Apaixona-se pela beleza, mas a pessoa não precisa ser a mais bela do planeta (ela passa a ser a mais bela no nosso planeta). Apaixona-se pelo talento, mas a pessoa não precisa ser um gênio. Apaixona-se pelo senso de humor, mas um terceiro poderia achar esse senso de humor... sem graça.

Dizemos com frequência que nos apaixonamos pelo jeito da pessoa. Isso que a gente chama de jeito da pessoa compreende tudo o que ela é para nós. Se após o clique inicial, que pode ocorrer depois de termos visto alguém pela primeira vez, somos correspondidos ou temos a chance de demonstrar nossa paixão inicial, pode ser que haja amor à vista. Mas isso é outra história. 

ALMOÇO EM FAMÍLIA

Hoje, num calor de derreter pensamentos, uma família estava almoçando num restaurante: dois garotos loiros de olhos azuis, a mãe e o pai deles e uma senhora que me pareceu ser avó dos meninos (dava sinais de ser mãe da mãe deles). A diferença de idade entre as crianças era pequena. No máximo, de dois anos, embora eu presuma que um deles deve ter uns três anos; o outro, uns quatro.

Dos três adultos, a avó e a mãe almoçavam com civilizada voracidade. O pai estava mais envolvido com um celular; de vez em quando, ordenava ao garoto que estava à esquerda dele que se alimentasse. As duas crianças estavam mais envolvidas com “tablets” (cada uma delas portava um).

O garoto à esquerda do pai estava de costas para mim; eu podia enxergar a tela do “tablet” dele, depositado sobre a mesa, ao lado do prato de comida, com a ajuda de dispositivo que mantinha o equipamento em pé; as mãos do menino podiam, desse modo, ficar livres. Mesmo assim, ele se entretinha mais tocando a tela do que tentando manejar talheres. O outro menino, do outro lado da mesa, dividia, de modo mais ou menos igual, a atenção entre a comida e o “tablet”.

O pai, de tempos em tempos, admoestava o filho dele que estava de costas para mim. Eram ordens chochas, sem eficácia. O celular demandava mais a atenção do pai, também de olhos azuis. A mãe, morena e de cabelos castanhos claros, é quem parecia agir de modo mais afiado: “Se você não comer, vou desligar esse ‘tablet’ agora”. O garoto olhava para ela, pegava uns fios de macarrão e voltava a namorar a tela.

Assim o almoço deles prosseguia. Minutos depois, o pai se levantou e pediu à família que olhasse para ele, que estava pronto para, via celular, tirar uma foto dos comensais. A avó e a mãe logo se prontificaram. Os meninos, mergulhados nos dispositivos eletrônicos, pareciam nem ter percebido que o pai deixara a mesa. Ter a atenção do que estava ao lado da mãe foi mais fácil do que receber o olhar do outro filho.

O pai tentou uma vez: “Tiago, olha pra cá”. Tive a impressão de que a voz dele denunciava algum sotaque, mas isso poderia ser apenas impressão minha. A mãe e a avó instavam com o garoto para que olhasse na direção do celular. Como os pedidos eram infrutíferos, o pai, num tom de voz entre o solene e o grave, mandou com firmeza: “Tiago, look here now”.

Dessa vez, sem sotaque. O garoto olhou, o pai tirou a foto e voltou a se sentar. Antes de voltar a comer, mostrou a toda a família o registro que havia feito. Sorrisos de satisfação e cabeças fazendo sinal de positivo, exceto do garoto que estava à esquerda do pai; o menino olhou para a tela do celular, não sorriu e, incontinente, voltou a se concentrar no “tablet”. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

A CLUBEM FM ME ATRAPALHA DORMIR

Sempre fui de estar acordado nas madrugadas. A vontade mesmo é a de trocar o dia pela noite. Numa vida ideal, deitar-me-ia lá pelas 6h ou 7h e dormiria até às 14h ou algo parecido. Não posso levar uma vida assim. Todavia, quando não tenho de acordar cedo, fico acordado até o amanhecer.

Há alguns meses, mesmo tendo de me levantar às 7h, eu ainda estava acordado às 2h. O rádio estava ligado. Eu já estava preocupado, sabendo que estaria um bagaço pela manhã, no momento de sair da cama. Minha recusa em dormir existia porque o rádio não parava de tocar músicas legais.

Foi então que me ocorreu escrever um texto sobre a Clube FM de Patos de Minas, a estação que geralmente escuto nas madrugadas. A rádio se dedica a executar pop/rock. Há horários dedicados ao que o mundo do entretenimento tem produzido atualmente; é o caso, por exemplo, das dez mais pedidas do dia ou do Freeway. Mas é louvável o tratamento que a emissora dá ao passado.

As madrugadas da Clube executam pérolas do pop/rock. A programação é de excelência. Chega a ser um alento, em meio a rádios tão comerciais e movidas a jabá, escutar uma emissora que não desconsidera o bonito e rico legado da música comercial. É incrível: a rádio “simplesmente” não toca música ruim de madrugada.

Poder-se-ia alegar que esse horário é pouco interessante, no sentido comercial, para as rádios. Por um lado, é verdade, mas, no caso da Clube FM, mesmo durante o dia, podemos escutar canções que quase nunca são escutadas por rádios privadas. (Enquanto digito, são 16h29 de hoje, dois de janeiro de 2015: estão executando Creedence Clearwater Revival! Agora estão tocando Counting Crows!)

Suspeito de que um dos responsáveis por essa programação de excelência, em especial durante a madrugada, seja o Adriano Sousa, locutor e redator da emissora. Fui colega de trabalho do Adriano na Clube. Quando se tem contato com ele, fácil perceber a familiaridade que ele tem com a cultura pop, não importa se filmes, quadrinhos, “video games” ou pop/rock. Naturalmente, para uma rádio com o perfil da Clube, ele tem muito a contribuir para a envolvente programação musical da emissora. 

(DES)APONTAMENTO 15

Simpatia para trazer a pessoa amada: simpatia. 

JACULATÓRIA

De joelhos, recebe do senhor o néctar que cura. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

APONTAMENTO 231

Um grande livro sempre tem grandes implicações: um grande livro nos torna melhores. 

DE COR

Tenho dores e cores. 
Eu sei de cor. 
Eu sei de dor. 
Pego dores e cores 
e encho de palavras 
a pesada madrugada. 
Pela manhã, haverá luz. 

JUS

A palavra exata
faz jus.

A palavra exata
faz luz.

APONTAMENTO 230

Quando a cabeça não é gaiola, o pensamento voa. 

POR AMOR

Claro que, quando se ama, a vontade é a de e-xi-gir do outro que ele também ame. Afinal, como alguém pode não amar um amor tão intenso que é ofertado de modo tão espontâneo e forte? Mas não temos o direito de exigir que a outra pessoa nos ame, por mais que o desejo seja de pegá-la pelo pescoço e fazer com que ela receba o amor que é só dela.

É como se a gente dissesse para a pessoa: “Olha, você nem imagina o quanto sou capaz de fazer você feliz, o quanto quero fazer você feliz”. Se a outra pessoa for madura, ela sabe disso, mas pode não querer receber o amor que a ela é ofertado, seja por que razão for.

“João amava Teresa”. Mas Teresa amava Raimundo... Num certo dia, um João pode amar uma Teresa, e por ela ser amado. Se um amor que não começa já é algo complicado de manejar, um amor que se inicia requer arte para a qual nem todos estão prontos. O amor pode não ter limites; os amantes têm.

Nem sempre o amor é. Em muitas vezes, poderia ter sido; noutras tantas, foi e deixou de ser. Muitos há que só descobrem do que são capazes depois que passam a amar. Amar não é fácil. É difícil saber dar amor; é difícil saber receber amor. Amor chega, amor vai embora. Ou não.

No silêncio noturno e solitário dentro de um ônibus que rasga a madrugada ou sobre cama ruidosa e suada, é o amor que age, que vai fazendo com que vivamos, dos gestos mais simples aos mais retumbantes, por ele. Tudo é por amor. Contudo, posso estar enganado. Talvez nem tudo seja por amor. Mas deveria. 

31/12/2014

Bruno Fontoura, compositor patense, canta: “Faça tudo cedo / Deixe todo enredo ficar pra trás”. Amanhece o dia. Nova trama. Novo enredo. Essas letras vão desembocar lá em 2015. 

SIM, NÓS TEMOS HOLOCAUSTO


Uma mulher é internada num hospício depois de ter sido estuprada pelo patrão. Uma outra pessoa é internada por ser tímida. Outra, por ter perdido a carteira... Setenta por cento dos internados não tinham diagnóstico de doença mental. 

São histórias que estão em “Holocauto brasileiro” (publicado pela Geração Editorial), de Daniela Arbex. Ela escreveu um livro tão importante, que ele deve ser lido não somente por aqueles que se interessam pelo que se considera a loucura. “Holocausto brasileiro” deve ser lido por quem se interessa por gente. Se não é esse seu caso, insisto: o livro deve ser lido por quem é gente. 

Há um dado na capa do livro: “Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil”. O número se refere aos mortos em Barbacena/MG, no hospício conhecido como Colônia. No auge do extermínio, o lugar chegou a ter dezesseis mortes por dia. 

O texto de Daniela Arbex, bem como as fotos de Luiz Alfredo, publicadas originalmente na revista O Cruzeiro, contam uma história sinistra que perpassou boa parte do século XX. Com sensatez e inteligência, Arbex não se rende ao sensacionalismo: em meio a relatos de vidas dilaceradas no hospício, não deixa de trazer à tona a capacidade que o ser humano tem de ser magnânimo — há histórias grandiosas no livro da jornalista. 

O genocídio sistematizado em Barbacena revela conivência de médicos, de funcionários da instituição e da população. Ao mesmo tempo, conta-se a atuação de alguns médicos, de alguns funcionários e de quem não gravitava na Colônia para que os pacientes de lá não precisassem nem comer ratos nem beber urina. Algumas mães, a fim de protegerem a gestação, passavam fezes no corpo, para não serem molestadas. 

Arguta, Arbex adverte: “Ontem foram os judeus e os loucos, hoje os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos”. “Holocausto brasileiro” evidencia o que o ser humano é capaz de fazer quando, movido por ódio ou ignorância, sente-se apto a realizar uma limpeza social, decidindo, arbitrariamente, quem pode e quem não pode estar em sociedade. “Holocausto brasileiro” é um livro fundamental. Leia.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

FOTOPOEMA 364

SINTONIA FINA — EDIÇÃO 30


No ar, mais uma edição do Sintonia Fina, programa musical apresentado por mim. Para escutar, é só dar “play”.
_____

Snow Patrol — Run
Cynthia Martins — Amanhecer
Moby — The perfect life (ao vivo)
Marisa Monte — Não vá embora
Awolnation — Sail
Tiê — Sweet jardim
Exile — Kiss you all over
Paulinho Pedra Azul — Recado para um amigo solitário 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

AMANTE

A outra era
a cereja do rolo. 

FOTOPOEMA 363

NÓ GÓRDIO

Desfaçamos 
os nós.
De mim
e de você,
façamos
nós.
No
desenlace,
enlace.
Afinal, 
a gente 
se amarra. 

DESFECHO

Há quarenta e três dias estou tentando achar um desfecho meu para dois trechos que reuni da Emily Dickinson. Não obtive êxito; esta publicação fica, pois, sem desenlace. Ou as palavras da escritora americana ficam sendo o desfecho.

Num de seus versos, Dickinson escreveu, segundo tradução de José Lira: “Achei palavras para cada ideia”. Num outro verso dela, de outro poema (ainda de acordo com a tradução de Lira), a autora escreveu que “nem todo dia a ideia acha palavras”. 

sábado, 27 de dezembro de 2014

GRUPO CARAMBOLA REALIZA SHOW






































Ontem, em mais uma realização da Improviso Produções, ocorreu, no Espaço Tio Patinhas, em Patos de Minas, o show que celebrou os trinta anos do grupo Carambola, banda de Patos de Minas. Além do show deles, houve, a seguir, música ao vivo com Moisés Carvalho e pista de dança animada pelo DJ Tybabas.

O Carambola é formado por Ângelo Costa, Maurício Castro, Vilmar Carvalho e Marcão Vieira. No show de ontem, foram acompanhados por Dell Luiz (baixo), Adriano Alves (guitarra), Alexandre Bomfim (bateria), Márcia Soares (vocal de apoio) e Bruna Alves (vocal de apoio). Além de canções próprias, a banda executou clássicos da MPB (a versão que fizeram para “Rapte-me, camaleoa”, do Caetano, ficou um barato).

Unindo gerações da música local, a banda O Berço, que recentemente lançou CD com músicas próprias, fez participação especial no show do Carambola. Já escrevi que a cidade vive um belo momento musical; foi bonito presenciar duas gerações de artistas locais se apresentando num mesmo palco.

A plateia, composta essencialmente por pessoas acima dos trinta e cinco, relembrou os tempos do Encontrão Cantar na Praça e do Teatro Telhado, como bem lembrou o Carambola durante o espetáculo. Terminado o show do grupo, houve quem tenha conferido a apresentação do Moisés Carvalho, que é filho do Valdir Carvalho, também músico local, e houve quem se esbaldou na pista de dança, ao som de clássicos do pop/rock. 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (80)

Ontem à tarde, saí para fotografar. Tendo passado o aterro sanitário, tomei a estrada que dá acesso à esquerda. Depois de dirigir por uns dois quilômetros, eu me deparei com esta cruz sobre o poste de uma cerca de arame.

Tirei a foto. Logo após, percebi que, pendurados numa árvore, havia o que julguei serem espantalhos de mais ou menos meio metro cada um. Se não eram espantalhos, eram bonecos ou algo assim. Aproximei-me de um portão em busca de ângulo ideal para fotografar os supostos espantalhos. Foi quando me dei conta de que havia um cadela cuidando do lugar.

Embora ela não tenha feito menção de atacar, decidi não correr risco. Assim, não fotografei os espantalhos. Quanto à foto da cruz sobre a cerca, tenho impressão de que ela está tombada devido à ação do vento ou da chuva. No mais, nem preciso dizer que, ao postar a foto, não tenho intenção de ser iconoclasta nem algo que o valha. Seria fácil polemizar, mas polêmicas fáceis, em sua maioria, são desonestas, imaturas ou superficiais. 

APONTAMENTO 229

Led Zeppelin tem peso, tem pegada; é visceral, é primitivo, é animalesco, é bestial, é cru, é básico. Led Zeppelin não é para soar limpo: é para ser sujo. É uma das mais fascinantes sujeiras da arte. Obviamente, uma banda com essas características só pode ser indispensável. 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

MENSAGEM DE NATAL

O Natal não precisa
nem de gorro
nem de chaminé.

Preocupa-te mais com
a presença do que
com o presente.

As roupas se desgastaram.
As palavras se cansaram.
Procura por um Natal inédito.

Faz um Natal 
com tua cara,
com tuas cores.

Que haja o rito,
que haja o brinde.
Que teu coração aja. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

EU SOU VOCÊ


É natural que sejamos influenciados pelas coisas com as quais convivemos. Quanto maior a convivência, maior a influência. Num certo sentido, tornamo-nos as pessoas ou as coisas com as quais convivemos. Passamos, por exemplo, a adotar uma palavra que é usada pela pessoa que amamos. Nesse sentido, tornamo-nos, também, os livros com os quais convivemos (essa ideia está, de modo literal, presente em “Fahrenheit 451”, do Ray Bradbury).

A caminho do cemitério, quando meu pai morreu, pela janela do carro, olhei para o mundo. Nada havia mudado: as pessoas continuavam com sua correria, os carros continuavam com suas buzinas. Foi quando me lembrei do poema “Funeral Blues”, do W.H. Auden. No texto, o eu lírico, lamentando a perda de uma pessoa querida, pede que o mundo dê uma pausa em sua continuidade.

Isso de querer que as coisas se importem conosco devido a uma dor que se tem está num trecho de “Ensaios de amor”, do Alain de Botton. Diz o narrador do livro: “Tal recusa de mudança era um lembrete de que o mundo era uma entidade independente que continuaria a funcionar estando eu apaixonado ou não, feliz ou infeliz, vivo ou morto. Eu não podia esperar que o mundo mudasse sua expressão de acordo com o meu humor, nem que os grandes blocos de pedras que formavam as ruas da cidade dessem a mínima para minha história de amor. Embora eles tivessem ficado felizes em acomodar minha felicidade, tinham coisas melhores a fazer do que caírem aos pedaços agora que Chloe tinha ido embora”.

A letra da canção “Virgem”, sucesso na voz da Marina Lima, diz: “As coisas não precisam de você”. Mesmo assim, talvez por um certo egoísmo ou por uma certa vaidade de que padecemos, parece-me inevitável querermos que o mundo reaja, seja como for, a fim de nos ajudar a suportar nossas dores. Ficamos a desejar que o mundo seja solidário conosco, ainda que estejamos, no fundo, cientes de que não há solidariedade, mas solidão.

Acima, mencionei o Auden. Encerrando esta postagem, compartilho linque que contém cena do filme “Quatro casamentos e um funeral” (1994), do diretor Mike Newell. Na sequência, o ator John Hannah, que interpreta Matthew, declama (legenda em português) a elegia “Funeral Blues”. As coisas não precisam de nós nem se importam com nosso destino. Diante disso, componhamos elegias ou canções.

Abaixo, com legenda em português, o texto do Auden, declamado no filme.

Lívio Soares de Medeiros
_____

W.H. Auden — Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message “He is Dead”.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the wood;
For nothing now can ever come to any good. 

POR LAS CALLES

Sei que é ser cara de pau escrever um texto num idioma que não se domina. Dando provas de que sou cara de pau, arrisco meu primeiro (e, por certo, o último) texto em espanhol. Muito obrigado à professora Márcia Xavier, do IFTM Patos de Minas, pela revisão do texto.
_____

Tú haces tu camino.
Tu paso liviano es dadivoso.
Las calles están felices: 
tú caminas por ellas. 

domingo, 21 de dezembro de 2014

"ENSAIOS DE AMOR"

Penso num Einstein, que aos vinte e seis publicou sua Teoria da Relatividade. Ou num Melville, que também aos vinte e seis, publicou seu “Moby Dick”. Ou num Rimbaud, que, ainda adolescente, já era poeta feito. Desde sexta-feira (19/12), tenho pensando em Alain de Botton, que, aos vinte e três, publicou “Ensaios de amor” (Botton está com quarenta e cinco).

Se você acredita no amor, leia “Ensaios de amor”; se você não acredita, leia. Se você gosta de chocolate com setenta por cento de cacau, leia “Ensaios de amor”; se gosta de chocolate com mais de setenta por cento de cacau, leia; se gosta de chocolate com menos de setenta por cento de cacau, leia. Espanta-me como alguém que tinha na época vinte e três anos escreveu um livro tão primoroso sobre o amor.

A edição que li foi publicada pela L&PM Pocket; a tradução é de Fábio Fernandes. Terminado o primeiro capítulo, na página 15, coisa demais já havia acontecido na história, a ponto de eu me perguntar: “Ei, o que mais há para contar?”. Nas primeiras páginas, o livro já continha humor, filosofia e lirismo. Logo no começo da leitura, eu já estava dando gargalhadas, estava refletindo, estava diante da poesia.

A convivência com o texto fluía tão agradável que antes mesmo de terminar a última página eu já estava louco para escrever esta resenha. À medida que eu ia lendo, eu ficava inebriado com, para me valer de uma expressão do advogado Manoel Almeida, a mão solta do autor. Penso no quanto De Botton se divertiu escrevendo “Ensaios de amor”.

Trata-se de um livro de praticamente dois personagens — o narrador e Chloe. Durante um voo, eles se conhecem. O resto você já sabe: eles se apaixonam, passam a viver juntos. O que você não sabe, caso não tenha lido o livro, é claro, é o monumento que Alain de Botton ergueu ao narrar o amor dos personagens.

“Ensaios de amor” é elegante, engraçado, poético, reflexivo. O amor, com suas dores, alegrias, dúvidas e risadas é descrito em capítulos breves; cada parágrafo de cada capítulo é enumerado, como se cada parágrafo fosse, por assim dizer, um apontamento. Tudo vale para que o narrador dê conta de traduzir o amor: filosofia, literatura, sociologia. O livro é um romance, mas é um tratado; é um tratado, mas é um romance.

É engraçado e é erudito: está cheio de piscadelas literárias; numa delas, por exemplo, num passeio que fazem à Espanha, Chloe passa mal. Ela é atendida por um médico chamado Saavedra.

O livro trata o amor de modo honesto. Não foge de suas agruras, de seus destemperos, de seus desatinos, de suas tristezas, de suas dores. Ao mesmo tempo, não se esquece dos pequenos grandes momentos que só o amor é capaz de propiciar. É um livro humano, densamente humano e... amoroso.

Numa feliz coincidência, li boa parte do livro ontem, dia do aniversário de Alain de Botton (só fiquei sabendo do aniversário dele ontem à noite, em pesquisa na internet). Tendo comprado a obra anteontem, anteontem mesmo iniciei a leitura; deliciei-me com ela ontem e terminei de lê-la em torno de 1h deste domingo. Foi uma surpresa receber um presente tão magistral. 

sábado, 20 de dezembro de 2014

APONTAMENTO 228

Falar demais não significa ser eloquente. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, BILL CLINTON, FIDEL CASTRO

Quando Fidel Castro e Bill Clinton ocupavam o poder, Gabriel García Márquez, que era amigo de ambos, disse que a situação entre EUA e Cuba poderia ser melhorada caso os dois comandantes se encontrassem pessoalmente. Não tenho notícia se tal conversa efetivamente ocorreu. À parte isso, García Márquez declarou que os dois entender-se-iam caso conversassem face a face.

A convivência do escritor colombiano com poderosos (em especial com Fidel) era comumente criticada. Havia quem sugerisse que Márquez, nascido em Aracataca, pequena cidade na Colômbia, era apenas um adulto deslumbrado com o poder. Fascinado ou não pelo poder, o escritor atuou informalmente como uma espécie de diplomata, não somente na relação entre EUA e Cuba.

García Márquez não viveu para testemunhar o anúncio de Obama, feito nesta semana. Bill Clinton, em entrevista concedida dias após a morte do escritor, disse que Márquez lhe pedira, enquanto Clinton era presidente, que o embargo a Cuba tivesse fim. Em entrevista, o ex-presidente americano declarou que acreditava desfazer o bloqueio contra Cuba em seu segundo mandato. 

CRONOLOGIA DE UM ÊXTASE

Gosto de músicas e de canções com crescendos. Neste instante, o exemplo que me ocorre é “Talking out of turn”, da banda The Moody Blues. Refiro-me a crescendos a título de pretexto para falar mais uma vez de “Breakthrough”, do Tony Anderson, sobre quem escrevi em postagem de ontem.

Por natureza, trilhas sonoras criam um clima, uma atmosfera. Ainda assim, podem ser escutadas à parte, descontextualizadas dos filmes ou dos documentários para os quais são produzidas. Não conheço “Finding home”, o documentário para o qual “Breakthrough” foi composta; mesmo assim, tenho escutado, sem parar, a música.

Ela começa com um teclado sutil; aos dezessete segundos, vem a primeira nota de um piano (ou de um outro teclado). O teclado inicial continua fazendo o fundo, já dando um certo corpo ao clima. Aos cinquenta e cinco segundos temos o primeiro vocal (masculino). Com um minuto e catorze, um violão se junta ao arranjo; com um e trinta e quatro, vozes (femininas).

Com dois minutos e doze segundos, a bateria chega com peso; ao mesmo tempo, os violoncelos. Aos dois e vinte, o primeiro ataque do baterista. A essa altura, o som já é robusto, tem peso. O crescendo vai se aproximando do auge, que, aos dois e cinquenta, já pulsa forte nas veias. É quando corpo e mente se entregam numa explosão de prazer.

Alucinados e plenos de energia, usufruem dele; saciados, gozam do tempo que resta para que a música termine. Aos três e quarenta e oito, tem início o diminuendo. Corpo e mente descansam, pois não suportariam se o astral durasse demais. Quatro minutos e cinquenta e dois segundos depois, o êxtase está consumado. 

APONTAMENTO 227

De vez em quando, sinto uma saudade desgraçada de muitas coisas e de muitas gentes e de muitos lugares. Em ocasiões assim, tenho saudade de tudo e de todos. Vontade de jamais me despedir nem de nada nem de ninguém. Dezembros me trazem essas saudades. São tantas e tão fortes, que até me esqueço de que janeiro está à porta. Volto-me para mim, volto-me para o passado. A saudade vai se ampliando, até o ponto em que tudo o que sou é uma saudade movente. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

TONY ANDERSON


A primeira vez em que escutei esta música foi num vídeo institucional de um restaurante local. Mal havia ela começado, eu me arrepiei. Mal tendo ela começado, eu já sabia que teria, de todos os modos, de descobrir o nome da música.

Como não há letra, tive de me valer do Shazam para descobrir o nome. Foi então que surgiram os caracteres: “Tony Anderson — Breakthrough”. A partir daí, o procedimento foi o usual: buscar informações sobre Tony Anderson, pesquisar o contexto em que “Breakthrough” está e tudo o mais.

A faixa é trilha sonora de um documentário chamado “Finding home”, sobre as vidas de três garotas que foram resgatadas da exploração sexual no Camboja. Anderson, que em sua página discorre sobre seu trabalho, comenta a feitura da trilha de “Finding home” neste “link”. 

Deve haver uns três dias em que estou escutando a música o dia todo quase sem parar. Depois que ela termina, eu a escuto outra vez; depois, outra vez (enquanto digito estas palavras, eu a escuto)... Paralelamente, tenho navegado pela página de Tony Anderson, de cujos textos e de cuja música me tornei fã. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

OBRAS-PRIMAS

Escutas a canção.
É tal o arranjo,
tal o tom, que,
em melódico momento,
uma obra-prima
escuta a outra.

Meu corpo se embala.
Entre as estocadas dele 
e os gemidos teus,
ele segue o ritmo de
duas obras-primas. 

DEMOGRAFIA

Anita mora em Patos de Minas.
Quer se mudar para Uberlândia.

Paulo mora em Uberlândia.
Quer se mudar para Belo Horizonte.

Ana Cláudia mora em Belo Horizonte.
Quer se mudar para o Rio de Janeiro.

Alan mora no Rio de Janeiro.
Quer se mudar para São Paulo.

Sara mora em São Paulo.
Quer se mudar para Nova Iorque.

Tiago mora em Nova Iorque.
Quer voltar para Concórdia do Pará.

Gabriela mora em Concórdia do Pará.
É feliz onde mora. 

domingo, 14 de dezembro de 2014

ELEVAÇÕES

HAICAI 32

Pirilampo, vaga-lume.
Vago lume, facho sutil.
Luz em baixo volume. 

ATO

O que há num sonho?
O que a noite concebe o dia realiza?
Ou é a própria noite que se cuida 
do que ela mesma engendra?

Sonhos não vêm com hora marcada.
Mas sonho não é ato.
Este se faz num tempo e num lugar.
Sonho precisa de investidas.

A que horas sairemos?... 

FOTOPOEMA 362

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

CASA DOS CONTOS

Nunca mais se verão.
Caminhos distintos, distantes.
A vida os uniu num breve encontro.
Foi um só, foi único; não haverá outro.
Ficou uma foto — também única.
O momento foi celebrado. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

AMBIENTE

A vestal pode 
estar na boate.
A maldade pode 
estar no convento. 

VERBO E CARNE

Digo um monte de coisas.
Invento assunto, faço perguntas.
Até arrisco uma piada, um trocadilho.
Tantas e tantas palavras.
Tudo para desconversar o que
eu deveria dizer o tempo todo.
Assunto demais para silenciar
o que em mim é grandiloquente.
A mesma boca que fala o trivial
é a que deseja um beijo forte.
É muita palavra tentando abafar
o que, em chama, o coração quer.