sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O LUGAR DA BELEZA

Tua beleza está 
na cabeça — 
pelo que ela
tem por fora
e pelo que 
tem por dentro.

Tu és irresistível 
em qualquer lugar de ti. 
Começa na cabeça 
e vai parar
lá nos pés.

De alto a baixo,
reparo. 
Não há 
lugar em que
eu não queria
estar presente. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

ANTENADO

POR QUE A TATURANA ATRAVESSOU A ESTRADA?

Atravessando a BR-365, próxima ao trevo de Patos de Minas, em horário bem movimentado, vi uma taturana. Das dezenas de carros que passaram por ela, cinco ou seis estiveram muito perto de esmagá-la. Mesmo assim, ela chegou ao outro lado, ignorante do risco que correu. Mas, a rigor, quem está ciente dos perigos à espreita? Atravessemos a estrada. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

LETRA DE MÚSICA 38

Glória, se eu soubesse
que trarias a degradação 
para dentro de minha sala, 
eu não te teria aberto a casa.

Entraste pela porta, 
chegaste perto, 
fizeste porto.

Confiei em ti. 
Glória, não és mais
a irmã que tive. 
Eu te expulsei de casa, 
eu te apaguei da vida.
Meu sangue não é o teu. 
Recebe meu anátema, 
não voltes à minha casa.

Procuraste abrigo. 
Eu te abriguei, 
alimentei teu corpo. 
Entregando-o, 
tu me feriste.

Glória, aprendi que
és ilusão e armadilha. 
Infelizes aqueles que 
de ti correm atrás. 
Flertas, conquistas. 
Mas quando estiveres desnudada, 
verão tua máscara no piso. 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

PARA BORGES

A Borges coube a
escuridão em vida. 
Coube a ele 
a memória.
Ou a ficção. 
Feliz na manhã dourada, 
soube ser feliz na tarde escura. 
Soube me fazer feliz
na madrugada chuvosa.
Graças a Borges, 
daqui a pouco, 
vou sonhar. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

JOÃO 8, 6

Ele escreveu sua história. 
Escreveu a minha.
Escreveu a carne entre os dentes
e as guerras e os corredores. 
Escreveu amores, ódios e tigres. 
Escreveu grãos de areia, vulcões, 
poemas, tratados e derrotas. 
Escreveu tucanos, estrelas e ratos. 
Escreveu ermos. 
Escreveu cidades. 
Escreveu silêncios, sexos.
Escreveu o Universo. 
Escreveu pais, mães e blusas de frio. 
Escreveu a neve, a chuva e os cabelos. 
Escreveu a rebeldia, as tempestades, as paredes, 
as árvores, as estradas e a noite.
Escreveu o sono, as canções. 
Escreveu unhas, sóis e judeus.
Escreveu o câncer, a chibatada, a fé, 
os alimentos e a fome.
Escreveu a chuva, o desejo, as camisas. 
Escreveu impérios, xingamentos, devoções, 
olhares, escadas, cavalos, 
poeira, formigas, mesas, pães, 
terremotos, dons, cadeados, cismas, 
vozes, números, receitas, sonos. 
Escreveu mares, pulgas, desertos. 
Escreveu trevas, dúvidas e vozes. 
Escreveu crianças, flertes e coceiras. 
Escreveu brisas, pestes, livros,
perfumes, esperanças, manhãs,
crucificações, aves, bebidas,
conceitos, alianças, circos,
pedras, Pedros, Borges, solidões,
travessias, congados, tamanduás,
alfabetos, torres, manás, dissabores.
Escreveu o que ninguém logrou escrever.

De repente, parou.
Releu o que escrevera. 
Revisou, considerou, ponderou. 
Arrematando o texto, 
reordenou os grãos. 
Onde antes havia palavras, 
há agora um novo código. 
Não foi ainda decifrado. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

AINDA SOBRE A SENSUALIDADE

Em texto publicado anteriormente, escrevi sobre a sensualidade. A temática continua me atraindo. Volto ao assunto, desta vez para dizer que pessoas que têm sensualidade a exalam em tempo integral. Há nelas um jeito de caminhar, um modo nos gestos, um quê na cadência com que executam as tarefas no dia a dia que as tornam sensuais.

Não são estabanadas; tampouco são monótonas nos movimentos. Acham um equilíbrio que faz com que se movam com graciosidade. Não passam a ideia de indolência nem transparecem a sensação de que estão apressadas. Esse equilíbrio, aliás, está também na voz, que não é sussurro nem grito. As pessoas sensuais são um meio-termo mais “fatal” do que qualquer excesso. 

LUGAR

Inserimos números nas casas, 
damos nomes às ruas, 
riscamos constelações no céu, 
inventamos dispositivos de localização. 
Há todo um sistema para que
saibamos onde estamos. 
Os nomes, os números, os endereços...
Nada disso elimina o nome do
caminho que é nosso: labirinto. 

TRIO

sábado, 7 de fevereiro de 2015

THE DIRTY WOLVES BLUES BAND

Diversas frases me ocorreram enquanto eu assistia, na madrugada que passou, ao show de The Dirty Wolves Blues Band. Eu deveria tê-las anotado, para que compusessem este comentário sobre a apresentação. Confiei na memória. As frases se perderam. Restou só esta: um show tão dançante que me fez chacoalhar até as bochechas.

Cheguei ao bar no exato momento em que a apresentação estava prestes a começar. Bastaram alguns segundos para que meu corpo já estivesse louco para sair dançando mundo afora. Os Lobos fizeram um show da mais genuína alegria. Não somente pela razão de que pareciam se divertir, mas também pela competência técnica. Há um tempão eu não dançava tanto durante um show.

A banda é formada por Mauro Fontoura (guitarra/vocal), Samuel Fontoura (bateria), Alliss Big Bull (baixo acústico) e Vinícius Lustosa (trompete). Investindo na raiz do blues, The Dirty Wolves Blues Band entrega um espetáculo em que ficar parado seria muita provação para um só corpo. 

QUERO-QUERO



NEBLINA

PAR

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

PONTO DE VISTA

Com força e talento,
o cinzel atua.
O mármore se rende,
sabendo que ao fim
vai se tornar o que é.

Pietro se concentra.
Observa o mármore,
observa o pó que
vai caindo no chão
durante o trabalho.

Do mármore 
para o pó,
do mármore
para o pó...

A escultura receberá
a vida em instantes.
É quando Pietro comenta:
“Esse Michelangelo só faz sujeira!” 

DA IRONIA

A ironia é 
lâmina:
fulgura, 
corta.

É lâmina fina, 
fina como papel.
A ironia é fina.

Contenta-se 
em existir
sem ser
percebida. 
Mas se alcançada, 
o sorriso é fino. 

A TEMPO

Não se preocupe,
dá tempo. 
Ainda estamos
em fevereiro:
depois eu
março.

(DES)APONTAMENTO 20

Os presos se rebelaram: reação em cadeia. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

FIO

DISPARADO

Perder o equilíbrio 
faz disparar o coração?
Ou é o coração disparado
que faz perder o equilíbrio?

Se estás, sou agito. 
Perto de ti, 
nunca sou monotonia:
sou desequilíbrio que pulsa. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O RIO CRIATIVO

A mente precisa achar um rio em que consiga navegar com criatividade. Quando acha, é como se não houvesse margens, é como se ela navegasse sem limites. O que advém desse estado mental é a criação, é o novo, é o espírito humano realizando o que tem de mais nobre e poderoso, que é a capacidade de criar mundos. Só a mente atenta percorre um rio assim; só a mente atenta cria quando devaneia. Quando acha esse rio, a mente torna-se manancial que faz jorrar o poder criativo que se tem, que deixa jorrar o que se é. 

SOBRE O PASSADO

Aprender o gosto por coisas velhas. Não simplesmente por serem velhas: há coisas velhas que devem ser jogadas fora, há gente velha que é estúpida. O que é velho está na juventude, está no carrão que acabou de ser tirado da concessionária. Seus antepassados correm em suas veias; enquanto você caminha, seus pés pisam também os séculos anteriores.

O passado já muito valeria se fosse "somente" história, mas ele é mais. Ele compõe o presente das coisas e das pessoas. O passado ensina. As tramas do passado se repetem. Não há enredo novo, e os personagens e as coisas estão todos impregnados de coisas velhas. O passado é um espelho à disposição do presente. 

FESTA NO MILHO


REVOADA

VOEMOS



Aprendi demais sobre fotografia no Treknature, página dedicada a fotos de natureza. Há a preferência por registros em que os animais não estejam em cativeiro. Inicialmente, fiquei espantado com as imagens; a seguir, mesmo nada sabendo de fotografia, comecei a postar minhas fotos.

Há na página um espaço dedicado a dúvidas que os membros possam ter sobre fotografia. Além disso, como minhas fotos eram muito ruins, os demais integrantes sempre me davam dicas, seja com relação ao ato de fotografar em si, seja quanto à edição das imagens. Não raro, nas fotos dos demais integrantes, eu perguntava como haviam conseguido um registro ou outro.

Sempre que postei alguma dúvida, nunca fiquei sem resposta. Sempre foram gentis, solícitos. Não havia a ideia pequena de não partilhar o que se sabe, como se o conhecimento que se tem não pudesse ser dividido. Devo muito ao Treknature. Tive na página uma presteza e uma vontade de ajudar que infelizmente não foram comuns quando tentei aprender com fotógrafos do Brasil que moram nos grandes centros.

Lembro-me de alguém por lá ter comentado que em fotografia de animais é bom fotografá-los quando estão fazendo alguma coisa. Se um animal está perseguindo a presa ou se está fugindo do predador, existe ação, algo está acontecendo. Se estão se reproduzindo ou se alimentando, a vida está acontecendo.

No sentido de se registrar os animais enquanto fazem algo, sou da ideia de que quando se trata de aves ou de pássaros, fotografá-los durante o voo é registrá-los num grande momento — pelo menos sob nossa ótica, que é humana. Para eles, suponho, é um ato como outro. 

sábado, 31 de janeiro de 2015

MAMIHLAPINATAPEI

Ele quer.
Ela quer.

Ele sabe que ela quer.
Ela sabe que ele quer.

A noite avança.
Os dois se olham.

As horas passam.
Os dois se paqueram.

É quando vem a manhã.
Os dois voltam sós para casa. 

"PALAVRAS, PALAVRAS, PALAVRAS"...

Li há muito tempo que um idioma africano tem uma palavra para se referir a alguém que é vice-campeão em um torneio por três vezes seguidas; se eu não estiver enganado, o termo pode se referir também a uma equipe vice-campeã por três vezes seguidas. Infelizmente, não me lembro da palavra.

O Megacurioso mencionou a palavra “Ostalgie”, que vem do alemão. Segundo a página, o termo significa a saudade que se sente da Alemanha Oriental. O télugo, dialeto indiano, tem a palavra “paski”: “Castigar uma criança obrigando-a a se sentar e depois se levantar segurando as orelhas com os braços cruzados”.

O inglês tem a palavra “serendipity”. A palavra significa “aptidão em fazer descobertas desejáveis por acidente”. Em japonês, há “koro”: “Medo histérico de que o próprio pênis esteja encolhendo para dentro do corpo”. Já em fueguino, dialeto chileno, existe a palavra “mamihlapinatapei”; significa “o olhar de desejo mútuo em que ambas as partes sabem o que querem, mas não dão o primeiro passo”. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

(DES)APONTAMENTO 19

Não havia muito o que Adão pudesse fazer: Eva era dendrólatra. 

DA BUROCRACIA

A burocracia emperra nossa criatividade, impedindo-nos de sermos aquilo que em essência somos — seres criativos. A burocracia enterra o que temos de melhor, conferindo ao féretro papéis, carimbos, assinaturas, insígnias e pompa afetada. O mundo da burocracia é feito de uma densidade falsa.

A burocracia parece séria; é o refúgio daquilo que é só aparência, daquilo que maquia a mais absoluta falta de conteúdo, de necessidade e de humor. O mundo burocrático é cheio de tentáculos que não podem ser driblados. De nada adianta tentar fugir: eles nos acham; achando-nos, sufocam-nos. Com maldade. Com tempo. Com paciência. 

DESTINO: CASA

Há quem se sinta mais compelido ainda a visitar determinado lugar depois de conferi-lo pelo Google Maps. É uma ferramenta que não uso. Contudo, recentemente, baixei o Google Sky Map. E agora?!... Como não querer visitar Aldebarã, Betelgeuse ou Achernar?!... 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

PELOS CAMINHOS DO CERRADO









Hoje à tarde, eu e o amigo Aldo saímos para fotografar. Fomos lá pelas bandas da famosa Ponte do Bigode. Depois de passarmos por um velho cemitério, continuamos seguindo pela estrada. Foi quando nos deparamos com águas paradas no meio do caminho.

Enquanto debatíamos se daria para o carro seguir sem atolar, o Aldo desacelerou. Depois de precisos escrutínios, sagazes esquadrinhamentos e acuradas análises do ambiente, decidimos que o carro passaria sem problema. Tendo ficado atolado, valemo-nos de cascalho e de gravetos sob os pneus da frente na tentativa de desatolar o veículo. Inútil.

Passados uns vinte minutos, surgiu um motorista numa caminhonete. Ele parou. Sugeriu que se tentasse seguir com o carro adiante, em vez de se tentar a ré, alegando que a poça d’água era rasa. Mas ele não sabia ainda que o carro não saía do lugar quando acelerado. Foi quando o motorista da caminhonete se sentou sobre o capô do carro atolado, um pouco à frente do motorista; a estratégia foi um sucesso. 

PROMESSA

Tua partida 
virou poesia. 
Não tens ideia 
do que farei 
com tua chegada... 

APONTAMENTO 236

Escrever é um jeito de fingir o não esquecimento, a não destruição. Sem dramalhão barato, penso mesmo que, a rigor e ao cabo, virá o aniquilamento. Creio que nada sobrará nem do que somos nem do que fizemos. Só que isso não deve ser pretexto para que não edifiquemos. Temos de fazer o melhor que podemos do que nos resta — que é viver. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

FOTOPOEMA 368

BANDA INDÚSTRIA BRAZILEIRA LANÇA CD


O texto foi abaixo foi lido por mim, no sábado (24/01/2015), no Teatro Municipal Leão de Formosa, antes do início do show da banda Indústria Brazileira.
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Recentemente, escrevi que Patos de Minas vive, atualmente, o melhor momento musical de sua história. Pode parecer que haja algum exagero em minha afirmação, mas digo isso pelo seguinte: há vários artistas produzindo — e produzindo material próprio. Esse investimento em trabalhos autorais é o que me leva a afirmar o belo momento musical da cidade.

Todavia, voltemos no tempo: em 1989, surge no cenário local a banda Duas Tribos. Os integrantes eram Arílson (voz), Alencar (violão), Helenilton (baixo), Léo (guitarra) e Willian (bateria). Depois do primeiro show, a banda adota o nome de Indústria Brazileira (com Z). A partir daí, começam a se apresentar em Patos de Minas e também na região. A banda chega a ser atração de um evento que deixou saudade — o Encontrão Cantar na Praça. Em 1990, tocam na extinta FIC Patos.

Também em 1990, o grupo passa por modificações: Alencar, Helenilton e William saem; entram Michael (baixo) e Cleanto (bateria). Contudo, em 1991, a banda se desfaz, tendo ficado inativa até 2007. Nesse ano, retornam praticamente com a formação original, com Michael tocando contrabaixo. A partir daí, voltam a se apresentar em Patos de Minas e também na região. Em Patos, apresentam-se em quatro edições da Fenamilho: 2008, 2009, 2010 e 2011.

Após a Fenamilho de 2011, Arílson, o vocalista, deixa a banda. Sandra, esposa do baixista Michael, é chamada para os vocais, divididos com os demais integrantes. Posteriormente, Arílson assumiria novamente os vocais. Atualmente, a formação é a seguinte: Arílson (vocal), Leo (guitarra, violão), Guilherme (baixo) e Willian (bateria).

Contada essa história, retomo o que eu disse no começo: o belo momento musical que Patos de Minas tem vivido. Na noite de hoje, temos mais uma expressão autoral de artistas que têm ligação com a cidade. Estamos aqui para celebrar o lançamento do CD “Na Primavera”, da banda Indústria Brazileira.

O disco tem doze faixas. As letras visitam também as temáticas romântica e social, sem abrir mão do senso de humor. Em “O recomeço”, a terceira faixa do disco, tem-se uma balada romântica que, curiosamente, mistura desilusão e otimismo. Já em “Pra você”, a quinta faixa, não há travo, mas “apenas” superação.

A temática social ou coletiva fica por conta de “Todo mundo é assim”, a quarta canção do CD, “Processo civil” e “Quase tudo igual” (as duas últimas fecham o disco). O toque de humor é dado por “Blues do camarada”, em que se conta uma história de um personagem cujo nome é Alencar. Sim, o personagem é aquele mesmo que foi um dos integrantes da banda.

Os que estiveram em shows do Indústria Brazileira se lembram de que Legião Urbana era parte essencial do repertório da banda. A influência dos legionários no CD é clara. Nesse sentido, e levando-se sem conta as apresentações do Indústria desde fins da década de 80, a noite de hoje é um reviver. Em contrapartida, é, ao mesmo tempo, o começo de uma história, pois, hoje, aqui estamos também para presenciar um show com canções autorais da banda.

Permitam-me agora uma breve nota pessoal: tive o privilégio de conferir dezenas de show do Indústria Brazileira e de entrevistá-los num programa de rádio. Foi uma honra para mim receber deles o convite para fazer a apresentação do CD “Na primavera” nesta noite. À parte o trabalho que realizaram, sou amigo dos que fizeram parte das duas primeiras formações do grupo. Não bastasse isso, sei bem o quanto me diverti, seja às margens da Lagoa Grande (na época havia bares com música ao vivo por lá), seja em algum outro lugar, ao som do Indústria Brazileira. Digo, sem exagero, que fui feliz ao som da banda.

Creio que todos nós estamos aqui hoje para uma celebração, para um tributo ao passado, para um brinde ao futuro e para a curtição do presente. A noite é de festa, é de dar os parabéns para a banda por ter se aventurado em um trabalho autoral. Que tenhamos uma noite... industriosa. Muito, muito obrigado ao Indústria Brazileira por ter me concedido o privilégio de estar aqui. Uma bela noite para todos. 

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (81)

Quando me dei conta de que o bando de maritacas estava pousando nesta árvore, é claro que logo pensei em fotografá-las. Ao mesmo tempo, de imediato tive noção de que a tarefa não seria fácil: a copa é fechada e as maritacas são praticamente da mesma cor das folhagens. Por outro lado, isso não poderia ser pretexto para que eu não tentasse fazer algum registro.

A princípio, nem era possível enxergá-las. Mudei então de lugar. De vez em quando, de relance, era possível ver alguma delas se movendo de um galho para outro. Mas a algazarra delas era veloz. No instante em que uma estava num galho, não mais estava lá quando eu conseguia acertar o foco.

As tentativas prosseguiam. Outras maritacas iam chegando, mas não se podia enxergar onde exatamente estavam pousando. Foi quando achei a que está nesta foto. Consegui quatro cliques. Depois deles, ela e as demais embarcaram outra vez. 

sábado, 24 de janeiro de 2015

O GRITO

Como nós, as seriemas são barulhentas. Elas gostam de andar em duplas; são esquivas. Contudo, a desta foto permitiu maior aproximação: conferindo os dados técnicos da foto no Adobe Bridge, constato agora que eu estava a cinco metros e meio da seriema. Se me lembro do momento, fico com a impressão de que eu estava mais próximo ainda.

Mesmo assim, é uma distância que geralmente as seriemas não permitem. Outra coisa diferente: perto desta da foto havia mais três ou quatro delas; todas estavam muito agitadas, como que assustadas ou algo assim. Enquanto fotograva, cheguei a cogitar se havia algum bicho por perto as ameaçando ou se estavam protegendo algum filhote.
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Dados técnicos

Câmera: Canon EOS 60D
Lente: Canon EF 100-400mm f/4.5-5.6L IS USM
F/7.1
1/640
ISO 800
Distância focal: 400mm 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

ALMA DE ARTISTA

Algumas pessoas têm alma de artista. Com isso, quero dizer que são capazes, antes de tudo, de se sensibilizarem com o belo (o conceito do belo não importa agora). Tais pessoas têm a mente aberta — não hierarquizam artes, não hierarquizam gêneros. Não há arte melhor do que outra, não há gênero melhor do que outro; o erudito não vale mais do que o popular. Pessoas com alma de artista sabem que a beleza pode estar numa letra de rock ou numa escultura do século XIV; sabem que a beleza é farta: pode estar numa folia de reis ou num poema escrito ontem.

Pessoas com alma de artista não necessariamente exercem alguma forma de arte, seja como algo lúdico seja como profissão. Há casos de artistas que não têm alma de artista. Nem todo mundo com alma de artista é um erudito (mas claro que há eruditos com alma de artista). Só que a não erudição ou a falta de estudo sistematizado de uma arte não impedem a pessoa que tem alma de artista do senso do belo. Esse senso faz com que ela pressinta ou aprecie a beleza em manifestações artísticas as mais ecléticas. 

FOTOPOEMA 367

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

CRUZ

PERMANÊNCIA

Você chegou perto, sussurrou. 
Desde então, 
fiquei com o arrepio
atrás da orelha. 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

AINDA OS LIVROS

Não tenho muito a dizer, a não ser confessar meu inevitável e universal pertencimento ao gênero humano. Não sou diferente dos que vieram nem diferente dos contemporâneos; os que virão não serão diferentes de mim. A nos ligar, os livros. Isso é mais do que o bastante para que eu leia. Enquanto houver um livro, haverá a felicidade. Ou pelo menos algo que se pareça com ela. Em algum lugar, um livro é aberto: nesse instante, tem início o que pode ser a felicidade. 

AINDA O AMOR

O amor se compraz em olhar para o objeto amado existindo. Existir pode implicar um leve movimento no braço para se pegar um copo ou a publicação de uma revolução científica. Para o amor, não há ação menor do que outra. Para o amor há o objeto amado movendo-se, vivendo, existindo, sendo. Enquanto o outro se move, enquanto o outro é, enquanto o outro vai sendo, o olhar amoroso acompanha cada instante, absorto, abobalhado, encantado. É somente uma pessoa levando a vida como qualquer outra pessoa leva, mas, para o olhar amoroso, cada mínimo gesto ou cada mínimo instante do objeto amado tem poder de mandar embora insignificâncias, poder de elevar e de deixar contente aquele que ama, também por ser capaz de tanto amar. Amam-se os trejeitos, os gestos, os risos, as reações, as inflexões da voz, o gozo, o olhar. Viver é mover-se. O movimento do objeto amado movimenta aquela que ama. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

APONTAMENTO 235

Não penso em uma receita para a vida. Pode ser que tal receita nem exista. Se existe, não há quem a detenha. Suspeito (e apenas suspeito) de que se houver uma receita para uma vida com alguma alegria, um dos ingredientes é exercer o talento que se tem. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

VAI UMA SALADA AÍ?

Há alguns meses, comentei por aqui a respeito de saborosa salada que comi na casa do Alcione, colega de trabalho. Foi numa festa ocorrida na casa dele, lá em Patrocínio. Na ocasião, devorei todo o rabanete que havia na salada.

Pois bem: algum tempo depois, numa festa que reuniu a equipe de trabalho, num sítio nos arredores de Patos de Minas, o Alcione e a esposa dele, a Irani, surgem na confraternização com uma tigela grande. Passei logo a imaginar (já cobiçando) o que havia na tigela: era uma salada feita de cenoura, maçã, gelo e cebola (cortada em grandes fatias).

Cortês, o Alcione disse que tentara achar rabanete para compor a salada, lembrando-se de minha atuação lá em Patrocínio. Mal provando do prato que o Alcione e a Irani haviam levado, já soube, naquele momento, que tornar-me-ia consumidor devotado da salada (o que de fato tem ocorrido).

No prato da foto, usei maçã, cenoura (crua), pepino japonês (cru), rabanete (cru), cebola (cortada em grandes fatias), sal (a gosto) e gelo (a gosto). Depois de pronta, mesmo com o gelo, deixo a salada na geladeira por uns dez minutos. No futuro, apenas a título de variação, penso em substituir a maçã por pera ou por melão. 

TRÂNSITO

O ciclista fechou o pedestre.
O pedestre xingou.

O motoqueiro fechou o ciclista.
O ciclista xingou.

O carro fechou o motoqueiro.
O motoqueiro xingou.

O caminhão fechou o carro.
O motorista xingou.

A carreta fechou o caminhão.
O motorista xingou.

A carreta articulada fechou a carreta.
O motorista xingou.

A carreta articulada fechou a carreta articulada.
Houve dois silêncios. 

RAPOSAS

Os EUA já protagonizaram genocídios em diversas ocasiões. Há sempre um pretexto, que pode ser, digamos, a paz numa determinada região do planeta. Ou a paz mundial. Não raro se portam com arautos de causas que seriam de interesse global, quando o interesse é sempre o deles. Não é exceção passarem um verniz diplomático na matança.

A Fox News dá voz ao American way of fundamentalism. Jeanine Pirro, âncora da emissora, propõe a solução após o ocorrido na França na semana passada: matar todos os islamistas. Segundo Pirro, funcionaria assim: os EUA bancariam os muçulmanos, fornecendo armas. A partir daí, os próprios muçulmanos dariam cabo do que ela chama de fanáticos do islã.

Em seu discurso, tão recheado dos clichês perigosos que a direita radical americana vê reproduzidos na Fox, Pirro, é claro, não mencionou que não haveria novidade se a solução proposta por ela fosse colocada em prática: os EUA são pródigos em financiar massacres. 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

APONTAMENTO 233

A leitura aplaca meus males e robustece meus bens.

THE NEW PIAUÍ

O Orson Welles disse que "todo mundo é falsário de alguém". A palavra "falsário" foi usada na tradução que li da entrevista; no contexto, não me soou pejorativa. Além do mais, se ele usou a expressão "todo mundo", ele se incluiu.

As coisas também podem ser falsárias de outras. A Piauí é falsária da revista The New Yorker. O sonho da Piauí é ser a revista The New Yorker. A Piauí sonha alto; por isso mesmo, realiza muito. 

À NOITE

As pessoas da noite me atraem. 
As pessoas à noite me atraem. 
Elas são artistas à noite.
Elas são quem são à noite.
Elas são feitas para a noite.
Elas são melhores à noite. 
Eu amanheço melhor com elas. 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

RENATO RUSSO: UM ATOR

Num show do Legião Urbana realizado no Rio de Janeiro no dia sete de julho de 1990, já no fim de “Andrea Doria”, andando pelo palco após ter cantado a letra da canção, Renato Russo simula que está cravando um punhal em seu próprio peito. O gesto coincide com o término da canção.

Valho-me disso a fim de ilustrar o que, antes de tudo, Renato Manfredini Júnior (nome real de Renato Russo) era: um grande ator. Valendo-se desse talento, Russo tinha uma capacidade assustadora de hipnotizar a plateia, de modo que shows do Legião Urbana eram acontecimentos. No dia vinte e nove de agosto de 1992, em Uberlândia, conferi, no UTC, uma das apresentações da banda.

Na segunda canção do espetáculo — “Metal contra as nuvens” —, Russo simula masturbação e, logo após, passa a mão na própria boca. Cantou deitado uma das músicas, executou sua dança — herdeira de Jim Morrison, de Ian Curtis —, fez discursos (era do tipo que falava muito em shows e em entrevistas), esbravejou.

Devido à persona que Renato Russo foi, o Legião Urbana era, sobretudo, teatro. Russo era um personagem criado por Renato Manfredini Júnior. Tal personagem era herdeiro do Romantismo (escola artística do século XIX). Nesse sentido, criou um ícone que seguia a cartilha romântica: o jovem talentoso e atormentado, que sofre e sente demais as agruras do vida; o “outsider” que não se encaixa no mundo tal qual ele é; o rebelde que, com seu talento e com sua tristeza, realiza seu trabalho artístico.

Esse personagem, invenção do Romantismo, seria reaproveitado pela cultura pop do século XX. Os beatniks, Jim Morrison ou Morrissey são ecos do que os românticos criaram. O rock, em especial, valer-se-ia do modo de vida celebrado em versos que seduziam a juventude intelectualizada do século XIX.

Não é novidade para ninguém que o Legião Urbana não deixou um grande legado musical. A contribuição da banda está, para muitos, nas letras; está muito mais numa atitude, numa postura, num posicionamento diante das mazelas do mundo, dos problemas e questionamentos dos jovens. Está numa rebeldia que não foi inventada pela banda, mas que tão bem cai para o espírito do rock.

Quando afirmo que Renato Russo era um personagem, não faço isso em sentido pejorativo nem sugiro que havia fingimento nas crenças que Russo expressava em entrevistas, em palcos ou em canções. É minha intenção ressaltar a verve teatral e lírica que Manfredini tão bem usou enquanto foi o vocalista do Legião Urbana. 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

NÃO BASTA

Não basta dar a luz para ser Thomas Edison.
Não basta ser dândi para ser Oscar Wilde.
Não basta morar num castelo para ser Montaigne.
Não basta mostrar a língua para ser Einstein.
Não basta tomar ácido para ser Jim Morrison.
Não basta ser condenado para ser Galileu.
Não basta vir ao Brasil para ser Darwin.
Não basta viajar para ser Melville.
Não basta não viajar para ser Drummond.
Não basta ter pegada para ser Sade.
Não basta ser torto para ser Garrincha.
Não basta gostar de “poodles” para ser Schopenhauer.
Não basta ter bigode para ser Nietzsche.
Não basta ser linda para ser Elizabeth Taylor.
Não basta ser pintor, escultor, desenhista,
projetista nem inventor para ser Da Vinci.
Não basta uma lista para ser um poema.

Não basta uma lista para ser um poema. 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

QUE CANÇÃO É ESTA?

Alguém aí sabe o nome da canção incidental que o Renato Russo canta a partir dos cinco minutos e quarenta segundos?... A mesma canção, não estando eu enganado, vai até aos seis minutos e trinta e dois segundos...

À parte isso, há citações de Madonna, Prince, Janis Joplin, Led Zeppelin. Este show, que ocorreu no Rio de Janeiro, acabou sendo um tributo ao Cazuza, que morreu na data de realização do espetáculo, no dia sete de julho de 1990.

APONTAMENTO 232

A bonança é pródiga em revelar sábios. 

SEGREGAÇÃO

Só gente branquinha 
na plateia: 
público alvo. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O CORPO, A MENTE

[Obrigado a Maíra Queiroz Rezende, professora de biologia do IFTM, campus Patos de Minas, pela explicação sobre sinapses e neurotransmissores.]

O Orson Welles disse certa vez que assistir à TV é mais fácil do que ler um livro. É mesmo. De modo correlato, assistir à TV é mais fácil do que praticar uma atividade física. Embora, é óbvio, haja diferenças entre a atividade física e a intelectual, há simetrias possíveis entre as duas.

Nenhuma delas é fácil, independentemente da preferência por uma ou por outra. Num plano superficial, e seguindo o comentário do Welles, basta dizer que é mais fácil não ler nada nem praticar atividade física nenhuma. Mas aí há um paradoxo curioso: é mais fácil, mas é prejudicial. Dizendo de outro modo, focando-se o outro lado da moeda: o que faz bem demanda esforço.

Salvo exceções, seja de pessoas com capacidade cerebral privilegiada, seja de pessoas com habilidades corporais excepcionais, a maioria de nós tem mais ou menos corpos similares e inteligências médias. Com relação ao corpo, excetuando-se alguma doença devastadora, podemos melhorar a condição física que temos por intermédio do hábito. O mesmo vale para a inteligência.

A atividade física e a intelectual, para que resultem em plenitude, dependem do hábito. Isso, assim me parece, é mais literalmente visível na atividade física; já na atividade intelectual, não raro, há a visão romântica e equivocada do gênio iluminado que recebe dos deuses graças inspiradas.

Ainda que a pessoa tenha um corpo saudável sem atividades físicas e ainda que tenha inteligência o bastante sem atividade intelectual, grandes conquistas, tanto corporais quanto cerebrais, não vêm sem hábito, sem alguma disciplina, sem algum esforço. Diante do brilho de um corpo ou de uma inteligência, é preciso levar em conta as horas e horas de dedicação que foram necessárias para se chegar àquela excelência, seja ela física, seja intelectual.

É comum dizer que o corpo enferruja. O cérebro também. É necessário exigir do corpo para que ele melhore. O mesmo vale para o cérebro. Músculos se atrofiam; sinapses, idem. Atividades físicas e intelectuais nada garantem, não asseguram proteção contra doenças. Elas são um benefício para o presente. Se o futuro se beneficiar delas, melhor ainda.

Tratei separadamente as atividades físicas e as atividades intelectuais. Não é segredo, contudo, que o cérebro se beneficia das atividades físicas; não me parece desarrazoado dizer que o corpo pode se beneficiar das atividades intelectuais, seja lá como for. Há, de fato, a dualidade mente/corpo? Não sei. À parte isso, sem esforço, não seremos o melhor de nós. “No pain, no gain”, o lema dos fisiculturistas, vale também para os intelectuais.

"SOLIDÃO"