segunda-feira, 20 de outubro de 2014

OUTRO CARCARÁ

Preciso voltar a fotografar estas criaturas, pelas quais tenho tanto fascínio. Enquanto isso, uma foto antiga, tirada em dezessete de setembro de 2005.

POR QUE DIGITO "13" (MAIS ALGUNS MOTIVOS)

Antes de alegar corrupção contra algum partido, qualquer simpatizante de qualquer um dos partidos que disputam a eleição presidencial deveria ter a noção de que houve corrupção de ambas as partes. A diferença é o tratamento que se dá a ela: os grandes meios de comunicação abafam ou minimizam a corrupção no PSDB, e a amplificam quando é no PT.

O que deveria haver é punição em ambos os lados. De qualquer modo, para os incautos que queiram saber de alguns delitos do PSDB, confiram este “link”. Os do PT estão em qualquer edição da Veja; os do PSDB, não.

Em postagem anterior, publicada também no Facebook, elenquei algumas razões pelas quais voto em Dilma. Nesta postagem, cito mais alguns motivos que justificam meu voto.

Antes de listar esses motivos, devo, de antemão, dizer que sou contra o neoliberalismo defendido pelo PSDB. Lembro-me de que, certa vez, em Belo Horizonte, num encontro de professores, o nome do Michel Camdessus apareceu num texto. Quanto alguém perguntou quem era Camdessus, respondi que ela era o diretor do Fundo Monetário Internacional.

É nítida em minha memória a época em que o nome do presidente do FMI estava todos os dias no noticiário econômico nacional. Isso não foi há muito tempo; historicamente, foi ontem. O PSDB e seu neoliberalismo faziam com que o Brasil se tornasse refém de órgãos econômicos internacionais. Foi no governo do PT que o Brasil se livrou da dívida externa.

Há dois modelos econômicos em disputa. Eu me decidi por um. Lembro-me do País no período militar, fui testemunha da redemocratização, acompanhei o engodo Collor (não votei nele), passei pela ascensão do neoliberalismo e vivenciei os anos do PT no governo federal.

Nesta postagem, vou me valer de um texto de Najla Passos. Foi publicado no sítio da revista Fórum. Na postagem, Passos assinala nove diferenças entre os modelos econômicos do PT e do PSDB. Em breve, pretendo mencionar outro texto: este, de Cynara Menezes. Por agora, os comparativos de Najla Passos:

1 – Inflação

O governo do PSDB sabe o pânico que o brasileiro tem da inflação, que durante décadas corroeu salários e reduziu o poder de compra do trabalhador e cujo recorde, em 1993, chegou a 2.477% ao ano. É por isso que usa a mídia que lhe serve para atemorizar o povo dizendo que a inflação está fora de controle. Isso não é verdade. Durante o governo FHC, o PSDB conseguiu reduzir a inflação a 1,6% em 1998, às custas de juros altos e muito arrocho para o trabalhador. Mesmo assim não conseguiu mantê-la neste patamar. Quando eledeixou a presidência, a inflação batia a casa dos 12%, quase o dobro dos 6,5% que temos hoje com Dilma, que a manteve sempre dentro das metas, mesmo aumentando os salários e garantindo mais direitos aos trabalhadores. A principal diferença entre os dois modelos, portanto, é quem paga a conta pelo controle da inflação. E no modelo do PSDB, certamente é o trabalhador.

2 – Desemprego

No governo FHC, a orientação da política econômica foi a da estabilização da moeda. No governo Lula, o crescimento econômico simultâneo à distribuição de renda. No governo Dilma, é a manutenção do emprego combinada com baixa taxa de juros. Não por acaso, em 4 anos, Dilma criou mais postos de trabalho do que FHC em 8: uma média de 1,79 milhões ao ano, nos governos petistas, contra a média de 627 mil ao ano, na era tucana. O Brasil de Dilma tem as menores taxas de desemprego da sua história: 5,4% em 2013, contra 12,2% em 2002. Isso deixa os donos do capital furiosos. É que os empresários não gostam que o governo mantenha o desemprego baixo porque isso gera poder de barganha para o trabalhador. Os economistas do PSDB, a eles atrelados, dizem até que “uma certa taxa de desemprego faz bem à economia”. Já o PT defende que é possível crescer aumentando os salários para distribuir renda, o que é confirmado pela experiência dos últimos 12 anos.

3 – Salário

As diferenças entre as políticas públicas tucanas e petistas para o salário mínimo ficam claras com os números. Em 2002, o mínimo era de R$ 200, o equivalente a 1,42 cesta básica. Hoje, é de R$724, o que permite comprar 2,24 cestas básicas. Uma mudança e tanto no poder de compra do trabalhador, que, combinada com programas sociais, ajudou mais de 50 milhões de brasileiros a saírem da pobreza. O salário mínimo, hoje, também tem maior participação no PIB: atinge 34,4%.

4 – Juros

No auge da crise de 1998, a maior enfrentada pelo governo do PSDB, a Taxa Selic chegou a 45%. Ou seja, o grande investidor que tinha R$ 1 milhão em aplicações ganhava R$ 450 mil só deixando o dinheiro no banco. O presidente do Banco Central, à época, era o mesmo Armínio Fraga, responsável pela elaboração do programa econômico de Aécio e cotado por ele para reassumir o órgão. Já nos governos do PT, os juros sempre registraram patamares inferiores. A presidenta Dilma mudou as regras da poupança e usou os bancos públicos para pressionar os privados a baixarem os juros. Mas quando reduziu a Taxa Selic para 2%, enfrentou uma poderosa campanha midiática para que eles voltassem a subir: a campanha do tomate, focada no preço sazonal de um único produto. Com a posterior mudança do cenário internacional pós-crise, acabou tendo que ceder e elevar as taxas, que hoje estão em na casa dos 11% ao ano, ainda bem distantes dos 45% do governo FHC.

5 – Dívida pública

O perfil da dívida brasileira mudou muito do governo do PSDB para o do PT. Na era tucana, a divida era externa, cobrada em dólar. E FHC fazia qualquer coisa para perseguir o superávit primário destinado a pagar seus altos juros: ajustes fiscais, demissões, reduções de direitos. Além de que mantinha o país subjugando às exigências do FMI. Os governos do PT saldaram os débitos do país com o FMI. Agora, a dívida é interna. Pode ser rolada e controlada com a emissão de mais títulos e até mais moeda. Além disso, vem diminuindo significativamente seu peso no orçamento.

6 – Política industrial

A desindustrialização atingiu quase todo o mundo no pós-crise econômica mundial de 2008. Os Estados Unidos, só agora, conseguiram retomar o nível de industrialização de 2006. A Itália apresenta um índice 20 pontos menor. O Brasil, no entanto, cresceu 11%, um dos maiores patamares conforme a OCDE, ao contrário do que martela a mídia comprometida com a oposição. Nestas eleições, são dois modelos em disputa. O PT propõe a manutenção do ativismo da política industrial e recuperação das suas potências, com papel forte do Estado e coordenação das políticas (desenvolvimentismo). Já o PSDB propõe a perda do ativismo e da potência, com o Estado sendo substituído pelas forças do mercado. Na contramão do mundo, volta a pregar a total abertura às importações sem preparar a indústria nacional para a competição. Um modelo que já não deu certo nos anos 1990.

7 – Consumo e desenvolvimento

No modelo do PSDB – centrado no estado mínimo, privatizações e controle privado da economia – a taxa de investimentos chegou a atingir 15,1%. Mas nos governos do PT, com o Estado mais forte, ela subiu e hoje já registra 19,5%. É claro que o modelo de crescimento petista também é baseado na ampliação do mercado interno. Mas ao contrário do que dizem os críticos, pelo menos desde 2007, com a criação do PAC, o investimento passou a ter maior participação no crescimento do que o consumo. Portanto, é falacioso esse papo da oposição de que o crescimento brasileiro se sustenta apenas na ampliação do mercado interno, um modelo que já estaria esgotado.

8 – Política externa

Durante o governo do PSDB, o foco da política externa brasileira era o relacionamento diplomático e econômico com os países desenvolvidos, onde o Brasil era sempre a parte mais fraca e sem grandes poderes de barganha. Já os governos petistas fortaleceram as relações Sul-Sul, com o Mercosul, Brics e Unasul, que o deixaram menos suscetível às exigências dos grandes. A proposta do PSDB, no entanto, é retomar o foco anterior. Para a cúpula econômica tucana, o Mercosul dá prejuízo e o Brasil nem deveria manter relações com países que classificam como “bolivarianos”. Já o PT defende a ampliação do modelo, com a criação e fortalecimento do Banco dos Brics e cada vez mais independência dos desenvolvidos e mais solidariedade entre os iguais.

9 – Missão do BNDES

No governo do PSDB, a principal missão do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e social (BNDES) era sanear as empresas públicas destinadas à privatização e financiar os investidores que iriam adquiri-las, no chamado Programa Nacional de Desestatização. Portanto, era usado para ajudar a reduzir o estado e o patrimônio do povo brasileiro. Em 2002, seu lucro foi de R$ 550 milhões. No governo petista, a missão do BNDES é incentivar o crescimento, investindo nas empresas brasileiras de todas as áreas. No governo Dilma, 93 das 100 maiores empresas brasileiras receberam recursos do BNDES. Das 500 maiores, 480 foram contempladas. Em 2013, seu lucro foi de R$ 8,15 bilhões.

(Fonte: http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/10/9-diferencas-entre-os-modelos-economicos-psdb-e-pt/.) 

sábado, 18 de outubro de 2014

ARREPIO

O relevo da pele se modifica: estou arrepiado.
Os pelos eriçados são como a ponta da montanha de gelo.
Acredito em superfícies se houver história sob elas.
Tu és a história que minha pele conta. 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O BRASIL QUE ODEIA

A Folha de S.Paulo noticiou ontem que Aécio teria debochado de Dilma após o mal-estar que ela sentiu depois do debate promovido pelo SBT. Em conversa com Marina Silva, o tucano teria dito: “Deu o desespero. Viu que ela passou mal?”. Isso não surpreende. O mundo está cheio de pessoas que debocham, por exemplo, de tombos ou que torcem para que a doença de alguém se agrave. Lembro-me de que quando o Lula foi diagnosticado com câncer, houve quem publicasse em blogues desejar a morte dele.

Se comparado com o do médico Milton Pires, do Rio Grande do Sul, o comentário de Aécio soa como inocente trecho de contos de fadas: Pires, sabedor de que Dilma tivera um mal-estar depois do debate, postou no Facebook: “Tá se sentindo mal? A pressão baixou? Chama um médico cubano, sua grande filha da puta!”. Como era de se esperar, a postagem obteve muitas curtidas. Segundo o Pragmatismo Político, Pires é funcionário da prefeitura de Porto Alegre. O comentário postado pelo médico mostra o nível que tem havido no “debate”. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

O MARCADOR

Passei muitos anos cheio de mesuras, recusando-me a marcar meus livros. Para ter acesso mais rápido a trechos que eu curtia, eu os datilografava. (Se algum jovem ler este texto, que consulte na internet sobre datilografia.)

Veio o dia em que perdi os escrúpulos; desde então, tenho marcado os trechos de que gosto. Nessa história, as releituras são curiosas: não me arrependo dos trechos que marquei em leituras prévias, mas me surpreendo por não ter marcado tantos outros.

Isso ocorre com muita frequência quando releio Borges; quanto mais o releio, mais vou marcando as páginas. Que meus dias sejam numerosos; se forem, pressinto que acabarei marcando cada parágrafo e cada estrofe do portenho. 

MARINA É A DERROTADA

Independentemente de quem ganhe as eleições presidenciais, Marina Silva é a grande derrotada. Não somente por não ter avançado para o segundo turno. Luciana Genro também não avançou, mas deixa uma imagem positiva — pelo menos para aqueles que defendem pautas progressistas.

Não estou aqui decretando o fim da carreira política de Marina. Além do mais, boa parte dos eleitores não querem se informar ou se informam pelos mesmos poderosos meios, que, no futuro, podem abarcar novamente a candidatura dela.

Da subserviência a Malafaia à mendicância pelo apoio de Mark Ruffalo, Marina deixa estas eleições passando a imagem de alguém que é menor do que o cargo que estava disputando. O dano que suponho ter ficado na carreira política dela não seria menor, presumo, se ela estivesse apoiando Dilma.

Qualquer político, e isto é inevitável, está atrelado a uma série de interesses. Ao lidar com eles, a candidata do PSB acabaria numa teia de contradições que negava as causas outrora defendidas por ela. Ao querer servir a vários senhores, deixou a imagem ruim de quem não é senhora de si. Mas trata-se de política: a derrota pode ser momentânea. 

ZODÍACO

Tudo são signos.
Sou de outubro.
Ela se abril.
Entrei e fiquei 
até o fim do ano. 

ATLÉTICO/MG ELIMINA O CORINTHIANS

Quando o Corinthians fez o primeiro gol, logo no começo do segundo tempo, vaticinei: o Atlético está fora. Ainda pensei: “Atlético e Cruzeiro são fregueses do Corinthians” (sou cruzeirense), principalmente quando há mata-mata. Meu vaticínio não se fez. Não há nada escrito com antecedência, não há nada perdido antes que o apito final soe. Também por isso o futebol ensina, também por isso o futebol é fascinante. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

APONTAMENTO 221

Em Minas Gerais, desejar aos professores um feliz dia e dizer que vota no Aécio é contradição em termos. 

UM TRECHO DE BUKOWSKI

Em postagem anterior, discorri sobre trecho do Charles Bukowski. De tanto reler as palavras do escritor, decidi gravá-las. A tradução é de Marcos Santarrita; a trilha sonora está disponível em freplaymusic.com.


“Ora, tudo que posso dizer é que existem bilhões de mulheres no mundo, certo? Algumas bem vistosas. Muitas muito bonitas. Mas de vez em quando a natureza nos sai com um truque bestial, reúne todos os atributos numa mulher especial, uma mulher inacreditável. Quer dizer, a gente olha e não acredita. Tudo se move em perfeita ondulação, mercúrio, serpente, a gente vê umas cadeiras, um cotovelo, uns peitos, um joelho, e tudo se funde numa unidade gigantesca, um todo inesquecível, com aqueles olhos lindíssimos a sorrir, a boca meio descaída, os lábios imóveis como prontos para estourar numa gargalhada, pela sensação de impotência da gente. E elas sabem se vestir, e o cabelo longo incendeia o ar. Tudo demais, porra”. 

APONTAMENTO 220

Ah, a retórica... Ela pode ter o lado ruim: muita gente adora falar bem do dia dos professores. Até mesmo alguns alunos que em sala são desrespeitosos com quem ensina. 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

"ESTRAGUE" O TEXTO

O Bandeira escreveu que a poesia é a “nódoa no brim”. De modo correlato, o texto literário precisa ser “estragado”, é preciso “avacalhar” a feitura dele; a “nódoa” é um dos ingredientes quando se compõe um tecido literário. O grande escritor sabe “manchar” o texto dele.

O Charles Bukowski não é um autor lírico; pelo menos, não no sentido tradicional do termo. Isso não quer dizer que não haja poesia no trabalho dele. Um texto pode ser poético sem se valer do lirismo. Do Bukowski, o conto “A mulher mais linda da cidade” é um exemplo disso: não tem lirismo, mas tem poesia. Do autor, estou lendo “Pulp”, o último livro publicado por ele. Segundo a tradução de Marcos Santarrita, há em “Pulp” o seguinte trecho:

“Aí a porta se abriu de repente. E entrou a tal mulher.

“Ora, tudo que posso dizer é que existem bilhões de mulheres no mundo, certo? Algumas bem vistosas. Muitas muito bonitas. Mas de vez em quando a natureza nos sai com um truque bestial, reúne todos os atributos numa mulher especial, uma mulher inacreditável. Quer dizer, a gente olha e não acredita. Tudo se move em perfeita ondulação, mercúrio, serpente, a gente vê umas cadeiras, um cotovelo, uns peitos, um joelho, e tudo se funde numa unidade gigantesca, um todo inesquecível, com aqueles olhos lindíssimos a sorrir, a boca meio descaída, os lábios imóveis como prontos para estourar numa gargalhada, pela sensação de impotência da gente. E elas sabem se vestir, e o cabelo longo incendeia o ar. Tudo demais, porra”.

Até o trecho “o cabelo longo incendia o ar”, tem-se um lirismo... tradicional, ainda que se argumente que termos como “bestial”, “cotovelo” e “joelho” possam quebrar tal lirismo. Contudo, o segmento “tudo demais, porra” não somente é um daqueles trechos que revelam o estilo de um autor: esse “tudo demais, porra” é a nódoa no brim num devaneio que até então vinha sendo composto com imagens poéticas, líricas. “Estragar” um texto não é o único modo para se fazer literatura, mas Bukowski, ao “desrespeitar” o texto dele, a fez. 

LEITURAS

O astrônomo lê nas entrelinhas.
O poeta lê nas estrelinhas.
Ler é colher na entressafra. 

domingo, 12 de outubro de 2014

FLAMENGO DERROTA O CRUZEIRO

Conferi a partida entre Cruzeiro e Flamengo. Fácil perceber que Egídio e Dedé, no primeiro tempo, e Manoel e Fábio, no segundo, estão muito bem entrosados. O time do Rio agradece. 

(DES)APONTAMENTO 12

Se o Cáceres, jogador do Flamengo, decidisse lançar uma autobiografia, o livro poderia receber o título de Memórias do Cáceres.

sábado, 11 de outubro de 2014

PARA ZILMA

Tive hoje o prazer de reencontrar minha professora da segunda série do primário: Zilma Maria de Brito Cardarelli. (Acho que hoje a segunda série do primário se chama terceiro ano.) Fui aluno da Zilma em 1978. Depois disso, perdemos contato um com o outro. Hoje, ela mora em Uberlândia.

Fui aluno dela na Escola Estadual Frei Leopoldo. Salvo engano, agora se trata de uma escola municipal. Na época, o Frei Leopoldo ficava na rua Minas Gerais, esquina com avenida Brasil. Hoje, na edificação que fica bem na esquina, há um comércio; sobre este, morada residencial. Na edificação cuja entrada fica na Minas Gerais, há uma creche.

De vez em quando, eu lecionava para algum aluno de sobrenome Cardarelli. Sempre que isso ocorria, eu, invariavelmente, perguntava. “O que você é da Zilma Maria de Brito Cardarelli?”. Recebendo confirmação de parentesco, eu pedia que enviassem meu abraço para ela.

Lembro-me de que no fim daquele distante 1978, a Zilma me deu uma régua toda invocada, toda cheia de estilo. Eu a usei por vários anos. Acompanhando a régua, um cartão, que ainda tenho. No cartão, a caligrafia tão familiar, tal qual era na lousa — tombada para a direita e muito legível.

Um dos filhos da Zilma está hoje aqui em Patos de Minas. Além de ser formado em artes visuais, ele é músico; logo mais, à noite, vai se apresentar num dos bares da cidade. A família da Zilma e eu combinamos que estaremos por lá, celebrando a música.

No reencontro de hoje, nós nos divertimos quando comentei com a Zilma uma história que ocorrera quando fui aluno dela: tendo visto pela TV alguém usando um casaco sobre os ombros, sem, de fato, vesti-lo, tomei a decisão de ir para a escola paramentado como o cara que eu vira na televisão.

Estava fazendo um calorão danado; para piorar, eu estudava no turno da tarde. Minha mãe bem que tentou me demover da ideia ridícula; eu, teimoso como burro, joguei uma blusa quentíssima sobre os ombros e fui a pé para a escola.

Mal tendo me visto, a Zilma foi logo me perguntando o que eu estava fazendo com uma blusa quente pendurada nos ombros num calorão daquele. Não vacilando, tirou a blusa de meus ombros e fez com que eu a guardasse num vão da carteira entre a parte de cima dela e meu joelhos.

Não me dando por vencido, maquinei um plano: quando chegasse a hora do recreio, eu pegaria a blusa e sairia com ela sobre os ombros. Chegada a hora, peguei a vestimenta, comecei a caminhar de fininho e já fui a jogando sobre as costas.

Minha pressa em ajustar a blusa nos ombros me delatou. Quando eu já estava próximo à porta, a Zilma constatou minha tramoia. Incontinente, pediu que eu me aproximasse da mesa em que ela estava. Cheguei perto. Ela então pegou a blusa, dobrou-a e a guardou no vão da carteira. Fui para o recreio sem a blusa pendurada nos ombros.

A você, Zilma, muito obrigado por tudo. Lembro-me da experiência com o grão de feijão e do macete que você nos passou para que diferenciássemos os sinais “<” e “>”. Eu não poderia imaginar, na época, meu destino profissional. Fico feliz em saber que eu acabaria exercendo a mesma profissão que você exerceu. 

APONTAMENTO 219

Quando a gente chega, o enredo da vida já tem um bom trecho escrito. Começamos a fazer parte dele, também o escrevendo. Quando começamos a ter a ilusão de que nos tornamos melhores autores, já estamos velhos; logo, logo, seremos desenredados. Sem nós, a trama continuará sendo escrita... 

"PECADOS ÍNTIMOS"

“Pecados íntimos” é o título do filme a que assisti ontem à noite. É de 2006. O diretor é Todd Field, que também assina o roteiro, ao lado de Tom Perrotta, que é o autor do livro em que o filme é baseado. O livro de Perrotta se chama “Little kids” (Criancinhas). “Little kids” é também o título original do filme. No elenco, Kate Winslet (Sarah Pierce), Jennifer Connelly (Kathy Adamson), Patrick Wilson (Brad Adamson) e Jackie Earle Haley (Ronnie J. McGorvey).

Sarah e Brad estão insatisfeitos com seus casamentos. Ele, pelo fato de a esposa (Kathy) trabalhar demais, decorrendo daí um monótono casamento; ela, por não receber a menor atenção do marido. Não bastasse, Brad é cobrado pela esposa, pois ele não consegue ser aprovado (nem quer ser) no exame de que depende para que esteja apto a exercer a advocacia. Brad e Sarah acabam se conhecendo.

Quando a gente gosta de um filme, nós ficamos torcendo para que nada o “estrague” — pelo menos na visão que a gente tem do que é “estragar” uma produção. Há a cena de um esqueite, envolvendo o personagem Brad, que me pareceu inverossímil.

Contudo, trata-se de apenas uma opinião. Sendo honesto, a sequência do esqueite não “estraga” o filme como um todo. “Little kids” merece ser visto. A obra revela a tensão real que pode haver num cotidiano, que, na aparência, é pacato, perfeito, invejável.

Casamentos frustrados, personagens atribulados pelo que fizeram no passado... O forte de “Little kids” é o ingrediente emocional, adulto. O roteiro não foge das situações-limite a que vai nos levando. Não sei se o livro em que o filme se baseia também conduz a tais situações. “Little kids”, à medida que vamos o assistindo, vai nos mostrando que criancinhas somos nós. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O CAIPIRA E O COSMOPOLITA

Há situações em que uma pessoa se revela. O mesmo vale para um povo: há situações em que ele se revela. Ou, pelo menos, parte dele. Foi assim em 2010; está sendo assim em 2014. Os nordestinos têm sido escarnecidos via internet. Já houve quem sugerisse que se jogasse uma bomba atômica por lá; já houve quem sugerisse que eles, os nordestinos, morressem devido ao Ebola.

Quem publica em rede social um pensamento assim enche-se de entusiasmo quando alguém como FHC diz que os eleitores do PT são, nas palavras dele, “menos informados”: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres”. Conclui FHC que o PT se destaca nos, segundo termo usado por ele, “grotões”.

Vinda de Fernando Henrique Cardoso, esse tipo de declaração não surpreende; em 1996, ele dissera que somos caipiras: “Como vivi fora do Brasil, na Europa, no Chile, na Argentina, me dei conta disso: os brasileiros são caipiras”.

Declarações como a dele só confirmam aquela velha ideia de que estudo e inteligência não andam necessariamente juntos: FHC tem estudo. Só que uma parte da população, que se julga bem-informada por acompanhar a Veja, o Estadão, a Folha de S.Paulo, a Globo e o UOL, por exemplo, sente-se mais bonita, mais inteligente e mais civilizada do que os pobres — em especial, depois de um FHC desovar seu rosário neoliberal.

Para esses que se julgam melhores, o resto da população podem ser os nordestinos ou, por extensão, os pobres (não importa onde vivam), que, nessa ótica, seriam sujos, sem informação, despreparados e descartáveis. Livrar-se deles, os pobres, faria bem para o País, que passaria a conviver com uma elite que adora Paris e que adora inserir termos em inglês em suas conversas.

Não basta o conhecimento histórico (suponho que FHC o tenha), não bastam as viagens (penso que FHC conheça o mundo inteiro), não bastam as leituras (presumo que FHC seja um intelectual). Fernando Henrique Cardoso deu provas de que alguém com leituras, viagens e poder pode não entender o que é o cosmopolitismo. Levando-se em conta as declarações dele, suponho ser inimaginável para ele conceber que há caipiras cosmopolitas nos grotões. 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

VESTIMENTA

Veste-se a caráter.
Prefere, contudo, deixar
no guarda-roupa o caráter. 

"ULYSSES": UMA CAPA


Passei mais da metade da vida prometendo a mim mesmo que um dia leria “Ulysses”, do Joyce. Não sei se ainda cumprirei a promessa. Pesquisei muito sobre a obra, reuni esquemas de leituras, dediquei-me a críticas sobre o livro... Só que o dito-cujo, nunca li. Num paralelo, seria como ler muito sobre uma cidade, saber muito sobre ela, mas nunca tê-la visitado.

À parte isso, a capa da edição da Penguin-Companhia para “Ulysses” é genial (como não tenho a edição deles, não há como eu conferir de quem é o trabalho): numa olhadela, as linhas brancas sugerem um labirinto. Pode-se pensar também em formas urbanas ou geométricas.

Após a olhadela, o olhar decifra o nome “Ulysses”, formado pelas linhas brancas. Se tais linhas ou formas, por si, já seriam uma rica representação visual do labirinto que, segundo o que já li, são os personagens do livro (e todos nós), as mesmas linhas brancas podem compor traçados de um caminho pelas ruas de Dublin.

A capa, assim me parece, conseguiu uma sugestiva e poderosa representação visual do que é sugerido, de acordo com o que já li, nas páginas do livro. Não bastasse isso, a aparente aleatoriedade das linhas brancas revela, após breve exame, um rigor que está presente no livro de Joyce (numa das edições que tenho, há o famoso guia de leitura com as partes que compõem a obra).

Não estou à procura de mais um motivo para encarar as páginas do “Ulysses”. Estivesse, a capa não deixaria de ser sedução. Preciso ler o livro. Se os personagens de Joyce são labirintos, se as ruas que Bloom percorre são labirínticas, nada impede que as que percorremos não sejam. 

CORUJANDO

terça-feira, 7 de outubro de 2014

IDEAL

O amor ideal é o real.
Num amor ideal, 
os corpos se tocam.
Tocando-se, idealizam. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

BRINCADEIRA DE CRIANÇAS MÁS

Se você vai, eu também vou.
Se você não vai, eu também não vou.
Você não foi — eu também não.
Se nós vamos, a cidade não vai.
Se nós não vamos, a cidade fica. 

sábado, 4 de outubro de 2014

CRUZEIRO DERROTA O INTERNACIONAL

Há partidas de que muito se espera. Essa expectativa pode ser frustrada. Há outra expectativa, nos grandes jogos, que é a de que o time da casa agrida o visitante nos primeiros quinze minutos. Hoje, no Mineirão, a expectativa de um bom jogo se concretizou. A expectativa de que o Cruzeiro fosse mais combativo no primeiro terço do primeiro tempo também se fez.

O primeiro gol do jogo foi aos dezenove minutos; Marcelo Moreno foi o autor. Aos trinta e três, após espetacular cruzamento de Éverton Ribeiro, Marquinhos, substituindo Ricardo Goulart, escorou: dois a zero para o Cruzeiro. O Internacional, embora tenha tido uma chance aos vinte e um, não dava sinais de que ameaçaria a equipe mineira. A Raposa foi soberana no primeiro tempo.

Quando o jogo é moroso, ele parece durar um mês; a partida no Mineirão pareceu durar um minuto. Chegado o segundo tempo, aos quatro minutos, em cobrança de falta, o Internacional quase marcou: a bola ficou passeando rente à linha do gol. Um minuto depois, Juan faz pênalti em Marcelo Moreno. Aos sete minutos, William cobrou; a bola caiu aqui na varanda da minha casa, em Patos de Minas.

Com a segunda etapa começando avassaladora, era natural haver o otimismo de que o segundo tempo também seria bom. Aos dez minutos, acrescentando um belo ingrediente à partida, Alex marcou um golaço, chutando de fora da área. Não haveria como Fábio defender, ainda que ele medisse uns quinze metros.

Levando-se em conta que o Internacional voltou jogando melhor do que o que jogara no primeiro tempo, a partida estava melhor do que já havia sido na primeira metade. Mesmo tempo levado o gol, o Cruzeiro, pelo menos aparentemente, manteve-se calmo. Chegou até a deixar a impressão de que poderia ter marcado mais uma vez. Tendo vencido por dois a um, a distância entre Cruzeiro e Internacional passa a ser de nove pontos. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

MÚSICA VISÍVEL

Não sabemos desvendar os critérios de que a memória se vale quando escolhe não deletar determinadas lembranças (pode ser que nenhuma lembrança seja, de fato, deletada). Há uma que não me abandona: eu trabalhava em rádio, e estava executando a canção “No conversation”, do View from the Hill. Eram ainda os tempos do vinil; lembro-me de, especificamente nessa canção, naquele momento, ficar olhando o disco girar. Era, por assim dizer, um modo... físico ou material de “viajar” na música; o vinil era, por assim dizer, uma música para a qual podíamos olhar. Fiquei reparando na agulha, no bolachão, nas voltas que o som ia dando, nos sulcos do disco... A lembrança se cristalizou; veio à tona há pouco. Neste momento, escuto “No conversation”.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O "FILÓSOFO" E O PALHAÇO

Em tempos de Levy Fidelix, Tiririca escreve: “Dizem que sou burro mais [sic] pelo menos não falo bobagem que nem certos candidatos… sou a favor do amor e cada um deve viver feliz!!! Triste em saber q sou do mesmo país d quem tem ódio quando fala dos gay.. já dizia mamonas assassinas abra sua mente gay também é gente!!!!”. Comparando-se o que disse na Record o Fidelix com o que divulgou no Twitter o Tiririca, teríamos então a situação em que Tiririca foi, sem ironia, o pensador; Fidelix, no sentido pejorativo do termo, o palhaço.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

SHOW COM A BANDA BENDZ EM PATOS DE MINAS

A banda Bendz, que é de Araxá/MG, esteve novamente aqui em Patos de Minas no sábado (27/09). Não há como ficar indiferente a eles. Ainda que por ventura não se goste do trabalho deles, não há como não perceber a atmosfera que criam em seus shows — é a segunda apresentação da banda que confiro aqui em Patos. Eles se se divertem enquanto tocam. Gostam de rock, e o executam com energia. Bendz é entrega; a entrega deles contagia. A curtição começa neles e desemboca na plateia. A banda Bendz nos deixa, sobretudo, com a certeza de que viver sem rock é muito chato.










AMBIDESTRO

Na esquerda, 
a ternura; 
na direita, 
a força.

Na esquerda, 
a pegada; 
na direita, 
a delicadeza.

Inteiro, 
completo-te. 

domingo, 28 de setembro de 2014

CEM ANOS DE VICENTE NEPOMUCENO

Vicente Nepomuceno completou cem anos. A esposa dele, Maria de Lourdes Nepomuceno, tem oitenta e oito. Estão juntos há setenta anos. Alguns instantes das celebrações de ontem e de hoje estão nesta postagem.

























sábado, 27 de setembro de 2014

CERRADO AFORA

A banda O Berço, na faixa “Leoa”, canta: “Sei que é longo o caminho pro cerrado afora”. Sim, é. Também por isso, merece ser percorrido. 

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

PREFIXO

Político.
Apolítico.

Típico.
Atípico.

Teu.
Ateu.

Não.
Anão.

Sentir.
Assentir.

Lívio.
Alívio. 

ESTILO

Sim, companheiros,
é a luta de classes.
Lutemos com classe. 

CORPORAL

Uma ideia 
precisa de 
um corpo. 
Meu corpo 
abriga uma ideia. 

Um corpo 
precisa de 
uma ideia. 
Minha ideia 
habita um corpo.

A caneta deixa fluir uma ideia.
O papel a torna corpo. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

APONTAMENTO 218

Transmissão do SporTV comentou que jogadores do futebol brasileiro usam GPS, para que dados sobre os atletas sejam coletados e analisados depois. Não há tecnologia que dê conta do engessamento a que os “doutores” submeteram o futebol nacional. 

ESTIAGEM

Não é Deus que faz chover: 
talvez sejam os homens
que façam não chover. 

APONTAMENTO 217

Não há um só segundo de minha vida em que minha timidez desapareça. Ainda assim, há momentos em que ela parece não existir. Nessas ocasiões, estou escrevendo. 

FOTOPOEMA 357

Danilo Mota tirou a foto desta postagem. Quando vi o registro, postado pelo amigo Ciro no Facebook, achei a imagem sugestiva demais. De imediato, senti vontade de escrever algo, deixando-me levar pela cena. A garota, Líris, é filha do Ciro. 

INCISIVO

A mula.
A bula.
A sula.
A fula.
A gula.

Anula
tudo:
rasga
a bula,
deixa 
a sula,
larga
a fula,
mata
a gula.

E pica
a mula. 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

PONTUAÇÃO

Tenho perguntas. 
Só perguntas. 
Para não cair 
em mesmice, 
insiro 
ponto de interrogação 
em algumas. 

APONTAMENTO 216

É melhor uma inquietude estática do que uma pasmaceira ambulante.

"DEMISSÃO"

O que eu acho mesmo 
é que o amor deveria ir 
para o olho da rua.

Não te alcança 
este meu amor que 
se cala entre paredes. 

DE OLHO

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O LACAIO DA GLOBO

Caio Ribeiro é um bibelozinho da Globo. Esse rapaz já foi longe; com seu bom-mocismo asséptico, monótono e servil, tem tudo o que é necessário para ir mais longe ainda. Sobre o berro do Sheik de que a CBF é “uma vergonha”, o comentarista global disse que é preciso “ter respeito à hierarquia, por mais que você não concorde”. Caio sabe não somente o que é o respeito: ele sabe também o que é a vassalagem. O Cazuza cantou: “Na moda da nova idade média / Na mídia da novidade média”. 

UM LUGAR

“Como todo possuidor de uma biblioteca, Aureliano se sabia culpado de não conhecê-la até o fim”. Esse Aureliano não pertence à estirpe dos Buendía, mas à imaginação do Borges. Ademais, não importa se é Macondo, não importa se é um ponto numa casa em Buenos Aires ou se é uma calçada em Joinville. São lugares. E o que há num lugar? “O que há num nome?”. 

CONTO 70

Pedro Martins havia chamado Lauro Silva para um duelo. Mal acabara de dizer as palavras desafiadoras, arrependera-se. Enquanto a vida de Lauro ia embora no sangue que lhe saía farto da garganta, Pedro pediu desculpas para o oponente, não pelo balaço desferido, mas pelo medo que tinha em si quando pressionara o gatilho. 

"COMPRE! COMPRE! COMPRE!"

Sempre digo que o H.G. Wells foi o inventor da publicidade e da propaganda. Digo isso por causa do livro “Tono-Bungay”, que é de 1909. Nele, Wells narra maracutaias de um comerciante na divulgação de elixir que não passa de panaceia. Há diálogos do livro que poderiam estar na boca de qualquer publicitário dos dias de hoje.

Questões políticas são discutidas, bem como os hábitos da sociedade inglesa da época. Mesmo assim, principalmente no primeiro terço do livro, é muito bom acompanhar Edward Ponderevo, o fabricante do Tono-Bungay, expressando a falta de escrúpulos quando se trata de divulgar seu “remédio”.

É óbvio que a publicidade e a propaganda estavam, quando o livro foi publicado, longe dos recursos técnicos de que dispõem hoje; incipientes, não tinham ainda a nomenclatura atual. “Tono Bungay” é rico por mostrar que há cem anos a mentira e o dolo já estavam presentes na imagem que se divulgava de um produto. Não é de hoje que vendem para nós a ideia de que comprar é a redenção para as tragédias que continuam inventando para nós. A cura está sempre numa mercadoria ou num serviço.

A edição que tenho foi publicada pela Francisco Alves; é de 1990. A tradução é de Maria Elizabeth Padilha; Gian Calvi foi o responsável pela capa, que, em bela ideia, foi concebida como se ela, a capa, já fosse um anúncio do Tono-Bungay. 

domingo, 21 de setembro de 2014

SOBRE UMA FOTO

Nem sempre é possível precisar os motivos pelos quais se gosta de um trabalho. Quando alguém gosta do próprio trabalho, é mais difícil ainda desvendar os mecanismos dessa preferência, pois é possível haver uma série de razões pessoais, que podem ser conscientes ou inconscientes. É melindroso analisar o próprio trabalho, ainda que haja tentativa de critérios objetivos.

Em virtude disso, não gosto de emitir preferência acerca do que fotografo; além do mais, isso poderia soar como cabotinice. Gosto, sim, de escrever ou de teorizar sobre a fotografia como um todo. Ainda assim, permito-me um instante de condescendência em relação a mim mesmo para afirmar que gosto desta foto. Está dentre as imagens que mais gostei de ter feito.

O registro foi feito no dia vinte e sete de dezembro de 2006. Lembro-me de onde eu estava e da árvore em que o pássaro estava. Houve um único disparo. Quando tirei a foto, o fotografado pareceu se assustar com o barulho do obturador, indo embora logo após. Já no visor da câmera, uma Canon EOS 20D que tive, gostei da imagem.

P.S.: o nome do pássaro é saíra-de-chapéu-preto. O nome científico: nemosia pileaTA. 

ATLÉTICO/MG VENCE O CRUZEIRO

O Cruzeiro teve mais posse de bola, criou mais, acertou a trave... Como o que conta é a bola na rede, nesse critério, o Atlético foi melhor. Após o novo Mineirão, e após o Atlético passar a jogar no Independência, é a primeira vez que o visitante vence o anfitrião. 

No time do Cruzeiro, alguém precisa dizer para o Éverton Ribeiro que futebol é esporte coletivo. Até as traves sabem que ele sabe jogar bola, mas o jogador tem sido muito individualista. Não raro, tem perdido a bola e deixado a equipe encrencada. 

A tarde cruzeirense só não foi pior em virtude de o Corinthians ter vencido o São Paulo por três a dois, o mesmo placar pelo qual o Cruzeiro foi derrotado. A diferença entre o líder e o segundo colocado continua sendo de sete pontos. Com o resultado de hoje no Mineirão, o Atlético está na quinta posição. 

sábado, 20 de setembro de 2014

LOA

Escrevo-te não só para louvar tua beleza. 
De algum modo, quero ficar em tua vida. 
Escrevendo, penso ficar. 
Se não fico, terei escrito. 
Se escrevi, louvei tua beleza. 

RECÍPROCO

Cheguei a pensar que eu era egoísta 
por te amar em virtude de saberes o que sou. 
Mas me disseste que me amas 
por eu saber o que és. 
Queres saber?: 
sei o que és, 
sabes o que sou. 
Amemo-nos. 

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

CIVIL

Foi-se o
súdito.
Como que
súbito,
surgiu o
cidadão. 

UMA BARATA!

Todo mundo sabe que baratas têm o dom do voo. Não sei se o passeio delas pelos ares é gracioso. Sei que sabem voar. Do que não sei também, é do motivo que as fazem voar tão pouco. Eu, por exemplo, se tivesse asas, pouco ia querer saber de chão. Quanto às baratas, talvez a autonomia de voo com que a natureza as fez permita com que elas fiquem apenas alguns segundos no ar.

Já observei que quando está fazendo calor elas aparecem em maior número e saem voando por aí. Pouco depois da meia-noite desta quinta-feira, enquanto eu assistia a um filme, uma barata entrou voando pela janela. A princípio, nem me dei conta de que fosse um dos integrantes da família dos blatídeos. Só depois de ela pousar no sofá em que eu estava deitado é que percebi ser mesmo uma barata.

Levantei-me correndo (eu estava deitado no sofá) e já fui pegando o chinelo para matá-la. Só que ela continuou passeando por onde eu estava deitado. Desse eu uma chinelada no inseto enquanto ele ainda estava no móvel, eu teria de limpar a meleca depois. O jeito foi me aproximar, na esperança de afugentar a barata para um lugar em que eu pudesse esmagá-la com o chinelo.

A danadinha, sacando minha intenção, só deu uma piscadinha e se esgueirou literalmente para dentro do sofá, usando uma fresta disponível entre o encosto e o local em que a gente se senta. Confesso que ela me deixou desconsertado, pois tão logo se escondeu, eu soube que eu não voltaria a me deitar no sofá enquanto de dentro dele ela não saísse.

Já irritado com o joguinho proposto por ela e com o “calor ensurdecedor”, conforme disse no Linha de Passe, na segunda-feira, o Mauro Cezar Pereira, citando alguém de que não me lembro, fiquei alguns segundos parado, na esperança de a barata sair do esconderijo. Isso ocorreu; contudo, mal dei alguns passos, ela voltou para dentro do sofá.

Houve um tempo em que existia inseticida aqui em casa; de olho na entrada da toca em que a barata estava, afastei-me um pouco e olhei para a direção em que antigamente ficava o frasco de inseticida. Nem sinal dele. Já um tanto conformado, comecei a recolher os itens de que eu precisaria pela manhã, quando saísse para o trabalho; resignado, já havia decidido que terminaria de assistir ao filme, que estava sendo executado por intermédio de um “notebook” conectado à TV, numa outra ocasião.

Foi quando nossa amiga deu as caras outra vez. Fiquei então imóvel, sem respirar, na esperança de que ela saísse do sofá — o que ocorreu. Tendo ela começado a percorrer a parede, agi rápido e dei uma chinelada... Não acertei em cheio; a barata caiu no chão, só que atrás do sofá, que fica encostado na parede. Fiquei com a impressão de ter atingido parcialmente o inseto voador, embora sem a certeza de que havia sido mesmo assim.

Aguardei alguns minutos; a barata não aparecia. Decidi então recolher uma camisa, que estava sobre um sofá menor, e o “notebook”. Foi quando a barata, toda buliçosa, começou a desfilar outra vez pela parede. Tinha um aspecto ótimo. Parecia não ter sido parcialmente atingida minutos atrás. Mas se não havia sido, por que caiu? Seria manha dela?

À parte cogitações inúteis, fiquei quieto, a fim de assuntar para onde ela iria. Foi até o teto, aproximou-se do canto da parede e começou a descer. Agi rápido. Antes que ela pudesse pensar em algo, apliquei impiedosa chinelada: foi tão eficaz que foi como se a barata nunca tivesse existido.