sexta-feira, 4 de julho de 2014

JUAN ZUÑIGA

Acompanhei pela ESPN uma breve entrevista com o jogador colombiano Juan Zuñiga. Ele foi quem fez sobre Neymar a falta que tirou o brasileiro da sequência da Copa. Como esperado, Zuñiga disse que não era sua intenção nem machucar nem tirar Neymar da Copa.

De fato, é sensato supor que não era intenção do colombiano tirar o brasileiro da Copa. Contudo, a entrevista de Zuñiga para a ESPN me incomodou. O jogador me pareceu frio demais, mesmo sabendo que o atacante brasileiro está fora da Copa.

Zuñiga afirmou que estava defendendo o time dele. Compreendo que o clima em campo é quente, que uma atitude destemperada pode ser tomada. Não acredito que o jogador tenha agido por maldade contra Neymar. Ainda assim, a entrevista foi depois de ele ter passado algum tempo no vestiário, com os ânimos quentes supostamente aplacados.

Posso estar sendo injusto com Zuñiga. Pode ser que ele esteja condoído por ter tirado um jogador do mundial. Mas, confesso, não foi com essa sensação que fiquei. Pareceu-me que o jogador colombiano não estava falando de um colega de profissão. A rigor, eu o achei com um ar “blasé”, senti nele falta de espírito esportivo. Que eu esteja enganado. 

NAS GERAIS

Os ares.
Os bares.
As gares.
Os lares.
Os pares.

Os mares,
Minas não os tem.
O que não está 
na geografia, 
no poema está. 

GENTE

Gente que gosta de matemática, de política, de tocar violão.
Gente que é pontual, que lê muito.
Gente que gosta de preto, de amarelo, de branco.
Gente que gosta da Europa, da África, de São Tomé das Letras.
Gente que se quer melhor para melhorar outras gentes.
Gente que aprende, que se aceita, que percebe o encanto no outro.
Gente que se dá bem com pobre, com rico.
Gente que mergulha no passado, que assunta no presente.
Gente que é elegante de chinelo ou de terno. 

TENTATIVA DE FUGA

As pessoas se encontram, as pessoas começam a conversar.
Vem aí mais uma história de amor querendo ser contada.
Amor de verdade, os amantes não conseguem represar.
Podem  se calar, podem se esconder, podem fugir para Barranquilla.
Debalde: amor de verdade dribla a pele, escapa pelos olhos.
As digitais que deixas agora no teclado denunciam amor que flui.
Um amante resiste a outro, silencia o que cada passo conta.
Numa dessas esquinas, um amor decide não chegar ao outro. 
O amor não se perturba: todo amante exala o amor que tem. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

BUSCA

Um outro verso, um espelho menos impiedoso, 
uma disciplina melhor, uma leveza sem vincos na fronte.
Amigo de mim mesmo, buscar um passo mais leve.
Tirar de meus ombros o peso que eu mesmo me obrigo a carregar. 

BRASIL x ARGENTINA?

Há quem esteja desejando uma final para a Copa entre Brasil e Argentina. Por um lado, seria grandioso, épico, mas... hum... não sei... É que o Oscar Wilde já me ensinara: “Quando os deuses querem nos punir, respondem às nossas preces”... 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

PARA NÓS

Quando há comunhão, 
as coisas fazem sentido.
Pode haver sentido 
à noite ou 
às dez da manhã.

Quando há comunhão, 
as coisas fazem sentido.
Pode haver sentido 
na multidão ou 
no silêncio único do quarto.

Quando há comunhão, 
as coisas fazem sentido.
Existe comunhão aqui, agora. 
Quero que ela seja tua também.
As coisas fazem sentido 
quando a comunhão é partilhada. 

ALEMANHA X ARGÉLIA

Que bom que a vida me deu a chance de estar vivo para assistir a uma partida como a realizada há pouco, em Porto Alegre, entre Alemanha e Argélia. 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

CONCRETO

A poesia não precisa do amor.
O amor não precisa da poesia.
Mas se o amor desemboca em poesia,
ou se a poesia ornamenta o amor,
então a palavra habita o corpo. 

SEM GRAVATA

Leio no Pragmatismo Político que parte da elite uruguaia não aprova o governo de Mujica. Isso não surpreende, bem como não surpreende o tipo de “raciocínio” de que se valem para criticar o estadista. Num dos camarotes de estádio da Copa do Mundo, o seguinte “argumento” contra Mujica foi proferido: “Ele não usa gravata, não tem presença para representar o país”... 

terça-feira, 24 de junho de 2014

QUARENTA E TRÊS

Mondragon: realismo mágico. 

CAIMENTO

Meteoro,
granizo, 
chuva,
raio, 
neve, 
gente: 
as coisas 
caem do céu. 

segunda-feira, 23 de junho de 2014

CADENTE

A estrela risca a escuridão.
Fecho os olhos,
faço o pedido — 
ciente de que as coisas 
não caem do céu. 

EM CORES

Já não sabe de si. 
Coração dispara, 
adolescente aos 
quarenta e três.
A boca, fascinada, tem, 
na baba, as cores do arco-íris. 

SOU O QUE LEIO

Meu jeito de ser é profundamente influenciado pelas leituras começadas na adolescência. Se por um lado me dediquei a livros para os quais eu ainda não estava pronto, por outro, essas mesmas leituras deixaram marcas indeléveis. É claro que não sei como eu seria se não tivesse havido tais leituras, mas não consigo me imaginar sem elas. Não sei o que há de sorte nem o que há de mérito nas escolhas de leitura que comecei a fazer por volta dos doze, treze anos. Do que sei, é que agradeço à vida por essas leituras terem existido.

Não estou certo de onde vem meu interesse por biografias. Pode ser que ele seja consequência das leituras que comecei a fazer sobre o Renascimento. Quando dessas leituras, eu não tinha a dimensão histórica; o que me fascinava era somente o ecletismo, a diversidade de tarefas a que os gênios do período se dedicavam. Esse fascínio acabou me levando a não engavetar o conhecimento, levou-me a valorizar tanto a arte quanto a ciência, a buscar uma mescla das duas. Ainda bem jovem, adquiri o que chamo de senso de ecletismo.

Enquanto eu devorava biografias (tendo adquirido gosto pelo gênero, passei a ler não somente sobre os renascentistas), certo dia eu me deparei, no trabalho, com uma velha revista de divulgação científica. Uma das matérias que compunham a publicação se chamava “Gênios idiotas”: era sobre pessoas que têm uma enorme habilidade mental para determinada tarefa (fazer cálculos complexos de cabeça, por exemplo), mas que se embaralham diante de tarefas simples. Outra matéria discorria sobre a memória.

Eu nunca soube o nome da revista, que não tinha capa nem contracapa; as páginas internas não continham identificação. Até há bem pouco tempo essa revista estava em meio a velhos papéis; não sei onde pode estar agora. De qualquer modo, a gana por esse tipo de leitura se esbaldou quando a revista Superinteressante foi lançada. Por anos fui leitor do periódico, que eu aguardava com ânsia e devorava com fervor. Paralelamente, eu prosseguia com a leitura de biografias. Passei a ler a coleção O pensamento vivo, publicada pela Martin Claret. Meu primeiro contato com Borges foi por intermédio dessa coleção.

Meu pai tocava violão, gostava de escutar rock. Cresci ao som de Beatles, Led Zeppelin, Pink Floyd... Na adolescência, tendo já sedimentado o gosto pela leitura, foi natural, em função da convivência com a música, que eu acabasse tendo contato com a revista Bizz, que também li com entusiasmo por anos e anos. A leitura da Bizz e da Superinteressante acabaram fazendo com que eu me tornasse também um leitor de revistas. Atualmente, leio a Piauí. Da leitura de periódicos, de biografias, de filosofia e de literatura veio o que chamei de senso de ecletismo.

Ao mesmo tempo, um outro senso ia se formando, solidificando-se: chamo-o de senso de rebeldia. Eu o devo também às leituras: não venho de estirpe rebelde, contestadora. Não me lembro, por exemplo, de meu pai criticar a ditadura militar, embora também não me lembre de ele a elogiar. Mesmo procurando estar informado, principalmente escutando rádio, meu pai não me parecia interessado em política. Se era, esse interesse não transparecia em casa. Pelo menos por aqui, o que o absorvia era mesmo a música.

Todavia, o senso de rebeldia a que me referi não é estritamente, digamos, político. Num sentido amplo, é bem verdade que toda ação pode ser interpretada como sendo política; ainda assim, desde cedo foi se esboçando em mim uma desconfiança dos meios de comunicação (desconfiança essa que é maior do que nunca), das versões ditas oficiais e do comportamento das turbas, que não raro são produto do que a mídia determina. O que considero rebeldia está mais interessado na "sujeirinha", na imperfeição, mais ligado na “nódoa no brim”, expressão com que Bandeira definiu a poesia. Na adolescência, ler sobre e escutar o legado de gente como Renato Russo ou Ian Curtis intensificaram essa rebeldia.

Há por fim o que chamo de senso do belo. Eu o devo graças à convivência com a ciência, com a filosofia, com a ficção e com a poesia. Ensinaram-me o cosmopolitismo, deram-me a capacidade de me espantar com sutilezas, de não hierarquizar as áreas do conhecimento, de entender que em essência somos os mesmos. Desde quando eu era bem jovem, a literatura e a filosofia me incutiram uma ideia de coletividade, de pertencimento. A rigor, esse pertencimento poderia ser outro senso, mas o deixo como consequência do senso do belo. Existe beleza em constatar que “as pessoas são as mesmas aonde quer que você vá”, como na letra de “Ebony and ivory”.

Não exagero se digo que sou resultado do que tenho lido. O que sou, o que penso e o que faço são consequências de minha convivência com as palavras, que me deixam mais lúcido, que fazem com que eu fique de bem comigo mesmo, aceitando-me sem comodismo. Não deletei utopias. À medida que a gente vai envelhecendo, vai ficando cada vez mais com os pés no chão, o que é benéfico. Mas, graças à convivência com livros, não joguei fora a rebeldia que é sonhar. 

domingo, 22 de junho de 2014

QUASE

Afia a faca — vida por um fio.
Em momento cortante, 
o gume se rende. 

CLAROESCURO

Qualquer luz 
é uma espécie de luz do dia. 

Mas pode haver clarividência 
no que imita a noite. 

sábado, 21 de junho de 2014

ANAGRAMAS

O aroma da amora,
o pardo prado.
O quarto, o quatro.
Lidar com o ardil,
o caos, o caso:
coisa ciosa.

O poder podre.
Escalo a escola.
Lavo o alvo,
a lava alva.

Algo, lago, Olga;
usada, suada.
Salta no atlas.
É dia, é ida.

Lato alto.
Pena, pane.
Nado na onda.
Misto de istmo.

Revelar, relevar.
Eu queria — queira.
Alegria, alergia.
Temi o time,
a alma na lama.
Na sala, alas.
Anda, nada.
O ator na rota.

A lata é alta.
Nela, anel.
Aram, Mara.
No ramo, amor.
Usar, suar,
soar raso.
No solo, em Oslo.
Luar, Raul.
Assim, missa.

O atol lota.
Gato em toga,
gato em gota.
Ave, Eva!
O gelo, o gole.
Tanto e tonta.

Ando na onda.
O faro, o fora.
Garça e graça.
O parto é porta,
a pedra é perda.
Orar é raro.
Rubro rubor.
O fruto do furto
em torno do trono. 

15

The record is getting Klose.
The record is getting, Klose. 

TIRANDO O CHAPÉU

Tendo saído para fotografar, eu me deparei com este chapéu no mastro de uma cerca. Não haveria como não fazer os registros.


É VERMELHO, CONSTANTINO

É preciso ser um grande artista ou ser muito inteligente para fazer com que paixões, ódios ou ranços não destruam um texto. O Rodrigo Constantino, da Veja, até agora, não deu provas de ser um grande artista. E deu provas de que não é muito inteligente.

Escreveu ele que o logotipo da Copa do Mundo, com o “2014” em vermelho, seria propaganda subliminar para o PT. O colunista tornou-se motivo de chacota. Segundo o Pragmatismo Político, Vincent Bevins, do Los Angeles Times, fez piada com o colunista da Veja.

Ainda segundo o Pragmatismo Político, o logotipo é uma criação da agência África. Integravam a equipe que escolheu a arte com o “2014” em vermelho: o presidente do Comitê Organizador Local da Copa (COL), Ricardo Teixeira, o secretário da Fifa, Jerome Valcke, Oscar Niemeyer, Paulo Coelho, Ivete Sangalo, Gisele Bündchen e Hans Donner.

Num tributo à neura do Constantino, posto, abaixo, a letra de “Vermelho”, composição de Chico da Silva. A canção foi um grande sucesso na voz da Márcia Freire. A Fafá de Belém também a gravou. Há ainda, pelo menos, uma outra gravação que já escutei, embora não me lembre com quem (lembro-me de que era voz masculina).
_____

Vermelho (Chico da Silva)

A cor do meu batuque
Tem o toque, tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço, vesmelhusco
Vermelhante, vermelhão
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha cor (vermelho)

A cor do meu batuque
Tem o toque, tem o som da minha voz
Vermelho, vermelhaço, vesmelhusco
Vermelhante, vermelhão
O velho comunista se aliançou
Ao rubro do rubor do meu amor
O brilho do meu canto tem o tom
E a expressão da minha cor (meu coração)

Meu coração é vermelho
De vermelho vive o coração
Tudo é garantido após a rosa avermelhar
Tudo é garantido após o sol vermelhecer

Vermelhou no curral
A ideologia do folclore avermelhou
Vermelhou a paixão
O fogo de artifício da vitória avermelhou 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

MUNDO DE COISAS

Respiro fundo, 
respiro o mundo.
Mergulho fundo, 
mergulho no mundo.

Um mundo de coisas 
banhando-se de mundo.
Mundo, imundo, sou
mundaréu no mundão. 

domingo, 15 de junho de 2014

ESPN BRASIL

É um refrigério poder assistir a um canal como a ESPN Brasil. Não bastassem as análises que dizem respeito aos esportes em si mesmos, os profissionais da emissora dão uma aula de civilidade, de espírito democrático, de ousadia e de musicalidade. Sim, de musicalidade. 

Além dessa musicalidade, fácil perceber, de tempos em tempos, a cultura geral que os integrantes da emissora têm. Tudo bem que cultura geral é meio que condição indispensável para quem trabalha num grande meio de comunicação, mas o modo como a ESPN deixa-nos entrever isso é sutil, inteligente.

Não embarcando num confortável e preconceituoso jornalismo panfletário, as análises esportivas da emissora transmitem independência e autenticidade. Cosmopolitas, não apelam para uma patriotada interesseira e boba; sagazes, acabam exibindo o lado saudável e sensato que o ufanismo pode ter.

Uma pena se tratar de um canal fechado. Por outro lado, ainda bem que o acesso à televisão por assinatura tem se tornado cada vez mais fácil. Que assim continue, para que mais e mais pessoas tenham acesso a uma aula de jornalismo, de comprometimento, de paixão e de cidadania. 

FENAMILHOS

Pode ter havido um tempo em que a Fenamilho era uma parceria entre prefeitura e sindicato rural. Parece-me que essa parceria não mais existe; pelo menos, não nos moldes como pode ter existido um dia. A festa do sindicato agora é em junho. Isso sugere uma não pareceria entre a prefeitura e a entidade dos produtores rurais.

Tem havido uma elitização da Fenamilho, considerando-se o que é realizado no parque de exposições. O valor da entrada é alto, o mesmo valendo para os valores dos produtos que são comercializados dentro do parque.

Levando-se em conta somente este ano de 2014, poder-se-ia argumentar que houve o Balaio Cultural, cuja entrada era de graça; há ainda o chamado passaporte, que pode fazer com que se pague um valor menor do que o que é pago quando se compra o ingresso avulso, na bilheteria. Isso, todavia, não anula o alto valor dos ingressos nem os preços altos cobrados no parque.

À parte isso, caso haja mesmo esse “cisma” entre prefeitura e sindicato, considero o que ocorre no parque um evento particular. Sendo esse o caso, os que o promovem têm o direito de cobrar o que quiserem — ou de convidarem quem quiserem.

Não havendo mais a parceria que pode um dia ter havido entre o poder público e o sindicato, restaria ao governo municipal idealizar, para valer, uma festa. Algo parecido com uma festividade tem sido feito na Getúlio Vargas. Mas, quem sabe, por que não a festa num outro espaço, num outro formato, com opções no decorrer de todo o dia? 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

TORCIDA

1
Os dentes são branquinhos,
A boca, reveladora, imunda.

2
Duas classes:
os sem grana para o estádio 
e os sem classe. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

PALAVRA POR PALAVRA

Se há palavras, 
nada me impede de tomar rum;
depois, de tomar, rumo;
por fim, de tomar prumo.

Se há palavras, 
brinco com coisa séria.
Se não há palavras, 
meu silêncio é bobo. 

INTELIGÊNCIA COMPARTILHADA

Já escrevi que não basta uma coisa ser ruim para que ela obtenha sucesso. Isso não quer dizer que tudo o que atinja o sucesso seja ruim, embora o usual seja a burrice ser propagada, divulgada e compartilhada.

Não é o caso da página Dilma Bolada, criada por Jeferson Monteiro. O espaço eletrônico mostra o ranço da direita, exibe as realizações da presidente e alerta para o jogo desonesto de boa parte da imprensa e dos meios de comunicação. Tudo isso, com um delicioso senso de humor. É muito engraçado imaginar a Dilma se valendo do “internetês”.

Dilma Bolada é a prova de que redes sociais podem também abrigar inteligência. Monteiro consegue tratar os temas mais controversos com graça, sem ao mesmo tempo deixar de chamar a atenção para o quanto são cabais. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

AÉCIO, O "NOBRE"

Em declaração para a revista Piauí deste junho, Aécio Neves disse: (...) “Se eu vencer as eleições vai ser muito bom para o Brasil. (...) Mas se eu não ganhar as eleições (...), vai ser muito bom para mim do ponto de vista pessoal”. Quero que o país fique bem; do mesmo modo, que Aécio fique bem: não votarei nele. 

terça-feira, 10 de junho de 2014

UM VELHO NA PIAUÍ

A revista Piauí deste mês de junho traz um texto de Roger Angell, jornalista americano e editor da revista The New Yorker. O título é “Eu, um velho”; a tradução é de Claudio Marcondes. Angell tem noventa e três anos.

O relato tem uma feliz mistura de ternura e inteligência. Mostra que o cotidiano de cada um, com seus gestos e ações “simples”, é especial. Especiais somos nós, são todos aqueles com quem convivemos.

Não há brecha para a pieguice, o que não significa haver secura, anulação da poesia ou da beleza. Angell não quer ensinar nada, não quer transmitir solução, não anuncia uma verdade. Com lucidez e leveza, deixa-nos com vontade de ser amigo dele e de ter noventa e três anos. 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

TRÍADE

CONTO ESCOLAR

Alan apaixonara-se por Adriana, uma colega de sala. Tímido demais, ficava procurando um jeito de dizer a ela as coisas que o coração o mandava dizer. Crendo em algum dom telepático da parte dela, ele era sempre abstrato demais, sempre muito etéreo, na esperança de que ela captasse alguma efusão emanada por ele. Foi quando soube que ela estava de casinho com Fábio, que era da mesma sala. A curiosidade infernizou o espírito de Alan: rendendo-se, perguntou a Fábio como ele conquistara Adriana. Alan ficou estarrecido com a resposta de Fábio: “Cara, nem sei se conquistei. Chamei ela pra sair, ela topou. Foi assim”. 

domingo, 8 de junho de 2014

DE COR

Haja coração,
Aja, coração. 

FICANDO VELHO

Segundo Pablo Picasso, “leva-se muito tempo para ser jovem”. Há uma leveza, uma calma e um “descompromisso” que só a velhice pode trazer. A questão de que a velhice é necessariamente sábia é um mito — há velhos que são uns imbecis. Em contrapartida, para se chegar à sabedoria é preciso passar pelo tempo.

Dito de outro modo, tem-se então que a sabedoria é coisa de velhos, embora, é claro, não necessariamente de todos eles. A sabedoria não vem num clique: é preciso que ela seja buscada desde a juventude. É pouco provável que um jovem sem densidade se transforme num velho sábio. A juventude e o começo da maturidade já deixam entrever possível sábio.

A sabedoria é o prêmio da busca de toda uma vida. A velhice nem sempre pode dispor de um corpo saudável; ainda assim, uma saúde aceitável é uma grande aliada numa procura que deve ser diária, que leva tempo. Como coroação, quem sabe, ter-se-á a leveza e o espírito sugeridos na frase do Picasso. 

SEM BANDEIRAS

O fato de eu já ter escrito que sou contra a Copa por aqui (desde o anúncio de que o Brasil sediaria o torneio, fui contra) não me impede de prestar atenção no contexto. Tenho observado uma certa timidez com relação às manifestações a favor da Copa do Mundo. Até agora, poucas são as bandeiras, tanto nos carros quanto nas casas, mesmo a Copa sendo realizada em cidades brasileiras. Pode ser que esse cenário mude até a quinta-feira, quando começa o torneio; ou que mude caso o Brasil vá realizando um bom desempenho durante a competição.

Na cidade de São Paulo, alega-se que haveria o medo de se enfeitar um carro pela possibilidade de ele ser vandalizado por black blocs. Contudo, pelo que me consta, não há esse medo por aqui. Suponho que se mais pessoas não colocaram bandeira em seus carros, estando aqui em Patos de Minas, a razão seria outra. Em nome de um, vá lá, senso de pertencimento, estariam com vergonha de demonstrarem a paixão pelo futebol e serem consideradas alienadas? Estariam com medo de... darem bandeira? Não me parece ser o caso.

Ruas pintadas, igualmente, têm sido raridade. Uma creche aqui perto de casa pintou bolas de futebol e a bandeira do Brasil no asfalto; já vi escola com a fachada enfeitada. Se por um lado bem sei que enfeitar fachadas ou ruas não implica necessariamente patriotismo, por outro, paira uma atmosfera única: parece haver no ar um certo medo, bem como uma alegria contida. 

sábado, 7 de junho de 2014

DESTINO

Se há predestinação, você está lendo estas palavras agora porque isso estava nos desígnios do Universo. Se não há, a vida vai se fazendo à medida que vai havendo interações entre nós e as coisas que nos cercam; tudo o que existe faz parte dessa engrenagem a que chamamos de destino, mesmo não sabendo nós se ele já está escrito ou se vai sendo escrito por nós também.

É preciso levar em conta fatores externos, os quais influenciam nossas vidas: alguém sai para o trabalho, está chovendo. Por causa da chuva, a moto derrapa e a pessoa se machuca. Se há predestinação, não haveria como fugir do tombo, ainda que tenha havido fator externo para que ele ocorresse — nesse caso, a chuva é um dos fatores externos. Se não há predestinação, o tombo poderia não ter ocorrido — mas ocorreu; tendo ocorrido, é destino que ficou no passado, é história.

Acabei de levantar meu braço esquerdo; se a predestinação existe, isso não foi decisão minha. Se a predestinação não existe, foi decisão minha. Se há predestinação, não há nada que possamos fazer com nossas vidas; se não há, o controle é nosso, mesmo eu não vislumbrando um absoluto controle de nossa parte; há os fatores externos, que não sei se são predestinação ou se não são.

Quando penso sobre a predestinação, tenho a sensação de que se trata de mais uma daquelas coisas que parecemos estar prestes a decifrar, mas que nunca compreendemos. À parte isso, não me parece insano cogitar um mundo em que houvesse, ao mesmo tempo, um mínimo controle nosso sobre nossas vidas e uma interferência externa, digamos assim.

Somos pequenos demais, estamos sujeitos a um sem-fim de fatores que podem mudar nossas vidas de um instante para outro. Ainda assim, há a minha desconfiança (que pode ser ilusória) de que temos algum controle sobre aquilo que somos. Todavia, pode ser coisa da predestinação eu pensar coisas assim neste momento. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

FOTOPOEMA 353

NOME

Já senti a saudade arranhando a pele.
Já senti a saudade bombardeando o coração.

Sei o que é saudade em réveillons.
Em hotéis, abri a mala — a saudade não saiu.

Já tive saudade doida
Já tive saudade doída.

Sei os componentes da saudade.
A minha é uma mistura que carrega o teu nome. 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

É MUITO IMPORTANTE LER A VEJA

Um grande escritor ensina muito, não somente sobre o ofício de escrever, mas também sobre a vida. Um mau escritor ensina muito, principalmente sobre o ofício de escrever. Sem querer, o mau escritor acaba ensinando um monte de coisas a serem evitadas. Ler ensina.

Por isso, de modo análogo, é muito importante ler a Veja. A revista é uma aula de como não se deve fazer jornalismo. À maneira dela, acaba ensinando muito sobre o que é uma postura jornalística, precisamente pelo motivo de não tê-la. 

INTERAÇÃO

Abro a janela.
Interessado não somente 
no que receberei, 
mas também 
no que posso enviar. 

terça-feira, 3 de junho de 2014

ROGER, O "INTELIGENTE"

Há uma lenda antiga que reza o seguinte: Roger, o vocalista do Ultraje a Rigor, teria uma inteligência acima da média. A prova de que a lenda é ancestral é esta: eu me lembro dela desde minha adolescência...

Nessa época, não havia redes sociais. Isso significa que não se tinha acesso ao que gente, por exemplo, como o Roger escreve quando não está fazendo letra de música. Hoje, sabe-se que o cérebro dele parece funcionar somente com letras. Ou pelo menos funcionava.

O roqueiro, a despeito de sua propalada inteligência, não tem o tino para sacar uma ironia. Quando o Antônio Prata, na Folha de S.Paulo, em três de novembro de 2013, publicou um texto (“Guinada à direita) tanto irônico quanto sarcástico, o Roger viu a casca de banana jogada por Prata — e mesmo assim o “inteligente” vocalista escorregou.

Mais recentemente, segundo o Pragmatismo Político, Roger provou novamente sua “sagacidade”. Ao comentar, via Twitter, a manchete “USP gasta R$ 90 milhões a mais do que recebe por mês, diz reitoria”, o “perspicaz” roqueiro deu provas mais uma vez do que é capaz: “Pronto, fuderam com a USP tb”.

Roger quis, com esse verbo na terceira do plural, referir-se ao governo federal. Guilherme Fernandes, um internauta, chamou a atenção de Roger para o seguinte: a USP é estadual, não federal. A universidade é do governo de São Paulo, não do governo federal. Mesmo assim, o roqueiro manteve sua opinião. “Inteligência” obstinada, a dele. 

sexta-feira, 30 de maio de 2014

BOM-DIA

Amanheço 
quando abro os olhos.
Quando abro os olhos, 
eu te amanheço em mim. 

PELÉ E RONALDO NUM MESMO TIME

Desde o anúncio da Copa aqui no Brasil, primeiro, foi Pelé, que vem dizendo bravatas reveladoras de quem está mal-informado ou está interessado no próprio bolso (ou as duas coisas). Mais recentemente, Ronaldo, que tem destilado bravatas de quem está interessado no próprio bolso ou está mal-informado (ou as duas coisas). 

Em 2009, Ronaldo disse que não se relacionaria com Ricardo Teixeira; na ocasião, o ex-jogador disse que Teixeira era uma pessoa de “duplo caráter”. Já em 2012, Ronaldo, referindo-se a Teixeira, disse: “Ele é meu amigo e estou com ele no que precisar”. Depois, Teixeira ver-se-ia obrigado a renunciar à CBF.

Obviamente, não é minha intenção neste texto fazer um daqueles rançosos discursos de quem é contra as pessoas ganharem dinheiro. A riqueza deles não me incomoda, e não vejo problema caso queiram aumentar a fortuna que já têm. O que desaprovo são os esquemas de que se valem. Por fim, nem todo jogador é um Tostão, que soube tratar bem a bola e sabe tratar bem a inteligência do leitor. 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

APONTAMENTO 211

Exercer os talentos é o melhor modo de agradecer à vida pela existência deles. 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

A SENHORA E O MÉDICO

Desde quando escrevi sobre o atendimento mal-educado e incompetente que parte dos médicos têm prestado, muitas pessoas têm me contado sobre o que têm passado nos hospitais de Patos de Minas. Há histórias para todos os gostos — de horripilantes erros médicos a históricas deselegâncias.

Há pouco, fiquei sabendo do caso de uma senhora que estava passando mal; não vislumbrando outro recurso, foi a um hospital da cidade, lá chegando por volta de 22h. O médico foi quem iniciou o diálogo entre os dois, dizendo: “Não sei se isso são horas de passar mal”.

Nesse caso, senhora, o médico está certo. É obrigação saber que qualquer ser humano sensato não passa mal às 22h, hora em que os médicos já não mais estão exercendo o ofício. Nessa hora, já estão em casa, descansando — o repouso, a propósito, é recomendado por qualquer profissional da saúde.

Numa próxima, tenha algum senso; escolha um horário mais apropriado quando for passar mal. Sugiro os seguintes: entre 10h e 11h ou entre 14h e 15h. O horário entre 10h e 11h poupa os médicos de terem de levantar muito cedo, permitindo a eles reporem a energia despendida no dia anterior; o horário entre 14h e 15h não atrapalha o almoço nem impede o lanche da tarde, de modo que os médicos possam repor a energia gasta nas horas anteriores. 

Além do mais, passando mal nos horários que recomendo, a senhora não vai fazer com que o médico tenha de sair do lar para atendê-la. É inconveniente para qualquer profissional ter de sair de casa para trabalhar fora do horário estipulado. Ainda que o médico esteja de plantão, digamos, à noite, procure não incomodá-lo. Afinal, é notório que a noite não foi feita para que passemos mal. É no mínimo falta de ética não seguir esse preceito.

A rigor, é um acinte passar mal às 22h, senhora. A medicina tenta aliviar os sofrimentos do homem. Ora, como um médico poderá exercer tão nobre tarefa se os pacientes não colaboram?! Para que um médico tente aliviar o sofrimento de alguém, ele, médico, precisa de alívio. Portanto, não seja um fardo para a medicina.

O mundo já está cheio de pessoas que se esqueceram da cordialidade, da gentileza. Se a senhora não pode ajudar, sendo mais compreensiva, mais recatada, mais solidária, tente pelo menos não atrapalhar quem está trabalhando — ou quem não está trabalhando. Tente não ser um fardo; tente ser menos molenga. 

CLÃ

Neta de João Havelange, filha de Ricardo Teixeira. A moça vem de estirpe “nobre”. O que tinha para ser dito já foi, Joana. 

terça-feira, 27 de maio de 2014

MARINHEIRO

O amor é mar:
envolve e cala fundo.

O amor é mar:
o tempero é sal.

O amor é mar:
navegar é tormenta.

Aprende a nadar. 

EFEITO

Preciso de muita coisa.
Você, então, surge.
Súbito, não preciso de mais nada. 

segunda-feira, 26 de maio de 2014

ELLUS

Abaixo esta Ellus atrasada.

METENDO A COLHER


SEM PALAVRAS

O Woody Allen escreveu (cito de memória): “Fiz um curso de leitura dinâmica e li ‘Guerra e paz’ em duas horas; sei que tem algo a ver com a Rússia”. A brincadeira dele, escrita num tempo em que não havia internet, ilustra bem o que tem havido desde que ela surgiu.

Tempos velozes não deveriam implicar leituras velozes. Ideias precisam ser ruminadas, digeridas; precisam de tempo para serem absorvidas pelo organismo. Um organismo sem ideias é um corpo sem inteligência.

Sem leitura e sem concentração, tratando ideias como se elas fossem uma roupa que está em voga numa estação, as pessoas não estão interessadas em se formarem, em se informarem. Em tempos apressados, as palavras são banidas. O banimento das palavras conduz à barbárie.

O Orwell, no distópico “1984”, mostrou o que a manipulação da palavra pode causar. Palavras abastecem o pensamento. É claro que uma pessoa que não se abasteça se torna marionete de quem queira disseminar um pensamento. A palavra é também ferramenta de poder.

Reflexo facilmente visível do descompromisso com as pessoas quanto à leitura e às palavras são os comentários postados em “sites” e em redes sociais. Incapazes de elaborar uma frase compreensiva, optam por comentários inoportunos. Às vezes, é pior: optam por publicarem ódios e preconceitos.

Quando confrontados, esses indivíduos erguem o bordão da democracia e da liberdade de expressão. Esquecem-se de que a liberdade de expressão não anula a responsabilidade que uma pessoa tem pelo que diz ou pelo que publica na internet. Não raro, assumem a atitude covarde de publicar ofensas no anonimato. 

Somos uma espécie que pode ser burilada. Parte da construção do que somos passa pela convivência com as palavras, seja de que modo for. Sem elas, a falta de tato, que se revela em gestos do cotidiano, desemboca na internet. Sem o mínimo de senso, comentários inconvenientes ou criminosos são publicados, postagens desinformadas são compartilhadas.

Inventando pretexto para a falta, pelo menos, de capricho com o que escrevem, muitos alegam que a linguagem coloquial é a apropriada para o mundo da internet. Só que a linguagem coloquial pode também atender a um discurso que seja legível. Coloquialidade é uma coisa; não conseguir escrever sequer uma frase com sentido, seja formal ou informalmente, é outra.

A falta de polidez também está na internet. Certa vez, numa palestra a que assisti, o orador disse que a gente percebe se o sujeito tem ética pelo modo como ele abre uma porta. Basta uma frase de alguns internautas para que percebamos o tipo de pessoa que a postou. 

domingo, 25 de maio de 2014

"SECRETÁRIA"

Mary Gaitskill é a autora de “Bad behavior” (que eu saiba, sem edição em português), livro de contos; um deles, “Secretary”, foi transformado em filme homônimo. A película é de 2002; dirigida por Steven Shainberg, é estrelada por James Spader e Maggie Gyllenhaal. O roteiro é de Shainberg e de Erin Cressida Wilson. O título em português do filme é tradução literal de “Secretary” .

Gaitskill concedeu entrevista para a revista Elle em 2013, ano em que se comemoraram os vinte e cinco anos de lançamento de “Bad behavior”. Na ocasião, disse que o filme de Shainberg é a versão “Uma linda mulher” do conto “Secretary”.

Primeiro, assisti ao filme; depois, li a entrevista com Gaitskill; posteriormente, pedi o livro. Hoje, li o conto em que o filme de Shainberg se baseia. Quando li o comentário dela de que o filme era a versão “Uma linda mulher” do conto, pensei que era pela razão de o filme suavizar o sadomasoquismo, presente no trabalho de Shainberg e no conto de Gaitskill.

Tendo acabado há pouco de ler o conto, entendo o motivo pelo qual a escritora considera o filme uma versão suavizada de seu texto. “Secretária”, o filme, acaba sendo uma história de amor; o conto, não. Se considerado apenas o aspecto do sadomasoquismo, tal prática sexual é mais intensa no filme do que no conto.

A história de Gaitskill tem dezesseis páginas. Antes mesmo de a ler, fiquei curioso para saber de que desdobramentos os roteiristas teriam se valido para realizar todo um filme a partir de uma breve história. A leitura do conto termina por esclarecer que o filme tem “apenas” a seguinte moldura do conto: a secretária de um advogado acaba sentindo na pele (literalmente) o comportamento sádico de seu chefe.

No filme, os destinos do advogado e da secretária são diferentes dos destinos a eles atribuídos no livro. Ainda assim, isso não faz com que o trabalho de Shainberg seja algo ruim. Ademais, o tratamento que direção e roteiro deram ao filme faz com que o sadomasoquismo não impeça o amor. Os dois podem coexistir, podem se complementar.

Li há algum tempo que vão transformar em filme a trilogia de E.L. James. O personagem criado por ela tem o nome de Grey. Este é também o nome do advogado sádico no filme “Secretária”. Não sei dizer se a escritora inspirou-se no filme de Steven Shainberg para criar o Christian Grey dela. 

sábado, 24 de maio de 2014

REAL CAMPEÃO

Torci pelo Atlético. Não por acompanhar de perto ou com fervor o futebol europeu: foi muito mais no astral de quem torce pelo time supostamente mais fraco. O empate do Real, já nos acréscimos do segundo tempo, foi uma hecatombe para o Atlético, que se desfez emocionalmente. No fim da prorrogação, também estava fisicamente moído. 

A-HA!

Tenho a impressão de que o A-Ha será ainda reconhecido como o que é: uma das grandes bandas do pop. Parece-me que às vezes são encarados como mais uma daquelas “boy bands” que assolam as FMs de vez em quando; não me parece ser o caso. O trio norueguês grudava, sim, nas rádios, mas suas canções mostravam que a música feita para tocar no rádio e render turnês pode ser deliciosa e se manter pulsante; não os vejo como modismo de estação. Com canções leves, melodiosas e interpretadas por um estupendo vocalista, o A-HA merece estar no panteão do pop. 

A LITERATURA SERVE PARA QUÊ?

Há aproximadamente quatro anos, Flavia Wagner foi sequestrada e mantida refém no Sudão por cento e cinco dias. Nesses momentos de angústia, ela conta, em emocionante relato, que um livro de García Márquez foi o que a manteve esperançosa. O texto, em inglês, está aqui

O VINIL DA PLEBE

Nunca fui dos que acham que o passado era melhor do que o presente. Ainda assim, ontem à noite, num bar, assim que recebi o cardápio, senti saudade: é que ele imitava um disco de vinil. De imediato, foi como se tivessem vindo à tona os milhares de vinis que manejei.

Com o cardápio em mãos, o que tomou conta de mim foi uma memória tátil. Revivi com exatidão o prazer que era pegar o LP, retirar com esmero o disco, segurá-lo, reparar nos sulcos, colocá-lo no prato e fazer com que a agulha despertasse a música. Depois, retirá-lo, inseri-lo novamente no fino plástico de proteção e guardá-lo para uma próxima audição. 

Enquanto eu manejava o cardápio do bar, ocorreu-me que algumas pessoas têm convivência tátil muito forte com livros. É que, segurando o cardápio, o que eu tive mesmo foi saudade de acariciar um vinil. Estou em casa agora. Ao mesmo tempo em que digito, tenho em mãos o LP “Nunca fomos tão brasileiros”, do Plebe Rude. 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

quinta-feira, 22 de maio de 2014

APONTAMENTO 210

Segundo artigo escrito por Michael Pollan, publicado na edição deste maio da revista Piauí, no romance “A informação”, de Martin Amis, há um personagem que “almeja escrever ‘A história da humilhação crescente’, um tratado que narra o destronamento gradual da humanidade de sua posição como centro do universo”. Desconheço o livro; Copérnico e Darwin são mencionados no artigo de Pollan.

A temática do personagem de Amis é sedutora. A ciência pode solapar dogmas ou crenças. A questão é que isso não implica a diminuição do homem; trata-se da busca de algo racional, o que é bonito, ainda que se alegue que se pode apenas estar trocando uma ilusão pela outra. A busca de uma verdade racional nunca é humilhante, nunca diminui o homem.

Tenho a crença de que o Universo é de uma indiferença absoluta quanto ao que a humanidade é. Mas assim é com tudo o mais. Paradoxalmente, o Universo é indiferente com relação a tudo o que ele abarca, com relação a tudo o que dele faz parte.

Não consigo acreditar que sejamos os eleitos, que ao fim e ao cabo seremos poupados de algo que nos aniquilaria; não acredito em hierarquias do Universo. Não sou de cogitar sobre um suposto pós-vida. Estou aqui, estamos aqui: essa é a ventura, esse é o privilégio.

Não fico meditando acerca de um pós-vida: a natureza já nos presentou com o sermos. Ainda encaro a vida como um presente que recebemos, a despeito do que a humanidade fizemos com esse presente. O que nos aflige, o que nos acontece de ruim, seja criado por nós, seja vindo de fora, não vejo como punição de algum deus ou como maquinação de algum demônio. 

terça-feira, 20 de maio de 2014

SAUDADE!

Que gosto tem tua saudade?
Qual o cheiro?
Como se chama tua saudade?
Que número ela calça?

A que lugares tua saudade vai?
Que palavras usa com frequência?
O que ela gosta de comer?
Ela prefere rock ou Saramago?

Tua saudade é medida em horas ou em quilômetros?
Que cor ela tem?
De saudade tu morres?
Ou saudade tu matas?... 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

DOIS LADOS...


APONTAMENTO 209

A TV Revolta, popular no Facebook, é sem graça e tem a habilidade para analisar de um ácaro. Algo assim só tem um destino — o sucesso. 

domingo, 18 de maio de 2014

CASA

Ela demorou-se no abraço.
No abraço, ela foi ficando.
Foi ficando e foi gostando.
Foi gostando e se mudou. 

NÚMEROS E PALPITE

ITAQUERINHO

A transmissão do Sportv ficou o tempo todo divulgando os números e as tecnologias do Itaquerão, o estádio do Corinthians, cuja inauguração oficial foi hoje. Para o torcedor corintiano, o número que mais importava, que é o de gols, não houve: jogando contra o fraco Figueirense, o Corinthians foi derrotado por um a zero.

PALPITEIRO 

São Paulo tem a fauna Ganso, Pato e Luis Fabiano. Fluminense tem Conca, Fred e Walter. Em teoria, dois excelentes times. Há equipes que são animadoras no papel, mas que acabam decepcionando em campo. Ainda assim, levando-se em conta o elenco dos dois times, arrisco um palpite: esta edição do campeonato brasileiro será vencida ou pelo São Paulo ou pelo Fluminense. 

SINTONIA FINA — EDIÇÃO 25


No ar, mais uma edição do Sintonia Fina, programa musical que apresento. Esta edição tem as seguintes faixas:

Angus and Julia Stone – Babylon
Zeca Baleiro – Babylon
Keane – Disconnected
Legião Urbana – “Índios”
Moby – The perfect life
Agridoce – Dançando
U2 – Invisible
Secos e Molhados – Que fim levaram todas as flores
Foreigner – I want to know what love is (versão ao vivo) 

BANDA BENDZ EM PATOS DE MINAS

A banda Bendz se apresentou ontem aqui em Patos de Minas. O show foi um tributo à cantora Alanis Morissette. Infelizmente, demoraram para acertar o som. Ainda assim, o carisma da vocalista, Lorena Bendz, sobrepujou qualquer dificuldade técnica. No fim do tributo a Alanis Morissette, o som foi melhorado.

Acabado esse tributo, pensei que o show terminaria. Entretanto, a cantora perguntou à plateia o que gostaríamos de escutar. A partir daí, a banda, mandando ver de modo visceral, executou clássicos do rock. A performance de Lorena Bendz então se agigantou, tendo ela trazido à tona a cantora com formidável presença de palco que ela é.

A banda é de Araxá. Os integrantes são Lorena Bendz, Gabriel Duarte (guitarra), Renato Nolli (baixo) e Breno César Oliveira (bateria). Segundo o que informam na página deles no Facebook, começaram como uma banda acústica, mas esse formato não refletia a pegada de que a banda é capaz. Ótimo para nós, pois o que não faltou no show de ontem foi pegada; que voltem em breve.

(A foto que utilizo nesta postagem está no perfil da banda Bendz no Facebook; não sei quem é o autor do registro.) 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

MUJICA

Esse Mujica faz a minha cabeça. Matéria aqui

APONTAMENTO 208

Acredito em tudo o que une: multidão cantando junto, coral cantando, comunidade de leitores. Estou interessado no que une. O que separa é circunstancial, o que separa está na superfície. O que une não tem tempo, o que une está nas raízes. Quero é pertencer: nada que me separe de meu vizinho, de meu bairro, de minha cidade, de meu estado, de meu país, de meu continente, da Terra, do sistema solar, da Via Láctea, do Universo. Há quem queira fatiar. Eu quero unir, eu quero estar cantar junto. Acredito em pontos em comum, acredito em comunhões, acredito em comunhão. Quero a beleza e a imponência de pertencer a algo que é uma coisa só, a beleza e a imponência de ser uma coisa só, feito de tantas outras coisas que são uma coisa só. Quero vozes, quero muitas vozes, quero todas as vozes. Cantemos. 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

CRUZEIRO FORA DA LIBERTADORES

Contando mais com a sorte do que com o futebol jogado, o Cruzeiro vinha se arrastando na Libertadores. Em jogo terminado há instantes, no Mineirão, o San Lorenzo, marcando na intermediária cruzeirense, anulou possíveis jogadas criativas da equipe mineira.

Dedé, que não tem jogado bem, continuou jogando mal, estando aparentemente pouco à vontade. A despeito de maior posse de bola, o Cruzeiro não conseguia ameaçar o San Lorenzo. A equipe argentina abriu o placar; não fosse, como é usual, o goleiro Fábio, o San Lorenzo poderia ter fechado o primeiro tempo tendo marcado dois gols.

No último lance do primeiro tempo, uma bola escorada pelo Marcelo Moreno tocou uma das traves, passeou rente à linha do gol, tocou a outra trave e não entrou. Muito pouco para uma equipe que precisava vencer por dois gols de diferença. Nervoso e ineficaz, o Cruzeiro foi adversário um tanto fácil para o San Lorenzo, que marcou de modo competente. 

Desde o começo do torneio eu ficava me perguntando quando o Cruzeiro deixaria a Libertadores; não houve momento em que a equipe causou esperança mais consistente. A crença no time era muito mais em função da paixão dos torcedores do que em função do que a equipe vinha jogando.

Afobado, precipitado e sem criatividade, o Cruzeiro foi inferior ao San Lorenzo, mesmo tendo o time azul empatado a partida; um jogador do time argentino foi expulso. Com a saída do Cruzeiro, uma pequena hegemonia brasileira na Libertadores tem fim: Atlético/MG, Corinthians, Santos e Internacional foram os últimos campeões da competição. 

A COPA É DELES

Nizan Guanaes, em forjado, interesseiro e marqueteiro ufanismo, menciona Abilio Diniz no texto “Enchendo a bola do Brasil”, publicado pela Folha de S.Paulo. Guanaes diz concordar com Diniz; de acordo com aquele, ambos são da opinião de que realizar protestos durante a Copa seria um papelão. Guanaes, publicitário que é, escreve em seu texto o “mantra” “a Copa é nossa”.

A Copa não é minha. É de gente como ele, Guanaes, que é publicitário, e que está lucrando muito com o torneio. A Copa é de gente como ele e de gente como o pessoal da Fifa. A Copa não é minha; é deles. O que é meu, se tanto, será o protesto. Não coletivo, não nas ruas, mas em um texto ou outro. 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

VEJA SÓ

As pessoas com quem convivo sabem que considero a revista Veja uma excrescência, uma degeneração do jornalismo; a Veja é deplorável, asquerosa, afetada. O meio é uma das piores expressões da imprensa brasileira — se não for a pior.

Entusiastas do periódico acreditam que ele faz jornalismo. É que, à primeira vista, a publicação se parece mesmo com uma revista semanal de informações. Contudo, basta a leitura de matéria qualquer ou de qualquer um de seus articulistas para se perceber que a Veja não está nem um pouco preocupada com jornalismo. Ademais, o tom da revista é uma das coisas mais abjetas que já li.

Obviamente, sei do poder que ela tem para influenciar a população. Além disso, não deixo de reconhecer quando ela faz um trabalho bom — o que é muito raro. Ainda assim, a capa da edição de 14 de maio de 2014 evidencia o poder da leitura; em especial, segundo a capa, a leitura de ficção. Ainda não li a matéria. Embora otimista com ela, não me surpreenderei se houver o usual tom "blasé" e pedante da publicação. Também não será surpresa se o texto for apenas uma propaganda sobre o John Green travestida de jornalismo. 

domingo, 11 de maio de 2014

VIRTUAL

Ave!
A gente inventa siglas, 
adivinha abreviações, 
compartilha códigos.
O pensamento voa. 
Ave! 

1984

Fazer do que degrada 
o que agrada. 

sábado, 10 de maio de 2014

A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (75)


Já há algum tempo era minha intenção fotografar esta árvore. Contudo, hoje, quando vi algumas vacas perto dela, pensei que elas seriam um “bônus” e tanto para a foto.

Não pense você que tive coragem o bastante para me aproximar das vacas, abaixar-me e tirar a foto. Entre mim e elas havia uma cerca de arame farpado. Para fotografar, eu me vali do “live view” da câmera; como ela tem monitor articulado, eu a posicionei bem rente ao chão, esticando os braços um pouco além da cerca, e fiz o registro.