segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
PASSEIO NO CERRADO
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APONTAMENTO 174
Quando a gente cria, a gente vem à tona; quando a gente vem à tona, a gente se renova; quando a gente se renova, voltamos felizes para o fundo — de onde jubilosos sairemos quando novamente criarmos. Criar é ter paz e assenhorar-se de si.
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FOTOPOEMA 307
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FOTOPOEMA 306
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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
FOTOPOEMA 305
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APONTAMENTO 173
Quando a gente começa a reparar nas coisas, o encanto delas vai se nos revelando. Nem toda beleza é óbvia. Há belezas que precisam ser desveladas, “desembrulhadas”. Há belezas que, para se mostrarem em todo o seu fulgor, precisam ser estudadas. Há belezas com as quais temos de conviver para que possamos beber de seu manancial. Quanto mais a gente estuda, quanto mais a gente repara, quanto mais a gente lê, quanto mais a gente aprende, quanto mais a gente olha, mais a gente vai percebendo que este mundo tem, também, beleza. Quando a gente presta atenção, a beleza nos vai mostrando sua face, vai nos convidando a ir mais longe na beleza — que é ir mais longe em nós mesmos. Quando a gente presta atenção, o belo nos vai convidando a subir a escadaria. Degrau por degrau, a gente vai ficando mais bonito. Quando a gente dá atenção à beleza, ela resplandece. Resplandecendo, ela nos embeleza.
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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
COISAS DO AMOR
Qualquer coisa
que se pareça com amor
faz com que eu me lembre de ti.
Mas é curioso: desde que te amo,
tudo se parece com amor.
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LEMINSKI
Paulo lê Minski.
Eu leio Paulo.
Mais um uísque.
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CANÇÃO
A voz...
Para não...
Continua falando...
Quentura e calor,
ternura e desejo.
Musa para os ouvidos,
envolve-me com teu som.
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PATOS DE MINAS/MG
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
CÉU
Acredite no
que digo com
os pés no chão:
sou todo seu:
sou todo céu.
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TÁTIL
O livro que tenho
em mãos esteve nas tuas.
Nunca seria, pois, um livro qualquer.
Meus olhos percorrem as palavras
que os teus percorreram.
A leitura, de repente,
torna-se, também, tátil.
E daí se torna carícia.
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sábado, 16 de fevereiro de 2013
FOTOPOEMA 304
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Os três mosqueteiros
A MAIOR PROVA DE AMOR
Calendário deste ano, lançado por uma editora de material didático, diz que o Taj Mahal é a “maior prova de amor que já houve”, explicando que um imperador o mandou construir em memória de sua esposa favorita.
Ainda segundo o calendário, a fonte da informação é a Wikipédia. De fato, basta que se digite “Taj Mahal” no Google para se achar o texto que está no calendário da editora; é o primeiro “link” que aparece.
Fiquei com essa história de “maior prova de amor” na ideia. É que fiquei sem entender se o autor do texto quis dizer “maior” no sentido de tamanho, de medidas, ou se quis dizer “maior” no sentido de intensidade, de profundidade de sentimento.
Se a intenção era dizer “maior” no sentido literal, referindo-se às dimensões do mausoléu, isso mostra o poderio de quem mandou construir a edificação. Se a intenção era dizer “maior” no sentido de se referir ao que o imperador sentia, parece-me “estranho” afirmar isso. Não há como mensurar a intensidade de um sentimento, seja ele qual for, seja quem for que o esteja sentindo.
Um cara que ame a esposa e que tenha uma renda de, digamos, trinta mil reais por mês, terá, penso, dificuldade em dar a ela um carro que custe uns quatro milhões de reais. A materialização do amor é alcançada de acordo com a possibilidade de quem ama. Se esse mesmo sujeito dá para a esposa um vestido de vinte mil reais, isso não quer dizer que ele a ame menos, por não ter dado a ela o carro de quatro milhões de reais.
Não preciso dizer da maravilha que é o Taj Mahal como obra arquitetônica. Se o texto se referia ao plano físico ao dizer que a construção é a “maior prova de amor”, este texto meu é inútil, o que não é novidade. Mas se quiseram medir a intensidade do amor ao afirmar o Taj Mahal como “maior prova de amor”, penso ser melindroso “calcular” isso.
Há algo que me contaram certa vez. Não me lembro dos detalhes; por isso, inventarei circunstâncias, mas preservarei a essência: diz a história que um garoto de uns onze anos foi a uma relojoaria. As roupas dele eram puídas. Tímido, aproximou-se de um dos funcionários.
Disse o garoto que queria comprar um relógio para a mãe, pois era o aniversário dela. Para tal, tinha consigo trinta reais, conseguidos com seu trabalho como engraxate. O funcionário lhe explicou que o dinheiro não daria para comprar nada. O dono da relojoaria, que estava por perto, decidiu conversar com o menino.
Entenderam-se: o comprador escolheu um relógio que, supôs, agradaria à mãe. Entregou os trinta reais para o dono da empresa e foi feliz para casa. Pouco tempo depois, estava de volta, dessa vez, acompanhado pela mãe, que pediu para falar com o proprietário da relojoaria.
Mal ele se aproximou, a mãe, que supunha que o garoto furtara o relógio, foi logo pedindo desculpas, afirmando que já havia ralhado com o menino, que chorava. Depois de escutar a mãe, o dono disse: “Minha senhora, fique com o presente. Eu conversei com seu filho. O valor do relógio não importa. O que importa, é que ele deu para a senhora tudo o que ele tinha”.
Ainda segundo o calendário, a fonte da informação é a Wikipédia. De fato, basta que se digite “Taj Mahal” no Google para se achar o texto que está no calendário da editora; é o primeiro “link” que aparece.
Fiquei com essa história de “maior prova de amor” na ideia. É que fiquei sem entender se o autor do texto quis dizer “maior” no sentido de tamanho, de medidas, ou se quis dizer “maior” no sentido de intensidade, de profundidade de sentimento.
Se a intenção era dizer “maior” no sentido literal, referindo-se às dimensões do mausoléu, isso mostra o poderio de quem mandou construir a edificação. Se a intenção era dizer “maior” no sentido de se referir ao que o imperador sentia, parece-me “estranho” afirmar isso. Não há como mensurar a intensidade de um sentimento, seja ele qual for, seja quem for que o esteja sentindo.
Um cara que ame a esposa e que tenha uma renda de, digamos, trinta mil reais por mês, terá, penso, dificuldade em dar a ela um carro que custe uns quatro milhões de reais. A materialização do amor é alcançada de acordo com a possibilidade de quem ama. Se esse mesmo sujeito dá para a esposa um vestido de vinte mil reais, isso não quer dizer que ele a ame menos, por não ter dado a ela o carro de quatro milhões de reais.
Não preciso dizer da maravilha que é o Taj Mahal como obra arquitetônica. Se o texto se referia ao plano físico ao dizer que a construção é a “maior prova de amor”, este texto meu é inútil, o que não é novidade. Mas se quiseram medir a intensidade do amor ao afirmar o Taj Mahal como “maior prova de amor”, penso ser melindroso “calcular” isso.
Há algo que me contaram certa vez. Não me lembro dos detalhes; por isso, inventarei circunstâncias, mas preservarei a essência: diz a história que um garoto de uns onze anos foi a uma relojoaria. As roupas dele eram puídas. Tímido, aproximou-se de um dos funcionários.
Disse o garoto que queria comprar um relógio para a mãe, pois era o aniversário dela. Para tal, tinha consigo trinta reais, conseguidos com seu trabalho como engraxate. O funcionário lhe explicou que o dinheiro não daria para comprar nada. O dono da relojoaria, que estava por perto, decidiu conversar com o menino.
Entenderam-se: o comprador escolheu um relógio que, supôs, agradaria à mãe. Entregou os trinta reais para o dono da empresa e foi feliz para casa. Pouco tempo depois, estava de volta, dessa vez, acompanhado pela mãe, que pediu para falar com o proprietário da relojoaria.
Mal ele se aproximou, a mãe, que supunha que o garoto furtara o relógio, foi logo pedindo desculpas, afirmando que já havia ralhado com o menino, que chorava. Depois de escutar a mãe, o dono disse: “Minha senhora, fique com o presente. Eu conversei com seu filho. O valor do relógio não importa. O que importa, é que ele deu para a senhora tudo o que ele tinha”.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
CONTO 60
A porta estava quase se fechando, mas Alan conseguiu entrar no elevador. Além dele, um homem e uma mulher. Mal o elevador começa a subir, o casal se junta e começa a se beijar. Alan, a princípio, fica sem jeito, mas não consegue deixar de olhar. O homem aperta a mulher contra a parede; o beijo prossegue. Segurando com firmeza os cabelos dela, ele começa a passar a língua pelo pescoço; ela olha para Alan, que tem a impressão de estar sendo convidado. “Voyeur” involuntário, ele não sabe o que fazer, embora não consiga não olhar para o rosto dela. Então, o tranco: o elevador para. Aberta a porta, Alan sai quase correndo. Nunca comentou com ninguém, mas ficara com água na boca.
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"FOGO DO CÉU"
O rastro de fogo que é produzido quando um objeto entra na atmosfera terrestre atiça a imaginação de nós, terráqueos. E, dependo do caso, o temor. Eu, por exemplo, ainda moleque, fiquei morrendo de medo do Skylab, uma estação espacial americana que passou pela atmosfera e se desintegrou, embora estilhaços tenham atingido trechos do oeste da Austrália. Isso foi em 1979. Eu, menino bobo de oito anos, pensei que o mundo fosse acabar.
A queda de um meteoro aqui, por si, já deixaria a imaginação ligadona. Contudo, como se não bastasse, um deles rasga o céu da Rússia bem no dia em que passa perto (em termos espaciais) da Terra um outro corpo, conhecido como 2012 DA14.
Segundo cientistas, o 2012 DA14 tem quarenta e cinco metros de comprimento. Caísse na Terra, causaria muito dano. Mas, ainda segundo cientistas, o mais perto que ele chega daqui é a distância de uns 27.000 quilômetros. Pode-se dizer (sempre em termos espaciais) que o asteroide passou rente à Terra. Ele tirou um fino (por aqui se diz “tirar uma fina”) do planeta em que vivemos.
O que caiu na Rússia não tem relação com o 2012 DA14. Contudo, reacendem velhas superstições, medos e “teorias”, mesmo sabendo-se que a Terra é atingida por corpos vindos do espaço há tempos. O episódio de hoje, na Rússia, trouxe à mente o de Tunguska, na Sibéria, em 1908. O asteroide entrou na atmosfera e explodiu. Árvores foram derrubadas numa área de 1.000 quilômetros quadrados.
Certa vez, a CNN exibiu “Fire from the sky” [Fogo do céu]. É justamente sobre a possibilidade forte de a Terra ser atingida por um asteroide. De acordo com o documentário, pequenos deles chegam perto do planeta diariamente. Contudo, por serem pequenos, muitas vezes são dizimados na atmosfera. Mas segundo a produção da CNN, se um deles, do tamanho de um campo de futebol, atingir a Terra, o efeito será devastador...
CONTO 59
Às vezes, Clever não tem a impressão, mas a certeza de que Susana está com saudade dele. É uma certeza tamanha que ele consegue retê-la entre seus dedos saudosos. Mas a seguir supõe que isso é resultado da saudade exata e palpável que ele sente de Susana. Nessas tantas ocasiões, mesmo depois de digitadas as palavras, ele deixa de enviar a mensagem.
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
EXÍLIO
Não adianta calar,
não adianta fingir,
não adianta fugir
para terras remotas:
ela me seduz,
ela me deduz.
Esteja eu em
Tegucigalpa
ou em Pasárgada,
ela sabe todos
os meus degredos.
não adianta fingir,
não adianta fugir
para terras remotas:
ela me seduz,
ela me deduz.
Esteja eu em
Tegucigalpa
ou em Pasárgada,
ela sabe todos
os meus degredos.
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FOTOPOEMA 303
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FOTOPOEMA 302
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
GRAÇA
— Sou do tipo que perde o amigo mas não perde a piada.
— Sou do tipo que faz a piada e ganha um amigo.
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
PRODUÇÕES LIVIANAS EM MATERIAL DA UFLA
Há pouco, peguei material produzido pelos professores Marco Antônio Villarta Neder, Helena Maria Ferreira e Mauricéia Silva de Paula Vieira, da Universidade Federal de Lavras — UFLA. O guia de estudos, publicado em 2012, tem duas produções minhas: um fotopoema e um poema.
O fotopoema foi inserido no material da UFLA numa seção dedicada ao estudo do conceito de intertextualidade. Já o poema “Felicidade” está numa seção voltada para os chamados fatores de textualização. Obrigado à professora Helena por ter sugerido que minhas produções fossem inseridas no material produzido pela universidade.
O fotopoema foi inserido no material da UFLA numa seção dedicada ao estudo do conceito de intertextualidade. Já o poema “Felicidade” está numa seção voltada para os chamados fatores de textualização. Obrigado à professora Helena por ter sugerido que minhas produções fossem inseridas no material produzido pela universidade.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
FOTOPOEMA 301
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MELÃO-DE-SÃO-CAETANO
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RUNNING WATERS
O Melville escreveu, no comecinho do “Moby Dick”, que “a meditação e a água estão ligadas para sempre”. Num plano de ascendência menor, sempre digo que a água é um belo assunto para a fotografia.
Ontem, tive o privilégio de, mais uma vez, ir até a fazenda do pai do amigo Aldo, com o objetivo exclusivo de fotografar as águas de um córrego que passa dentro da propriedade. Além de mim e do Aldo, foram conosco o Rossi e a Angela, além da Mariana, a adorável filhinha dos dois.
Como de costume, a dona Elza e o senhor Aldir, pais do Aldo, receberam-me com a usual gentileza . Não bastasse a fineza sem afetação dos dois, há sempre um delicioso café e deliciosos biscoitos caseiros à disposição. Após a sessão fotográfica, houve ainda uma apetitosa janta.
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FOTOPOEMA 300
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sábado, 9 de fevereiro de 2013
LETRA DE MÚSICA (35)
A gente fez nosso canto.
Temos agora nosso teto.
Quando você disse que
a gente podia, eu duvidei.
Vista de fora, parece até
menor do que ela já é.
Não vai contar mesmo
qual o prato da estreia?
Que tal os livros ali?
Onde deixo a guitarra?
Onde você vai deixar
suas telas de pintura?
A casa vai ficar cheia:
você quer dois filhos.
E se a gente bolasse
um agora mesmo?...
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
FOTOPOEMA 299
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
FOTOPOEMA 298
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
FOTOPOEMA 297
Há muitos anos, no Cine Riviera, cinema local que pegou fogo, assisti a um espetáculo teatral baseado em poemas do Drummond. Foi brilhante. Um pesar eu não me lembrar mais do nome do espetáculo nem do nome da companhia teatral.
Um dos poemas encenados foi o que contém os versos “no meio do caminho tinha pedra / tinha uma pedra no meio do caminho”. Um dos personagens, durante a representação do texto, saía correndo de uma das extremidades do palco e parava súbito no meio.
Assim fez algumas vezes, de modo que a plateia deduzia que ele estava parando a corrida diante de uma pedra criada pela mente. Uma pedra que, a rigor, não estava lá. Precisamente por não estar lá e por ser imaginado pelo personagem, o obstáculo torna-se mais eloquente e opressor.
Enquanto a gente escutava o poema sendo declamado, o personagem voltava, saía correndo outra vez e parava diante da “pedra”, que já estava na cabeça de todos nós. Numa sacada poderosa por parte da trupe, já estávamos todos loucos para tirar a “pedra” do caminho e para saber no que daria aquilo.
Natural que logo pensássemos: “Será que ele vai superar o ‘obstáculo’?”. Com maestria, o pessoal “colocara” sobre o palco uma pedra-obstáculo, colocada também dentro da cabeça de quem assistia à peça; no fim do poema o ator dá um belo e catártico salto sobre a “pedra”.
Hoje pela manhã, eu me lembrei dessa memorável apresentação teatral. Deixando rolar a reminiscência e o devaneio, que têm um “método” próprio que a gente não sabe decifrar, acabei desembocando, ainda pela manhã, no texto que está junto à foto.
Eu o devo, pois, ao Drummond, ao espetáculo no Riviera e a tantas outras coisas de que nem faço ideia. Meu texto nada tem a ver com a apresentação teatral; além disso, subverte o texto original do poeta.
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
CONTO 58
Assim que os olhos encontraram o dorso, o peito e os braços de Bernardo, foi inevitável: Samanta lembrou-se do Davi, do Michelangelo. Ficou encantada. Queria olhar, mas ficava sem jeito de encarar. Pelo canto do olho, observava, lamentando mais uma vez sua timidez congênita, enquanto malhava. Quando Samanta foi tomar água, Bernardo, de saída, passou próximo ao bebedouro. Foi quando a pequena toalha que estava sobre seu ombro caiu. Um vendaval tomou conta da cabeça de Samanta. Ela logo concebeu para o futuro uma história de amor que começou por conta de algo que havia caído. Interrompendo a água que bebia, Samanta apanha a toalha e vence a timidez: “Moço, você deixou cair”. Bernardo estica o braço, pega a toalha; não diz nada nem olha para a cara de Samanta. E vai embora.
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domingo, 3 de fevereiro de 2013
CRUZEIRO DERROTA O ATLÉTICO
José Roberto Bugleaux, conhecido como Bugleaux ou Buglê, marcou o primeiro gol no Mineirão no dia cinco de setembro de 1965, numa partida da Seleção Mineira contra o River Plate. Na época, Bugleaux jogava pelo Atlético; hoje, mora em Taguatinga/DF.
Quarenta e sete anos depois, numa dessas ironias de que a vida é plena, outro jogador Atleticano faria gol, dessa vez na reinauguração — mas contra. Marcos Rocha tentou rechaçar cruzamento e a bola foi parar dentro na rede. Anselmo Ramon, que também participava do lance, comemorou, mas o gol foi anotado para Marcos Rocha.
O Cruzeiro vinha se insinuando. Aos onze minutos, Vítor, goleiro atleticano, defende bola; aos vinte e um, o mesmo Vítor sai da grande área, dá chutão e impede chance do rival. Aos vinte e dois, o gol viria. No todo, o Cruzeiro jogou um pouco melhor no primeiro tempo, mesmo com o empate do Galo tendo vindo aos vinte e sete minutos. Araújo foi o autor, após rápida confusão na área.
Como geralmente ocorre nesse tipo de partida, o começo foi truncado, com muitas faltas. Já com a partida deslizando um pouco mais suave, Leonardo Silva, aos dezoito minutos, dá um murro nas costas de Anselmo Ramon; nem árbitro nem bandeirinha parecem ter visto. Do lado atleticano, Bernard, craque que foi destaque no ano passado, teve atuação apagada.
Mas ele voltou serelepe no segundo tempo: aos dois minutos, quase marca; a bola atingiu a rede pelo lado de fora. Aos quatro, o mesmo Bernard realiza ótima jogada pela esquerda. Segundos antes, Jô quase marca de cabeça; também quase marcou aos vinte e sete, chutando cruzado após lateral.
Pelo Cruzeiro, foi Dagoberto, que entrara aos onze minutos, quem brilhou, marcando aos dezesseis, após cruzamento preciso de Anselmo Ramon. Dois minutos depois, Leandro Guerreiro é justamente expulso depois de falta tola sobre Ronaldinho Gaúcho.
Aos vinte e três, Vítor defende mais uma de Anselmo Ramon. Aos vinte e sete, Jô tem a chance de marcar mais uma vez. Como o Cruzeiro tinha um jogador a menos, era natural que o Galo tentasse pelo menos empatar o jogo.
Mas, aos trinta e nove, é o goleiro Vítor, melhor jogador da partida, quem realiza mais uma proeza, defendendo com o pé e impedindo mais um gol da Raposa. Aos quarenta e quatro, em contra-ataque, o Cruzeiro acerta a trave.
No todo, se não foi um baita jogo, foi uma bela partida. Ontem, durante chuva em Belo Horizonte, ficou nítido que a drenagem do gramado é ruim. Como não choveu enquanto o clássico era disputado, a bola correu sem problemas.
Em teoria, o time atleticano, a despeito da derrota, que é circunstancial, está mais forte do que o Cruzeiro para a temporada. Do outro lado, o Cruzeiro se renovou e, também em teoria, está melhor, em relação a si mesmo, do que esteve no ano passado.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
FOTOPOEMA 296
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APONTAMENTO 172
Todo idioma tem palavras feias e bonitas. Questão de gosto. Para mim, ainda não surgiu uma palavra mais horrorosa do que “perfunctório”.
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CASA DA MÃE JOANA
Nem sei se a rigor trata-se de uma joaninha. Caso não, digam e tento achar uma para ilustrar o “texto”.
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UMA OVA!
Para alguns poetas — João Cabral, por exemplo — o ovo é a forma perfeita. De minha parte, essa questão oval é mais prosaica: apenas recentemente é que fiquei sabendo que a galinha bota um ovo por dia. Ainda não consigo deixar de me espantar com isso.
A “produção” desta foto é liviana: primeiro, lavei o ovo (acho que poderia ter ficado mais limpo). Enxuguei-o. Depois, afixei na parede duas folhas de sulfite, como fundo. Debaixo do ovo, duas folhas de sulfite também. Eu queria mesmo tudo branco, sem contraste. Muito importante dizer que o ovo insistia em não parar em pé. Quase tive de afixá-lo no sulfite.
Ovo e folhas ficaram em cima da mesa (encostada na parede) que há aqui na sala. Para ter um pouco mais de luz, usei minha luminária de leitura, posicionada, com a mão esquerda, de modo a produzir a menor quantidade possível de sombra. Com a direita, foquei e tirei a foto. Preferi não usar “flash”.
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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
BOLA MURCHA
A primeira partida oficial disputada pelo Grêmio em seu estádio, que é novo, é prova de como as coisas são feitas por aqui: o gramado estava ruim e uma proteção de acrílico não resistiu à “avalanche” que os torcedores gremistas fazem. Nessa “avalanche”, que ocorre quando o Grêmio coloca a bola na rede, os torcedores atrás de um dos gols correm para o mais perto que podem do gramado.
Depois do belo gol de Elano contra a equipe da LDU, em jogo válido pela Libertadores, a torcida do time do sul cumpriu seu “ritual” de comemoração, salvo engano inspirado na comemoração de uma torcida argentina. A proteção de acrílico não suportou a pressão feita pelos torcedores e cedeu; algumas pessoas se feriram. Segundo o canal Fox Sports, o Corpo de Bombeiros já avisara da fragilidade da proteção no estádio. E no ano que vem, vai haver Copa por aqui...
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
FOTOPOEMA 293
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A HISTÓRIA POR TRÁS DA(S) FOTO(S) (71)
Quando fotografo, uso a exposição manual. Se eu estiver em uma situação que demande rapidez nos ajustes, como, por exemplo, em fotos de aves durante o voo, uso a prioridade abertura. Na lente, uso o foco automático na grande maioria das situações.
Contudo, as duas fotos desta postagem são exceções, pois nelas usei o foco manual da lente, o que muito raramente faço. Isso ocorreu porque ela não estava conseguindo foco devido à... “fineza” dos assuntos principais: o equipamento focalizava o fundo, não o que eu queria.
Diante disso, um tanto inseguro, decidi-me pelo foco manual, apesar da quase absoluta falta de prática. Fiz duas fotos de cada assunto. Observei-as no monitor da câmera; pareceram-me bem focadas. Contudo, só haveria veredito inapelável depois que elas fossem escrutinadas aqui.
Contudo, as duas fotos desta postagem são exceções, pois nelas usei o foco manual da lente, o que muito raramente faço. Isso ocorreu porque ela não estava conseguindo foco devido à... “fineza” dos assuntos principais: o equipamento focalizava o fundo, não o que eu queria.
Diante disso, um tanto inseguro, decidi-me pelo foco manual, apesar da quase absoluta falta de prática. Fiz duas fotos de cada assunto. Observei-as no monitor da câmera; pareceram-me bem focadas. Contudo, só haveria veredito inapelável depois que elas fossem escrutinadas aqui.
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LETRA DE MÚSICA (34)
Bobagem, fugir do amor.
Tranquilo, ele nos acha.
Vou achar você de novo.
O que você acha disso?
Tranquilo, ele nos acha.
Vou achar você de novo.
O que você acha disso?
Caso eu esteja por aqui,
a porta vai estar aberta.
Entre sempre que quiser:
ela fica aberta para você.
Se estiver fechada, bata.
a porta vai estar aberta.
Entre sempre que quiser:
ela fica aberta para você.
Se estiver fechada, bata.
Saudade mais forte hoje.
É, eu tento lidar com ela,
que no coração não cabe.
Sempre gigantesca agora,
sempre enorme bem aqui.
É, eu tento lidar com ela,
que no coração não cabe.
Sempre gigantesca agora,
sempre enorme bem aqui.
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"MEMÓRIA DE MINHAS PUTAS TRISTES"
Um dia desses, perguntaram-me se eu havia lido o “Memória de minhas putas tristes”, do Gabriel García Márquez; a tradução é de Eric Nepomuceno. Eu disse que li quando foi lançado, mas que não havia me entusiasmado com o trabalho. A pessoa que me perguntou sobre minha leitura disse que havia gostado muito.
Fiquei com isso na ideia e decidi reler o livro recentemente. Só digo: não sei onde eu estava com a cabeça quando não vi a beleza que há no escrito. Eu havia gostado pouco. Antes da releitura eu não poria “Memória de minhas putas tristes” no panteão das obras do autor. Agora, mudei de ideia.
A temática do amor na velhice não é novidade no escritor colombiano; mesmo assim, nem enredo nem personagens soam como mais do mesmo. Narrado em primeira pessoa, procedimento que não é regra em García Márquez, “Memória de minhas putas tristes” é a história de um velho que decide se dar de presente, no dia em que completaria noventa anos, uma noite de amor com uma adolescente virgem.
Em tempos de engajamento contra a pedofilia, o anúncio de um enredo assim pode sugerir algo insidioso. Entretanto, não é o que exala das páginas do livro, que é um hino à vida, ao amor. Com seu usual senso de humor, García Márquez vai narrando as mudanças pelas quais passa um velho que se vê, de repente, louco de amor.
No que poderia haver repugnância, há uma história tocante, engraçada, lírica e reveladora das coisas que só o amor, e mais nada, leva-nos a fazer. História bonita, a qual mostra que ele, o amor, embora seja sempre o mesmo, não tem regras.
Fiquei com isso na ideia e decidi reler o livro recentemente. Só digo: não sei onde eu estava com a cabeça quando não vi a beleza que há no escrito. Eu havia gostado pouco. Antes da releitura eu não poria “Memória de minhas putas tristes” no panteão das obras do autor. Agora, mudei de ideia.
A temática do amor na velhice não é novidade no escritor colombiano; mesmo assim, nem enredo nem personagens soam como mais do mesmo. Narrado em primeira pessoa, procedimento que não é regra em García Márquez, “Memória de minhas putas tristes” é a história de um velho que decide se dar de presente, no dia em que completaria noventa anos, uma noite de amor com uma adolescente virgem.
Em tempos de engajamento contra a pedofilia, o anúncio de um enredo assim pode sugerir algo insidioso. Entretanto, não é o que exala das páginas do livro, que é um hino à vida, ao amor. Com seu usual senso de humor, García Márquez vai narrando as mudanças pelas quais passa um velho que se vê, de repente, louco de amor.
No que poderia haver repugnância, há uma história tocante, engraçada, lírica e reveladora das coisas que só o amor, e mais nada, leva-nos a fazer. História bonita, a qual mostra que ele, o amor, embora seja sempre o mesmo, não tem regras.
APONTAMENTO 171
“O que há num nome?”. O que há na Dublin de Joyce? O que há no sertão de Guimarães Rosa? O que há na Ipiranga e na São João? O que há em Yoknapatawpha? O que há em Macondo? O que há em Coromandel? O que há em você? O que há em mim?... Nada demais em nada disso. É a arte que torna encantado qualquer lugar e encantada qualquer pessoa. Sem ela, não há encanto. Nem em você nem em mim nem em nenhum lugar.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
FOTOPOEMA 292
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FOTOPOEMA 291
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domingo, 27 de janeiro de 2013
SANTA MARIA
The
first
kiss
was
the
last
one.
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sábado, 26 de janeiro de 2013
CONTO 57
O namoro terminara há um ano. Ana Clara não estava totalmente refeita: sempre notívaga, desde o malogro do relacionamento havia trocado os sons da noite pelo silêncio do travesseiro. Mas devido à insistência de Amanda, uma amiga, Ana Clara, muito a contragosto, cedeu. Vestiu-se sem grandes pretensões e com desânimo; as duas foram a uma boate. Ana Clara, de súbito, viu-se de volta a seu mundo. Envolveu-se com as luzes, com a dança e com Gabriel. A sedução começou na dança e teria continuado fora da boate. Agarrando Amanda pelo braço, Ana Clara exigiu que fossem embora naquele instante. Alegou que seria melhor. Amanda tentou argumentar. Ana Clara disse então que não cederia aos encantos de Gabriel porque havia um furinho do lado esquerdo na calcinha dela.
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
BLOGUE LIVIANO EM JORNAL DE UBERLÂNDIA
Pessoas, desde a semana passada, tenho um espaço na página eletrônica do jornal Correio de Uberlândia. Fiquei contente por eles terem topado, pois assim tenho a oportunidade de divulgar o que faço em outra cidade.
O “site” do jornal está sendo reformulado. Caso alguém vá até lá conferir, navegue pelas postagens a partir dos títulos delas, que estão à direita da página. Para conferirem, basta clicar aqui.
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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
O DESPERTAR DE BRUNO FONTOURA
É incrível como algumas canções conseguem nos capturar de imediato. Bastaram os primeiros acordes de “Despertar”, de Bruno Fontoura, para que me ocorresse: “Putz. Demais!”.
Quando me torno cativo de uma canção, eu a escuto inúmeras e inúmeras vezes — seguidamente. Já nem sei quantas vezes escutei “Despertar” hoje.
Um belo arranjo, uma bela melodia, uma bela letra (abaixo) do músico, cantor e psicólogo Bruno Fontoura. O artista foi o tecladista da banda O Gabba no CD “Alerta”, um discaço.
Quando ainda garoto, o Bruno vinha muito aqui em casa, pois ele era colega do Edgar, meu irmão caçula. Nesse tempo, os dois já estavam às voltas com os teclados. Mal o Bruno chegava e eu pedia a ele para “atacar” de “Electricity”, do OMD.
Ficamos sem contato por um bom tempo, quando novamente passei a conviver com ele, dessa vez como professor dele no antigo Colégio Objetivo, aqui em Patos. Tempos depois, quando a formação original de O Gabba já havia sido desfeita, tive a grata surpresa de conhecer o Bruno cantor.
Ele cria discretamente. A impressão que tenho, é a de que realiza seu trabalho sem pressa, do jeito que lhe agrada, no ritmo que lhe convém, sem ter de dar satisfação a nenhum tipo de pressão, o que é um baita privilégio.
“Despertar” tem uma atmosfera tranquila, pacificadora; é um alento musical. Tem um otimismo bonito, embalado pelo jeito comedido de o Bruno cantar. Quanto à letra, os versos “não há destino escuro aqui / que eu não possa clarear” são de uma beleza sublime e espantosa.
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Despertar - Bruno Fontoura (Bruno Fontoura)
Faça tudo cedo.
Deixe todo enredo ficar pra trás.
O que se faz mais cedo
é muito menos peso pra se deixar.
E tudo que lhe causa medo,
será só mais algum brinquedo
e nunca mais vai causar.
Se o que lhe toca veio,
sempre há um meio de se livrar.
Apague todo medo,
se livre do receio de se entregar.
Sempre vai haver caminhos
e nele trilhará sozinho;
nalgum lugar brilhará.
O sol. Nasceu a luz.
À noite lua clareia.
Não há estrada escura aqui
que eu não possa caminhar.
O sol quem me conduz;
à noite, lua, fogueira.
Não há destino escuro aqui
que eu não possa clarear.
_____
Despertar - Bruno Fontoura (Bruno Fontoura)
Faça tudo cedo.
Deixe todo enredo ficar pra trás.
O que se faz mais cedo
é muito menos peso pra se deixar.
E tudo que lhe causa medo,
será só mais algum brinquedo
e nunca mais vai causar.
Se o que lhe toca veio,
sempre há um meio de se livrar.
Apague todo medo,
se livre do receio de se entregar.
Sempre vai haver caminhos
e nele trilhará sozinho;
nalgum lugar brilhará.
O sol. Nasceu a luz.
À noite lua clareia.
Não há estrada escura aqui
que eu não possa caminhar.
O sol quem me conduz;
à noite, lua, fogueira.
Não há destino escuro aqui
que eu não possa clarear.
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VAI UM CAFEZINHO?...
Fazer esta foto não foi fácil. Não pela dificuldade técnica: é que eu estava sozinho. Tive de segurar a câmera, fazer o foco e despejar o café na xícara.
Como não gosto de fotografar observando a composição no visor maior (o “live view”), mas, sim, “colando” a câmera no rosto, para maior firmeza, isso dificultou um pouco mais, pois eu tinha de olhar pelo visor menor e despejar o café — sem olhar para a garrafa; não olhei para ela porque para fotografar fecho o olho esquerdo.
Era minha intenção fazer com que a garrafa não aparecesse no quadro. Eu a aproximei da xícara, comecei a despejar o café e a afastei. Outro desejo antes mesmo de tirar a foto era desfocar bem o fundo. Para tal, usei f/1.8 (a abertura máxima da lente é f/1.4).
O procedimento de segurar a câmera e despejar a bebida acabou fazendo com que eu “desperdiçasse” quatro xícaras, aprontando a maior lambança sobre a mesa. Mas, no fim das contas, valeu a pena: o café, que acabara de ser feito momentos antes da sessão de fotos, ficou o “bicho”. Aceita?...
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PUBLICAÇÕES
A Piauí de janeiro tem uma tradução, feita por Mario Sergio Conti, daquele famoso trecho do Proust — o episódio da madalena, um bolinho que o narrador toma com chá. A experiência faz com que ele resgate o passado e, por consequência, escreva o texto.
Também na Piauí, um hilariante diário fictício de Dilma Rousseff. André Lara Resende escreve sobre o otimismo. Há ainda uma breve matéria sobre um concurso de cartas de amor que foi realizado em Belo Horizonte.
O jornal Le Monde Diplomatique Brasil deste mês tem um editorial sobre a corrupção no Brasil; um marco. Há texto que pergunta se as chamadas “commodities” [bens em estado bruto, de origem agropecuária ou de extração mineral ou vegetal] são o novo sigilo fiscal dos suíços.
A Alfa, também deste janeiro, tem um perfil de Nelson Piquet. Na edição, uma bela matéria e um belo ensaio fotográfico com a cantora Céu. Indico finalmente o texto sobre Daniel Day-Lewis.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
FOGO
“Vídeo” e texto: Lívio Soares de Medeiros. Trilha: freeplaymusic.com.
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CONTO 56
Almeidão levou o maior susto. Logo pela manhã, saindo para o trabalho, a vizinha, sem tergiversar, deu-lhe uma cantada que era quase um ultimato. Diante da cara abobalhada dele, Susana garantiu sigilo, afiançando que ela tinha namorado, e que sabia que ele tinha namorada. Durante todo o dia, a história ficou na cabeça dele como coceirinha que, se não chega a incomodar, também não deixa esquecer que existe. À noite, leu Rilke: “Em minha vizinhança havia uma mulher / que me acenava com seus vestidos ousados”. Contudo, ao marcar com caneta os versos, deu-se conta de que lera incorretamente: em vez de “ousados”, o correto é “usados”. Almeidão pôs o livro na mesa de cabeceira, apagou a luz, deitou-se e repetiu para si, cinco vezes, que não sonharia com a vizinha.
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
APONTAMENTO 170
O banho é um dos modos de a gente se passar a limpo.
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FOTOPOEMA 290
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domingo, 13 de janeiro de 2013
ATÉ DEBAIXO D'ÁGUA
O Nivaldo, meu irmão, sempre foi muito inventivo e sempre teve grande habilidade para trabalhos manuais. Recentemente, descolou alguns peixes, e ele mesmo fez o móvel que comporta o aquário. Diz o Nivaldo que vai agora se dedicar, como passatempo, a fabricar móveis...
Não bastasse esse lado criativo e habilidoso, ele sempre foi meio “MacGyver”: é quem conserta meu computador, instala programas de que preciso etc. Não há muito tempo, consertou meu iPod, que eu já dera como perdido.
Hoje, deixei na casa dele uma parafernália fotográfica que está estragada... Ele brincou, dizendo que vai tentar fazer pelo menos uma câmera a partir das três que deixei por lá. Também com ele, estão duas lentes com fungos; ele certamente vai se divertir com elas, desmontando-as e limpando-as.
Eu, que até hoje mal consigo amarrar os cadarços dos sapatos (sic), fico admirando as invencionices e os consertos com os quais o Nivaldo se vira. Desmonta equipamentos, destrincha engrenagens e tem prazer em entender como funcionam os mecanismos das coisas.
Hoje, mais cedo, na casa dele, tirei algumas fotos dos peixes. Um deles, muito arisco, manteve-se escondido em meio às plantas. Mas ainda quero voltar lá, na tentativa de fotografá-lo...
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Nivaldo Soares de Medeiros
THE ROLLING DROPS
Nada como férias e uma gostosa garoa... Há mais ou menos uma hora, preparando-me para fazer café — a única coisa que aprendi a fazer decentemente na vida —, olhei pela janela da cozinha e vi as gotas da chuva escorrendo pelo arame em que as roupas são penduradas. Veio-me então a ideia para o texto, seguida pela ideia do “vídeo”.
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
HENRI CARTIER-BRESSON
Ontem, enquanto lia um volume com algumas fotografias de Cartier-Bresson (1908-2004), fiquei sabendo que ele dedicou-se inicialmente à pintura; depois, até 1970, à fotografia; a partir daí, abandonou a fotografia para dedicar-se novamente à pintura. Sua primeira reportagem fotográfica foi publicada em 1932.
Não conheço nada do trabalho dele como pintor, mas a capacidade que ele tinha para revelar a poesia do cotidiano ou de cenas "comuns" é fabulosa. Suas fotos têm composições impecáveis, leveza, senso de humor. Aquela coisa dele de buscar o “instante decisivo” é fenomenal. As fotos de Cartier-Bresson são “pinturas”.
Sempre digo que muito do ato de fotografar está na composição da imagem. Nesse sentido, deliciar-se com as fotos criadas pelo olhar apurado de Cartier-Bresson é ter, de quebra, uma agradabilíssima aula de como compor uma imagem fotográfica. Em suas composições, surge o cotidiano, com suas belezas, graças e instantes — que não se repetem. Cartier-Bresson é mais um a tornar evidente que todo e cada momento tem sua beleza.
APONTAMENTO 169
Em Eduardo Galeano, não sei o que é melhor: se a literatura ou se a voz.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2013
OS TONS DE GRAY
Li recentemente, da editora Landmark, a edição bilíngue (português e inglês) de “O retrato de Dorian Gray”. A despeito da bela encadernação e da sobrecapa, a publicação saiu com alguns errinhos de digitação. Se por um lado isso não compromete seriamente o trabalho, por outro, é algo que precisa ser corrigido em possíveis futuras edições.
Texto da própria editora diz na sobrecapa: “Oscar Fingall O’Flahertie Wills Wilde publicou inicialmente ‘O retrato de Dorian Gray’ no periódico norte-americano ‘Lippincott’s Monthly Magazine’ [...], 10 anos antes de sua morte. Esta primeira versão é o lançamento que a editora Landmark promove junto aos seus leitores com os treze capítulos originais [...], sem as alterações posteriores da versão inglesa”.
Ora, exultei, não somente por ter o texto original, em inglês, nas mãos, mas principalmente por ter a oportunidade de ler a primeira versão do romance. Mas terminada essa leitura, foi inevitável refazer uma outra, a que contém as alterações posteriores, bem como inevitável foi o cotejamento entre as duas versões.
Vejam só: quando li o livro pela primeira vez, tive a impressão de que nada estava sobrando. O texto dessa primeira leitura é a versão inglesa, com vinte capítulos. Pois bem: a primeira versão do romance, repito, tem treze capítulos...
Ainda assim, manteve-se aquela primeira impressão de que não há coisas supérfluas na versão mais conhecida da obra, com os vinte capítulos. A diferença cabal é que na versão publicada pelo periódico americano os fatos são narrados com mais sutileza, são mais sugeridos do que escritos. Na versão inglesa, personagens são acrescidos, bem como, naturalmente, situações.
Ainda de acordo com o texto da Landmark, quando o texto foi lançado na Inglaterra, os editores da Ward Lock exigiram modificações na obra. Assim, sou levado a crer que o fato de as coisas serem ditas de modo mais óbvio na edição inglesa se deva a uma pressão dos editores, talvez numa tentativa de “facilitar” para os leitores, supostamente garantindo melhores vendas.
Contudo, indico a leitura das versões americana e inglesa — nessa ordem. É curioso acompanhar as modificações feitas por Wilde nos desdobramentos do enredo. Mas, ainda assim, algo cabal não se modificou: a psicologia dos personagens.
Não vou exagerar e dizer que Dorian Gray seja pouco interessante. Contudo, a personalidade mais rica da obra é a Lorde Henry Wotton. É ele quem confere um saboroso senso de humor ao livro, é dele que rimos, é dele que discordamos... Por fim, é ele quem exerce nefasta influência sobre o jovem Dorian Gray. À medida que a ação se desenrola, há falas de Dorian que bem poderiam ser de Henry.
Lorde Henry é sofisticado, rico, tem cultura, senso do belo. Sua voz é bonita, sua conversa é sedutora; com elegância, faz pilhérias, ridiculariza; é o “bon-vivant” que sabe extrair da vida as possibilidades que o dinheiro lhe proporciona. Contudo, é extremamente cínico. Fica-se com a impressão de que os cinismos de seus hilariantes aforismos não sejam necessariamente ditos por quem tem uma vida em paz.
No fim do livro, tanto na versão americana quanto na inglesa, Lorde Henry é o próprio a dizer: “Gostaria de trocar de lugar com você, Dorian”. Henry diz isso num momento em que exaltava a extrema beleza física de Dorian.
Tem-se uma situação inquietante: Henry, com sua fulgurante inteligência, e Dorian, com sua acachapante beleza, são insatisfeitos. O que vou dizer pode soar piegas, mas é sugerido que ambos não têm algo “simples”: a capacidade de amar. Estão voltados demais, de modo egoísta e vaidoso, para si mesmos.
A história de um jovem que se convence da própria beleza e que se diz predisposto a fazer o que for preciso para não envelhecer é um tema instigante. A história de alguém que vê, num quadro, a própria alma sendo conspurcada em nome da frivolidade é por demais sedutora para não ser lida.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
"O IMPOSSÍVEL"
Um título chamativo é um ótimo começo. Contudo, o título “O impossível” [The impossible, 2012], do diretor Juan Antonio Bayona, soa estranho.
Digo isso porque o filme conta uma história... possível... Por mais improvável ou incrível que seja, ela ocorreu — o filme é baseado em fato que aconteceu em 2004, na Indonésia.
À parte isso, a produção conta com Naomi Watts e Ewan McGregor. Também no elenco, o garoto Tom Holland.
As primeiras cenas, a despeito do astral de felicidade vivido pela família (que na vida real é espanhola), já têm um clima sinistro, de suspense, quase de terror. E apesar da história narrada, “O impossível” não deixa de mostrar a impotência humana diante das manifestações da natureza.
Outro ponto que me chamou a atenção é o foco no drama de indivíduos. Hoje em dia, por exemplo, quando a gente vê bombas explodindo na TV, não vemos as dores de quem está lá (“a dor da gente não sai no jornal”), como se guerras fossem assépticas.
Toda tragédia tem seus personagens. Ao escolher se focalizar numa família, “O impossível” nos apresenta, sem assepsia, cinco seres humanos lutando pela vida, mas, ao mesmo tempo, não apela para esguichos de sangue gratuitos.
O filme não ameniza; contudo, não se vale de recursos hiperbólicos ao mostrar o clima doloroso que o permeia. O diretor conseguiu o equilíbrio, bem como uma bela atuação de Naomi Watts.
domingo, 6 de janeiro de 2013
FOTOPOEMA 289
A rigor, um texto não precisa ser explicado. Ademais, nem aquele que escreve é capaz de precisar todas as influências ou motivos latentes no que ele escreve.
Ainda assim, tenho a impressão de que este texto é influência da canção “Disconnected”, da banda Keane. Mas não há certeza nisso. É só um palpite.
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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
FILME SOBRE RENATO RUSSO SERÁ LANÇADO
Uma cinebiografia de Renato Russo, ainda sem data de estrear, terminou de ser filmada. A película, intitulada “Somos tão jovens”, vai abordar a adolescência e a juventude do roqueiro, na intenção de “explicar” como Renato Manfredini Júnior (nome real do roqueiro) tornar-se-ia Renato Russo. O diretor é Antônio Carlos da Fontoura.
Um projeto com tal intenção não poderia deixar de abordar o primeiro show do Legião Urbana, que foi realizado aqui em Patos de Minas no dia cinco de setembro de 1982. A efeméride está no filme. Contudo, as cenas foram rodadas em Paulínia/SP.
O vídeo desta postagem tem cenas dos bastidores de “Somos tão jovens”. Uma delas mostra o Philippe Seabra, ex-integrante da Plebe Rude, fazendo o papel do prefeito local, que na época era Dácio Pereira da Fonseca.
Seabra, penso, foi escolhido por também ser da turma do rock de Brasília em fins da década de 70 e começo da de 80. Mas como sou daqui, não deixei de achar um tanto engraçado o ex-integrante da Plebe Rude fazer o prefeito da época aqui em Patos. Além do mais, a Plebe Rude também esteve aqui naquele cinco de setembro. Seabra já falou disso.
Renato Russo será interpretado por Thiago Mendonça. O ator foi o Luciano, aquele que forma a dupla com o Zezé, no filme “Dois filhos de Francisco”. Dado Villa-Lobos será interpretado por Nicolau Villa-Lobos; este é filho daquele. (Penso que para um pai isso dever ser a glória, não?) Para mais informações sobre o filme, clique aqui.
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