terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A história por trás da foto (88)

Poder-se-ia argumentar — com razão — que um pôr do sol como este mereceria um cenário em que não houvesse a poluição visual urbana. Por isso, justifico o registro: há algum tempo, percebi que por estes dias o Sol tem se escondido num local em que o fim da rua Duque de Caxias, onde moro, torna-se, por assim dizer, o ponto em que o Sol tem se posto.

Ciente disso, venho ensaiando uma foto de Sol se pondo, mas sempre acabava me esquecendo. Hoje, haveria o esquecimento novamente. Só que, vindo de bar e chegando aqui, reparei que haveria tempo de pegar a câmera e tirar a foto. Se eu tiver a oportunidade ou se eu me lembrar, tentarei, num próximo clique, mostrar a rua, para que fique mais claro que o Sol tem se posto no fim da Duque de Caxias. Em postagem futura, insiro foto deste pôr do sol sem o cenário urbano. O registro foi realizado há pouco. 

Fotopoema 385

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Fotopoema 384

"Os três porquinhos"

À medida que o tempo vai passando, percebo que minhas leituras vão se voltando para autores ou temáticas que já me atraíam na infância e na adolescência. A continuar assim, caso eu chegue, por exemplo, aos oitenta anos, vou estar lendo nesse tempo “Os três porquinhos”. 

Aeromoça

Queria novos ares.
Após uma noite tranquila,
acordou cheia de aeroplanos. 

Minha convivência com Rabindranath Tagore

O livro não tem mais capa. É o quarto volume (o único que tenho) de uma série intitulada “As mais belas poesias”. A organizadora é Niza Carvalho. A edição que tenho não tem as duas últimas páginas.

Foi nesse pequeno volume, o qual tenho agora em mãos, em que li, pela primeira vez, o nome Rabindranath Tagore (1861-1941), poeta indiano, prêmio Nobel em 1913. Quando passei a lidar com o “As mais belas poesias”, eu devia ter uns sete ou oito anos. A primeira coisa que me chamou a atenção não foram nem tanto os dois poemas dele que estão na coletânea, mas o nome de Tagore.

Mesmo hoje, não sei como se pronuncia corretamente esse nome. Na infância, eu o ficava lendo em voz alta, gostando da sonoridade que eu mesmo criava. À parte isso, “As mais belas poesias” foi um livro muito importante para mim, bem como os volumes de “As mais belas histórias”.

Tanto um quanto o outro eram ilustrados. Como eu me lembro de tentar desenhar essas ilustrações. Como desenhista, um fiasco, mas se eu tiver de mencionar circunstâncias que me tornaram leitor, não posso deixar de mencionar essas obras. Posteriormente, na adolescência, eu voltaria a Tagore, dessa vez lendo um livro que traz conversa entre ele e o Einstein. Recentemente, voltei ao indiano. Li “Gitanjali — Oferenda lírica” e “Meditações”.

Este foi publicado pela Ideias e Letras; a tradução é de Ivo Storniolo. “Meditações” contém ensaios em que se condensam boa parte das ideias do poeta. Nos textos do livro, Tagore reitera diversas vezes o caráter religioso que perpassa seus atos e seus pensamentos. À parte a religiosidade, é um livro com muito a dizer para o século XXI. As ideias de Tagore propõem o desapego das coisas mundanas; até aí, nada de original. Mas ao realizar sua proposta, o escritor não deixa de evidenciar o quanto a vida moderna nos esmaga, matando nossa criatividade e nosso potencial inventivo.

No primeiro ensaio, intitulado “Natureza da arte”, ele escreve: (...) “A burocracia trata de generalizações, e não de homens. E, portanto, não lhe importa incorrer em crueldades da pior espécie”. Não bastasse ter sido crítico contumaz deste mundo cheio de papéis e de regras que assassinam nosso espírito criador, Tagore, a despeito de sua religiosidade, passa longe de radicalismos desarrazoados. Ainda no “Natureza da arte”, tem-se: “Em nome da religião foram consumados crimes que esgotariam todos os castigos do inferno, porque em seus credos e dogmas a religião aplicou um enorme anestésico sobre boa parte dos sentimentos da humanidade”.

Importante reafirmar que o escritor não foi um iconoclasta. Pleno de uma conduta de espírito oriental, Tagore reitera nos ensaios a postura religiosa de que nunca abriu mão, seja discutindo sobre a arte, seja expondo ideias pedagógicas (caso, por exemplo, do ensaio “Minha escola em Bengala”). Desnecessário dizer que os adeptos da espiritualidade oriental, que Tagore contrapõe à ocidental, têm no poeta terreno fértil para suas meditações. Todavia, se devidamente lido, Tagore tem muito a ensinar para todos; principalmente para nós, tolos velocistas de um progresso ilusório e castrador de nosso potencial criativo. 

BEAUTIFUL MONDAY

O dia amanheceu muito bonito. Eu até me lembrei daquela canção, “Beautiful Sunday”, cantada pelo Daniel Boone (há uma versão em português interpretada pelo Ângelo Máximo). 

Sim, hoje não é domingo, mas a natureza não sabe que é segunda-feira. A natureza pode gerar um céu de azul bonito numa terça ou numa quinta. Cantemos com o Daniel Boone. Se for o caso, substituamos “Sunday” por “Monday”.

domingo, 31 de janeiro de 2016

CRUZEIRO 0 x 0 URT

Há pouco, no Mineirão, não se pode dizer que a URT tenha feito uma bela partida diante do favorito Cruzeiro, em partida válida pelo campeonato mineiro. O Cruzeiro também não fez um belo jogo. Deixando de lado a beleza, e falando de eficácia, a URT foi mais eficaz do que o Cruzeiro porque o time de Patos de Minas cumpriu aquilo que se propôs a fazer.

Seria suicídio da URT tentar jogar contra o Cruzeiro de modo ofensivo. Assumindo ser inferior, a equipe patense optou pela estratégia do contra-ataque, investindo pata tal numa disciplinada marcação. A tática funcionou, mesmo levando-se em conta o maior número de chances que o Cruzeiro teve. Diante das circunstâncias, o empate contra o Cruzeiro lá no Mineirão não é um resultado ruim para a URT.

A primeira meia hora de jogo foi chocha. Só no último terço do primeiro tempo é que o Cruzeiro impôs um andamento mais rápido ao jogo. No segundo tempo, com um calor menos inclemente dentro de campo, o Cruzeiro, não só sendo mais veloz, tentava pressionar a URT, mas nem as três alterações feitas de uma vez por Deivid, técnico cruzeirense, conseguiram fazer com que a Raposa marcasse. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

ENCONTRO COM LEITORES

Ontem, a leitora Vanessa Honorato entrou em contato comigo. Na ocasião, comentou que mora numa fazenda perto de Lagamar, e que estaria em Patos de Minas hoje. O motivo de ela ter entrado em contato foi este: Vanessa disse que gostaria de adquirir o Dislexias, meu mais recente livro. No contato de ontem, perguntou-me se haveria a possibilidade de nos encontrarmos hoje, para que ela pegasse o trabalho comigo.

Assim foi. Na hora do almoço, eu me encontrei com a Vanessa, o Sergio, com quem ela é casada (ele disse que é ouvinte do Conta-gotas, programa que gravo para a Clube FM), com a Rynatta e com o Gabriel (filhos do casal). Tanto Vanessa quanto Sergio leem com frequência. Que os filhos deles, que ainda são crianças, tomem gosto pela leitura à medida que forem crescendo.

Quando comentei com a Vanessa estar inseguro sobre se ela gostaria do Dislexias, ela disse para eu ficar tranquilo, afirmando que já era minha leitora e que já vinha lendo textos meus em meu blogue, o que me surpreendeu. A você, Vanessa, e a você, Sergio, obrigado pelo encontro e por se predisporem a ler o Dislexias. Abraços para todos.

E confirmando: o lançamento do livro será no dia 19 de fevereiro, no Bar e Restaurante Armazém. Fica na Doutor Marcolino 113, Centro. A partir das 20h30. 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

JAY-Z EM "LOST"

O trecho que o Jay-Z fala em “Lost”, do Coldplay, vai muito além de ser uma bela reflexão sobre o lado trágico que o sucesso ou a fama pode trazer. Por conter essa reflexão, o trecho já é riquíssimo. Não bastasse, os argumentos e os questionamentos que desenvolve acabam resvalando para a filosofia, a sociologia e o comportamento pérfido da mídia. Brilhante. 

APONTAMENTO 314

Um trágico acidente numa esquina local. Um infarto definitivo. Um sono que não desperta. Um assassinato. Por muito tempo, pensei que todos os atos de um homem convergiam para sua morte. Até agora, eu concebia a morte como o auge do homem. Não. O auge de todo homem é seu agora. Um desses “agoras” é a morte. Ela é mais um dos apogeus de qualquer homem. 

APONTAMENTO 313

Não há finalidade premeditada por algum desígnio no que nos acontece. As coisas nos acontecem para que, a partir daí, criemos uma finalidade para elas. 

domingo, 24 de janeiro de 2016

PALAVRA E SILÊNCIO

Chega o momento 
em que todas as palavras foram ditas.
Chega o momento 
em que é preciso se calar.
Chega o momento 
em que é preciso aceitar 
que as palavras podem não ser o bastante.
Chega o momento 
em que é preciso se retirar.

Não para descrer do poder da palavra.
Não para investigar só o poder do silêncio.
Ele me espera ao lado.
Vou para lá feito de palavra.
Voltarei para cá feito de silêncio.

Com silêncio e com palavra,
vou me compondo.
Em breve, trarei uma canção. 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

PARA MARÍA E PARA JORGE

Sei de algumas palavras que Jorge
ofereceu a María.
Sei de algumas palavras que María
ofereceu a Jorge.
Leio essas palavras que 
receberam um do outro.
Quando os olhos deles as percorreram,
que esses portenhos tenham ficado
tão felizes quanto eu ao ler o que
ofertaram um para o outro.
Amor é também gratidão. 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

FOTOPOEMA 382

ANTES DO CORPO

Mapear teu corpo
com minhas mãos,
com meus lábios,
com minha língua,
com meus dentes.

Teu cheiro,
tua boca,
tua língua,
teus dentes,
tua pele.

Amor,
quando vem
antes do corpo,
é amor que anseia
pelo amanhã.
Volta amanhã.

E fica. 

domingo, 17 de janeiro de 2016

OUVIDO RUIM (2)

Mais uma para a lista das letras que foram escutadas incorretamente. Há pouco, eu estava curtindo “Loser”, do Beck (gosto demais dessa canção). No melodioso refrão, eu cantava: “So open the door / I’m a loser, baby / So why don’t you kill me?”. (Então abra a porta / Sou um perdedor, querida / Então por que você não me mata?)

Pois bem: como havia trechos da parte falada que eu não entendia em totalidade, fui ao Google conferir a letra. Foi quando ocorreu a revelação: o refrão tem uma estrofe em espanhol. Assim, a versão correta é: “Soy un perdedor / I'm a loser, baby, so why don't you kill me?”. (Sou um perdedor / Sou um perdedor, querida, então por que você não me mata?) 

CASAS PARA O AMOR

Melindroso, sutil, onipotente.
Circulando por entre as criaturas,
o amor quer morar em corações.
A porta pode estar fechada.
O amor entra mesmo assim.
A porta pode estar calada.
Não quer dizer ausência de amor.
Habitante voraz, toma conta
de cada cômodo da casa.
O amor é que escolhe.
Desdenha dos personagens.
Mofa das circunstâncias.
O amor quer saber de si.
O amor quer acontecer. 

sábado, 16 de janeiro de 2016

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

QUANDO TIVE MEU PRIMEIRO LIVRO EM MÃOS

O Neruda, no “Confesso que vivi”, escreve que não há emoção que se compare à que acontece quando um autor tem em mãos, pela primeira vez, o primeiro livro que escreveu. Isso não me saiu da cabeça, pois, quando li o “Confesso que vivi”, eu já tinha a intenção de em algum dia publicar um livro.

Não me emocionei quando tive em mãos um exemplar do Leve poesia, meu primeiro livro. Na época em que o livro foi editado, as gráficas enviavam para o autor o que chamavam de boneco: em folhas de sulfite devidamente dobradas e grampeadas, havia a diagramação do livro, o aspecto de como ele ficaria quando pronto. Esse boneco servia para que uma última revisão no escrito fosse feita.

Quem me entregou o boneco do Leve poesia foi o Lazinho, um vizinho de infância que tive. No tempo em que o livro estava sendo feito (a obra foi lançada no fim de 2000), o Lazinho trabalhava na gráfica onde o Leve poesia foi impresso. Como ele me conhecia, trouxe até mim as folhas de sulfite dobradas e grampeadas. Eu me emocionei com o boneco! A simples “cara” de livro que ele tinha foi o bastante para me comover. Fiquei muito feliz. Depois, quando tive, de fato, o livro em mãos, não senti nada. “Gastei” a emoção com o boneco. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

CONTO 84

César acha que o mais belo dom que há é o dom de cantar; ele sabe escrever. Tatiane acha que o mais belo dom que há é o dom de escrever; ela sabe cantar. Ambos se arriscam como compositores. Certo dia, conheceram-se. Começaram namoro. Um admirava o dom do outro. Por brincadeira, decidiram compor uma canção. César cantaria; Tatiane faria a letra. Ficou horrível. Deram-se por vencidos. Voltou cada um para seu dom; compuseram outra canção. César escreveu a letra; Tatiane cantou. Ficou horroroso. 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

MEU LIVRO JÁ À VENDA

Como dito, em breve, lançarei Dislexias, meu mais recente livro. O evento será depois do carnaval. Ainda não defini nem data nem local.

Contudo, caso você queira, já é possível adquirir o livro pela página eletrônica da Chiado, editora portuguesa por intermédio da qual o livro saiu. Basta clicar aqui. Há a versão em papel e a versão em “e-book”.

Em breve, o livro estará à venda nas livrarias do Brasil também. Quando estiver, confirmo. 

APONTAMENTO 311

Amor é gostoso em qualquer idade. Insípido é não amar. 

APONTAMENTO 310

Minha razão me diz que não há hierarquia dos dons. Não há um dom mais belo do que outro. Todo dom é belo. É o que me diz a razão. Meu coração me diz que não há dom mais belo do que o de cantar. 

GOTAS

Manhã de chuva mansa
é para ser compartilhada. 
Gota a gota. 
Até o ponto em que
os corpos, molhados, 
queiram descanso. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

ENTREGA DE MEU LIVRO É REALIZADA

Hoje, no fim da manhã, recebi os exemplares de Dislexias, meu próximo livro a ser lançado. O envio foi feito pela Chiado, editora portuguesa pela qual estou publicando. Ainda não defini nem data nem local do lançamento. Do que sei, é que será depois do carnaval. 







domingo, 10 de janeiro de 2016

APONTAMENTO 309

A diferença entre literatura e jornalismo é que a literatura se propõe a buscar a verdade. 

"QUE HORAS ELA VOLTA?"

Assisti ontem ao poderoso “Que horas ela volta?” (2015), da diretora Anna Muylaert, que é também a roteirista. Que filme bonito, que filme necessário. É uma obra cheia de implicações e de possibilidades, mostrando, por intermédio de história ocorrida em casa de família classe média de São Paulo/SP, um microcosmo do que é a mentalidade de parte da população brasileira, a partir da relação entre patrões e empregados.

Val, interpretada por Regina Casé, é uma empregada doméstica que há tempos trabalha para a família de Bárbara (Camila Teles). Bárbara é casada com Carlos (Lourenço Mutarelli); eles têm um filho adolescente, Fabinho, interpretado por Michel Joelsas. Tudo parece ir bem até o dia em que Jéssica (Camila Márdila), filha de Val, liga para a mãe, dizendo que irá para São Paulo (Jéssica mora no nordeste), a fim de prestar vestibular.

Bastam algumas horas de Jéssica na casa dos patrões de Val para que uma série de preconceitos e de estereótipos venham à tona. O mundo de Bárbara e Carlos parece ser sofisticado, civilizado; na casa deles, não se eleva a voz, mas paira uma civilidade que é de plástico e que se sustenta somente em torno do dinheiro e de um mundo de aparências. Fabinho, por exemplo, se precisa de consolo e de carinho, não o procura nos braços da mãe nem nos do pai, mas vai até o cubículo de calor escaldante a que Val é relegada.

Val, simplória nordestina, assimilou o papel que a ela entregaram. Ao chegar, Jéssica, mesmo sem querer, mesmo sem histéricos rompantes juvenis, desestabiliza o ambiente. Não que houvesse estabilidade no lugar; o que Jéssica desestabiliza é o fingimento e o desejo de sofisticação que reinam na casa. O lar de Bárbara e Carlos é falso. O tratamento que oferecem a Val, o qual é travestido de gentileza e de generosidade, na verdade reproduz um velho “apartheid” à brasileira que há séculos considera os pobres como vassalos dos ricos.

Nesse sentido, há uma fala da brilhante Jéssica que considero ponto nevrálgico do filme. Numa cena em que Val está repreendendo a filha, argumentando que ela está tomando liberdades demais na casa de Bárbara, Val sugere à filha que ela está se achando melhor do que os demais. É quando então Jéssica responde que não é que ela esteja se achando melhor, mas que não se acha inferior. A cena diz muito sobre o Brasil, em que há ainda uma parcela da população que se sente desconfortável quando a filha de uma empregada doméstica decide que vai prestar vestibular para uma universidade em São Paulo.

“Que horas ela volta?” não apela para o tom estridente. Não há gritos revoltados por parte de Bárbara, mas a afetada sofisticação dela não é capaz de esconder o ranço e o preconceito que tem contra pobres. Além do mais, Bárbara e Carlos vivem num lar que é esfacelado, doentio. O tom de voz deles, sempre comedido, está a esconder duas almas que navegam num mar de ilusão e de improdutividade.

“Que horas ela volta?” é tão brasileiro, que passa a limpo uma parte do Brasil que é arcaica há séculos no modo como trata os pobres. Uma parte do Brasil que se encanta com as belezas do mundo lá fora, mas que não é capaz de reconhecer as belezas que há aqui. O chique é sempre ir para o exterior. Há uma cena, também genial, em que Fabinho está mostrando fotos de uma praia da Austrália para Val, dizendo a ela que fará intercâmbio lá. Val diz: “Parece o Recife”.

Por fim, a atuação de Regina Casé foi tão, tão genial, que é difícil imaginar outra pessoa no papel. É uma atriz cuja carreira não acompanho: nunca havia assistido a um filme com ela nem nunca havia conferido algum programa que ela fez ou faz na Globo depois do TV Pirata. À parte isso, a atuação dela em “Que horas ela volta?” dá ao filme de Anna Muylaert uma dimensão bela e gigantesca. Val é um Brasil belo e gigantesco. 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

UNO

Há uma sintonia possível.
Uma sinfonia versátil.
Uma interação entre
as criaturas da terra
e as criaturas do (m)ar.
Há de chegar o tempo em que
seremos ondas de alegria. 

HAICAI 46

Há dias em que sou desistência. 
Envolvo-me, então, com algum livro. 
Páginas depois, já sou resistência. 

A PALAVRA DO CORPO

Tu me causas vontades:
desejos de tato,
anseios de poesia.

Tu excitas minha pele,
provocas meu verbo.

Ser teu
em verso
e em corpo.

Sê minha
em palavra
e em gesto.

Ofertemos,
nós dois,
para a luz,
páginas 
e beijos. 

TARDE

Ontem, fui feliz à tarde.
Veio a madrugada.
Eu ainda estava feliz.
Depois, eu fui dormir.
Quando acordei,
já era tarde. 

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

BOCA DO CORPO

Quero tua boca.
Quando falas,
quero tua boca;
quando falo,
quero tua boca.

Eu sei, 
minha boca sabe, 
meu corpo sabe.

Quando eu te beijar, 
minha boca não 
vai se contentar
com a tua.

Quando eu te beijar, 
beijarei tudo o que
teu corpo todo é. 

O AMOR DE CADA UM

Poemas de amor
são inesgotáveis. 
Não que o amor 
seja inesgotável. 
Esgotável, o amor 
é um só apenas. 
O que dá ao amor
feição de infinitude
são os próprios amantes. 
Cada um dá ao amor
a cara que tem, 
por destrambelhada 
ou sóbria que seja. 
Quando é amor, 
o amor é o mesmo. 
Diversos são os amantes. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

MEU LIVRO A CAMINHO DO BRASIL; EM BREVE, DIVULGO LANÇAMENTO

Agora é tarde: recebi confirmação da editora de que meu livro está a caminho do Brasil. Chiado, a editora, é portuguesa; o livro vem de Portugal. Brevemente, confirmo data e local de lançamento.

Dislexias, título da obra, é meu terceiro livro a ser publicado; o primeiro a sair por uma editora. Os outros dois, Leve poesia (2000) e Algo de sempre (2003), foram publicados por conta própria. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

DE OLHO

GODOT

Godot é a espera que mora
em todos nós. 
Em vão, esperamos. 
Esperamos em não, 
aguardando um “sim”
infrutífero que não virá.
Enquanto isso, 
plantemos uma árvore. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

TIÃO NO MUNDO

“Senti-os possuidores de um segredo que não compartilhariam” (Borges).
“Vivo no mundo, mas não faço parte dele” (frase atribuída a J.D. Salinger).

Tião conhece clubes, 
tem emprego, 
percorre corredores.

Um demiurgo cochicha a seu ouvido
que o mundo esconde algo dele.
Tião nunca saberá do que se trata.

A humanidade tem escondido dele 
algo que é partilhado com todos.
Não com ele.
Para ele, é segredo.
Hermético será.

Um truque,
uma artimanha,
um jeito de ser,
uma solução.
A chave não será dele.

Tivesse coragem,
perguntaria aos passantes,
aos amigos
ou à esposa.
Mas não tem.
No Google,
não achou resposta.

Frequenta multidões,
festas, simpósios.
Dirige pela cidade imensa,
joga bola com os amigos,
põe gelo no uísque.

Não adianta.
Ele sabe que
há um jogo 
do qual não faz parte.
Algo que é corriqueiro
e fácil para os outros.

Tião se sente numa festa para a qual 
parece não ter sido convidado.
Sente-se numa festa
para a qual parece 
ter sido convidado. 

domingo, 3 de janeiro de 2016

MINHA PRIMEIRA GRANDE FAÇANHA

Sempre tive a maior dificuldade em lidar com laços, com nós, com fitas. Sabem aquelas borrachinhas que usam para prender dinheiro? Nunca consegui manejá-las para prender dinheiro. Tenho quarenta e cinco anos; até hoje, peno quando tenho de amarrar os cadarços dos calçados que uso. Há todo um ritual metódico que tenho de seguir; se não fizer assim, eu não consigo dar o laço nos calçados. Eu fico impressionado quando observo as pessoas amarrarem os cadarços rapidamente, com destreza, com graça, com naturalidade, como se estivessem respirando. Quem me dera ter essa habilidade.

Minha mãe e meu padrasto vieram almoçar aqui em casa no dia primeiro de janeiro. Somente hoje é que lavei as louças, os copos e os utensílios que foram usados nesse dia. Foi então que se deu o milagre: quando fui colocar o avental, consegui, sem a ajuda de ninguém, dar o laço a fim de deixar a vestimenta presa em meu corpo. Com as mãos para trás, na altura da cintura, manejei as fitas, guiei-me pelo tato e consegui fazer o laço! Desfazê-lo foi fácil também. Depois dessa, descobri-me capaz de realizar grandes feitos. 

INTERCÂMBIO

O verso quer luz. 
Eu o digito. 
E sou iluminado. 

SÓ POR ESCRITO

Ah se a vida te trouxesse 
como os sonhos te trouxeram.
Como não trouxe, 
há dois sonhos, 
o da vigília 
e do sono. 
No do sono, 
fizemos amor; 
no da vigília, 
faço poemas. 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

DIÁLOGO DE RÉVEILLON

— Começou um novo ano. 2016 é um número par divisível por 3.
— E o que você quer dizer com isso?
— Além de que 2016 é um número par divisível por 3, não quero dizer mais nada. 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

DUBAI

Em Dubai, nem todos os fogos são de artifício. E todos queimam ao mesmo tempo. 2016 começou. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

PARA CARLOS

João atira pérolas aos porcos sabendo serem pérolas.
Teresa atira pérolas aos porcos supondo serem pedras.
Raimundo atira pedras aos porcos supondo serem pérolas.
Maria atira pedras aos porcos sabendo serem pedras.

Joaquim se matou por não ter conseguido transformar pedras em pérolas.
Lili e J. Pinto Fernandes criam porcos. 

TITO E O PNEU

DIÁLOGO POP

— Cara, você sabia que o vocalista do Wallflowers é filho do Bob Dylan?
— E o que você quer dizer com isso?
— Eu quero dizer com isso que o Bob Dylan é pai do Jakob Dylan. 

EMPREENDER COM EMOÇÃO

Houve uma época em que a expressão “inteligência emocional” se espalhou mais do que o mosquito da dengue, num tempo em que este não se espalhava tanto como hoje. A tal da inteligência emocional foi um modismo. Não que o conceito estivesse errado (há séculos, sabe-se que a inteligência abarca mais do que habilidades com números), mas era apenas uma expressão marqueteira para se referir a ideias antigas, que há séculos habitam, por exemplo, o mundo da literatura. O engodo reluziu: a inteligência emocional vendeu livros, invadiu as escolas. A estratégia de dar nomes novos para coisas velhas passa, para os desavisados, a ideia de que estão antenados com o que há de mais ousado e inédito, quando estão, na verdade, revisitando (mal) velhos terrenos. Isso deu lucro.

Hoje em dia, a palavra da moda é “empreendedorismo”, que tem se espalhado mais do que o mosquito da dengue, num tempo em que este se espalha muito. O tal do empreendedorismo é um modismo. Não que o conceito esteja errado (há séculos, sabe-se que é preciso criar o novo e ter conhecimento), mas é apenas um termo marqueteiro para se referir a ideias antigas, que há séculos habitam, por exemplo, o mundo dos negócios. O engodo reluz: o empreendedorismo vende livros, invade as escolas. A estratégia de dar nomes novos para coisas velhas passa, para os desavisados, a ideia de que estão antenados com o que há de mais ousado e inédito, quando estão, na verdade, revisitando (mal) velhos terrenos. Isso dá lucro. 

APONTAMENTO 308

Amor calado faz barulho em quem o cala. 

LEITURA MÉDICA

Ontem, li uma entrevista com Kate Edgar, que trabalhou com Oliver Sacks, o qual já mencionei em alguns textos meus. Sempre que falo de Sacks, chamo a atenção para o seguinte: ele tratava seus pacientes como... gente. É o que tem faltado para muitos médicos. Eles parecem se esquecer de que diante deles há, “simplesmente”, outra pessoa.

Mas o parágrafo anterior é para dizer que o Jung, numa frase, resume o que deveria ser a postura médica: “Não é o diploma médico, mas a qualidade humana, o decisivo”. A impressão que muitos médicos têm deixado é a de que negligenciam os pacientes. Será que a leitura de profissionais como Sacks e Jung poderia sensibilizá-los? Minha premissa é ao mesmo tempo uma esperança — a de que o interesse por humanistas pudesse levá-los à qualidade humana a que se refere Jung. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

CEIA

Vinte e quatro de dezembro. 
Mesa farta. 
Comensais, idem. 

NO CONSULTÓRIO (5)

— Por que você parou de escrever?
— Quando eu escrevia, eu queria que as pessoas me amassem. 

NO CONSULTÓRIO (4)

— O que você acha que o ano novo trará?
— Janeiro. 

NO CONSULTÓRIO (3)

— Se eu não fosse tão inseguro, eu poderia ser uma espécie de Oscar Wilde.
— Ser uma espécie de Oscar Wilde requer coragem. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CONTO 83

Maciel sempre relê “As relações perigosas”. Desde a primeira leitura, marca com chave, o sinal adotado na matemática, os trechos de que gosta. A cada releitura, novas marcações. Veio o tempo em que não sobrara nenhuma linha ou nenhum trecho sem chave. Há pouco, Maciel começou a ler o livro outra vez. Já inseriu o primeiro colchete. 

domingo, 27 de dezembro de 2015

OS FEIOS

A linda morena, de Búzios, e o namorado dela, também de lá, estão visitando a cidade. No meio da conversa, ela declara: “Patos de Minas é uma cidade de homens feios. As mulheres são bonitas, mas os homens são muito feios. Que cidade de homens feios!”. Fiquei tão desconsertado com o vaticínio dela, que estou cogitando me mudar de Patos, na tentativa de ficar bonito. 

HOLANDA PODE PAGAR SALÁRIO A CIDADÃOS

Utrecht, cidade na Holanda, e mais dezenove municípios de lá estão aventando a possibilidade de pagar salário a todos os cidadãos, estejam eles trabalhando, estejam não trabalhando. Uma das intenções, caso a proposta se efetive, é dar a oportunidade para que as pessoas possam escolher o tipo de trabalho que querem ter.

Heleen de Boer, que tem atuação política na Holanda, alega que as pessoas não vão ficar assistindo à TV se receberem dinheiro do governo. O argumento dela é bonito, humanista: “Precisamos confiar nas pessoas”. Para mais informações, clique aqui

APONTAMENTO 307

À capacidade de criar o mal, chamam de demônio. À capacidade de criar o bem, chamam de deus. O homem tem as duas capacidades em si. Se as há fora do homem, não sei. Do que sei, é que uma ida à esquina mais próxima prova que a capacidade de criar o mal tem tido mais sucesso do que a capacidade de criar o bem. 

sábado, 26 de dezembro de 2015

(DES)APONTAMENTO 47

“Belos e malditos”, gravada pelo Capital Inicial, cuja letra é do Renato Russo, é sobre o mito da taverna. 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

PROMESSAS NOTURNAS

O céu escureceu.
A partir de agora, 
tudo aquilo que a noite promete, 
mas que a vida nunca cumpre.

Sussurros, apelos, suores... 
Mas é para casa que as pessoas voltam.
A noite é aquilo que a vida deveria ser.

Utopia feita de corpos, luzes, músicas, álcool e semitons.
Depois, silêncio espesso.
Mas não esmorecemos.
A noite há de voltar.
Voltaremos nós para suas promessas. 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

ANÚNCIO PUBLICITÁRIO

Leia a paciência.
Leia a ciência.

Leia a calma.
Leia a alma.

Leia a escanção.
Leia a canção.

Leia o confrade.
Leia o frade.

Leia o imundo.
Leia o mundo.

Leia o ateu.
Leia o teu.

Leia a procela.
Leia a cela.

Leia o vulcão.
Leia o cão.

Leia o ardor.
Leia a dor.

Leia o café.
Leia a fé.

Leia o Chico.
Esqueça o fuxico.

Leia o oblívio.
Leia o Lívio. 

(DES)APONTAMENTO 46

Primeiro, dispensou o Rodrigo Constantino; depois, deletou os textos dele do “site”. Até a Veja tem assomos de lucidez. 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

CARTEIRADA

O Brasil é pleno de patrões, autoproclamados paladinos da honestidade, que não assinam a carteira de trabalho dos funcionários com o valor real recebido pelos empregados. Só para constar: isso já ocorria antes de 2003. 

AT WORK

Eu me culpo quando não gosto de uma banda legal. Men at Work é show de bola. Não curto. Não me desculpo. 

MEIA-NOITE


Felicidade tem pressa 
quando não vivenciada. 
Estendamos o prazer.

Desdita é não saber
a transcendência que uma canção excita.
Somos bem-aventurados e gratos. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

ABERTURA

Não há janela que não me faça lembrar de ti.
Que exista janela que se abra para o mundo.
Que exista janela que se abra para nossa casa.
Fiz projeto, medi a área, comecei a assentar alvenaria.
Com janela, a parede se enche de possibilidades. 

CHIQUE

Chico é chique.
Em Patos ou em Paris.
No Rio ou em São Paulo.
Agredir não é tomar partido.
Chico é chique.
Tem mais o que criar. 

APONTAMENTO 306

Em minha vida, com os que quero bem, sou verborrágico. No que escrevo, sou contido. Aborreço os amigos; tento não aborrecer o leitor. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

APONTAMENTO 305

Quem volta não partiu. 

HAICAI 45

Agulhas apontam para o céu.
Estoicamente, ela as pisa.
Não há queixa nem escarcéu. 

APONTAMENTO 304

A feitura precisa estar à altura da ideia. 

HAICAI 44

Pipocam os celulares.
Mas, em feio às festas,
são poucos os lares. 

sábado, 19 de dezembro de 2015

HERÁCLITO

No limiar, esquecido de todo mistério,
refugiou-se em silêncio líquido e espesso,
mergulhando hábil nas águas do rio.
Do outro lado, acolhido pela margem,
voltou, mergulhado em todo mistério. 

"MIDNIGHT IN HARLEM"


Há momentos em que não tenho estrutura para o tamanho da beleza. Choro. Essas lágrimas são muito bem-vindas; são vislumbres de uma utopia, da possibilidade um mundo melhor, de uma beleza alcançável. Eu escutei, eu chorei, eu saí pulando, eu fiquei louco, eu urrei, eu devaneei. Nunca mais vou parar de escutar “Midnight in Harlem”.

NOSSA EXPRESSÃO SOCIAL

Baldassare Castiglione publicou, em 1528, o livro “O cortesão”, que contém regras de como o nobre deveria se comportar em público. Trata-se de um manual de etiqueta para a nobreza renascentista. Num trecho, escreve Castiglione:

“Muitos existem que pensam fazer muito, desde que copiem um grande homem em alguma coisa; e muitas vezes se apegam ao que neles é apenas um vício. Mas, tendo eu várias vezes pensado de onde vem essa graça, deixando de lado aqueles que nos astros encontraram uma regra universal, a qual me parece valer, quanto a isso, em qualquer outra, a saber: evitar ao máximo, e como um áspero e perigoso escolho, a afetação; e, talvez, para dizer uma palavra nova, usar em cada coisa uma certa sprezzatura [displicência] que oculte a arte e demonstre que o que se faz e diz é feito sem esforço e quase sem pensar. É disso, creio eu, que deriva em boa parte a graça, pois das coisas raras e bem feitas cada um sabe as dificuldades, por isso nelas a facilidade provoca grande maravilha; e, ao contrário, esforçar-se, ou, como se diz, arrepelar-se, produz suma falta de graça e faz apreciar pouco qualquer coisa, por maior que ela seja. Porém, pode-se dizer que é arte verdadeira aquela que não pareça ser arte; e em outra coisa não há que se esforçar, senão em escondê-la, porque, se é descoberta, perde todo o crédito e torna o homem pouco estimado” [1].

O conceito da “sprezzatura” sempre me instigou. A princípio, ele me chamou a atenção, sem que eu soubesse exatamente o motivo pelo qual isso ocorrera. Os anos se passaram, sem fazer com que a ideia de Castiglione deixasse de me ocorrer com muita frequência.

Nela, o escritor advoga que, em público, as atitudes do nobre devem ter aspecto espontâneo, quando, na verdade, são estudadas, treinadas. Antes de atuar no teatro social, o nobre era orientado. Uma vez em sociedade, a graciosidade e o espírito arguto e refinado pareciam ser naturais, não pareciam ter sido exercitados de antemão, como se a graça e o refinamento fossem inerentes ao nobre.

Uma das coisas que sempre me chamaram a atenção na “sprezzatura” é que, em certo sentido, ela não deixou de existir. Se por um lado Castiglione tenha escrito seu livro para uma classe social do Renascimento, por outro, a convivência social requer de nós pose e “teatro”. Quer-se passar a ideia de espontaneidade e de ausência de afetação (nem sempre com sucesso), mesmo ciente de que tal comportamento é consequência de atitude premeditada. O contexto é outro, as classes sociais são outras; a essência da “sprezzatura” é a mesma.

Outra coisa que me instiga nela é a questão de que não somente a espontaneidade tem o potencial para ser encantadora (embora, em público, eu suponha que espontaneidade absoluta seja impraticável — a não ser pelos loucos): há um encanto advindo da técnica, da prática, do treino, do estudo, do polimento. É verdade que a espontaneidade pode ser cativante, mas isso não aniquila a possibilidade que o não espontâneo tem de ser atraente.
_______________

[1] CASTIGLIONE, Baldassare, 1478-1529. O cortesão / Baldassare Catiglione. Tradução Carlos Nilson Moulin Louzada. São Paulo. Martins Fontes. 1997. Pp. 40-41. 

NANDO REIS E O SUCESSO

Há um tempão estou querendo escrever sobre o Nando Reis, em função da genuína admiração que tenho pelo trabalho dele. Já cheguei a rabiscar apontamentos sobre o trabalho do cantor e compositor em pedaços de papel. Esses apontamentos se perderam, o texto não foi escrito. Padeço de procrastinação mórbida.

É assombroso o quanto Nando Reis é capaz de fazer canções populares, com refrões e melodias grudentos, que têm uma excelência avassaladora. Ele é um criador de sucessos. Há nele um popular e apurado senso poético; tudo isso desemboca em obras-primas extremamente cantáveis.

A música popular (ou o pop, como queira) não raro é execrada por alguns, que partem do estranho princípio de que se é popular, é ruim. Admitir que há obras-primas na canção popular não é o mesmo que ser condescendente com o de ruim que esse tipo de canção produz.

Há muita coisa ruim que faz sucesso, mas isso não é o mesmo que dizer que tudo o que faz sucesso é ruim. Nando Reis é sucesso; é excelente. O que lamento não é a música popular fazer sucesso, mas não haver mais canções populares de outros mestres sendo conhecidas. 

APONTAMENTO 303

Podemos até contar os segundos, mas o que acerta os ponteiros é a vida. 

DOIS INTEIROS

Ele é pleno. 
Ela é plena. 
Fazem um
amor cheio
de plenitude. 

OFERTA

Das coisas possíveis, 
tu és meu romance. 
Das improváveis, 
meu desejo.

Das coisas do tato, 
tu és a pele sonhada. 
Das coisas do verso, 
teu é o poema concebido. 

O ARCO

LETRA DE MÚSICA 39

Todo mundo é um relicário,
mas nem todo mundo sabe
dos tesouros que tem em si.
Eu conto as gotas que caem da chuva.
Elas se tornaram tempestade,
mas eu não perdi a conta.
Eu conto os segundos para o trovão.
Eu me esqueci de estar na chuva para me molhar.

Bonito é dar certo, bonito é gostar de si.
Tu me contas de ti sem te saberes meu espelho.
A infelicidade que carregas é a que levo.
As paredes da sala não revelarão nosso segredo.
O pai que não fui quer te pegar pela mão e te guiar.
Eu nunca soube jamais o que fazer do que sou,
mas enxergo o ouro que não vislumbras em ti.
Eu vou ficar bonito como quem se ama.
Serei exemplo, pois tua beleza merece ser amada por ti. 

APONTAMENTO 302

Escrevo com uma ilusão: a de ser para algum leitor do futuro tão mágico quanto Borges é para mim. Borges mais do que me torna leve (o que já seria muito). Borges me deixa feliz, enleva-me. Não me canso de escrever sobre ele, não me canso de ler o que ele escreveu: a felicidade genuína não cansa, mas, sim, revigora o enlevo a cada releitura. 

APONTAMENTO 301

Se os livros não existissem, minha vida seria insuportável. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

‪#‎OCUPACBF‬ É HOJE À TARDE

O Bom Senso F.C. se compõe de jogadores e ex-jogadores de futebol. O grupo tem a intenção de propor caminhos modernos para o esporte. É claro que a Confederação Brasileira do Futebol (CBF) não o apoia. Para hoje, às 15h, está programado o #OcupaCBF, ato público que ocorrerá no Rio de Janeiro, diante da sede da entidade. Grandes nomes do esporte brasileiro estão apoiando o #OcupaCBF. Zico é um deles.

O próprio Bom Senso F.C. não descarta a possibilidade de ter um candidato à presidência da CBF, que mantém, há décadas, um modo de trabalho corrupto e antiquado. Como o modus operandi da CBF tem tentáculos nas federações e apoios dos cartolas do futebol, parece-me pouco provável que um candidato do Bom Senso vença as eleições; isso, obviamente, não é razão para que esse candidato não seja apresentado.

O Bom Senso F.C. é um alento, bem como é um alento o #OcupaCBF, que contará com a (já anunciada) cobertura da ESPN Brasil. Caso você se interesse por futebol, acompanhe a cobertura pelo canal, pois o SporTV pertence às organizações Globo, e a família Marinho é notória por não praticar jornalismo, mas interesses próprios e entretenimento imbecil e alienante travestido de trabalho jornalístico.

Gosto de futebol. Devaneio com o dia (que não virá) em que o torcedor compreendesse que é preciso tirar os calhordas da CBF do poder. Enquanto isso, que haja movimentos como o #OcupaCBF, que haja a cobrança e os protestos sugeridos pelo Bom Senso F.C. Em minha cabeça, não deixo de conceber um dia em que o torcedor boicote os estádios. Mesmo ciente de que isso não virá, fica o marcador: ‪#‎Desocupaoestádio‬. 

domingo, 13 de dezembro de 2015

APONTAMENTO 300

Desde que cumpridas algumas protocolares, bobas e chatas obrigações civilizatórias, não deixe de achar um jeito de soltar a besta que há em você. 

(DES)APONTAMENTO 45

Sou um incompetente: não tenho a menor ideia do que fazer com o que sou. 

APONTAMENTO 299

O envolvimento não garante o gostar, mas não há gostar sem envolvimento. Onde não havia gostar, pode haver, desde que haja envolvimento. De imediato, pode haver uma fagulha que leve ao desejo de convivência; pode-se sentir uma atração imediata por algo ou por alguém. Isso, todavia, ainda não é envolvimento. Além do mais, é exatamente o envolvimento que pode fazer com que a fagulha inicial não vire chama.

Por outro lado, mesmo não tendo havido tal fagulha, o envolvimento pode levar à chama, à amizade, à paixão, ao amor. É possível passar a gostar ou a amar sem que, de início, nada tenha sido sentido ou pressentido. Há um desejo de proximidade que pode ir num crescendo à medida que nos envolvemos. Temos o poder de nos envolvermos. Por vezes, ele leva a outro poder, que é o de amar. Faz todo sentido dizer: passou a amar porque se envolveu. 

PALAVRA POR PALAVRA

Lendo o livro “Essa estranha instituição chamada literatura”, que contém uma entrevista com Jacques Derrida, deparo-me, na introdução, escrita por Evando Nascimento, com o instigante trecho: “Um dia a literatura poderá desaparecer (talvez já esteja desparecendo, submersa num contexto hipermidiático e hipermercadológico), pois não passa de uma simples inscrição, um traço discursivo diferencial”. O trecho é de Nascimento.

A literatura, tal como é configurada hoje, pode acabar. O que não pode acabar é a palavra. A princípio, o enunciado é paradoxal. É que estou considerando literatura não qualquer enunciado produzido a partir da palavra. Num sentido bem amplo, se há palavra, há literatura. Assim, um texto publicitário poderia ser considerado literatura, desde que nele houvesse palavra(s).

Chamo de literatura, numa definição rápida e simples, a literatura de imaginação; levo em conta textos ficcionais, poéticos; textos “inúteis”, no sentido da gratuidade com que podem ser escritos. Em suma, textos sem função mercadológica, ainda que posteriormente o autor venha a lucrar com eles. Essa literatura talvez acabe; a habilidade ao lidar com a palavra não pode acabar.

O manejo da palavra pode levar à clareza de pensamento, à lucidez. Muitas vezes não se tem uma noção clara das coisas exatamente por não se ter a capacidade de lidar com essa coisa por intermédio da palavra. Sim, há o inefável, mas se não se acha sequer uma tentativa de se transmiti-lo, ele morre com quem passou por ele. É preciso que se tente dizer, ainda que o inefável seja o que se esteja tentando dizer. A palavra é um meio de dizer. Um meio para a compreensão, a clareza.

Não considero perigoso não haver literatura; considero perigoso não haver palavra. Ou, igualmente perigoso, haver palavra somente para alguns; mais perigoso ainda, se esses alguns tiverem pretensões de poder. É preciso buscar, não necessariamente a literatura, mas a palavra. Sem ela, é-se vítima fácil, e quem tem interesse em vitimar ou dominar não se furtará a usar a palavra como uma das ferramentas. A palavra é para todos, pois todos podem se tornar melhores e mais inteligentes com ela.