sexta-feira, 18 de abril de 2014

CLAUSURA

Se for para vaca, 
curral.

Se for para ave, 
gaiola.

Se for para rato, 
ratoeira.

Se for para gente, 
boa parte da mídia. 

O LUGAR DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ





Certa vez, estive em Cordisburgo/MG estritamente para conhecer a cidade em que Guimarães Rosa havia nascido. Lá, estive na casa onde o escritor morou, hoje transformada em museu. Durante o trajeto, de dentro do ônibus, pude observar estabelecimentos comerciais cujos nomes fazem referência ao universo de Guimarães Rosa. Lembro-me de haver uma borracharia Grande sertão: veredas. Acho que era mesmo uma borracharia.

Há tempos era minha intenção conferir, por intermédio do Google Maps, Aracataca, na Colômbia; é a cidade em que nasceu Gabriel García Márquez. Hoje, finalmente, “visitei” o lugar. A exemplo de Cordisburgo, com suas referências ao mundo de Guimarães Rosa, há em Aracataca referências ao de García Márquez.

(Essa minha “turnê” por Aracataca confirma a “profecia” do cigano Melquíades, exibindo um óculo de alcance, logo no segundo parágrafo de “Cem anos de solidão”: “Dentro de poco, el hombre podrá ver lo que ocurre en cualquier lugar de la tierra, sin moverse de su casa”.)

Nas imagens desta postagem, conseguidas via Google Maps, dois registros de um comércio em Aracataca; o nome do estabelecimento é o nome da cidade de “Cem anos de solidão”. Também nesta postagem há a frente do museu dedicado a García Márquez; é o lugar em que ele nasceu. O endereço é Carrera 5 Nº 6 — 35. Em frente ao museu, réplicas de como era a casa quando o escritor nasceu podem ser adquiridas.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ

Sempre tive uma dificuldade imensa para decorar textos. Para dizer a verdade, só sei dois textos de cor: o Soneto 17 do Shakespeare e a primeira frase do “Cem anos de solidão”. Não tive a intenção de decorar nem o soneto nem a primeira frase do livro: acabei os memorizando de tanto que os reli.

Em 1999, foi noticiado que Gabriel García Márquez tinha câncer linfático. Em 2012, que o escritor estaria demente, esquecendo-se até dos nomes dos amigos mais próximos. Foi então que, desde 2012, eu vinha pensando com frequência que chegaria o dia em que eu ficaria sabendo da morte dele, mesmo ciente, é claro, de que eu poderia ter morrido antes de ele morrer.

O dia em que eu ficaria sabendo da morte dele chegou. Neste 17 de abril, Gabriel José García Márquez morreu, com 87 anos. Com amigos, eu frequentemente comentava que, a despeito da demência, eu imaginava que ele fosse viver por mais tempo ainda, pois vem de estirpe longeva. 

“Cem anos de solidão” é o livro que mais reli, ao lado de “As relações perigosas”. Ao longo dos anos, colecionei entrevistas de García Márquez, assisti a diversos documentários sobre sua vida e obra, conferi, via internet, diversos vídeos com o autor. Em sua obra, o senso de humor, o adjetivo certeiro, a prosa imagética cheia de imaginação. Um retrato vigoroso da América Latina. 

García Márquez foi um daqueles casos em que há aclamação dos pares, da crítica e do público. Há escritores que são exaltados pela crítica, mas que não têm consagração popular. Há escritores populares que são demonizados pela crítica. García Márquez teve o respeito da crítica e a consagração do público. Teve um destino grandioso.

Sempre que eu conferia alguma entrevista com ele, eu ficava com a impressão de que ele era uma pessoa feliz. Alguém que se sabia escritor e que realizou sua vocação com uma formidável capacidade para contar uma história. Fica em mim a impressão de que essa felicidade que imagino nele ter feito com que sua vida fosse tão grandiosa quanto sua obra. 

MAIS "ZOOMING"





Há alguns dias, expliquei como funciona o “zooming”, técnica por intermédio da qual é possível criar curiosos efeitos a partir do manejo, principalmente, da velocidade e do zum da lente. Agora à tarde, decidi sair e fazer mais alguns registros me valendo do “zooming”.


A primeira providência foi acoplar à lente um filtro ND, comprado há uns dois anos, mas que ainda não havia sido usado. O “ND” equivale a “neutral density”. Esse filtro funciona assim: é como se você estivesse colocando óculos escuros na lente.

Ora, fazendo-se isso, a lente passa a “enxergar” o mundo com menos luz; havendo menos luz, será preciso, dentre outras possibilidades, baixar a velocidade para que haja luz o bastante chegando ao sensor. Baixando-se a velocidade, tem-se maior possibilidade de se fazer o “zooming”.

O filtro ND foi acoplado pelo fato de as fotos terem sido feitas durante o dia. Apesar de o tempo estar nublado, uma baixa velocidade faria com que houvesse muita luz, ainda que uma abertura bem pequena fosse usada. Tal abertura pequena aumentaria a profundidade de campo; não interessado nessa grande profundidade, decidi me valer do filtro ND. 

Filtros assim podem ser usados também quando se quer dar o efeito “leitoso” na correnteza de um córrego, por exemplo, precisamente por possibilitarem uma velocidade mais baixa. Enfim, podem ser usados sempre que se queira uma velocidade mais baixa num ambiente com muita luz.

Nesta postagem, dois pares de fotos. Em duas delas, fotos “normais”; nas outras duas, a possibilidade de se brincar com a realidade a partir da aplicação do “zooming”. Por fim, um lembrete: há câmeras compactas que têm um recurso em que é possível fotografar como se houvesse um filtro ND na lente; caso tenha uma compacta, fuce nela e tente descobrir o “brinquedinho”.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

APONTAMENTO 202

A poesia, mesmo sem explicar, pode dizer tudo. 

PERCURSO

Caminho certo?!
Se há, é um: 
dá o primeiro passo 
e começa a caminhar. 

RIBALTA

O palco é o mesmo.
O que muda são os atores.
É a sua vez no palco.
Brilhe. 

terça-feira, 15 de abril de 2014

PELO RALO






Há pouco, aqui em casa, a intenção era fotografar vestes sendo giradas dentro de uma máquina de lavar roupas. Todavia, o vidro da máquina estava refletindo o telhado da área em que as roupas são lavadas. Numa próxima, com um filtro polarizador na lente, vou tentar corrigir esses reflexos.

Já desistindo de fazer as fotos, dei-me conta da água que estava escorrendo no tanque. De imediato, religuei a câmera, baixei a velocidade e comecei a fazer as fotos, enquanto a água ia embora. A intenção era incrementar a sensação de movimento, mas se eu baixasse muito a velocidade, as imagens poderiam ficar tremidas demais. Usei de 1/4 a 1/13 nos registros. 

CHEGAR LÁ

Não sou o fundador de um novo tempo. 
Sou o fundador de um novo Lívio. 
Chegar lá? Bah!

Minha grande conquista é chegar aqui. 
Se a mim chego, chego lá, 
ainda que não saia do lugar. 

PLENA

Noite de lua cheia: 
o Sol envia notícias para a lua, 
que as conta para nós. 

Quando é lua cheia, 
fica noite afora um pedaço do dia. 
É um dia que não se esvai por completo. 

Banho de luz que elucida becos,
clarão que ofusca estrelas.
Noite de lua cheia é um modo 
de o Sol existir na escuridão. 

Lua cheia de luz compartilha Sol.
Que passemos adiante os sóis que recebemos. 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

"PERTO DO FOGO"












Em postagem de ontem, intitulada Brincando durante a chuva, nas três imagens, usei a técnica conhecida como “zooming”. Também ontem, à noite, entusiasmado depois de ter feito as fotos da postagem mencionada, decidi me esbaldar com o “zooming”.

Fiquei pensando no assunto a ser fotografado. Fui à cozinha tomar água; foi então que tive a ideia de fotografar as chamas do fogão (coisa que já fiz, só que com a câmera em tripé, e sem usar o “zooming”). Nos cursos de fotografia que ministro, sempre digo que tanto o fogo quanto a água são dois grandes assuntos para a fotografia.

No caso das fotos deste álbum, haveria dos movimentos: as chamas tremeluzentes e o zum na lente da câmera. Se o “zooming” com o assunto principal em repouso já é imprevisível devido ao uso do zum da lente, fazendo com que ela se aproxime ou se afaste do assunto enquanto o obturador é apertado, as chamas bruxuleantes aumentariam a imprevisibilidade — o que tornou tudo mais animador. Há fotos em que há apenas uma chama acesa, e fotos em que há quatro.

Repito-me: a técnica não é o mais importante, mas para que serve o domínio dela se não nos divertirmos com o que fazemos, se não “avacalhamos” com o trabalho? O bom da técnica é fazer farra com ela, que existe para ser aplicada.

Aplicá-la é abrir novas possibilidades de expressão, é olhar para o mundo de modo inédito, é expandir o ato da criação. A técnica semeia novas ideias na cabeça da gente; uma cabeça, quando tem ideias, fica feliz. 

domingo, 13 de abril de 2014

CRUZEIRO É CAMPEÃO MINEIRO

Embora a necessidade de vitória fosse do Atlético/MG, foi o Cruzeiro que começou acertando o travessão do goleiro Victor, com um minuto de jogo. O Atlético ameaçaria a meta de Fábio aos onze minutos, depois de rápida tabela pela esquerda.

Ainda assim, o Cruzeiro jogou melhor o primeiro tempo; teve chances com Éverton Ribeiro, Júlio Baptista e Dagoberto. Éverton e Júlio Baptista quase fizerem golaços. Quase: aquele, tocando por cima do goleiro Victor; este, de bicicleta.

Ronaldinho, que não jogou no Independência, no domingo passado, teve atuação apagada no jogo de hoje. Pelo Cruzeiro, Éverton Ribeiro, Júlio Baptista e Dagoberto jogaram bem na primeira etapa do clássico.

No segundo tempo, o Cruzeiro também jogou melhor. Éverton Ribeiro e Ricardo Goulart tiveram chances. Fábio, por sua vez, na entrada da grande área, evitou que Tardelli criasse situação de perigo. 

Houve lance polêmico, tendo o árbitro marcado pênalti a favor do Atlético; todavia, segundos antes, o bandeirinha marcara impedimento. Como a marcação do bandeirinha viera antes da marcação do árbitro, este acatou decisão do assistente. 

Se for para culpar a arbitragem pelo lance, resta ao torcedor do Atlético argumentar que não havia impedimento. Entretanto, ainda que não tivesse havido, foi um lance rápido e difícil para o bandeirinha, que não pode ser “crucificado” pela marcação.

Mesmo não havendo disparidade marcante entre as equipes, o Cruzeiro foi um pouco melhor do que o Atlético nas duas partidas da decisão. O jogo de hoje foi melhor do que o da semana passada. A lamentar, a ausência de gols nas partidas. 

BRINCANDO DURANTE A CHUVA




Eu sempre quis tirar fotos como estas. Hoje, chacoalhei a preguiça e peguei a câmera, valendo-me de técnica que eu ainda não havia utilizado, não estando eu enganado.

Ela funciona assim: com exposição manual, baixa-se a velocidade. Ao mesmo tempo, dispara-se o obturador e gira-se rapidamente o zum da lente. Não há como prever com exatidão o resultado.

Caso as imagens não estejam agradando, muda-se a o tempo de exposição. Como não há a regra, vá brincando com o zum e com diferentes ajustes de velocidade. Para as imagens desta postagem, a chuva de há pouco foi um “bônus”. 

sábado, 12 de abril de 2014

ALIMENTANDO-SE


Num mundo ideal, a arara não estaria em cativeiro. Tirei esta foto no dia vinte e seis de janeiro de 2005, às 7h40. Hoje à tarde, vasculhando arquivos antigos, eu me deparei com ela. Naquele tempo, alguém (não me lembro quem) havia me dito que eu poderia fotografar alguns animais num lugar que fica perto de Lagoa Formosa.

Seguindo de Patos de Minas para Lagoa Formosa, antes de se chegar lá, perto da estrada que dá acesso a Capão das Canoas, saindo da BR365, vira-se à esquerda. Quando cheguei ao lugar, fotografei arara, faisão, tucano, vaca, coelho e gente (havia apenas um garoto por perto). Toda a fauna do lugar era mantida em cativeiro — com exceção, assim me pareceu, do garoto. 

APONTAMENTO 201

Qualquer história de amor verdadeiro é a maior história de amor de todos os tempos. 

"SABRINA"


Quer assistir a um “filmezinho” com tiradas perspicazes? Confira “Sabrina” (1995), do diretor Sydney Pollack. O filme é uma refilmagem de... “Sabrina” (1954), do diretor Billy Wilder. As duas versões, por sua vez, são baseadas na peça... “Sabrina”, de Samuel A. Taylor. A versão de 1954 ainda tem como roteiristas Billy Wilder e Ernest Lehman; a de 1995, além dos mencionados anteriormente, Barbara Benedek e David Rayfiel.

Na versão de 1995, Sabrina Fairchild (Julia Ormond), filha de motorista de riquíssima família, é apaixonada desde tenra idade por David Larrabee (Greg Kinnear), que nem a percebe (mesmo depois de ela ter crescido), embora ela e o pai, Thomas Fairchild (John Wood), morem há anos na mansão da família Larrabee.

Sabrina deixa a mansão dos Larrabee, nos arredores de Nova York, e vai a Paris, onde fica por uma temporada; de volta à mansão, é, todavia, uma mulher feita, diferente não somente nas roupas que veste, mas na expressão. O rosto ganha contornos sensuais, maduros, sem, ao mesmo tempo, ter perdido o viço da juventude. Essa mistura faz com que finalmente ela seja notada por sua paixão de anos, David Larrabee; mas Linus Larrabee (Harrison Ford), irmão dele, devido a questões financeiras, não vê o interesse de David por Sabrina como benéfico...

O filme é uma espécie de contos de fada moderno, com diálogos saborosos (diálogos esses que não sei se estão na peça de Samuel A. Taylor). Além disso, do que gostei demais é que “Sabrina” é um filme sem grandes pretensões. É uma “historiazinha” contada com leveza, com graciosidade, com humor. Que beleza!

sexta-feira, 11 de abril de 2014

APONTAMENTO 200

A gente serve para alguma coisa. A gente pode até não saber para quê, mas serve. A gente ensina sem querer, inspira sem querer. Não importa se não sabemos para que servimos. Basta que saibamos que servimos. Sem querer, a gente altera a vida de alguém. Não sabemos como o outro vai receber o que somos, o que fazemos. A gente não pode é ficar parado. Quando a gente se mexe, a gente serve para a gente mesmo, a gente serve para os outros. Dê uma nota no contrabaixo. Ou convide para um café. Ou dê um abraço. Isso vai ficar na memória de alguém. Eu sirvo para alguma coisa. Você serve para alguma coisa. A gente se serve. A gente serve para um monte de coisas. Nem sempre do modo como planejado. Mas serventia inesperada é tão bonita quanto serventia planejada. O que a gente fez serve para algo. O que a gente faz. O que a gente fará. Nós somos uma só aventura. O que temos para fazer hoje à noite? 

CASA

Minha casa fica do outro lado do oceano.
Tenho muita saudade dela, sem nunca ter ido lá.
Lá é que estão minha gente e meus genes.
É lá que estão meu ritmo, meu chão, minhas árvores.
Nunca voltei para casa.
Sou tribal, sou básico, sou um desterrado.
Quero andar descalço na terra.
Quero me sentir em casa.
Quero ser o bicho que sou.
Quero ficar à vontade.
Quero ser simples como alguém que abre a porta de sua casa.
Minhas raízes, meu gênese.
Sou um velho que sabe que recomeçar é nascer.
O céu da África há de me dar a luz e a escuridão. 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

SINTONIA FINA AO VIVO

Pessoas, estou no ar, ao vivo, com o Sintonia Fina, programa musical. Para escutar, basta clicar aqui.

O Sintonia Fina termina às 11h. 

terça-feira, 8 de abril de 2014

DA TRUCULÊNCIA DOS MÉDICOS

Exercer a medicina é algo nobre. Contudo, parte dos médicos não têm se dado conta dessa nobreza, tamanhas a deselegância, a falta de educação e a truculência com que têm lidado com os pacientes. Digo isso baseando-me em experiências próprias e em conversas que tenho mantido com amigos e familiares. De uns tempos para cá, é difícil um dia em que não escuto alguém reclamar de algum médico.

A impressão com que fico é a de que quanto menor a cidade, mais broncos os médicos são (impressão que pode estar incorreta). É que tenho recebido notícias de amigos que têm sido bem tratados em grandes centros, seja em hospitais públicos, seja em particulares, mas pode ser que esses tratamentos gentis sejam exceção e coincidência. Nos lugares a que tenho ido, aqui em Patos de Minas, tenho sido, em regra, mal tratado.

Mas esse tratamento ríspido não é coisa que ocorre apenas em solo patense. Na semana passada, em Uberaba, um ortopedista só faltou me dar coices. Um outro médico que estava no recinto chegou a me olhar, encabulado. Como o clima na sala havia ficado pesado, o torpe ortopedista disse: “Me desculpa pela brincadeira”.

O pedido de desculpas poderia ter convencido se o médico tivesse feito uma brincadeira. Mas não foi brincadeira o que ele fez. Apoiando-me em muletas, eu disse que as estava usando por causa de tombo de moto. O médico disse: “Não precisa dizer isso; isso não é da minha conta. Se você usa muleta ou não, não tenho nada a ver com isso”. É claro que ele tem algo a ver com isso, pois eu estava lá para ser examinado por ele!

Aqui em Patos de Minas, há coisa de uns cinco meses, uma mulher, que me pede para ficar no anonimato, foi vítima da falta de tato de um médico famoso na cidade. Para piorar, o procedimento que ele realizaria estaria incorreto! A paciente tinha um cisto no lado direito do ovário; o médico insistia que era do lado esquerdo, mesmo a paciente dizendo que a dor estava do lado direito.

Desconfiada, pediu opinião de uma amiga dela, que é médica; esta assegurou que o cisto era do lado direito. Um médico assistente, que faria parte da cirurgia, também assegurou que o cisto estava do lado direito. Foi então que, diante da paciente, o médico que faria a cirurgia e o médico assistente discutiram. Chegaram a pedir licença para a paciente e se retiraram.

Voltaram minutos depois, tendo ficado decidido que o cisto estava mesmo do lado direito. Chegado o momento da cirurgia, mais discordâncias, devido a procedimentos a serem adotados. Houve um momento em que o médico assistente chegou a dizer para o cirurgião que este estava ainda na década de 30! 

O cisto foi eliminado, tendo ficado o cirurgião de ver a paciente às 9h30 do outro dia, dizendo que lhe daria alta. Contudo, mesmo tendo estado no hospital durante todo o dia, ele só visitou a paciente às 17h30! Como se nenhum atraso desrespeitoso tivesse ocorrido, o médico disse algumas palavras, liberou a paciente e foi embora. Em tempo: tratava-se de um atendimento particular, sem convênio algum. 

No dia em que caí de moto, fui atendido aqui em Patos de Minas por um médico que foi deselegante não somente comigo, mas também com sua auxiliar. Como meu pé estava ferido e havia sangue, achou-se por bem cortar a meia, em vez de se tirá-la normalmente. A assistente, contudo, não estava conseguindo manejar a tesoura própria para tais casos. 

Como a aprendiz se queixou da tesoura, entrou em cena a “sutileza” do médico: “A tesoura está boa; você é que é muito mole. Não consegue nem cortar uma meia, e quer ser médica”. Eu e a assistente ficamos muito sem jeito, enquanto o médico, seco e mal olhando para mim, preenchia formulários. Acabei eu mesmo tirando a meia.

Nem preciso dizer que não estou generalizando, dizendo que todos os médicos são sem educação. Claro que sei que não é assim. Tanto que uma semana depois de meu tombo, procurei outro profissional, pois meu pé não melhorava. Aí, sim, fui bem atendido. O profissional teve um tom cortês, fez perguntas (o outro nada perguntara) e trocou toda a medicação que me havia sido passada.

O que me leva a escrever este texto é o imenso número de pessoas que têm se queixado de estarem sendo tratadas de modo ríspido por médicos. É estranho. É como se eles se esquecessem de que estão lidando com gente. Procurar um médico é depositar esperança e confiança numa pessoa. Isso é muito sério! 

Não consigo achar uma razão que justifique a rispidez e a falta de tato da classe. Seria o desencanto com a profissão? Mas se for isso, o paciente não tem culpa. Seria o fato de terem sido alunos ruins? Mas isso não impede ninguém de ser gentil. Além do mais, suponho, os estudantes de medicina devem escutar o tempo todo, durante o curso, que um pouco de sensibilidade é bom, também, para a profissão.

Quem convive comigo sabe que sou adepto do pensamento de que a leitura não é solução para nada, mas ajuda a resolver um monte de coisas. Se esses trogloditas que achincalham pacientes se predispusessem a ler um cara como o médico Oliver Sacks, perceberiam, quem sabe, que o exercício da medicina é um trabalho elevado. Mas talvez eu esteja querendo muito: quem não quer saber nem de gente não vai querer saber de livros. 

DIGRESSÕES...

Ontem, lendo um ensaio do Jorge Luis Borges, eu me deparo com uma referência dele a Mark Van Doren, intelectual americano. Segundo Borges, Van Doren foi, em meados do século XX, um dos poucos a reconhecerem a diferença abismal entre o Walt Whitman cidadão e o Walt Whitman poeta. Escreve Borges sobre Whitman: “Passar do orbe paradisíaco de seus versos à insípida crônica de seus dias é uma transição melancólica”.

É a ideia, mencionada por Borges não somente no ensaio em que ele refere-se a Van Doren, de que é preciso separar o homem de sua obra. A vida do homem pode ser, para me valer do termo borgiano, insípida, sem que contudo sua obra o seja; ou o sujeito pode ser, por exemplo, um calhorda, e ainda assim produzir algo genial.

A rigor, não era disso que eu queria falar. Todavia, essa temática que envolve o homem e seu trabalho é por demais fascinante para mim; daí, acabei me deixando levar por digressões. Mesmo assim, minhas digressões são curtas; eu as resolvo em poucas frases. Não tenho talento para ser um Laurence Sterne.

Do que eu queria falar mesmo era de Charles Van Doren, filho de Mark Van Doren. Van Doren, o filho, é personagem de “Quiz Show — a verdade dos bastidores” [Quiz Show, 1994]. A direção é de Robert Redford. Ralph Fiennes interpreta Charles Van Doren. O filme tem por base o livro “Remembering America: A Voice from the Sixties”, escrito por Richard N. Goodwin.

Baseado em história real, “Quiz Show” conta com a participação de Charles Van Doren num programa de perguntas e respostas que fazia muito sucesso na TV americana no fim da década de 50. Van Doren torna-se celebridade na TV, é capa da Time, da Life. O sucesso de Van Doren faz com que a emissora o queira por mais tempo. Há então uma proposta: ele passaria a saber, de antemão, as respostas. Charles Van Doren topa; torna-se, assim, um engodo assistido por milhões.

A manipulação midiática surgiu junto com a própria mídia. Na fotografia, por exemplo, às vezes atribui-se, ingenuamente, a manipulação de imagens ao advento do Photoshop. Que nada! Digite aí no Google “Os trinta Valérios” e confira o que Valério Octaviano Rodrigues Vieira fez, ludicamente, em 1901! Manipulações são tão velhas quanto os meios em que estão presentes. Elas podem ser divertidas, podem ter caráter didático. Ou podem ser deletérias, como é o caso mostrado em “Quiz Show”.

No mais, releve as digressões. Geralmente, não as permito em texto meu, embora as admire em textos alheios. Mas neste aqui fui, para me valer de expressão antiga, “escrevendo ao sabor da pena”, ainda que digitando em velho computador. No fundo, acho que não sei escrever de modo digressivo; banindo digressões, mantenho a ilusão de que estou no controle absoluto do que escrevo. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

ALGUMA LEVEZA

O que não se realiza pesa.
Mas sob a pele corre um sonho.
Se o tiver em mãos, vou tirar um 
pouco de peso desta matéria.
Sou um corpo que sonha. 

domingo, 6 de abril de 2014

ROBERTA SÁ

Quando a música é a mensagem, o corpo fala com graciosidade, leveza, sofisticação. Roberta Sá é feminilidade; é sensual sem se valer de apelos duvidosos. A canção é trilha sonora para a cantora, que brinca, que flutua, elevando-nos.

ATLÉTICO 0 x 0 CRUZEIRO

É natural que se espere muito de um jogo entre o campeão da Libertadores e o campeão brasileiro. Eu esperava mais da partida, mesmo ciente de que decisões podem não corresponder a expectativas. Não foi um jogo ruim, mas fica-se com a sensação de que poderia ter sido melhor.

O Atlético foi superior ao Cruzeiro. No primeiro tempo, aos dezessete minutos, com chute de Guilherme, aos vinte e cinco, com Leonardo Silva cabeceando, e aos vinte e oito, com Marion chutando fraco depois de surgir livre na área, o Atlético deixou de Marcar. Aos vinte e nove, Ricardo Goulart, após típica jogada de passes rápidos, quase marcou para o Cruzeiro.

O Atlético jogou sem Ronaldinho; o Cruzeiro, sem Dagoberto. Perdeu mais o Atlético, pois Ronaldinho é mais decisivo no Galo do que Dagoberto o é na Raposa. Começado o segundo tempo, aos quatro minutos, após Victor rebater com o pé, a bola bate em Ricardo Goulart e quase entra.

A segunda etapa foi mais aberta, menos truncada do que a primeira; ainda assim, ambos os times estavam atabalhoados. Houve muitos passes errados, tanto de um time quanto de outro. Mesmo assim, a superioridade do Atlético foi ainda mais destacada no segundo tempo. Aos dezessete minutos, após bela jogada de Marion, que cruzou, Tardelli, dentro da área, teve oportunidade claríssima de marcar. Aos trinta e seis, Alex Silva e Guilherme também ameaçaram.

No dia 13, o jogo é no Mineirão; há pouco, no Independência, embora tenha tido maior posse de bola e embora tenha criado mais oportunidades para marcar, o Atlético não materializou em gol o domínio que teve. No domingo que vem, o Cruzeiro joga por um empate para se tornar o campeão mineiro deste ano. Nada está definido. 

CLAMANDO POR LÍVIO (2)

sábado, 5 de abril de 2014

O BASTANTE

Não tenho outra opção a não ser o agora. 
Mas eu não diria que o agora é tudo o que me resta.
O agora é tudo o que me basta. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

CLAMANDO POR LÍVIO


Caso o texto do vídeo não esteja legal para ser lido, eis a transcrição dele abaixo.
_____


Desde quando comecei a estudar a inglês, logo passei a brincar a brincar com a expressão “leave you”, que, quando dita em voz alta, é como se estivessem dizendo meu nome. Por causa disso, era natural que eu achasse engraçado quando a expressão aparecia na letra de alguma canção. 

Recentemente, escutando pelo rádio “Glory of love”, do Peter Cetera, achei graça quando ele cantou “leave you”. Decidi então executar ideia antiga: reunir trechos em que a expressão aparece e juntá-los.

Primeira “ocorrência”: na canção “They all want you”, cantada pela Lissie.

Segunda “ocorrência”: na canção “Glory of love”, cantada pelo Peter Cetera.

Terceira “ocorrência”: na canção “Easy lover” dueto de Philip Bailey e Phill Collins.

Quarta “ocorrência”: na canção “Babe, I’m gonna leave you”, do Led Zeppelin...

Caso saiba de mais alguma canção com a expressão “leave you”, sinta-se à vontade para dizer... 

TEXTURA







Está aqui em minha casa uma almofada em forma de triângulo retângulo. Minha mãe, que esteve por aqui um dia desses, tirou a fronha da almofada. Foi quando percebi que um dos lados dela me seria útil para algumas imagens. 

Minha mãe colocou a fronha de volta, pois fiquei enrolando para fazer os registros. Hoje, eu os fiz. Agora que as fotos foram tiradas, meu drama começa: sou muito desajeitado; sei que haver uma saga para que eu consiga recolocar a fronha na almofada... 

APONTAMENTO 199

As ideias da gente, para se ajeitarem, precisam das ideias dos outros. Ajeitadas, as ideias da gente podem ajudar ideias de outros a se ajeitarem. Ideias gostam de ajeitamentos; ao mesmo tempo, de inquietude. E assim a gente vai se ajeitando. 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

CRUZEIRO VENCE PELA LIBERTADORES

A vitória do Cruzeiro, há pouco, contra a Universidad de Chile, não garante o time azul na próxima fase da Libertadores, embora mantenha a esperança dos cruzeirenses ligada na tomada. O desempenho do time mineiro prova que a equipe ainda pode ser um belo time.

Os passes rápidos e eficazes fizeram lembrar o Cruzeiro do ano passado, quando a equipe conquistou o Campeonato Brasileiro, tendo jogado o futebol mais bonito do torneio. O jogo terminado há pouco mostra que a Raposa ainda tem beleza e eficácia.

A decisão do Campeonato Mineiro, contra o Atlético, que, às 23h, entra em campo também pela Libertadores, está a caminho. Os dois times são muito bons. Isso autoriza a imaginação para que ela conceba uma bela decisão no campeonato estadual. Por fim, vislumbrar não custa nada: seria formidável um enfrentamento entre os dois times pela Libertadores. 

APRENDIZADO

Aprender uma partícula 
é aprender o Universo.
Aprender o Sol 
é aprender o Universo.
Aprender uma galáxia 
é aprender o Universo.

Eu me aprendo. 

APONTAMENTO 198

A festa entre amigos, a gigantesca árvore, o amor, a libélula, a almofada. Não importa o que esteja sendo fotografado. A busca pela perfeição deve ser um ideal. A perfeição está no próximo clique. Feito este, a busca prossegue. A perfeição está um clique além. Está um clique aqui. 

DOMÍNIO

Ato-te.
De fato, 
tenho-te.
Em ato, 
desato-te.
Em ata, 
assino 
e dato. 

TRATADO DA INSÔNIA

1
Perdi o sono.
Se alguém encontrá-lo,
gentileza devolver
(gratifico).
Pode vir
a qualquer hora —
estarei acordado.

2
O que é, 
o que é?... 
Quando a gente 
o acha a gente 
fecha os olhos...

3
Uma insônia
sem versos
é uma noite
sem sono perdida.

4
Ainda bem: 
a insônia não 
impede o sonho.

5
Perdi o sono. 
Eu o deixei cair 
em algum lugar 
dentro de mim.

6
Insônia é quando, 
dentro da gente, 
o Sol não se põe.

Insônia é quando
a gente se esquece
de anoitecer. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

EMBARQUES

Ela foi às lágrimas.
Foi mas não gostou.
Ela foi às compras.
Desiludiu-se logo.
Depois, foi à alegria.
Foi a última notícia
que dela eu recebi. 

SINTONIA FINA

Pessoas, estou no ar, ao vivo, com o Sintonia Fina, programa musical. Caso queiram escutar, cliquem aqui. O programa vai até às 16h30. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

(DES)APONTAMENTO 7

O Moisés bíblico foi um... divisor de águas... 

APONTAMENTO 197

Defende outro Golpe aquele que deseja desferi-lo. Se não no palco, nos bastidores; se não nos bastidores, com seus botões. Posso dizer, sem medo, que não quero outro. Que não haja o dia em que terei de dizer isso com medo. 

ENTREVISTA COM MUJICA

O Flaubert escreveu que “se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”. Já o José Mujica, se ele não existisse, seria preciso inventá-lo. Mujica é um caso, infelizmente, raro: uma pessoa que tem sabedoria. 

A entrevista que compartilho foi concedida a jornalistas do Grupo Bandeirantes.

segunda-feira, 31 de março de 2014

BEROLA 0 x 0 GUSTAVO

Via Twitter, Neto Berola, atualmente no Atlético/MG, atacou Bob Faria, comentarista do Sistema Globo. Os comentários de Berola são inconsequentes e imaturos. Chegam a abrir brechas para um processo; não sei se Faria tomará tal atitude.

Em um programa de TV, Lélio Gustavo, famoso comentarista da Rádio Itatiaia, rebateu as críticas que Berola fizera contra Bob Faria. O problema é que Gustavo foi tão inconsequente quanto Berola.

Lélio Gustavo confirmou que foi demitido da Rádio Itatiaia em virtude dos comentários que fizera. O que sobra do episódio é que jogadores, mídia e torcedores continuam, na maioria, primários. De tempos em tempos, o despreparo e o destempero vêm à tona.

Não importa o lugar, não importa o time: torcedores têm brincadeiras que são, quase todas, imbecis ou preconceituosas; jornalistas deixam o profissionalismo e se tornam torcedores infantis; jogadores, não raro, fazem declarações tão lamentáveis quanto o futebol que jogam. 

Estão quase todos num campo só, participando de um futebol minguado e de uma estrutura incompetente. Caso queira conferir “link” para matéria sobre o imbróglio Berola-Gustavo, clique aqui. 

INFIEL



Ayaan Hirsi Ali nasceu na Somália, em 1969. De família muçulmana, seu destino já estava traçado: obedecer ao que prescreve o Corão, obedecer aos homens, casar-se com quem escolhessem para ela. Ainda menina, devido às tradições de que foi vítima, passou por clitorectomia.

Ela é autora do estupendo Infiel, publicado pela Companhia das Letras. Autobiográfica, a obra relata a vida de Ayaan Hirsi Ali desde a infância, num mundo arcaico e cheio de costumes anacrônicos, assolado por conflitos bélicos, até a fuga para a Europa, a carreira política na Holanda (foi deputada por lá) e o atual exílio nos Estados Unidos.

Infiel muda de tom quando Ayaan Hirsi Ali começa a falar de sua carreira política na Holanda. Se antes de contar sua incursão em trâmites políticos sua dolorida biografia era narrada sem questionamentos mais profundos, a partir do momento em que nos conta sua jornada política, a escritora não se furta a analisar temas controversos, como o islamismo que herdara; hoje, após anos de reflexão, Hirsi Ali se declara ateia. 

Ela também conta o episódio em que um amigo dela foi assassinado depois de dirigir um curta-metragem cujo roteiro é de Ayaan Hirsi Ali. Submissão, o nome do curta, tem direção de Theo van Gogh, que seria assassinado por causa da feitura do vídeo. Hirsi Ali passou a receber ameaças de morte. O vídeo está no Youtube: bastar digitar o nome dela e a palavra “submission”.

A autora deixa claro: (...) “Nós, no Ocidente, fazemos mal em prolongar desnecessariamente a dor dessa transição [a transição para o mundo moderno], alçando culturas repletas de farisaísmo e ódio à mulher à estatura de respeitáveis estilos de vida alternativos”. Hirsi Ali desaprova a complacência ocidental para com um sistema “incompatível com os direitos humanos e os valores liberais”, nas palavras dela.

Infiel fez com que eu olhasse de um modo menos desconfiado para o Ocidente. Não que eu tenha passado a aprovar as crueldades desse Ocidente, seja no Oriente, seja na África, seja no próprio Ocidente. Entretanto, o livro fez com que eu reconhecesse de modo mais nítido conquistas “simples”, como a liberdade de me exprimir.

Ayaan Hirsi Ali escreveu um livro essencial. Também via Youtube é possível ter acessos a debates de que ela participou. Infiel é o retrato de uma mulher notável. Ela teve malária, pneumonia; teve a genitália mutilada, teve uma faca na garganta num assalto, teve o crânio fraturado por um professor de Alcorão. Reflete a autora: “Quantas moças nascidas no Hospital Digfeer, em Mogadíscio, em novembro de 1969, ainda estão vivas? E quantas têm voz, realmente?”. Ainda bem que Hirsi Ali lutou para achar a dela.

domingo, 30 de março de 2014

HORA DE FINGIR, ZECA BALEIRO

Desde tempos imemoriais, gosto de intertextualidades: aquela coisa de uma canção que nos remete a um livro; de um filme que nos remete a uma pintura... Chego a suspeitar de que gosto tanto da intertextualidade porque ela acaba por revelar, em última instância, que, em essência, somos os mesmos.

Recentemente, escutando “Time to pretend”, do MGMT, eu me lembrei de “Babylon”, do Zeca Baleiro. Ambas têm em comum um eu lírico a devanear, imaginando-se numa realidade que não é a sua, num mundo que não está materializado, mas que habita a imaginação. Nesse devaneio, os excessos que o dinheiro pode comprar estão ao alcance.

Uma diferença entre as letras é que na do Zeca Baleiro há um instante em que o eu lírico cai na real (ainda que depois volte a devanear), assumindo que o mundo charmoso e sedutor que vinha concebendo não existe para ele: “Não tenho dinheiro / Pra bancar a minha droga / Eu não tenho renda / Pra descolar a merenda”. Na letra do MGMT, o devaneio está em toda a letra.

A canção do MGMT causou certa polêmica; houve quem dissesse que a letra fazia apologia a um modo de vida destrutivo. Não a entendo assim; encaro a letra como “mero” devaneio de alguém que sonha com o universo do estrelato, o qual pode parecer tão sedutor para nós, que não vivemos nele. Vislumbrado de longe, esse universo pode ser tudo com que alguém sonha.

Para conferir a letra de “Babylon”, clique aqui; para conferir a de “Time to pretend”, tanto a versão original quanto a tradução, aqui. 

SILÊNCIOS

Um silêncio fecundo habita a amplidão.
Não escuto meus pensamentos, 
o mundo não se faz escutar.
Eu e a natureza somos um 
vasto esquecimento feito de silêncios. 

FOTOPOEMA 349

quinta-feira, 27 de março de 2014

"O DUBLÊ DO DIABO"


De antemão, digo que aquela coisa de o George W. Bush se referir a países como o Iraque como sendo um dos integrantes do “eixo do mal” é retórica barata e maniqueísta. Num texto publicado em seis de junho de 2006, depois de os EUA capturarem Saddam Hussein, o genial e ousado Robert Fisk, do jornal The Independent, escreveu sobre a hipocrisia que era enforcar Hussein.

Na terça-feira, procurando por algo para assistir em torno de 22h, leio a sinopse de “O dublê do diabo” [The devil’s double], de 2011. A direção é de Lee Tamahori. Michael Thomas escreveu o roteiro, que por sua vez é baseado em livro de Latif Yahia. Ele, Yahia (interpretado por Dominic Cooper), é o personagem principal do filme, baseado em fato real.

Nascido em 1964, Yahia, filho de um bem-sucedido empresário, teve como colega de sala Uday Saddam Hussein (também interpretado por Dominic Cooper), filho do futuro Presidente iraquiano. Ainda na escola, a semelhança de Yahia com Hussein, o filho, já era notada. Precisamente essa semelhança tornar-se-ia uma maldição para Yahia, que se vê obrigado a assumir o papel de sósia de Uday Saddam Hussein.

Depois de ter sido submetido a sessões de tortura e de terem dito a ele que se ele não topasse ser o sósia a família dele sentiria as consequências da recusa, não haveria alternativa a Yahia a não ser aceitar o que lhe impuseram. No olho do furacão, ele presenciava as insanidades e desumanidades de Uday Saddam Hussein.

Os eventos pelos quais Latif Yahia passou foram relatados em livros, numa trilogia que tem os seguintes títulos: “I Was Saddam's Son” [Eu fui filho de Saddam], “The black hole” [O buraco negro] e “Forty shades of conspiracy” [Quarenta tons de conspiração]. O filme de Tamahori é baseado no primeiro volume da trilogia de Yahia.

Se por um lado não é exagero, de acordo com o que é mostrado no filme de Tamahori, adjetivar o comportamento de Uday Saddam Hussein como sendo diabólico, há que se tomar o cuidado de não se esquecer das atrocidades que os EUA e seus aliados perpetraram para tirar Saddam Hussein do poder.

Interessei-me pelos livros de Latif Yahia. Se você gosta de se envolver em causas humanitárias, há um motivo para que você os adquira: Yahia doa todos os direitos autorais decorrentes das vendas dos livros para as crianças iraquianas que ficaram órfãs depois que uma guerra no Iraque foi deflagrada pelos EUA em 2003. 

VINTE E SETE DE MARÇO


Se vivo estivesse, o senhor Renato Manfredini Júnior, o Renato Russo, completaria hoje cinquenta e quatro anos. É por isso que posto uma canção do Legião Urbana. Era uma das preferidas do Renato, conforme o que ele dizia nos shows.

No dia vinte e nove de agosto de 1992 conferi um show da banda em Uberlândia, no UTC. Tendo chegado cedo à cidade, fui para um dos hotéis em que os legionários poderiam estar. Chegando lá, fiquei sabendo que estariam em outro hotel, que fica perto. Fui para lá e fiquei aguardando. Quando a banda chegou, tive a oportunidade de pegar o autógrafo do Renato Russo.

Ele era baixo, muito magro. Foi muito atencioso conosco, os que ficamos o aguardando na porta do hotel. Perguntei para ele se ele se lembrava de ter tocado em Patos de Minas. Ele me olhou com cara de espanto e me perguntou se eu estava no show; eu disse que não estava, e completei dizendo que eu tinha onze anos na época. Ele então brincou: “Poxa, estou ficando velho”. Infelizmente, não ficou.