Eu não saberia definir a dor. O que sei, é que ela tem uma característica marcante: torna insuportável o agora.
sexta-feira, 7 de março de 2014
INJUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS
A ideia de que o cidadão tem de fazer justiça por conta própria está em voga. Constatando a incapacidade do Estado em oferecer segurança, alguns cidadãos decidem que estão aptos a punir aqueles que transgridem a lei.
A incapacidade do Estado não implica a capacidade do cidadão. Ademais, quando o dito cidadão de bem, essa entidade abstrata, decide julgar, acaba defendendo a pena de morte, entoando mantras como “bandido bom é bandido morto”.
É o cidadão se julgar superior às instituições e superior a outros cidadãos. Julgando-se assim, sente-se no direito de tirar a vida de outra pessoa, igualando-se, assim, aos contraventores. Imaginemos um cenário em que as instituições sejam substituídas pelos chamados cidadãos de bem. Num contexto assim, eu teria ainda mais medo do que o que já tenho.
O argumento do dito cidadão de bem é este: “Se está com dó de bandido, leve pra sua casa”. Ou então: “Quero ver você defender bandido quando a vítima for você”. Ora, eu já sou vítima; eu vivo me policiando. Sempre digo que só temo uma única coisa neste mundo: gente. Eu também sei o que é viver com medo.
É curioso: o chamado cidadão de bem, ao se arvorar no direito de fazer justiça, é truculento. Esse cidadão denomina-se como sendo do bem, mas ele é violento. Se não em gestos, no discurso. E, suponho, ao olhar para os próprios delitos, grandes ou pequenos, não os vê como dignos de punição.
Num “sistema” tão arbitrário, em que bastaria a um grupo qualquer se achar apto a fazer justiça, imagino que muita gente inocente seria considerada culpada, pois com grupos agindo por conta própria não é dada ao “réu” a chance de se defender. Ter-se-ia então uma situação sinistra: a justiça não puniria os contraventores, e inocentes poderiam ser punidos por grupos de “justiceiros”.
Aos desavisados, penso não ser preciso dizer que não defendi contraventores nem disse que o Estado esteja cumprindo com eficácia o que é obrigação dele. Apenas não quero uma sociedade em que gente que se diz de bem seja a responsável por minha “segurança”.
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terça-feira, 4 de março de 2014
QUERO SER MICHAEL STIPE
Em tempo: em postagem recente, mencionei o filme “Quero ser John Malkovich” [Being John Malkovich, 1999]. Acompanhando os créditos do filme, o que sempre procuro fazer, li que um dos produtores é um cara chamado Michael Stipe. Na hora, pensei: “Que curioso: esse produtor tem o mesmo nome do vocalista do R.E.M.”...
Isso foi ontem. Desliguei a televisão e fui me deitar. Há pouco, eu me lembrei disso. Consultando o nosso oráculo Google, descubro que o Michael Stipe, um dos produtores de “Quero ser John Malkovich” é, de fato, o vocalista do R.E.M.! Segundo o IMDB, ele ainda tem uma empresa de produção cinematográfica chamada C-100.
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AND THE PRONUNCIATION IS...
Eu queria ter comentado anteriormente, mas acabei esquecendo: a cerimônia deste Oscar 2014 serviu também para que eu aprendesse a pronunciar corretamente os nomes de Matthew McConaughey e de Pharrell Williams.
Em “Pharrell”, eu pensava que a sílaba tônica era a primeira — é a última. Já em “McConaughey”, sempre que eu via o nome escrito, eu o encarava, por assim dizer, como um desenho, um “ideograma”, nem arriscando qualquer pronúncia.
Enquanto eu estava digitando este texto, eu me lembrei do howjsay.com, que ensina a pronúncia de nomes próprios. O nome “Pharrell” ainda não está na página; já “McConaughey”, sim.
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APONTAMENTO 194
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CEM ANOS DE JOHN MALKOVICH
Gabriel García Márquez já disse em algumas entrevistas que um dos truques de que ele se valeu em “Cem anos de solidão” (1967) foi o de contar as coisas mais incríveis como se algo banal estivesse sendo narrado. Esse jeito de contar as coisas é também um dos truques de “Quero ser John Malkovich” [Being John Malkovich] (1999), do diretor Spike Jonze. O roteiro é de Charlie Kaufman.
Não que o filme tenha características do que a crítica chama de realismo mágico (não tem); entretanto, as coisas mais imponderáveis são encenadas como se fossem algo trivial. Esse jeito de narrar, não raramente, conduz ao humor. Não bastasse isso, é quase inevitável (ou pelo menos deveria ser) que acabemos refletindo sobre a imponderabilidade da vida que levamos, a imponderabilidade do que chamamos de realidade.
segunda-feira, 3 de março de 2014
A HISTÓRIA POR TRÁS DA FOTO (74)
Se acordo pela manhã, saio da cama e abro a porta da sala e as janelas da frente da casa. Só depois disso, se for o caso, volto a dormir. Não sei ao certo a razão pela qual cumpro esse “ritual”, mas me sinto melhor quando o realizo. Hoje pela manhã não foi diferente.
Ao abrir a janela da sala em que fica a televisão, gostei da gradação que a luz, ao passar pela janela, estava projetando sobre o sofá e a parede. Olhando-se para a imagem pode-se supor que a janela está, por assim dizer, à esquerda da foto, mas, curiosamente, está à direita. A foto foi tirada às 6h40.
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"VIDA DE JESUS"
“Vida de Jesus”, cuja primeira edição é do século XIX (1863), de Ernest Renan, é um dos livros mais ousados e inteligentes já escritos. Tem o rigor científico de um historiador, um leitor minucioso da história de Jesus conforme nos é contada na Bíblia. Renan disseca a figura de Cristo não na tentativa de fazer ruir o mito, mas, sim, de estudá-lo com um olhar científico, tentando deixar de lado ilusões individuais ou coletivas.
Se lido com a mente aberta, perceber-se-á que se trata de uma obra que não teve a intenção de ser blasfematória. Não há ranço, não há crítica aos que, pela fé, coadunam com o que a Bíblia narra, crendo, por exemplo, que houve milagres — Renan descarta, dentre outras coisas que são contadas nos Evangelhos, a existência de milagres.
Não se trata de um livro contra Jesus nem contra a história do cristianismo. Sem radicalismos, Renan expõe pensamentos e conclusões sem o tom de quem pretende causar polêmica. É fácil polemizar e chocar. Renan não é iconoclasta; é “apenas” um historiador que olha para a figura de Cristo e tenta lançar sobre ele e sua época, com rigor e sensatez, um olhar racional, rigoroso e bonito.
Nos tempos atuais, em que, na falta de bons argumentos, as pessoas têm vociferado desatinos travestidos de opiniões, “Vida de Jesus” acaba sendo, de quebra, uma aula de retórica e de bom senso. A obra ensina, mesmo não sendo sua intenção principal, que até algo muito polêmico pode ser tratado com inteligência.
A edição que tenho é da Martin Claret, que na década de 80 fez sucesso com a coleção O pensamento vivo, na qual grandes inteligências eram biografadas. A tradução de “Vida de Jesus” é de Eliana Maria de A. Martins. Errinhos de digitação aqui e ali não chegam a comprometer a edição, que tem breve cronologia da vida de Renan e, seguindo o perfil didático da editora, apêndices.
domingo, 2 de março de 2014
VIVER DE SAUDADE
Saudade não
mata ninguém.
Eu morro
de saudade de ti.
_____
(Um poema não precisa ser explicado, os bastidores de um poema não precisam ser revelados. Ainda assim, a título de curiosidade, digo que o breve texto acima foi escrito enquanto eu estava lendo o “Vida de Jesus” e aguardando a chegada de aves e de pássaros, conforme a postagem anterior.)
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OUTROS VOOS
O Leonardo da Vinci escreveu que “a felicidade está na atividade”; o Jorge Luis Borges, que “ler é uma forma de felicidade”. Tentei seguir os preceitos tanto do Da Vinci quanto do Borges hoje à tarde, ainda me recuperando de acidente de moto mencionado anteriormente neste blogue. Para me locomover, estou me valendo de muletas, mas já peguei as manhas de ser ágil com elas.
Há um tempão era projeto meu descolar um pedaço de tronco de árvore, na intenção de fazer um comedouro para aves e pássaros no pequeno quintal aqui de casa. Tendo conseguido o tronco, contei com a ajuda do Nivaldo, meu irmão, e do Cícero, amigo do Nivaldo, os quais, serrando, ajeitaram o tronco para que ele pare em pé; fizeram ainda uma espécie de cocho em que a comida pode ser colocada. Ao Nivaldo e ao Cícero, muito obrigado.
Tudo terminado, peguei câmera, lente, livro, caneta e papel. Enquanto esperava por algum pássaro ou alguma ave, eu lia — precisamente, o “Vida de Jesus”, do Ernest Renan — e escrevia uma ideia ou outra que me ocorresse. A leitura ia prosseguindo, bem como um verso ou outro escrito por mim; nem pássaro nem ave davam as caras.
Não tendo alimento próprio para colocar no cocho feito pelo Nivaldo e pelo Cícero, eu me vali de arroz, sem saber se aves e pássaros se alimentam de arroz. Assim que possível, vou comprar algo próprio para eles, numa tentativa de seduzi-los, para que eu os fotografe.
Não sei se pelo horário (fim de tarde), se pelo alimento colocado à disposição ou se pela minha proximidade, não fotografei nada que voasse; ainda assim, eis, nesta postagem, imagens do tronco e do comedouro. Enquanto esperava, como dito, li e escrevi; isso é fazer algo; logo, arrumei um jeito de ser feliz.
A próxima etapa é plantar aqui em casa uma muda de lantana, na intenção de atrair beija-flores e borboletas. Caso eu obtenha sucesso, seja com aves e pássaros, seja com borboletas e beija-flores, vocês saberão. Mesmo que eu não obtenha sucesso com eles, sei que estarei em companhia de algum livro ou de alguma tentativa de escrever enquanto os aguardo.
sábado, 1 de março de 2014
DE OLHOS BEM ABERTOS
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
QUESTIONAMENTO
Lucas tem um ano e meio de pura travessura. Está dentro de um carro, que passa em frente ao hospital em que o garoto nasceu. Serelepe, ele aponta o dedo para o hospital e diz:
— Foi aqui que eu saí de dentro da barriga da minha mãe.
Lucas dá uma risada; segundos depois, abandona subitamente a gargalhada, faz cara de incompreensão e pergunta:
— Uai, mas como é que eu entrei na barriga da minha mãe?!
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BICUDO
Sempre que me deparo com algo de que não sei o nome, eu me lembro do Arnaldo Antunes: "Como é que chama o nome disso"?
P.S.: o Alexandre, um amigo, disse-me que o nome é curicaca.
P.S.: o Alexandre, um amigo, disse-me que o nome é curicaca.
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NO CHÃO
Cair não é bom.
Bom é levantar-se.
Melhor seria não cair.
O chão perto da cara.
Eu olho para cima.
Há espaço no céu.
Hora de me levantar.
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
SINTONIA FINA
Pessoas, estou no ar com o Sintonia Fina, programa musical, até às 19h. Para escutar, cliquem aqui. Conto com a audiência de vocês.
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ENQUANTO ISSO...
No fim de tarde de terça-feira, dia 18 de fevereiro, levei um tombo de moto, do qual ainda estou me recuperando. Machuquei o lado direito de meu corpo — braço, mão, joelho e pé. Este ainda me preocupa, apesar dos cuidados e das visitas a médico.
Saindo de casa só para ir a hospital, o jeito é me virar com o que ocorre aqui para que eu fotografe. Foi com esse espírito que pude fotografar esta rolinha (?), que momentos antes estava na companhia de outra rolinha; cheguei a fotografar o casal.
Embora eu esteja usando muletas para me locomover pela casa, estou pensando em fazer algumas fotos por aqui, numa espécie de ensaio que teria a intenção de ilustrar ideia de que sou partidário: a de que não é preciso ir longe para fotografar. Caso tal ensaio seja feito, eu o postarei aqui.
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
LIZZIE VELASQUEZ
Ela é linda.
(Caso seja preciso ativar as legendas, ative-as no canto inferior direito.)
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DESCRIÇÃO
Tu sabes te tornar inesquecível.
Não te esforças, não premeditas, não tentas.
Simplesmente és, em elegância sem afetação.
Caminhas leve, há um quê de etéreo
neste teu encanto que é concreto.
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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
OS DOIS
Ontem à tarde, quando fui à cozinha tomar água, vi esses dois pela janela; também me viram, mas não pareceram se importar comigo nem com minha sede. Foi então que pensei na possibilidade de fotografá-los.
Saí da cozinha de fininho com a intenção de não espantar o casal. Chegando à sala, eu não estava conseguindo achar nem a câmera nem a lente, por causa de minha desorganização. Fuçando com mais furor, eu as achei.
Voltei à cozinha como quem não quer nada, posicionando-me próximo ao local em que eu estivera há instantes, enquanto tomava água. O casal continuava no mesmo lugar. Cooperaram muito para a seção: pude fazer dezesseis fotos deles.
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domingo, 23 de fevereiro de 2014
INDIVIDUAL E COLETIVO
A política, em teoria, é uma solução coletiva. A filosofia, em teoria, é uma solução individual. Parece-me que apenas uma dessas possíveis soluções não basta. Um homem sereno terá mais dificuldade em manter a serenidade em meio ao caos; um ambiente favorável parece-me inútil se é feito por pessoas infelizes.
Não creio numa hierarquia. Não penso que seja necessário haver primeiro uma solução individual para depois se buscar uma coletiva ou vice-versa. Uma solução pode levar à outra. Vejo como exercício infrutífero ficar se perguntando se o estado ruim das coisas se deve a uma falta de uma política melhor ou se ao fato de a sociedade ser composta por indivíduos doentes.
Todas as pessoas da Terra poderiam ser vistas como um só organismo, um só todo, mas esse todo é feito por individualidades. Concebo um intercâmbio ideal em que o todo e o indivíduo realizariam permutas criativas e saudáveis. Mas bem sabemos que o todo, tal como está, é feito de políticas cruéis e de indivíduos sem interesse em benefícios filosóficos.
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NATURALMENTE
Ao contemplar a foto de um soberbo pôr do sol ou ao observar a imagem de um majestoso tucano, é comum as pessoas comentarem que a natureza é perfeita. Contudo, geralmente não dizem o mesmo quando estão diante da imagem de um gavião devorando sua presa.
O modo como o homem se refere à natureza é “egoísta”, no sentido de que ele se vale de termos... humanos para se referir a coisas que não são humanas — mas que nem por isso deixam de pertencer à natureza.
Uma cachoeira pode ser adjetivada como perfeita; em contrapartida, não imagino a foto de uma inundação nas ruas de uma cidade receber tal adjetivo. Ainda assim, tanto as águas da cachoeira quanto as da inundação são manifestações da natureza.
Poder-se-ia argumentar que as tragédias naturais que destroem o homem são, no fundo, causadas por nós, que estaríamos tratando mal a natureza. Se por um lado estamos mesmo tratando-a mal, por outro, não podemos nos esquecer de que séculos antes da Revolução Industrial a natureza já matava o homem.
Para alguns, pode ser desconfortável a assunção de que a natureza não se importa com o destino humano. Não somos preservados por ela, não contamos com suas benesses nem com sua proteção. Somos simplesmente mais uma manifestação natural. Somos também natureza, mas não somos os eleitos dela. A natureza não se importa conosco; a natureza não tem eleitos.
Assim como um bem-te-vi devora o inseto, um leão vai nos devorar se estiver com fome. Esse hipotético leão não levará em conta se a presa humana era um exemplar pai de família ou se tratava-se de um assassino de gente. Se amanhã um corpo vindo do céu se chocar contra a Terra, a natureza não levará em conta o gênero humano ter produzido algo como “O leopardo”.
Parece-me haver algo de senso estético quando alguém diz, ao contemplar um luar, que a natureza é perfeita; o conceito estético é humano. Se, ao ver foto de uma ave que parece acariciar outra, alguém diz que a natureza é terna, é preciso ter em mente que ternura é nome dado pelo homem, é conceito humano.
A natureza quer ser. A natureza é. Na natureza, para que um seja, outro, às vezes, tem de deixar de ser. Há momentos em que esse outro pode ser um de nós. A natureza é mutável. Quando o Sol explodir, ele não levará em conta que em torno dele navegava um planeta que chamamos de Terra.
O modo como o homem se refere à natureza é “egoísta”, no sentido de que ele se vale de termos... humanos para se referir a coisas que não são humanas — mas que nem por isso deixam de pertencer à natureza.
Uma cachoeira pode ser adjetivada como perfeita; em contrapartida, não imagino a foto de uma inundação nas ruas de uma cidade receber tal adjetivo. Ainda assim, tanto as águas da cachoeira quanto as da inundação são manifestações da natureza.
Poder-se-ia argumentar que as tragédias naturais que destroem o homem são, no fundo, causadas por nós, que estaríamos tratando mal a natureza. Se por um lado estamos mesmo tratando-a mal, por outro, não podemos nos esquecer de que séculos antes da Revolução Industrial a natureza já matava o homem.
Para alguns, pode ser desconfortável a assunção de que a natureza não se importa com o destino humano. Não somos preservados por ela, não contamos com suas benesses nem com sua proteção. Somos simplesmente mais uma manifestação natural. Somos também natureza, mas não somos os eleitos dela. A natureza não se importa conosco; a natureza não tem eleitos.
Assim como um bem-te-vi devora o inseto, um leão vai nos devorar se estiver com fome. Esse hipotético leão não levará em conta se a presa humana era um exemplar pai de família ou se tratava-se de um assassino de gente. Se amanhã um corpo vindo do céu se chocar contra a Terra, a natureza não levará em conta o gênero humano ter produzido algo como “O leopardo”.
Parece-me haver algo de senso estético quando alguém diz, ao contemplar um luar, que a natureza é perfeita; o conceito estético é humano. Se, ao ver foto de uma ave que parece acariciar outra, alguém diz que a natureza é terna, é preciso ter em mente que ternura é nome dado pelo homem, é conceito humano.
A natureza quer ser. A natureza é. Na natureza, para que um seja, outro, às vezes, tem de deixar de ser. Há momentos em que esse outro pode ser um de nós. A natureza é mutável. Quando o Sol explodir, ele não levará em conta que em torno dele navegava um planeta que chamamos de Terra.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
CÍRCULO
Ler me deixa
com vontade de escrever,
que me deixa com vontade de ler.
Escrever me deixa
com vontade de ler,
que me deixa com vontade de escrever.
Círculo precioso
que me deixa com vontade de viver.
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QUEDA
Dor.
Substantivo ubíquo, atemporal.
Sintoma marcante: torna insuportável o agora.
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O QUE ME RESTA
Se um dia quiseres perder tempo, fica comigo.
Se um dia quiseres ser feliz, fica comigo.
Para ti eu tenho horas.
Para ti eu tenho toda a vida.
Se um dia quiseres meu corpo, fica comigo.
Se um dia quiseres minha alma, fica comigo.
Para ti eu tenho mãos.
Para ti eu tenho todo o corpo.
Se um dia quiseres dedicatórias, fica comigo.
Se um dia quiseres flores, fica comigo.
Para ti eu tenho versos.
Para ti eu tenho todo o livro.
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VELHA ALMA
Que meu corpo envelheça.
Que minha alma envelheça.
Envelhecer não é necessariamente caducar.
Não quero alma jovem em corpo velho.
Quero alma velha em corpo velho.
Envelhecer não é obrigatoriamente decrepitude.
Que venha um corpo velho.
Que venha uma alma velha.
Envelhecer não é o mesmo que não saber aprender.
Que minha alma e meu corpo
fiquem enrugados, amassados.
Alma velha também recomeça.
Além do mais, alma tem idade?
Alma envelhece como corpo?
Caso sim, que a minha faça aniversário.
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SOLAR
Acordei antes do Sol,
que no horizonte já se insinua.
O dia rende, os versos rendem.
O dia vai se fazendo.
Num céu de uma
limpidez tão azul,
o dia vai se fazenda.
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ARQUITETURA DOS MINUTOS
Planta baixa:
falta um quarto
para que chegues.
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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
DIAGNÓSTICO
— Onde dói?
— Aqui.
— Dói muito?
— Muito.
— Vamos fazer uma radiografia.
— Doutor, mas a alma não vai aparecer, não, vai?
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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
TÁ RINDO DE QUÊ?
Robert Musil tem um saborosíssimo texto intitulado “Um cavalo sabe rir?”. Musil conta que um psicólogo dissera que “o animal não sabe rir nem sorrir”. Só que ele, Musil, conta que viu um cavalo rindo. O texto é um barato.
Um trecho: “Ora, um cavalo tem por assim dizer, quatro axilas e, provavelmente, duas vezes mais cócegas que o homem, portanto. Além disso, esse parecia ter também um lugar particularmente sensível, no lado interno da coxa, e toda vez que o tocavam ali, não conseguia conter o riso” (tradução de Nicolino de Simone Neto).
A narradora de “Água viva”, da Clarice Lispector, diz: “Os animais não riem. Embora às vezes o cão ri. Além da boca arfante o sorriso se transmite por olhos tornados brilhantes e mais sensuais, enquanto o rabo abana em alegre perspectiva. Mas gato não ri nunca”.
O gato da narradora de “Água viva” até poderia ser o mesmo a inspirar a crônica “Ode ao gato”, do Artur da Távola: “Nada é mais incômodo para a arrogância humana que o silencioso bastar-se dos gatos. (...) O gato não satisfaz às necessidades doentias de amor. Só às saudáveis”.
Nunca vi um cavalo rindo. Nem um cachorro. Mas eu os concebo rindo. Em contrapartida, não consigo imaginar um gato rindo. Pode ser que ele não seja de rir, mas de sorrir (sorrir implica só o movimento facial; rir implica emissão de som).
O gato é muito na dele. Parece muito indiferente às contingências humanas, bem como parece nem achar graça disso. Eu acho. Mas eu sou bicho homem. O bicho homem é dos que riem. Eu rio. Às vezes, suponho, como um cavalo.
EM PAZ
De nada adianta
o silêncio lá fora
se não há silêncio
dentro da gente.
De nada vale
a paz lá fora
se não há paz
dentro da gente.
Achar a paz é
achar o silêncio.
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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
FÁBRICA
Invisto no agora.
Acabo fabricando,
hoje, a saudade
de amanhã.
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domingo, 16 de fevereiro de 2014
APONTAMENTO 193
A beleza é versátil: pode ser matemática, verbal, imagética, sonora... Feio é não se dar conta da beleza.
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
UM BEIJO E FOI EMBORA
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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
TRAVESSIA
Existe a margem de lá.
Existe a margem de cá.
Vida é o que acontece
enquanto se atravessa o rio.
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DA PONTE
Fotos que fiz num fim de tarde, no dia oito de janeiro de 2007, durante uma das enchentes do Rio Paranaíba. Fácil perceber que a água estava quase chegando à ponte.
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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
SINTONIA FINA AO VIVO
Pessoas, a partir das 17h, vou estar ao vivo com o Sintonia Fina, programa musical. Caso queiram escutar, basta clicarem aqui. O programa vai até às 19h.
À LUZ DE NICOLE
Esta é Nicole, criança que, acompanhando aluna minha no mais recente curso de fotografia que realizei, participava das aulas, com carisma e inteligência. Praticando a teoria ao ar livre, estávamos tirando algumas fotos num fim de tarde, quando me dei conta de que a luz natural que incidia sobre a Nicole estava legal. Tirei, então, a foto.
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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
O MILÉSIMO "GOL" DE TÚLIO
Com muito atraso, somente hoje é que vi o milésimo "gol" marcado por Túlio contra o Mamoré, lá em Araxá. Ora, com um árbitro (Igor Junio Benevenuto) disposto a colaborar daquele modo, estou pensando em começar a jogar futebol e tentar marcar mil gols. O Túlio tem quarenta e quatro anos; é profissional há vinte e sete.
Ele levou vinte e sete anos para fazer mil gols. Todavia, caso eu consiga árbitros tão benevolentes quanto o que inventou aquele pênalti contra o Mamoré, penso que eu chegaria a mil na metade do tempo levado por Túlio. Tenho quarenta e três. Logo, por volta dos cinquenta e sete, eu chegaria ao milésimo gol. Amanhã mesmo vou procurar vaga na URT, time para o qual torço.
SABIÁ-DO-CAMPO
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POEMA 27
Este poema faz parte de um livro meu cuja temática é o amor. O título é Amor de palavra. Para conferi-lo na íntegra, clique aqui.
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O lugar do amor deveria ser em toda parte
Que chato o amor ter de se esconder
O lugar do amor é qualquer lugar
Amor urgente esquece tudo
Na claridade ou sobre o muro
No banco da praça ou no banco de trás
No calor do meio-dia ou no cinema
Amor não tem lugar, não tem hora
Para o amor, servem escadas, mangues, mesas
Amor não planejado não pensa em cama
Amor urgente dá um jeito, se vira
Amor urgente é no chão, no ônibus
Amor urgente se intromete em público
Amor urgente jura que está enganando os pais
Cheiros, línguas, mãos, bocas, sexos
O lugar do amor é quando o amor quer ser feito
O lugar do amor é todo mundo
O lugar do amor é o mundo todo
O lugar do amor é o corpo inteiro
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sábado, 8 de fevereiro de 2014
FAZER BONITO
Nem todo sentimento é bonito.
O que sinto é bonito.
É bonito porque é também palavra.
Nem toda palavra é bonita.
Esta é bonita porque inspirada em ti.
O que sinto é bonito.
É bonito porque tu existes.
Minha palavra é tua.
A beleza é tua.
A beleza é nossa.
Nem todo sentimento é bonito.
O que sinto é bonito porque quero ficar bonito para ti.
É bonito porque te quero bonita.
O que sinto é bonito.
É bonito porque é também palavra.
Nem toda palavra é bonita.
Esta é bonita porque inspirada em ti.
O que sinto é bonito.
É bonito porque tu existes.
Minha palavra é tua.
A beleza é tua.
A beleza é nossa.
Nem todo sentimento é bonito.
O que sinto é bonito porque quero ficar bonito para ti.
É bonito porque te quero bonita.
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
FOTOPOEMA 346
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APONTAMENTO 192
Prefiro os problemas de uma democracia às soluções de uma ditadura.
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SERVENTIA
Dizem que,
a rigor,
a poesia não
serve para nada.
Se assim for,
logo, a rigor,
conforme dizem,
eu me dedico a
algo que não
serve para nada.
A poesia me serve.
Eu sirvo à poesia.
Isso me basta.
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
CAFUNÉ...
Mais um registro antigo com que me deparei ao fazer cópia de segurança de velhos arquivos. Eu nem me lembrava mais de ter tirado esta foto.
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PARA O ALTO
Certa vez um fotógrafo, de cujo nome infelizmente não me lembro, escreveu que ao fazer o registro de animais é sempre bom, quando possível, fotografá-los fazendo alguma coisa — alimentando-se, correndo atrás da presa, interagindo entre si... Ainda de acordo com o fotógrafo, no caso de aves e pássaros, é sempre gratificante fotografá-los quando estão voando; para ele, é o que fazem de melhor. Sempre que fotografo animais, lembro--me de que, caso possível, é bom fotografá-los fazendo algo.
Já publiquei outras fotos de aves e pássaros durante o voo; as imagens desta postagem, embora antigas, são parte de cópias de segurança que tenho feito de meus arquivos velhos, que antes estavam somente em DVDs. Aproveito e insiro também fotos do pessoal da Esquadrilha da Fumaça. Afinal, é o animal homem fazendo alguma coisa.
Já publiquei outras fotos de aves e pássaros durante o voo; as imagens desta postagem, embora antigas, são parte de cópias de segurança que tenho feito de meus arquivos velhos, que antes estavam somente em DVDs. Aproveito e insiro também fotos do pessoal da Esquadrilha da Fumaça. Afinal, é o animal homem fazendo alguma coisa.
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
O QUE SE DEIXA
Se no chão, é pegada.
Se não, é legado.
Pegada é legado.
Legado é pegada.
Pegadas se apagam.
Legados se extinguem.
Nem por isso deixar de caminhar.
Nem por isso deixar de criar.
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"FAZENDO MOSQUITINHOS"
Segundo minha mãe, eles “estão fazendo mosquitinhos”. Alguém furtou (sic) esta foto quando realizei minha primeira exposição. Numa certa manhã, quando cheguei ao saguão em que a exposição estava sendo realizada, a foto não estava mais lá; na noite anterior, estava. Não sei se o que motivou o furto tenha sido alguma fantasia sexual ou algum fetiche...
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