quarta-feira, 16 de maio de 2018

À espera

Fazendo o rastreamento no site da transportadora, constato que os exemplares do Anacrônicas, meu livro mais recente, estão em Uberlândia. A gana de tê-los em mãos quase me compele a ir até lá. Quando eu tiver o livro em mãos, digo.

À parte isso, Anacrônicas já pode ser adquirido neste link. 

Terminação

Para o que deseja companhia:
cão.

Para o que pula do prédio:
chão.

Para o que planta:
grão.

Para o que se masturba:
mão.

Para o que não se permite:
não.

Para o que tem fome:
pão.

O que escreve versos:
vão. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

Peles

O hábito não faz o monge.
A farda não faz o soldado.
O jaleco não faz o cientista.

A nudez não desfaz o corpo. 

&

Ser e ter:
eis a questão. 

Sobre Tom Wolfe

Ontem, Tom Wolfe, autor do magistral A Fogueira das Vaidades, morreu. Ele foi um dos destaques do chamado Novo Jornalismo, que misturava técnicas romanescas ao texto jornalístico. Na primeira metade da década de 70, ele escreveu que “os repórteres estavam destinados a tornar os romancistas obsoletos”. 

Ele mesmo dedicar-se-ia ao romance como gênero. À parte isso, a “previsão” de que os jornalistas substituíram os romancistas não se cumpriu, nem lá fora nem no Brasil. Além do mais, por aqui, da década de 70 para cá, o jornalismo foi investindo cada vez menos em quem sabe escrever. Os que sabem, nos poucos espaços que têm, não tomaram o lugar dos romancistas, mas se valem de técnicas do dândi Tom Wolfe. 

terça-feira, 1 de maio de 2018

Haicai 66

Manhã; aclamei.
Ao longe escutava-se
o Brian May. 

Por que não escuto Galvão Bueno

Nem Galvão Bueno nem a Globo precisam de minha audiência. Não sou um dos “milhões de uns”, na expressão de atual campanha publicitária da emissora. Isso não me impede de dizer que Galvão Bueno é o que há de pior no jeito de a Rede Globo fazer as coisas. Não bastasse a chatice imensa, ele encarna o que de mais podre há na emissora: a pauta acrítica, o puxa-saquismo, a patriotada do canal da família Marinho; bastam alguns segundos do Bem, Amigos!, atração comandada pelo locutor no Sportv, para que essas coisas sejam percebidas. Por isso mesmo, não assisto ao programa. A favor de si, Galvão Bueno tem a voz, que é excelente, mas tem contra si algo lamentável em quem está num meio de comunicação — a burrice. Ele é espertalhão, mas a esperteza por si não define em totalidade o que é ser inteligente.

Para piorar, julga-se carismático; quando tenta ser engraçado, presenciamos algo constrangedor. Ele, como porta-voz mor do que a Globo faz contra o futebol brasileiro, reveste sua atuação com uma pseudobrasilidade nada interessada no real crescimento do futebol praticado aqui. Ainda bem que há muitos anos tenho opções para não acompanhar as transmissões conduzidas por ele. A última partida ao vivo que conferi narrada por Galvão Bueno foi a final da Copa do Mundo de 1994. Tempos depois, eu conferiria, não ao vivo, a história contada por ele no jogo em que a Alemanha goleou o time da CBF por 7 a 1. No dia, não escutei o locutor, mas meses depois fiz questão de acompanhar a reação dele diante do fiasco da equipe da Confederação Brasileira de Futebol, fiasco do qual a emissora que ele nojentamente defende também tem culpa.

Galvão Bueno epitoma o que a Rede Globo tem de pior. Parte dos demais profissionais do canal, sem se mostrarem partidários interesseiramente ensandecidos da ca(u)sa, seguem a linha editorial ditada pelos chefes, conforme o que acompanho, principalmente, no Sportv. Mas seguir as diretrizes dos chefes não é o bastante para Galvão Bueno. Seja por ser descaradamente teatral seja por ser fervorosamente genuíno (ou as duas coisas), o locutor é a expressão mais literal e figuradamente escandalosa da superficialidade com que a Globo trata todas as coisas importantes. É espantoso o quanto ele incorpora a futilidade do canal. Galvão Bueno é um desserviço para a comunicação, para o futebol, para o Brasil. É o que há de mais pernicioso quando um empregado decide ser vassalo de seus chefes e de tudo o que fizeram e fazem contra o país. 

Um pedido que não será lido por Temer

Temer causou hoje mais uma patuscada para si. Exercendo sua hipocrisia, foi ao local onde está o que sobrou de um prédio que pegou fogo e que desabou em São Paulo. O presidente disse que estava lá para prestar solidariedade às vítimas. Vindo de quem só tem demonstrado não ter a menor solidariedade nem a menor sensibilidade quanto às necessidades dos pobres, isso soa como populismo sem falta de autocrítica e como hipocrisia. Xingado e hostilizado pela população, mal tendo chegado, foi embora do lugar a que, tivesse ele algum senso do ridículo, não deveria ter ido.

Não importa se a decisão de ir lá tenha sido de um assessor ou do presidente, ficou evidente mais uma vez que as “boas” intenções de Temer não são bem-vindas. A presença dele no local da queda do edifício revelou mais uma vez o quanto o presidente não tem carisma. Sempre que tenta guinada a fim de passar uma imagem de quem está ao lado do povo, malogra. É que não há como decidir ter carisma. Como a sensualidade, carisma é o tipo da coisa que se tem ou não se tem. Não há como agir ao modo de quem tem carisma, não há como fingir ser alguém com carisma; isso seria imitação tosca. Valer-se de mesóclise não torna ninguém carismático.

É comum políticos se valerem de tragédias para executarem tacadas populistas. Todavia, a figura pública de Temer e suas medidas políticas deixam evidentes que ele não está a favor de pessoas a quem ele disse que ofereceria solidariedade hoje, lá em São Paulo. Não fosse ele serviçal de corporações que querem sugar o Brasil, Temer, em atitude inteligente, deixar-nos-ia (valer-se de mesóclise não torna ninguém carismático) em paz. Mas não foi para isso que ele topou compor o golpe. Estou de acordo quanto à expulsão de Temer ocorrida hoje. Não precisamos da pseudossolidariedade dele. Mesmo sabendo que ele nunca me lerá, peço: deixe-nos em paz, Temer; esqueça-nos. Somos melhores sem você. 

Escuriluz

Existe a luz.
Existe a treva.
Da mistura do que há 
de claro 
e do que há 
de escuro
em nós,
surge aquilo
que somos:
penumbra. 

Fotopoema 415

Haicai 65

Não se trata de pátema.
Dependendo de quem vem,
é bem melhor o anátema. 

Vaivém

“Você está me seguindo”.
“Ou vice-versa”.

Na dúvida, 
vide verso. 

Em cores

Olho para o céu.
O azul está passando
em brancas nuvens. 

Fotopoema 414

Haicai 64

Tenho o agora.
O resto é pensamento 
fazendo hora. 

Curicaca

Locutora de futebol no Esporte Interativo

Eu me lembro de que quando a Mabel Cezar começou a fazer as chamadas da Globo, revezando esse trabalho com o genial Dirceu Rabelo, houve imbecis que criticaram a escolha do canal, por ele ter permitido a uma mulher que gravasse as chamadas da emissora. A reclamação desses caras é a cara do machismo à brasileira.

Desde quando a Fox anunciou que terá narradora(s) na Copa do Mundo, tenho aguardado para conferir o resultado. Até o dia de hoje, eu nunca havia escutado uma partida de futebol ser narrada por uma mulher. Só que há pouco mais de meia hora, o Edgar, meu irmão, entrou em contato comigo e disse para eu ligar a TV no Esporte Interativo 2.

Neste momento, há uma locutora narrando a partida entre Real Madrid e Bayern de Munique. O nome dela é Viviane (o comentarista Mauro Beting se refere a ela como Vivi). No sítio do canal, não consegui achar o sobrenome dela, se é que ela adotou algum para sua persona pública. Ainda na página da emissora, pode-se inferir que houve ou está havendo uma espécie de concurso para escolha de narradora(s). 

domingo, 22 de abril de 2018

O conto de Lucas

Quaquá, uma cidade que fica no exoplaneta 2405, tem políticos e empresários que barraram o florescimento de uma universidade pública no local. Nesse longínquo tempo, um cidadão chamado Lucas Bridge protestou contra a falta de espírito público desses empresários e políticos, criou petições, acionou o ministério público. Os que impediram a universidade, donos de Quaquá, riram tanto de Lucas que as gargalhadas puderam ser ouvidas lá na Terra. 

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Azul e amarelo

Durante catorze anos disseram que azul é amarelo.

Tomé levou um dia para acreditar que azul é amarelo.
Jeane levou dois dias para acreditar que azul é amarelo.
Tatiane levou três anos para acreditar que azul é amarelo.
Gustavo levou quatro anos para acreditar que azul é amarelo.
Pedro levou treze anos e meio para acreditar que azul é amarelo.

Ana Vitória nasceu.
Abriu os olhos.
Viu que isso era bom.
A primeira coisa que disseram para ela foi que azul é amarelo. 

Dai aos patos o que é dos patos

Quando lancei meu quarto livro, fui ao Rio de Janeiro participar do programa Conversa com o Autor, apresentado por Katy Navarro. Na ocasião, ela me perguntou se havia mineiridade no que escrevo. Eu disse que não há. Pelo menos não há a confirmação do mito da mineiridade, um mito que povoa o imaginário precisamente pela força que os mitos têm. Se há algo de mineiro no que escrevo, isso se deve apenas ao fato de eu ter nascido em Minas Gerais. Não há nada demais nisso; eu ter nascido aqui é apenas algo circunstancial. Eu não valeria nem mais nem menos se tivesse nascido lá no Acre ou lá em Tegucigalpa.

No que já publiquei em livros, Patos de Minas está presente, de modo explícito, duas vezes. No Algo de Sempre, escrevi:

Patos de Minas.
Cidade incrível. 
Aqui acontecem coisas 
que só acontecem 
em todo lugar.

No Dislexias, escrevi:

Nasci em Patos de Minas.
Contra patos não há argumentos.

Menciono a mim mesmo não por empáfia infantiloide, mas para ilustrar que não embarco nisso de mineiridade. Com isso, não nego que Minas Gerais tenha suas peculiaridades, mas, ora, todo lugar tem suas peculiaridades. Ao mesmo tempo, Minas pode ser universal, assim como pode ser universal qualquer lugar.

Qualquer região é peculiar e universal. Isso vale para coisas ruins. É frequente atribuírem a Patos de Minas um conservadorismo que existiria somente aqui. Mas há gente conservadora no mundo inteiro. De modo análogo, isso vale para o bairrismo, a vaidade, o desejo de a cidade ser maior do que é, a ilusão de que aqui é mais especial do que ali ou do que lá ou acolá. Isso não são exclusividades patenses.

Li no Patos Hoje que alguns têm criticado, seja por hipocrisia, seja por conservadorismo, um quadro de Gisele Tavares (não a conheço). É óbvio que tanto a hipocrisia quanto o conservadorismo metido a moralista são lamentáveis. Com o que não concordo, é com os que têm dito que somente numa cidade como Patos de Minas poderia haver tamanha hipocrisia ou tamanho conservadorismo.

Na hora de dizer que a amálgama entre representação do triângulo (invertido) da bandeira de Minas Gerais e dos pelos vermelhos de uma mulher é algo libertino, acionam sua verborragia, eriçam seus pruridos “virtuosos”. O “cidadão de ‘bem’” é assim em sua hipocrisia ou em seu conservadorismo seletivo. Só que a caretice, a hipocrisia e o conservadorismo não são atributos só de cidades pequenas. Tentativa de banimento de performances em museus já ocorreram em grandes centros, obras artísticas já foram proibidas de ficarem em lugares públicos em capitais.

Há sempre representantes dos bons costumes berrando contra o que consideram delitos. O que praticam nunca é delitoso. Escreveu Oscar Wilde: “Pornográfico é o sexo dos outros”. Patos de Minas merece críticas pelo conservadorismo, pela empáfia, pela vaidade, pela caretice, pela falta de cultura, pelos políticos que tem e teve. Mesmo assim, dizer que essas coisas são piores aqui é ser injusto com a terra dos patos selvagens. 

Portas

Abre a porta.
Abre a outra porta.
Abre todas as portas.
Se quiseres,
brincamos o jogo em que
entro pela janela.

Tua casa é meu lar,
meu bar.
Entro sedento,
saio embevecido.
Eu me vou embora.
Sei que voltarei.
Tua casa é por onde entro
para querer não mais sair. 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Modos de expressão

A edição 138 da revista Piauí tem um (excelente) texto de Michel Laub intitulado “Notas sobre o fígado”. O artigo é sobre os bastidores dos prêmios literários no Brasil. Num trecho, Laub escreve: “Segundo um juiz habitual de prêmios no país, quando há debates para se chegar a um consenso, a melhor coisa para um livro é ter um defensor ‘agressivo’, pois isso constrange quem precisa argumentar contra’”.

Quem já conviveu em grupo sabe que defensores agressivos de fato constrangem, intimidam, não importa se no trabalho, se em família, se numa conversa de bar, se em redes sociais. A sutileza não tem espaço; o ruído que ela faz é solapado pelos decibéis da retórica sem conteúdo mas dita em volume alto.

Saber quando calar e quando falar é arte difícil e ligada a questões pessoais. Não bastasse, ainda que maduros, ainda que experientes, é comum falarmos e depois nos arrependermos ou não falarmos e depois nos arrependermos. Mesmo sendo difícil lidar com esse equilíbrio entre silêncio e palavra, a sutileza não pode ser abandonada quando optamos por dizer.

Quem fala alto ou quem grita convence muitos, quem vocifera se impõe diante de turbas animalescas. Sempre foi moeda corrente as pessoas deixaram-se levar não pelo conteúdo de algo, mas pelo modo tosco como esse algo é dito. O mundo é um lugar inóspito para a elegância, para a ponderação. Bons modos convencem poucos; isso não quer dizer que devamos abrir mão deles.

Ponderação ou sutileza não deveriam se calar. Os barulhentos sabem que não precisam de ideias, mas quem as tem não deveria deixar de expô-las. Não na esperança de convencer os que se deixam levar por quem rosna nem na expectativa de fazer os ruidosos mudarem as práticas. A elegância da expressão não deveria se calar porque elegância é sintoma de humanidade e de inteligência.

Essas são duas coisas que nunca estiveram na moda, mas são viáveis, possíveis, fazem parte do que há em ser gente. Elas existem; em nós, o que existe, se existe mesmo, quer se manifestar, quer ser. Quem oferece a truculência age assim porque é o que tem a oferecer; aquele que tem a elegância não deveria deixar de ofertá-la. Além do mais, exercer a elegância que se tem é, antes de tudo, um dever da pessoa para consigo mesma. No que diz respeito à convivência, há quem atribua charme no silêncio, sem se dar conta de que a expressão pode ser sedutora. 

sábado, 14 de abril de 2018

"Radio Gaga"

Decidi hoje comprar um rádio. Eu nem sabia que ainda eram fabricados. São. Uma mercearia aqui perto de casa os vende. Perguntei para o casal que é dono do estabelecimento quem ainda compra rádio. Segundo eles, o pessoal que mora na roça.

Patos é uma roça um pouco maior (não sou pejorativo ao afirmar isso; sou daqui). Mas é claro que não foi por isso que comprei um rádio. Comprei para conviver outra vez com um dispositivo que sempre tive por perto, por causa do meu pai, que sempre escutava rádio.

O modelo que comprei é simples, barato (custou só cento e quinze reais), pequeno (mede vinte e um e meio de largura e treze e meio de altura). Embora abra concessões modernosas (aceita pendrive, cartão SD e capta áudio de TVs), é no visual e nos atributos um aparelho de rádio à moda antiga. Sintoniza AMs (embora estejam migrando para a frequência modulada), FMs e ondas curtas.

À medida que o sintonizador é girado, pode-se escutar o chiado típico que há quando o aparelho tenta achar as emissoras. Tanto gostei de manejar o brinquedo que mesmo para sintonizar as rádios locais de maior potência não recolhi a antena. Estações se misturam, uma ou outra é escutada ao fundo, lá “longe”. O Queen está certo: “Radio, someone still loves you”. 

terça-feira, 10 de abril de 2018

Filha de Deus

Ana de Armas é uma das mais talentosas e belas atrizes da nova geração (outra talentosa e bela é Alicia Vikander). De Armas nasceu em Cuba; tem vinte e nove anos.

Vale demais a pena conferir as atuações dela em Cães de Guerra, em Blade Runner 2049 e em Filha de Deus (direção e roteiro de Gee Malik Linton). Este é estrelado por ela, que está no papel de Isabel de la Cruz, católica no nome e no comportamento.

O namorado dela está no Iraque, tendo sido convocado pelo exército americano. Num jantar com a família dele, ela anuncia que está grávida, declarando ser isso um milagre. Claro que ninguém acredita nela.

Paralelamente, o detetive Galban, interpretado por Keanu Reeves, está investigando o assassinato de seu parceiro profissional. Pouco antes de ser assassinado, havia tirado fotos de Isabel e de amigos dela, que estavam em frente a uma boate. Junte-se a isso o fato de que Isabel vê “fantasmas”. Há ainda a convivência dela com a garota Elisa (interpretada por Venus Ariel; foi o papel de estreia dela no cinema), que é aluna de Isabel numa escola infantil.

Quando Isabel diz que a gravidez dela é um milagre, ficamos sem saber se ela é embusteira ou se é louca. O ritmo do filme, um tanto lento, acelera-se nas sequências finais, quando se elucidam a questão de gravidez de Isabel, da convivência dela com Elisa e do assassinato do detetive. É quando Filha de Deus se revela um drama de fortes implicações psicológicas, a ponto de Isabel ter me remetido a Trevor Reznik, o personagem de Christian Bale em O Operário. 

Versão eletrônica de livro sobre Lula pode ser baixado gratuitamente

Em iniciativa da editora Boitempo, é possível baixar de graça a versão digital do livro “A verdade vencerá”, sobre Lula. É uma entrevista concedida aos jornalistas Juca Kfouri e Maria Inês Nassif, ao professor de relações internacionais Gilberto Maringoni e à editora Ivana Jinkings, fundadora e diretora da editora Boitempo. Há também textos de Eric Nepomuceno, Luis Fernando Verissimo, Luis Felipe Miguel e Rafael Valim. Do texto do Verissimo, cito o trecho abaixo.

(...) “A desigualdade brasileira não é uma fatalidade, tem autores identificáveis, pais conhecidos. Através da história, ela vem sendo mantida, principalmente, pelo que pode ser chamado de controle de natalidade de qualquer opção de esquerda, proibida de nascer ou se criar. Até onde a casta dominante está disposta a ir para evitar que a esquerda prolifere, nós já vimos. Os gritos de dor dos torturados pela ditadura de 1964 ainda ecoam em porões abandonados. E 1964 é apenas um exemplo do que tem sido uma constante histórica”. 

Apontamento 373

Cozinhar é temperar alquimia com paciência. 

sábado, 7 de abril de 2018

Uma ideia

Nunca duvidei de que prenderiam Lula. Era questão de tempo. Levando-se em conta o ataque de décadas contra ele, demoraram. É que quiseram dar um ar de legalidade e de civilidade aos preconceitos e ao ódio que têm.

Claro que não concordo com as estratégias sujas deles, embora esteja por demais evidente que obtiveram sucesso. Isso prova que o êxito, dependendo do que o causa, depõe contra os bem-sucedidos.

O impedimento de Dilma, o acordo entre judiciário, imprensa e meios de comunicação, a prisão de Lula... Mas não se iludam: a elite perniciosa que o Brasil tem só vai sossegar quando Lula morrer. Por causa do fanatismo dessa elite, ele vai morrer no cárcere. Aí, sim, o plano deles terá recebido o que querem.

Haverá júbilo entre eles. Serão estrepitosos (assim como estão sendo agora). Talvez coloram as ruas vestidos com camiseta da CBF; alegarão patriotismo, terão orgulho em dizer que fizeram tudo pelo bem do Brasil. Sabemos que é para o bem deles, e, no caso desse pessoal, o bem deles implica impedir que aqueles que não são do time deles possam ter algo. Quem não é do time deles tem de ser erradicado, assim como vão erradicar Lula.

Em discurso realizado hoje, ele disse: “Eu vou sair de lá [da prisão] de cabeça erguida e de peito estufado”. Não acredito que ele vá sair vivo do cárcere. Não se trata de exercício barato de adivinhação nem de pessimismo de minha parte. Para afirmar isso, levo em conta o que a direita tem feito contra o Lula. Não vão deixá-lo sair vivo da prisão.

Mas ele mesmo se definiu, no mesmo discurso de hoje: “Eu não sou um ser humano, sou uma ideia”. Isso, sim, não há direita que mate. Nem a Globo nem a Veja nem o judiciário são capazes de matar a ideia de um Brasil para todos. Ela está em mim, ela está em você. Nós somos transitórios, Lula é transitório. A ideia, não. Ela já existia antes de nós, antes do Lula; ela existe, vai continuar existindo.

O corpo de Lula vai ficar na prisão. A história escancara o que fazem com o corpo de quem tem uma ideia: encarceram, torturam, matam. Mas o corpo que expressou uma ideia não ficou sozinho. A multidão de corpos se faz num mesmo espaço, num mesmo tempo. A multidão de ideias não depende do mesmo instante nem do mesmo local para existir. Vez ou outra, nossos corpos podem estar juntos. Mesmo quando não estiverem, mesmo quando eu tiver ido embora, mesmo quando você tiver ido embora, a ideia de um país que é também dos pobres vai existir. Isso independe de mim, de você, do Lula e das sacanagens da direita.

Uma ideia, a princípio, pode parecer vaga, etérea, imprecisa. Não é. Uma ideia é o auge do corpo; depois que ela sai da cabeça, não pode ser aprisionada. Engana-se quem pensa que apagar um corpo é apagar o pensamento. Nesse percurso, a direita ainda fará várias vítimas. Mas isso não impede nem vai impedir estes nossos corpos e outros corpos vindouros de disseminarem ideias e sonhos. 

De novo, Reinaldo Azevedo

Sou leitor do Reinaldo Azevedo desde quando ele escrevia para a revista Bravo!. Passado esse tempo, fiquei anos sem ter notícia do jornalista; depois, ele passou a escrever para a Veja, espaço em que se firmou como um dos porta-vozes da direita brasileira. Mesmo eu não concordando com o que ele escrevia para o semanário, era fácil reconhecer que ele escreve bem. Depois que deixou a Veja, Azevedo foi para a Jovem Pan (fácil reconhecer que ele tem voz boa e excelente dicção); tendo saído da emissora, foi para a Band. Nos estúdios do canal, tem sido uma das vozes da razão. Sobre a prisão de Lula, ele mesmo disse que há “um caso claro de perseguição política”.

Acho que entendo Azevedo. Ele é antiLula, nunca escondeu isso. Só que, ao que parece, ele tem honestidade intelectual. No fundo, na leitura que faço, ele não quer dar à esquerda motivos para que ela reclame com razão do que tem sido feito com o Lula. Não que Reinaldo Azevedo tenha mudado a maneira como encara o mundo. Não se trata disso: trata-se, sim, de fazer as coisas de modo que não restasse à esquerda argumentos para rechaçar o julgamento de Lula.

Não há como negar a eficácia do embuste que a direita está aprontando com o Brasil. Lula preso é o que queriam. Nesse aspecto, o sucesso da empreitada é inegável. Só que Reinaldo Azevedo é inteligente. Não mantém o debate em nível rasteiro. Tanto é assim que critica os que concordam com ele mas se expressam com insensatez. Da maneira como tudo foi arranjado, reacenderam a esquerda. Não é o que a direita queria. Não é o que Azevedo queria.

Para assistir ao vídeo em que ele se pronuncia, o link é este: https://bit.ly/2GJ6hKL. Abaixo, transcrição de alguns trechos da fala dele:

“Esses cuidados do Sérgio Moro de não usar algema, dar o benefício de se entregar... Puro fru-fru para disfarçar a truculência da decisão. Obviamente uma decisão coordenada entre os três desembargadores da 8ª turma e o Sérgio Moro.

“Cada vez mais convencido de que estamos lidando com fanáticos, porque não dão ao Lula nem o direito a recurso a que ele tem direito. Aí realmente é querer deixar claro o seguinte: nós fazemos nesse país o que bem entendemos. Infelizmente, não há direita liberal no Brasil, a direita no Brasil hoje é a direita chucra, com raras exceções.

“Sabe qual é o problema da direita brasileira? Ela odeia gente de língua presa, ela odeia gente de nove dedos, ela odeia gente de origem operária. Ah, não, porque ele roubou! Mentira. Mentira porque está cercada de outros ladrões.

“Uma direita que não respeita direitos constitucionais, uma direita que não respeita a lei, uma direita que não respeita direitos individuais, uma direita que permite que a justiça se comporte como o poder absoluto, insisto, negando a um condenado a ter um recurso a que ele tem direito, independentemente do conteúdo da condenação, se justo ou injusto, isso não é direita liberal. Isso é no mínimo direita ‘fascistoide’. Porque aí a questão é a seguinte: já que nós não conseguimos nos impor eleitoralmente, então vamos tirar de circulação aquele que se impõe”. 

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Gratto, Muylaert

Hoje pela manhã, recebi via whatsapp um vídeo que tem narração de um texto [1] atribuído a Herton Gustavo Gratto. À medida que o texto vai sendo lido, belas imagens completam o trabalho. Eu nunca tinha ouvido falar de Herton Gustavo Gratto. Conferi o perfil dele no Facebook. O texto que recebi pela manhã foi escrito por ele; está na linha do tempo do ator, dramaturgo, poeta, roteirista e compositor, segundo identificação fornecida por ele.

No texto, o eu lírico é de uma pessoa de classe média ou de classe alta que assume o discurso de ataque contra o ex-presidente Lula não pelos erros dele, mas pelos acertos. Para muitos, não é paradoxal criticar alguém pelos acertos. Tais acertos deram alguma possibilidade de ascensão intelectual e financeira a quem não tinha contexto favorável para exercer a inteligência. Isso, estranhamente, incomoda muitos que têm dinheiro (ou pensam que têm).

O tom do texto de Herton Gustavo Gratto acabou me remetendo ao filme Que horas ela volta?, de 2015, dirigido por Anna Muylaert, que também é a roteirista. Jéssica (interpretada por Camila Márdila), personagem do filme de Muylaert, é encarnação ou personificação dos atacados no eu lírico do poema de Gratto. Ou, seguindo linha cronológica, o texto de Gratto é a transformação em verso do roteiro da diretora.

O filme não menciona nomes de políticos, mesmo deixando claro que a história se passa num período em que, graças às políticas públicas implantadas pelo PT, o viciado cenário social brasileiro, governado há séculos pela “elite da rapina” (valendo-me de expressão do Jessé Souza), deu oportunidade de conquistas financeiras e intelectuais a pobres.

No livro Cheiro de goiaba, Plinio Apuleyo Mendoza pergunta a Gabriel García Márquez: “Que tipo de governo você desejaria para o seu país?”. A resposta do escritor é simples: “Qualquer governo que faço os pobres felizes. Imagine!” [2].

Lula fez com que os pobres percebessem em dimensão inédita que o país é deles também e que eles também têm o direito de ser felizes. Tanto o filme de Muylaert quanto o texto de Gratto escancaram que há uma parte da elite que se ressente com a felicidade do outro se esse outro for pobre. Até o Reinaldo Azevedo admite que “é evidente que Lula está sendo vítima de um processo de exceção e de procedimentos que agridem o direito de defesa” [3]. Uma elite que faz maracutaias para que as riquezas do país sejam somente dela não vai garantir a um ex-metalúrgico barbudo, de dicção ruim e com quatro dedos numa das mãos o direito de defesa.
_____

[1] Disponível em https://bit.ly/2ErGSmG. Acesso em 06/04/2018.

[2] MÁRQUEZ, García Gabriel. Cheiro de goiaba: conversas com Plinio Apuleyo Mendoza. Tradução de Eliane Zagury. Rio de Janeiro. Record. 1993. Pág. 113.

[3] Disponível em https://bit.ly/2q8oafG. Acesso em 06/04/2018. 

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Construção

Invente apartamento,
crie estado de sítio.
A sangria será contida,
o país será supremo.
Romero declamou a odisseia,
a Vênus Platinada a transmitiu.
As fardas, elas ficam ouriçadas.

Moro num país asséptico,
branquinho como 
cocaína em helicóptero. 

Poderes

Plebeu,
playboy:
perdemos. 

Banhos

Tomou dois banhos:
um de chuva e 
um de chuveiro.
O primeiro lavou a alma. 

terça-feira, 3 de abril de 2018

Terreno

Ou
porque foram seduzidos pela imaginação 
ou
porque foram supersticiosos
ou
porque tiveram medo
ou 
porque quiseram controlar o povo,
inventaram
céu,
paraíso
e similares.

Ou 
porque a vida não é o bastante. 
Um não bastante
que é só o que temos, 
tudo o que temos.
Quem quiser consolo,
que o ache em vida. 

sábado, 31 de março de 2018

Para que serve a água?

De antemão, digo que sou contra o proselitismo, seja qual for. Não sou seguidor de nenhuma religião. Nem por isso deixo de me informar sobre o que as crenças são capazes de fazer, seja de ruim, seja de bom.

Na quinta-feira, dia vinte e nove de março, o papa Francisco lavou pés de detentos numa penitenciária em Roma. O chefe da igreja católica alegou ser tão pecador quanto os que estão presos.

Assim que li a notícia, eu me lembrei do Doria, em São Paulo, que contrata caminhão com mangueira para jogar água em mendigos, a fim de que saiam do centro da cidade. A água do papa foi para lavar os pés dos presos, em gesto pleno de simbolismo; a água de Doria foi para “limpar” São Paulo, em gesto pleno de desumanidade. 

terça-feira, 27 de março de 2018

Elisa, a polivalente

Fui “censurado” (ou vetado) duas vezes. Este texto é sobre a primeira dessas vezes; a segunda fica para outro apontamento. Na primeira, eu ainda era estudante. Frequentava o Polivalente, onde cursei edificações. Na ocasião, haveria a inauguração de um laboratório que seria útil não lembro mais para qual dos cursos técnicos que havia por lá. Houve toda uma pompa: a banda do 15º BPM esteve presente (lembro-me de que executaram uma canção do Skank), políticos conferiram o evento.

A diretora da escola era Elisa Guedes Duarte. Ela disse que era para um aluno discursar quando da inauguração do laboratório. Como nós, estudantes, havíamos sido informados de que haveria políticos na solenidade, eu, rebelde de corpo inteiro (atitude que tão bem faria — e faz — para mim como adulto), fui cara de pau e sugeri meu próprio nome para o discurso, já pensando no “sermão” que eu daria nos políticos que lá estivessem, não importava quem fossem (eu ainda não sabia quais deles estariam lá).

Feliz da vida, escrevi o discurso. Chegado o dia da inauguração oficial dos laboratórios, a Elisa me pediu para ler o texto que eu havia preparado. Não me opus. Terminada a leitura, ela me pediu que retirasse um trecho, que dizia algo mais ou menos assim: “Se a educação está ruim como está, a culpa, evidentemente, não é dos professores”. Ela argumentou que o momento era de festa e que a ocasião não era ideal para aquela provocação diante dos políticos que estariam no Polivalente. Acatei a ordem dela. Li o discurso, eliminando a crítica.

Houve dicotomia em mim. Por um lado, se minhas palavras haviam sido vetadas, sinal de que minha rebeldia poderia incomodar ou colocar em situação melindrosa os políticos que lá estivessem; isso me deixou muito contente, com a sensação de que eu estava no caminho certo. Por outro lado, ocorreu em mim a impressão de que a Elisa era uma pessoa careta. Na época, não fiz o salutar exercício de me colocar no lugar dela.

Muitos anos depois, eu e ela fomos colegas de trabalho no Unipam. Não lembro mais que cargo ela ocupava (ocupa?) lá. Eu era professor. Saí do Unipam. Mesmo quando eu trabalhava lá, meu contato com ela era raro, profissional; havia breves conversas. Não havia ranço algum de minha parte; nem sei se ela se lembrava de um dia ter me “censurado”. Quando saí do Unipam, os bate-papos entre mim e ela, que já eram poucos, deixaram de existir.

Vieram as redes sociais. Não sei por que paragens anda a Elisa, mas tenho lido as crônicas de autoria dela publicadas no Facebook. Eu não sabia que ela escreve (bem). Há um olhar atento, uma fina ironia, um texto revelador de uma pessoa inteligente, que tem domínio da palavra e que sabe dizer com elegância o que tem para dizer. O adulto em mim, mesmo antes de saber que a Elisa tem talento para escrever, já havia abandonado o vaticínio impetuoso e juvenil de que ela fosse careta; depois de ter me tornado leitor do que ela tem escrito, fico torcendo para que ela mergulhe na arte da crônica. Asseguro que serei leitor. 

O respeito não voltou

O Thiago Silva disse que a camisa da seleção brasileira “merece um pouco mais de respeito”. Sim, mas não por causa da geração dele. 

domingo, 25 de março de 2018

Engodo maquiado

Chamada, a que assisti na sexta-feira (23/03), do SporTV para o amistoso do Brasil contra a Alemanha, na terça, apela para o ufanismo, dando um tom épico ao comercial, com trilha marcante, hino nacional e cenas do 7 a 1. O problema é que o que vem da Globo não é ufanista; o que se vê na Globo e em seus satélites é patriotada interesseira, careta e demagógica.

No comercial, passam a ideia de que o jogo da semana que vem é uma espécie de revanche depois do fiasco do Brasil na Copa aqui realizada. Bobagem. Ainda que o Brasil faça sete ou mais gols na Alemanha, é um amistoso, há muito menos em jogo.

A Alemanha eliminou o Brasil num jogo de Copa do Mundo, jogando em Belo Horizonte. De quebra, Klose se tornou o maior artilheiro das Copas, diante de Ronaldo, que até então detinha esse recorde. Ronaldo comentou a partida na Globo, ao lado do bobo, chato e prejudicial Galvão Bueno.

Camuflando interesses cruéis, dá o SporTV ares de grandeza para o jogo de terça, mas nada do que façam esconde a pequenez do que são os ideais da Globo. O que fazem é demagogo, falso e brega. Por isso mesmo, sucesso. 

Apontamento 373

O Brasil tem boa parte da classe média que se acha elite e uma elite que acha que o país é só dela. Essa elite faz do país e da classe média o que bem entende. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

Não voto

Em conversa que mantenho com amigos, tenho me deparado com aqueles que têm a opinião de que quando os debates políticos na corrida presidencial se iniciarem, Bolsonaro vai se “queimar”; alguns internautas têm manifestado pensamento similar em redes sociais. Os que afirmam isso levam em conta que o total despreparo e a ignorância dele são o que, por fim, farão com que os apoiadores dele de agora se deem conta no futuro do que já é patente — a... obtusidade (é um eufemismo) de Bolsonaro.

Muito infelizmente, temo que o “diagnóstico” dos amigos e de alguns em redes sociais não esteja correto. Ainda que Bolsonaro confirme, reconfirme e dê inúmeras provas do quanto é um bufão retrógrado e simplista, isso não vai afugentar os apoiadores dele. Acredito mesmo que quanto mais bobo e truculento ele for, não somente não vai perder os apoiadores que tem, como vai arregimentar outros.

Há os que defendem ditadura militar; os ingênuos que acreditam que Bolsonaro é paradigma de honestidade se exultam ao apoiá-lo; preconceituosos de todos os matizes veem nele o candidato ideal. Quanto mais bronco, anacronicamente conservador e beligerante Bolsonaro for, mais haverá exultação entre ingênuos, machistas, homofóbicos, armamentistas, misóginos, eugenistas, racistas, xenófobos, belicistas...

Até a data das eleições, vislumbro alguma muito remota possibilidade de mudança entre o grupo dos ingênuos; os demais, que, lamentavelmente, são muitos, estão com Bolsonaro não apesar das declarações toscas dele, mas por causa delas. Pode ser que os marqueteiros da campanha dele sugiram “burilar” ou “suavizar” a imagem pública dele. Mas abandonar pautas intolerantes, ele não vai. Isso seria perder boa parte dos eleitores que ele tem.

Recentemente, assisti a uma entrevista com Malala Yousafzai no programa O Próximo Convidado com David Letterman, exibido pela Netflix. Num determinado momento, ele pergunta para Malala a opinião dela sobre Donald Trump. Ela devolve a pergunta para ele, que responde: “Eu sinto que, pessoalmente — não politicamente, mas pessoalmente —, ele não está apto a me representar”. Letterman conclui: “Não acredito que ele esteja apto a representar ninguém neste espaço” (o programa é gravado no que parece ser um teatro; há plateia).

A resposta do apresentador acabou me remetendo a Bolsonaro, por ser algo que eu responderia se alguém me perguntasse o que acho do pré-candidato à presidência. Politicamente, estou longe do espectro ditatorial defendido por ele; no plano pessoal, ele é o tipo de gente que eu não chamaria para tomar uma cerveja aqui em casa. Se em algum dia nos conhecêssemos (sei que isso não vai ocorrer), estou ciente de que a recíproca valeria. Sou o tipo de pessoa de que ele não faria a menor questão. Além do mais, ele não precisa de mim, em nenhum aspecto.

É comum os defensores alegarem a honestidade dele, sem nem saberem se ela existe de fato. As notícias de nebuloso enriquecimento dele e dos filhos dele, veiculadas em janeiro deste ano, não se desdobraram (o que já era esperado). “Historicamente, apenas o tema da corrupção, no Brasil, propicia a manipulação perfeita do público cativo: aquela que não toca nem de perto no acordo das elites nem nos seus privilégios e permite focar todo o fogo no inimigo de classe da ocasião. Trata-se de um tema que não oferece nenhuma reflexão e compreensão real do mundo, mas que possibilita todo tipo de distorção, seletividade e manipulação emotiva de um público cativo” [1]. Muitos dos “paladinos” da honestidade não passam de cativos.

É muita ingenuidade acreditar que basta a truculência de alguém para se acabar com a corrupção no Brasil, que é institucional e praticada em todas as esferas. No mais, alegar que um simpatizante de torturadores dizimaria a corrupção por ter sido militar é supor que não houve corrupção durante a ditadura. Pensar assim é revelar ignorância histórica.
_____

[1] SOUZA, Jessé. A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado. Rio de Janeiro. Leya. 2016. Pp. 88 e 89. 

O que a escola faz

Muito se fala sobre o papel da escola, sobre o que ela deve fazer, o que não deve fazer, a quem deve prestar contas... Quem muito fala sobre a função da escola geralmente prefere deixar de lado a importante noção de que a escola tem limites e de que nem tudo é obrigação dela. Querem exigir cada vez mais do ensino, no mais das vezes não dando a ele aquilo de que ele necessita para realizar o trabalho que a ele compete, sem levar em conta que não é obrigação dele preparar para tudo nem ser responsável pelo que o cidadão vai fazer depois de não mais frequentar uma escola — ou pelo que ele vai fazer quando o horário de aula termina e ele toma as ruas.

Quando alguém incorre em erro de português, é lugar-comum culparem as escolas por a pessoa não escrever corretamente segundo a gramática; se alguém não sabe fazer uma simples regra de três, a culpa é da escola. Já afirmei anteriormente haver professores que se jactaram de nunca terem lido um livro depois de terminarem a faculdade: a escola tem imperfeições porque é feita por imperfeitos. Mesmo assim, não é justo culpá-la pelas mazelas intelectuais do país.

Sou testemunha de que a escola tem ensinado. Se o ensino não é eficaz enquanto a pessoa ainda está em sala de aula, os menos responsáveis por essa ineficácia são os professores. Não bastasse, boa parte das pessoas, depois de terminarem o período em que tiveram de ficar em salas de aula, entregam-se a uma preocupante indolência intelectual. Na expressão mais visível dessa apatia mental, qualquer texto que tenha cinco linhas é textão, qualquer frase que comece a exigir um pouco de concentração é abandonada. Há muitos não interessados em alguma atividade intelectual.

Não há como a escola reger em totalidade nem as vidas dos que ainda frequentam salas de aulas; exigir dela que o cidadão adulto domine um conhecimento de que ele pode nem ter feito questão enquanto estava em sala de aula e de que não faz questão agora que não tem de se sentar e assistir a alguém lecionando é exigir desonestamente da escola. Eu citaria miríadas de professores que ensinaram e ensinam a diferença entre “mas” e “mais” ou que ensinaram a calcular porcentagens ou que ensinaram como se dá a fotossíntese. Contudo, se o cidadão que não mais frequenta um ambiente escolar está mais preocupado em postar fotos exibindo armas de fogo, não há nada que a escola possa fazer. Por ele, o que ela podia fazer, ela já fez. 

Marielle Franco

O mais recente capítulo da invasão no Rio de Janeiro foi escrito ontem. A morte de Marielle Franco escancara a inutilidade do que as autoridades estão fazendo lá. A truculência contra o cidadão “anônimo” já tem sido denunciada. Ontem, a fim de radicalizar o modo como lidam com quem se opõe contra a sacanagem que estão fazendo na cidade, mataram a vereadora.

Alguns dos que são a favor da invasão ou dos que não estão a fim de entender que ela é uma tacada populista e cruel contra as vítimas de sempre celebraram o assassinato de Marielle. Tristemente, isso não surpreende, pois tem sido assim em redes sociais. Também tristemente, a morte de civis num país que já sofreu tanto com intervenção militar não é novidade.

O que está claro é o que já se sabia de Marielle, ou seja, que ela era contra a presença do exército no Rio. Posso estar enganado quanto ao que vou escrever, mas sei como é o Brasil. Não acredito que os assassinos serão descobertos; e ainda que sejam, não serão punidos. Na hora de os invasores coagirem favelados e distribuírem gibis hipócritas e imbecis em ônibus, há empenho. Não haverá esse empenho nem por parte deles nem por parte de burocratas inúteis que estão em gabinetes em achar os assassinos da vereadora. Que eu esteja enganado. 

domingo, 11 de março de 2018

Árvore

Epitelial

Carregarás em tua pele
a lembrança do que sou.
Mais precisamente,
do que sou quando 
estou contigo.
Só contigo sou marcante. 

Na gráfica e no estádio

Embora eu não concorde com o modo como os torcedores protestaram contra a Globo, recentemente, em jogo entre Santos e Corinthians, entoando "Globo, vai tomar no c*", claro que partilho do sentimento contra a emissora, mesmo sem saber até que ponto esse sentimento era genuíno nos quase quarenta mil torcedores que xingaram o canal em partida que ele estava transmitindo; mesmo assim, suponho que o "cântico" era genuíno em alguns. Não concordo com a maneira (mandar tomar no c*), mas concordo com a essência.

De modo análogo, não concordo com a invasão realizada hoje pela manhã no parque gráfico do jornal O Globo, no Rio. Uma das razões alegadas para a invasão foi a defesa da democracia, mais uma vez atacada pela Globo e seus sinistros tentáculos no golpe de 2016. Vale lembrar que, sintomaticamente, a Globo surgiu no ano de 1965, um ano depois do golpe da década de 60. Nesse golpe, nem jornal O Globo nem militares nem demais partidários do saque contra o Brasil se preocuparam em espargir nele ares de legalidade, o que fizeram em 2016.

Mesmo eu não concordando com o modus operandi de hoje no jornal O Globo nem com o de dias atrás no Pacaembu, no jogo entre Santos e Corinthians, ambas as manifestações deixam claro que o rebanho subjugado pela Globo, mesmo ainda sendo gigantesco, tem oponentes que sabem do quanto o canal asfixia e mata o Brasil. Havendo conscientização e não havendo canalhice, o caminho natural é ser contra a Globo, seja de que modo for.

A nota surreal do dia de hoje ficou por conta da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), da Aner (Associação Nacional de Editores de Revistas) e da ANJ (Associação Nacional de Jornais), que divulgaram texto condenando os que, segundo as associações, "são incapazes de conviver em ambiente democrático". Esse pessoal não é imbecil. Defender o grupo Globo, alegando princípios democráticos a favor de um conglomerado que vive sacaneando os brasileiros é ser hipócrita e partidário dessa sacanagem. 

O que a escola faz

Muito se fala sobre o papel da escola, sobre o que ela deve fazer, o que não deve fazer, a quem deve prestar contas... Quem muito fala sobre a função da escola geralmente prefere deixar de lado a importante noção de que a escola tem limites e de que nem tudo é obrigação dela. Querem exigir cada vez mais do ensino, no mais das vezes não dando a ele aquilo de que ele necessita para realizar o trabalho que a ele compete, sem levar em conta que não é obrigação dele preparar para tudo nem ser responsável pelo que o cidadão vai fazer depois de não mais frequentar uma escola — ou pelo que ele vai fazer quando o horário de aula termina e ele toma as ruas.

Quando alguém incorre em erro de português, é lugar-comum culparem as escolas por a pessoa não escrever corretamente segundo a gramática; se alguém não sabe fazer uma simples regra de três, a culpa é da escola. Já afirmei anteriormente haver professores que se jactaram de nunca terem lido um livro depois de terminarem a faculdade: a escola tem imperfeições porque é feita por imperfeitos. Mesmo assim, não é justo culpá-la pelas mazelas intelectuais do país.

Sou testemunha de que a escola tem ensinado. Se o ensino não é eficaz enquanto a pessoa ainda está em sala de aula, os menos responsáveis por essa ineficácia são os professores. Não bastasse, boa parte das pessoas, depois de terminarem o período em que tiveram de ficar em salas de aula, entregam-se a uma preocupante indolência intelectual. Na expressão mais visível dessa apatia mental, qualquer texto que tenha cinco linhas é textão, qualquer frase que comece a exigir um pouco de concentração é abandonada. Há muitos não interessados em alguma atividade intelectual.

Não há como a escola reger em totalidade nem as vidas dos que ainda frequentam salas de aulas; exigir dela que o cidadão adulto domine um conhecimento de que ele pode nem ter feito questão enquanto estava em sala de aula e de que não faz questão agora que não tem de se sentar e assistir a alguém lecionando é exigir desonestamente da escola. Eu citaria miríadas de professores que ensinaram e ensinam a diferença entre “mas” e “mais” ou que ensinaram a calcular porcentagens ou que ensinaram como se dá a fotossíntese. Contudo, se o cidadão que não mais frequenta um ambiente escolar está mais preocupado em postar fotos exibindo armas de fogo, não há nada que a escola possa fazer. Por ele, o que ela podia fazer, ela já fez. 

domingo, 4 de março de 2018

Fotopoema 413

Céus


Curicacas




Os invasores estão de volta

Uma das coisas tristes sobre a invasão do exército no Rio de Janeiro é que isso não resolve nada. Estão lá, coagindo os de sempre, fichando-os, enquanto quem está em gabinetes ou em carros luxuosos seguem incólumes e felizes, cientes de que nem exércitos nem polícia vão mexer com eles.

A balela dos invasores é a de que a presença deles no Rio quer a segurança pública, mas já deixaram claro que não estão a fim de conversar (a pseudocoletiva em que as perguntas tiveram de ser lidas e tiveram de passar pelo crivo deles prova isso), o que não surpreende, pois o forte desse pessoal não é a arte do diálogo, mas apontar contra os próprios brasileiros aparatos de repressão, de tortura e de morte.

Alegam que é pela segurança, que é pela ordem, que é para zelar pelo "cidadão de bem" (adoram essa expressão). Muitas pessoas, por ingenuidade ou por burrice, defendem intervenção militar. O golpe de 64 mostrou o que ditadores e exército são capazes de fazer quando alegam que é para defender o país, o que são capazes de realizar quando se voltam contra os compatriotas. 

quinta-feira, 1 de março de 2018

O traje do poder e da subserviência

A inutilidade e a sacanagem da invasão do exército no Rio acabaram fazendo com que eu voltasse a pensar no comportamento de instituições que valorizam demais o que chamam de disciplina, de amor à pátria ou de senso ordeiro. São ambientes em que a aparência conta mais do que o que é de fato disciplina ou amor ao país. Quem ama o país não tortura, não mata, não confabula golpes políticos. Em termos históricos, o golpe de 64 foi ontem. Agora, há outro em curso. Os tempos são outros, as estratégias são outras, mas o desejo de saquear, mais uma vez, o país para uns poucos é o mesmo.

A subserviência de alguns ante os poderosos ou o fervor que têm quanto a hierarquias caretas e tolamente mandonas mais se parecem com o mais desbragado masoquismo. Há algo de infantil no encanto que sentem ante um fardão, uma farda, um sinal de distinção qualquer, ou quando se entregam a pompas afetadas.

Mesmo os que detêm cargos de comando assumem discurso típico de vassalos quando diante de alguém em hierarquia superior. Eles e seus pares têm vocabulário que, dependendo da situação, pode ser típico de ditadores ou típico de servos. Quem berra brandindo um cassetete tem a capacidade de se ajoelhar em submissão. Isso não é digno de chacota porque pode ser perigoso, quando agem em consonância com o pensamento de que são donos do povo e melhores do que ele.

Quando se sentem superiores pelo que ostentam, pelo que vestem, não têm noção de que “o hábito não faz o monge”, a farda não faz o soldado, a condecoração não faz o doutor. Nem hábitos nem fardas nem condecorações fazem o homem. Enquanto isso, quem não tem insígnias se incha vestindo toga ou terno. 

"Rio quarenta graus"

Exército no Rio não é solução.
Solução seria prender quem
transporta drogas em avião.

Sem argumentos na epopeia:
o exército exibe suas armas;
tem o aval de tosca plateia.

Fizeram do Rio o seu quintal.
Peixes grandes nadam em paz.
Nos pequenos, descem o pau.

Para os engravatados, carreiras.
Para os pobres, intimidação.
Dos ricos, cocaína nas esteiras.

Metidos em fardas, nada novo:
querem para si e para os deles
o que não é deles e é do povo. 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Feitos um para o outro

Sou antiGlobo. Isso é coisa antiga, vem desde a juventude. A emissora da família Marinho e as ramificações do império que edificaram são contra o Brasil. Muitos se deixam levar por questões técnicas e por um populismo interesseiro, alegando que haveria boas intenções na Globo e nos afluentes dela. A emissora vende bem a ideia de que se importa com o Brasil. O flerte com a ditadura e o silêncio quando do famoso comício a favor das eleições diretas em São Paulo são apenas duas provas patentes que os interesses da família Marinho não são os interesses do Brasil. Ditadores e golpistas ditam a pauta do que a família Marinho divulga. Não sou vassalo deles nem teleguiado pelo que transmitem.

Hoje, no Rio de Janeiro, representantes do exército dariam uma coletiva sobre a invasão (sim: invasão) realizada pelo exército na cidade. A rigor, não houve coletiva. As perguntas tiveram de ser escritas e foram previamente analisadas pelo exército (o que não havia sido divulgado anteriormente), que respondeu basicamente às perguntas da... Globo. Claro que isso não surpreende. Só uma emissora que cala os interesses do povo poderia ser contemplada numa pseudocoletiva dada pelo exército.

Naturalmente, o jornalismo do exterior sabe das intenções escusas da emissora. Tanto é assim que Dom Phillips, que é inglês e esteve hoje na “coletiva” do exército, publicou no Twitter que a Globo havia sido favorecida no evento. Obviamente, esse favorecimento ocorre por a emissora não fazer as perguntas que realmente interessam à população. A Globo e o exército se entendem, realizam conversa de compadres.

Fossem as coisas transparentes, que mal haveria em responder a perguntas que fossem honestas ou contrárias à decisão do exército? Por que a necessidade de ler as perguntas anteriormente? Não bastasse, integrante do exército, durante a coletiva, declarou que o Rio de Janeiro “é um laboratório para o Brasil”. Antigamente, os golpes vinham da noite para o dia; hoje, vêm em doses homeopáticas.

Há um ditado o qual diz que grandes mentes pensam semelhantemente. Não nos esqueçamos, todavia, que mentes pequenas não pensam muito diferentemente umas das outras. Globo e exército estão em sintonia; não os considero grandes mentes. O poder que têm não me seduz. Enquanto isso, fazem do Brasil o laboratório deles. O brasileiro não merece isso.