quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Necedade

Se é tempo de colher, 
não é hora de plantar.
Se é hora de colher, 
não é tempo de garfo. 

O bolo

Um bolo ultraneoliberal está sendo preparado. Se ele será considerado saboroso ou não, isso é relativo. No caso do pobre, ele será enfiado goela abaixo; no caso da classe média, incluindo aí a parte dela que tem a ilusão de ser rica, ele será enfiado goela abaixo. Quem vai mesmo achá-lo delicioso são os ricos. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Eduardo Cunha

Eduardo Cunha não ficará muito tempo preso; não haverá por parte dele delações escatológicas (parece-me ingenuidade supor isso). E ainda que houvesse, essas delações não respingariam em Temer. O jogo é mais complexo. Se por um lado, evidentemente, não tenho acesso aos bastidores desse jogo, por outro, não custa nada lembrar que Cunha é uma das peças dos que apoiaram a tomada do poder pelo atual presidente. Nesse interesseiro jogo de xadrez político, a cujas regras não temos acesso, a prisão (temporária) de Cunha é mais uma mexida no tabuleiro, mas não é o xeque-mate. 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Tempo verbal

Minhas palavras,
torno-as públicas,
o que é outro modo
de me enviar para ti.
Se teus olhos
as lerem,
isso vai ser
outro modo
de eu te tocar.
Se teu coração
as guardar,
isso vai ser
outro modo
de eu ficar.
O que é hoje 
o tempo do verbo,
que seja amanhã
o tempo do corpo. 

domingo, 16 de outubro de 2016

Conto 88

De sua casa, Baltazar podia escutar as badaladas do sino da igreja marcando as horas. Em noites insones, ele gostava de contá-las. Numa noite assim, contou dez. Uma hora depois, onze. Quando veio a meia-noite, Baltazar contou as doze badaladas. Só que um segundo depois veio outra; logo após, outra e outra e outras. O sino já havia martelado onze mil, trezentas e setenta e quatro badaladas. Baltazar seguia contando. Quando o Sol nasceu, o sino continuava no ritmo. Baltazar, acordado, perdera a conta e a razão. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Um amor

Sou feito de amor.
Do amor que sinto por ti.
Amor que me move,
me leva, 
me traz, 
me agita,
me acalma.

O que faço 
é por amor.
Por amor, 
o que eu não 
deveria fazer.

É amor que 
me faz desistir
e me causa de novo 
a esperança.
Por amor,
aprendo e esqueço,
praguejo e sou terno,
sou ato e silêncio,
escrevo e apago,
escrevo e não envio.

Esse amor me torna
divino e terráqueo, 
forte e humano.
Ora me transforma
em verso, 
ora me deixa
em limbo.

O amor que
tenho por ti
nunca será,
mas insiste
em ser. 

Vem aí mais um livro

Pessoas, há minutos, recebi, via e-mail, o sim: vou lançar mais um livro pela Chiado, editora portuguesa. Em breve, mais detalhes... 

Mais uma sobre Bob Dylan

Desculpem-me por voltar ao Bob Dylan. A rigor, eu deveria ter escrito tudo numa só postagem. Todavia, deixei me levar pelo entusiasmo assim que li o anúncio de que ele é o Nobel de 2016. A indicação dele já vem de alguns anos (um dos intelectuais da Fundação Nobel já havia se declarado a favor de se conceder o prêmio ao compositor americano).

Pareço me esquecer de que existe algo chamado Youtube. Lendo matéria sobre o Bob Dylan publicada hoje no site da New Yorker, há um “link” para uma entrevista concedida por Dylan numa ocasião em que ele esteve em Roma. No bate-papo, de pouco mais de uma hora, o compositor, que se mostra um tanto amuado no início da entrevista, vai, ao poucos, parecendo ficar mais à vontade, chegando até a brincar com os jornalistas. Se quiser escutar, eis o “link”.

A primeira coisa que me chamou a atenção assim que comecei a conferir a entrevista é o quanto a voz de Bob Dylan é grave quando ele não está cantando, mas falando. Como cantor, seu timbre fanhoso e médio é conhecido. Quando ele conversa, o tom fanhoso está presente, mas ao se valer do chamado “vocal fry” ao conversar, Dylan confere um tom grave à voz, um tom que não vem à tona quando ele canta.

Para encerrar esta postagem, e para evitar que eu escreva outra somente sobre a história de que me lembrei agora, faço referência a algo bastante divulgado; acho até que o John Lennon chegou a falar sobre isso em alguma entrevista. A história dá conta de que quando os Beatles fumaram maconha pela primeira vez, estavam na companhia de Bob Dylan, que é quem teria apresentado a eles a Cannabis sativa. 

Ainda Bob Dylan

Em 1986, li uma entrevista com o Bob Dylan publicada pela revista Bizz, de que eu era leitor fervoroso. Nunca me esqueci dessa entrevista. Dentre outras coisas, ele disse considerar Freud uma fraude, alegando que a psiquiatria não ajudou ninguém.

Também me lembro com nitidez de ele ter falado sobre o Herman Melville. Foi a partir da entrevista do Bob Dylan que tive a vontade de ler o grandioso “Moby Dick”. Dylan diz na entrevista: “Mas aí você pensa em alguém como Herman Melville, que escreve a partir da experiência, como em ‘Moby Dick’. Acho que há um tanto de fantasia no que escreveu. Dá para vê-lo cavalgando numa baleia?”. Quando fui ler o livro, fiquei o tempo todo aguardando o momento em que alguém (talvez o narrador) cavalgaria numa baleia; não me lembro de tal cena no livro.

Por fim, menciono algo que eu já mencionara num texto que publiquei em 1994, em coluna que eu mantinha em jornal daqui (o nome da coluna era Letras e Músicas): para Bob Dylan, o que mais lhe chama a atenção numa mulher é a voz.

O poeta Bob Dylan

Bob Dylan foi anunciado o Nobel de literatura de 2016. Lembro-me da primeira vez em que li a letra de “Blowin’ in the wind” — eu tinha uns doze anos; a escola de inglês em que eu estudava havia distribuído um livreto com as letras de algumas canções populares dos Estados Unidos. Uma delas era o clássico do Bob Dylan.

Sempre digo que letras de músicas podem ser literatura, mesmo não tendo obrigação de. Numa atitude nada simpática, compartilho, abaixo, texto escrito por... mim... Eu o publiquei em meu blogue no dia 10 de setembro de 2008.
_____

Gosto demais quando as barreiras que separam o erudito do popular são derrubadas. Sempre me senti atraído pela tentativa de se fazer uma amálgama dos dois. Em mim, isso é tão forte, que chego a pensar que se algum dia eu tivesse de arriscar uma definição para o que é a arte, eu partiria desse princípio de fusão entre o que é considerado popular e o que é considerado erudito.

Canções e literatura sempre me atraíram. O John Lennon disse que quando começou a escrever letras, tentava imitar o Bob Dylan. Nessa tentativa, Lennon se esforçava por escrever letras complicadas cujo sentido permanecesse latente. Com o passar do tempo, mudou a abordagem e passou a escrever textos mais simples, mais diretos, com menos metáforas – “Imagine” é um exemplo dessa fase menos rebuscada. Contudo, Lennon reiterava que tentava escrever letras que pudessem ser também lidas, letras que funcionassem como um poema.

A música pop tem letras que são poemas. O que é pop não tem de necessariamente produzir textos que possam ser considerados peças literárias, mas isso não impede que a literariedade esteja presente no que é pop.

Penso em “The Unforgiven”, do Metallica. Com muita freqüência, eu me lembro de um dos trechos da letra. Diz o seguinte (tradução liviana):

What I’ve felt
What I’ve known
Never shined through what I’ve shown

(O que senti
O que conheci
Nunca brilhou por intermédio do que mostrei)


O trecho não precisa ser cantado para “funcionar”.

Neste momento, escuto algumas canções. Uma delas, “Misread”, do Kings of Convenience. Um trecho da letra foi o que me levou a escrever o texto que você está lendo agora. Diz o trecho (novamente, tradução liviana):

How come no one told me
All throughout history
The loneliest people
Were the ones who always spoke the truth
The ones who made a difference
By withstanding the indifference

(Por que ninguém me disse
Que por toda a história
Os mais solitários
Foram os que sempre falaram a verdade
Os que fizeram a diferença
Resistindo à indiferença)


A MPB é pródiga em letras-poemas. De Pixinguinha a Lulu Santos, há fartura. E assim, “a porta do mundo é aberta/Minha alma desperta/Buscando a canção”.

PEC Men

Para que conseguisse a aprovação da PEC 241 em primeiro turno, Temer fez banquete para duas centenas de deputados. Agora, haverá segunda votação na câmara. Sendo aprovada (e será), a PEC vai para o senado, onde também será votada em dois turnos. Renan Calheiros, presidente do senado, já declarou que está se empenhando pessoalmente para que a PEC seja aprovada na casa.

O que ainda não está certo é se haverá outro banquete para a votação em segundo turno na câmara dos deputados. Alguns deles já deram birrinha, dizendo que se não houver outro jantar, votarão contra a PEC, o que acabou levando à manifestação, por enquanto, discreta de alguns senadores. Disse um deles, que pediu para não ter o nome divulgado: “Se houver dois jantares para a câmara dos deputados, exigimos dois para o senado. E ainda que haja só um, estamos pensando em exigir dois. No interesse do povo, precisamos ser bem tratados”. 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Renato Manfredini Júnior

Há exatos vinte anos, eu era professor numa escola particular local. Acabadas as aulas, fui direto para casa. Lá chegando, minha mãe me deu a notícia: “Lívio, o Junim [meu amigo de infância] ligou. Disse pra eu te falar que um tal de Renato Russo morreu”.

Nasci em 1970. Eu havia passado uma grande de minha juventude escutando Legião Urbana. Minha mãe, ainda que não quisesse, acabava escutando (mas ela nunca reclamou de eu escutar). Não me lembro, mas acho que eu não tinha computador nessa época. Sei que liguei para o Junim, que disse ter escutado num programa de TV sobre a morte do Renato Russo.

Então liguei na TV Cultura, que, na época, tinha um jornal que começava, se não estou enganado, às 12h. Deram a notícia sobre a morte do Renato Russo. Naquele mesmo dia, já havia sido divulgado que o vocalista morrera em decorrência da Aids.

Sempre fui ruim para guardar datas. Há pouco, li que vinte anos se passaram desde a morte do vocalista da Legião Urbana. Eu não suporia que tanto tempo já havia se passado. Enquanto digito este texto, escuto “Giz”.

Suponho que o legado de Renato Russo vai perdurar. Um dia desses, eu estava dando aula para uma turma de primeiro ano do ensino médio. Quando nasceram, Renato Russo já havia morrido. Durante a aula, pedi a eles que me dissessem o nome de uma canção cuja letra curtem. Dois deles mencionaram “‘Índios’”.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A inteligente professora de olhos azuis

Tive uma professora que usava óculos.
Eu a achava inteligente porque ela usava óculos.
Depois descobri que ela era inteligente não por causa dos óculos.
Ela tinha olhos azuis.
Inteligentes olhos azuis.
Não eram por causa dos óculos
nem o azul dos olhos nem a inteligência do cérebro.

domingo, 9 de outubro de 2016

“O amor, as mulheres e a vida”

O que eu conhecia do escritor uruguaio Mario Benedetti (1920-2009) era um poema ou outro. Há pouco, terminei de ler “O amor, as mulheres e a vida”, coletânea publicada pela Verus editora (braço editorial da Record), e traduzida por Julio Luis Gehlen. Como o título já antecipa, o amor é a temática dos poemas selecionados pelo próprio autor.

Benedetti abraça as conquistas do Modernismo em poemas curtos, de lirismo bem-humorado. Não raro, há espaço para questionamentos sociais: no poema “Acorda amor”, lê-se “os fundamentalistas degolam estrangeiros / prega o papa contra a camisinha / havelange estrangula maradona / (...) acorda amor / que o horror amanhece”.

Do que surge da coletânea, é o amor como possibilidade enriquecedora em meio a um mundo doido, e o humor como tempero do sentimento amoroso. No poema “Vice-versa”, o poeta escreve (com versos em minúsculas):

tenho urgência de te ouvir 
alegria de te ouvir
boa estrela de te ouvir
e temores de te ouvir

ou seja
resumindo
estou ferrado
e radiante
talvez mais o primeiro
que o segundo
e também
vice-versa

Benedetti, no prólogo da coletânea, escreve que “o amor é um apogeu nas relações humanas”. O autor nos dá um belo testemunho do que é o amor na contemporaneidade. O velho amor, mudado em costumes, renovado na linguagem, mas amor. Os poemas de “O amor, as mulheres e vida” são um convite não só ao amor, mas à obra do escritor como um todo. Convite aceito. 

Amor único

É único, 
o meu amor.
Não só por
não haver outra.
É único porque
não há em outra
o que há em ti.
Outra não tem
tua pele,
teu sorriso,
tua voz,
teu beijo.
Tu és única.
Logo, meu amor
é único.

Amo-te como és.
Não há outra como és.
O que há em ti é só teu.
Por isso,
meu amor 
é único.
É único porque,
amando algo único,
não há como
não ser único,
o amor. 

Fotopoema 398

Pablo Villaça — o Poeta

O Pablo Villaça é genial crítico de cinema. Sou fã. Mas ele é também poeta (ainda que não escreva versos); ao discorrer sobre o filme “A chegada”, evidencia que a análise não impede o lirismo. No texto, Villaça criou algo que eu gostaria de ter escrito: “Há amores tão imensos que insistimos em vivê-los mesmo sabendo que a experiência resultará inevitavelmente em dor. Não há razão que explique nossa decisão de abraçá-los e o fascinante é que, mesmo que houvesse, não a ouviríamos. São amores tão fortes que parecem existir fora do tempo: não nos lembramos de como éramos antes deles e nem conseguimos nos imaginar como seríamos (ou seremos) depois”. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Fotopoema 397

Superfície

Os institutos federais e o Enem

O governo de Temer havia optado por não tornar público o desempenho dos institutos federais no Enem de 2015. Na noite de ontem, a IstoÉ, pró-Temer, divulgou em seu site que o desempenho dos institutos será divulgado.

Ainda de acordo com a IstoÉ, houve, por parte do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), “equívoco na interpretação da legislação por parte da equipe técnica que fez os cálculos para a divulgação dos resultados do Enem 2015 por escola e, por isso, os institutos federais não foram incluídos”. Segundo a revista, os resultados dos institutos federais no Enem serão divulgados “tão logo seja possível”, seja lá quando for isso.

Nos institutos federais, o estudante que faz um curso técnico integrado ao ensino médio está apto a prestar o Enem. Só que além do ensino médio, esse estudante, ao mesmo tempo, faz um curso técnico. Aqui em Patos de Minas, por exemplo, há dois cursos técnicos integrados ao ensino médio: o de eletrotécnica e o de logística; a cidade tem campus do IFTM — Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro.

Embora não seja, a rigor, obrigação dos institutos federais preparar os estudantes para o Enem, eles têm se saído bem no exame e em vestibulares. Alguns alunos do campus Patos de Minas, a fim de treinarem, já prestaram vestibular em universidades federais, tendo obtido sucesso. No ano que vem é que as primeiras turmas (duas) completarão o ensino médio.

Causa estranheza a recusa inicial do governo em não divulgar os resultados dos institutos federais no Enem do ano passado. Esse tipo de informação está longe de ser segredo de Estado. O que diz respeito à educação deve, sim, ser transparente, seja o desempenho ridículo ou excelente. É direito da população ter acesso a esses dados.

Há quem tenha aventado a possibilidade de que a decisão inicial de não divulgar o desempenho dos institutos federais no Enem tenha ocorrido a fim de que o resultado das escolas particulares ficasse em evidência, para que o governo, posteriormente, alegasse que a educação pública está de mal a pior, e precisaria, por isso mesmo, de passar por mudanças. Claro que não sei se a intenção real do governo é essa; seja ela qual for, se a decisão inicial havia sido a de não divulgar o desempenho dos institutos, isso é, para dizer pouco, estranho. A educação precisa de melhoras, mas esconder dados está longe de ser estratégia de incremento.

Sou professor do IFTM. Se, por um lado, sempre é preciso debater, desde que consultada a população, o que pode ser feito para que a educação melhore, por outro, sou testemunha de que, no todo, a situação dos institutos federais, antes de Temer, estava longe de ser periclitante. Se o atual governo federal, com intenções espúrias, vai fazer com que os institutos fiquem sucateados, ainda não há como saber.

O governo em si é o dado negativo nesse cenário; o dado positivo diz respeito ao protesto que alguns institutos federais realizaram, com a participação de servidores e de alunos. Há dias, o ministério da educação anunciara que não haveria nem filosofia nem educação física no ensino médio; depois, voltou atrás, dizendo que a divulgação havia ocorrido devido a engano. Agora, volta atrás quanto à não divulgação do desempenho dos institutos federais no Enem. Não sei se de fato o governo reconsiderou as decisões devido à pressão de parte da população. Independentemente disso, não nos calemos. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Luís André Nepomuceno em entrevista sobre Cyro dos Anjos

Neste “link”, áudio de entrevista que o escritor e professor Luís André Nepomuceno, do Unipam, o Centro Universitário de Patos de Minas, concedeu hoje para a Rádio UFMG.

No bate-papo, Luís André fala sobre Cyro dos Anjos, escritor de Montes Claros. Cyro morreu em 1994. Se vivo estivesse, faria aniversário hoje. 

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A história por trás da foto (95)

Muito infelizmente, não me lembro de quem tirou esta foto. Além disso, não tenho a menor ideia de quando ela foi tirada. Deparei-me com o registro no sábado à tarde, num momento em que a intenção era revisitar palavras, não imagens.

Nessa intenção, saquei da estante o “Crônica de uma morte anunciada”, do García Márquez. Enquanto eu o folheava, percebi que havia uma foto dentro do livro. Também não faço a menor ideia de como a fotografia foi parar dentro do destino de Santiago Nasar. Do que sei, é que ela, por questões óbvias, é do tempo em que trabalhei em rádio.

O da esquerda é o Rubinho, que foi vocalista da banda O Gabba, grupo local que tinha como integrantes além dele, Rubinho (vocal), Bruno Fontoura (teclado), Moisés Martins (guitarra), Dell Luiz (baixo) e Cleanto Braz (bateria). Em 2002, lançaram o CD “Alerta”.

O Rubinho e o guitarrista Márcio Lopes, que posteriormente seria integrante da banda O Gabba, com a saída de Moisés Martins, fizeram, certa vez, um show no teatro municipal Leão de Formosa. De última hora, o Rubinho me ligou, convidando-me para participar da atração.

Fiz o papel de um locutor de rádio que estava entrevistando Rubinho e Márcio. Não houve roteiro, tudo foi improvisado. O fio condutor foi o de que, num misto de apresentação musical e teatral, eu entrevistei, para um fictício programa de rádio, os dois dos integrantes da banda O Gabba, que, no tempo vivido no palco, já era uma banda consagrada. A foto da postagem não foi tirada no mesmo dia da performance no teatro. Isso foi em vinte e um de agosto de 2004.

A atriz Maria Célia Costa Santos também participou, no papel de uma ouvinte que ligava para a estação de rádio a fim de tietar os integrantes da banda. Também muito infelizmente, não me lembro de quando essa apresentação foi realizada. 

A fábula dos ratos

Era uma vez, há muito tempo, um rei que decidiu visitar o reino vizinho, onde alguns habitantes o receberam com ratos falsos. Sabiam que se os roedores fossem verdadeiros, assim que se deparassem com o rei, fugiriam dele. 

A história por trás da foto (94)

Há pouco eu estava brincando com o Tito, meu cachorro, quando um casal de maritacas pousou na antena de TV do vizinho. Para desalento dele, Tito, sem avisar, eu o abandonei, saindo correndo para dentro de casa, a fim de pegar a câmera.

Enquanto eu encaixava a lente no equipamento, eu podia escutar as vozes das maritacas. Pensei que o Tito fosse ficar bravo com elas, o que não ocorreu. De volta ao quintal, pude fotografar uma delas. 

Gradação

Em cada
poema,
estrofe,
verso,
palavra,
sílaba
e letra
que escrevi
para ti,
havia a
intenção
do ato.

O resto
são palavras. 

A história por trás da(s) foto(s) 93


No momento em que ela é tirada, há um quê de imprevisibilidade em toda foto. Ainda que haja manejo profissional da técnica e mesmo que se trate de fotógrafo experiente, não existe domínio absoluto sobre o registro que está prestes a ser feito.

Há contextos em que esse não domínio é maior ainda. É o caso das duas imagens desta postagem. Foram feitas com um celular que não tem possibilidade de exposição manual para fotos. Além disso, eu estava dentro de um ônibus em movimento, numa rodovia, enquanto uma chuvinha fina caía.

Nesse cenário, o controle sobre a imagem que virá fica restrito à composição. Mesmo assim, foi difícil conseguir o enquadramento que eu desejava; quando eu ia clicar, algum solavanco fazia com que eu tivesse de mexer os braços.
As fotos foram tiradas em 31 de agosto deste ano. Eram 6h12. No momento dos cliques, o ônibus estava próximo a Perdizes/MG. 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Velejando

A lenda de Corações Celestiais

Era uma vez uma pequena aldeia chamada Corações Celestiais. Ela tinha dois caciques. O nome de um era Zápite. O nome do outro era Zápete. Muitos antes de os dois nascerem, as famílias deles já disputavam o comando daquelas terras amplas, férteis e longínquas. Depois de milênios de querelas, os dois caciques, herdeiros de uma sangrenta tradição, selaram acordo de paz. Por todos os rincões daquelas intermináveis pradarias, houve júbilo, durante o qual cada líder enviou para a choupana do outro encomiásticos sinais de fumaça, que, de tão nobres, mais se pareciam com nuvens. Nesse tempo distante, a morte do curandeiro do lugar ocorreu enquanto os caciques ainda trocavam cantos de louvor. Como era tradição milenar, o corpo do curandeiro seria queimado e ofertado aos deuses. Durante a cerimônia, um índio de sete anos perguntou à sua mãe, com medo dos caciques, se eles começariam a brigar, pois o pequeno tinha visto que os dois gigantes líderes não olhavam para a cara um do outro enquanto as chamas consumiam a carne do curandeiro. 

domingo, 2 de outubro de 2016

Sentidos

Não quero
só flerte,
não quero
só ver-te.
Eu quero
sorvete,
sorver-te.
Solerte,
ler-te. 

Contato

Leitura labial:
minha boca
escrevendo
em tua pele. 

sábado, 1 de outubro de 2016

O riso triste de Viagens de Gulliver

Causa espanto o quanto Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift (1667-1745) é lúdico e demolidor. Na obra, acompanhamos as peripécias por que passa Lemuel Gulliver, que é o narrador. Tendo realizado quatro viagens, o que lemos são as notícias que Gulliver nos dá dos lugares em que esteve: nas três primeiras jornadas, em Lilipute, Brobdingnag, Laputa, Balnibarbi, Glubbdubdrib, Luggnagg e no Japão; na quarta, vai ao País dos Houyhnhnms.   

Ainda que se alegue que a quarta viagem não tenha o humor das anteriores, isso não é o mesmo que dizer que ela não tenha humor algum. De qualquer modo, mesmo havendo a insistência de que não há nada de engraçado na última jornada do narrador, por ela ter um tom mais filosófico, soturno e reflexivo, isso não anula a graça e a graciosidade do livro. Ao mesmo tempo em que diverte, o artifício de Swift, ao criar o crédulo e ingênuo narrador Gulliver, criou um ataque corrosivo contra o homem e contra as nações, num tom que mistura galhofa e contundência.

Susan Sontag, no livro Sobre Fotografia, escreveu: “A operação balzaquiana consistia em ampliar pequenos detalhes, como numa ampliação fotográfica” (1). Essa ampliação tem a capacidade de fazer com que nossa “cegueira” seja diminuída. O exagero faz com que olhemos de outro modo coisas que estão diante de nós; por estarmos acostumados a elas, geralmente não as observamos, mas se observarmos, constatamos que tudo pode ser mais estranho do que o que nos revela nossa vista cansada e saturada. A ampliação ou o exagero tornam inéditos um mundo que nos parecia não ter mais novidade. Súbito, damo-nos conta de que há um modo de olhar, seja literalmente, seja metaforicamente, que banha de novidade algo em que não mais prestávamos atenção ou em que nunca havíamos prestado.

Essa ampliação pode trazer à tona a beleza ou a feiura. O que temos de repugnante pode se tornar mais evidente quando observado com olhar de lupa. Gulliver, em sua segunda jornada, está em Brobdingnag; nessa terra, ele convive com gigantes, diferentemente da primeira viagem, em que ele convivera com criaturas minúsculas. Em Brobdingnag, Gulliver é encarado como “lusus naturae” [divertimento da natureza] (2). Na estratégia de Swift, em que o narrador é agora minúsculo, o viajante tem diante de si seres gigantes, o que amplia as imperfeições de seus corpos. Encarado como brinquedo pelas mulheres de Brobdingnag, Gulliver é colocado no seio de uma delas. Diz ele: 

“Devo confessar que nada me repugnou tanto como a vista do seu seio monstruoso, que não sei a que posso comparar, a fim de dar ao leitor uma idéia do seu tamanho, da sua forma e da sua cor. Mediria uns 6 pés de comprimento e nunca menos de 16 de circunferência. O bico teria, no mínimo, a metade do tamanho de minha cabeça, e ostentava tão grande variedade de manchas, borbulhas e sardas, que não se poderia imaginar espetáculo mais nauseoso” (3).

Em outro momento, em que também narra a convivência que teve com as mulheres de Brobdingnag, Gulliver diz: “Frequentemente me despiam, da cabeça aos pés, e me colocavam deitado a fio comprido sobre os seus ventres; o que sobremodo me repugnava; porque, para dizer a verdade, a pele delas soltava um cheiro nauseabundo” (4). 

No universo criado por Swift, se na primeira viagem o narrador é a criatura que foi observada em detalhes pelos habitantes de Lilipute, que eram minúsculos em relação a Gulliver, na segunda viagem, ele é quem padece  por causa do cheiro exalado pelos habitantes de Brobdingnag. Todavia, reitero, Swift zomba não só da soberba dos indivíduos, mas também da soberba das nações, com seus sistemas políticos e seu ufanismo. Em documento divulgado por Gulliver, consta que Lilipute é “delícia e terror do universo” (5); a metrópole de Brobdingnag tem a alcunha de “Orgulho do Universo” (6).

Swift, ao criar um narrador quase isento ao narrar o que havia testemunhado, mofa ainda das propaladas conquistas da racionalidade. O século XX, muito em virtude do morticínio que foi capaz de produzir, graças ao avanço da ciência, continuou pondo em xeque a supremacia da razão como sendo capaz de nos tornar mais plenos. Jung (1875-1961), no ensaio “Chegando ao inconsciente”, escreveu:

“O lema ‘querer é poder’ é a superstição do homem moderno. Para sustentar essa crença, no entanto, o homem contemporâneo paga o preço de uma incrível falta de introspecção. Não consegue perceber que, apesar de toda a sua racionalização e eficiência, continua à mercê de ‘forças’ fora de seu controle. Seus deuses e demônios absolutamente não despareceram” (7). 

Jogando sobre sua época um olhar zombeteiro e impiedoso, Viagens de Gulliver, já no século XVIII, o século do Iluminismo, movimento intelectual que advogou o poder da razão, demole a crença na capacidade que essa mesma razão tem de explicar o que somos ou de ser nossa redentora. Na primeira viagem, Gulliver dá notícia de uma guerra que ocorrera porque os habitantes não conseguem chegar a um consenso sobre se o ovo deve ser quebrado a partir da ponta mais grossa ou da mais fina; na terceira, um homem estava estudando há oito anos um modo de extrair raios de sol dos pepinos, enquanto outro se esforçava para transformar o gelo em pólvora; na quarta, a despeito da aparente perfeição da sociedade dos Houyhnhnms, em que os cavalos é que são racionais, ao passo que os homens nem são capazes de articular linguagem, a razão dos equinos os conduziu ao embotamento da capacidade de compaixão e a uma hierarquia em que um cavalo é segregado por causa de seu aspecto físico, numa sinistra eugenia: 

(...) “Entre os Houyhnhnms, o branco, o alazão e o castanho-escuro não tinham exatamente o formato do baio, do ruço rodado e do preto; não haviam nascido com as mesmas aptidões intelectuais, nem com capacidade para aprimorá-las, e continuavam sempre, portanto, na condição de criados, sem aspirar jamais a elevar-se acima da própria raça” (8). 

Em Viagens de Gulliver, indivíduo e sociedade são doentes e dignos de pena e de riso — um riso que, no leitor adulto, já tendo em si a malícia e já sendo apto a compreender ironias amargas, nunca é pueril, nunca deixa esquecer que estamos rindo de algo lamentável. O corpo social e o corpo individual se refletem. O homem, microcosmo, é tão conspurcado quanto a coletividade, macrocosmo. O livro pode ser lido como uma espécie de rol das corrupções do caráter dos indivíduos e do espírito das nações.
_____

(1) SONTAG, Susan. Sobre Fotografia. Tradução Rubens Figueiredo. 1ª edição. São Paulo. Companhia das Letras. 2004. Pág. 175.
(2) SWIFT, Jonathan. Viagens de Gulliver. Tradução Octavio Mendes Cajado. São Paulo. Círculo
do Livro. [19--]. Pág. 92.
(3) Idem. Pág. 79.
(4) Ibidem. Pág. 103.
(5) Ibidem. Pág. 37.
(6) Ibidem. Pág. 86.
(7) JUNG, Carl Gustav [et al.]. O homem e seus símbolos [concepção e organização Carl G. Jung]. Tradução Maria Lúcia Pinho. 3ª edição especial. Rio de Janeiro. HarperCollins Brasil. 2016. Pág. 103.
(8) SWIFT, Jonathan. Viagens de Gulliver. Tradução Octavio Mendes Cajado. São Paulo. Círculo
do Livro. [19--]. Pág. 235. 

Do que não se vê

Eu abro a janela do quarto.
A natureza me sopra um segredo.
Dentre as coisas que não vemos, 
mas sabemos que existem, 
dá-me vento em tarde quente. 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Interação

Quando as cores querem voar,
procuram asas de borboletas.
Quando o Sol quer nascer,
pede o canto dos pássaros.
Quando o amor quer vingar,
requer asilo em corações. 

“A incrível história de Adaline”

O narrador de “Viagens de Gulliver”, do Jonathan Swift, realiza quatro viagens. Na terceira delas, um dos lugares visitados é Luggnagg. Lá, alguns habitantes são imortais. Não morrem — mas envelhecem. Depois de ter se deparado com pessoas decrépitas e que haviam perdido o tino, o narrador conclui, segundo tradução de Octavio Mendes Cajado: “Acreditará facilmente o leitor que, depois do que vi e ouvi, o meu grande anseio de perpetuidade decresceu muitíssimo. Envergonharam-me profundamente as deleitosas visões que eu imaginara, e cuidei que tirano algum poderia inventar uma morte a que eu não me atirasse com prazer”.

Adaline Bowman (Blake Lively) tem algo em comum com os decrépitos de Luggnagg: ela também é imortal. Só que ela não envelhece. Após estranho acidente, quando ela já era mãe e já havia ficado viúva, o corpo de Adaline para de envelhecer. À medida que as décadas vão passando, ela sabe que não vai morrer.

Esse é o fio condutor de “A incrível história de Adaline” [The age of Adaline] (2015), do diretor Lee Toland Krieger. Os roteiristas são J. Mills Goodloe e Salvador Paskowitz. Além de Blake Lively, Michiel Huisman, interpretando Ellis Jones, é protagonista.

Se na viagem a Luggnagg Gulliver, o narrador, descobre as desvantagens da imortalidade, admitindo que a natureza faz certo em tirar a vida dos corpos à medida que vão envelhecendo, Adaline, que não envelhece, depara-se com outra desvantagem da imortalidade: ela passa a não ter relações afetivas que tenham significado profundo, pois aqueles que ela ama vão envelhecer e morrer, ao passo que ela continuará jovem e viva. Como explicar ao parceiro e às pessoas o não envelhecimento? Adaline foge do amor ou de quaisquer laços duradouros.

Tendo ficado viúva, convive com Flemming (Ellen Burstyn), a filha, que, no aspecto visual, está bem mais velha do que a mãe. É a única pessoa que sabe que Adaline não envelhece. Só que décadas de negações de vínculos afetivos acabam causando em Adaline uma espécie de esterilidade ou de torpor psicológico. Mesmo sentindo falta de fortes vínculos afetivos, ela rechaça aqueles que tentam se aproximar dela. Em meio a essa atmosfera feita de recusa e de desejo, entra em cena Ellis Jones.

À medida que a trama avança, é natural que fiquemos curiosos para saber o destino de Adaline, não só quanto a Ellis. Contudo, ao lado dessa expectativa, fica-se torcendo para que a narrativa não se torne açucarada demais. Quando o filme termina, há alívio, pois o roteiro, embora flerte com a pieguice, roçando-a em algumas cenas, não descamba totalmente para ela.

“A incrível história de Adaline” é mais uma produção que lida com a temática da imortalidade e suas implicações no dia a dia de quem não morre. O desfecho é verossímil. Nos instantes finais, há uma cena em que Adaline se olha no espelho; a sequência é prosaica e poética. 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Urbano

Com pressa,
o carro atropelou
as horas,
o pedestre.

Com pressa,
os demais carros
passaram ileso
pelo pedestre.

Sem pressa,
o pedestre
se esvaiu
no asfalto. 

As luzes de Luís André Nepomuceno

Luís André Nepomuceno, escritor, tradutor, ensaísta e professor, é de Patos de Minas/MG. Nasceu em 1968. Cursou letras no Unipam, o Centro Universitário de Patos de Minas. Seus estudos de pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado) foram realizados na Unicamp. É professor do Unipam.

O autor tem uma vasta produção acadêmica, com publicações no Brasil e no exterior. Todavia, este texto não se deterá sobre o que Nepomuceno tem produzido na academia. A intenção aqui é jogar alguma luz sobre o que o intelectual tem produzido na ficção.

Quatro livros dele já foram publicados pela editora 7Letras: Antipalavra (2004, contos), A Lanterna Mágica de Jeremias (2005, romance), Os Anões (2009, romance) e Histórias Abandonadas (2011, contos). Está no prelo Diário da Criação do Mundo, livro de contos (será lançado daqui a pouco mais de um mês, em novembro).

Tanto em seu trabalho acadêmico quanto em seu trabalho de ficcionista, Nepomuceno tem no Humanismo um dos pilares. Seu trabalho intelectual, seja ele voltado para a academia, seja ele dedicado à literatura de imaginação, investe na possibilidade de elevação do homem, que é, na visão do autor, o grande projeto a ser edificado. Nesse projeto, há fios condutores que podem ser identificados. 

Seus personagens, não raro, estão às voltas com a literatura. Eles são leitores ou são escritores. Considerado no todo, o trabalho de Nepomuceno é expressão de um autor nem um pouco preocupado com iconoclastias nem com negações do que nos legaram as tradições. O que se dá é bem diferente disso: há a busca de uma prosa poética que alude com sutileza e verossimilhança ao arcabouço da literatura clássica.

Na dicção do autor, os clássicos convivem com seu jeito moderno de narrar. Nesse jogo, dá-se a reflexão metalinguística. É um tópico que perpassa toda a sua obra. O questionamento é frequente: teria a palavra a capacidade de realmente expressar a essência do que somos? Não há uma resposta pronta, mas ambivalências. 

Em determinado momento, no conto “Antipalavra”, que dá título à primeira obra de ficção publicada por Nepomuceno, o narrador reflete: “Para que serve uma palavra, senão para distanciar os homens?” (1). Por outro lado, em A Lanterna Mágica de Jeremias, há um diálogo de Olavo, editor, com Jeremias, que Olavo quer publicar. Diz este: “— Sr. Jeremias, escrever é uma dádiva que deve ser preservada pelos maiores. É a sua dádiva, e não deve ser nunca escondida dos outros” (2). 

Na obra do escritor, ora a palavra é o que nos revela, ora é aquilo que nos esconde; ora é ponte, ora é abismo; oração, ora maldição. Paira nos livros do autor mineiro um jogo de dizer e de não dizer. Nesse viés, em última instância, não é paradoxal afirmar que dizemos e não dizemos, seja com o corpo, seja com a palavra.

Mencione-se a reflexão que a obra nepomuceniana tece sobre a violência. Embora o cenário das histórias, em sua maioria, seja o interior, em especial um interior mineiro de outras épocas, isso não implica ausência de crueldade. No conto “Os homens do morro”, que está em Antipalavra, um grupo de homens aborda um senhor que seguia seu destino em carroça puxada por cavalo. No decorrer da narrativa, ele, o senhor, é forçado pelos homens a puxar a carroça, como se fosse ele o cavalo. 

Em “A Caminho de Damasco”, conto de Histórias Abandonadas, o narrador, enquanto dirige, vê um corpo caído na beira da estrada. Segue dirigindo, embora o corpo não lhe saia da cabeça. Decide voltar. A princípio, pensara se tratar de um homem; quando está diante do corpo, dá-se conta de que era uma mulher que vestia roupas masculinas. A continuidade da história revela que ela era uma prostituta; estava na beira da estrada porque havia sido espancada.

No romance Os Anões, há cenas de intensa e dramática violência física. Todavia, é preciso ressaltar que a violência nos livros de Nepomuceno não se dá no cenário urbano, essa violência que é principalmente fruto da pobreza, do tráfico de drogas e da corrupção. Os livros do autor não lidam com o caos urbano, o que não implica dizer que não haja neles a substância do que é a maldade.

Parece contraditório eu mencionar a violência, tendo dito que o projeto do autor é humanista. A contradição é aparente. Se por um lado há a manifestação da crueldade de que o homem é capaz, por outro, a literatura do autor é edificada sobre a esperança, que é outro poderoso afluente dos contos e dos romances produzidos por ele. Logo no começo de A Lanterna Mágica de Jeremias, o narrador declara: “Sou das luzes, não suporto escuridão” (3).

Num escritor maduro, esperança não implica ingenuidade. A literatura de Luís André Nepomuceno, sem evitar o que o homem tem de sórdido, busca a iluminação. Os livros dele estão plenos de referências metafóricas à luz, a olhos que não sabem enxergar, mas que um dia hão de. No mundo criado pelo escritor, há uma riqueza que vai além do que os olhos contemplam agora; um dia, vamos transcender, seremos plenos de luz. Não bastasse, o amor. Visitar grandes temas não é obrigação dos grandes artistas, mas o autor os aborda. Estão nas páginas de Nepomuceno as inquietações, as ambiguidades e as delícias do amor e do sexo.

Eu diria serem esses alguns dos pontos pelos quais a obra do ficcionista pode ser estudada. Acrescente-se aí uma pitada de humor na quantidade certa. O quadro que se tem é tão vasto quanto a natureza do que somos. No mais, fio-me nas palavras do narrador do conto “Da dignidade humana”, que está em Antipalavra: “Essas lições me vêm à cabeça só porque gosto muito de gente” (4).
_____

(1) NEPOMUCENO, Luís André. Antipalavra. Rio de Janeiro: 7Letras. 2004. Pág. 33.

(2) NEPOMUCENO, Luís André. A Lanterna Mágica de Jeremias. Rio de Janeiro: 7Letras. 2005. Pág. 73.

(3) NEPOMUCENO, Luís André. A Lanterna Mágica de Jeremias. Rio de Janeiro: 7Letras. 2005. Pág. 18.

(4) NEPOMUCENO, Luís André. Antipalavra. Rio de Janeiro: 7Letras. 2004. Pág. 84. 

Embelezamento

Não sei se há 
belezas outras.
Sei das belezas
deste mundo.
Cantando, pois,
tuas belezas,
que me torne
eu uma beleza. 

Dos sentidos

A natureza inventou a melancia. O homem inventou a geladeira. Tendo sido assim, o êxtase passou a ter cor, sabor e temperatura. 

Dendrolatria

Discreta, telúrica, sonhadora.
Querendo eu ou não,
a semente romperia a pele.
Saudade da árvore que não vingou. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Discursos

Há quem prefira 
a mentira sem erros de português 
à verdade com tais erros. 

Apontamento 351

A classe média pensa que não estar na senzala é o mesmo que ser dona da casa-grande. 

Letra e musa

Aquilo em que penso me compõe.
Tu és minha compositora.
Para ti, minha composição. 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

A menina no espelho

Em 1994, escrevi uma crônica sobre os caminhos que nos levam a um autor. Sei que soa cabotinice eu mencionar algo escrito por mim mesmo neste texto de agora. Se faço isso, é porque o que estou digitando tem a mesma temática do texto escrito em meados da década de 90.

Na semana passada, conversei com uma aluna. Cheia de entusiasmo, ela estava falando de sua predileção por Fernando Sabino; em especial, pelo livro “O encontro marcado”. De acordo com a estudante, é intenção dela escrever sobre o livro em algum projeto escolar.

Disse que está relendo o romance. A primeira leitura foi há dois anos. Não me lembro se ela chegou a comentar o que a levou a ler Fernando Sabino. Do que me lembro, é de ela ter dito que já leu vários livros do escritor. Chegou a frisar: “Li até aquele sobre a Zélia”. Foi um alento escutá-la discorrer sobre o que já leu dele.

Enquanto ela conversava, fiquei torcendo para que essa magia não vá embora. Que a estudante vá descobrindo outros autores, outras vertentes, outras alegrias. Um livro leva a outro, que leva a outros. Essa boa tradição está viva. Tanto é assim que a aluna comentou: “Agora, eu quero ler os russos. O Fernando Sabino fala tão bem deles. Vou ler”.

Sim, minha cara, leia. Siga lendo, acatando sugestões dos autores que tiver em mãos, conferindo escritores que surgirem em conversas. Assuma “riscos”, lendo autores pouco mencionados ou não indicados por ninguém. Leia de tudo, de todos. Entregue-se às palavras, deixe-se conduzir por elas, que são encantadoras. Por isso mesmo, gostam de ser encantadas... 

Céus



domingo, 18 de setembro de 2016

Empate no Mineirão

Antes de a partida entre Cruzeiro e Atlético começar, o Galo era o favorito, por ter um melhor time, o que se reflete nas atuais posições dos times na tabela do campeonato. Esse favoritismo se confirmou no primeiro tempo, a despeito de Arrascaeta e de Ábila terem perdido cada um deles um gol.

Em boa parte da primeira etapa, o jogo foi lento, com as duas equipes se respeitando demais, temendo assim correr riscos. Num dos raros momentos em que essa monotonia foi quebrada, Otero, num belo chute de fora da área, acertou o travessão do goleiro Rafael, que estava um pouco adiantado.

Em outro raro momento de lance incisivo, aos trinta minutos, em jogada rápida pela direita, Fabio Santos cruzou; Clayton cabeceou, abrindo o placar, validando o favoritismo do Atlético até aquele momento.

A segunda metade do jogo começou mais dinâmica do que a primeira. A Raposa, movida pela necessidade, tentava se insinuar, embora tenha sido Júnior Urso a ter, aos oito minutos, chance de marcar. Pelo Cruzeiro, Ábila, aos vinte e um, acertou a trave. Por fim, aos trinta, Robinho, do Cruzeiro, depois de cruzamento de Elber, empatou o jogo.

No todo, um jogo sem graça. Além do mais, o empate foi ruim para as duas equipes, pois o Atlético, que postula o título, não encosta de vez no Flamengo, e o Cruzeiro, por sua vez, segue ainda perto da zona de rebaixamento. 

Aberturas

Da porta da sala, 
divisava a igreja 
do bairro.
Da porta da cozinha, 
a igreja do centro.
Gostava mesmo 
era do deus que entrava
pela janela do quarto. 

Falando de negócios

“Poesia não vende”.
Nunca enriqueci poeta,
mas compro poesia.
Estou ficando rico. 

sábado, 17 de setembro de 2016

Sintonia Fina — edição 34

Mais do Tito

Depois do banho, ainda molhado, a pândega. 

Convicção

A toga não faz o juiz.
Juiz nenhum me lê.
Não tenho como provar.
Mas tenho convicção. 

Terapia

Fiquei sem os abraços, 
mas os braços não desistem.
Com fervor, abracei a vida,
convidei-a para dançar.
Ela aceitou, dançamos.
Estou pronto para outra. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Quando a fotografia cega

Sempre que ministro curso de fotografia, perguntam-me o que acho de se fazer fotos com celular. Digo que ainda não gosto, pois mesmo o mais avançado dos celulares não tem nem a qualidade nem a agilidade nem os recursos técnicos de uma câmera, mesmo que ela não seja tão avançada assim. Mas é uma questão de tempo para que os celulares possam oferecer os recursos e a rapidez de uma câmera, não só quando se maneja o equipamento, mas também quanto à rapidez na captura. Os celulares continuarão sendo mais do que o bastante para o consumidor “comum”. Não creio que os telefones substituirão as câmeras.

Outra pergunta que me fazem com frequência em cursos de fotografia é sobre se a fotografia digital teria empobrecido o ato de fotografar. Quem deseja a excelência aprende a técnica, que é fundamental. Mesmo com a evolução tecnológica, a técnica é a mesma. A fotografia digital levou a uma maciça popularização do ato de fotografar, precisamente graças aos celulares. Se, por um lado, essa popularização, no mais das vezes, não implica domínio das técnicas de fotografia por quem se vale de telefones ao fazer os registros, por outro, essa mesma popularização pode levar ao interesse no aprofundamento da técnica fotográfica. Comigo foi assim, quando, em 2004, comprei uma câmera digital amadora de 3.2 megapixels. Manejando-a, acabei me interessando por aprender sobre a técnica fotográfica. A popularização ainda maior da fotografia pode ser uma consequência saudável da tecnologia digital.

Em contrapartida, essa popularização, incrementada graças aos celulares, e, depois, graças às redes sociais, teve e tem elementos sociológicos, de que os autorretratos (ou, caso você prefira, as “selfies”) são os sintomas mais reveladores. Tantos os celulares quanto as redes sociais estão mais a serviço da propagação do si-mesmo do que à “ocultação” daquele que fotografa. Havia autorretratos no passado; todavia, a facilidade de manejo que os celulares têm e a possibilidade de se conferir na hora o resultado da foto proporcionam as condições para o incremento deles.

O assunto da fotografia era, em grande parte, o que havia diante dos olhos; com os autorretratos, o assunto passou a ser o fotógrafo, não o que os olhos dele enxergam, a não ser que ele esteja diante de um espelho ou que esteja mirando a própria imagem no visor do celular. Os olhos estão se dedicando não mais ao mundo que se descortina diante deles, mas à exposição e à glorificação do si-mesmo. Diante de uma paisagem, seja ela natural, seja urbana, o que conta não é a paisagem, mas inserir-se nela. Não basta estar diante de: é preciso que o rosto ou que todo o corpo de quem contempla esteja em evidência, com a paisagem ficando em segundo plano, fazendo pano de fundo para quem estiver no autorretrato. É como se a legitimidade do registro só fosse alcançada a partir da exposição no quadro fotográfico do corpo de quem faz o registro.

A incisiva autoexposição é sintoma de tempos em que o que conta é aparecer o tempo todo, sob pena de se cair no ostracismo no mundo virtual, por mais ilusório que possa ser o sucesso em redes sociais (ou qualquer outro sucesso). Num universo cheio de coisas, digamos, lá fora, a pessoa se volta, mesmo assim, para si mesma, não ao modo de quem se investiga, mas à maneira de quem precisa se exibir, inserindo-se no registro. Ao olhar para si, quem fotografa o faz de modo superficial; ao olhar para fora, não consegue não se inserir. Perde-se, assim, o exercício do olhar que perscruta, aprende, observa, analisa. Quem tira a foto acaba não prestando atenção nas coisas e acaba se mostrando com vaidade, que impede a pessoa de se enxergar numa abordagem mais honesta. A essência da fotografia, que é, antes do clique, o exercício do olhar, é perdida. Num ambiente em que o importante é um autorretrato numa rede social, a fotografia, num paradoxo, em vez de enriquecer o olhar, seja com relação ao mundo interior, seja quanto ao que está diante da visão, pode vir a aumentar a cegueira quanto ao que se é.