terça-feira, 8 de abril de 2014

DA TRUCULÊNCIA DOS MÉDICOS

Exercer a medicina é algo nobre. Contudo, parte dos médicos não têm se dado conta dessa nobreza, tamanhas a deselegância, a falta de educação e a truculência com que têm lidado com os pacientes. Digo isso baseando-me em experiências próprias e em conversas que tenho mantido com amigos e familiares. De uns tempos para cá, é difícil um dia em que não escuto alguém reclamar de algum médico.

A impressão com que fico é a de que quanto menor a cidade, mais broncos os médicos são (impressão que pode estar incorreta). É que tenho recebido notícias de amigos que têm sido bem tratados em grandes centros, seja em hospitais públicos, seja em particulares, mas pode ser que esses tratamentos gentis sejam exceção e coincidência. Nos lugares a que tenho ido, aqui em Patos de Minas, tenho sido, em regra, mal tratado.

Mas esse tratamento ríspido não é coisa que ocorre apenas em solo patense. Na semana passada, em Uberaba, um ortopedista só faltou me dar coices. Um outro médico que estava no recinto chegou a me olhar, encabulado. Como o clima na sala havia ficado pesado, o torpe ortopedista disse: “Me desculpa pela brincadeira”.

O pedido de desculpas poderia ter convencido se o médico tivesse feito uma brincadeira. Mas não foi brincadeira o que ele fez. Apoiando-me em muletas, eu disse que as estava usando por causa de tombo de moto. O médico disse: “Não precisa dizer isso; isso não é da minha conta. Se você usa muleta ou não, não tenho nada a ver com isso”. É claro que ele tem algo a ver com isso, pois eu estava lá para ser examinado por ele!

Aqui em Patos de Minas, há coisa de uns cinco meses, uma mulher, que me pede para ficar no anonimato, foi vítima da falta de tato de um médico famoso na cidade. Para piorar, o procedimento que ele realizaria estaria incorreto! A paciente tinha um cisto no lado direito do ovário; o médico insistia que era do lado esquerdo, mesmo a paciente dizendo que a dor estava do lado direito.

Desconfiada, pediu opinião de uma amiga dela, que é médica; esta assegurou que o cisto era do lado direito. Um médico assistente, que faria parte da cirurgia, também assegurou que o cisto estava do lado direito. Foi então que, diante da paciente, o médico que faria a cirurgia e o médico assistente discutiram. Chegaram a pedir licença para a paciente e se retiraram.

Voltaram minutos depois, tendo ficado decidido que o cisto estava mesmo do lado direito. Chegado o momento da cirurgia, mais discordâncias, devido a procedimentos a serem adotados. Houve um momento em que o médico assistente chegou a dizer para o cirurgião que este estava ainda na década de 30! 

O cisto foi eliminado, tendo ficado o cirurgião de ver a paciente às 9h30 do outro dia, dizendo que lhe daria alta. Contudo, mesmo tendo estado no hospital durante todo o dia, ele só visitou a paciente às 17h30! Como se nenhum atraso desrespeitoso tivesse ocorrido, o médico disse algumas palavras, liberou a paciente e foi embora. Em tempo: tratava-se de um atendimento particular, sem convênio algum. 

No dia em que caí de moto, fui atendido aqui em Patos de Minas por um médico que foi deselegante não somente comigo, mas também com sua auxiliar. Como meu pé estava ferido e havia sangue, achou-se por bem cortar a meia, em vez de se tirá-la normalmente. A assistente, contudo, não estava conseguindo manejar a tesoura própria para tais casos. 

Como a aprendiz se queixou da tesoura, entrou em cena a “sutileza” do médico: “A tesoura está boa; você é que é muito mole. Não consegue nem cortar uma meia, e quer ser médica”. Eu e a assistente ficamos muito sem jeito, enquanto o médico, seco e mal olhando para mim, preenchia formulários. Acabei eu mesmo tirando a meia.

Nem preciso dizer que não estou generalizando, dizendo que todos os médicos são sem educação. Claro que sei que não é assim. Tanto que uma semana depois de meu tombo, procurei outro profissional, pois meu pé não melhorava. Aí, sim, fui bem atendido. O profissional teve um tom cortês, fez perguntas (o outro nada perguntara) e trocou toda a medicação que me havia sido passada.

O que me leva a escrever este texto é o imenso número de pessoas que têm se queixado de estarem sendo tratadas de modo ríspido por médicos. É estranho. É como se eles se esquecessem de que estão lidando com gente. Procurar um médico é depositar esperança e confiança numa pessoa. Isso é muito sério! 

Não consigo achar uma razão que justifique a rispidez e a falta de tato da classe. Seria o desencanto com a profissão? Mas se for isso, o paciente não tem culpa. Seria o fato de terem sido alunos ruins? Mas isso não impede ninguém de ser gentil. Além do mais, suponho, os estudantes de medicina devem escutar o tempo todo, durante o curso, que um pouco de sensibilidade é bom, também, para a profissão.

Quem convive comigo sabe que sou adepto do pensamento de que a leitura não é solução para nada, mas ajuda a resolver um monte de coisas. Se esses trogloditas que achincalham pacientes se predispusessem a ler um cara como o médico Oliver Sacks, perceberiam, quem sabe, que o exercício da medicina é um trabalho elevado. Mas talvez eu esteja querendo muito: quem não quer saber nem de gente não vai querer saber de livros. 

DIGRESSÕES...

Ontem, lendo um ensaio do Jorge Luis Borges, eu me deparo com uma referência dele a Mark Van Doren, intelectual americano. Segundo Borges, Van Doren foi, em meados do século XX, um dos poucos a reconhecerem a diferença abismal entre o Walt Whitman cidadão e o Walt Whitman poeta. Escreve Borges sobre Whitman: “Passar do orbe paradisíaco de seus versos à insípida crônica de seus dias é uma transição melancólica”.

É a ideia, mencionada por Borges não somente no ensaio em que ele refere-se a Van Doren, de que é preciso separar o homem de sua obra. A vida do homem pode ser, para me valer do termo borgiano, insípida, sem que contudo sua obra o seja; ou o sujeito pode ser, por exemplo, um calhorda, e ainda assim produzir algo genial.

A rigor, não era disso que eu queria falar. Todavia, essa temática que envolve o homem e seu trabalho é por demais fascinante para mim; daí, acabei me deixando levar por digressões. Mesmo assim, minhas digressões são curtas; eu as resolvo em poucas frases. Não tenho talento para ser um Laurence Sterne.

Do que eu queria falar mesmo era de Charles Van Doren, filho de Mark Van Doren. Van Doren, o filho, é personagem de “Quiz Show — a verdade dos bastidores” [Quiz Show, 1994]. A direção é de Robert Redford. Ralph Fiennes interpreta Charles Van Doren. O filme tem por base o livro “Remembering America: A Voice from the Sixties”, escrito por Richard N. Goodwin.

Baseado em história real, “Quiz Show” conta com a participação de Charles Van Doren num programa de perguntas e respostas que fazia muito sucesso na TV americana no fim da década de 50. Van Doren torna-se celebridade na TV, é capa da Time, da Life. O sucesso de Van Doren faz com que a emissora o queira por mais tempo. Há então uma proposta: ele passaria a saber, de antemão, as respostas. Charles Van Doren topa; torna-se, assim, um engodo assistido por milhões.

A manipulação midiática surgiu junto com a própria mídia. Na fotografia, por exemplo, às vezes atribui-se, ingenuamente, a manipulação de imagens ao advento do Photoshop. Que nada! Digite aí no Google “Os trinta Valérios” e confira o que Valério Octaviano Rodrigues Vieira fez, ludicamente, em 1901! Manipulações são tão velhas quanto os meios em que estão presentes. Elas podem ser divertidas, podem ter caráter didático. Ou podem ser deletérias, como é o caso mostrado em “Quiz Show”.

No mais, releve as digressões. Geralmente, não as permito em texto meu, embora as admire em textos alheios. Mas neste aqui fui, para me valer de expressão antiga, “escrevendo ao sabor da pena”, ainda que digitando em velho computador. No fundo, acho que não sei escrever de modo digressivo; banindo digressões, mantenho a ilusão de que estou no controle absoluto do que escrevo. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

ALGUMA LEVEZA

O que não se realiza pesa.
Mas sob a pele corre um sonho.
Se o tiver em mãos, vou tirar um 
pouco de peso desta matéria.
Sou um corpo que sonha. 

domingo, 6 de abril de 2014

ROBERTA SÁ

Quando a música é a mensagem, o corpo fala com graciosidade, leveza, sofisticação. Roberta Sá é feminilidade; é sensual sem se valer de apelos duvidosos. A canção é trilha sonora para a cantora, que brinca, que flutua, elevando-nos.

ATLÉTICO 0 x 0 CRUZEIRO

É natural que se espere muito de um jogo entre o campeão da Libertadores e o campeão brasileiro. Eu esperava mais da partida, mesmo ciente de que decisões podem não corresponder a expectativas. Não foi um jogo ruim, mas fica-se com a sensação de que poderia ter sido melhor.

O Atlético foi superior ao Cruzeiro. No primeiro tempo, aos dezessete minutos, com chute de Guilherme, aos vinte e cinco, com Leonardo Silva cabeceando, e aos vinte e oito, com Marion chutando fraco depois de surgir livre na área, o Atlético deixou de Marcar. Aos vinte e nove, Ricardo Goulart, após típica jogada de passes rápidos, quase marcou para o Cruzeiro.

O Atlético jogou sem Ronaldinho; o Cruzeiro, sem Dagoberto. Perdeu mais o Atlético, pois Ronaldinho é mais decisivo no Galo do que Dagoberto o é na Raposa. Começado o segundo tempo, aos quatro minutos, após Victor rebater com o pé, a bola bate em Ricardo Goulart e quase entra.

A segunda etapa foi mais aberta, menos truncada do que a primeira; ainda assim, ambos os times estavam atabalhoados. Houve muitos passes errados, tanto de um time quanto de outro. Mesmo assim, a superioridade do Atlético foi ainda mais destacada no segundo tempo. Aos dezessete minutos, após bela jogada de Marion, que cruzou, Tardelli, dentro da área, teve oportunidade claríssima de marcar. Aos trinta e seis, Alex Silva e Guilherme também ameaçaram.

No dia 13, o jogo é no Mineirão; há pouco, no Independência, embora tenha tido maior posse de bola e embora tenha criado mais oportunidades para marcar, o Atlético não materializou em gol o domínio que teve. No domingo que vem, o Cruzeiro joga por um empate para se tornar o campeão mineiro deste ano. Nada está definido. 

CLAMANDO POR LÍVIO (2)

sábado, 5 de abril de 2014

O BASTANTE

Não tenho outra opção a não ser o agora. 
Mas eu não diria que o agora é tudo o que me resta.
O agora é tudo o que me basta. 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

CLAMANDO POR LÍVIO


Caso o texto do vídeo não esteja legal para ser lido, eis a transcrição dele abaixo.
_____


Desde quando comecei a estudar a inglês, logo passei a brincar a brincar com a expressão “leave you”, que, quando dita em voz alta, é como se estivessem dizendo meu nome. Por causa disso, era natural que eu achasse engraçado quando a expressão aparecia na letra de alguma canção. 

Recentemente, escutando pelo rádio “Glory of love”, do Peter Cetera, achei graça quando ele cantou “leave you”. Decidi então executar ideia antiga: reunir trechos em que a expressão aparece e juntá-los.

Primeira “ocorrência”: na canção “They all want you”, cantada pela Lissie.

Segunda “ocorrência”: na canção “Glory of love”, cantada pelo Peter Cetera.

Terceira “ocorrência”: na canção “Easy lover” dueto de Philip Bailey e Phill Collins.

Quarta “ocorrência”: na canção “Babe, I’m gonna leave you”, do Led Zeppelin...

Caso saiba de mais alguma canção com a expressão “leave you”, sinta-se à vontade para dizer... 

TEXTURA







Está aqui em minha casa uma almofada em forma de triângulo retângulo. Minha mãe, que esteve por aqui um dia desses, tirou a fronha da almofada. Foi quando percebi que um dos lados dela me seria útil para algumas imagens. 

Minha mãe colocou a fronha de volta, pois fiquei enrolando para fazer os registros. Hoje, eu os fiz. Agora que as fotos foram tiradas, meu drama começa: sou muito desajeitado; sei que haver uma saga para que eu consiga recolocar a fronha na almofada... 

APONTAMENTO 199

As ideias da gente, para se ajeitarem, precisam das ideias dos outros. Ajeitadas, as ideias da gente podem ajudar ideias de outros a se ajeitarem. Ideias gostam de ajeitamentos; ao mesmo tempo, de inquietude. E assim a gente vai se ajeitando. 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

CRUZEIRO VENCE PELA LIBERTADORES

A vitória do Cruzeiro, há pouco, contra a Universidad de Chile, não garante o time azul na próxima fase da Libertadores, embora mantenha a esperança dos cruzeirenses ligada na tomada. O desempenho do time mineiro prova que a equipe ainda pode ser um belo time.

Os passes rápidos e eficazes fizeram lembrar o Cruzeiro do ano passado, quando a equipe conquistou o Campeonato Brasileiro, tendo jogado o futebol mais bonito do torneio. O jogo terminado há pouco mostra que a Raposa ainda tem beleza e eficácia.

A decisão do Campeonato Mineiro, contra o Atlético, que, às 23h, entra em campo também pela Libertadores, está a caminho. Os dois times são muito bons. Isso autoriza a imaginação para que ela conceba uma bela decisão no campeonato estadual. Por fim, vislumbrar não custa nada: seria formidável um enfrentamento entre os dois times pela Libertadores. 

APRENDIZADO

Aprender uma partícula 
é aprender o Universo.
Aprender o Sol 
é aprender o Universo.
Aprender uma galáxia 
é aprender o Universo.

Eu me aprendo. 

APONTAMENTO 198

A festa entre amigos, a gigantesca árvore, o amor, a libélula, a almofada. Não importa o que esteja sendo fotografado. A busca pela perfeição deve ser um ideal. A perfeição está no próximo clique. Feito este, a busca prossegue. A perfeição está um clique além. Está um clique aqui. 

DOMÍNIO

Ato-te.
De fato, 
tenho-te.
Em ato, 
desato-te.
Em ata, 
assino 
e dato. 

TRATADO DA INSÔNIA

1
Perdi o sono.
Se alguém encontrá-lo,
gentileza devolver
(gratifico).
Pode vir
a qualquer hora —
estarei acordado.

2
O que é, 
o que é?... 
Quando a gente 
o acha a gente 
fecha os olhos...

3
Uma insônia
sem versos
é uma noite
sem sono perdida.

4
Ainda bem: 
a insônia não 
impede o sonho.

5
Perdi o sono. 
Eu o deixei cair 
em algum lugar 
dentro de mim.

6
Insônia é quando, 
dentro da gente, 
o Sol não se põe.

Insônia é quando
a gente se esquece
de anoitecer. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

EMBARQUES

Ela foi às lágrimas.
Foi mas não gostou.
Ela foi às compras.
Desiludiu-se logo.
Depois, foi à alegria.
Foi a última notícia
que dela eu recebi. 

SINTONIA FINA

Pessoas, estou no ar, ao vivo, com o Sintonia Fina, programa musical. Caso queiram escutar, cliquem aqui. O programa vai até às 16h30. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

(DES)APONTAMENTO 7

O Moisés bíblico foi um... divisor de águas... 

APONTAMENTO 197

Defende outro Golpe aquele que deseja desferi-lo. Se não no palco, nos bastidores; se não nos bastidores, com seus botões. Posso dizer, sem medo, que não quero outro. Que não haja o dia em que terei de dizer isso com medo. 

ENTREVISTA COM MUJICA

O Flaubert escreveu que “se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”. Já o José Mujica, se ele não existisse, seria preciso inventá-lo. Mujica é um caso, infelizmente, raro: uma pessoa que tem sabedoria. 

A entrevista que compartilho foi concedida a jornalistas do Grupo Bandeirantes.

segunda-feira, 31 de março de 2014

BEROLA 0 x 0 GUSTAVO

Via Twitter, Neto Berola, atualmente no Atlético/MG, atacou Bob Faria, comentarista do Sistema Globo. Os comentários de Berola são inconsequentes e imaturos. Chegam a abrir brechas para um processo; não sei se Faria tomará tal atitude.

Em um programa de TV, Lélio Gustavo, famoso comentarista da Rádio Itatiaia, rebateu as críticas que Berola fizera contra Bob Faria. O problema é que Gustavo foi tão inconsequente quanto Berola.

Lélio Gustavo confirmou que foi demitido da Rádio Itatiaia em virtude dos comentários que fizera. O que sobra do episódio é que jogadores, mídia e torcedores continuam, na maioria, primários. De tempos em tempos, o despreparo e o destempero vêm à tona.

Não importa o lugar, não importa o time: torcedores têm brincadeiras que são, quase todas, imbecis ou preconceituosas; jornalistas deixam o profissionalismo e se tornam torcedores infantis; jogadores, não raro, fazem declarações tão lamentáveis quanto o futebol que jogam. 

Estão quase todos num campo só, participando de um futebol minguado e de uma estrutura incompetente. Caso queira conferir “link” para matéria sobre o imbróglio Berola-Gustavo, clique aqui

INFIEL



Ayaan Hirsi Ali nasceu na Somália, em 1969. De família muçulmana, seu destino já estava traçado: obedecer ao que prescreve o Corão, obedecer aos homens, casar-se com quem escolhessem para ela. Ainda menina, devido às tradições de que foi vítima, passou por clitorectomia.

Ela é autora do estupendo Infiel, publicado pela Companhia das Letras. Autobiográfica, a obra relata a vida de Ayaan Hirsi Ali desde a infância, num mundo arcaico e cheio de costumes anacrônicos, assolado por conflitos bélicos, até a fuga para a Europa, a carreira política na Holanda (foi deputada por lá) e o atual exílio nos Estados Unidos.

Infiel muda de tom quando Ayaan Hirsi Ali começa a falar de sua carreira política na Holanda. Se antes de contar sua incursão em trâmites políticos sua dolorida biografia era narrada sem questionamentos mais profundos, a partir do momento em que nos conta sua jornada política, a escritora não se furta a analisar temas controversos, como o islamismo que herdara; hoje, após anos de reflexão, Hirsi Ali se declara ateia. 

Ela também conta o episódio em que um amigo dela foi assassinado depois de dirigir um curta-metragem cujo roteiro é de Ayaan Hirsi Ali. Submissão, o nome do curta, tem direção de Theo van Gogh, que seria assassinado por causa da feitura do vídeo. Hirsi Ali passou a receber ameaças de morte. O vídeo está no Youtube: bastar digitar o nome dela e a palavra “submission”.

A autora deixa claro: (...) “Nós, no Ocidente, fazemos mal em prolongar desnecessariamente a dor dessa transição [a transição para o mundo moderno], alçando culturas repletas de farisaísmo e ódio à mulher à estatura de respeitáveis estilos de vida alternativos”. Hirsi Ali desaprova a complacência ocidental para com um sistema “incompatível com os direitos humanos e os valores liberais”, nas palavras dela.

Infiel fez com que eu olhasse de um modo menos desconfiado para o Ocidente. Não que eu tenha passado a aprovar as crueldades desse Ocidente, seja no Oriente, seja na África, seja no próprio Ocidente. Entretanto, o livro fez com que eu reconhecesse de modo mais nítido conquistas “simples”, como a liberdade de me exprimir.

Ayaan Hirsi Ali escreveu um livro essencial. Também via Youtube é possível ter acessos a debates de que ela participou. Infiel é o retrato de uma mulher notável. Ela teve malária, pneumonia; teve a genitália mutilada, teve uma faca na garganta num assalto, teve o crânio fraturado por um professor de Alcorão. Reflete a autora: “Quantas moças nascidas no Hospital Digfeer, em Mogadíscio, em novembro de 1969, ainda estão vivas? E quantas têm voz, realmente?”. Ainda bem que Hirsi Ali lutou para achar a dela.

domingo, 30 de março de 2014

HORA DE FINGIR, ZECA BALEIRO

Desde tempos imemoriais, gosto de intertextualidades: aquela coisa de uma canção que nos remete a um livro; de um filme que nos remete a uma pintura... Chego a suspeitar de que gosto tanto da intertextualidade porque ela acaba por revelar, em última instância, que, em essência, somos os mesmos.

Recentemente, escutando “Time to pretend”, do MGMT, eu me lembrei de “Babylon”, do Zeca Baleiro. Ambas têm em comum um eu lírico a devanear, imaginando-se numa realidade que não é a sua, num mundo que não está materializado, mas que habita a imaginação. Nesse devaneio, os excessos que o dinheiro pode comprar estão ao alcance.

Uma diferença entre as letras é que na do Zeca Baleiro há um instante em que o eu lírico cai na real (ainda que depois volte a devanear), assumindo que o mundo charmoso e sedutor que vinha concebendo não existe para ele: “Não tenho dinheiro / Pra bancar a minha droga / Eu não tenho renda / Pra descolar a merenda”. Na letra do MGMT, o devaneio está em toda a letra.

A canção do MGMT causou certa polêmica; houve quem dissesse que a letra fazia apologia a um modo de vida destrutivo. Não a entendo assim; encaro a letra como “mero” devaneio de alguém que sonha com o universo do estrelato, o qual pode parecer tão sedutor para nós, que não vivemos nele. Vislumbrado de longe, esse universo pode ser tudo com que alguém sonha.

Para conferir a letra de “Babylon”, clique aqui; para conferir a de “Time to pretend”, tanto a versão original quanto a tradução, aqui

SILÊNCIOS

Um silêncio fecundo habita a amplidão.
Não escuto meus pensamentos, 
o mundo não se faz escutar.
Eu e a natureza somos um 
vasto esquecimento feito de silêncios. 

FOTOPOEMA 349

quinta-feira, 27 de março de 2014

"O DUBLÊ DO DIABO"


De antemão, digo que aquela coisa de o George W. Bush se referir a países como o Iraque como sendo um dos integrantes do “eixo do mal” é retórica barata e maniqueísta. Num texto publicado em seis de junho de 2006, depois de os EUA capturarem Saddam Hussein, o genial e ousado Robert Fisk, do jornal The Independent, escreveu sobre a hipocrisia que era enforcar Hussein.

Na terça-feira, procurando por algo para assistir em torno de 22h, leio a sinopse de “O dublê do diabo” [The devil’s double], de 2011. A direção é de Lee Tamahori. Michael Thomas escreveu o roteiro, que por sua vez é baseado em livro de Latif Yahia. Ele, Yahia (interpretado por Dominic Cooper), é o personagem principal do filme, baseado em fato real.

Nascido em 1964, Yahia, filho de um bem-sucedido empresário, teve como colega de sala Uday Saddam Hussein (também interpretado por Dominic Cooper), filho do futuro Presidente iraquiano. Ainda na escola, a semelhança de Yahia com Hussein, o filho, já era notada. Precisamente essa semelhança tornar-se-ia uma maldição para Yahia, que se vê obrigado a assumir o papel de sósia de Uday Saddam Hussein.

Depois de ter sido submetido a sessões de tortura e de terem dito a ele que se ele não topasse ser o sósia a família dele sentiria as consequências da recusa, não haveria alternativa a Yahia a não ser aceitar o que lhe impuseram. No olho do furacão, ele presenciava as insanidades e desumanidades de Uday Saddam Hussein.

Os eventos pelos quais Latif Yahia passou foram relatados em livros, numa trilogia que tem os seguintes títulos: “I Was Saddam's Son” [Eu fui filho de Saddam], “The black hole” [O buraco negro] e “Forty shades of conspiracy” [Quarenta tons de conspiração]. O filme de Tamahori é baseado no primeiro volume da trilogia de Yahia.

Se por um lado não é exagero, de acordo com o que é mostrado no filme de Tamahori, adjetivar o comportamento de Uday Saddam Hussein como sendo diabólico, há que se tomar o cuidado de não se esquecer das atrocidades que os EUA e seus aliados perpetraram para tirar Saddam Hussein do poder.

Interessei-me pelos livros de Latif Yahia. Se você gosta de se envolver em causas humanitárias, há um motivo para que você os adquira: Yahia doa todos os direitos autorais decorrentes das vendas dos livros para as crianças iraquianas que ficaram órfãs depois que uma guerra no Iraque foi deflagrada pelos EUA em 2003. 

VINTE E SETE DE MARÇO


Se vivo estivesse, o senhor Renato Manfredini Júnior, o Renato Russo, completaria hoje cinquenta e quatro anos. É por isso que posto uma canção do Legião Urbana. Era uma das preferidas do Renato, conforme o que ele dizia nos shows.

No dia vinte e nove de agosto de 1992 conferi um show da banda em Uberlândia, no UTC. Tendo chegado cedo à cidade, fui para um dos hotéis em que os legionários poderiam estar. Chegando lá, fiquei sabendo que estariam em outro hotel, que fica perto. Fui para lá e fiquei aguardando. Quando a banda chegou, tive a oportunidade de pegar o autógrafo do Renato Russo.

Ele era baixo, muito magro. Foi muito atencioso conosco, os que ficamos o aguardando na porta do hotel. Perguntei para ele se ele se lembrava de ter tocado em Patos de Minas. Ele me olhou com cara de espanto e me perguntou se eu estava no show; eu disse que não estava, e completei dizendo que eu tinha onze anos na época. Ele então brincou: “Poxa, estou ficando velho”. Infelizmente, não ficou. 

terça-feira, 25 de março de 2014

DOSE

Que meu pessimismo 
não me destrua.

Que meu otimismo 
não me iluda. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

"SOMOS TODOS ÍNDIOS"

Em carta com a data de primeiro de maio de 1500, Pero Vaz de Caminha dá notícia ao rei de Portugal sobre o achamento (palavra essa usada por Caminha) de um novo lugar, a Ilha de Vera Cruz.

A carta deixa claras algumas das intenções dos portugueses quando chegaram por aqui. Por ora, não as comento. Quero é transcrever trechos nos quais Caminha destaca o escambo que estava ocorrendo entre os portugueses e os índios, com o escrivão mencionando a ingenuidade dos nativos daqui, seduzidos por bugigangas. 

Escreve Caminha num trecho da famosa carta: “Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar”. Outro trecho: “Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa”. Um último: “Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam”.

Deixando para trás o ano de 1500, voltemos para 2014. O motivo de eu ter citado no parágrafo anterior os trechos da carta do Caminha se deve a uma matéria que li recentemente na edição deste mês de março do Le Monde Diplomatique Brasil.

O título da matéria já elucida: “A Chevron polui, mas não quer pagar suas multas no Equador”. No texto, Hernando Calvo Ospina explica como um gigante do petróleo, a Texaco, depois comprada pela Chevron, destruiu vidas humanas e poluiu o ambiente no Equador. 

Quinhentos e treze anos depois da carta de Caminha, leio no texto de Ospina, que cita Jimmy Herrera, interlocutor entre os indígenas do Equador e o atual governo: “As comunidades indígenas foram as mais afetadas, pois a Texaco alterou sua existência a ponto de algumas desparecerem. (...) A petroleira solucionava os inconvenientes dando ‘espelhinhos’ de presente aos índios (...), ou ameaçando com a repressão do Exército”. 

"PAIXÃO OBSESSIVA"


“Paixão obsessiva” é um filme sinistramente suave. Sim, o título que deram em português não ajuda. O título original é sarcástico — “The good doctor”. Martin Blake (Orlando Bloom), o doutor a que o título em inglês faz menção, tem domínio do ofício. Todavia, tal domínio não implica equilíbrio psicológico.

É um filme suavemente sinistro. A cadência é lenta, quase monótona. O tom monocórdio, curiosamente, evidencia a perversidade e o caráter doentio de Blake. Que coisa... Não é um filme de terror, mas é um filme assustador. Blake desenvolve fixação por Diane Nixon (Riley Keough), que é paciente dele. Para que ela não receba alta, ele a mantém “medicada”.

O filme é de 2011. Tem a direção de Lance Daly. O roteiro ficou por conta de John Enbom. “Paixão obsessiva” evidencia de modo brilhante a velha ideia de que é preciso separar o homem de sua obra. Blake domina a técnica, sabe o que faz. Sua competência, entretanto, é inversamente proporcional à sua ética.

Blake é o grande doente. Ele irrita porque, tendo inventado para si um personagem, engana, manipula, trapaceia, burla, convence. Ele é um monstro competente. No fim das contas, não precisamos ficar em dúvida se ele é médico ou se é monstro. Blake é talentoso, mas não é médico. Ele é outra coisa. É uma imitação do que é um médico. Eficaz no arremedo, mas arremedo.

O filme é assustador sem querer assustar. A perversidade não vem embrulhada em clichês. A quase ausência de artifícios destaca a personalidade doentia de Blake e joga holofotes sobre o estupendo trabalho realizado por Orlando Bloom. A película é um retrato horrendo do que um bom “médico” é capaz de fazer, do que uma “boa” pessoa pode realizar. 

sábado, 22 de março de 2014

LEITURAS

A página não substitui a pele.
A pele não substitui a página.
Quero página, eu quero pele.
Há um modo de tocar a página,
há um jeito de tocar a pele.
O tato lê, o corpo entende.
O coração se alegra e relê. 

sexta-feira, 21 de março de 2014

AGORA, AQUI

Nunca me instigaram 
nem o de-onde-vim 
nem o para-onde-vou. 
O que me aguça são 
o insondável agora,
o intrigante aqui. 

APONTAMENTO 196

Aquela coisa de “assim ficaria melhor”, “eu teria usado a palavra ‘espera’ em vez de “esperança”... Nunca fui leitor de consertar escritos alheios. Mas eles consertam quem sou. 

FOTOPOEMA 348


Tanto a foto quanto o poema são antigos; decidi juntá-los. 

TORRENTE

Decidiu ele que não 
choraria as mágoas. 
Acabou se afogando 
na enchente de si mesmo. 

MATERIAL

Manejar palavra como quem maneja corpo de mulher.
Manejar corpo de mulher como quem maneja verbo.
Manejar verbo como quem leva corpo de mulher ao êxtase.
Palavra é para fazer vibrar o corpo.
Corpo é para se tornar poesia. 

CANÇÃO

Haverá algo mais belo do que “Lambada de serpente”?
Eu acho isso agora.
Isso é coisa de momento.
E daí? 
O amor é coisa de momento.
O amor é momento que se quer a todo momento.
Eu escuto “Lambada de serpente” há horas, sem parar.
Eu compreendo o momento.
Compreendo sem querer compreender, sem querer pensar.
Sou apenas um coração fraco que não sabe o que faz com tanta beleza por [todo lado.
Eu escuto a canção e me entendo, sem ter me esforçado para isso.
Ainda bem que existem canções.
Eu as escuto, eu me permito e aceito o que sou.
Eu sou agora a consequência de quem escuta uma canção.
É só um momento.
Mas como sou grato ao Djavan por tê-lo inventado. 

CRUZEIRO 2 x 2 DEFENSOR

Cada um usa as armas que tem. Assim é na vida. Assim é no futebol, que é a vida se movimentando num gramado. Fôssemos analisar o futebol em si, o Cruzeiro é melhor do que o Defensor. Este, no primeiro tempo, teve a catimba como arma.

A estratégia funcionou. Embora o placar da primeira etapa tenha sido de um a zero para o Cruzeiro, o time caiu na armadilha do Defensor, tendo a equipe belo-horizontina se tornado uma pilha nervosa ainda no primeiro tempo.

Ambas as equipes tiveram um jogador expulso antes do intervalo. Curiosamente, o jogo feio da primeira metade do jogo não voltou para a segunda. Num clima de mais futebol e de menos astúcia por parte do Defensor, o Cruzeiro fez dois a zero. Esse placar asseguraria à Raposa o segundo lugar no grupo.

Parecia haver algo de artificial na calma do Cruzeiro. Tocando a bola de lado e recuando demais, a equipe mineira exercia um domínio aparente. A ânsia do primeiro tempo não havia ido embora; ela somente estava sendo camuflada. No fim do jogo, o Defensor empataria.

A fim de prosseguir no torneio o Cruzeiro precisar vencer os dois jogos que restam. Todavia, ainda que isso ocorra, o time vai depender de resultados alheios, o que deixa a classificação muito incerta. Fica no torcedor uma temerosa esperança. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

AS CINCO ESTAÇÕES

Minha estação preferida é aquela
em que minha pele não está fria,
em que meu corpo não está quente demais,
em que me reinvento apesar da queda,
em que observo brotar o que plantei.

Minha estação preferida
pode se dar num vinte e nove de fevereiro 
ou começar no hemisfério sul.

Minha estação preferida é quando 
tu desembarcas em mim e eu viajo em ti. 

SINTONIA FINA

Pessoas, estou no ar com o Sintonia Fina, programa musical. Caso queiram escutar, cliquem aqui. A atração vai até às 15h10. 

quarta-feira, 19 de março de 2014

DOIS COELHOS

A Adélia Prado tem um poema chamado
“Todos fazem um poema a Carlos Drummond de Andrade”.
Este é o meu — 
também para ela. 

terça-feira, 18 de março de 2014

PERCURSO

Tive hoje a maravilha 
que é escutar tua voz.
Descobri por que ela 
não me sai da cabeça:
é que tua voz azul sabe 
construir veias que partem 
do ouvido e desembocam
bem lá dentro do coração. 

ELAS

1. Saiba tratá-las com reverência. Saiba desrespeitá-las.

2. Prefira as simples, sem contudo descartar as sofisticadas.

3. Seja terno com elas, sem deixar de aprender a pegá-las de jeito.

4. Não se esquecer de que levá-las a sério não é o mesmo que perder o senso de humor.

5. Preste culto a elas; use-as; abuse delas.

6. Gostam de ser escutadas, gostam de surpresas.

7. Repare se o silêncio delas é próprio de cada uma ou se é causado por você. Se causado por você, cuidado para não emudecê-las.

8. Com jeito, você pode trocá-las, colocá-las em cima, de lado, no meio...

9. Entenda de ponto final e de reticências.

10. Perca o medo, ouse; elas vão gostar.

11. Perca o medo, ouse; você vai gostar.

12. Não importa se feia ou se bonita: há momento para todas.

13. Dê risada com elas, ache graça delas, mas sabendo ser sério quando se deve.

14. Valorize as velhas, sem deixar de dar atenção para as novas.

15. Pode haver uma parecida com a outra, mas cada uma é única.

16. Tenha persistência sutil; entregar-se-ão.

17. Não é por terem escolhido você que todas merecem ser usadas. Saiba dizer “não”, saiba deixar para trás, sem todavia deixar de aprender a dizer “sim”.

18. Aquela que não serve para você pode ser tudo o que outro procura.

19. Nem todo flerte precisa acabar em casamento.

20. Dizer “não” não é dizer “nunca”; dizer “sim” não é dizer “sempre”.

21. Saiba o que cada uma quer dizer.

22. Pode ser pior trocar uma pela outra; pode ser melhor trocar uma pela outra.

23. Elas podem ferir, elas podem curar. Podem servir à guerra ou ao amor; depende de quem esteja lidando com elas.

24. Podem funcionar sozinhas, mas são capazes de prodígios quando acompanhadas.

25. Feliz aquele que se dedica a elas, as palavras. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

PEDIDO

Aqui estou para fazer um pedido:
para ti, que eu nunca seja oblívio;
eu quero ser o teu sempre Lívio. 

domingo, 16 de março de 2014

“MINHA VIDA SEM MIM”


“Minha vida sem mim” [My life without me] é um filmaço de 2003. Incrível como a diretora e roteirista, Isabel Coixet, contou uma história pesada sem, todavia, cair num dramalhão. O filme é baseado numa das histórias que compõem o livro “Pretending the Bed is a Raft”, de Nanci Kincaid.

Logo no começo, Ann, vinte e três anos, interpretada por Sarah Polley, recebe o diagnóstico que tem câncer e que morrerá em dois ou três meses. Ela decide esconder a doença de seu marido, de sua mãe e de suas duas filhas pequenas, alegando ter sido diagnosticada com anemia.

O casal passa por dificuldades financeiras. Don, o marido, interpretado por Scott Speedman, está, a princípio, desempregado (consegue emprego depois). Ann trabalha como faxineira. Ela não se dá bem com a mãe, interpretada por Deborah Harry (sim, aquela mesma, que foi vocalista da banda Blondie, do sucesso “Heart of glass”). Alfred Molina faz o pai de Ann; ele está preso.

Diante de um futuro cuja certeza é uma morte em breve, Ann decide fazer uma lista de coisas que pretende realizar. Nessa lista, há pendengas a serem resolvidas com a mãe e com o pai, bem como atitudes mais triviais, como um novo corte de cabelo. Ela também decide satisfazer a curiosidade de fazer amor com outro homem que não seja o marido.

Don e Ann haviam se casado muito jovens; conheceram-se, segundo eles, no último show realizado pelo Nirvana. Don era o único homem com quem Ann relacionara-se sexualmente. Tendo tomado a atitude de ficar com outra pessoa, conhece Lee, interpretado por Mark Ruffalo.

É um filme poético ali, reflexivo acolá. Coixet não se vale dos truques hollywoodianos ao contar a história. A manjada estética de Hollywood, com sua assepsia, não está no filme, que ao mesmo tempo não cede à escatologia. A “danadinha” da diretora e roteirista acertou demais no tom.

“Minha vida sem mim” é denso sem querer filosofar demais; consegue ser terno sem ser açucarado. É um daqueles filmes que nos tornam melhores, que fazem com que pensemos sobre a fugacidade de nossa vida, com que olhemos para ela com um olhar poético e urgente, mas sem desespero. É um delicado e inteligente convite à reflexão. A arte tem esse poder.

sábado, 15 de março de 2014

EM CORES

A gramática não
me deixa colorir,
mas eu coloro. 
Também sou 
defectivo.

sexta-feira, 14 de março de 2014

CONJUGAÇÃO

Eu leio cada palavra tua.
Saboreio cada palavra tua.
Chego até a decorar várias.

Reparo em cada ponto,
em cada ponto e vírgula.
Eu concebo entrelinhas...

Teu verbo, elegante poder.
Basta uma palavra tua e
será outro o meu destino. 

POSSIBILIDADES

Se aconteceu, é possível.
Se existiu, é possível.

O impossível não pode ser.
Desatino, buscá-lo.
Mas isso não é motivo para que
deixemos de vislumbrar 
formidáveis possibilidades. 

"O DIFÍCIL PARTO DO PORCO-ESPINHO"





As fotos desta postagem foram tiradas no dia trinta de dezembro de 2006. A princípio, quando vi o porco-espinho, pensei se tratar de um ninho (sic) ou algo assim. Só que de repente o “ninho” começou a se movimentar...

Desci logo da moto, já com a câmera pronta. À medida que o bicho se movia, eu o fotografava. Dava ele a impressão de estar próximo a uma área urbana (fiz o registro lá no bairro Copacabana) por causa da enchente pela qual o Rio Paranaíba passou em 2006.

Enquanto eu fotografava, um carro da polícia militar ia se aproximando. De longe, os policiais viram que eu apontava algo em direção a uma árvore. Aceleraram então o veículo e dele desceram rapidamente, talvez tendo suposto, vendo-me de longe, que a lente longa acoplada à câmera fosse o cano de alguma arma.

Quando desceram do carro, fiz, lentamente, gesto para que não se movessem, voltando-me logo após para o porco-espinho. Os policiais então entenderam o que estava ocorrendo e se aproximaram pé por pé, para não espantar o bicho. Pude fazer mais de uma dezena de fotos dele.

O título desta postagem é o título de um conto do professor, ensaísta, tradutor e escritor Luís André Nepomuceno. O conto está no livro “Antipalavra”, lançado em 2004 pela editora 7Letras. Também pela mesma casa o autor lançou “A lanterna mágica de Jeremias” (2005) “Os anões” (2009) e “Histórias abandonadas” (2011). 

quinta-feira, 13 de março de 2014

TU ÉS

Não preciso despejar no papel o que sinto por ti.
Não importa se escrevo sobre a guerra ou sobre o sofá.
Cada sílaba que digito é uma oferta que faço a ti.
Tu és tão em mim de um tal modo que, 
quando sou, eu sou o que sinto por ti. 
Quando escrevo, eu sou o que sou. 
Se sou o que sou, tu és em mim. 
Logo, se escrevo, em cada letra tu és.

Desde que tu és em mim, 
eu não sei o que é ser sem que tu sejas.
Meus olhos gostam de livros,
páginas vão se sucedendo...
Tu preenches as entrelinhas.
Eu canto e fico pensando em 
como seria se estivesses escutando.
Tu és longe, é verdade, mas que tu saibas 
que cada gesto meu é um movimento que faço em tua direção.

Voltar-me para mim é voltar-me para ti.
Voltar-me para fora de mim é voltar-me para ti.
Tu és em meu norte e em meu Cerrado.
Tu és em meu banho e em minha ideia.
O dia amanhece, abro os olhos: eu te acordo em mim.

Entendo de distâncias, sei para onde vais todos os dias.
Carmona que desfaço para deixar entrar esta manhã.
Meu sonho sai pela porta, a saudade entra pela janela.
Em minha boca e em tua pele, uma lembrança nossa.
Enquanto preparo café eu te beijo o rosto.
Bebo uma xícara, encaro o dia ainda por fazer.
Eu existo; se assim é, tu és. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

BASEADO EM...


Registro baseado em... patos reais... (Sei que um trocadilho assim não merece perdão, mas não resisti...) 

segunda-feira, 10 de março de 2014

SHOW DE BOLA / HAVING A BALL

Na noite que passou, sonhei com o Jimi Hendrix: ele estava no palco de um ginásio esportivo de paredes azuis. O lugar em que os músicos estavam era baixo; não mais do que uns quarenta centímetros. Eu era o único que conferia o ensaio da banda.

Jimi Hendrix desceu do palco já com uma bola. Daquelas com que as crianças brincavam antigamente. Eram bolas bem grandes, leves, coloridas. Eu não acreditava: Jimi Hendrix brincando comigo?! Pois brincamos, enquanto a banda continuava com o rock. 

TONA

Tenho saudade de 
como eu era.
Mas não deixei de 
ser quem sou,
não escapei de mim.
Ei de me resgatar e 
me trazer à pele. 

domingo, 9 de março de 2014

ENTREVISTA COM MUJICA

Não sei se há em Mujica uma lúcida simplicidade ou uma simples lucidez. Seja uma coisa, seja outra, não consigo imaginar nada mais sofisticado. Entrevista aqui