Já escrevi por aqui sobre o tema da tal “justiça” com as próprias mãos; nesta breve nota, digo: o linchamento de Fabiane Maria de Jesus, em Guarujá, é uma prova triste de que ideias incentivadas por gente como a Rachel Sheherazade podem ter consequências funestas. Todo mundo sabe que o Estado falha ao fazer justiça. Ainda assim, quando “justiceiros” se arvoram, o resultado pode ser o que ocorreu com Fabiane.
terça-feira, 6 de maio de 2014
domingo, 4 de maio de 2014
SINTONIA FINA — EDIÇÃO 24
Labels:
Áudios,
Sintonia Fina
APONTAMENTO 205
O fantasioso é tão revelador do que somos quanto o mais agudo realismo.
Labels:
Apontamentos
FOTOGRAFAR
Quem fotografa ao ar livre não pode se tornar “refém” de belas cachoeiras, de admiráveis céus azuis, de horários em que a luz está supostamente melhor. Se você gosta desse tipo de foto, saia para fotografar, não importa a hora, não importa a cor do céu, não importa se a temperatura está baixa ou alta, não importa a estação. Tente fazer o melhor do que estiver a seu dispor.
Além disso, fotografe de tudo; fotografe gente, pedra, árvore, bicho... Se a fotografia é “hobby”, não há pretexto para que não sejam experimentadas diferentes temáticas e abordagens; se da fotografia vem sua grana, mesmo assim, não deixe de tentar achar um tempo para fotos tiradas sem compromisso financeiro.
Brinque com diferentes técnicas: faça “zooming”; “panning”, “light painting”, fotos com “flash”, fotos sem “flash”, fotos com exposição longa, com exposição mínima... Busque novas composições, desafie-se, procure pelo inédito em você. É natural que desenvolvamos preferências por técnicas ou por temáticas, mas ecletismo não implica inconstância. Ademais, a versatilidade, esteja certo, pode incrementar o tipo de foto que você mais gosta de fazer.
Além disso, fotografe de tudo; fotografe gente, pedra, árvore, bicho... Se a fotografia é “hobby”, não há pretexto para que não sejam experimentadas diferentes temáticas e abordagens; se da fotografia vem sua grana, mesmo assim, não deixe de tentar achar um tempo para fotos tiradas sem compromisso financeiro.
Brinque com diferentes técnicas: faça “zooming”; “panning”, “light painting”, fotos com “flash”, fotos sem “flash”, fotos com exposição longa, com exposição mínima... Busque novas composições, desafie-se, procure pelo inédito em você. É natural que desenvolvamos preferências por técnicas ou por temáticas, mas ecletismo não implica inconstância. Ademais, a versatilidade, esteja certo, pode incrementar o tipo de foto que você mais gosta de fazer.
Labels:
Apontamentos,
Fotografia,
Fotos
APONTAMENTO 204
A pegada mais forte não anula a ternura. Podem prescindir do amor, mas se vêm como sintoma de amor, às vezes é até difícil separar a pegada da ternura. Acabam se tornando uma só coisa num só momento num só amor.
Labels:
Apontamentos
sábado, 3 de maio de 2014
FOTOPOEMA 352
Labels:
Fotografia,
Fotopoemas,
Fotos,
Literatura,
Poesia
"PARAGLIDER"
Ontem, no fim da tarde, saí para comprar pães; voltando para casa, reparei no céu: as nuvens e as cores estavam belíssimas. Já havia tomado a decisão de pegar a câmera para fotografar o entardecer quando, ainda olhando para o alto, vi uma pessoa lá no céu.
Nem preciso dizer que vim ainda mais rápido para casa. Cheguei, peguei câmera e lente; fui a um local bem em frente à escola Frei Leopoldo, aqui em Patos de Minas. Terminado o voo, reparei que a pessoa aterrissou nas imediações do Bairro Copacabana.
Labels:
Fotografia,
Fotos,
Paraglider
sexta-feira, 2 de maio de 2014
SAÍDA FOTOGRÁFICA
Ontem à tarde, participei da segunda edição do Saída Fotográfica, evento arregimentado pelo Bonna Morais. Embora convidado para a primeira edição do “safári”, não pude participar dele. Ontem, foi possível.
Não tenho memória das melhores, mas, salvo engano, é a primeira vez que saio para fotografar com um grupo. Fomos a Areado, no município de Patos de Minas. A seguir, fomos a uma fazenda perto de Areado. Nessa fazenda, estava havendo folia de reis.
Labels:
Areado/MG,
Fotografia,
Fotos,
Patos de Minas,
Saída fotográfica
LIBERTADORES: ATLÉTICO FORA; CRUZEIRO AVANÇA
Anteontem, pensei que a coisa ficaria feia para o Cruzeiro; ontem, que a coisa ficaria feia para o Atlético — da Colômbia. Terminada a rodada, A Raposa segue em frente; o Galo está fora. Quem não desligou a TV nem mudou de canal após o jogo dos Atléticos pôde acompanhar os desdobramentos do jogo realizado ontem no Independência.
Tardelli deixou nítido que não gostara de ter sido substituído; depois do jogo, criticou o técnico Levir Culpi. Este, na entrevista coletiva, disse que “se ele [Tardelli] não tiver número, ele sai”. Entre a declaração de Tardelli e a entrevista de Levir Culpi, Alexandre Kalil, presidente do Atlético, lacônico, também na entrevista coletiva, disse que ele era o único culpado pela eliminação do Atlético/MG.
Erraram Diego Tardelli e Levir Culpi; aquele, pela reação nada profissional que teve; este, por ser muito burocrático, atribuindo apenas números ao desempenho de um jogador. Se por um lado, esses números podem ampliar uma análise, por outro, o futebol (como a vida) é mais complexo e multifacetado do que uma análise de dados.
A equipe do Fox Sports bem que tentou fazer com que Kalil, nos bastidores do estádio, precisasse qual seria o erro do dirigente, chegando a perguntar se tal erro teria sido a contração do Autuori. Kalil desconversou e reiterou que o culpado único era ele. Pareceu-me que o presidente da equipe, num lance astuto, deu a entrevista já com a intenção de preservar a coesão da equipe.
Pelo menos para quem assistia de fora ao Atlético/MG que foi campeão da Libertadores, parecia haver simbiose entre Cuca, jogadores e torcida, o que pareceu não ocorrer enquanto Autuori esteve no comando do time. Somente essa suposta simbiose não explica o êxito da equipe no ano passado, embora possa ser ingrediente eficaz; ausente no curto período em que Autuori estive no time, Kalil tenta resgatá-la, a fim de evitar um racha no time.
Já o Cruzeiro, na sequência da Libertadores, vai enfrentar o San Lorenzo, no dia sete de maio. O caminho da Raposa tem sido sinuoso: quase não se classifica na fase de grupos; na sequência do torneio, um gol no fim do jogo, contra o Cerro Porteño, no Mineirão, deu alento para a equipe. Em trilha tortuosa, mas eficiente até agora, o Cruzeiro é o único time do Brasil a continuar na Libertadores.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
A HISTÓRIA DE DEMÓSTENES E JUSSARA
Demóstenes jurou que amaria Jussara.
Jussara jurou que seria de Demóstenes.
Os dois então se amavam às escondidas.
Em baldeações, lábios eram sofreguidão.
Demóstenes um dia propôs que fugissem.
Jussara teve medo, os dois conversaram.
Combinaram de ele passar na casa dela.
O vaso de planta na janela seria um “sim”.
No outro dia, Demóstenes arreou o cavalo.
Guiou em trote amoroso um vultoso alazão.
O coração, disparado, viu ao longe a fazenda.
O peito, acelerado, só quer saber da janela.
Chegando, nem vaso nem flor nem Jussara.
Pelo buraco da janela, ela amou o cavaleiro.
No depois, Jussara nunca mais saiu de casa.
Sem desapear, Demóstenes vaga pelo mundo.
Labels:
Literatura,
Poesia
quarta-feira, 30 de abril de 2014
QUENTURA
Vem celebrar comigo.
Canções de antigamente, estrelas velhas.
Vem celebrar com violão, fogo e folguedo.
Amanhã seremos cinza também.
A gente canta para a noite e faz calor.
Labels:
Literatura,
Poesia
terça-feira, 29 de abril de 2014
OS ANÉIS
No capítulo 22 do “Beowulf”, cuja data é imprecisa (considera-se que foi escrito entre os séculos oitavo e décimo), há a expressão “lord of rings”, usada como referência a um rei. Jamais li uma linha do J.R.R. Tolkien. Suponho, talvez incorretamente, que o título “The lord of the rings” tenha sido um empréstimo a partir do “Beowulf”.
Labels:
Apontamentos,
Beowulf,
J.R.R. Tolkien,
Literatura,
O senhor dos anéis
EVITE CÃIBRAS
O gesto de Daniel Alves é sofisticado, divertido, sarcástico, irônico, zombeteiro. Ao mesmo tempo, ele realizou uma das tarefas mais básicas do homem (ou do macaco) — alimentar-se. O que é o contexto: dependendo dele, algo tão trivial quanto comer uma banana pode deixar de ser... banal.
Fico me lembrando da cena e me perguntando o que ela ensina. O episódio é engraçado e incisivo. A graça, por si, não torna algo mais eficaz. Ainda assim, é a graça da cena que a torna mais densa. Tivesse Daniel Alves vociferado ou assumido a fúria de um símio desembestado, o ato não teria sido tão eloquente. Daniel Alves concebeu um gesto “simples” e de pura originalidade.
O lance é rápido, é solução momentânea. Há um quê de pilhéria numa resposta que é requintada demais. Se ao jogar a banana o sujeito quis dizer que Daniel Alves é um macaco, ao comê-la, o boleiro “admite” ser um macaco. Ao “assumir” que é um primata, o atleta acaba por colocar em cena um dos grandes poderes do homem, o de superar, com o apoio da galhofa e da inteligência, a estupidez que um ser humano é capaz de gerar.
Enquanto escrevo, sinto que o ato de Daniel Alves quer dizer bem mais do que o que expresso neste texto. Sinto que há um ensinamento óbvio, que todavia não consigo reter; apenas o intuo. Há algo me escapando por entre os dedos. Pode ser que essa suposta obviedade me surja depois de eu haver publicado este apontamento.
Não sou capaz de conceber uma resposta mais poderosa contra o preconceito de que o jogador foi vítima. Foi tudo tão rápido, tão vigoroso: logo depois de pegar a banana no gramado, saborear um pouco dela, dispensá-la e bater o escanteio, Daniel Alves materializou, em poucos segundos, que o espírito humano, às vezes, tem o dom de pairar acima da burrice.
A atitude do jogador não é solução para nada. Tivessem as pessoas, como um todo, a capacidade de se sensibilizar pelo exemplo e pelas ideias, o gesto de Daniel Alves teria consequências positivamente drásticas. Mas, no geral, houvesse essa capacidade, creio que uma banana não seria usada para indicar preconceito. Numa situação como aquela, eu ficaria chateado. Não sei como Daniel Alves se sentiu. Ainda bem que ele soube erguer a cabeça, marcando um inspirador e memorável golaço.
Labels:
Daniel Alves,
Futebol,
Preconceito,
Racismo
segunda-feira, 28 de abril de 2014
KENNING
Conduzindo e sendo conduzido,
o habitante dos campos,
no meio de sua jornada,
deparou-se com a casa da lua.
Foi convidado, convidou-se: entrou.
Querendo e sendo queridos,
mudaram-se para o rio das alianças
o habitante dos campos e a casa da lua.
Labels:
Kenning,
Literatura,
Poesia
APONTAMENTO 204
Há um ditado que diz: “Se a vida te der um limão, faz uma limonada”. Daniel Alves ensinou o que se deve fazer quando a vida joga uma banana.
Labels:
Daniel Alves,
Futebol,
Preconceito,
Racismo
DIÁLOGO DE NAMORADOS
— Só quero que você fique um pouquinho mais...
— Só um pouquinho mais?!
— Sim, só um pouquinho mais.
— Hum... E quanto tempo seria um pouquinho mais?...
— Pode ser até o fim da minha vida?...
Labels:
Literatura
domingo, 27 de abril de 2014
ENQUANTO
Um dia a gente morre pra valer.
Enquanto isso, a gente tem pequenas mortes.
Matam mas não matam.
Quase matam.
Um dia a gente morre pra valer.
Enquanto isso não vem, a gente renasce.
Labels:
Literatura,
Poesia
APONTAMENTO 203
Sempre escrevi como quem quer se livrar rápido do que está escrevendo. Trata-se de medo de o leitor querer se livrar rapidamente de mim.
Labels:
Apontamentos
sábado, 26 de abril de 2014
CELEBRAÇÃO
Labels:
Literatura,
Poemas ilustrados,
Poesia
terça-feira, 22 de abril de 2014
ERA UMA VEZ UM CONTADOR DE HISTÓRIAS
Em espanhol: primeiro capítulo de livro inédito de Gabriel García Márquez. Pode ser que a obra venha a ser publicada incompleta. Ainda assim, este primeiro capítulo é como se fosse um conto, no sentido de ter começo meio e fim. No texto, o velho Gabo contador de histórias que conhecemos. Para conferir, clique aqui.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
DECISÃO
Contemplou a brancura do papel.
Num só ritmo, com mão solta,
preencheu a imaculada folha.
Releu o que escreveu, ponderou.
Num átimo, rasgou o verbo.
Labels:
Literatura,
Poesia
FOTOPOEMA 351
Labels:
Fotografia,
Fotopoemas,
Fotos,
Literatura,
Poesia
domingo, 20 de abril de 2014
LUCIANO DO VALLE
A única vez em que chorei devido a resultado de uma partida de futebol foi em 1982; eu tinha onze anos. Quando a derrota do Brasil, que jogara contra a Itália, foi decretada, chorei. Aquele time era formidável. Parte de toda aquela magia estava também em Luciano do Valle. Era um narrador à altura do que fez aquela equipe.
Posteriormente, acompanhei, já pela Band, um programa de variedades que Luciano do Valle apresentava nos fins de semana. A atração ia ao ar de madrugada; chamava-se Valle Tudo. Mesmo chegando de alguma farra, a primeira coisa que eu fazia era ligar a TV para acompanhar a atração. Às vezes, até deixava de sair, a fim de sintonizar o Valle Tudo.
Dono de uma voz privilegiada, Luciano do Valle morre às vésperas de narrar mais uma Copa do Mundo. Perde o evento, que não terá, no rádio, Osmar Santos, que não mais narra, devido a sequela de acidente automobilístico, e não terá, na TV, o brilho e a emoção de Luciano. Valeu, do Valle.
Labels:
Band,
Copa do Mundo 1982,
Futebol,
Luciano do Valle
sábado, 19 de abril de 2014
SÃO RAFAEL, MEU PAI, UM FREGUÊS E EU
Durante toda a vida dele, meu pai trabalhou na Padaria São Rafael, cujo dono se chamava... Rafael. Mesmo depois de aposentado, meu pai continuou prestando serviço no local. Quando morreu, ele ainda trabalhava lá. Se eu não estiver enganado, foi lá que também conheceu minha mãe.
Foi natural que eu frequentasse a padaria antes mesmo de ter memória. Nos domingos à tarde, o movimento era fraco; meu pai então me deixava no caixa, enquanto ele ficava no balcão. Como meu pai já havia me ensinado a tabuada antes mesmo de eu ser alfabetizado, eu não me preocupava com as contas que eu teria de fazer na hora de voltar o troco.
Talvez eu já tenha contado a história da tabuada em alguma crônica antiga. Eu era sabatinado com frequência pelo meu pai. Se estivéssemos, digamos, voltando da casa da mãe dele, ele me tomava a tabuada durante o trajeto. Penso que a matemática nunca tenha sido drama para mim devido à iniciação numérica que meu pai me proporcionou.
Apaixonado por rádio, ele sempre teve diversos modelos. Quando ele os comprava, a primeira coisa que me atraía não era nem a vontade de manejá-los — era o cheiro que tinham. Feliz aquele que tem em sua memória olfativa o cheiro dos rádios que eram fabricados na década de 70.
Um desses rádios tinha algumas dezenas de, por assim dizer, pequenos furos na parte da frente. Meu pai olhou para o rádio e pediu que eu contasse o mais rápido que eu conseguisse quantos furos havia no rádio. Contei então os oito furos da primeira fileira do alto na horizontal e os sete furos da fileira da esquerda na vertical. Mentalmente, multipliquei-os; depois, foi só acrescentar os três furos que faltavam e dizer o mais veloz que pude: “São cinquenta e nove furos”. Pude perceber o leve sorriso do meu pai. Ele então contou que se eu não soubesse a manha de multiplicar os furos verticais e os horizontais, ele ensinar-me-ia.
Num domingo quente e parado, quase sem fregueses, estava eu no caixa da padaria. Um senhor entrou e foi atendido por meu pai. Não me lembro do nome da moeda da época. Isso, todavia, não importa; o senhor me passou um pequeno pedaço de papel quadrado em que meu pai havia escrito o valor da compra.
Peguei o papel: fosse hoje, nele estaria escrito o valor de, por exemplo, oito reais. Fiquei aguardando o senhor tirar o dinheiro do bolso. Divisei o que seria equivalente a uma nota de dez reais. Já fui abrindo a gaveta do caixa para dar ao senhor os dois reais de troco. Mas o freguês continuou revirando bolsos. Por fim, ele me entregou treze reais.
Meu mundo desabou naquele longínquo momento. Um cataclismo inexorável me deixou petrificado. Eu não sabia o que fazer com os treze reais. Eu não via lógica naquilo. Foi como se toda a concepção que eu tinha do Universo, da matemática e de mim, em meus seis ou sete anos de idade, tivesse sido esmagada. Eu já não sabia o que fazer, eu já não sabia mais fazer conta, eu já não sabia mais quem eu era. Afinal, se dez reais eram o bastante para pagar a conta, por que me entregar treze reais?
Perdido num vergonhoso labirinto, ainda fiz menção de devolver ao senhor os três reais. Ele, porém, disse: “Pode cobrar aí mesmo”. Desesperado e arrasado, ainda argumentei que se o valor da compra era de oito reais, dez reais seriam o bastante para pagar. O freguês seguiu resoluto: “Cobra aí mesmo; além do mais, fica mais fácil pra você me voltar o troco”.
Então, desisti de tudo. No torpor, eu não conseguia raciocinar. Eu não conseguia visualizar a situação, eu não conseguia pensar algo assim: “Se o valor da compra é de oito reais e ele me deu treze reais, logo, para saber quanto tenho de devolver a ele, basta que eu faça a seguinte conta: treze menos oito”.
Sem raciocínio e sem chão, olhei, com cara de súplica, para o senhor. Ao mesmo tempo, procurei pelo meu pai. Percebendo meu desespero, o freguês deu um sorriso e disse: “Me volta cinco reais e fica tudo certo”. Meu pai, já tendo se dado conta de meu fracasso, aproximou-se do caixa. Depois que o freguês saiu, explicou-me a conta que eu deveria ter feito.
Labels:
Crônicas,
Literatura
"UM RETRATO DE MULHER"
Eu nunca quis ser iconoclasta. Ainda que eu quisesse, sei que não levo jeito para isso. Além do mais, como escrevo por gosto, e não por dever, prefiro me dedicar a discorrer sobre aquilo que curto. Mesmo assim, digo: não gosto de “Metropolis” (1927), do diretor Fritz Lang. É aquela velha conversa: sei da importância do filme... mas...
Todavia, alguns dias atrás, assisti a “Um retrato de mulher” (The woman in the window, 1944), também de Fritz Lang. O roteiro é de Nunnally Johnson. A produção é baseada no livro “Once Off Guard”, de J.H. Wallis. Gostei demais do filme.
No enredo, o professor Richard Wanley (Edward G. Robinson) observa, com desvelo, o retrato de uma mulher numa vitrine. Logo após, ele se diverte com amigos num restaurante; ao sair, depara-se com Alice Reed (Joan Bennett), que é a mulher do retrato. Os dois iniciam conversa. Wanley acaba indo ao apartamento dela.
É quando a encrenca tem início. O amante de Reed entra no apartamento e tenta matar Wanley; na contenda, o amante é que acaba sendo morto, com a ajuda de Reed. Ela e o professor se livram do corpo. Para piorar a situação, o perspicaz detetive responsável pelo caso é um dos grandes amigos de Wanley.
Ele é professor, não é criminoso. A polícia logo tem uma série de elementos que podem elucidar o caso. Não bastasse o aperto por que já passam Wanley e Reed, entra em cena Heidt (Dan Duryea), que há meses vinha seguindo o amante de Reed e sabe haver algo muito errado no desaparecimento dele; Heidt começa a chantagear Reed.
A despeito do emaranhado que fisga Wanley e Reed, “Um retrato de mulher” não é um filme pesado. Se por um lado nos compadecemos do desajeitamento dos cúmplices no crime, por outro, não deixamos de achar graça deles. A sequência final quebra o tom; o humor do filme, que até então vinha sendo velado, torna-se deliciosamente escancarado.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
CLAUSURA
Se for para vaca,
curral.
Se for para ave,
gaiola.
Se for para rato,
ratoeira.
Se for para gente,
boa parte da mídia.
Labels:
Literatura,
Poesia
O LUGAR DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
Certa vez, estive em Cordisburgo/MG estritamente para conhecer a cidade em que Guimarães Rosa havia nascido. Lá, estive na casa onde o escritor morou, hoje transformada em museu. Durante o trajeto, de dentro do ônibus, pude observar estabelecimentos comerciais cujos nomes fazem referência ao universo de Guimarães Rosa. Lembro-me de haver uma borracharia Grande sertão: veredas. Acho que era mesmo uma borracharia.
Há tempos era minha intenção conferir, por intermédio do Google Maps, Aracataca, na Colômbia; é a cidade em que nasceu Gabriel García Márquez. Hoje, finalmente, “visitei” o lugar. A exemplo de Cordisburgo, com suas referências ao mundo de Guimarães Rosa, há em Aracataca referências ao de García Márquez.
(Essa minha “turnê” por Aracataca confirma a “profecia” do cigano Melquíades, exibindo um óculo de alcance, logo no segundo parágrafo de “Cem anos de solidão”: “Dentro de poco, el hombre podrá ver lo que ocurre en cualquier lugar de la tierra, sin moverse de su casa”.)
Nas imagens desta postagem, conseguidas via Google Maps, dois registros de um comércio em Aracataca; o nome do estabelecimento é o nome da cidade de “Cem anos de solidão”. Também nesta postagem há a frente do museu dedicado a García Márquez; é o lugar em que ele nasceu. O endereço é Carrera 5 Nº 6 — 35. Em frente ao museu, réplicas de como era a casa quando o escritor nasceu podem ser adquiridas.
quinta-feira, 17 de abril de 2014
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ
Sempre tive uma dificuldade imensa para decorar textos. Para dizer a verdade, só sei dois textos de cor: o Soneto 17 do Shakespeare e a primeira frase do “Cem anos de solidão”. Não tive a intenção de decorar nem o soneto nem a primeira frase do livro: acabei os memorizando de tanto que os reli.
Em 1999, foi noticiado que Gabriel García Márquez tinha câncer linfático. Em 2012, que o escritor estaria demente, esquecendo-se até dos nomes dos amigos mais próximos. Foi então que, desde 2012, eu vinha pensando com frequência que chegaria o dia em que eu ficaria sabendo da morte dele, mesmo ciente, é claro, de que eu poderia ter morrido antes de ele morrer.
O dia em que eu ficaria sabendo da morte dele chegou. Neste 17 de abril, Gabriel José García Márquez morreu, com 87 anos. Com amigos, eu frequentemente comentava que, a despeito da demência, eu imaginava que ele fosse viver por mais tempo ainda, pois vem de estirpe longeva.
“Cem anos de solidão” é o livro que mais reli, ao lado de “As relações perigosas”. Ao longo dos anos, colecionei entrevistas de García Márquez, assisti a diversos documentários sobre sua vida e obra, conferi, via internet, diversos vídeos com o autor. Em sua obra, o senso de humor, o adjetivo certeiro, a prosa imagética cheia de imaginação. Um retrato vigoroso da América Latina.
García Márquez foi um daqueles casos em que há aclamação dos pares, da crítica e do público. Há escritores que são exaltados pela crítica, mas que não têm consagração popular. Há escritores populares que são demonizados pela crítica. García Márquez teve o respeito da crítica e a consagração do público. Teve um destino grandioso.
Sempre que eu conferia alguma entrevista com ele, eu ficava com a impressão de que ele era uma pessoa feliz. Alguém que se sabia escritor e que realizou sua vocação com uma formidável capacidade para contar uma história. Fica em mim a impressão de que essa felicidade que imagino nele ter feito com que sua vida fosse tão grandiosa quanto sua obra.
Labels:
Gabriel García Márquez,
Literatura
MAIS "ZOOMING"
Há alguns dias, expliquei como funciona o “zooming”, técnica por intermédio da qual é possível criar curiosos efeitos a partir do manejo, principalmente, da velocidade e do zum da lente. Agora à tarde, decidi sair e fazer mais alguns registros me valendo do “zooming”.
A primeira providência foi acoplar à lente um filtro ND, comprado há uns dois anos, mas que ainda não havia sido usado. O “ND” equivale a “neutral density”. Esse filtro funciona assim: é como se você estivesse colocando óculos escuros na lente.
Ora, fazendo-se isso, a lente passa a “enxergar” o mundo com menos luz; havendo menos luz, será preciso, dentre outras possibilidades, baixar a velocidade para que haja luz o bastante chegando ao sensor. Baixando-se a velocidade, tem-se maior possibilidade de se fazer o “zooming”.
O filtro ND foi acoplado pelo fato de as fotos terem sido feitas durante o dia. Apesar de o tempo estar nublado, uma baixa velocidade faria com que houvesse muita luz, ainda que uma abertura bem pequena fosse usada. Tal abertura pequena aumentaria a profundidade de campo; não interessado nessa grande profundidade, decidi me valer do filtro ND.
Filtros assim podem ser usados também quando se quer dar o efeito “leitoso” na correnteza de um córrego, por exemplo, precisamente por possibilitarem uma velocidade mais baixa. Enfim, podem ser usados sempre que se queira uma velocidade mais baixa num ambiente com muita luz.
Nesta postagem, dois pares de fotos. Em duas delas, fotos “normais”; nas outras duas, a possibilidade de se brincar com a realidade a partir da aplicação do “zooming”. Por fim, um lembrete: há câmeras compactas que têm um recurso em que é possível fotografar como se houvesse um filtro ND na lente; caso tenha uma compacta, fuce nela e tente descobrir o “brinquedinho”.
Labels:
Fotografia,
Fotos
quarta-feira, 16 de abril de 2014
APONTAMENTO 202
A poesia, mesmo sem explicar, pode dizer tudo.
Labels:
Apontamentos
PERCURSO
Caminho certo?!
Se há, é um:
dá o primeiro passo
e começa a caminhar.
Labels:
Literatura,
Poesia
RIBALTA
O palco é o mesmo.
O que muda são os atores.
É a sua vez no palco.
Brilhe.
Labels:
Literatura,
Poesia
terça-feira, 15 de abril de 2014
PELO RALO
Há pouco, aqui em casa, a intenção era fotografar vestes sendo giradas dentro de uma máquina de lavar roupas. Todavia, o vidro da máquina estava refletindo o telhado da área em que as roupas são lavadas. Numa próxima, com um filtro polarizador na lente, vou tentar corrigir esses reflexos.
Já desistindo de fazer as fotos, dei-me conta da água que estava escorrendo no tanque. De imediato, religuei a câmera, baixei a velocidade e comecei a fazer as fotos, enquanto a água ia embora. A intenção era incrementar a sensação de movimento, mas se eu baixasse muito a velocidade, as imagens poderiam ficar tremidas demais. Usei de 1/4 a 1/13 nos registros.
Labels:
Fotografia,
Fotos
CHEGAR LÁ
Não sou o fundador de um novo tempo.
Sou o fundador de um novo Lívio.
Chegar lá? Bah!
Minha grande conquista é chegar aqui.
Se a mim chego, chego lá,
ainda que não saia do lugar.
Sou o fundador de um novo Lívio.
Chegar lá? Bah!
Minha grande conquista é chegar aqui.
Se a mim chego, chego lá,
ainda que não saia do lugar.
Labels:
Literatura,
Poesia
PLENA
Noite de lua cheia:
o Sol envia notícias para a lua,
que as conta para nós.
Quando é lua cheia,
fica noite afora um pedaço do dia.
É um dia que não se esvai por completo.
Banho de luz que elucida becos,
clarão que ofusca estrelas.
Noite de lua cheia é um modo
de o Sol existir na escuridão.
Lua cheia de luz compartilha Sol.
Que passemos adiante os sóis que recebemos.
Labels:
Literatura,
Poesia
segunda-feira, 14 de abril de 2014
"PERTO DO FOGO"
Em postagem de ontem, intitulada Brincando durante a chuva, nas três imagens, usei a técnica conhecida como “zooming”. Também ontem, à noite, entusiasmado depois de ter feito as fotos da postagem mencionada, decidi me esbaldar com o “zooming”.
Fiquei pensando no assunto a ser fotografado. Fui à cozinha tomar água; foi então que tive a ideia de fotografar as chamas do fogão (coisa que já fiz, só que com a câmera em tripé, e sem usar o “zooming”). Nos cursos de fotografia que ministro, sempre digo que tanto o fogo quanto a água são dois grandes assuntos para a fotografia.
No caso das fotos deste álbum, haveria dos movimentos: as chamas tremeluzentes e o zum na lente da câmera. Se o “zooming” com o assunto principal em repouso já é imprevisível devido ao uso do zum da lente, fazendo com que ela se aproxime ou se afaste do assunto enquanto o obturador é apertado, as chamas bruxuleantes aumentariam a imprevisibilidade — o que tornou tudo mais animador. Há fotos em que há apenas uma chama acesa, e fotos em que há quatro.
Repito-me: a técnica não é o mais importante, mas para que serve o domínio dela se não nos divertirmos com o que fazemos, se não “avacalhamos” com o trabalho? O bom da técnica é fazer farra com ela, que existe para ser aplicada.
Aplicá-la é abrir novas possibilidades de expressão, é olhar para o mundo de modo inédito, é expandir o ato da criação. A técnica semeia novas ideias na cabeça da gente; uma cabeça, quando tem ideias, fica feliz.
Labels:
Fotografia,
Fotos,
Zooming
Assinar:
Postagens (Atom)






















































