domingo, 24 de junho de 2018

Lançamento de meu livro

Anteontem (22/06), lancei meu quinto livro, Anacrônicas. Nesta postagem, algumas fotos do evento.










































































segunda-feira, 18 de junho de 2018

Gol contra de brasileiros

A brilhante Patrícia Lélis publicou um vídeo em que comenta sobre os homens que estão dizendo estar havendo “mimimi” por parte das mulheres que estão criticando a burrice dos brasileiros ensinando o que parece ser uma estrangeira a falar palavrões. A estratégia de Patrícia Lélis para demonstrar a babaquice dos brasileiros que aparecem no vídeo e daqueles os quais alegam que as mulheres estão com frescura ao reclamarem foi nos conclamar a imaginarmos o seguinte exemplo: numa roda há algumas mulheres e apenas um homem. Elas, referindo-se a ele, começam a entoar o coro: “É pau pequeno, é pau pequeno”. A seguir, elas entoam: “O pau é fino, o pau é fino”. A seguir: “O pau é torto, o pau é torto”. Por fim: “Não sabe fazer a mulher gozar, não sabe fazer a mulher gozar”.

Claro que a situação seria embaraçosa, desrespeitosa, assim como foi desrespeitoso o comportamento dos caras que aparecem no vídeo em que pedem a uma mulher que repita palavrões em português. A postagem da Patrícia Lélis não vai mudar a mentalidade de gente imbecil como aqueles caras do vídeo, mas isso não é motivo para que algo deixe de ser feito. A burrice e a falta de tato deles precisam ser mencionadas. Patrícia soube fazer isso de modo genial.

Essa história fez com que eu me lembrasse do pessoal do 20 Fingers, que na década de 90 fez sucesso com uma canção chamada “Short dick man”. Na letra da canção, um eu lírico feminino se dirige a um homem dizendo que não quer nada com ele precisamente porque o pênis dele é muito pequeno. Os machistas de então se revoltaram, esquecendo-se dos insultos que usualmente proferem contra as mulheres. A vocalista do 20 Fingers era uma cantora chamada Gillette. Ela se justificou em entrevista quanto à letra de “Short dick man”, dizendo que há várias ofensas machistas, e que a canção era uma tentativa de fazer com que os homens entendessem o que é ser vítima de comentários ou comportamentos sexistas o tempo todo. Não entenderam. 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

De português para português

Cristiano Ronaldo fez três gols. A equipe dele dava sinais de que não resistiria à espanhola, que, a despeito da mudança de técnico de última hora, mostrou o jogo pelo qual ela é conhecida, com muito toque de bola, ficando com ela a maioria do tempo.

Portugal não vai ganhar a Copa do Mundo. Mesmo assim, o torneio mostrou, mais uma vez, que o célebre português é um craque. O que ele fez hoje foi um feito. A atuação dele acabou me remetendo a outro português, que cito:

“Em perigos e guerras esforçados,
“Mais do que prometia a força humana,
“E entre gente remota edificaram
“Novo Reino, que tanto sublimaram”.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Que o Brasil não ganhe a Copa do mundo

Os tentáculos da Globo e os grandes anunciantes fazem de conta que patriotismo e patriotada são a mesma coisa. Em anúncios piegas, ora enaltecem glórias passadas do futebol nacional ora colocam Tite em cena. A competência dele no futebol pode levar a seleção da CBF a ganhar a Copa. Se isso ocorrer, mídia e grandes empresas investirão mais ainda no pseudopatriotismo que propalam. 

A Globo, que prima por moldar a realidade do país à feição de seu projeto maquiado de brasilidade, tem todo interesse em que o Brasil seja campeão na Rússia, o que seria perfeito na tentativa de se criar uma onda “patriota” que seguiria omitindo os esquemas escusos da CBF, o 7 a 1 e os problemas que assolam o futebol nacional. Um deles, o calendário e os horários estúpidos, exigidos pela própria família Marinho.

O título do Brasil seria perfeito para a Globo e para seus poderosos anunciantes. Precisamente pela influência que têm, soprariam sobre o país um bafo de pseudoufanismo e de falsa autoestima. Como são muito poderosos, convenceriam muitos de que somos o tal do país do futebol, embora não sejamos. 

Para eles, que sabem realizar muito bem a mistura entre futebol e política, é boa a ideia de a população supor que, mesmo no governo Temer, ainda somos um país possível, viável. O hexacampeonato seria um afago, uma suspensão do peso do cotidiano. Um olhar um pouco mais cuidadoso, todavia, descortina o nosso futebol chinfrim e a caricatura de país que nos tornamos. Ganhar uma Copa não é atestado de que por trás do título há uma nação.

Não há dúvida de que o futebol pode ser algo mágico, bonito, emocionante. Qualquer pelada entre amigos pode conter elementos épicos ou grandiosos. Podendo o futebol ser tão elevado, o que lamento não é a existência dele em si, mas ele ter se tornado ferramenta política e dispositivo de manipulação nas mãos de empresas como Globo, como seus anunciantes e como a CBF, organizações que não têm o menor interesse no bem do Brasil nem no do futebol aqui praticado.

Se o Brasil ganhar a Copa, vão dizer que o orgulho de ser brasileiro foi resgatado. Jamais vão admitir que é melhor ter um péssimo futebol mas um país decente. A euforia da conquista caso o hexa venha será inflada. O sucesso será garantido, pois eles têm ao seu lado o pessoal que vestiu a camisa da CBF e fez passeata alegando cidadania de 2013 para cá. 

O que vai curar este país doente não é a conquista de um torneio esportivo. Eu gostaria muito que o futebol não fosse usado como instrumento para tapear incautos ou para enriquecer espertalhões, pois ele é maior do que Globo, CBF, patrocinadores e paneleiros. O futebol não deveria ser usado usado como paliativo contra as dores de um país que não consegue se fazer.

Apontamento 376

Chega o tempo (ou deveria chegar) em que percebemos o que somos. Ou suspeitamos do que somos. Ou temos uma ideia mais exata do que não somos. Damo-nos conta então de que poderíamos ter feito mais do que fizemos e de que não somos tão capazes o quanto já havíamos suposto em rompantes juvenis. A partir daí, a questão é aprender a não desprezar aquilo de que somos capazes, ainda que não sejamos tão capazes quanto gostaríamos de ser (e não somos). 

Os estorninhos são bons em matemática

Acho que foi o Pitágoras quem disse que “o livro do Universo está escrito em caracteres matemáticos”. A ideia, bela por si, fascinava os gregos. Na modernidade, tem gerado filmes, documentários, desenhos animados... Um documentário que recomendo é Understanding Beauty (Tudo sobre a beleza); já um desenho animado que recomendo é Donald Duck in Mathmagic Land (Donald no País da Matemágica).

Há uma produção da BBC que está disponível na Netflix intitulada The Code. A pequena série de três episódios segue a linhagem de trabalhos que afirmam haver propriedades matemáticas em qualquer manifestação da natureza. Isso valeria para flocos de neve, para o comportamento dos lêmingues ou para uma multidão de humanos. A série The Code é apresentada pelo matemático Marcus du Sautoy.

Há quem argumente que destrinchar os mecanismos de algo retira o encanto desse algo, com o que não concordo. A maravilha de trazer à tona o que causa ou o que move determinado fenômeno torna tudo mais fascinante. Há mágicos que não gostam quando os truques deles são revelados; para mim, essa revelação torna a mágica mais incrível do que ela já é. Talvez por isso eu goste tanto de conferir feituras de filmes.

Séries que ressaltam a importância da matemática estão, por assim dizer, tentando descobrir a feitura do Universo, estão, digamos, investigando o “truque” por trás da “mágica” que é o Universo. Só um misticismo deturpado ou um cérebro desprovido de senso do espanto não conseguiriam enxergar beleza quando padrões matemáticos são revelados nos mecanismos da natureza.

Por falar em padrões matemáticos, há uma sequência em que Marcus du Sautoy está discorrendo sobre o belíssimo padrão de voo dos estorninhos, enquanto uma revoada deles é mostrada pela câmera. Diante da cena, ficou nítido para mim que num breve instante os milhares de estorninhos “desenham” no céu o número 6.

De imediato, pensei se tratar de uma “brincadeira” de edição da BBC; tanto foi assim que fiquei aguardando algum comentário sobre isso da parte de Marcus du Sautoy. Todavia, nada foi dito sobre o número 6 no céu. Além do mais, a edição não nos permite concluir que a formação dos estorninhos teria sido algo produzido em estúdio.

Tendo sido ou não feito em estúdio, foi bom demais a formação dos pássaros no céu (acho que os estorninhos estavam... po(u)sando para as câmeras...)  terem produzido algo parecido com o número 6 (pareidolia?) num documentário que ressalta precisamente a matemática como sendo a chave que abre ou explica como tudo é gerado na natureza. Nesta postagem, uma foto da cena do voo dos estorninhos no documentário da BBC. 

sábado, 2 de junho de 2018

Meu novo livro já à venda

A Fenamilho está acabando. Em breve, anuncio data de lançamento de meu novo livro, Anacrônicas, coletânea de textos que escrevi para a imprensa. Mas caso você já queira ler o livro, ele já está à venda neste link. 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

O público e o privado

Sempre é preciso mencionar desinformação, patologia, ingenuidade, má-fé, patriotada e outras coisas que nem sei dizer quando pessoas vão a um quartel, prostram-se e pedem intervenção militar. Há ainda um componente psicológico, que nada tem de problemático se ficar restrito à esfera particular: em ajoelhar-se e pedir açoite há, consciente ou inconscientemente, vassalagem e masoquismo. 

Prova

Valor: 10 pontos
Data: 01/06/2018

Questão 1
Na Ilha de Vera Cruz, jamais serão presos:
a) Aécio, FHC, Serra, Temer;
b) Temer, Serra, FHC, Aécio;
c) FHC, Aécio, Temer, Serra;
d) Serra, Temer, Aécio, FHC. 

Haicai 69 / Fotopoema 417

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Fé líquida

João Doria, aquele que mandou retirar, com jatos d’agua, em madrugada fria, mendigos do centro de São Paulo, foi hoje a evento intitulado Marcha para Jesus. Eu não sabia que, além de cidadão de bem, Doria é religioso. 

Haicai 68

Não sou homem de fé,
não sei nadar.
Vou até onde dá pé. 

Eu tenho medo de ditadores

A democracia tem seus defeitos, mas o bom dela é que aqueles que não a querem podem dizer abertamente não querê-la. Regimes militares não se inclinam a dar à população essa prerrogativa. A própria ditadura no Brasil provou isso. Em ditaduras, quando se quer dizer que não se concorda com elas, é preciso haver subterfúgios sutis e sofisticados, o que está longe dos nada sutis nem sofisticados métodos que as ditaduras usam para prender, torturar ou matar.

No que diz respeito à economia, à corrupção e à manutenção de privilégios, a ditadura brasileira foi tão incompetente quanto parte dos políticos eleitos durante a democracia. Só que no regime democrático, pode-se dizer que determinado político foi incompetente no exercício de seu trabalho. Ai daqueles que escancararam a burrice, a brutalidade e a ignorância dos ditadores latino-americanos.

Há uns três ou quatro anos escrevi — e agora reitero: prefiro os problemas da democracia às soluções da ditadura. É muita desinformação acreditar que uma ditadura ou um político possa ser redentor, salvador. Há também desinformação quando se alega que o avô ou o pai dizem que no período da ditadura o Brasil era melhor. Pode ter sido melhor ou até indiferente para o seu avô ou para o seu pai, mas isso não quer dizer que tenha sido melhor para o país.

Nasci em 1970. Cresci durante o regime militar. Minha família não passou fome, não foi torturada nem exilada nem morta pela ditadura. Todavia, isso não quer dizer que o país estava saudável. Meus pais não sabiam ao certo o que estava acontecendo. Coube a mim, o que é minha obrigação, procurar me informar sobre o Brasil que era divulgado e o Brasil que era escamoteado durante o regime ditatorial no Brasil.

Li recentemente a autobiografia do imprescindível Jô Soares (segundo ele, haverá um segundo volume de suas memórias). Num trecho, ele comenta do medo que sentiu, durante o regime militar, ao ser levado ao Dops para ser interrogado. De acordo com ele, não o torturaram.

O problema é que há pessoas que defendem a ditadura só porque não tiveram entes torturados. O raciocínio é simplista. De minha parte, asseguro que prefiro viver sem medo de ditadores. No mais, há muito machão metido a corajoso por aí que perderia todo esse furor ao ser torturado numa cela fria e fétida. Eu tenho medo de ditadores. 

segunda-feira, 28 de maio de 2018

Documentário sobre Gabriel García Márquez

Assisti ontem ao terno documentário Gabo: a Criação de Gabriel García Márquez [Gabo: the magic of reality], do diretor Justin Webster. A produção, disponível na Netflix, é de 2015, realizada, portanto, um ano depois da morte do autor colombiano.

Amigos e parentes de García Márquez dão depoimentos sobre a vida e a obra do escritor, destacando as facetas da vida dele. Mesmo para leitores e conhecedores da vida de Gabo, como ele era conhecido pelos amigos, o documentário vale a pena, principalmente pelos trechos de entrevista que há com o próprio autor.

Para os que querem adentrar no universo de García Márquez, o documentário enfoca os pilares tanto da obra quanto da vida do criador de O Outono do Patriarca. O episódio do rompimento com Vargas Llosa não é mencionado, mas a amizade de García Márquez com Fidel Castro, que tanto debate gerou, é abordada.

No todo, um belo e feliz tributo a um autor que parece ter tido uma vida bela. Por mais piegas que possa parecer, a impressão que tenho de García Márquez é a de que ele foi uma pessoa feliz. Gabo: a Criação de Gabriel García Márquez faz justiça a isso. 

sábado, 26 de maio de 2018

Apontamento 375

A poesia é possível. Por que desperdiçá-la quando ela faz de ti uma possibilidade? 

Karius e nós

Os erros de Karius foram imensos. Quando falhas dessa natureza ocorrem, diminuem a distância entre um grande jogo e a pelada do fim de semana no campo da várzea mais próxima. Pela natureza da profissão e por terem chegado ao ponto em que chegaram, os erros de atletas em grandes equipes são vistos por milhões, bem como as consequências dos fracassos deles. Mesmo assim, o que aconteceu mais cedo com o Karius aproxima não somente o grande time da equipe de amigos que disputa um torneio amador, mas aproxima todos nós uns dos outros, pois falhas como a do goleiro do Liverpool atestam o quão grandes podem ser os tropeços de qualquer humano, ocorram eles diante de milhões ou na intimidade de um quarto escuro. Karius, ao vivo, provou mais uma vez o que há de mais frágil e essencial em todos nós. 

Resistência

Ontem, lavando talheres, esbarrei numa xícara, que caiu no chão. Não quebrou. Nela, está inscrito o nome de Pablo Neruda. A poesia há de resistir. 

Cinismo

Aula de cinismo: Temer, que congelou investimentos na educação por décadas, diz que a greve dos caminhoneiros não pode impedir o acesso das crianças às escolas. Ele autorizou ontem o uso das forças federais de segurança para desbloquear as estradas. Ou seja: o que falta em habilidade e legitimidade políticas ele compensa com a porrada. É sempre a saída dos covardes e dos que não sabem governar. É a saída dos que querem soluções fáceis e ditatoriais, tal qual deseja parte da população. 

Haicai 67

Muitos têm a ideia:
trabalhador é cordeirinho.
Viva a alcateia. 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O petróleo não é nosso

Os discípulos dessa corporação uníssona chamada grande mídia nunca vão admitir dados de que não houve quebradeira no Brasil depois do governo de FHC e antes do governo de Temer. Nesse viés, nunca vão admitir que o problema dos preços dos combustíveis não é herança do governo petista. Isso não quer dizer o governo do PT não tenha errado — Belo Monte é exemplo de erro grave pelo etnocídio que tem causado. Negar que houve corrupção no governo petista seria burrice, assim como é burrice alegar que a corrupção foi inventada pelo PT ou alegar que não houve corrupção durante a ditadura militar ou negar que não houve corrupção no blindado governo FHC (neste caso, a leitura de A Privataria Tucana esclarece muito).

Como eu já disse, nunca tive ilusão nem pretensão de mudar o pensamento de alguém quando escrevo; isso seria luta mais vã do que as outras lutas vãs com que me envolvo (“lutar com palavras / é a luta mais vã. / Entanto lutamos / mal rompe a manhã”). Sei que os crédulos vão continuar acreditando nas grandes corporações de comunicação, vão continuar dizendo que os governos Lula e de Dilma quebraram o Brasil. Nunca tive a intenção de mudar a ideia de quem pensa assim, pois quem assim pensa não vai mudar de ideia por uma série de questões, que podem até dizer respeito a coisas que não são estritamente da política, como, por exemplo, a falta de um mindinho ou o vestido de alguém.

O assunto em voga é a falta de combustíveis nos postos de gasolina. Por todo o Brasil, donos de postos já deram prova do quanto o brasileiro é “solidário”: ontem, houve “cidadão de bem” que chegou a vender gasolina por R$ 9,99 (https://bit.ly/2x9XCR6). Isso é muito revelador do quanto estamos distantes de construir para nós um país para todos.

Sobre esse problema, recorri a um estudante de economia, que me pediu para ficar no anonimato. Segundo ele, há uma teoria em economia chamada de “questão da utilidade marginal”. Segundo o economista, “a questão da utilidade marginal na hora de determinar os preços é uma teoria econômica que diz que o preço de um bem reflete não o seu custo, mas, sim, o quanto ele é útil naquele momento. Por exemplo: se você está no deserto do Saara e encontra um vendedor de água, na primeira garrafa você está disposto a pagar o preço que ele quiser cobrar porque o bem é extremamente útil pra você naquele momento; na segunda garrafa você já está disposto a pagar um pouco menos, porque já é menos útil pra você, até que chega um momento em que a água é um estorvo e você não está disposto a pagar mais nada, ou até está disposto a pagar para não ter o bem. Essa é uma teoria importante na questão da formação dos preços, que acaba refletindo na questão da lei da oferta e da demanda, e acho que se aplica bem nesses momentos de crise com bens muito úteis, como a gasolina, por exemplo”.

A própria economia admite ainda haver fatores não racionais que devem ser levados em conta: “Ninguém age o tempo todo de forma racional. Inúmeras vezes, agimos por impulso, sem medir as consequências de nossos atos. Outras tantas vezes, agimos por mero hábito, por condicionamento social, porque ‘é assim que sempre se fez’. E, normalmente, mesmo quando procuramos ser racionais, não deixamos de ser influenciados pela cultura e por nossas pulsões (tantas vezes, inconscientes) avessas à racionalização. (...) De forma que o ‘homem econômico racional’ tem que ser tomado como uma construção ideal, e não como uma representação realista da ação humana. O que não significa — insistamos — que esta representação seja inútil”. [1]

É preciso ter em mente que a utilidade marginal ou o argumento de que não somos racionais o tempo todo não são salvo-conduto para os donos de postos de gasolina cobrarem os preços que bem entenderem. Esse ato pode ser ilegal, os postos podem ser denunciados. Sabemos que denúncias desse tipo não dão em nada no Brasil, mas nem por isso temos de aceitar que os postos cobrem dos consumidores o que bem quiserem.

Quando nasci, em 1970, a ditadura militar estava expulsando, torturando ou matando quem dela discordava (por isso mesmo há quem queira a volta do regime militar). O aumento do preço dos combustíveis era anunciado previamente, o que fazia com que os consumidores pegassem os veículos e corressem para os postos de gasolina para encher os tanques antes que o aumento entrasse em vigor. Ontem, indo para o trabalho, pude conferir as filas nos postos da avenida JK, aqui em Patos de Minas, em cena muito parecida com a que eu presenciava com frequência quando menino; à noite, no centro da cidade, mais filas para abastecimento. Tomo a liberdade de tirar a vírgula do “slogan” do Elsinho Mouco, modificando os números dele: o Brasil voltou quarenta anos em dois.

Aproveito para reiterar alguns números, que são públicos, embora escondidos da grande mídia — em especial os dados contidos nos dois primeiros links. O primeiro deles tem uma série de registros que fazem comparação entre os governos FHC e Lula/Dilma; o segundo é sobre o que há embutido no valor dos combustíveis; o terceiro é um contraponto aos dois primeiros.

https://bit.ly/2IHsA4w

https://bit.ly/2xbxKEu

https://bit.ly/2s4UT6o
___________

[1] Paiva, Carlos Águedo Nagel. Noções de economia / Carlos Águedo Nagel Paiva, André Moreira Cunha. Brasília. Fundação Alexandre de Gusmão. 2008. 

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Lex

A lei é para bodos.
A lei é para codos.
A lei é para dodos.
A lei é para godos.
A lei é para lodos.
A lei é para rodos.

A lei é para toldos. 

Apontamento 374

Temer pediu trégua aos caminhoneiros. Ele não a merece porque ele não a dá. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

Fotopoema 416

O que está perturbando Gilbert Grape

Se você tem família, leia What’s eating Gilbert Grape, do escritor Peter Hedges. Salvo engano, o livro não tem edição em português, embora tenha se tornado um filmão, estrelado por Johnny Depp e por Leonardo DiCaprio.

O livro é a história da família Grape; quem a narra é um dos integrantes dela, o Gilbert Grape do título. Só sarcasmo e humor corrosivo para fazer com que ele consiga suportar o dia a dia da família, cujo núcleo central é composto por ele, por duas irmãs, por um irmão que tem problemas mentais e pela mãe deles, a qual nunca sai de casa por ser gorda demais; ela começou a engordar depois do suicídio do marido. Um casal de irmãos que não mora na casa aparece no decorrer do enredo por causa do aniversário de Arnie, o que tem problemas mentais.

Gilbert Grape não suporta somente a casa em que vive. Ele está cansado também de Endora (cujo nome é grafado pelo narrador algumas vezes como ENDora), a pequena cidade em que vive. Gilbert tem vinte e quatro anos; dos integrantes da família, é o mais próximo a Arnie. Somente uma ironia perversa que esconde as frustrações dele e dos demais faz com que o ambiente pareça suportável em meio à vida atribulada e cheia de incidentes o tempo todo.

Sempre há algo espezinhando, sempre há uma discussão, sempre algo dá errado. O cotidiano da família Gilbert cansa; tudo é muito barulhento, nunca há um acordo, uma trégua, um descanso, uma pausa, uma possibilidade de sintonia. A rotina deles asfixia; a atmosfera é pesada, sendo que o peso da mãe é um retrato literal da falta de leveza da família. Ao mesmo tempo, os personagens encarnam os dramas e os fracassos de qualquer família. Por isso mesmo, é incrível o quanto é fácil gostar deles. A escrita de Peter Hedges faz com que os compreendamos em sua humanidade frágil e estraçalhada.

Não é todo dia que se tem a chance de ler um livro como What’s Eating Gilbert Grape. É o tipo de obra que nos modifica, que nos torna maiores, melhores. Somos mais amplos depois de termos lido um grande livro. Ler algo como o que Peter Hedges escreveu é renascer. Hoje à tarde, quando li a última palavra da história, renasci.

Num trecho, o narrador comenta: “Espera-se que seja algo natural, subir as escadas. Não na família Grape — aqui, o simples se torna extraordinário”. De fato, essa coisa de o simples se tornar extraordinário permeia a história. No cotidiano deles, há muito de mágico, de alegórico. O trabalho de Hedges é um poderoso lembrete quanto ao que pode haver de extraordinário na leitura de um livro. 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Visitas

Geisel, Temer... A cidade merece a visita de gente melhor. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Lá vem o Temer para ver o que é que há

Seria muito bom se a população daqui não desse a Temer a chance de ele fazer o que em tese fará depois de pousar em Patos de Minas. Há dias, em São Paulo, ele foi expulso do lugar onde estavam os destroços de um prédio que havia ruído. Creio que o episódio teria descambado para a violência tivesse o presidente insistido em ficar por lá.

Temer não será expulso daqui. Não por não haver pessoas insatisfeitas com ele, mas porque a cidade é pequena. O número de pessoas insatisfeitas — e que estariam dispostas a bolar algo sem violência e com criatividade para impedir a presença temeriana por aqui é pequeno. Em termos percentuais, esse número, suspeito, não variaria muito de um lugar para outro, só que num grande centro esse percentual é o bastante para compor um volume maior do que o que há em cidades pequenas.

Além do mais, em São Paulo, ele foi expulso não por uma ação orquestrada, mas pelo clamor espontâneo dos populares que estavam por perto no momento. A visita a Patos de Minas já foi anunciada. O que vai ficar é o registro dos sabujos. Há deles em todos os lugares, mas em cidades pequenas consegue-se com mais facilidade amplificar a voz dos bajuladores e abafar a dos indignados. 

Expulsá-lo com elegância e com inteligência não seria indelicadeza; “indelicadeza” é o que ele faz quando trabalha. Seria belo se todos o ignorassem em plenitude, mas isso não vai ocorrer. Há quem seja obrigado a participar do teatro e há quem faça questão de subir no palco mesmo sem ter sido convidado. 

E vem a Patos para ver o que é que há

Autor da ideia de levar Temer ao local onde o prédio desabara, em São Paulo: Elsinho Mouco.

Autor da ideia “o Brasil voltou, 20 anos em 2”: Elsinho Mouco.

Autor da ideia de trazer Temer a Patos de Minas: Elsinho Louco? 

quarta-feira, 16 de maio de 2018

À espera

Fazendo o rastreamento no site da transportadora, constato que os exemplares do Anacrônicas, meu livro mais recente, estão em Uberlândia. A gana de tê-los em mãos quase me compele a ir até lá. Quando eu tiver o livro em mãos, digo.

À parte isso, Anacrônicas já pode ser adquirido neste link. 

Terminação

Para o que deseja companhia:
cão.

Para o que pula do prédio:
chão.

Para o que planta:
grão.

Para o que se masturba:
mão.

Para o que não se permite:
não.

Para o que tem fome:
pão.

O que escreve versos:
vão. 

terça-feira, 15 de maio de 2018

Peles

O hábito não faz o monge.
A farda não faz o soldado.
O jaleco não faz o cientista.

A nudez não desfaz o corpo. 

&

Ser e ter:
eis a questão. 

Sobre Tom Wolfe

Ontem, Tom Wolfe, autor do magistral A Fogueira das Vaidades, morreu. Ele foi um dos destaques do chamado Novo Jornalismo, que misturava técnicas romanescas ao texto jornalístico. Na primeira metade da década de 70, ele escreveu que “os repórteres estavam destinados a tornar os romancistas obsoletos”. 

Ele mesmo dedicar-se-ia ao romance como gênero. À parte isso, a “previsão” de que os jornalistas substituíram os romancistas não se cumpriu, nem lá fora nem no Brasil. Além do mais, por aqui, da década de 70 para cá, o jornalismo foi investindo cada vez menos em quem sabe escrever. Os que sabem, nos poucos espaços que têm, não tomaram o lugar dos romancistas, mas se valem de técnicas do dândi Tom Wolfe.