sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
Entrevista sobre Amor de Palavra, meu recente livro
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domingo, 19 de fevereiro de 2017
Pressa
Num tempo em que tudo tem de ser rápido, em que nada pode demandar esforço, qualquer texto de dez linhas já é chamado de textão. Ao se deparar com a disposição das palavras no papel ou na tela, o leitor nem começa a leitura. Há mais o que fazer. No tempo da pressa, o mínimo já é demais. O amor tem de ser feito com pressa, a leitura não pode demandar mais do que alguns segundos, a atenção não pode se concentrar por mais de alguns minutos.
Se não se reserva tempo para se apreciar coisas que demandam algum esforço, nem é preciso dizer que o tempo dedicado a coisas que exigem disciplina por parte de algum criador é buscado por poucos. Nem tanto porque deixam de realizar porque terão público pequeno (eles sabem de antemão que o público será restrito), mas porque há poucos que não caíram na armadilha da rapidez, do conhecimento que vem fácil, da felicidade virtual ou da que vem por meio de fármacos.
O texto tem de ter poucas linhas, os cortes no filme precisam ser rápidos, os diálogos na vida real não podem ser profícuos. Tudo tem de ser rápido, tem de ser palatável. Nada pode dar trabalho, nada pode exigir esforço, nada pode demandar concentração.
A escola, que deveria ser por excelência o espaço do pensamento e da disciplina (não a disciplina militar), acaba se rendendo ao mundo da rapidez e do entretenimento. Em busca de uma linguagem que esteja em sintonia com o que a contemporaneidade tem de perigoso e de prejudicial, a escola, não raro, acaba investindo em estratégias tão superficiais e fugazes quanto as futilidades do mundo da rapidez e da ilusão das coisas fáceis.
Alega-se que o professor que não tiver a habilidade de ser uma espécie de dublê de animador de programa de auditório de consumo fácil nem tiver sempre uma apresentação qualquer (qualquer mesmo) para ser projetada numa parede ou numa lousa branca não fará sucesso. Esse professor, nesse viés, não conseguiria se comunicar com as novas gerações, que estão conectadas, que têm informação nas pontas dos dedos, que têm acesso imediato ao que está do outro lado do mundo.
O caso aqui não é o de compor um manifesto contra a tecnologia e suas praticidades. Isso seria patético. A questão é que, para soar sedutora, a escola, com frequência, acaba embarcando em modismos que, em essência, retiram da pessoa uma das coisas mais poderosas que ela tem, que é a capacidade aprimoramento mental.
Num mundo em que tudo tem a obrigação de ser fácil, agradável, indolor, engraçado, charmoso, sedutor e carismático, professores que não ficam fazendo macaquices em sala de aula têm, amiúde, a competência colocada em dúvida, às vezes a ponto de serem demitidos. Certa vez, numa pós-graduação, um docente teve avaliação ruim por parte dos alunos a partir de critérios que são sintomáticos da contemporaneidade: segundo vaticínio dos discentes, que não eram mais de vinte, o professor era incompetente porque falava baixo, dava aula sentado, não era engraçado e não se valia de eslaides.
Mesmo no ensino superior, o pensamento de que as coisas vêm fáceis e de que devem ser transmitidas com facilidade tem imperado. As pessoas querem rapidez, querem o sucesso agora, não podem dedicar anos de suas vidas ao cultivo de um ideal, de uma habilidade, de um aprendizado, de um livro. Para estar em sintonia com o que é contemporâneo, a rapidez é condição de que não se pode abrir mão. Quem tem uma abordagem que não se pareça com isso estaria obsoleto, retrógrado, sem graça, ranzinza.
O conhecimento não impede o humor, a leveza, o gracejo. Mas não se pode ter medo de mostrar às pessoas que o conhecimento de que essas mesmas pessoas se valem não veio no tempo de uma conversa num aplicativo de celular. Conhecimento e felicidade genuína demandam esforço, disciplina. Nem a escola nem o cinema nem a televisão nem os livros precisam ser caretas, engessados. Mas é preciso não cair na ilusão de que aquele que, em uma hora, deu uma olhadela em trinta páginas na internet, ouviu quinze ou vinte músicas, bateu papo em aplicativos eletrônicos em trinta e três grupos e acompanhou o jogo pela televisão ganhou mais do que aquele que passou esses mesmos sessenta minutos concentrado na leitura de algum livro, ainda que esteja ele carcomido pelas traças.
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Festa da empresa
Quantos são?
Quarenta?
Cinquenta?
Não importa.
Cada um é mais do que o bastante,
mais do que não sabe.
Há risos, piadas, olhares, rusgas encobertas.
Observo os rostos, os gestos, os caminhares,
a fumaça do churrasco, a música, os corpos que,
por enquanto tímidos (ainda não houve álcool o bastante),
querem se libertar: o chefe não está,
e se estivesse, não seria para dar ordens,
ainda que seja o que ele queira (ele sempre quer).
É só a festa da empresa.
Iguais a tantas que ocorrem neste momento
e a todas que já ocorreram.
As quarenta ou cinquenta pessoas são um todo.
Parecem felizes, predispostas à pândega.
Eu escrutino cada um.
Aquele ali ri alto, mas está apreensivo,
pois não sabe se a namorada vai perdoá-lo.
Aquele acabou de chegar com a esposa e com os filhos;
não se cogita que ele preferiria estar em casa descansando.
Aquela outra chegou com o marido e com o filho;
não se supõe que ela gostaria de estar com o amante.
Outro casal vai pegar chope;
não se sabe o quanto estão bem um com o outro.
Mais adiante, lá no canto, o que veste camisa azul
não suporta mais o jeito mandão e asséptico da esposa.
Mais adiante, lá no canto, o que veste camisa azul
não suporta mais o jeito mandão e asséptico da esposa.
Aquela outra se sabe conservadora, mas queria ser diferente.
Aquele outro pensa que precisa deixar o comodismo de lado.
O rapaz de preto se aproxima da chefe pensando em seduzi-la.
Ninguém sabe da paixão que a moça de vermelho nutre pelo
colega de trabalho, que está usando bermuda e camiseta.
Esquadrinho os outros, sabendo-me esquadrinhado.
A festa prossegue.
Ao mesmo tempo em que é um grupo,
com suas leis físicas e pessoais,
é feita de pessoalidades,
com suas leis físicas e pessoais.
Mistura do todo com o que é cada um,
a festa se move, se embebeda,
revela-se, abraça-se, beija-se,
num misto de faz de conta,
confissões e desejos, que,
neste momento da festa,
já são menos velados.
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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
A política de Raduan Nassar
Nenhum escritor tem a obrigação de se engajar politicamente. O único dever de um escritor é escrever bem, por mais vaga que a expressão “escrever bem” possa soar. Há grandes escritores que não se envolveram com questões políticas. Já outros decidem se valer do que dominam — a palavra — para emitir opiniões politizadas.
Foi o que ocorreu recentemente com o genial Raduan Nassar. Na terça-feira, em São Paulo, durante cerimônia em que recebeu o Prêmio Camões de 2016, Nassar, em seu discurso, criticou não somente o golpe empreendido por Temer, mas também algumas das lambanças da gestão golpista.
Depois, em seu discurso, Roberto Freire, ministro da cultura, defendeu o governo de Temer, ao mesmo tempo em que criticou Raduan Nassar. Isso acabou gerando mal-estar durante o evento e protestos na plateia, que por sua vez foi criticada por Freire.
É um alento saber que Raduan Nassar, mesmo tendo abandonado a escrita literária, não se omitiu diante do cenário político do Brasil de hoje. Autor de uma literatura contundente, dono de uma escrita densa e elegante, Nassar deixou claro que suas palavras têm força também ao serem claramente políticas.
_____
Apogeus
Escrever para ti é escrever para o amor.
Tu és o amor que preciso ter nos braços.
Tu vens, teu corpo em minhas mãos.
Não há a melhor versão de mim sem ti.
Eu tenho dois apogeus.
Um deles é quando estou contigo.
Eu te transformo em palavra.
Ela é meu outro apogeu.
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Mais um livro de minha autoria
Dez de março.
Essa é a data de lançamento de meu próximo livro, Amor de palavra. Em breve, detalhes quanto ao local e ao horário.
Vamos?...
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A história por trás da foto (102)
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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Navegantes
Barcos têm leme.
Navegaríamos juntos.
Agora, à deriva,
sabemos que não basta
o arrojo de amar:
a decisão final é do mar.
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domingo, 12 de fevereiro de 2017
Os dois
Viverão o
Cântico dos cânticos,
comporão hinos.
Vão tomar sorvete,
idealizar jantares.
Vão dar presentes
um para o outro.
Inventarão surpresas,
códigos que só os dois
sabem reconhecer.
Herdaram um arcabouço
de tradições e de
inevitáveis clichês.
Não sendo poetas,
viverão poesia.
Inéditos um
para o outro,
revivem séculos
de um amor
que não se cansa,
mesmo sendo
os dois cansáveis.
Não sabem ainda
com clareza que
entre eles há um
amor que começa.
Haverá susto e medo
quando souberem.
Aí já será tarde.
Do amor, já serão
cativos, devotos
e fazedores.
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De cor
Minhas pegadas
têm imagens
e palavras.
O que ficou
é legado.
O coração,
herança
que recebi,
fulminante,
deixando de
repercutir,
fará em mim
e de mim
silêncio.
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“Tudo vai ficar bem”
No passar lento-rápido dos dias, quanto tempo é necessário para que uma pessoa supere uma experiência traumática? É a reflexão feita em “Tudo vai ficar bem” (2015) [Every Thing Will Be Fine], do diretor Wim Wenders. O roteiro é de Bjørn Olaf Johannessen. Logo nas cenas iniciais, o escritor Tomas Eldan (James Franco), dirigindo carro durante nevasca, atropela uma criança.
A partir daí, passamos a acompanhar a vida não só de Tomas Eldan, mas também da mãe do garoto atropelado, do irmão dele, que quase havia também sido atropelado no mesmo acidente, e dos que gravitam em torno de Eldan. Se, por um lado, o tempo se esvai rápido, por outro, a tentativa de superação de um evento radical é algo feito um dia após o outro.
Louvável como “Tudo vai ficar bem” é sem pressa. Isso, todavia, está longe de implicar monotonia. Os cortes não seguem a linguagem de videoclipe ditada por Hollywood. As dores de Eldan e de Kate (Charlotte Gainsbourg), a mãe do garoto atropelado, teimam em não irem embora, fazendo com que o espectador se pergunte se eles vão, por fim, sucumbir. Num curioso paradoxo, o ritmo lento é capaz de gerar momentos de tensão e de suspense, principalmente a partir de quando Christopher (Robert Naylor), o irmão que sobrevivera ao atropelamento, anos depois, entra em contato com Eldan.
A sequência inicial da produção mostra Tomas Eldan num cubículo. A luz que vem de fora e passa por uma janela enche o ambiente de calidez. É instigador observar justamente a incidência da luz natural sobre os personagens, como se ela estivesse, em várias sequências, a sugerir uma metáfora... luminosa, sem contudo definir se o desfecho será de fato reluzente. “Tudo vai ficar bem” é uma bela reflexão sobre o efeito da passagem do tempo nos sentimentos.
sábado, 11 de fevereiro de 2017
A história por trás da foto (101)
No todo, diz-se, da vida, que é preciso tentar fazer o melhor possível a partir do que se tem. O princípio também se aplica quando se fala da vida de modo mais específico, quando se fala do que é derivado da vida, do que é consequência ou desdobramento dela. Fotografar a natureza é uma das coisas da vida. Nessa específica ação, vale o princípio geral de que é preciso tentar fazer o melhor possível com o que se tem.
Hoje pela manhã, tendo saído com amigos para fotografar o cerrado, comentamos que as condições climáticas poderiam não ser as ideais. Durante todo trajeto, a chuva se insinuou (nos poucos minutos em que caiu, veio tão discreta que mal nos demos conta dela). O tempo estava nublado; mencionamos que um céu bem azul poderia compor um belo fundo em boa parte das fotos.
À parte isso, não há falta de razão em dizer que há beleza num dia cinza ou nublado. Não bastasse isso, dependendo do tipo de foto que se faz, é exatamente a atmosfera acinzentada que pode conferir ao registro uma luz mais suave, menos “dura”.
Enquanto eu tirava a foto desta postagem, pensei que num cenário ideal haveria um céu bem azul compondo o fundo. A manhã estava tão nublada que demorei mais do que o usual para focalizar a ave. Outra dificuldade foi a de que o Sol estava por detrás da seriema, ainda que já mais afastado do horizonte; quando há contraluz, o registro se torna um pouco mais melindroso.
Tendo conseguido o foco, fiz alguns cliques. Naturalmente, não se conta com a colaboração dos modelos. Como a todo instante olham para diferentes direções, como mexem o corpo a todo momento, nada mais comum do que fotos ruins. Mesmo assim, pensando-se de modo geral ou de modo específico, fazer o melhor a partir do que se tem. Gostei da imagem.
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Fotopoema 403
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Dia no cerrado
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Sem amor
Embora o amor carnal e seus desdobramentos seja temática em grande parte da literatura, ele não é imprescindível para que haja um grande livro. Penso em “Viagens de Gulliver” e em “Moby Dick”. Ainda que se alegue que em “Moby Dick”, logo no começo da história, tenha havido contato físico entre o narrador e o personagem Quiqueg, o que houve na estalagem não foi a edificação de uma relação amorosa no sentido de se construir algo ao longo do tempo. Foi uma cena no enredo; mesmo tendo sido uma cena que suscite dúvidas e cogitações, isso não faz com que o livro tenha um enredo romântico, não importa o sentido que se dê ao termo “romântico”. “Viagens de Gulliver”, com sua galhofa amarga, e “Moby Dick”, com sua elevada cogitação metafísica, são obras destituídas de amor.
A poeta que (não) é
Se num dia
a poeta de
alguns versos
se descobrir
capaz de muitos,
haverá poesia muita.
Que num dia
ela se espante consigo.
Tendo acordado,
vai despertar
nos outros
a vontade de
poesia.
Que a poeta
ache em si
desejos
de versos,
diversos.
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Urbano
Engarrafamento.
Os homens começam
a buzinar.
Os carros,
incomodados pelo barulho,
empacam.
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Marisa Letícia
O Borges (ou, talvez, o Jung — ou ambos) escreveu que quando um ser humano morre, toda a humanidade perde. Li isso em minha adolescência. O ensinamento ficou.
Eu não saberia dizer com exatidão para que serve a literatura (ou a leitura). Já escrevi que eu seria pior sem a literatura. Sou melhor quando leio. A literatura faz com que eu busque o humano em mim e no outro. Isso já é mais do que o bastante para que eu leia.
O que leio, leio para me humanizar. A leitura, por si, não implica por parte do leitor a empatia pelo outro (um torturador pode ser um leitor ávido). E não é preciso ser um leitor para se compreender a dor do próximo.
Não há como eu saber o que eu teria sido sem a leitura. Sou fruto de muita coisa de que nem tenho ciência; dentre as coisas de que tenho, sou fruto do que leio. Também a literatura robusteceu em mim o senso de compaixão.
Aquém
Não sei se o corpo transcende.
Não sei se existe para dar ideia
de um mundo elevado.
Coisas que não cogito.
Quando há pele,
sou superficial.
Tive vislumbres de teu corpo.
Com ele, eu quis compor enredo.
A história não ocorrida,
eu a sinto em cada célula.
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terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Os bastidores de um texto
Sempre tive fascínio pela feitura das coisas. Por isso é que gosto tanto de conferir como filmes são rodados. Gosto de conhecer os bastidores de como as coisas são produzidas. Revelar como se faz o truque não tira o encanto da mágica. Algo similar vale para a literatura. É bom demais conferir fac-símiles com correções feitas pelos autores. É sempre revelador e instigante cotejar o rascunho com o original.
Eu sempre tive vontade de registrar toda a feitura de algum texto meu, desde quando a primeira letra é digitada; contudo, padeço de uma preguiça congênita, imensa e vergonhosa. Essa preguiça ou faz com que eu fique adiando as coisas ou com que eu nem as realize — o que é comum.
Ontem, escrevi um poema à mão, o que eu não fazia há muito tempo. Hoje em dia, ou escrevo o texto no bloco de notas do celular ou o digito no computador. O celular estava ao alcance das mãos, mas como havia um caderno e uma caneta à disposição, escrevi o poema usando uma caneta.
De antemão, costumo definir a temática. Parece meio óbvio, mas tenho de deixar bem claro para mim a temática do que ainda nem começou a ser escrito. No caso de ontem, a ideia era escrever um poema sobre o astral que há depois do amor feito. Ao começar a escrever o texto, escolhi o começo “o corpo, / há pouco lancinante, / descansa malemolente” (gosto do adjetivo “malemolente”, não somente pelo significado, mas também por achá-lo uma palavra gostosa de ser pronunciada).
Assim que terminei de escrever “malemolente”, ocorreu-me “sensação de amor cumprido”. Para não me esquecer do trecho, que acabaria não entrando na versão final, por eu achar que ele transmite a sensação de que o amor seria um dever, uma obrigação, eu o anotei à parte, linhas abaixo.
Terminado o verso “e no outro”, que também não entraria na versão final, por eu considerá-lo redundante, já que gozar para o outro pode implicar gozar no outro, tive vontade de reelaborar o trecho “o corpo, / há pouco lancinante, / descansa malemolente”. Em vez de mantê-lo na abertura do poema, eu o reescrevi no “meio” do texto. É claro que esse gozar no outro pode não valer no caso da masturbação, por exemplo, mas ainda assim, optei por não inserir o verso “e no outro” na versão definitiva.
(Escrevi “versão definitiva”. Talvez seja válido lembrar que um texto poderia ser reescrito ou corrigido diversas vezes, até a ponto de ficar bem diferente do que era em seu esboço original. Todavia, nunca fui de modificar radicalmente os esboços que tenho. Não é exagero quando dizem que um texto nunca está terminado.)
A seguir, era minha intenção fazer referência ao nirvana. A princípio, escrevi “nirvanicamente”, que é a palavra sobre a qual há um rabisco, depois de “curtindo”. Só que o advérbio “nirvanicamente” rima com “malemolente”, o que não me agradou. Para fugir da rima, escolhi “íntimo do nirvana”.
Ao encerrar o rascunho, usei o trecho “sensação de amor cumprido”, que estava de molho, terminando assim uma versão preliminar do texto. Quando essa versão inicial é terminada, releio o que produzi. Caso essa releitura traga alguma insatisfação, tento consertar o já escrito. Se não consigo, eu geralmente deleto o trabalho. Na releitura, como o trecho “sensação de amor cumprido” não me agradou, pela razão já explicada, na hora de digitar o texto, eu o substituí pelo que está na versão definitiva.
Como escrevo textos curtos, esse meu trabalho de revisar e de corrigir é rápido, não demanda grandes esforços. Por fim, digo que minha caligrafia, embora nunca tenha sido das melhores, não é tão ruim quanto a que está no rascunho. As linhas foram rabiscadas enquanto eu estava em minha cama. Se o caderno estivesse sobre uma mesa, estando eu numa cadeira, a caligrafia estaria um pouco melhor.
Escrever é algo ligado a preferências, a idiossincrasias. Há deliberações, mas não se pode esquecer de que há muito de inconsciente na produção de um texto. Sempre encarei a produção literária como um ato, em sua conclusão, racional. Isso, vale lembrar, não significa dizer que eu não tenha ciência do papel do inconsciente, da intuição ou de quaisquer outras coisas não ligadas à razão.
Só que de nada valeria a intuição, a imaginação ou o inconsciente por si mesmos. Razão e imaginação estão presentes no trabalho literário numa via de mão dupla, de modo que uma auxilia a outra, a ponto de ser difícil precisar o que é fruto da razão e o que é fruto da imaginação, o que, além do mais, seria inútil, seria fatiar o que deveria ser encarado como um todo, desde antes da feitura até o ponto em que o texto está pronto.
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
Inefável
Há instantes,
afeito a buscar
os deslimites de si mesmo,
o corpo explodiu
para si e
para o outro.
Há pouco,
lancinante e selvagem;
agora, malemolente,
descansa,
curtindo,
íntimo do nirvana,
o amor gozado.
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Causa mortis
Meu amor,
não me seduz,
esse negócio de
morrer de amor.
O que vale mesmo a pena
é morrer amando.
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Sobre fotografar animais silvestres
Eu já disse em outras ocasiões que o fotógrafo de natureza acaba se tornando uma espécie de etólogo amador (a etologia estuda o comportamento dos animais). Alguns exemplos: onde se avista um anu (não se importa se branco ou se preto), mais anus certamente estão na área, pois são aves gregárias, convivem em bandos; os tucanos têm hábitos mais ou menos definidos, o que quer dizer que se num dia são avistados em determinada hora e em determinado lugar, por certo serão avistados no mesmo lugar e na mesma hora no dia seguinte; a coruja-buraqueira pode ser facilmente achada em descampados; na região de Patos de Minas, tesourinhas podem ser avistadas em setembro...
Mas, é claro, há muito de imprevisível nessa história toda. Foram diversas as vezes em que saí para fotografar determinada espécie, mas acabei fotografando outra. Conhecer os hábitos dos animais ajuda muito, mas não garante os registros. Com relação à sorte, eu não saberia dizer até que ponto ela influencia a fotografia de animais ao ar livre. Seria inconsequente eu dizer que a sorte nunca interfere; todavia, asseguro que na maioria das vezes, uma foto que, para o leigo, parece questão de sorte, é, na verdade, fruto de centenas de cliques e de muita paciência, além de um olhar atento para a natureza. Quando se trata de registros profissionais de seres silvestres ao ar livre, não há sorte de principiante. Se houver sorte, é sorte de quem tem na bagagem milhares de cliques.
Registros profissionais não ocorrem sem paciência nem sem técnica. É preciso saber esperar. As horas de toda a manhã podem não propiciar foto alguma, mas quando volto para casa nem que seja com pelo menos uma boa foto, a saída fotográfica terá valido a pena. E mesmo que não haja sequer um registro satisfatório, o fotógrafo de animas silvestres sabe que esse tipo de fotografia quase nunca oferece condições de fazer registros em profusão. Por isso mesmo, quando a oportunidade surge, é preciso pensar e agir rápido, pois não se pode contar com a colaboração dos modelos.
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
Regalo
Aceita este poema.
Ele é teu porque graças a ti
cheguei a muitas palavras.
Existiram porque existes.
Das coisas que me causas,
tu me causas textos.
Quando sou texto, sou.
Em nome das palavras
que de ti vieram,
aceita este poema.
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Tunguska
O que vem do céu deixa marcas na pele.
Os corpos viajam no espaço.
Um dia se encontram.
Corpos de naturezas diferentes,
não sabem o que um causará no outro.
O que vem do espaço não sabe
o que nos causará.
Nossa casa voltará a ser atingida
(quase sempre é).
Se estivermos aqui,
poderemos não estar depois do impacto.
Olhamos para estrelas.
Não nos esqueçamos
de que do céu não recebemos
nem bênçãos nem maldições.
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Tunguska
Doria, o mimado
Mimado pela grande mídia, Doria tem se mostrado uma contrafação, um showman populista e kitsch. Será um sucesso.
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Conto 90
No afã de transarem, Abigail e Lucas entraram correndo na casa dele. Mal acenderam a luz da sala, foram para o quarto, onde, a princípio, ficaram no escuro. Estavam loucos e prontos para estripulias. Foi quando Lucas perdeu por um segundo a noção espacial. Ao ajeitar o corpo, bateu a testa na afiada quina da cabeceira da cama. Proferiu imprecações, amaldiçoou deuses. O galo somente não ficou pior graças ao gelo que Abigail aplicou. Foi quando ela sentiu muita vontade de cuidar de Lucas. Quis abraçá-lo, fazer com que ele ficasse bem. Ao não fazer amor com Lucas pela primeira vez, Abigail começava a amá-lo.
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Campos de morango para sempre
“Viver é fácil com os olhos fechados” [Vivir es fácil con
los ojos cerrados], de 2013, do diretor David Trueba (que também escreveu o
roteiro), conta a história de um professor de inglês espanhol que parte em
viagem para conhecer John Lennon, que, na trama do filme, estava como ator, na
Espanha, participando de uma produção para o cinema. A película já cativa na
primeira sequência, em que Antonio, o professor de inglês, interpretado por
Javier Cámara, está debatendo com seus alunos a letra de “Help”, dos Beatles.
Em sua viagem para conhecer Lennon, Antonio dá carona para
Belén (Natalia de Molina) e Juanjo (Francesc Colomer). A princípio, Antonio não
sabe que eles, embora não se conhecessem antes de Antonio lhes oferecer carona,
estão fugindo de suas famílias. Juanjo, por não mais aturar as arbitrariedades
obtusas do pai; Belén, por estar grávida e querer esconder o fato da família.
A história se passa em 1966. Enquanto estão dentro do carro
de Antonio, os três personagens vão se conhecendo. Quando chegam ao sítio de
locação do filme de que John Lennon participa, Antonio, Belén e Juanjo já estão
mais à vontade uns com os outros. Nesse ponto do enredo, enquanto ficamos nos
perguntando se Antonio vai mesmo ter a oportunidade de se encontrar com Lennon,
ao mesmo tempo vamos acompanhando as emoções que vão aflorando com a
convivência dos três na pequena localidade que fica próxima ao local onde estão
ocorrendo as filmagens da produção de que John Lennon participa.
“Viver é fácil com os olhos fechados” faz parte daquela linhagem de filmes sem grandes pretensões. Não tem a intenção de mudar o mundo nem de deixar uma grande mensagem, seja lá o que isso for. É um filme simples, um tributo à música (em especial a dos Beatles) e à amizade, sem deixar de roçar as agruras da adolescência. E em caso de conferir o filme, não deixe de assistir à cena final, que somente surge após os créditos. Atente-se também para os morangos, sejam os que são consumidos, sejam os que estão plantados.
“Viver é fácil com os olhos fechados” faz parte daquela linhagem de filmes sem grandes pretensões. Não tem a intenção de mudar o mundo nem de deixar uma grande mensagem, seja lá o que isso for. É um filme simples, um tributo à música (em especial a dos Beatles) e à amizade, sem deixar de roçar as agruras da adolescência. E em caso de conferir o filme, não deixe de assistir à cena final, que somente surge após os créditos. Atente-se também para os morangos, sejam os que são consumidos, sejam os que estão plantados.
sábado, 21 de janeiro de 2017
Raduan Nassar na revista The New Yorker
A sempre imprescindível revista The New Yorker publicou em seu site matéria sobre Raduan Nassar, autor de “Lavoura arcaica”, “Um copo de cólera” e “Menina a caminho”. Quando se fala no escritor, é inevitável que se fale sobre as curtas e geniais obras-primas “Lavoura arcaica” e “Um copo de cólera”, bem como é inevitável que se fale da decisão de Nassar de não mais escrever.
A New Yorker não é exceção. Ao mesmo tempo em que Alejandro Chacoff, autor da matéria, elogia o texto denso e enxuto do escritor, o artigo joga luz sobre o que Nassar tem feito depois de abandonar a carreira literária — vem se dedicando a atividades agrárias, cuidando de fazenda que tem no interior de São Paulo.
A questão política também é abordada no texto da New Yorker. Mencionam o fato de Raduan Nassar ser contra o golpe de Temer e o fato de ele recentemente ter doado terreno para a Universidade de São Carlos. Esse episódio levou a uma rara aparição pública do escritor. A matéria da revista pode ser conferida neste link.
Conto 89
Há dois anos, Jana estava se prometendo iniciar uma fase de leituras sobre filosofias do oriente. Enquanto seguia sem abrir página alguma, frequentava as aulas de Josué, que era dado a práticas que dizia serem orientais. Ele atraía vários pupilos. Jana, por sua vez, quase achou estranho ao ficar sabendo que seu guru era desonesto com os funcionários que tinha e que não dava a menor atenção para a mãe dele, que morava num asilo.
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Entrevista para livro sobre fotografia
Em 2015, os estudantes do então quinto período de letras do Unipam, sob a coordenação do professor Geovane Fernandes Caixeta, fizeram um projeto voltado para a fotografia. Dessa ideia, nasceu o livro “Patos de Minas retratada: seu espaço, seu povo, sua cultura”.
O livro contém entrevistas com fotógrafos locais. Camila Andrade, que na época era aluna do curso de letras, entrou em contato comigo para que eu fosse um dos entrevistados. Abaixo, o que respondi. As perguntas me haviam sido enviadas por e-mail.
_____
1) Para você, qual é a importância da fotografia?
Penso, a princípio, numa importância individual, no sentido de o sujeito supor que tem o talento para fotografar — e, a partir daí, investir, seja em conhecimento, seja em equipamentos. Dito de outro modo: a fotografia pode ser a felicidade de uma pessoa. Contudo, há a importância social da fotografia, não importa a temática registrada. A fotografia é um outro modo de se contar uma história. Como possibilidade de registro histórico, ela, a fotografia, não vale nem mais nem menos do que outros registros, do que outras mídias. A fotografia é um jeito de contarmos que estivemos aqui e que fizemos algo. É um jeito de contar para o outro um pouco das complexidades do mundo.
2) O que não pode faltar em uma fotografia?
Não pode faltar (ou não deveria faltar) a vontade real de se ter uma boa fotografia, não importa o equipamento que se use. Com as facilidades tecnológicas e com as redes sociais, a fotografia se popularizou, o que é bom. Contudo, a fotografia é algo maior do que registros do que pessoas fizeram num fim de semana; ela é isso também, mas é mais. Nesse sentido, o que não pode faltar numa fotografia, reitero, é o desejo genuíno de se ter um bom registro. No caso de o fotógrafo ser profissional, a técnica ajuda na realização desse desejo.
3) Quais os requisitos para um ingressante se tornar um profissional reconhecido?
Eu não saberia dizer que requisitos são necessários para se tornar um profissional reconhecido. Há muita gente muito talentosa que não é reconhecida. À parte isso, eu poderia arriscar alguns requisitos para que a pessoa seja profissional: dedicação, estudo, teoria e prática; dito assim, parece fácil, mas a linguagem fotográfica é por demais plena de possibilidades. Vejo o fotógrafo profissional como alguém que domina a técnica, mas cujas fotos não são “frias”, destituídas de um elemento que pode ser chamado de espontâneo, de natural ou de algo similar.
4) Que momento(s) na vida de uma pessoa não pode(m) passar sem ser fotografado(s)?
Sem a menor intenção de querer soar exagerado, digo: todos os momentos da vida de uma pessoa mereceriam um registro fotográfico. Obviamente, é impossível haver isso na prática. Desse modo, cabe a cada um decidir o que merece ser fotografado. Não há uma “receita” universal sobre quais momentos não podem deixar de ser registrados.
5) Que fotografia ainda não fez e que gostaria de fazer?
Eu gostaria de fotografar uma mulher adulta, madura, produzida como se fosse receber o Prêmio Nobel. Só que o ambiente em que eu a fotografaria nada teria de sofisticado: eu gostaria de fazer os registros nos bares dos bairros da cidade — de preferência aqueles bares que têm mesa de sinuca e garrafas de pinga na prateleira de madeira.
6) Que tipo de fotografia desafia um profissional?
Novamente, penso não haver uma resposta universal. Penso haver dois tipos de desafio quando o assunto é fotografia: um deles é a foto que ainda não foi feita, mas que o fotógrafo suspeita de que conseguiria fazer; o outro é fotografar algo que fuja da temática geralmente feita pelo profissional. Em meu caso, fotografar animais selvagens nas savanas da África seria o primeiro tipo de desafio; já fotografar modelos em estúdio pertenceria ao segundo tipo.
7) Como você vê a influência da tecnologia na área da fotografia?
Não é raro escutar que a tecnologia, em especial o celular, teria banalizado a fotografia. O que às vezes chamam de banalização, prefiro, sem eufemismo, chamar de popularização. Não encaro a popularização da fotografia como algo ruim. O sujeito que leva a fotografia a sério, se tem em mãos, digamos, um celular qualquer, ainda assim tentará fazer o melhor registro, caprichando, por exemplo, na composição. E se o sujeito tem um equipamento digital que tenha recursos, é preciso lembrar que a essência da fotografia não mudou. Dito de outro modo: as técnicas relativas à abertura e à velocidade são as mesmas desde sempre. A tecnologia influencia ao facilitar, ao tornar mais prático, mas ela, em si, não substitui o talento.
8) Qual a sua opinião sobre fotografia em Patos de Minas?
Levando-se em conta o tamanho da cidade, que é pequena, há um belo número de excelentes fotógrafos, dos quais alguns são jovens. Isso é ótimo. Além do mais, há muita gente que não vive da fotografia mas que tem feito excelentes trabalhos.
9) Você gosta de se fotografar e de ser fotografado?
Não gosto de me fotografar, não gosto de ser fotografado. Sou feio para essas coisas.
10) Conte uma história que o marcou relacionada a uma de suas fotografias.
São várias; muitas delas estão em meu blogue. Neste momento, lembrei-me de uma foto que tirei certa vez de um porco-espinho; a rigor, pude tirar várias fotos dele. Os registros foram feitos no Bairro Copacabana, aqui em Patos de Minas. Na época, houve uma enchente, não sei se do Rio Paranaíba ou se de um córrego que há nas proximidades do Copacabana. O que importa é que, devido à enchente, animais que ficavam mais afastados da cidade acabaram sendo trazidos para perto da área urbana. Estando de moto, reparando no ambiente, olhei para uma árvore e pensei avistar um ninho ou algo assim; chegando mais perto, dei-me conta de que se tratava de um porco-espinho. Enquanto eu o fotograva, fui abordado por uma patrulha da Polícia Militar. Quando desceram, ameaçaram-me; quando perceberam que eu estava fotografando, acalmaram-se — de longe, haviam pensado que minha câmera, com uma longa lente nela acoplada, fosse uma arma; de longe, supuseram que eu estava atirando no porco-espinho.
Apontamento 360
Não basta queimar incenso para ser místico.
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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017
Apontamento 359
Há belezas que são óbvias. Mesmo assim, folhas no chão ou uma cachoeira têm a mesma importância para as artes plásticas; a vida de um vendedor de pipoca se presta à literatura tanto quanto a de um presidente de alguma república. Não há hierarquias na arte, não há um assunto melhor do que o outro, não há uma temática superior à outra. Tanto a bondade quanto a maldade podem ser materiais para o artista. Não há desimportâncias para a arte.
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Matemática de nós
Eu + você = nós.
Nó + nó = nós.
Que o segundo verso se desate.
Que sejamos o primeiro verso.
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O peregrino
O destino: Romaria.
A pé, a fé.
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Jogo de palavras
Sempre quis fazer
um trocadilho decente
com a palavra "deleite".
Não tendo conseguido,
eu a tomei com café.
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Despertar
Estou bem.
Não há
nova leitura,
nova canção,
nova comida,
nova amizade.
Há um novo dia.
Bem assim.
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Processo
Não há mecanismo
lógico nem industrial
para se chegar à poesia.
Não sei se há engrenagem
para que ela se achegue.
Mas sei de muita coisa
que a faz ir embora.
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A cabeça de um neurocirurgião
Relatos médicos, quando não técnicos demais, sempre me interessaram. Que eu me lembre, o primeiro livro que li supostamente escrito por um médico foi o “Confissões de um ginecologista”, que consegui, na década de 80, numa biblioteca pública local. Uma pesquisa rápida na internet me revela que o livro é de 1972; foi publicado, sem o nome do autor na capa, pela Record.
Sempre interessado na questão médica, e em especial na relação médico-paciente, acabei chegando aos livros do Oliver Sacks (1933-2015), os quais sempre recomendo com entusiasmo. Também já escrevi alguns textos sobre a falta de humanidade de alguns médicos, que tratam os pacientes como se fossem somente números.
Seguindo meu interesse nessa área, terminei de ler “Sem causar mal” [Do no harm], do neurocirurgião inglês Henry Marsh. A tradução é de Ivar Panazzolo Júnior; o livro foi publicado pela nVersos. Num estilo direto, sem delongas, Marsh narra casos com que teve de lidar como médico.
É espantosa a coragem com que o autor conta os fracassos que teve ao longo de sua profissão. Não nos esqueçamos de que fracassar, no caso de um neurocirurgião, pode implicar danos sérios para o resto da vida de um paciente. Há erros retumbantes. Num deles, o caso de um paciente que ficou em estado vegetativo depois de ter sido submetido a uma cirurgia realizada por Marsh.
Como todo grande livro, terminada a leitura, o que há um retrato multiforme e difícil da condição humana. Um médico se desnuda, confessa seus erros; o que surge é a complexidade que é essa coisa de ser gente. Os relatos são secos, duros. Marsh não pede ao leitor que tenha comiseração dele nem se vale de autopiedade. Ele conta os casos.
Não bastasse, relata os problemas pelos quais passou nas vezes em que foi paciente e quando teve de assistir à morte da mãe, a qual não resistiu a um câncer que teve. Sem se meter a análises transcendentais acerca da condição humana, o livro, nem por isso, deixa de apresentar o quanto ser gente é complicado. E ser gente quando se está doente, mais ainda. Este é um dos pontos altos da obra: sem cogitar teorias sobre o pós-morte, leva-nos a uma reflexão sobre o que é viver, sem conclusões definitivas e sem receitas fáceis.
Enquanto acompanhamos as ruminações feitas pelo médico, não raro enquanto ele está pedalando sua bicicleta, meio de que muito se vale ao ir para o trabalho, realizamos nós a reflexão do que estamos fazendo de nossas vidas e do que é nosso cérebro. Ao mesmo tempo, Marsh não deixa de apresentar a funesta burocracia de sempre, que contaminou também o sistema de saúde.
O livro é um monumento. A sinceridade com que Henry Marsh narra seus fracassos é espantosa. Não há eufemismos, não há delongas, o que ainda faz com que “Sem causar mal” seja uma aula de estilística, ao contar, indo direto ao ponto, sem truques manjados, a difícil tarefa de ser um neurocirurgião. Mesmo não sendo intenção dele, o livro é uma aula de como narrar. “Sem causar mal”, embora trate muito de morte ou de pesadas sequelas de que ficaram padecendo vários dos pacientes do autor, é sobre a força da vida.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
Antirrugas
Havia lido que
rir demais causa rugas.
Desde então,
vestiu seriedade forjada.
A pele ficou lisinha, lisinha,
mas sem graça.
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Polímata
Das 7h às 17h,
emprego burocrático.
Ninguém sabe que
ele começa a viver é
depois que sai do trabalho.
Em casa, pode estar
pintando um quadro,
revolucionando a física
ou compondo uma canção.
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Pensamento
Enquanto estiveres passando batom,
estarei pensando em ti.
O mesmo enquanto estiveres
no horizonte.
Estarei pensando em ti
no desembarque e enquanto
estiveres acima das nuvens.
Estarei pensando em ti
enquanto estiveres descansando
e enquanto estiveres na academia.
Enquanto sonhas,
estarei pensando em ti.
Enquanto lês este texto,
não importa se
pela vez primeira
ou se pela terceira vez,
estarei pensando em ti.
Enquanto
brincas com um cão,
preparas uma salada,
escreves um poema,
tiras um cochilo,
diriges teu carro,
atravessas as ruas,
apanhas a caneta no chão,
sonhas em vão,
devaneias em sim,
vais ao açougue,
tomas café,
estarei pensando em ti.
O sonho que tenho contigo
é meu jeito de pensar em ti
enquanto durmo.
Somente não estaria
pensando em ti
se houvesse como
não pensar em ti.
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