quinta-feira, 26 de maio de 2016

Tito e os anus-pretos

Ontem, no fim de tarde, eu estava brincando com o Tito, meu cachorro. Ele é feliz quando está às voltas com uma miniatura de pneu de trator. Jogo esse pneu para longe. Ele corre para buscá-lo e o traz de volta para mim, para que eu volte a jogá-lo. Se dependesse do Tito, ele ficaria nesse vaivém o dia inteiro (isso não é uma hipérbole).

Ele nada gostou quando interrompi a brincadeira e vim correndo para dentro de casa. O motivo da interrupção foi o casal da foto, que estava num fio que passa bem à frente à casa do vizinho aqui do lado. Quando me deparei com os anus-pretos, peguei a câmera e comecei a fotografá-los. O Tito, sem nada entender, ficou pulando em mim, querendo retomar a brincadeira que tanto o alegra.

Ainda no visor da câmera, mostrei algumas fotos do casal para ele, que não se sensibilizou pela troca de carícias dos anus. Feliz mesmo ele ficou quando voltei a jogar para longe o pneu. 

Caminhos do cerrado

terça-feira, 24 de maio de 2016

Falta 1

Tínhamos em casa um jogo que fazia sucesso antigamente, chamado Resta 1. Por sua natureza, é o tipo de jogo que interessa enquanto não é domado. Depois que se aprende a deixar uma única peça no centro do jogo, ele perde a graça. Meu pai e eu aprendemos. Não me lembro de quem aprendeu primeiro. De qualquer modo, devemos ter feito alguma espécie de acordo, pois não ensinei para ele nem ele para mim como cumprir o proposto segundo as regras do jogo.

Quando eu já havia treinado muito, passei a levar a brincadeira para a escola, exibindo para os colegas de sala as habilidades que eu tinha ao lidar com o Resta 1. Não satisfeito, treinei o jogo com olhos fechados, guiando-me apenas pelo tato. Como os movimentos já estavam todos memorizados, não foi difícil manejar as peças do Resta 1 mesmo sem enxergá-lo.

O jogo que havia aqui em casa tinha apoio branco para as peças. Elas eram vermelhas. Para que se encaixassem nos buracos, tinham a base mais estreita do que o corpo. Essa base tinha um pequeno buraco ou furo. Quando eu não estava manejando o Resta 1, eu gostava de pegar uma peça vermelha qualquer e colocá-la na boca. O pequeno buraco ou furo permitia à peça grudar na ponta da língua, por intermédio de sucção. Para um menino cujas obrigações e preocupações eram mínimas, isso era diversão. Uma de minhas brincadeiras era exibir a peça vermelha grudada na ponta da língua, que eu fazia questão, nessas ocasiões, de esticar o máximo que podia. Não para meu pai.

Houve um dia em que ele chegou do trabalho e realizou seu ritual: tirava sapatos, calçava chinelos, vestia roupa confortável e pegava a caixa do Resta 1. Só que estava faltando uma peça. Como só eu e ele manejávamos o conjunto, foi natural que ele me perguntasse se eu sabia onde a tal da peça estava. Com a voz mais firme que pude, mas tentando soar natural, sem exageros, eu disse que não sabia o paradeiro da peça. A rigor, ela não era necessária, pois era preciso retirar uma das peças para que a brincadeira começasse. Contudo, o que importava não era isso; o que era importante era achar o membro faltante.

Eu, meu irmão e minha mãe fomos acionados. Retiramos móveis de lugar, vasculhamos cantos e recantos; minha mãe, com uma vassoura, varria cada reentrância da casa. Eu tentava ser o melhor que conseguisse, fingindo me esforçar, mas sempre tomando cuidado para não exagerar, a fim de convencer os demais de meu empenho em achar a danadinha. Resignado, meu pai anunciou que não haveria mais buscas. Ele nunca soube o destino da peça. Nem haveria como ele saber — eu a engolira.
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Caso queira jogar Resta 1 via internet, basta clicar aqui

domingo, 22 de maio de 2016

Dia de feira














Hoje, tive meu dia de Arcimboldo. Sempre que ia a um supermercado ou a uma feira, eu me arrependia de não levar minha câmera, por sempre ter tido a intenção de fotografar frutas e legumes. Mais cedo, concretizei a intenção.

As fotos foram feitas com uma lente 50mm. A abertura em todas as imagens foi F/1.8. Não usei “flash”. 

sábado, 21 de maio de 2016

Maria e seu filho

Maria moça dá à luz.
Maria jovem dá à luz.

O que vão construir a partir do parto de Maria não é culpa dela.
O que farão com o filho dela quando ele crescer não é culpa dela.

O que farão com o nome dela não é culpa dela. 

Apontamento 330

Tenho certa dificuldade em separar o trivial do épico. Não que eu não enxergue diferença entre eles. Todavia, a separação que faço deles é muito mais a partir de uma convenção herdada do que a partir do que há em mim. Há uma “miopia” em mim que me impede de separar o grandioso do banal.

Não que isso ocorra por eu subvalorizar o épico; sei reconhecê-lo. Dependendo das circunstâncias, eu me emociono com tudo aquilo que a grandiosidade é capaz de causar, seja na vida, seja na arte. Talvez o que eu faça é sobrevalorizar o trivial. Não a ponto de eu igualá-lo ao épico, pois estão em contextos diferentes, mas a ponto de inseri-los num mesmo nível, lado a lado, não havendo um que esteja mais abaixo ou mais acima do outro.

O que há, é a mania que tenho de insistir que existe algo muito significativo na aparente trivialidade que é a tônica da maioria de nossos dias. Os momentos grandiosos nas vidas das maiorias das pessoas são poucos. Pode ser que essa minha insistência em elevar o banal a um patamar que ele não deveria ocupar seja uma recusa inconsciente de minha parte em aceitar a monotonia e a chatice que talvez sejam o imperativo de boa parte das vidas. 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Professor Luís André Nepomuceno ministrará curso

Vem aí mais um curso de extensão ministrado pelo professor Luís André Nepomuceno — O Decameron de Giovanni Boccaccio. Vai ser nos dias 4 e 18 de junho. Não é preciso ser aluno do Unipam para participar. Bora nessa?

Fotopoema 390

quarta-feira, 18 de maio de 2016

O jogo sujo dos torcedores

Considerada unicamente em si mesma, uma partida de futebol pode ser um dos mais emocionantes espetáculos que o homem é capaz de criar. Partidas desse naipe são raras, mas, quando ocorrem, deixam no coração marcas indeléveis. Se consideradas unicamente em si mesmas.

Quando se leva em conta os bastidores do que é uma grande produção, não raro depara-se com o que há de mesquinho, de corrupto ou de selvagem em nossa natureza. Com o futebol, não seria diferente. Se dentro das quatro linhas ele é mais um esporte, fora delas, há um tecido social, apaixonado e — não raro — tolo.

A prática não é só brasileira; sei que é sul-americana. Pode ser que ocorra do outro lado do Atlântico: quando um time vai jogar fora de casa, torcedores da equipe local atrapalham o sono do adversário, geralmente soltando fogos de artifício. Na madrugada que passou, foi assim lá em Belo Horizonte, onde torcedores do Atlético se dedicaram a atrapalhar o sono do time do São Paulo (os dois se enfrentam logo mais pela Libertadores). Nessas ocasiões, as torcidas geralmente se valem de gritarias e de fogos de artifício.

Há vídeos circulando no WhatsApp. Num deles, em meio a fogos que riscam o céu escuro, um torcedor diz: “Dorme, Bambi, filha da p... Quero ver cê jogar amanhã, Ganso”. Em outro vídeo, morador nas proximidades do hotel em que o time do São Paulo está abre a janela de seu apartamento e comenta que já passava da meia-noite e que os torcedores do Atlético é que estavam soltando foguetes perto do hotel. O morador arremata: “Tática de guerra”.

Embora desnecessário, devo dizer que esta postagem não é contra somente a torcida do Atlético. Se me valho dela, é somente por ser algo que ocorreu na madrugada que passou. O que fez a torcida do Galo lá em BH é só o gancho a partir do qual comento sobre a baixeza que é agir desse modo. Sei que isso não é prática nova, sei que a torcida do Atlético não é a única a se valer dela. Venha de onde vier, a atitude é condenável, não valendo aqui o “raciocínio”: “Se fazem com o time da gente lá, vamos fazer com o time deles aqui”. Bonito mesmo é derrotar o adversário quando ele está descansado, em plena forma, no auge.
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Aproveito a deixa e menciono, mais uma vez, dois textos que me são muito caros: um deles foi produzido para um comercial do Comitê Olímpico Internacional; a narração é de Robin Williams. O vídeo foi ao ar mundialmente em 2004. O outro texto é um poema do americano Walt Whitman, poeta que muito admiro. O contexto do poema de Whitman não é o esporte, mas pode ser transposto para o cenário esportivo, pois os versos declaram que uma derrota pode ser bela. A tradução do texto do comercial e do poema do Whitman é minha.
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Walt Whitman — Canção de mim mesmo 18

Com música forte eu venho, com minhas cornetas e meus tambores,
eu não toco marchas para os vitoriosos aceitos apenas, eu toco marchas para as pessoas dominadas e assassinadas.

Você ouviu que foi bom ganhar o dia?
Eu digo que também é bom cair, as batalhas são perdidas no mesmo espírito em que são ganhas.

Bato forte meu ritmo pelos mortos,
sopro pela embocadura o mais alto e contente por eles.

Vivas para aqueles que fracassaram!
E para aqueles cujos navios de guerra afundaram no mar!
E para aqueles mesmos que afundaram no mar!
E para todos os generais que perderam batalhas, e para todos os heróis derrotados!
E para os inumeráveis heróis desconhecidos, iguais aos maiores heróis conhecidos!
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Abaixo, texto do comercial produzido pelo Comitê Olímpico Internacional

Você é meu adversário, mas não é meu inimigo, pois sua resistência me dá força, sua garra me dá coragem, eu espírito me enobrece. E embora seu meu objetivo derrotar você, caso eu tenha êxito, eu não vou humilhar você. Em vez disso, eu honrarei você, pois, sem você, eu sou um homem menor.

Minha parte

Existe o mar;
eu sou a gota.

Existe a praia;
eu sou o grão.

Existe o amor.
Eu te amo. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Talento desejado

Há pessoas que se instalam no pensamento. “Instalar” é feio, mas é o que me veio à mente. Mais cedo, enquanto na moto, outro verbo me havia ocorrido. Confiei na memória, o que eu não deveria ter feito; acabei me esquecendo de qual verbo teria sido esse.

Uma das formas de uma pessoa ir cada vez mais tomando conta do pensamento da gente é quando esse alguém é talentoso. Uma vez admirando o talento do outro, passamos a nos lembrar dele quando diante da manifestação desse talento. O dom do outro pode desengatilhar o pensamento frequente.

Mesmo que não seja o talento a dar o pontapé inicial, ele compõe aquilo que nos remete ao outro, quando no outro começamos a prestar atenção. Se esse astral prossegue num crescendo, vem o desejo de partilha, que em meio a outras vontades e a outros desejos, pode desembocar no desejo do outro.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Das reações contra Dilma

De alguns anos para cá, as redes sociais e os comentários deixados em “sites” de notícias mostraram o quão despreparado o brasileiro está para o debate, seja ele qual for. Confirmou-se o tamanho gigante desse despreparo também na questão política, pois o que deixa de ser debatido é, precisamente, a política.

O teor desta postagem não é, em sentido estrito, político. Se fosse para adjetivar esse teor, eu diria que ele é sociológico; ou, talvez, psicológico. Mas não me importa agora adjetivar com exatidão o que escrevo. Este parágrafo aqui está como tentativa de esclarecer que esta postagem, em vez de se deter sobre questões políticas, parte do princípio simples de que antes de haver um profissional, há um ser humano. Qualquer um deve, antes de tudo, ser respeitado por isso. Sei que digo truísmos, mas os digo porque coisas básicas estão ausentes.

As redes sociais mostraram que muitos, ao se referirem a Dilma, deixaram de lado questões políticas e se detiveram em questões pessoais. Já quando da posse para o segundo mandato, escolheram falar mal do... vestido dela. À medida que o tempo ia passando, houve de tudo: disseram que ela é como é por falta de sexo; no dia internacional da mulher, mulheres postaram textos do tipo “feliz dia das mulheres para nós — menos para a Dilma, que não merece” (curiosamente, muitas delas não se rebelam contra o que um Bolsonaro diz sobre as mulheres); ela foi xingada de todas as ofensas que são dirigidas contra o sexo feminino; inseriram a imagem dela sendo queimada em fogueira...

Nos estádios, entoaram para ela “vai tomar no c*”; em adesivos de carro, pegaram a imagem dela e a colocaram, com as pernas abertas, no lugar em que a bomba é colocada no veículo quando se abastece. Foi uma constelação de indelicadezas, futilidades, falta de educação, grosserias, preconceitos, machismo, misoginia e ódio. Uma parte do Brasil mostrou a cara que tem. 

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Que se possa falar menos

Para meu trabalho, estou preparando um minicurso sobre o livro “O poder dos quietos: como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar”. Desde quando o li pela primeira vez, eu me tornei uma espécie de divulgador do trabalho de Susan Cain, pois sempre falo dele.

Ao procurar por uma foto dela na internet, eu me deparei com um “link” em que há uma palestra dela numa das edições do Ted. No evento, ela comenta exatamente sobre “O poder dos quietos”. Didática, ela clarifica o assunto do livro, que defende o seguinte: num universo em que o modelo de extroversão tornou-se sinônimo de excelência, é preciso compreender que os introvertidos ou os tímidos têm muito a contribuir para a melhora do ambiente de trabalho em que estão, desde que tenham a liberdade de ser quem são.

Durante sua fala, Susan Cain defende com fluência e elegância sua opinião, não dando a entender que ela é a pessoa introvertida que sempre alega ser. Num primeiro momento, ela retira livros de uma mochila, explicando por que os livros estão ali. No final, numa bela metáfora, ela diz que os tímidos e os introvertidos não precisam ter medo de retirar de suas mochilas o que há lá dentro delas, concluindo que é preciso ter a ousadia de falar baixo.

Hino

Eu sei, 
eu sei que este dia que amanhece será retumbante.
Há viço nos rostos,
existe alegria nos lábios,
os passos são altivos.
Acorda um País sabendo que é forte.
Tendo descoberto seu valor,
sabe que a partir de hoje
será novo, será moderno.
As notícias do passado deixaram lição.
O dia de hoje é um corte,
dobra-se uma esquina,
o Sol trouxe a boa-nova.
Resplandece no céu azul-anil
a pujança de quem, finalmente,
deixou de repetir,
com outras roupas e outras caras,
os esquemas de ontem, de anteontem,
dos tempos das caravelas e dos escambos.
Escuto o gorjeio das aves,
revoadas de gaviões saúdam o futuro,
que, até que enfim, chegou.
O que era promessa se cumpriu,
o que era projeto é ação,
o que era vontade é ato.
Pulsos varonis, futuro jubiloso.
O tão anunciado Eldorado é hoje o chão que pisamos.
De mãos dadas e com sorriso tranquilo,
nós nos curamos do passado,
nós fundamos, neste dia que começa,
um novo empreendimento.
Somos limpos, somos fortes, somos um só.
Chega de livros,
chega de história,
chega de pobreza,
chega de gente feia.
Acordamos! Acordemos!
É hora de levantar o País!
Com nossa galhardia,
com nossa pureza,
com nossas armas,
golpearemos os inimigos.
Não somos mais esboço.
A partir de hoje, somos Nação.
Avante! Levantemos as taças! Brindemos a nós!
Não há o que temer. 

São Paulo derrota o Atlético

O primeiro jogo entre São Paulo e Atlético, por esta edição da Libertadores, terminou há pouco. O primeiro tempo foi muito feio, com muitas faltas, truncado, violento. O número excessivo de cartões amarelos ainda na primeira metade do primeiro tempo levava a crer que haveria jogadores expulsos. Não houve.

No segundo tempo, o São Paulo jogou melhor do que o Atlético. Isso resultou em gol. Chama a atenção o fato de que o São Paulo estava desacreditado no torneio. Nada está decidido, é verdade, pois o Atlético é forte em BH, a torcida deles vai incentivar muito. Mesmo assim, o time do Morumbi deu um grande passo para avançar no torneio.

Que a partida de quarta-feira que vem tenha mais futebol e menos faltas; que seja um jogo menos truncado, mais corrido. As duas equipes merecem isso, bem como os torcedores dos dois times, bem como quem gosta de futebol. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"O rumor da língua"

Ela interrompe a leitura. 
Não por enfado, 
mas por deleite. 
Ergue a cabeça, 
depara-se com nuvens. 
Com a cabeça entre
nuvens e palavras, 
inspira, 
inspira-se, 
inspira-me. 

terça-feira, 10 de maio de 2016

"Ai se eu te pego": ode à ironia

Não sei se houve um tempo em que havia sagacidade para uma ironia perspicaz. Pode ser que não. Um certo Alcanter de Brahm, no século XIX, inventou o ponto de ironia (imagem acima); tentativa infrutífera.

Em redes sociais, muitos preferem (eu mesmo fui um desses muitos) escancarar a ironia a ter de aturar a falta de tino dos que não conseguem entendê-la. A fim de se pouparem de incapacidade de interpretação e de aborrecimentos, optam por tirar a sutileza do texto, evidenciando a ironia. Hoje, sou da opinião de que eu não deveria ter contado que eu estava sendo irônico.

O Luciano Pires, num de seus “podcasts”, fez uma acurada “análise” interpretativa de “Ai se eu te pego” quando a canção estourou mundo afora. O tom foi sério, houve um suposto ar acadêmico nas palavras usadas por Luciano Pires. Quem acompanhava o programa dele poderia perceber tranquilamente que se tratava de uma ironia. Contudo, mesmo dentre ouvintes que se disseram fiéis, houve quem entrasse em contato com Pires para dizer que estavam decepcionados por ele ter se dedicado a “estudar” com tanta precisão a letra de “Ai se eu te pego”.

No “podcast” seguinte, o apresentador ironizou a falta de capacidade de alguns ouvintes em perceber a ironia da “análise”: ele e o técnico de som que trabalhava com ele criaram a vinheta da ironia; toda hora em que o breve sinal sonoro fosse ao ar, ele estaria contando para o ouvinte que o que seria dito a seguir se tratava de uma... ironia...

À parte a historieta sobre o Alcanter de Brahm e à parte essa história envolvendo o Luciano Pires, o bom mesmo é não escancarar a ironia. Ironia escancarada é algo tão ruim quanto piada ou chiste explicados. Se por um lado entendo que em redes sociais a obtusidade de um leitor ou de outro pode “exigir” o equivalente a um ponto de ironia, a fim de se evitarem aporrinhações, por outro, é preciso “resistir”. Dito de outro modo: é preciso confiar no leitor/receptor de uma ironia.

O movimento quase imperceptível dos lábios num sorriso milimétrico quando o leitor saca uma ironia do autor é um momento bonito demais para ser estragado por obviedades. É um momento em que há uma sintonia entre quem escreve e quem lê, a despeito de distâncias temporais ou espaciais. É um momento de comunhão, como é de comunhão todo momento de leituras dedicadas, entusiasmadas. Que deixemos momentos assim no profícuo e forte terreno da sutileza. 

Sem ti

Não sei viver sem ti.

Por um lado, é mentira,
pois sigo vivendo sem ti.
Por outro, é verdade,
pois, sem ti, sou
piano sem mãos,
locutor sem rádio,
lábios sem beijo.

Vivo,
vivo sem ti,
ao modo de
estádio sem gente,
poeta sem leitor,
roupa sem corpo,
tesão sem par.

Sem ti,
deusa de voz suave,
não sou o que sou.

domingo, 8 de maio de 2016

Fotopoema 388

"Água Suja"

Yuji Kodato é o diretor de “Água Suja”, documentário que narra a peregrinação de católicos a Romaria/MG. Kodato acompanha a trajetória dos caminhantes pelas rodovias do Triângulo Mineiro, bem como exibe a vida da cidade durante o mês de agosto, quando o lugar recebe milhares de romeiros.

Ao contar a história, o diretor optou por dar voz aos fiéis durante a extenuante caminhada. Nas entrevistas, eles contam as razões que os levam a encarar os cansativos dias na estrada. “Água Suja” também oferta um sagaz panorama de como fica a cidade de Romaria com a chegada dos fiéis.

Enquanto mostra a caminhada dos peregrinos pelas rodovias e atalhos que levam ao destino dos entrevistados, o documentário, de quebra, em belas tomadas, exibe a beleza não óbvia do cerrado mineiro; já quando exibe a cidade lotada de viajantes, “Água Suja” não deixa de mostrar a atuação dos que lucram a partir da fé dos que estão na cidade.

Romaria se torna um microuniverso em que religião, comércio e diversões (que muitos poderiam chamar de terrenas) se misturam. O documentário de Yuji Kodato retrata tudo isso, mas sempre dando ao expectador todo o espaço para que ele tire suas conclusões a partir do que assiste.

Os momentos finais da produção mostram pessoas limpando a sujeira que toma da cidade em virtude do grande número de pessoas que a visitam. Na cena final, mostra-se água com espuma de sabão ou de detergente escorrendo numa rua, em tomada carregada de sugestões e de simbolismos. 

Torcida

Você em meio a muitos. 
O que muitos querem
os Coelhos não querem. 
Mas querem os Galos 
o que quer você. 
Eu, Raposa, 
não sou Coelho
nem Galo. 
Nesse (a)mar de gente,
torço é por você. 

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Conto 86

Iara e Jean estavam conversando sobre sexo. Ela disse que ele decepcionar-se-ia quando fizessem amor. Ele argumentou ser pouco provável que isso ocorresse. Valeu-se de vivências pregressas para reforçar a cantada: “Geralmente, se não gosto do beijo, não gosto do sexo; quase sempre é assim. Mas sempre que gostei do beijo, gostei do sexo. E você já deve estar cansada de eu dizer que sou louco por seu beijo”. Iara riu de leve e disse adorar o beijo dele. Fizeram amor; nenhum gostou.

domingo, 1 de maio de 2016

Ô de casa

O cantor, instrumentista e compositor Prince, que morreu recentemente, foi criado como Adventista do Sétimo Dia; já adulto, tornar-se-ia Testemunha de Jeová. Por causa disso, executava o trabalho de bater de porta em porta e pregar para os moradores que dessem permissão para o ato. O nome completo dele era Prince Rogers Nelson.

Certo dia, em Minneapolis, enquanto Prince apresentava a Bíblia segundo a interpretação dos Testemunhas de Jeová, uma mulher comentou com ele: “Alguém já disse a você que você se parece muito com o Prince?” A resposta do artista teria sido lacônica: “Já disseram”, voltando logo a seguir a seu trabalho de apresentação das escrituras. Quando a mulher perguntou a Prince o nome dele, ele disse: “Rogers Nelson”.

(Extraí essa história da página da CNN.) 

Isso e aquilo

Não sinto saudade
disso 
ou 
daquilo.

Sinto saudade
disso 
e
daquilo
e
daquilo outro
e
de todo o resto. 

Presença

Pensar em ti em cada pequena ação do cotidiano 
é o maior e o mais grandioso ato meu. 
Eu te coloco em tudo o que faço, 
dedico a ti tudo o que penso, 
tudo o que realizo. 
Tu estás no que me inspira e 
no que me tira o sono. 
Estás na água que bebo, 
no café que preparo, 
nas teclas que meus dedos tocam 
enquanto escrevo este texto ou qualquer outro. 
Tu estás nos livros que leio, nos devaneios. 
Estás no que não digo e em minha dicção. 
Tu estás nas brincadeiras entre mim e meu cachorro, 
no que fotografo, no arroz com legumes que preparo. 
Ninguém sabe, mas estás em minha boca, 
nas linhas de meu rosto. 
Tu estás nas cores, no arco, na íris, 
na espessa e palpável escuridão da Gruta de Maquiné.

Acabei de acender a luz, 
que te iluminou em meu pensamento. 

sábado, 30 de abril de 2016

O narrador cruel

Obviamente, levo em conta que “Madame Bovary” é uma obra realista. Mesmo assim, desconheço um narrador que seja tão impiedoso com seu personagem quanto o narrador do livro de Flaubert. À parte as convenções do Realismo, que devem ser levadas em conta quando se analisa o livro, chega a ser engraçado (e, ao mesmo tempo, corrosivo) o quanto se mostra o tempo todo que o senhor Bovary é, aos olhos do narrador, um ser ridículo, limitado, digno de pena.

Carlos Bovary é, de cara, achincalhado pelo narrador e por alguns personagens. Logo no primeiro capítulo da primeira parte, nas páginas iniciais do livro, Bovary, ainda adolescente, é aluno novato em uma escola. A maneira como é recebido pelos futuros colegas dá o tom de como o futuro marido de Ema Bovary será tratado ao longo da história. Mal começado o livro, zomba-se da aparência de Carlos, de seu comportamento, de seu destrambelhamento. O trecho que cito tem tradução de Araújo Nabuco:

“Estávamos em aula, quando entrou o diretor, seguido de um novato.

(...)

“Calçava uns sapatos grosseiros, mal engraxados, reforçados com pregos.

(...)

“— Levante-se! — ordenou o professor.

“Levantou-se; o boné caiu. A classe inteira pôs-se a rir.

“Ele abaixou-se para erguê-lo. Um vizinho o fez cair com uma cotovelada, mas ele tornou a erguê-lo.

“— Livre-se desse boné! — disse o professor, que era um homem espirituoso.

“Houve uma explosão de riso entre os alunos, embaraçando o coitado de tal forma, que ele não sabia se segurava o boné, se o deixava no chão ou se o punha na cabeça. Afinal, sentou-se, pondo-o sobre os joelhos.

“— Levante-se! — repetiu o professor — e diga-me o seu nome.

“O novato articulou, com voz trêmula, um nome ininteligível.

“— Diga de novo!

“O mesmo murmúrio de sílabas, abafado pelas gargalhadas dos alunos.

“— Mais alto! — gritou o professor. — Mais alto!

“Tomando então uma resolução extrema, o novato abriu uma boca desmesurada e, como se chamasse alguém, lançou a plenos pulmões esta palavra: Carbovari.

“Foi uma algazarra que explodiu de repente, num crescendo de gritos agudos (uivava-se, latia-se, sapateava-se, repetia-se: Carbovari! Carbovari!), que depois passou a ecoar em notas isoladas, dificilmente acalmadas (...).

“Entretanto, sob uma chuva de castigos, pouco a pouco foi restabelecida a ordem na classe. O professor, tendo conseguido perceber o nome de Carlos Bovary, fazendo-o ditar, soletrar e reler, ordenou em seguida ao coitado que se fosse sentar no banco dos preguiçosos, ao pé de sua cadeira. O rapaz dispunha-se a obedecer, contudo hesitava.

“— Que está procurando? — interpelou o professor.

“— Meu bo... — tartamudeou o novato, lançando olhares inquietos à sua volta.

“— Quinhentas frases à classe inteira! — bradou o mestre, sustando assim, como o quos ego, uma nova tormenta. — Fiquem quietos! — continuava, indignado, enxugando a testa com o lenço que acabava de tirar de dentro do gorro. — Quanto a você (e apontava o novato), copie-me vinte vezes o verbo ridiculus sum”.
_____

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Tradução de Araújo Nabuco. São Paulo. Círculo do Livro LTDA. 1994. Pp. 7,8 e 9. 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O amor que se vai

 “Algo tão bom não poderia acabar”. Mas acabou. O que há agora é uma espécie de inconformismo, alimentado por uma esperança que se nega a aceitar o rumo que as coisas tomaram. Quando um amor acaba, ele acaba fora da gente. Dentro, fica a esperança, que se recusa a aceitar o fim de algo que era tão bom, de algo que dava tão certo. Não bastasse esse inconformismo, a dificuldade em refazer a vida, nos seus mais banais instantes. Já não há mais alguém com quem compartilhar o texto lido, já não há uma pessoa a quem desejar “bom-dia”, já não há mais a companhia para o cinema, não há mais aquela pessoa para quem se embelezar.

Por um lado, a rotina pode enferrujar uma relação. Por outro, o amor se alimenta de pequenas e gostosas repetições. Não há amor sem rotina. Se você não consegue deixar de encarar a palavra “rotina” como sendo pejorativa, pense que não há amor sem hábito (se você não consegue deixar de encarar a palavra “hábito” como sendo pejorativa, pense que não há amor sem rotina).

Por um lado, o amor requer criatividade, invenções, surpresas; por outro, carece de repetições, de reiterações, de previsibilidades. Saber o que repetir e saber como criar robustecem um amor. Quando um amor acaba, vão-se embora aquelas saborosas repetições e aquelas rejuvenescedoras possibilidades de invenções. Quando um amor termina, lamenta-se também a chance que tínhamos de sermos criativos, espirituosos.

A partir daí, um carro que passa, uma rua, uma palavra, sinos que dobram, a foto de um rinoceronte, uma piada tola, a marca de um chocolate ou o comentário casual de uma tia sobre o estado do tempo: é como se o mundo conspirasse para que não consigamos tirar a pessoa do pensamento. Mas, no fundo, sabemos que o mundo não conspira; sabemos que é o amor que faz com que o objeto amado esteja em tudo.

A dois

Receita de amor

A afinidade é 
um dos ingredientes do amor. 
Em si, amor não é.

A amizade é 
um dos ingredientes do amor. 
Em si, amor não é.

O sexo é 
um dos ingredientes do amor. 
Em si, amor não é.

A admiração é 
um dos ingredientes do amor. 
Em si, amor não é.

Amor é
afinidade 
e amizade 
e sexo
e admiração.

Eu sou 
um dos ingredientes do amor. 
Em mim, amor não sou.

Tu és 
um dos ingredientes do amor. 
Em ti, amor não és.

O amor sou eu. 
O amor és tu.

Do amor,
somos ingredientes. 
A receita certa do amor 
é o jeito de cozer de cada um. 

Apontamento 329

Quando se trata de futebol, o argentino sabe fazer duas coisas — jogar e torcer. 

Gostosa geometria

Primeiro, foram meus olhos;
a seguir, minhas mãos.
Seduzida a minha visão,
seduzido o meu tato,
como não querer provar
cada pedaço de tuas linhas? 

Mais do Tito

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Ensaia

(A primeira parte deste poema já havia sido publicada.)

1
Saia de cara limpa,
saia da preguiça,
saia de cena,
saia do conforto.

Saia para o trabalho,
saia para casa,
saia para a escola,
saia para a noite.

Saia de pé.
Saia para o amor.

Se longa,
se velha,
se justa,
se nova,
se curta,
se larga...

Caso
se lembre
de mim,
saia.

2
Não sei se para o espelho.
Não sei se para outra pessoa.
Não sei para quem
tu te vestes quando
estás como hoje estás.
Isso não importa agora.
O que importa é saberes
da alegria que causas
a todo o meu corpo
quando estás vestida
como hoje estás.

3
Tu estás linda.
Tu estás irresistível.
Uma beleza assim
merece poesia,
merece convite.
Por ora,
e apenas por ora,
aceita o que
não é poesia
nem é convite.
Por ora,
aceita
estas palavras. 

domingo, 24 de abril de 2016

Mutuação

Conheço as dores e as alegrias do amor.
Sei o que é certeza de amor até o fim.
Sei o que é certeza de não amor até o fim,
para então morrer de amor no dia seguinte.
O amor vem e vai, para depois voltar.
Não desiste porque precisa de nós.
Não desistimos porque necessitamos dele.
Sem nós, fica o amor sem casa;
sem ele, ficamos nós sem lar. 

O Príncipe guitarrista


Não que eu não admire o Prince como cantor. Não que eu não admire o Prince como compositor (“Nothing compares 2U”, sucesso na voz da Sinéad O’Connor, e “Manic Monday”, sucesso com as garotas do Bangles, são composições dele). Não que eu não admire o Prince quando ele estava no palco. Admiro tudo isso nele. Mas o que não me cansa de espantar é o grande guitarrista que ele foi.

Neste vídeo, estão no palco Tom Petty, Jeff Lynne, Steve Winwood, Dhani Harrison (filho do George Harrison) e o Prince; tocam “While my guitar gently weeps”. Num momento do memorável solo que o Prince faz, Dhani Harrison chega a achar graça do guitarrista, que é apoiado, para que não caísse do palco, pelo que parece ser um segurança (não sei se isso havia sido combinado). Reparem que, no final, Prince joga a guitarra para o alto. Não a vejo caindo de volta. Para onde ela vai? 

As histórias que se contam

Em “Os contos de Cantuária”, do Chaucer, peregrinos, enquanto caminham, contam histórias; no “Decamerão”, do Boccaccio, dez pessoas, fugindo da peste negra, refugiam-se em local ermo, onde decidem que cada um contará dez histórias; em “Noite na taverna”, do Álvares de Azevedo, um grupo de ébrios decide contar histórias que estão nos moldes do que pregava o Romantismo. E você, que histórias conta para os que estão com você? 

Num supermercado

Imagem feita com celular, no dia dez de abril deste ano, num supermercado da cidade; segundo o informado pelo estabelecimento, são abóboras-jacarés. 

Da New Yorker para o Prince

Ah, essa The New Yorker... Magistral capa deles, em homenagem ao Prince. O autor é Bob Staake. 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

"Bela, recatada e do lar" (parte 2)


Na postagem anterior, eu disse que estava procurando um modo de zombar do “bela, recatada e do lar”. O vídeo desta postagem é a ironia que faço com relação ao texto da Veja. Repito: trata-se de ironia. 

"Bela, recatada e do lar"

Tentei achar um modo de zombar do ridículo “bela, recatada e do lar”, perpetrado pela não menos ridícula Veja. Como não consegui, posto o trecho abaixo, extraído do livro “O poder dos quietos”, de Susan Cain. Publicado pela Agir, tem tradução de Ana Carolina Bento Ribeiro. No excerto, conta-se episódio ocorrido com Rosa Parks. Ela não é o tipo de mulher que a Veja quer, mas é o tipo de pessoa que torna o mundo um lugar menos ruim.
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“Montgomery, Alabama, Estados Unidos. Primeiro de dezembro de 1955. Começo da noite. Um ônibus para no ponto e uma mulher em seus quarenta anos cuidadosamente vestida sobe nele. Ela anda de coluna ereta, apesar de ter passado o dia inclinada sobre uma tábua de passar em um sombrio porão da alfaiataria da loja de departamentos da cidade. Seus pés estão inchados, seus ombros doem. Ela se senta na primeira fileira de bancos reservada aos negros e assiste quieta ao ônibus encher-se de passageiros. Até que o motorista ordena que ela ceda o lugar a um branco.

“A mulher balbucia uma única palavra que deslancha um dos mais importantes protestos pelos direitos civis do século XX, uma palavra que ajuda os Estados Unidos a se tornarem melhores.

“A palavra é ‘não’.

“O motorista ameaça mandar prendê-la.

“— Você pode fazer isso — disse Rosa Parks.

“Um policial chega. Ele pergunta a Rosa por que ela não se levanta.

“— Por que vocês nos humilham? — respondeu ela, simplesmente.

“— Não sei — disse ele. — Mas a lei é a lei e você está presa”.

“Na tarde de seu julgamento e condenação por atentado à ordem pública, a Associação para o Desenvolvimento de Montgomery promoveu um protesto a favor de Rosa na Igreja Batista de Holt Street, na parte mais pobre da cidade. Cinco mil pessoas se reuniram para apoiar o solitário ato de coragem daquela mulher. Elas se espremeram dentro da igreja até que os bancos não fossem mais suficientes. O resto esperou pacientemente do lado de fora, ouvindo através de alto-falantes. O reverendo Martin Luther King Jr. dirigiu-se à multidão: ‘Chega uma hora em que as pessoas ficam cansadas de serem pisoteadas pelos pés de ferro da opressão. Chega uma hora em que as pessoas ficam cansadas de serem empurradas para fora do brilho do sol de julho e de serem abandonadas em meio ao penetrante frio de uma montanha em novembro’.

“Ele elogia a coragem de Rosa e a abraça. Ela fica de pé em silêncio; apenas sua presença é o bastante para animar a multidão. A associação lança na cidade um boicote aos ônibus que dura 381 dias. As pessoas enfrentam quilômetros para chegar ao trabalho. Elas pegam carona com estranhos. Elas mudam o curso da história dos Estados Unidos”.
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CAIN, Susan. O poder dos quietos: como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar. Tradução de Ana Carolina Bento Ribeiro. Rio de Janeiro. Agir. 2012. Páginas 1 e 2. 

A história por trás da foto (91)

Esta foto é de 23 de janeiro de 2006. Eu a tirei no Parque Municipal do Mocambo, aqui em Patos de Minas. Tenho poucas fotos de martim-pescador. Fazer esta foi difícil. De onde eu estava, não era possível fotografá-lo quando ele sobrevoava a superfície da água, provavelmente buscando comida. Todavia, após o voo, ele voltava mais ou menos para o mesmo lugar. Pouco a pouco, fui me aproximando desse lugar, na esperança de que o martim-pescador não me visse.


O problema é que a área onde ele pousava depois da excursão sobre as águas era cheia de matos, de arbustos, de pequenas árvores. Tive de ir me esgueirando em meio a eles na tentativa de fazer a foto. Mesmo assim, quando eu já estava a uma distância ideal para o registro, havia muita folhagem e muitos galhos entre a lente e o martim-pescador. De qualquer modo, fiz algumas fotos deste, que é um filhote. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Em forma

A poesia é
um modo
de darmos forma
aos seres esparsos
que somos.

Eu gosto de
tuas formas.

terça-feira, 19 de abril de 2016

A vinda dos macacos

A capacidade da linguagem é um dos ingredientes que nos humanizam. O “internetês” pode evidenciar o que uma pessoa é capaz de postar quando é a favor de um torturador. Recentemente, reli “O planeta dos macacos”, do Pierre Boulle. No livro, a “tese” para a ascensão dos macacos e a derrocada dos humanos é a “preguiça mental” (expressão usada por Boulle) do homem e a habilidade adquirida pelos símios, a princípio, por imitação, de capacidades intelectuais.

Pode-se extrair daí a ideia de que quando o requinte da linguagem é deixado de lado, tornamo-nos bestas. Uma besta, diante de um teclado, incapaz de formular uma linguagem que faça sentido, apela para a agressão, os gritos, os palavrões gratuitos. A incapacidade de se mostrar humano ou de se condoer com o drama do outro (não importa a ideologia desse outro), faz com que um ser humano passe a louvar gente como Bolsonaro ou como Ustra.

A linguagem, por si mesma, é preciso lembrar, não garante a humanização. Em contrapartida, não há humanização que não passe pela linguagem. Depois que a bestialidade começa a se instalar, é muito difícil ao homem assumir o compromisso de mergulhar na dura tarefa de requintar sua linguagem e seu pensamento. O caminho da bestialidade é fácil. Nem todo caminho fácil é ideal.

Uma vez seduzidos pelo fácil discurso da bestialidade, é fácil, por intermédio de redes sociais, achar quem reverbere a falta de capacidade, seja de compaixão por um ser humano, seja de escrever algo que não sejam interjeições, onomatopeias e palavrões. É o correspondente da vociferação de uma fera produzido num teclado manejado por quem optou por ignorar que a linguagem seria caminho para possível humanização.

Num estado de coisas assim, o ser, que já perdeu a capacidade de perceber que não é preciso gritar para soar contundente, que não entende que o comedimento pode ser incisivo, caminha a passos largos para deixar de ser humano. Passa, então, a se gabar por adorar Bolsonaros ou Ustras. Os macacos estão vindo aí.
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A título de curiosidade: o que me inspirou a escrever esta postagem foi o formidável comentário do Ricardo Boechat sobre a performance do Bolsonaro ao reverenciar Ustra. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Ovações

Ovacionar Ustra?!
Ovacionar quem ovaciona Ustra?!
Uma ova! 

Cusparadas

Mais errado do que o gesto de Jean Wyllys, que cuspiu em Bolsonaro, é o gesto de Bolsonaro e asseclas, que cospem na democracia.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Um presente

Tu és bela
por natureza.
Não precisas
de versos que
te embelezem.

Não sou belo
por natureza.
Meus versos são
tentativa de beleza,
seja para ti,
seja para mim.

Mesmo não
precisando deles,
eis mais estes versos.
Toma-os como presente.
Se gostares,
ficarás mais bela
como és.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Meu livro à venda em outra livraria

Ontem, publiquei que meu recente livro, Dislexias, lançado recentemente em Patos de Minas, está à venda pela página da Livraria Cultura. Ele pode também ser adquirido por intermédio da página da Livraria da Travessa. Caso queira adquirir o Dislexias a partir desta página, o endereço é este

Conto 85

Ernesto amanheceu; foi informado, via celular, num treze de abril, que se comemorava nessa ocasião o dia do beijo. Amuado, pensou consigo: “Ah, mais uma data inventada pelo comércio”. Antes mesmo de sair da cama, ocorreu-lhe uma ideia. Pegou o telefone; escreveu: “Sou informado de que hoje é o dia do beijo. Eu não sabia da existência de um dia dedicado a ele. De qualquer modo, para mim, a data não faz sentido, pois teus lábios não estão por perto”. Tendo acabado de digitar, deletou a mensagem.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Meu livro à venda

Pessoas, confirmo: meu recente livro, Dislexias, está à venda na Livraria Cultura. Caso queiram adquirir, é só clicar aqui.

Versos de caminhoneiro

Não importam
as estradas
por que ando.
Momento não há
em que não percorres
os caminhos
de meu coração.

Tempero

O amor é um.
Os amantes, muitos.
Cada um que ama
tempera o amor
com aquilo que é.

Que tal um jantar?

"Vou na valsa"

Ao mesmo tempo, eu estava escutando “Paciência”, do Lenine, e lendo “Fogo pálido”, do Vladimir Nabokov. Enquanto Lenine cantava “enquanto o tempo / Acelera e pede pressa / Eu me recuso, faço hora / Vou na valsa / A vida é tão rara”, passei os olhos sobre o seguinte trecho de “Fogo pálido”: “Quando a vida caminha mais lentamente, a gente repara nas coisas secundárias” (tradução de Jorio Dauster e de Sérgio Duarte).

A vida é rara. Vamos levando um arremedo de vida, cheia do que parece ser civilizado, correto; vamos nos tornando especialistas em eficácia, cumprindo prazos para um monte de besteiras travestidas de inteligência; besteiras assépticas, falsamente sagazes. Nesse cenário, vale o paradoxo de que as coisas secundárias (resgatando a expressão de Nabokov) é que nos libertam da tirania cheia de horários bobos que o cotidiano nos impõe.

Nessas digressões, acabei me lembrando de um texto do poeta Alberto da Cunha Melo. Eis um trecho: “De quando em quando faltaremos / a algum compromisso na Terra, / e atravessaremos os córregos / cheios de areia, após as chuvas. // Se alguma súbita alegria / retardar o nosso regresso, / um inesperado companheiro / marcará o nosso cartão”. Corramos menos, reparemos em coisas secundárias.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Este amor

Este amor
que enche rios,
avenidas, casas.
Este amor que
preenche a noite
de estrelas.
Este amor que
é meu, é teu
e que está
no açaí
que partilhamos.
Este amor difícil
porque imenso,
porque distante,
porque não agora.
Este amor
que insiste
porque amor.