terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

FINEZA

CARCARÁS



SINTONIA FINA AO VIVO

Pessoas, a partir das 17h, vou estar ao vivo com o Sintonia Fina, programa musical. Caso queiram escutar, basta clicarem aqui. O programa vai até às 19h. 

À LUZ DE NICOLE


Esta é Nicole, criança que, acompanhando aluna minha no mais recente curso de fotografia que realizei, participava das aulas, com carisma e inteligência. Praticando a teoria ao ar livre, estávamos tirando algumas fotos num fim de tarde, quando me dei conta de que a luz natural que incidia sobre a Nicole estava legal. Tirei, então, a foto. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O MILÉSIMO "GOL" DE TÚLIO

Com muito atraso, somente hoje é que vi o milésimo "gol" marcado por Túlio contra o Mamoré, lá em Araxá. Ora, com um árbitro (Igor Junio Benevenuto) disposto a colaborar daquele modo, estou pensando em começar a jogar futebol e tentar marcar mil gols. O Túlio tem quarenta e quatro anos; é profissional há vinte e sete.

Ele levou vinte e sete anos para fazer mil gols. Todavia, caso eu consiga árbitros tão benevolentes quanto o que inventou aquele pênalti contra o Mamoré, penso que eu chegaria a mil na metade do tempo levado por Túlio. Tenho quarenta e três. Logo, por volta dos cinquenta e sete, eu chegaria ao milésimo gol. Amanhã mesmo vou procurar vaga na URT, time para o qual torço. 

SABIÁ-DO-CAMPO

POEMA 27


Este poema faz parte de um livro meu cuja temática é o amor. O título é Amor de palavra. Para conferi-lo na íntegra, clique aqui.
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O lugar do amor deveria ser em toda parte
Que chato o amor ter de se esconder
O lugar do amor é qualquer lugar

Amor urgente esquece tudo
Na claridade ou sobre o muro
No banco da praça ou no banco de trás
No calor do meio-dia ou no cinema

Amor não tem lugar, não tem hora
Para o amor, servem escadas, mangues, mesas
Amor não planejado não pensa em cama
Amor urgente dá um jeito, se vira
Amor urgente é no chão, no ônibus
Amor urgente se intromete em público
Amor urgente jura que está enganando os pais

Cheiros, línguas, mãos, bocas, sexos
O lugar do amor é quando o amor quer ser feito
O lugar do amor é todo mundo
O lugar do amor é o mundo todo
O lugar do amor é o corpo inteiro 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

FAZER BONITO

Nem todo sentimento é bonito.
O que sinto é bonito.
É bonito porque é também palavra.
Nem toda palavra é bonita.
Esta é bonita porque inspirada em ti.
O que sinto é bonito.
É bonito porque tu existes.
Minha palavra é tua.
A beleza é tua.
A beleza é nossa.
Nem todo sentimento é bonito.
O que sinto é bonito porque quero ficar bonito para ti.
É bonito porque te quero bonita. 

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

FOTOPOEMA 346

APONTAMENTO 192

Prefiro os problemas de uma democracia às soluções de uma ditadura. 

NESSIE!

SERVENTIA

Dizem que, 
a rigor, 
a poesia não 
serve para nada. 
Se assim for, 
logo, a rigor,
conforme dizem,
eu me dedico a 
algo que não 
serve para nada. 

A poesia me serve. 
Eu sirvo à poesia. 
Isso me basta. 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CAFUNÉ...

Mais um registro antigo com que me deparei ao fazer cópia de segurança de velhos arquivos. Eu nem me lembrava mais de ter tirado esta foto.

PARA O ALTO

Certa vez um fotógrafo, de cujo nome infelizmente não me lembro, escreveu que ao fazer o registro de animais é sempre bom, quando possível, fotografá-los fazendo alguma coisa — alimentando-se, correndo atrás da presa, interagindo entre si... Ainda de acordo com o fotógrafo, no caso de aves e pássaros, é sempre gratificante fotografá-los quando estão voando; para ele, é o que fazem de melhor. Sempre que  fotografo  animais,  lembro--me de que, caso possível, é bom fotografá-los fazendo algo.

Já publiquei outras fotos de aves e pássaros durante o voo; as imagens desta postagem, embora antigas, são parte de cópias de segurança que tenho feito de meus arquivos velhos, que antes estavam somente em DVDs. Aproveito e insiro também fotos do pessoal da Esquadrilha da Fumaça. Afinal, é o animal homem fazendo alguma coisa.



















terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

ALÉM DO HORIZONTE

Fotos tiradas hoje, aqui em Patos de Minas.


O QUE SE DEIXA

Se no chão, é pegada.
Se não, é legado.

Pegada é legado.
Legado é pegada.

Pegadas se apagam.
Legados se extinguem.

Nem por isso deixar de caminhar.
Nem por isso deixar de criar. 

"FAZENDO MOSQUITINHOS"


Segundo minha mãe, eles “estão fazendo mosquitinhos”. Alguém furtou (sic) esta foto quando realizei minha primeira exposição. Numa certa manhã, quando cheguei ao saguão em que a exposição estava sendo realizada, a foto não estava mais lá; na noite anterior, estava. Não sei se o que motivou o furto tenha sido alguma fantasia sexual ou algum fetiche... 

FOTOPOEMA 345

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

NAS ALTURAS


Hoje, mais cedo, eu estava ministrando aula em mais um curso de fotografia. Colocando em prática ao ar livre os conhecimentos adquiridos, a aluna tirava fotos. Foi quando me dei conta do avião. Peguei minha câmera e fiz algumas fotos.

P.S.: segundo meu amigo Cassio, não se trata de um avião, mas, sim, de  um ultraleve avançado FOX. Grato pela informação, Cassio.

ATOR

Aqui,
“sou o
que sou”.
Finjo é
quando
não estou
no palco. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

EINSTEIN E O CACHORRO

Antes de eu dizer o que vou dizer, afirmo: gosto de cachorros. Fui criado numa casa em que havia deles, por causa de meu pai, que sempre os teve. Depois que meu pai morreu a tradição foi mantida. Reitero: gosto de cachorros. 

Recentemente, no Facebook, tem sido veiculada uma foto em que há o Einstein. Junto a ela, a seguinte frase: “Não confio em pessoas que não gostam de cachorro, mas confio totalmente num cachorro quando ele não gosta de uma pessoa”.

Não entendi, para começar, o motivo de haver uma foto do Einstein “ilustrando” a frase. Quiseram com isso, buscando um suposto argumento de autoridade, dizer que o físico é o autor da frase? Isso cheira a autoria incorreta.

Contudo, o curioso é que a frase não faz o menor sentido. Não confiar em uma pessoa pelo fato de ela não gostar de cachorro?! Quer dizer então que o critério para se confiar em alguém é o fato de a pessoa gostar de cachorro? O sujeito pode ser um calhorda, mas se gosta de cachorro é, portanto, confiável? Ou calhordas não são capazes de gostar de cachorro?...

Quer dizer então que todo mundo que gosta de cachorro é confiável? Quer dizer que basta à pessoa gostar de cachorro para que se confie nela? Será que não há alguém nesse mundo de bilhões de pessoas que goste de cachorro e que seja um trapaceiro?...

Ora, isso é limitar a confiança a um critério sem sentido. Hitler gostava de cachorro. Ele gostava de crianças também, e, dizem os biógrafos, não havia nisso traço do que poderíamos chamar de populismo. Pergunte a um judeu se ele confiaria em Hitler após saber que ele gostava de cachorro...

A frase, que já havia começado ruim, terminar pior do que começara: “Confio totalmente num cachorro quando ele não gosta de uma pessoa”. Nesse caso, o critério para se confiar numa pessoa é decidido por um... cachorro. 

E se um cachorro não gostar de sua mãe?... (Será que todos os cachorros do planeta gostam de sua mãe?...) E se um cachorro não gostar de seu melhor amigo?... (Será que todos os cachorros da Terra hão de gostar de seu melhor amigo?...) E se um cachorro não gostar de você?... E se um cachorro vier a não gostar de sua esposa ou de seu marido?...

Um cachorro não vale nem mais nem menos do que um tatu, por exemplo. A diferença é que o cachorro foi domesticado. Séculos e séculos de convivência criaram uma dependência mútua entre cachorro e gente.

Ainda assim, a psique humana é mais melindrosa e multifacetada do que é capaz de deduzir a sagacidade de um cão, por mais sofisticada que ela seja. Não sei se um cachorro se deixa levar pela imaginação, mas o ser humano se deixa, a ponto de dizer que o “parecer” de um cão é critério para se confiar numa pessoa. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

VOCÊ NÃO PASSA DE UMA VACA!


Desde 2004 tenho fotografado a natureza. Há alguns imprevistos, geralmente envolvendo a moto: já caí dela em estrada empoeirada, ela já furou o pneu estando eu longe da cidade, já derrapei em estrada ruim... Nada disso, entretanto, chega perto do aperto por que passei hoje.

Prestando atenção no ambiente, reparei que havia um casal de seriemas na beira da estrada. Como são ariscas, parei a moto lentamente. A seguir, tirei o capacete e segurei a câmera, que vai sempre pendurada no pescoço.

Às vezes, nem desço da moto para fotografar. Não foi o caso de há pouco: desci. Só que as seriemas, desconfiadas, já começaram a se afastar. Pensei comigo: “Vou perder a foto”. Para piorar, havia entre mim e elas uma vaca.

Agachei, na tentativa de fotografar pelo menos uma das seriemas por debaixo da vaca, por assim dizer. Só que o ângulo não permitia, devido ao mato, que tapava as seriemas. Fiz então um gesto com o braço, como se estivesse jogando algo na vaca. Ela não se moveu.

Peguei então uma pedra de tamanho razoável e fiz menção de jogá-la no animal, que dessa vez se moveu — em minha direção. Não foi um movimento brusco, mas ela deu um ou dois passos para onde eu estava e me encarou.

Comecei a não gostar da situação. Indo um pouco para a direita, consegui fotografar uma das seriemas. A vaca, encarando-me, moveu-se outra vez em minha direção, sempre sutil, sempre me encarando. Também a encarei.

Como esse impasse já estava durando o bastante para me incomodar, movendo-me com lentidão máxima, fui me aproximando da moto, que estava no meio da estrada. A vaca, mais uma vez, ameaçou se aproximar de mim. Estávamos a uns cinco metros um do outro.

A partir daí, qualquer movimento mínimo que eu fizesse era razão para que ela esboçasse partir de vez para me atacar. Tentando fingir uma calma que estava longe de ser verdadeira, continuei, imóvel, encarando o bicho, que me encarava de volta.

Assim ficamos por uns cinquenta segundos, suponho. Foi quando escutei barulho de motor. Olhando de canto de olho para a esquerda, vi que um outro motociclista de aproximava. Tentando não assustar a vaca, fiz gesto com o braço esquerdo para que ele parasse.

Devido ao lugar em que ele parou, fiquei entre ele e a vaca. Eu disse a ele que me esperasse até eu tentar montar na moto, dar a partida e arrancar. Pedi a ele que não desligasse a moto dele e que estivesse pronto para arrancar súbito se preciso.

Ele, um senhor, que parecia ter as manhas com essas ocasiões, disse que as vacas podem ser perigosas, principalmente se estiveram com bezerro. Só então é que me dei conta de que havia um bezerro por perto. Focado nas seriemas, eu não o tinha visto.

Pé por pé, fui me aproximando da moto, sem tirar o olho da mãe vaca. Montei. Não sei se é delírio, mas tive a impressão de que o bovino ameaçou outra vez me atacar. Com o coração acelerado, dei a partida. 

Segundos depois, diminuí a velocidade. Eu e o senhor gesticulamos um para o outro; ele seguiu viagem. No afã de me ver livre da situação, eu nem colocara o capacete. Parei a moto, coloquei o capacete e segui pela estrada. A foto desta postagem foi uma das que consegui. 

DE OLHO

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

"HISTÓRIAS CRUZADAS"

Preste atenção: pare de ler este texto a-go-ra e vá assistir a “Histórias cruzadas” [The help, 2011], do diretor Tate Taylor, que também é o autor do roteiro. O filme é baseado no livro “The help”, de Kathryn Stockett.

Emma Stone é Skeeter Phelan, uma jovem de vinte e poucos anos que sonha em ser escritora. Voltando da faculdade, a princípio descola emprego para redigir uma seção sobre dicas culinárias num pequeno jornal na pequena Jackson, Mississippi, no começo da década de 60.

É quando decide contar em livro a história dos negros, em especial das empregadas domésticas negras, da cidade em que vivia. Para sua história, Skeeter quer saber o que elas têm a dizer sobre o contexto de racismo insano e desumano com que conviviam no dia a dia.

A princípio, convence Aibileen Clark (Viola Davis) a contar sua história. Depois, Minny Jackson (Octavia Spencer) também decide relatar sua experiência a Skeeter. Mas a editora em potencial do livro quer mais depoimentos...

Tate Taylor fez um trabalho primoroso na direção e no roteiro. Além disso, os estupendos talentos de Viola Davis e de Octavia Spencer conferem ao filme interpretações que acertam no tom: elas não pecam pelo excesso (que poderia levar à pieguice) nem pela frieza (que poderia não dar a dimensão do quanto suas personagens sofrem).

Sem cair em maniqueísmos bobos, “Histórias cruzadas” aborda a nevrálgica questão do preconceito racial, com suas contradições e abusos. Ainda assim, a despeito da realidade barra-pesada que retrata, há espaço para a poesia e para o humor.

A gente fica melhor depois de assistir a algo como “Histórias cruzadas”. Reitero: se eu fosse você, abandonava de uma vez por todas e para sempre este texto e saía agora em disparada, triunfante, libertadora e catártica carreira em busca do filme. Enquanto isso, deixem-me correr atrás do livro de Kathryn Stockett. 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

DA NATUREZA

Não sei até quando a natureza, tal como é, vai resistir a nós. Mas ela ainda é pródiga. Há tamanhos e cores em abundância. Generosa em qualquer época do ano, parto rumo à natureza quando saio para fotografar. 

Não bastasse sua magnanimidade, o que, por si, já justifica minhas incursões, estar em meio à natureza é estar mais próximo do que sou: mesmo sem saber com exatidão o que sou, sou também natureza. Visitá-la é me visitar.










domingo, 26 de janeiro de 2014

DA INSPIRAÇÃO

Acredito na inspiração, mas não na inspiração no sentido romântico ou na inspiração como uma espécie de visita que recebemos de alguma “entidade”. Acredito na inspiração como um processo mental, feito de sinapses e outros processos cerebrais. Não concebo a inspiração num cérebro que não se exercita. 

BELADONA



ÀS QUATRO

O outono ventila ideias.
Tu quebras o gelo, 
concebes primaveras.
As flores verão.

CONTO 68

Acossado por notas musicais, Josias lamentou ter o ouvido absoluto. Em atitude inapelável, pensou ter achado solução, cortando a orelha. Ao jogá-la fora, ela caiu sobre uma chapa de metal. De imediato, Josias reconheceu um mi. 

POLÍTICA E FUTEBOL

A política, do modo como é feita, acaba se tornando um mundo nebuloso, em que aos eleitores chegam apenas as sombras do que ocorre de fato no jogo político. Nesse universo amorfo e escuso, é sempre bom quando alguém torna o óbvio público ou fala aquilo que parte da população diz nas conversas que mantém.

Recentemente, Francimar Rosa dos Santos, o Ditinho (em quem não votei), renunciou ao cargo de vereador, alegando necessidade de cuidar da mãe doente. Mas o que me chamou muito a atenção na matéria que li no Patos Hoje foi o ex-jogador, de acordo com sítio de notícias, ter feito alusão aos dois grupos políticos da cidade.

Cito a notícia veiculada no Patos Hoje: “Ele [Ditinho] se mostrou decepcionado com a política. Ele disse que teve muita dificuldade na Câmara Municipal. Sem citar nomes, reclamou das pessoas que só veem o lado pessoal e criticou os dois grupos políticos que não se entendem e acabam prejudicando o desenvolvimento da cidade”. Pena ele ter dito isso depois de ter saído da partida.

É sempre saudável haver oposição, não importa se “a” ou “b” esteja no poder, mas ser oposição não implica apagar o beabá da política, que é buscar o bem comum. Do modo como a política tem sido feita por aqui há décadas (e não só por aqui), o que há não é oposição, mas, sim, patuscadas que acabam atravancando a melhora da terra dos Patos de Minas. 

QUEBRANDO O GALHO

MESSIAS

Não há messias lá fora.
O messias és tu.
Sê teu silencioso messias. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

IMAGEM E PALAVRA

Em mim, 
o que não se torna 
palavra se torna imagem.

Se o mundo não se torna 
nem isso nem aquilo, 
não me torno nada. 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

"AS SESSÕES"

Sim, assista ao filme “As sessões” [The Sessions], do diretor Ben Lewin, que também é o roteirista. O filme é de 2012; estrelado por Helen Hunt, no papel de Cheryl, John Hawkes, que interpreta Mark O’Brien, e William H. Macy, que faz o padre Brendan.

O filme é baseado em fato real. Para o roteiro, o diretor se valeu também de artigo de Mark O’Brien, intitulado “On Seeing A Sex Surrogate”. O’Brien contraiu poliomielite aos seis anos e teve de passar boa parte de sua vida confinado a um pulmão de aço. Com trinta e seis anos, ainda era virgem.

Tendo sido criado em tradição católica, O’Brien, contudo, tem interesse em perder a virgindade. Embora privado de boa parte dos movimentos, o corpo dele preservara alguma sensibilidade. Ademais, ele tinha ereção. Só que a educação religiosa que havia recebido o deixava com sensação de pecado. É quando procura o padre Brendan, interpretado por William H. Macy.

O padre, por assim dizer, autoriza O’Brien, dando-lhe carta branca para que ele perdesse a virgindade mesmo sem ser casado. É quando entra em cena Cheryl, interpretada por Helen Hunt. Ela era uma terapeuta sexual, mas contratada para lidar com pacientes que tinham sérios problemas sexuais. 

É um filme bonito e engraçado. Em momento algum descamba para o dramalhão, em parte pelo senso de humor de O’Brien, que tem tiradas hilariantes: quando perguntado se ele acreditava em Deus, ele disse que obviamente acreditava, pois era preciso ter alguém para culpar.

O diretor soube dar o tom exato, pois o humor de O’Brien não desemboca em comiseração constrangedora de si mesmo. Ele sabe rir de sua condição, mas não há, contudo, um travo, não há ressentimento. O que há é justamente o contrário: ele quer viver, ele pulsa, ele quer saber o que é o sexo.

Não bastasse tudo isso (o que já não é pouco), há no filme outra questão muito instigante, que é a maneira como as pessoas lidam com os próprios corpos. Graças à ajuda de Cheryl, O’Brien vai tendo uma compreensão maior do que é o seu corpo e dos prazeres que ele pode ter, a despeito do sentimentos de culpa que ele tem e de sua deficiência física.

Um filme adulto, poético, com direção impecável e atuações estupendas de Hunt, Hawkes e Macy. Alguém disse (Borges?) que é inútil, senão impossível, separar o corpo da alma. Enquanto eu assistia ao filme, eu me lembrei dessa frase. O debilitado corpo pode ser fonte de felicidade.

Como dito acima, o roteiro de Lewin é baseado na vida de Mark O’Brien e no artigo dele cujo título também está acima. O’Brien também escreveu versos. Alguns poemas dele podem ser lidos aqui. Já o artigo em que também se baseou o roteiro do filme está disponível aqui.

Embarcando no clima, li o artigo do O’Brien em que o filme se baseou. Recomendo. Percebe-se pelo artigo que diretor e produtores respeitaram a essência da personalidade do cinebiografado. Tomam liberdades, mas elas não deturpam nem o humor nem o tom do que ele escreveu. Vale dizer por fim que o filme tem algo que também está no artigo de O'Brien: a benéfica desmistificação (não a banalização) do sexo. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

PAI E FILHO

— Pai, quantas estrelas o Universo tem?
— Algumas.
— Algumas? Isso é muito?
— Hum, digamos que é um tanto bom.
— São todas essas que a gente vê daqui?
— São todas essas e mais todas as outras que a gente não vê.
— Nossa! Quer dizer que existem estrelas que a gente não vê?!
— Sim, existem.
— Mas das que a gente vê, são quantas?
— Um tanto bom.
— Um tanto bom é quanto?
— Não sei exatamente.
— Mas dá pra contar?
— Dá, mas ia demorar.
— Muito?
— Muito.
— E o número das que a gente não vê é maior do que o número das que a gente vê?
— Ué, meu filho, certamente que sim.
— Poxa! É muita estrela pra contar, não? Alguém conta?
— Creio que sim. Acho que os cientistas contam. Ou fazem estimativas.
— O que “estimativa”, pai?
— É quando não sabem com certeza um número, mas com base num pedaço do céu, supõem quantas estrelas existem nos outros pedaços. É por aí.
— Acho que entendi.
— Você gostaria de estudar as estrelas?
— Acho que sim.
— Então você pode ser um astrônomo.
— Mas seria possível visitar uma estrela?
— Não. Nesse caso você teria de ser um astronauta.
— Os astronautas visitam as estrelas?!...
— Bom, a rigor, não. Eles saem um pouco da Terra. Já tá bom, não?
— É, parece que sim.
— É melhor ser astrônomo ou astronauta?
— É melhor ser aquilo que você quiser ser.
— Mas eu não sei o que eu quero ser.
— Não se preocupe: eu também não sei.
— Sério?!
— Sério.
— Eu queria ser uma estrela. Se eu fosse uma estrela, você iria me visitar?
— Ora, você está aqui: não preciso ir tão longe. Você é minha estrela.
— As estrelas são apagadas um dia?
— Sim. Elas se apagam um dia.
— Mas você disse que sou sua estrela. Quer dizer que vou me apagar um dia?
— Hum... vai.
— Você também vai ser apagado?
— Vou.
— Quando?
— Não sei.
— E ser apagado é bom?
— Não sei.
— Hum... E quem sabe?
— Não sei de ninguém que saiba.
— Nem as estrelas?
— Nem as estrelas. 

domingo, 19 de janeiro de 2014

RELAMPEJANDO

Fotografar relâmpagos é projeto acalentado há tempos. Há pouco, chegando em casa, vi que talvez seria possível fotografar os que estavam se manifestando acima do horizonte. Corri aqui dentro, peguei a câmera, uma cadeira e um banquinho (cadeira e banquinho para substituírem o tripé). Peguei também um livro, em que apoiei a câmera.

Se o cenário não é o ideal para mim (eu sempre quis fotografar relâmpagos sem interferência urbana), ainda assim foi possível tirar algumas fotos. O tempo de exposição da imagem postada aqui foi de quinze segundos; isso significa que a câmera ficou tirando a foto durante esse tempo. Daí o uso da cadeira e do banquinho, para que a imagem não ficasse tremida. 

"ORAÇÕES PARA BOBBY"

“Orações para Bobby” [Prayers for Bobby], de 2009, do diretor Russell Mulcahy, relata a princípio a convivência entre Bobby (Ryan Kelley) e Mary Griffith (Sigourney Weaver). Bobby é filho de Mary; ela, por sua vez, não aceita, devido à intolerância religiosa, que o filho seja homossexual. O livro é baseado em livro homônimo de Leroy Aarons.

A intolerância de Mary se deve à educação religiosa igualmente intolerante que recebera. O filme é um daqueles que se iniciam com uma determinada cena. Há um corte e depois volta-se no tempo. Assim, fiquei com a sensação de que a cena inicial seria a última, o que não é o caso. Na metade do filme, completa-se a cena inicial.

O enredo conta história ocorrida entre o fim da década de 70 e o começo da de 80. Até a metade da película, o foco é sobre o drama de Bobby, que se sente um pária devido à homossexualidade, e a convivência dele com a mãe, que chega a dizer para ele que se recusava a ter um filho homossexual. Na segunda parte da história, o foco é sobre a trajetória de Mary.

“Orações para Bobby” detalha manifestações de preconceito no dia a dia, na convivência familiar. Nas miudezas do cotidiano, Bobby vai sendo massacrado pela rigidez da mãe. À maneira dela, é amor o que ela sente. Mas um amor que, paradoxalmente, em virtude de preconceitos herdados, em vez de criar, destrói.

Não bastasse a história por si, pela qual o filme vale a pena, a atuação de Sigourney Weaver é excelente. Graças ao trabalho dela, não há como ficar indiferente a Mary, que pode causar repulsa e, posteriormente, admiração; ou, dependendo de quem assistir, admiração e, posteriormente, repulsa. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

MUNDO

Gosto da palavra “mundo”.
Ela pode ser todo mundo.
Pode ser o planeta.
Pode ser o mundo de alguém.
Pode ser um mundo de coisas.

Há quem se feche em seu mundinho.
Há quem se interesse pelo mundão sem fim.

“Mundo” é palavra gostosa de falar.
A rima não é solução, Raimundo.

De tempos em tempos, 
marcam data para o fim do mundo,
sejam os crédulos, os puros, os imundos.