segunda-feira, 2 de agosto de 2021

A rocha, o vendaval, a onça sem fome


Há dias, recebi um vídeo, que, tenho a impressão, é montagem. Nele, uma escavadeira, sem intenção de, deixa uma rocha descer uma encosta. Segundos depois, a rocha se aproxima de um carro azul. Nesse momento, o espectador tem dimensão abrangente do tamanho da rocha; ao que parece, ela vai esmagar carro e motorista, que buzina. A rocha para ao lado do carro, tocando-o de leve. Nesse momento, o vídeo termina, com uma voz masculina comentando: “Nossa Senhora! Se essa mulher não buzina, a pedra não tinha parado, não”.

Não sei como a voz sabia que era uma mulher que estava dirigindo (pode até ser que nem houvesse motorista dentro do carro, tendo o barulho de buzina sido acrescentado depois, em edição), não sei onde o fato teria ocorrido, não sei quando teria ocorrido. Sendo peça de ficção ou sendo um breve registro do que estava diante da câmera do celular, o vídeo vai além do divertido comentário feito pelo homem, mesmo já valendo a pena pelo humor que tem.

Antes de eu comentar sobre o alcance não apenas humorístico do vídeo, ele me remeteu a uma montagem fotográfica que me enviaram há alguns anos. No registro aéreo, feito com grande angular, havia uma série de casas de madeira destruídas, quem sabe, por um vendaval, por um tornado ou por algo assim. Em meio aos destroços, intacta, incólume, altiva, orgulhosa, bem no meio do quadro fotográfico, uma única casa. Claro que a inverossimilhança, nesse caso, não é problema. A imagem vale não pelo caráter de realidade com que não se preocupou (nem tinha de se preocupar), mas pelo que ela prega: além da foto, havia uma frase de cujas palavras não me lembro com exatidão. Eram mais ou menos assim: “O Senhor protege a casa do que tem fé” (o que nos leva a concluir que, na fotomontagem, os que estavam nas casas derrubadas não tiveram fé ou não a tiveram, talvez, o bastante — não sei se a fé tem gradações ou se é algo absoluto).

Tanto o vídeo quanto a foto ilustram a crença de que ações ou rogos humanos têm poder de interferir no curso dos acontecimentos ou da natureza, como se os acontecimentos se importassem com a gente, como se a natureza se importasse com a gente. Certa vez, um amigo comentou que, esperando por um ônibus num abrigo, em estrada de roça, percebeu uma onça atravessando o caminho. Ela olhou para ele por um ou dois segundos; logo após, foi embora. Conclusão do amigo: “Ela não estava com fome nem tinha filhotes com fome”.

Se o felino estivesse com fome ou se os filhotes dele estivessem com fome, o amigo poderia ter sido uma opção no cardápio. Não passariam pela cabeça do bicho coisas como “Fulano é gente fina, é um professor responsável, é dedicado pai de família. Vou poupá-lo”. Um vendaval ou um furacão destrói indiscriminadamente, sem levar em conta a fé das pessoas ou sem levar em conta se o cidadão já quitou a última prestação da casa. Uma rocha despencando pela ribanceira não vai mudar o trajeto nem vai parar de rolar por causa de uma buzina, que pode ter sido acionada num reflexo (o que não mudaria a trajetória da rocha).

A natureza é indiferente a prédicas, a apelos, a orações. O homem a modifica não por intermédio do que diz ou do que pensa, mas por meio do que desmata, do que polui, não importa o nome que se dê (desespero na hora do aperto, reflexo, fé) no instante em que alguém roga ou buzina na intenção de modificar a física, a química, a biologia. Do mesmo modo que nada intervirá a favor da zebra no momento em que o leão estiver a centímetros do pescoço dela, nada interferirá a nosso favor quando uma onça faminta ou que se sente ameaçada estiver a centímetros de nos abocanhar. Se nos safarmos, não terá sido por causa de algumas palavras proferidas nem por causa de uma buzina a percorrer o espaço com desespero. A natureza teria sossego se o homem, sempre tão preocupado com o próprio umbigo, se contentasse com proferir palavras ou com buzinar. 

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