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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

A Outra Terra


Uma obra-prima não tem de necessariamente lidar com um grande tema. Trivialidades podem ser o substrato de um monumental trabalho. Não é, pois, a temática que define o que é ou o que não é uma obra de arte. O que define isso é o modo como o artista desenvolve a temática de que decide se ocupar. Todavia, o grande artista não tem medo de enfrentar uma grande temática. A Outra Terra (2011), é uma obra-prima com uma grande temática. 

Dirigido por Mike Cahill e roteirizado por ele e por Brit Marling, que é a atriz principal da produção, A Outra Terra é um filme de ficção científica. Como todo grande filme de ficção científica, está preocupado nem tanto ou não exclusivamente com os desígnios do Universo, embora isso possa perpassar em filmes de ficção científica, mas com o que é essa coisa que chamamos de ser humano. Tanto é assim que o roteiro, ao mencionar biólogos, afirmando que cada vez mais estudam coisas cada vez menores, e astrônomos, afirmando que cada vez mais estudam coisas cada vez maiores, cogita a ideia de que talvez o grande mistério seja o bicho homem visto de perto, o que, sim, acaba remetendo a Caetano, com o famoso verso “de perto, ninguém é normal. 

Diante do Universo, a simples sugestão de que talvez sejamos o que há de mais complicado que há nele soa arrogante; ainda assim, nada mais humano do que a arrogância. Se não arrogância, nada mais humano do que a constatação de que medimos tudo quanto há a partir dessa coisa que somos, como já preconizava o sofista Protágoras: “O homem á a medida de todas as coisas”. A preocupação de A Outra Terra somos nós (dessa linhagem, A Chegada (2016), de Denis Villeneuve, e Love (2011), de William Eubank, são outros belos exemplos).

Nos primeiros oito minutos de A Outra Terra já sabemos que Rhoda Williams [Brit Marling] carregará consigo o peso da culpa. Dirigindo bêbada após sair de uma festa em que celebrava a aprovação no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Rhoda bate num carro e mata quase todos os integrantes de uma família. O sobrevivente é John Burroughs [William Mapother], compositor prestigioso que entrou em coma depois do acidente. Tendo “acordado”, leva, sem a esposa e sem o filho, mortos na colisão, uma vida deseixada. Já Rhoda, saindo da prisão após quatro anos, procura John na intenção de dizer a ele que ela é a motorista que causou a morte da família de John (quando do acidente, Rhoda era menor de idade — tinha dezessete anos —, e, pela lei então vigente em Connecticut, embora com autorização legal para dirigir, o nome dela, por ela ser menor, não foi divulgado para a sociedade nem revelado a John).

Só que Rhoda fraqueja, vacila, desconversa. Uma carreira brilhante na astronomia havia sido interrompida depois que ela matou a família de John. Agora, lutando para se desculpar diante dele, ela carrega consigo o peso da culpa, ao mesmo tempo em que deseja a redenção. Tem-se na culpa a grande temática de A Outra Terra (outro filme que aborda essa temática é o também brilhante O Operário (2004), de Brad Anderson). Os encontros com John vão se amiudando, Rhoda vai seguindo sem coragem de contar a ele que ela estava dirigindo o carro na noite do fatal acidente. John, por sua vez, vai recobrando o ânimo, passa a se envolver novamente com a música; a casa dele, que no começo do filme era escura, passa a ter janelas abertas, a luz solar vai dourando o ambiente, conferindo a ele ideia de calidez, de aconchego. Numa cena plena de significados, John pega um telescópio para observar a outra Terra: as janelas da casa de John estão abertas para enxergar o exterior e para receber o que o lado de fora tem a oferecer. O lado de fora trouxe o Sol, trouxe Rhoda.

(A despeito da poeticidade da cena, vale dizer, não em nome do preciosismo, mas da verossimilhança mesmo, que John, com um telescópio caseiro, viu consideráveis detalhes da outra Terra. O filme se passa numa época em que poderosos telescópios já eram feitos pelo homem. Assim, seria possível ter uma visão muito mais precisa da superfície do planeta. Isso poderia ter sido considerado, ainda que levasse, consequentemente, a um enredo diferente do que se tem, mas com as mesmas implicações caso fizessem questão delas.)

Enquanto trabalha na limpeza de uma escola de ensino médio e realiza gestos da mais tocante ternura, quando, por exemplo, vai visitar, no hospital, Purdeep [Kumar Pallana], seu colega de trabalho, Rhoda é pressionada por si mesma a contar para John o que ela causou à família dele. Ela quer se redimir, está mesmo arrependida; sabe que para ter paz na consciência, precisa escancarar para John que ela era a motorista do carro no dia em que a família dele morreu.

Os desdobramentos filosóficos de A Outra Terra são instigantes: o que seríamos não fossem nossas culpas? e se houvesse um lugar em que uma versão de nós sem nossos erros existisse? o que é, de fato, encontrar-se consigo mesmo? o que é se achar? o que faríamos se nos achássemos?... Como seria cada um sem o seu “inferno” pessoal?... Na falta de respostas, olhemos para nós, abramos portas e janelas, observemos o céu. Que não haja um cometa se aproximando da Terra em rota de colisão. 

domingo, 20 de agosto de 2017

Love

A arte ruim explica tudo. Isso não quer dizer que a arte boa não explique nada. Precisamente por ser arte, ela não tem a obrigação de explicar, mas, é claro, precisa fazer algum sentido. Quando li a sinopse de Love (2011), disponível na Netflix, eu me interessei pelo filme. Comecei a assisti-lo numa madrugada qualquer. O sono veio. Deixei para assistir numa outra ocasião.

Terminei há pouco. Love é humanista, a despeito da cara de ficção científica que tem. Funciona como um filme de ficção científica, mas como toda obra de arte boa, não importa o gênero nem o meio de que se valha, encerra uma verdade humana. Love explica pouco e sugere muito. Todavia, o que é sugerido autoriza algumas possíveis conclusões ou interpretações.

William Eubank é diretor e roteirista do filme. Lee Miller [Gunner Wright] é astronauta e está na estação espacial quando perde contato com a Terra. A partir daí, ele tenta, no ambiente claustrofóbico em que está, preservar a sanidade. A certeza do não contato com a Terra é definitiva quando é sugerido que um evento catastrófico dizimou a humanidade. Miller, na órbita do planeta em que nascera, é o último humano.

Em determinado momento, ele se depara com um livro, que é o diário de um soldado que havia lutado na Guerra de Secessão, nos EUA. Tendo recebido autorização para abandonar seu regimento, o soldado deixa o campo de batalha com a missão de investigar um estranho objeto numa cratera.

À medida que eu ia assistindo ao filme eu ficava me perguntando como o roteiro amarraria eventos tão dispersos entre si. Na abertura, há imagem da Terra, mostrada parcialmente; logo a seguir, cenas da guerra civil americana; pouco minutos depois, o espectador está novamente no espaço (esses momentos iniciais acabaram me remetendo àquele imenso corte temporal de 2001: uma odisseia no espaço, quando um osso arremessado por um símio se “torna” uma nave no espaço). Enquanto Miller tenta manter-se racional na estação espacial, há cenas de pessoas dando testemunhos simples sobre vivências que tiveram. Nos minutos finais do filme, tudo isso faz sentido (ou parece fazer).

Os átomos de que cada um é feito são os átomos de toda a humanidade, de tudo o que existe. Em seu desfecho, é como se Love fosse a versão imagética das belas sugestões de Walt Whitman, as quais afirmam que cada um é todos os outros. Não bastasse a beleza disso por si, a poética e bonita sequência final do filme relativiza o micro e o macro, além de mergulhar o homem numa poderosa beleza atômica e universal.