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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Amores vaidosos

Stendhal (1783-1842), logo no começo de seu “Do amor”, enumera quatro tipos de... amor. Um deles, ele chama de “o amor de vaidade”. Sobre ele, escreve, segundo tradução de Roberto Leal Ferreira: “A imensa maioria dos homens, sobretudo na França, deseja e tem uma mulher da moda, assim como se tem um belo cavalo, como algo necessário ao luxo de um rapaz”. (1)

Outro francês muito agudo ao analisar os meandros do amor foi Choderlos de Laclos (1741-1803), que, no monumental “As relações perigosas”, mostra com sutileza a questão da vaidade. Só que o ensaio de Stendhal e o romance de De Laclos, embora lidem com a vaidade, fazem-no com diferentes abordagens.

No texto de Stendhal, a vaidade se concretiza na exibição pública da conquista. Já em “As relações perigosas”, o sórdido jogo entre o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil, os personagens centrais do romance, faz com que ele, por vaidade, não admita que ama a Presidenta de Tourvel, mulher que tanto lutara por seduzir.

Em Stendhal, embarca-se na vaidade para se exibir um amor; em De Laclos, para se ocultar o amor que se tem. Na trama do romance, a marquesa, em mais uma de suas maquinações, havia garantido que Valmont não era capaz de seduzir a Presidenta de Tourvel. Ele obtém sucesso. O que ele não esperava é se apaixonar por ela. Em nome da vaidade, a fim de tentar desmerecer os cruéis gracejos da Marquesa de Merteuil, nega o amor que grita dentro dele.

Stendhal desdenha dos que, por vaidade, exibem em público o amor como mercadoria; De Laclos investiga um espírito que, por vaidade, esconde o amor que de fato sente. Em um, a vaidade tentando fazer crer que o que se tem é amor; em outro, a vaidade tentando fazer crer que o amor que se tem é só mais uma conquista para o rol de eficaz sedutor.
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(1) STENDHAL. Do amor. Tradução de Roberto Leal Ferreira. São Paulo. Martins Fontes.1993. Pág. 4. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

CONTO 83

Maciel sempre relê “As relações perigosas”. Desde a primeira leitura, marca com chave, o sinal adotado na matemática, os trechos de que gosta. A cada releitura, novas marcações. Veio o tempo em que não sobrara nenhuma linha ou nenhum trecho sem chave. Há pouco, Maciel começou a ler o livro outra vez. Já inseriu o primeiro colchete. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

COMO SEMPRE, "AS RELAÇÕES PERIGOSAS"


Que a vida me dê a chance de reler e reler “As relações perigosas”, de Choderlos de Laclos. É fascinante como o livro consegue ser, ao mesmo tempo, um tratado do amor e do desamor. Como numa moeda, ao esmiuçar o amor de um lado, deixa-nos deduzir o desamor do outro; ao detalhar o desamor de um lado, deixa-nos concluir o amor do outro. Amor e desamor em homens, mulheres e jovens.

“As relações perigosas” é um monumento à linguagem, à fina observação do amor e dos estratagemas que podem ser usados por homens e mulheres ao lidar com ele. Um monumento triste, denso, intenso, lancinante. Um monumento que reflete o quanto de amor e de desamor somos capazes de engendrar.

Eu já havia lido uma edição que tem a tradução de Carlos Drummond de Andrade, numa parceria Ediouro/Folha de S.Paulo. A edição que estou lendo agora é uma outra parceria, desse vez entre a Penguin/Companhia das Letras. A tradução é de Dorothée de Bruchard. O tom de Bruchard é menos solene do que o de Drummond: se ela, por exemplo, prefere o “você”, Drummond opta pelo “vós”. 

segunda-feira, 18 de julho de 2011

MAIS SOBRE "AS RELAÇÕES PERIGOSAS"

Pessoas, recentemente, em programa de TV local, comentei o livro “As relações perigosas”, de que já falei neste blogue. Caso queiram assistir ao breve comentário, gentileza clicar aqui.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

AINDA "AS RELAÇÕES PERIGOSAS"

Assisti a uma das adaptações do livro “As relações perigosas” para o cinema. A trama de Choderlos de Laclos já esteve nas telas em 1959, sob responsabilidade do diretor Roger Vadim; em 1989, pelas mãos do diretor Milos Forman; em 1999, em trabalho do diretor Roger Kumble; e em 1988, sob direção de Stephen Frears.

“As relações perigosas” foi o primeiro filme que Frears dirigiu em Hollywood. Os cenários são suntuosos e o figurino é impecável – a película levou Oscar de melhor figurino e melhor roteiro adaptado, escrito por Christopher Hampton. Esse roteiro cinematográfico é adaptação de peça teatral escrita pelo próprio Hampton.

É importante ressaltar que no poderoso livro de Laclos, a trama vai se desenvolvendo por intermédio de cartas. Trechos dessas cartas compuseram a base dos diálogos no roteiro de Hampton. Como sempre, as comparações entre livro e filme são inevitáveis, mesmo tendo-se em mente que cinema e literatura são diferentes meios de expressão.

Antes mesmo de começar a assistir ao filme, fiquei pensando nas saídas que diretor e roteirista teriam pensado ao levar para a tela o universo de Laclos. Eu estava curioso para saber como confeririam densidade aos personagens do livro.

É que Laclos não tem pressa. As seduções a que se dedicam a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont são lentas, calculadas, malévolas e devastadoras. Eu não diria que eles não têm a capacidade de amar. São capazes de amor (contudo, o próprio Laclos escreveu em carta para uma amiga que a Marquesa de Merteuil era incapaz de amar), embora a própria marquesa vaticine, na tradução de Carlos Drummond de Andrade: “Aonde nos conduz, pois, a vaidade! Tem toda a razão o sábio, quando diz que ela é inimiga da felicidade”.

O Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil frequentam requintados ambientes e têm um diabólico poder de sedução. Ambos sabem jogar, exercem com elegância e inteligência o encanto que sabem que têm. Conhecem suas qualidades e conhecem o sexo oposto. Tramam, mentem.

Já Cécile Volanges é adolescente, ingênua demais. Presa fácil nas teias do conde e da marquesa. Outra personagem, a Presidenta de Tourvel, casada e fervorosa católica, bem poderia ser a redenção do amor, mas também sucumbe à perversidade dos dois. O próprio Laclos escrevera a uma amiga: “O quadro que eu pinto é entristecedor, concordo, mas é verdadeiro”.

Frears levou para a tela a personalidade dos atores principais. Contudo, as duas horas de filme obrigam o diretor a condensar, a cortar, a ser rápido. Em alguns momentos, chegou a me ocorrer que eu acharia a trama confusa caso não tivesse lido o livro, que nos oferece maior possibilidade de tempo de convivência com os personagens e com o enredo. Sou naturalmente lento ao acompanhar enredos intrincados, e por vezes achei meio confusa a trama no filme – o que não me ocorreu no livro.

Nada sei da peça teatral que foi adaptada para que o filme fosse realizado. Mas como se trata de uma produção rodada em Hollywood, penso ter havido uma série de pressões por parte de estúdio, produtores etc para que a história se tornasse um pouco mais palatável.

No filme de Frears, há uma espécie de discurso do visconde (John Malkovich), já no fim, que me soou muito redentor. O destino da marquesa (Glenn Close) no filme, embora vexatório, é menos trágico do que o destino que lhe cabe no livro.

Claro que tenho em mente que adaptações e ajustes têm de ser feitos, pois que cinema e literatura são linguagens diferentes. À parte isso, o filme não alcança a perversidade e a amarga ironia que o livro tem. Quando os créditos começaram, fiquei pensando no fim comportadinho, digamos assim, do filme, mesmo levando-se em conta o destino trágico de uma personagem virtuosa como a Presidenta de Tourvel.

Com outras palavras: terminado o filme, fica-se com aquele pensamento simplista, a que me referi em postagem anterior sobre o livro de Laclos, de que os maus serão punidos. A despeito dos destinos trágicos da marquesa e do visconde, insisto na ideia de que o livro é profunda e tristemente irônico e sarcástico.

Não somente por causa do personagem Prévan (a que também fiz referência na postagem sobre o livro), que está ausente do filme, mas também pelo prefácio fictício que compõe a obra de Laclos. Nesse prefácio, um editor afirma que falta verossimilhança às cartas, chegando a escrever: “Com efeito, muitas personagens postas em cena têm tão maus costumes que é impossível supor hajam vivido em nosso século; neste século de filosofia, em que as luzes [o livro foi publicado no século XVIII, o século do Iluminismo], espalhadas por toda parte, tornaram, como se sabe, todos os homens tão honestos e todas as mulheres tão modestas e reservadas”.

Tudo muito cínico e tragicamente hilariante. Seria o mesmo que eu criar personagens com "tão maus costumes", valendo-me das palavras do prefácio, vivendo em Patos de Minas e inventar eu mesmo um prefácio dizendo que obviamente o autor se engana, pois que numa cidade tão civilizada como a Patos de Minas de hoje não há maus costumes, não há vaidade. Faltou ao filme esse cinismo.
Ainda no elenco, Michelle Pfeiffer (que faz a Presidenta de Tourvel), Uma Thurman (no papel de Cécile Volange) e Keanu Reeves (como o Cavaleiro Danceny).

sexta-feira, 12 de junho de 2009

"AS RELAÇÕES PERIGOSAS"

Terminei de reler hoje o estupendo e imprescindível “As relações perigosas”, de Choderlos de Laclos.

Pierre-Ambroise Choderlos de Laclos nasceu em Amiens, na França, no dia 18 de outubro de 1741. Morreu em outubro ou novembro de 1803 (há divergências entre os biógrafos quanto ao mês).

Durante boa parte de sua vida foi oficial do regimento francês. Envolveu-se com política – foi preso por causa disso. Construiu fortificações. Segundo biógrafos, teria sido excelente marido. Hoje, não é lembrado por nada disso. Tornou-se conhecido por conta de “As relações perigosas”.

O livro foi publicado em 1782. Antes, o autor já se aventurara em versos de ocasião e numa peça teatral, “Ernestine”, que foi um fracasso.

A trama do romance de Laclos se desenvolve por intermédio de cartas. À medida que vamos lendo as missivas, vamos tomando conhecimento do caráter pérfido de dois dos personagens centrais: o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil.

A edição que tenho do livro tem a tradução de Carlos Drummond de Andrade. Em posfácio, o poeta escreve um breve relato sobre a vida de Laclos, bem como faz alguns comentários sobre “As relações perigosas”. Escreve Drummond que o livro “depõe contra o tempo, mas principalmente depõe contra a natureza humana”.

De fato. Em linguagem extremamente elegante e requintada, as peripécias cruéis do Visconde de Valmont e da Marquesa de Merteuil vão sendo executadas. Não há um único palavrão no livro, que, ainda assim, explicita a conduta sexual dos personagens, bem como seus hábitos. A linguagem é primorosa, mas o que é narrado é reles.

É um livro cruel e sem amor. Poder-se-ia argumentar que a boa moral e os bons costumes prevalecem, levando-se em conta o que ocorreu com o Visconde de Valmont e com a Marquesa de Merteuil. Parece haver no fim uma moral bastante clara: os maus serão punidos.

Contudo, não vejo assim. Não concordo com o pensamento de que o livro se insere na dialética do mal contra o bem e que este vai triunfar. A obra é mais relativa e tênue do que isso. O fim do livro, em meu entendimento, é de um cinismo absoluto.

Laclos quase faz com que caiamos na armadilha de que o livro “prova” que a maldade será punida, seja de que modo for. Contudo, há um personagem que pouco aparece, mas que em minha opinião destroi a ideia de que “As relações perigosas” é um livro moralista: trata-se do personagem Prévan.

Ele é tão canalha quanto o Visconde de Valmont. Tão pérfido quanto a Marquesa de Merteuil. Lá pelo meio do livro, Prévan aparece, muito rapidamente, e é logo vítima de mais um dos ardis da marquesa. É então ridicularizado nos salões aristocráticos, sendo por fim banido da sociedade. Já nas últimas páginas, volta e é ovacionado.

O retorno triunfal de Prévan dá ao livro um tom profundamente sarcástico, zombeteiro e triste. Ao trocar o Visconde de Valmont por Prévan, a sociedade estava trocando um canalha por outro. Ou ao trocar a Marquesa de Merteuil por Prévan, essa mesma sociedade estava trocando a vileza pela vilania.

Recomendo com fervor a leitura de “As relações perigosas”. Leiam esse livro. Pelo brilhantismo da linguagem (segundo o próprio Drummond, “como escrevia bem esse danado”, referindo-se a Laclos), pelas finas e sofisticadas observações sobre o amor e sobre as diferenças entre o homem e a mulher, pelo teatro social, pelo mesquinho jogo de sedução empreendido pelo Visconde de Valmont e pela Marquesa de Merteuil. E pela atualidade. Sim: pela atualidade.

Se fosse escrito hoje com a mesma estrutura, penso que não haveria cartas na trama, mas, certamente, e-mails. Contudo, as mesmas paixões, encantos, decepções, maldades, sonhos, tramas, amores e mentiras estariam presentes nesses e-mails.

Entretanto, minhas recomendações estão obviamente aquém do que é o livro. Como todo livro necessário, ele não se esgota, ele se mostra mais rico com o passar do tempo, mais profundo. Há onze anos eu o li pela primeira vez; hoje terminei uma segunda leitura. Quero que outras venham.

É minha intenção comentar em breve uma das adaptações para o cinema de “As relações perigosas”.